Uma nėvoa cobria o acampamento Esperanza na noite gelada do deserto. As famílias dos 33 mineiros presos a 700 metros abaixo da terra se aqueciam ao redor de fogueiras quando foram chamadas para uma surpresa. Num telão, surgiram as imagens dos mineiros magros, abatidos, barbudos. Suando muito. Sofrendo muito, mas resistindo.
Uma câmera digital chegou aos mineiros enviada por uma sonda, o mesmo equipamento por onde chegam comida e remėdios para o grupo.
Um operário filma e outro descreve como estão vivendo lá embaixo.
O que os parentes dos mineiros e nós, jornalistas, vimos dali em diante foi estarrecedor.
São imagens escuras, iluminadas apenas por pequenas lanternas de mão e dos capacetes.
Alguns trabalhadores aparecem dormindo, jogados sobre pedaços de madeira e pedras.
Parecem exaustos. Não reagem ao barulho dos outros mineiros durante a filmagem.
Todos estão visivelmente mais magros, com braços finos, e na expresão de cada rosto, vimos uma mistura de susto, medo, saudade, preocupação, desejo de sair logo dali, do inferno de Copiapó. Depois dessas imagens, fica claro porque os mineiros pediram ao presidente do Chile: "tire-nos deste inferno logo".
Lá embaixo, a temperatura pode passar dos 40 graus. Durante a gravação, o termômetro marca 29,5 graus. Os mineiros transpiram muito, estão todos sem camisa e com bermudas rasgadas.
Com a pele enlameada.
Lá, do inferno de Copiapó, muitos mandam mensagens. Agradecem pelos esforços para salvá-los. E se dirigem às famílias. É esse o momento mais emocionante do vídeo. Muitos querem dizer palavras de amor, mas um nó na garganta não deixa. A voz embarga, mas as lágrimas não vêm. Eles seguram o choro diante da câmera. Pedem força aos parentes.
Aqui, no acampamento Esperanza, os parentes se emocionam. Mas quando o telão se apaga, estão contentes por terem visto os parentes vivos.
Nas imagens, semelhantes às de um campo de concentração, eles enxergaram a chance da vida mais forte. A chance do reencontro, mais perto.
Partimos à 1h da madrugada, quando todas as luzes das câmeras de TV já estavam apagadas. Talvez nessa hora, na escuridão das barracas do acampamento Esperanza e das profundezas da mina San Josė, eles tenham encontrado forças para chorar.
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Nove da manhã no deserto do Atacama. Do avião mal dava pra avistar as montanhas. Uma névoa cobria a região e o só uma hora depois o sol começou a despontar.
Eu e o cinegrafista Humberto Lima acabamos de desembarcar em Copiapó. Estamos na rota 5, a caminho da mina San José, pra contar a saga de 33 homens na escuridão.
Muito provavelmente até dezembro os mineiros presos a 700 metros abaixo da superfície da terra ficarão sem ver a luz do sol. Mas eles ainda não sabem disso.
Por enquanto não podem saber que o resgate será tão lento, pra não perderem os ânimos. E força é o que a imprensa chilena tenta passar aos parentes de todos eles.
Nas TVs, o rosto até então anônimo de cada mineiro, é mostrado como exemplo de força e superação. Os homens, presos há 20 dias desde o desabamento do acesso à mina, estão debilitados.
Cada operário perdeu cerca de 10 quilos. Ontem eles receberam a primeira refeição líquida - um caldo de chocolate e framboesa. Também enviaram para as famílias as primeiras cartas.
São relatos emocionantes, pedidos de oração e declarações de amor. A equipe de resgate conseguiu estabelecer contato por telefone com os mineiros.
Eles conversaram por 20 minutos com o presidente chileno, Sebastian Piñera e pediram: "faça tudo que puder pra nos retirar desde inferno."
Assim a imprensa local chama o caso - "o inferno da mina de Copiapó". E mesmo no inferno há muita esperança.
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