11
fevereiro
às 18:18

adriana araujo O mergulho rumo à LondresSete da manhã. Café no hotel de Missouri. As americanas, grandes e loiras, estão na mesa ao lado. E são barulhentas também. O francês, Frederick Bousquet foi um dos primeiros a chegar. Cielo, muito silencioso pela manhã, Thiago Pereira e Joana Maranhão também já estão por aqui. E antes que eu termine minha segunda torrada já não estarão mais. 

Eles tem hora certa pra se alongar, fazer o aquecimento na piscina, e cair na água pra valer. Aqui em Missouri, a competição não vale índice olímpico, nem medalha. Acredite! Eles pegam a medalha de volta depois do pódio! Mas vale o que os nossos atletas mais precisam a seis meses das olimpíadas de Londres: alguns centésimos de segundos a menos no cronômetro. 

E pra isso só tem um jeito: vida regrada. Regradíssima. Treinar, treinar, comer, descansar, treinar mais e mais. E no dia seguinte, começar tudo outra vez. Uma medalha olímpica não vem sem exaustão, sem dor, sem sacrificar a cerveja com os amigos ou o vinho com a namorada. E por falar em namorada... cinco dos sete atletas treinados pelo mestre Alberto Silva estão namorando. 

No primeiro dia do Grand Prix, na beira da piscina, Albertinho brincava: "não dava pra arrumar namorada depois das olimpíadas, não?". Seja lá como for, as namoradas terão que ser pacientes. Os atletas são determinados. E o técnico também e não se incomoda de fazer o papel de cupido às avessas.

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14
novembro
às 17:05

Steve Jobs Caro Steve

Terminei de ler sua biografia há alguns dias. Ruminei o que li por algum tempo, antes de escrever esta carta. Queria saber se o encantamento persistiria. E persistiu. Não sou aficcionada por tecnologia, o mundo pós PC, etc e tal. Aliás, nasci antes deles - os computadores - e saí da faculdade exatamente quando eles chegavam. Eles entravam por uma porta, eu saía por outra.

No meu primeiro emprego na tv, na Globo Minas, usávamos máquina de escrever, laudas com papel carbono e mimeógrafo. Isso em 1993, praticamente ontem. Na redação inteira só havia um computador, com a tela grande, letrinhas verdes e a "dona" era muito brava - a editora do Jornal Nacional. Ai de quem chegasse perto. Ninguém se atrevia. E olha que nem sou tão velha assim. Nem estou defendendo a volta do carbono ou das Olivettis. Apenas pra que você saiba que não foi pelos detalhes desse mundo de bytes, megabytes, pixels e afins que decidi ler sobre você.

Gosto de histórias de gente - a sua ou de anônimos. Não importa. Isso me basta para abrir uma biografia. Seguir adiante, depende do enredo. E foi, para minha surpresa, que segui adiante na sua biografia com a voracidade de quem lia romances açucarados na adolescência. Sim, fazíamos isso no mundo pré-computadores.

Quando terminei a leitura, sabia que tinha ali motivos pra detestar você. Seu gênio abominável, a truculência pra lidar com as pessoas, a honestidade relativa, somente quando lhe caía bem. Sei que você tem desafetos que lhe chamam de ladrão de ideias e outras coisas bem piores. O autor da biografia, Walter Isaacson, mesmo sem escancarar ofensas, deixou isso claro.

Mas, curiosamente, me descobri, como disse, encantada por você e certa de que foi sua paixão que mudou o mundo. O tal "amor pelo produto" que fazia você brigar por cada ínfimo detalhe do próximo lançamento. Você nem sempre estava certo mas, mesmo após algum erro grande, se atirava com a mesma paixão rumo ao próximo desafio. E teve a sabedoria de se juntar a gente tão apaixonada quanto você e mais genial do que você (poucos tem essa coragem hoje). Seus piratas da Apple foram geniais criando o futuro que você previu tão bem, como ninguém.

Essa paixão faz uma falta danada no mundo. Gente apaixonada pelo que faz, pelo que produz. Gente apaixonada pelos detalhes, gente que sofre quando algo podia ficar melhor, bem melhor.  E tenta fazer diferente da próxima vez, mesmo quando poucos se importam. Hoje há muita gente apaixonada pelo emprego que tem, pelo salário que ganha ou deseja ganhar, gente apaixonada e empenhada em manter o status já conquistado na companhia, ou preocupada em obter esse sucesso corporativo. Mas já não vejo tanta gente com a tal "paixão pelo produto". Uma pena.

Gosto de histórias de gente, sobretudo de gente obstinada e apaixonada. E você é um sujeito apaixonante. Isso, claro, não torna sua truculência perdoável.  Mas um pouquinho mais compreensível.

Termino essa carta, escrita por um dos  aparelhinhos que você e seus piratas inventaram, conquistada pela sua história e suas criaçōes. Sim, esse seu mundo pós PC é contagiante. Mas, como os apaixonados são teimosos e tento ser um deles, li cada uma das 600 e tantas páginas da sua história numa coisa muito antiga chamada livro.

Sim, livro de verdade, de papel, daqueles que a gente sente o cheiro da tinta, guarda debaixo do travesseiro, cuida pra não fazer orelha e põe na estante da sala quando a história é boa e merece ser indicada aos visitantes.

Sua história está na estante da minha sala. O futuro que você inventou é incrível. E, felizmente, não elimina meu adorável mundo velho.

Obrigada, Jobs.

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31
outubro
às 19:40

lula hospital ae mat Lula precisa de silêncio, nos dois sentidos

Pra quem trata de problemas na laringe - desde uma infecção mais simples até um tumor - o silêncio costuma ser frequentemente prescrito pelos médicos.

Mas não é só desse silêncio que Lula vai precisar.

O que mais fez falta hoje nas redes sociais foi o silêncio do respeito.

Li e recebi, via Twitter e outras redes, comentários muito infelizes sobre a doença do ex-presidente.  Fiquei impressionada como as pessoas podem ser cruéis ao comentar sobre a doença de alguém de forma tão desumana. Não importa se presidente, ex-presidente ou um anônimo. Qualquer pessoa doente merece respeito. Sobretudo pacientes com câncer, doença que, apesar do avanço da medicina, fragiliza qualquer um que recebe esse diagnóstico.

A campanha que sugere que Lula vá se tratar no SUS - Sistema Único de Saúde - é de mau gosto, pra ser suave. Faltou respeito. Falta informação.

O SUS tem muitas falhas, temos muitas razões pra criticar o que não funciona. Mas Lula não merece ser o bode expiatório pra isso. Os comentários tem um tom de revanchismo eleitoral. É a crítica fácil, pronta, basta repetir, entrar no efeito manada "vamos bater no Lula" e pronto.

Nem Lula, nem o Brasil merecem. Minha mãe já usou os serviços do SUS para o tratamento de um câncer. Há cerca de dez anos, ela fez uma série de sessões de radioterapia pelo SUS - foi encaminhada ao serviço pelos médicos do hospital particular onde foi submetida a uma cirurgia para retirada do tumor.

O convênio pagou a cirurgia. O SUS complementou todo o tratamento de radioterapia. Confesso que minha família ficou bastante surpresa com a orientação do médico para que procurássemos o serviço público. Mas, exatamente como ele havia dito, foi a saída mais rápida e eficiente. E minha mãe, felizmente, está curada.

Não melhora o SUS a crítica infundada, sem conhecimento do que se passa nos hospitais públicos. Claro, há milhares de pacientes esperando por atendimento. E cada estado ou cidade tem sua realidade específica. Mas, em termos gerais, o paciente encaminhado para os serviços especiais como radio e quimioterapia tem prioridade.

Claro, pra ser encaminhado ao tratamento específico do câncer, aquele paciente vai precisar de exames. Isso complica muito o caminho. A carência por consultas com especialistas faz com que muitos pacientes graves fiquem tempo demais esperando pelo diagnóstico. E, muitas vezes, o problema não é a falta do médico especialista, mas de gestão. Casos mais simples que poderiam ser atendidos em clínicas médicas menores acabam sobrecarregando hospitais e clínicas de especialidades. Porque a clínica do bairro ou não existe, ou está lotada, ou não tem médicos.

Não sou nenhuma doutora no assunto. Mas o que escrevo aqui é o resumo do que já ouvi de muitos médicos renomados do Brasil. É essencial discutirmos como melhorar o sistema de saúde no país, como fazer com que o paciente do SUS tenha um atendimento mais humanizado e mais eficiente, mais próximo do que oferecem os hospitais particulares de excelência. Discutir esse assunto de forma responsável é uma tarefa nossa, de cada cidadão, e uma obrigação de qualquer homem ou mulher com cargo público, com vida política ativa nesse país.

Mas não vai ser atacando o ex-presidente que vamos chegar a algum lugar.

A turma que diz "Lula vá se tratar no SUS" também costuma berrar pra não pagar tantos impostos. Sem discutir profundamente como financiar a saúde.

Lamento os comentários que li.

E lamento que o remédio que faltou hoje - o silêncio em sinal de respeito - não possa ser prescrito por doutor algum.

27
outubro
às 12:37

fabiana beltrame 700 Efeito colateral de um Pan

Vi os braços da remadora Fabiana Beltrame e isso pode ser transformador. Se tivesse um lago no tapete da minha sala, começaria a remar agora mesmo.

E pensar que vivi quase cinco anos em Brasília, tão pertinho do lago Paranoá, e perdi essa oportunidade. Mas ainda há tempo... Ainda posso achar um lago em algumas das minhas andanças pelo mundo.

Mas, voltando a falar da Beltrame... Já havia me encontrado com a Fabiana antes do Pan, num jantar em São Paulo durante uma premiação. Sentamos na mesma mesa, conversamos, mas, como sabemos, a noite todos os gatos são pardos. E as gatas também.

Só quando a reencontrei em Ciudad Guzmán, perto de Guadalajara, remando e se preparando para o início das competições é que pude observá-la melhor e de dia. Fabiana é do tipo linda, sem fazer grande esforço. Não é do tipo de mulher que tenta fazer caras e bocas, produzir um sex appeal, nada disso. É natural, simpática, alto astral, simples, excelente remadora, campeã mundial, mãe da Alice... A lista para admirarmos a Fabiana é bem grande, mas foram os braços da moça que atraíram meus olhos algumas vezes durante a entrevista que fiz com a família toda antes do início do jogos. Sabe aqueles braços que vão dar um tchauzinho firme e forte até os 45 do segundo tempo (90 anos)? Sim, os dela são desse tipo. Moldados há anos e anos de remo.

Claro, nunca vou ter aqueles braços. Nunca tive pretensões de virar atleta profissional. Muito menos agora que me aproximo do primeiro minuto do segundo tempo. Mas encontrar a Fabiana e seus belos braços teve um ótimo efeito colateral. Agora, toda vez que a preguiça me ronda, corro pra minha memória e tomo algumas gotinhas desse excelente remédio chamado "Lembre-se dos braços da Fabiana Beltrame." Sim, porque basta uma desculpazinha, esfarrapada que seja, pra boicotar a ginástica, a corridinha ou a caminhada do dia. Como noventa e tantos por cento das mulheres normais, acho uma explicação fácil pra cancelar o exercício. Mas agora tenho a Fabiana pra me ajudar.

E vários outros bons motivos para não sucumbir à moleza. Joana Maranhão, Fabíola Molina, Daynara de Paula... e tantas outras meninas da natação. E os meninos também. Cielo, Thiago, Leonardo de Deus, Felipes - o França e o Lima... e por aí vai. Essa turma, claro, tem o DNA certo pra fazer o que eles fazem. Mas tem algo que não precisa necessariamente de ajuda da genética: disciplina.

Disciplina pra cair na piscina fria, bem cedo, e cumprir um treino muitas vezes exaustivo. Disciplina pra pegar os remos, com vento, chuva ou sol.

Aprendi com essa turma que campeão é um sujeito que perde muito mais do que ganha. O Cielo disse essa frase: "já perdi muito mais do que ganhei na vida." E a  gente se esquece disso. Quando eles aparecem no topo do pódio, com medalhas reluzentes, recordes quebrados e corpos perfeitos, parece tão fácil! Parece que eles já nasceram ali. Como se aquilo não fosse resultado de tantas derrotas, decepções e recomeços. De tantas tentativas.

De todas as experiências do Pan, essa foi a melhor. Conviver com pessoas motivadas, disciplinadas, cheias de saúde e energia.

Aprendi observando nossos atletas. E tenho brincado com isso. Exceto durante a semana da natação - quando quase morei na beira da piscina e não fiz outra coisa além de trabalhar - em todos os demais dias tenho praticado uma hora de Pan. Meu Pan particular - caminhar na praça, correr, abdominal ouvindo música no tapede da sala, descer ou subir alguns lances de escada...

E estou adorando! Claro, vai chegar um momento em que a preguiça vai bater forte e tentar se instalar de novo em meu ser... Mas pra isso não acontecer, já tenho uma estratégia: pego o telefone, ligo para a Fabiana Beltrame e encontro assunto para uma entrevista. Querida como é, tenho certeza que ela vai topar.

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7
outubro
às 14:33

cielo Cesar Determinação Cielo

Pela segunda vez vejo uma cena se repetir e o personagem é o mesmo: o nadador e campeão olímpico, Cesar Cielo. Ele faz uma viagem exaustiva, mais de 20 horas entre avião e conexões e, pouco depois, pula na piscina pra treinar.

A primeira vez que vi isso acontecer foi em Moncton, uma cidadezinha fria no litoral leste do Canadá. Naquele dia saí de madrugada de Nova York, fiz conexão em Toronto e depois, num aviãozinho mínimo, um bimotor, segui para Moncton.

Viajei umas 8 ou 9 horas e cheguei no começo da tarde ao hotel. Estava bem cansada.  Cielo era meu entrevistado e também tinha acabado de chegar. Só que ele havia viajado mais de 20 horas, tinha saído de São Paulo na tarde do dia anterior. Estava ali para carregar, no dia seguinte, a tocha dos jogos de inverno de Vancouver.

Imaginei que só iria vê-lo depois de várias horas de descanso. Que engano! Duas horas e meia depois, ele já estava num clube da cidade treinando, pesado. Fez 1 hora de musculação e mais uma hora e meia dentro da piscina. Pois, aqui em San Luis Potosí, onde a delegação brasileira de natação treina, vi esse filme de novo.

Cielo, em seus 1 metro e 95 centímetros de altura, chegou exausto, reclamando do aperto no ônibus, bateu a cabeça na hora de desembarcar. Eram quatro da tarde e ele já tinha enfrentado quase 20 horas de aeroporto-avião-estrada pra chegar ao centro de treinamento. E estava sem almoço.

Avisaram que teria treino. Soou estranho pra muita gente. Não pra mim. Ele almoçou em 20 minutos e uma hora e meia depois estava onde? Na piscina. Não foi um treino super pesado, mas não pelo cansaço dele. E, sim, pela altitude. Estamos a 1.900 metros acima do nível do mar. A competição em Guadalajara será a 1.500 metros de altitude. O corpo pede um prazo de adaptação. E o técnico Albertinho já avisou que vai observar Cielo e respeitar o prazo do corpo dele, como de todos os outros atletas da natação.

Se entendo alguma coisa de Cielo, o prazo dele não vai ser dos mais longos. Ele nadou uma hora e saiu da piscina se sentindo bem. Mas evita o clima de já ganhou. Disse que, como novato, um dia ele surpreendeu nas piscinas e ganhou de veteranos. Agora ele é o veterano da vez e não pode se permitir relaxar durante uma competição.

Esse é o Cielo. Um homem que tem o corpo certo, a genética certa, a alimentação, o treino... Tudo certo para se tornar o que ele é: um atleta incomum, muito acima da média. Que já é o maior nadador da história do Brasil, um dos nossos maiores atletas olímpicos de todos os tempos.

Mas se alguém me perguntar o que faz dele tão especial nas piscinas eu não teria dúvida em responder: determinação. E isso a gente não herda, não compra, não ganha. Cielo tem e ponto.

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6
outubro
às 10:06

post adriana araújo A luz da minha vida

O dia 6 de outubro é mais importante que qualquer outro na minha vida.

Não, não faço aniversário hoje. O meu aniversário já foi o dia mais importante até eu completar 25 anos. Depois daquele ano outra pessoa se tornou o centro das minhas atenções.

A partir do 6 de outubro de 97 uma pessoinha que nasceu bem pequena, calminha... passou a depender de mim pra viver e isso mudou tudo. As mães sabem do que eu estou falando. Uma revolução impossível de ser completamente descrita em palavras se passa na vida da gente. Entre choros, mamadas, fraldas e papinhas, você vai aprendendo seu novo papel meio atabalhoadamente. Tem nas mãos uma vida pra cuidar. Parece tudo muito complicado no começo mas, de repente, vinda de algum lugar secreto dentro de você, surge uma inspiração ou seria a tal intuição? E você, quase como milagre, passa a entender aquela criaturinha. Sabe o motivo do choro, o desejo do momento, o jeito certo de acalmar a cólica ou como atrair o sono. Começa ali uma comunicação que transcende as palavras. Um amor incondicional. As criaturinhas que dependem de nós pra viver nos pregam uma baita surpresa e, descobrimos em questão de horas, dias... que nós é que precisamos delas pra seguir vivendo.

Nós é que perderíamos o rumo, o chão e o riso se não tivermos a certeza do bem estar dos nossos filhos. Passamos a ter certeza que ensinamos muito, mas aprendemos muito mais. Amamos muito, mas recebemos muito mais. Pois a minha criaturinha já não depende tanto assim de mim. Já se vira sozinha por aí, sabe fazer panquecas, risotos, cupcakes, estuda sozinha, entende mais, muito mais de computadores do que eu, é capaz de viajar sozinha pra outro país, ri do meu inglês sotaquento e fala que vai ser médica daqui a alguns anos.

O ser frágil que cabia nas minhas mãos está cheio de ideias, opiniões, vontades, curiosidades. O coração de mãe treme, vai começar outra revolução, agora sem papinhas ou fraldas. A ficha cai e você entende que está prestes a se tornar mãe de um adulto. E se prepara como pode para uma nova aventura.

Hoje a minha filha completa 14 anos. E pela primeira vez, em 14 anos, não estou do lado dela pra dar o abraço de aniversário. Com o trabalho no Pan de Guadalajara, nossa comemoração particular vai ficar para o final de outubro. Isso me tirou o sono, despertei no meio da madrugada pensando nela e acabei aqui, diante do computador, escrevendo esse post. Uma pequena homenagem pra quem me deu tanto.

Giovanna, sou infinitamente mais feliz há 14 anos. Mais forte e ao mesmo tempo mais frágil. Muitos me dizem que sou uma ótima mãe por ter criado uma filha tão incrível. Eu agradeço, mas sei que não é verdade. Você fez a minha vida mais incrível, mais calma, mais simples, mais verdadeira. Sabemos da nossa história, dos desafios que já vencemos e muitos outros ainda venceremos. Aprendo a cada dia com sua tranquilidade e coragem. Tento te guiar naquelas questões da vida que já conheço um pouco mais. Mas, na verdade, é sua paz de espírito que me guia e me faz melhor.

E você não precisa fazer força nenhuma pra isso. Não sei se aos 14 anos você vai gostar de ser chamada de luz da minha vida. De ler as palavras dessa mãe apaixonada, se declarando assim, publicamente. Mas a blogueira sou eu... Agora já foi.

Não posso te dar o abraço de aniversário hoje mas posso seguir o meu dia de trabalho aqui no México repetindo baixinho as palavras que vivem no meu coração desde que você nasceu.

Obrigada, obrigada, obrigada. Te amo pra sempre.

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4
outubro
às 09:57

dri araujo Estamos listos!

É assim que nossos amigos mexicanos dizem quando estão preparados. E nós da Record estamos "superlistos". Estúdio, toda nossa estrutura de geração, equipamentos... E, mais importante, a equipe toda está animada e ansiosa pelo início das competições. Ao todo,  serão 230 profissionais.

As credenciais definitivas para termos acesso com exclusividade aos locais de competição saíram hoje, como vocês conferem pelas fotos. Eu sigo viagem para San Luis Potosí, onde a equipe brasileira de natação vai ficar concentrada até o momento de cair na água pra valer.

Temos nas piscinas ótimas chances de ouro. Com César Cielo e companhia. E também no remo, no vôlei de praia, na vela, no atletismo, na ginástica. Vai ser o Pan do Brasil. Eu estou lista e com os dedos cruzados.

Tenho certeza que vocês também.

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26
setembro
às 13:47

Antes de tudo, obrigada! Queria poder responder a cada mensagem que recebi via Twitter e Facebook. Claro, como repórter, fico feliz com os elogios, mas agradeço, sobretudo, por terem assistido. Agradeço a quem já passou o link da reportagem adiante para que mais e mais pessoas possam se sensibilizar com o sofrimento dos homens e mulheres de Potosí.

Escrevo pra agradecer e também pra dividir com vocês um pouco dos bastidores dessa reportagem. Como vocês vão ver pelas fotos, o  Markus Bruno, que fez a captação das imagens, quebrou o dedo da mão direita logo no primeiro dia de gravação na montanha, numa queda nas pedras, do lado de fora.

Com ajuda do produtor Gustavo Costa, recolocou o osso no lugar ali mesmo. Improvisamos um curativo com o que tínhamos de algodão e fitas e seguimos a gravação pelo dia inteiro. Só à noite ele pode ir ao hospital engessar a mão.

Nesse dia, estávamos gravando com as pallires, as mulheres que quebram pedregulhos uma vida inteira pra ter como botar comida na mesa. E imaginem, se a gravação começou assim... sabíamos que haveria dificuldades e emoções ainda mais intensas pelo restante dos dias.

Comecei a me emocionar com as histórias ali, falando com aquelas mulheres. Como achar concebível que uma velhinha de 81 anos esteja encurvada em cima de um monte de pedras catando migalhas de prata? Os absurdos de Potosí começaram a me chocar naqueles primeiros instantes.

Entramos na mina depois de três dias em Potosí. Era necessário nos adaptarmos a altitude elevada, encontrar um guia e preparar a pequena carga que levaríamos pra dentro da mina. Além dos nossos equipamentos, levamos alguns presentes para os mineiros.

Eles passam o dia inteiro sem água ou comida. Uma garrafa de suco, água ou um par de luvas pra aliviar um pouco a dureza daquela rotina são tesouros dentro daquela montanha. Quando nos avistavam, alguns mineiros já logo perguntavam se tínhamos algo pra beber.

Entramos nas minas apreensivos, claro. Mas tínhamos que chegar aos lugares mais difíceis. Viajamos pra isso - pra mostrar o inferno onde aqueles homem vão se matando aos poucos. Os túneis escuros e estreitos são aflitivos.

Mas pior é quando a gente chega no final deles, às galerias porque, então você sente aquele calor imenso, dificuldade pra respirar e pensa que pra sair dali, tem que fazer o caminho todo de novo. A solução é não pensar. Então, quando entrávamos, eu me concentrava no trabalho de tal maneira que não pensava na possibilidade de um acidente, de algo dar errado.

Foi assim naquela galeria onde a temperatura chega aos 40 graus. Ficar ali dentro é terrível. Depois de duas horas e meia na mina, saímos suados, exaustos. Eles aguentam nove, dez horas dia após dia. A estratégia de só pensar no trabalho, nas histórias que ouvia deu certo até a última entrada na montanha.

dri 3 As lágrimas de uma repórter

Deixar essa gravação por último não foi uma estratégia, foi uma coincidência. Só no último dia de gravação, haveria explosão ma mina onde o Pablo trabalha, o mineiro que já estávamos acompanhando há alguns dias. Já sabíamos as dificuldades do caminho, já tínhamos entrado ali dois dias antes. Mas eu não poderia dimensionar o tamanho do nervosismo que tomaria conta de mim.

Não tenho problema com lugares fechados. Mas tenho problemas com lugares barulhentos demais. E estar ali dentro, durante a perfuração, é infernal. O barulho da máquina enche o espaço de  tal modo que acelera o coração, bate um desespero. Só de ouvir aquele barulho, já dá uma sensação que a montanha inteira vai desabar. A poeira é terrível. Mesmo assim, apenas com uma máscara branca no rosto, o cinegrafista Markus Bruno foi até o paredão pra registrar de perto as perfurações.

Pra conseguir chegar onde ele estava, subi três vezes e desci. Quando eu chegava no paredão onde os mineiros estavam perfurando, me faltava ar, a poeira parecia que iria me asfixiar. Só depois da terceira tentativa, consegui falar. E falar o quê? Exatamente o que me veio na cabeça.

Naquele momento, não existia mais a repórter que pensa no texto,  que escreve o que vai dizer. Não. Quando eu disse que estávamos ali, que nos arriscamos para mostrar o absurdo que acontece dentro daquela montanha... era a única coisa que eu poderia dizer naquele momento.

Nas imagens, eu desço correndo, mandando todo mundo descer. Os mineiros gritavam, carregando os canos e a máquina, mandavam descer e eu não conseguia entender o que eles diziam de tanto barulho.

Eles estavam agitados. Nós também. Só então descobri que eles tinham pressa pra fazer o maior número possível de buracos para colocar as dinamites. O ar comprimido e a água que fazem a máquina funcionar custam US$ 10 por hora. Eles não têm dinheiro nem tempo a perder.

Depois de uma hora daquele barulho horrível, o silêncio volta. Mas não a paz. Estou de frente para um dos filhos do Pablo que com uma faca vai cortando uma a uma, as dinamites. Me acalmo um pouco, parece que a situação é mais tranquila. E ele diz:  "Esse é o momento mais perigoso. Uma faísca e vai tudo pelos ares". E o coração volta a disparar.

O Pablo vê a minha cara de susto e diz que o filho, Walter, é experiente. Ele trabalha minuciosamente, preparando as bombas. Sabíamos que o momento de acender os pavios se aproximava e que teríamos que achar um abrigo. Fizemos tudo exatamente como os mineiros fazem. Descemos cerca de 100 metros até uma toca dentro da montanha onde eles se refugiam.

Quando vi o buraco onde tínhamos que ficar sentados em grupo... foi o momento de maior pânico. O buraco, claro, já parecia uma cova perfeita. Só então descobri que naquele dia, pra nos proteger, sem que tivéssemos pedido, eles preparam uma primeira explosão com apenas oito dinamites. Normalmente explodem 40, 50 bisnagas de uma vez.

Fiquei grata pela preocupação que eles tiveram conosco. Mas isso não foi o suficiente pra me acalmar. Eles, sim, estavam tranquilos. "O que são oito tiros?" - diziam e riam de mim. Quando os estrondos começaram, ouvir aquela explosão rouca dentro da montanha, sentir a vibração das pedras... só te faz pensar... eu quero que acabe, tem que acabar bem.

Na sétima, eles disseram que havia terminado. Mas não, eu estava contando uma a uma e ainda faltava a última. A oitava... veio entre os risos dos mineiros com o meu pânico e as minhas lágrimas de alívio. Mas era mais que isso, era pânico, alívio, angústia. A repórter não tinha nada programado pra dizer. Tinha que olhar pra câmera e falar o quê?

dri 4 As lágrimas de uma repórter

Falei apenas o que eu sentia. Na hora da edição, cheguei a ter dúvidas se o choro deveria ir ao ar... Fui convencida de que era natural mostrar minha reação. Chorei de medo, sim. Mas chorei de angústia de pensar que o horror de estar debaixo de toneladas de pedras, com explosões descontroladas acontecendo dentro da montanha, havia acabado pra mim. Não pra eles.

Chorei por não ter o poder de pegar pelas mãos cada um daqueles homens e tirá-los dali de dentro. A minha vontade de sair daquele mundo claustrofóbico era tão grande que deixá-los pra trás doeu demais. Quando terminou, nós não podíamos voltar até o paredão pra mostrar o resultado. As explosões podem liberar gases letais. Os mineiros ficaram no refúgio... iriam descansar por algumas horas pra voltar ao local e começar a carregar pedras.

Nós tínhamos o caminho de volta. Ao sair pela última vez da montanha, ao enxergar a luz no fim do túnel você entende exatamente o que isso significa. Ter ou não ter a tal luz no fim do túnel. Eles ainda não têm. Nós caminhamos em silêncio. O Pablo nos acompanhou até o lado de fora, exausto. As câmeras já estavam desligadas. Já tínhamos gravado tudo que precisávamos. Vou guardar pra sempre o olhar daquele homem ao se despedir, agradecendo nosso trabalho.

Um dia, voltarei a Potosí pra fazer mais do que uma simples reportagem. Pra tentar levar algum tipo de ajuda. Por isso, agradeço por terem assistido. Quem sabe alguém com poder de ajudar assista, escute a voz daqueles mineiros invisíveis e encontre um caminho.   Me coloco à disposição, me jogo de corpo e alma em qualquer projeto que possa oferecer alguma esperança, alguma outra possibilidade aos homens e mulheres de Potosí que tanto me emocionaram.

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24
setembro
às 09:15

7 Os escravos invisíveis de Potosí

Cerro Rico, na Bolívia, é conhecida como o inferno de Potosí, o vale da morte ou a montanha que devora homens. E não se trata de exageros. Subimos a 4 mil metros de altitude, na cidade de Potosí, pra revelar a cruel rotina de 15 mil homens e outras centenas de mulheres que dependem da exploração de migalhas de prata.

A montanha foi o grande baú de prata da Espanha na ėpoca da colonização. Quase 500 anos depois do início das escavações em Cerro Rico, pouca coisa mudou. E esse foi o propósito da nossa viagem. Revelar as histórias de homens que até hoje trabalham em condições desumanas, sem comida, água, apenas mascando as folhas da coca e bebendo álcool pra tentar anestesiar o corpo.

1 Os escravos invisíveis de PotosíO jornalista Gustavo Costa, que sugeriu e produziu a reportagem, o Markus Bruno e a Jéssica Nolte, que captaram as imagens, e eu enfrentamos dentro da montanha situações muito difíceis. Nos arrastamos por túneis estreitos, escuros, a temperaturas de 40 graus, pra chegar até esses homens. Lá dentro, registramos imagens indéditas das explosões dentro das minas, sem qualquer controle ou fiscalização. Pra nós foram 10 dias enfrentando o medo de um desabamento, o risco da morte debaixo de toneladas de terra.

Para os mineiros, o sofrimento dura a vida inteira. Eles entram nas minas adolescentes e saem mortos, vítimas de acidentes. Ou quase mortos, vítimas da silicose - a doença que destrói os pulmões dos trabalhadores em alguns anos. Nos primeiros momentos de conversa, os homens de Potosí parecem anestesiados também para o medo de morrer. Não estão.

2 Os escravos invisíveis de Potosí

Nas entrevistas, eles começam dizendo que são fortes, estão acostumados, mas acabam revelando suas  emoções - o medo, as preocupações,  as fragilidades, os sonhos e os soluços que ninguém ouve. Eles dividiram conosco suas histórias de vida. Sua rotina de muito sacrifício.

Impossível não se assustar, nem se emocionar. Chorei e me revelei nesta reportagem como em nenhuma outra, em 17 anos de carreira como repórter. Debaixo da  montanha, ouvindo o desabafo dos mineiros, cada segundo naquele mundo claustrofóbico doeu em mim. Mas doeu muito mais pensar que pra eles não há outra opção. Eles se enterram vivos, dia após dia, pra conseguir levar 300 ou 400 reais pra casa no fim do mês. E vivem a angústia de saber que os filhos vão seguir o mesmo caminho, se nada for feito por eles.

5 Os escravos invisíveis de Potosí

Saímos de Potosí com uma vontade enorme de gritar bem alto que esses homens existem e precisam urgentemente de ajuda. A reportagem que vai ao ar neste próximo Domingo Espetacular (dia 25) é o grito da nossa equipe. Divido aqui, com vocês, algumas fotos dessa caminhada.

A prata acabou, os espanhóis se foram faz tempo... mas ainda há escravos invisíveis em Potosí. O breu da montanha não pode servir de desculpa para a cegueira do mundo.

6 Os escravos invisíveis de Potosí

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20
setembro
às 17:49

pan2 Pra onde todos vão correr!

A foto de um boxeador com luvas gigantescas enfeita a central da imprensa no Pan.

É para este prédio que vão correr repórteres de várias partes do mundo - pra cobrir a grande festa do esporte na América, em outubro. São esperados 2 mil e 500 jornalistas.

Eu cheguei há 15 dias pra reforçar um time que já trabalha aqui em Guadalajara desde julho. Ao todo serão 230 profissionais envolvidos na cobertura exclusiva da Record e nossa missão é fazer uma transmissão, com nível olímpico. Um grande e ótimo aquecimento para Londres 2012.

O estúdio da Record é o maior, ganha inclusive das emissoras mexicanas. Hoje o governador do estado de Jalisco, Emílio Gonzalez, visitou nossas instalações e se impressionou.

"Ninguém vai fazer uma cobertura como a da Record", afirmou o governador que também é presidente do comitê organizador do PAN. Os detalhes daqui a pouquinho no Jornal da Record. Até lá.

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