Fui ao churrasco ontem no meio da Avenida Angélica. Trempe de tijolos no asfalto, pouca carne, muita linguiça toscana e, mais importante, muita gente disposta a mostrar pra quem ainda não enxergou que o mundo mudou.
Mudou porque contra o lobby dos gabinetes, aquela conversinha sussurrada nos corredores do poder, existe um antídoto poderoso hoje: as redes sociais. E o que aconteceu em Higienópolis é prova disto.
O governo de São Paulo, ouvindo apenas uma pequena parte dos moradores do bairro - a banda que é contra o metrô e que, muito provavelmente tem um poderoso interlocutor - muda de planos sobre o novo endereço da estação e alega questões técnicas.
No mundo antigo, certamente, seria o ponto final da história. No mundo novo, não. Uma tuitada vira milhares em poucos segundos. O mesmo no Facebook. E assim, ontem no fim da tarde, ao voltar de uma pauta encontrei a Avenida Angélica fechada para o churrasco. Estava cansada, mas fiz questão de ir até lá pra me juntar aos que querem o metrô no bairro.
Vi um varal com roupas velhas armado no semáforo. Li cartazes com frases como: "minha empregada que venha a pé" ou "só ando de metrô em Nova York, Londres e Paris".
Gosto da ironia, gosto da coragem do protesto. E gostaria muito de ter um metrô perto de casa. Nem vou me alongar mais nos argumentos porque já fiz isto no último post.
O governo, se for inteligente, terá que fazer de fato uma discussão com a população do bairro. E poderá se surpreender ao perceber que aqui em Higienópolis tem muita gente que quer o metrô, com um compromisso de que a estação seja bem cuidada e policiada. E aberta à livre circulação de todos - pobres ou ricos, do bairro ou de qualquer região da cidade.
Mas hoje, além de defender o metrô, quero defender Higienópolis. Pelo tom das crônicas e críticas que li, parece que Higienópolis é um reduto de milionários arrogantes que não querem se misturar ao restante da população da cidade. Não é verdade.
Os moradores de Higienópolis não podem ser rotulados pelo comportamento de alguns. Higienópolis é um bairro familiar, de um astral extraordinário e moradores de grande gentileza e cordialidade.
Convivo com vizinhos e amigos com uma visão totalmente oposta a de quem classifica os mais pobres como "gente diferenciada". Conheço no bairro muitas pessoas que ficaram revoltadas com este tipo de comportamento. E posso assegurar que há em nosso bairro muito mais gente sem qualquer tipo de preconceito do que o contrário.
Não sou paulistana, mas me encontrei nesta cidade, na calma das ruas de Higienópolis. Somos, claro, privilegiados por morar tão perto do centro e da Avenida Paulista. Privilegiados por ter a praça Buenos Aires, por poder fazer quase tudo a pé pelo bairro, por ainda encontrar aqui a quitanda que vende fiado, por encontrar na Vilaboim o ponto ideal para o encontro com os amigos.
Nosso bairro é extraordinário e as pessoas também. E quando falo das pessoas de Higienópolis estou falando dos donos de imóveis no bairro e também da balconista da padaria, do garçom que nos atende gentilmente no japonês, do dono da banca de revista, das empregadas e babás que passeiam com nossas crianças pela praça. Sou tão dona de Higienópolis quanto cada uma dessas pessoas.
Quero o metrô para todos os funcionários que trabalham neste bairro com tanta prestatividade. E quero o metrô também pra mim. Quero o metrô porque quero uma cidade com mais civilidade, com menos trânsito, menos acidentes, com ar mais saudável, e com o direito de ir e vir garantido a todos.
Higienópolis merece o metrô e merece todo nosso respeito. E, se pra isso, for preciso escrever muitos posts e fazer mais alguns churrasquinhos na Avenida Angélica, estarei lá. Sem qualquer preconceito.
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