Sete da manhã no Japão.
Chove. Estou a caminho do aeroporto de Narita, para deixar o país.
A hipótese de partir para o Brasil mais cedo - logo que o vazamento nuclear foi admitido pelas autoridades - foi cogitada. Havia uma dúvida muito grande da nossa parte se era seguro permanecer aqui quando ninguém sabia as dimensões que a crise tomaria.
Eu e o cinegrafista Joaquim Leite Neto decidimos ficar um pouco mais distantes de Fukushima. Primeiro Akita, depois Tóquio. Pudemos, assim, fazer a cobertura desta, que foi para o Japão a pior crise, o maior sofrimento, desde a Segunda Guerra Mundial. Desde a bomba de Hiroshima.
A "bomba" não explodiu em Fukushima. Mas poderia. Fukushima disparou o alarme nuclear no mundo. Fez todos nós nos lembrarmos de Chernobyl. Em 1986, no acidente nuclear sem precedentes, 47 funcionários morreram. E as organizações internacionais atribuem ao vazamento radioativo na Ucrânia - naquela época União Soviética - pelo menos quatro mil mortes por doenças como câncer.
Em Fukushima, a grande explosão atômica não ocorreu. Mas as explosões decorrentes do acúmulo de material inflamável dentro dos reatores foram suficientes pra esparramar a radiação pela área. Quanto? Com que gravidade? Quantas mortes serão causadas por este desastre? Só o tempo dirá.
O governo japonês fala que a situação agora é estável, mesmo com o reator de número 3 ainda com a pressão em elevação. Saio do Japão, acreditando que o auge da crise passou. Mas temerosa com reviravoltas que ainda podem vir.
O Japão é vítima constante de terremotos. Nunca como este. O Japão conta vítimas aos milhares. Eram 300 mortes quando eu saí do Brasil. São 8 mil e 400 agora. Serão cerca de 20 mil, pelo número de pessoas que permanecem desaparecidas.
Por tudo que viveu nos últimos 10 dias, o Japão merece nossa solidariedade, apoio e respeito. Mas também deve explicações a seus cidadãos e ao mundo.
Casas, carros, barcos, pontes não resistem a tsunamis. Uma usina nuclear, construída a beira do ocenao Pacífico, área com enorme potencial de sofrer terremotos intensos, tem que resistir. O que falhou? Quem falhou? Por quê?
São respostas que o Japão tem que dar. Até porque o país sempre foi uma potência nuclear. Tem outras usinas ainda maiores do que Fukushima. Estariam elas também vulneráveis?
Saio do país só lamentando não ter podido subir rumo ao norte de Sendai, para estar mais perto das vítimas do tsunami. Para mostrar aos telespectadores da Record, toda a dimensão do que ocorreu no nordeste do Japão.
O vazamento radioativo nos fez caminhar na direção mais segura. Mas minha alma de repórter quer sempre caminhar rumo às notícias, mesmo quando são trágicas.
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