27
outubro
às 12:37

fabiana beltrame 700 Efeito colateral de um Pan

Vi os braços da remadora Fabiana Beltrame e isso pode ser transformador. Se tivesse um lago no tapete da minha sala, começaria a remar agora mesmo.

E pensar que vivi quase cinco anos em Brasília, tão pertinho do lago Paranoá, e perdi essa oportunidade. Mas ainda há tempo... Ainda posso achar um lago em algumas das minhas andanças pelo mundo.

Mas, voltando a falar da Beltrame... Já havia me encontrado com a Fabiana antes do Pan, num jantar em São Paulo durante uma premiação. Sentamos na mesma mesa, conversamos, mas, como sabemos, a noite todos os gatos são pardos. E as gatas também.

Só quando a reencontrei em Ciudad Guzmán, perto de Guadalajara, remando e se preparando para o início das competições é que pude observá-la melhor e de dia. Fabiana é do tipo linda, sem fazer grande esforço. Não é do tipo de mulher que tenta fazer caras e bocas, produzir um sex appeal, nada disso. É natural, simpática, alto astral, simples, excelente remadora, campeã mundial, mãe da Alice... A lista para admirarmos a Fabiana é bem grande, mas foram os braços da moça que atraíram meus olhos algumas vezes durante a entrevista que fiz com a família toda antes do início do jogos. Sabe aqueles braços que vão dar um tchauzinho firme e forte até os 45 do segundo tempo (90 anos)? Sim, os dela são desse tipo. Moldados há anos e anos de remo.

Claro, nunca vou ter aqueles braços. Nunca tive pretensões de virar atleta profissional. Muito menos agora que me aproximo do primeiro minuto do segundo tempo. Mas encontrar a Fabiana e seus belos braços teve um ótimo efeito colateral. Agora, toda vez que a preguiça me ronda, corro pra minha memória e tomo algumas gotinhas desse excelente remédio chamado "Lembre-se dos braços da Fabiana Beltrame." Sim, porque basta uma desculpazinha, esfarrapada que seja, pra boicotar a ginástica, a corridinha ou a caminhada do dia. Como noventa e tantos por cento das mulheres normais, acho uma explicação fácil pra cancelar o exercício. Mas agora tenho a Fabiana pra me ajudar.

E vários outros bons motivos para não sucumbir à moleza. Joana Maranhão, Fabíola Molina, Daynara de Paula... e tantas outras meninas da natação. E os meninos também. Cielo, Thiago, Leonardo de Deus, Felipes - o França e o Lima... e por aí vai. Essa turma, claro, tem o DNA certo pra fazer o que eles fazem. Mas tem algo que não precisa necessariamente de ajuda da genética: disciplina.

Disciplina pra cair na piscina fria, bem cedo, e cumprir um treino muitas vezes exaustivo. Disciplina pra pegar os remos, com vento, chuva ou sol.

Aprendi com essa turma que campeão é um sujeito que perde muito mais do que ganha. O Cielo disse essa frase: "já perdi muito mais do que ganhei na vida." E a  gente se esquece disso. Quando eles aparecem no topo do pódio, com medalhas reluzentes, recordes quebrados e corpos perfeitos, parece tão fácil! Parece que eles já nasceram ali. Como se aquilo não fosse resultado de tantas derrotas, decepções e recomeços. De tantas tentativas.

De todas as experiências do Pan, essa foi a melhor. Conviver com pessoas motivadas, disciplinadas, cheias de saúde e energia.

Aprendi observando nossos atletas. E tenho brincado com isso. Exceto durante a semana da natação - quando quase morei na beira da piscina e não fiz outra coisa além de trabalhar - em todos os demais dias tenho praticado uma hora de Pan. Meu Pan particular - caminhar na praça, correr, abdominal ouvindo música no tapede da sala, descer ou subir alguns lances de escada...

E estou adorando! Claro, vai chegar um momento em que a preguiça vai bater forte e tentar se instalar de novo em meu ser... Mas pra isso não acontecer, já tenho uma estratégia: pego o telefone, ligo para a Fabiana Beltrame e encontro assunto para uma entrevista. Querida como é, tenho certeza que ela vai topar.

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