10
outubro
às 11:31

Inolvidable. Ė a palavra em espanhol para falar dos momentos inesquecíveis. E este sábado, na mina San Josė, foi um dia assim: inolvidable!.


As famílias dos 33 mineiros, soterrados há mais de dois meses, estão emocionadas e muito gratas. Agradecem pela força dos mineiros que resistiram a 700 metros de profundidade. Pela persistência de operários e engenheiros que trabalharam incessantemente pra abrir um caminho até os trabalhadores. Agradecem pela proximidade do reencontro.


Agora ė uma questão de esperar mais três ou quatro dias. "Não ė nada para quem já esperou tanto. Falta só um empurrãozinho", dizia Maria à espera do irmão, Dario Segovia. Com a bandeira do Chile nas costas, Maria caminhou por todo o acampamento beijando os parentes de outros mineiros, agora quase todos como uma só família.


Unidos pela dor e também pelo amor. E são muitas declarações de amor feitas sobre a poeira do deserto do Atacama. A saudade e a possibilidade da perda despertaram o amor de muitos mineiros e suas esposas que nos últimos 66 dias trocaram cartas apaixonadas e promessas de felicidade eterna.


Mas foi a declaração de um menino que mais me comoveu. Brian espera pelo pai. Nos encontramos no morro das bandeiras, onde ele foi comemorar a chegada da máquina perfuradora ao fundo da mina. "Temos que ter paciência. Esperar e crer", me disse Brian. "Eu e meu papito sempre estivemos juntos e assim vai continuar. Eu o amo e o quero com todo meu coração. Hoje ė o dia mais feliz que já vivi em toda minha vida".


Disse isso calmo, confiante, sem se embaraçar com as palavras. Parecia ter a sabedoria de quem já viveu muito mais do que apenas oito anos.

Pensei imediatamente no pai dele lá embaixo. Como seria bom se pudesse ouvir as palavras do filho. Pensei em todos os pais, maridos e avôs. Eles que aguentaram 65 dias na escuridão, usando apenas lanternas, pela primeira vez após o acidente, viram a luz do dia. Uma fresta de luz que desceu pelo túnel de 622 metros, por onde daqui a alguns dias todos sairão pra recomeçar a viver. Como dizem nos noticiários chilenos, a terra vai parir 33 mineiros. Trinta e três homens que vão nascer de novo.


O improvável, quase impossível, está prestes a acontecer. Certamente a fé e a esperança das famílias ajudaram. O amor de Brian ajudou. Como ele disse, ė preciso crer. E eu acredito.



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28
agosto
às 09:11

Uma nėvoa cobria o acampamento Esperanza na noite gelada do deserto. As famílias dos 33 mineiros presos a 700 metros abaixo da terra se aqueciam ao redor de fogueiras quando foram chamadas para uma surpresa. Num telão, surgiram as imagens dos mineiros magros, abatidos, barbudos. Suando muito. Sofrendo muito, mas resistindo.

Uma câmera digital chegou aos mineiros  enviada por uma sonda, o mesmo equipamento por onde chegam comida e remėdios para o grupo.

Um operário filma e outro descreve como estão vivendo lá embaixo.

O que os parentes dos mineiros e nós, jornalistas, vimos dali em diante foi estarrecedor.

São imagens escuras, iluminadas apenas por pequenas lanternas de mão e dos capacetes.

Alguns trabalhadores aparecem dormindo, jogados sobre pedaços de madeira e pedras.

Parecem exaustos. Não reagem ao barulho dos outros mineiros durante a filmagem.

Todos estão visivelmente mais magros, com braços finos, e na expresão de cada rosto, vimos uma mistura de  susto, medo, saudade, preocupação, desejo de sair logo dali, do inferno de Copiapó. Depois dessas imagens, fica claro porque os mineiros pediram ao presidente do Chile: "tire-nos deste inferno logo".

Lá embaixo, a temperatura pode passar dos 40 graus. Durante a gravação, o termômetro marca 29,5 graus. Os mineiros transpiram muito, estão todos sem camisa e com bermudas  rasgadas.

Com a pele enlameada.

Lá, do inferno de Copiapó, muitos mandam mensagens. Agradecem pelos esforços para salvá-los. E se dirigem às famílias. É esse o momento mais emocionante do vídeo. Muitos querem  dizer palavras de amor, mas um nó na garganta não deixa. A voz embarga, mas as lágrimas não vêm. Eles seguram o choro diante da câmera. Pedem força aos parentes.

Aqui, no acampamento Esperanza, os parentes se emocionam. Mas quando o telão se apaga, estão contentes por terem visto os parentes vivos.

Nas imagens, semelhantes às de um campo de concentração, eles enxergaram a chance da vida mais forte. A chance do reencontro,  mais perto.

Partimos  à 1h da madrugada, quando todas as luzes das câmeras de TV já estavam apagadas. Talvez nessa hora, na escuridão das barracas do acampamento Esperanza e das profundezas da mina San Josė, eles tenham encontrado forças para chorar.

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26
agosto
às 08:11

chile blog As mensagens dos mineiros do Atacama

Muita poeira, calor e pouca água durante o dia. Frio e a solidão do deserto à noite. E, dia após dia, a angústia de uma espera que ainda pode levar meses.

Assim estão vivendo as famílias dos 33 mineiros, presos na mina de San José no Atacama, 700 metros abaixo da superfície, cobertos por uma avalanche de terra e pedras.

A mina ganhou um segundo nome "campamento Esperanza", em espanhol.

O acampamento da esperança tem banheiros improvisados, dezenas de barracas de camping, refeitório coletivo e está tomado pelos caminhões e equipamentos da imprensa de várias partes do mundo.

Neste primeiro dia aqui não pudemos chegar perto da boca da mina. Ficamos junto das famílias e o que mais me impressionou foi a resistência de todos eles - jovens e idosos, esposas, pais e mães, crianças...

Muitos chegaram no dia do acidente, 5 de agosto, e ninguém fala em arredar o pé daqui.

Eles passam o dia de olho na área onde são feitas as escavações e o contato com os mineiros. Preocupados mas também felizes com a notícia de que todos estão bem.

Todos exibem como relíquias as primeiras cartas que os mineiros enviaram.  Alguns trechos:

"Estranho não poder ver. Não sabe como sofre a alma aqui embaixo, sem poder dizer que estou bem." escreve Edson para o pai.

"Sigam rezando muito para que eu possa sair daqui e quando isto acontecer, compramos o vestido e nos casamos", é a mensagem de Esteban para a noiva.

"Oi meu amor! Estou aqui pensando em você. Pensei que nunca mais voltaria a te ver. Pensei que não poderia ver nossa filha crescendo. Estou contando as horas pra sair daqui e abraçar vocês", escreveu Cláudio para a mulher.

São mensagens de amor a família e à vida. Lá embaixo, a 700 metros, 33 homens desejam intensamente sair da escuridão e recomeçar a viver.

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