Publicado em 10/12/2012 às 16h53
A que preço?
Fazer cirurgia plástica não é simples, como alguns médicos ainda insistem em dizer. É uma cirurgia, envolve riscos como qualquer outra.
Mas dados internacionais indicam que os casos de morte dos pacientes são raros.
A cada 50 mil cirurgias, é registrada uma morte.
Mas qual a explicação para tantas notícias de mortes em cirurgias plásticas em nosso país?
Sequer sabemos os números oficiais dessa mazela brasileira.
O que sabemos é que hoje se faz cirurgia plástica em prestações a perder de vista. O bumbum do momento, seios fartos, a cintura sem gordura... E assim, impulsionadas por um modelo de beleza muitas vezes inatingível e cruel, muitas brasileiras entram no bloco cirúrgico com um sonho. Saem sem vida ou com graves sequelas. E centenas de casos não são notificados, investigados como deveriam ser.
E os médicos, mesmo que tenham provocado mortes, seguem fazendo cirurgias. Se um paciente ligar nos conselhos de medicina pra descobrir o histórico de um profissional, não saberá se aquele cirurgião ou cirurgiã deixou sequelas terríveis em alguém ou se responde por alguma morte. Só será possível saber, se já houver uma condenação. Poucos, pouquíssimos são condenados. Os casos caem no esquecimento. Corpos são enterrados sem que as famílias saibam exatamente o que aconteceu.
Na última semana estive em Goiás pra contar duas histórias a espera de esclarecimento. O médico acusado de erros graves por duas famílias é o dr. Rogério Morale. Tentamos ouvi-lo a semana inteira. Numa das clínicas onde estive a procura do cirurgião ouvi da secretária que ele não era obrigado a falar porque para a imprensa só interessa o sensacionalismo da notícia.
A minha resposta a ela foi simples. Se a intenção fosse o sensacionalismo da notícia, eu não estaria ali, diante dela, na clínica do dr. Morale, insistindo pra que ele desse a versão dele. O microfone do Domingo Espetacular estava aberto para o dr. Morale. Ele tem direito a só falar com a polícia e a justiça. E optou por isso.
Para as famílias, não é o silêncio do médico nos microfones que incomoda.
Mas o silêncio após a morte. O sumiço após a perda de duas vidas.
Quando Louanna, a miss Jataí, agonizava numa UTI móvel a espera de uma vaga no hospital, ele pediu a mãe da paciente, Dênia Ferreira, que rezasse. Naquele momento, Dênia não sabia que outra família da cidade de Santa Rita do Araguaia tinha vivido drama semelhante, menos de seis meses antes.
Foi com a paciente Raila, de 32 anos. Quando ela agonizava após duas paradas cardíacas, o dr. Morale teve o mesmo comportamento. Pediu a mãe de Raila, a dona Marilene Leal, que confiasse em Deus. Como se fosse apenas uma questão de fé.
Depois, com a morte das duas pacientes, atitudes que a qualquer leigo parecem suspeitas. A pressa em devolver o dinheiro. Ajuda pra encontrar uma funerária e despachar logo o corpo de Raila Leal. A omissão de que Jataí, onde foi feita a cirurgia de Raila, tem IML e ali mesmo poderia ser feito um exame pra esclarecer a causa da morte.
Como acreditar que um médico, trabalhando há mais de 5 anos na cidade, não sabia da existência de um IML regional com profissionais aptos para realizar a necropsia? Ninguém no hospital sabia do IML? O hospital não deveria ser o primeiro interessado a descobrir o que provocou a morte de uma mulher jovem e saudável? Ou, quando a morte de um paciente está confirmada, interessa mais o enterro rápido, que enterre também as suspeitas?
No caso da Louanna, o que chamou a atenção foi a realização da cirurgia mesmo após um exame ter detectado uma arritmia e sem a análise de um cardiologista. Depois, a pressa em encontrar uma justificativa para a morte da miss. Você consegue imaginar que, enquanto a paciente está a beira da morte no hospital, o cirurgião responsável pelo caso saia na calçada pra indagar a uma amiga de Louanna se ela usava drogas? Era um médico ou um detetive agindo em causa própria?
De médicos se espera conhecimento técnico, excelência profissional e também ética, dignidade e uma postura de respeito e seriedade - pra lidar com a vida e também com a morte. Se o dr. Morale errou ou não na mesa de cirurgia, só os laudos e exames do IML podem dizer. Mas as atitudes dele são, no mínimo, estranhas. E justificam uma profunda investigação.
Nas minhas entrevistas, além de perguntar às famílias de Louanna e Raila sobre os supostos erros do dr. Morale, perguntei também sobre os erros das duas mulheres. As famílias reconhecem que o excesso de vaidade levou as pacientes a confiar demais. A ânsia de atingir aquele modelo de beleza cegou, ensurdeceu as duas. Só as palavras do médico interessavam. E ele dizia: é uma cirurgia simples, não se preocupem, vai dar tudo certo. Elas acreditaram. Pagaram um preço alto demais.
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