Vou dar algumas pistas.
Um país que conseguiu acabar com a violência.
Onde pobres e ricos estudam em universidades públicas. E mais um detalhe: os ricos pagam mensalidade pra bancar a abertura de novas vagas para estudantes sem condições de pagar pelos estudos.
Um país onde a classe política é séria, muito séria.
Que país é esse? O Brasil.
Já terminou de rir?
Sim, eu também dei gargalhadas quando ouvi isso.
Então, eu explico. Esse país maravilhoso é o Brasil na visão dos argentinos.
Nos dois dias que passei na capital, Buenos Aires, pra acompanhar a primeira viagem internacional da presidente Dilma Rousseff, notei um certo deslumbramento dos argentinos com o nosso país.
Ouvi de várias pessoas frases como: "o Brasil é um país que devemos copiar". Ou: "o Brasil é uma potência, fez tudo corretamente e nós devemos seguir". Ou ainda: "Somos gratos pelos turistas brasileiros virem gastar reais aqui, somos gratos pelas empresas brasileiras investirem na Argentina".
Era um misto de deslumbramento com gratidão o que eu percebi ao entrevistar os argentinos.
Mas achei que poderia ser uma interpretação errada da minha parte.
Quando Dilma se foi, durante um jantar com os colegas correspondentes que vivem em Buenos Aires e entendem deste país muito mais do que eu, descobri que os argentinos vivem mais do que uma lua de mel com o Brasil.
É síndrome aguda da imaginação fértil. Os argentinos criaram um "brasil miragem", escrevo assim com letra minúscula porque a gente sabe que esse país ainda não existe.
Meus colegas jornalistas me explicaram que há por lá defensores de que o Brasil já está no grupo dos países desenvolvidos.
Outros acreditam piamente nos absurdos que escrevi na abertura deste texto - que a violência acabou por aqui, que a educação é uma maravilha, que os políticos... bom essa é melhor nem repetir.
E há também um desconhecimento.
Assim, quando algum argentino quer defender uma ideia como a cobrança de mensalidades dos alunos mais ricos nas universidades, logo usa como argumento o Brasil. "Lá no Brasil isso já foi testado e deu certo", é uma frase comumente repetida sem qualquer compromisso com a realidade.
Claro, na comparação com a Argentina o Brasil tem um peso muito maior.
Economicamente falando quase seis vezes maior, comparando o PIB - produto interno bruto - dos dois países.
Há conquistas que o Brasil já alcançou e que a Argentina ainda não. Um exemplo: o compromisso com as metas de inflação. Lá a inflação oficial fechou o ano em quase 11%. Mas índices não-oficiais indicam que a inflação pode ser três vezes maior do que o governo divulga.
Conversei com taxistas, vendedores, camareiras e todos eles reclamam da carestia oculta, corroendo o bolso.
E falando em dinheiro... Neste momento, pesos argentinos estão sendo fabricados no Brasil. Ou, pelo menos, uma boa parte deles. Faltam cédulas no comércio argentino. As notas que estão em circulação estão muito velhas. E os bancos limitam os saques porque não tem moeda pra atender todos os clientes. A explicação: erro estratégico. O governo argentino não fez o estoque de papel moeda necessário para atender a demanda por cédulas e teve que pedir socorro ao Banco Central do Brasil.
Sim, eles podem ter o Brasil como exemplo pra muitas coisas.
E nós podemos fazer um exercício diferente.
Botamos fé nesse "brasil miragem" que os argentinos inventaram e arregaçamos as mangas para construí-lo de verdade.
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