14
novembro
às 17:05

Steve Jobs Caro Steve

Terminei de ler sua biografia há alguns dias. Ruminei o que li por algum tempo, antes de escrever esta carta. Queria saber se o encantamento persistiria. E persistiu. Não sou aficcionada por tecnologia, o mundo pós PC, etc e tal. Aliás, nasci antes deles - os computadores - e saí da faculdade exatamente quando eles chegavam. Eles entravam por uma porta, eu saía por outra.

No meu primeiro emprego na tv, na Globo Minas, usávamos máquina de escrever, laudas com papel carbono e mimeógrafo. Isso em 1993, praticamente ontem. Na redação inteira só havia um computador, com a tela grande, letrinhas verdes e a "dona" era muito brava - a editora do Jornal Nacional. Ai de quem chegasse perto. Ninguém se atrevia. E olha que nem sou tão velha assim. Nem estou defendendo a volta do carbono ou das Olivettis. Apenas pra que você saiba que não foi pelos detalhes desse mundo de bytes, megabytes, pixels e afins que decidi ler sobre você.

Gosto de histórias de gente - a sua ou de anônimos. Não importa. Isso me basta para abrir uma biografia. Seguir adiante, depende do enredo. E foi, para minha surpresa, que segui adiante na sua biografia com a voracidade de quem lia romances açucarados na adolescência. Sim, fazíamos isso no mundo pré-computadores.

Quando terminei a leitura, sabia que tinha ali motivos pra detestar você. Seu gênio abominável, a truculência pra lidar com as pessoas, a honestidade relativa, somente quando lhe caía bem. Sei que você tem desafetos que lhe chamam de ladrão de ideias e outras coisas bem piores. O autor da biografia, Walter Isaacson, mesmo sem escancarar ofensas, deixou isso claro.

Mas, curiosamente, me descobri, como disse, encantada por você e certa de que foi sua paixão que mudou o mundo. O tal "amor pelo produto" que fazia você brigar por cada ínfimo detalhe do próximo lançamento. Você nem sempre estava certo mas, mesmo após algum erro grande, se atirava com a mesma paixão rumo ao próximo desafio. E teve a sabedoria de se juntar a gente tão apaixonada quanto você e mais genial do que você (poucos tem essa coragem hoje). Seus piratas da Apple foram geniais criando o futuro que você previu tão bem, como ninguém.

Essa paixão faz uma falta danada no mundo. Gente apaixonada pelo que faz, pelo que produz. Gente apaixonada pelos detalhes, gente que sofre quando algo podia ficar melhor, bem melhor.  E tenta fazer diferente da próxima vez, mesmo quando poucos se importam. Hoje há muita gente apaixonada pelo emprego que tem, pelo salário que ganha ou deseja ganhar, gente apaixonada e empenhada em manter o status já conquistado na companhia, ou preocupada em obter esse sucesso corporativo. Mas já não vejo tanta gente com a tal "paixão pelo produto". Uma pena.

Gosto de histórias de gente, sobretudo de gente obstinada e apaixonada. E você é um sujeito apaixonante. Isso, claro, não torna sua truculência perdoável.  Mas um pouquinho mais compreensível.

Termino essa carta, escrita por um dos  aparelhinhos que você e seus piratas inventaram, conquistada pela sua história e suas criaçōes. Sim, esse seu mundo pós PC é contagiante. Mas, como os apaixonados são teimosos e tento ser um deles, li cada uma das 600 e tantas páginas da sua história numa coisa muito antiga chamada livro.

Sim, livro de verdade, de papel, daqueles que a gente sente o cheiro da tinta, guarda debaixo do travesseiro, cuida pra não fazer orelha e põe na estante da sala quando a história é boa e merece ser indicada aos visitantes.

Sua história está na estante da minha sala. O futuro que você inventou é incrível. E, felizmente, não elimina meu adorável mundo velho.

Obrigada, Jobs.

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