24
setembro
às 09:15

7 Os escravos invisíveis de Potosí

Cerro Rico, na Bolívia, é conhecida como o inferno de Potosí, o vale da morte ou a montanha que devora homens. E não se trata de exageros. Subimos a 4 mil metros de altitude, na cidade de Potosí, pra revelar a cruel rotina de 15 mil homens e outras centenas de mulheres que dependem da exploração de migalhas de prata.

A montanha foi o grande baú de prata da Espanha na ėpoca da colonização. Quase 500 anos depois do início das escavações em Cerro Rico, pouca coisa mudou. E esse foi o propósito da nossa viagem. Revelar as histórias de homens que até hoje trabalham em condições desumanas, sem comida, água, apenas mascando as folhas da coca e bebendo álcool pra tentar anestesiar o corpo.

1 Os escravos invisíveis de PotosíO jornalista Gustavo Costa, que sugeriu e produziu a reportagem, o Markus Bruno e a Jéssica Nolte, que captaram as imagens, e eu enfrentamos dentro da montanha situações muito difíceis. Nos arrastamos por túneis estreitos, escuros, a temperaturas de 40 graus, pra chegar até esses homens. Lá dentro, registramos imagens indéditas das explosões dentro das minas, sem qualquer controle ou fiscalização. Pra nós foram 10 dias enfrentando o medo de um desabamento, o risco da morte debaixo de toneladas de terra.

Para os mineiros, o sofrimento dura a vida inteira. Eles entram nas minas adolescentes e saem mortos, vítimas de acidentes. Ou quase mortos, vítimas da silicose - a doença que destrói os pulmões dos trabalhadores em alguns anos. Nos primeiros momentos de conversa, os homens de Potosí parecem anestesiados também para o medo de morrer. Não estão.

2 Os escravos invisíveis de Potosí

Nas entrevistas, eles começam dizendo que são fortes, estão acostumados, mas acabam revelando suas  emoções - o medo, as preocupações,  as fragilidades, os sonhos e os soluços que ninguém ouve. Eles dividiram conosco suas histórias de vida. Sua rotina de muito sacrifício.

Impossível não se assustar, nem se emocionar. Chorei e me revelei nesta reportagem como em nenhuma outra, em 17 anos de carreira como repórter. Debaixo da  montanha, ouvindo o desabafo dos mineiros, cada segundo naquele mundo claustrofóbico doeu em mim. Mas doeu muito mais pensar que pra eles não há outra opção. Eles se enterram vivos, dia após dia, pra conseguir levar 300 ou 400 reais pra casa no fim do mês. E vivem a angústia de saber que os filhos vão seguir o mesmo caminho, se nada for feito por eles.

5 Os escravos invisíveis de Potosí

Saímos de Potosí com uma vontade enorme de gritar bem alto que esses homens existem e precisam urgentemente de ajuda. A reportagem que vai ao ar neste próximo Domingo Espetacular (dia 25) é o grito da nossa equipe. Divido aqui, com vocês, algumas fotos dessa caminhada.

A prata acabou, os espanhóis se foram faz tempo... mas ainda há escravos invisíveis em Potosí. O breu da montanha não pode servir de desculpa para a cegueira do mundo.

6 Os escravos invisíveis de Potosí

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