21
março
às 07:17

fukushima reatores blog O Japão pós 11 de março

Sete da manhã no Japão.

Chove. Estou a caminho do aeroporto de Narita, para deixar o país.

A hipótese de partir para o Brasil mais cedo - logo que o vazamento nuclear foi admitido pelas autoridades -  foi cogitada. Havia uma dúvida muito grande da nossa parte se era seguro permanecer aqui  quando ninguém sabia as dimensões que a crise tomaria.

Eu e o cinegrafista Joaquim Leite Neto decidimos ficar um pouco mais distantes de Fukushima. Primeiro Akita, depois Tóquio. Pudemos, assim, fazer a cobertura desta, que foi para o Japão a pior crise, o maior sofrimento, desde a Segunda Guerra Mundial. Desde a bomba de Hiroshima.

A "bomba" não explodiu em Fukushima. Mas poderia. Fukushima disparou o alarme nuclear no mundo. Fez todos nós nos lembrarmos de Chernobyl. Em 1986, no acidente nuclear sem precedentes, 47 funcionários morreram. E as organizações internacionais atribuem ao vazamento radioativo na Ucrânia - naquela época União Soviética -  pelo menos quatro mil mortes por doenças como câncer.

Em Fukushima, a grande explosão atômica não ocorreu. Mas as explosões decorrentes do acúmulo de material inflamável dentro dos reatores foram suficientes pra esparramar a radiação pela área. Quanto?  Com que gravidade? Quantas mortes serão causadas por este desastre? Só o tempo dirá.

O governo japonês fala que a situação agora é estável, mesmo com o reator de número 3 ainda com a pressão em elevação. Saio do Japão, acreditando que o auge da crise passou. Mas temerosa com reviravoltas que ainda podem vir.

O Japão é vítima constante de terremotos. Nunca como este. O Japão conta vítimas aos milhares. Eram 300 mortes quando eu saí do Brasil. São 8 mil e 400 agora. Serão cerca de 20 mil, pelo número de pessoas que permanecem desaparecidas.

Por tudo que viveu nos últimos 10 dias, o Japão merece nossa solidariedade, apoio e respeito. Mas também deve explicações a seus cidadãos e ao mundo.

Casas, carros, barcos, pontes não resistem a tsunamis. Uma usina nuclear, construída a beira do ocenao Pacífico, área com enorme  potencial de sofrer terremotos intensos, tem que resistir. O que falhou? Quem falhou? Por quê?

São respostas que o Japão tem que dar. Até porque o país  sempre foi uma potência nuclear. Tem outras usinas ainda maiores do que Fukushima. Estariam elas também vulneráveis?

Saio do país só lamentando não ter podido subir rumo ao norte de Sendai, para estar mais perto das  vítimas do tsunami. Para mostrar aos telespectadores da Record, toda a dimensão do que ocorreu no nordeste do Japão.

O vazamento radioativo nos fez caminhar na direção mais segura. Mas minha alma de repórter quer sempre caminhar rumo às notícias, mesmo quando são trágicas.

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18
março
às 19:18

Chegamos ao centro de Tóquio quando a cidade estava sob a ameaça do maior de todos os blecautes.

Quinta-feira, meia-noite.

No cruzamento de Shibuya, onde podem atravessar até mil pedestres por vez, havia poucas pessoas. Você certamente já viu Shibuya em algum filme. É um dos lugares mais famosos da capital japonesa.

Achei vazio. Pois bem, era meia-noite, pensei. Mas a tradutora Sarah - uma brasileira que vive no Japão há 11 anos e nos auxilia nas reportagens - logo nos disse que deveria estar muito mais movimentado. Paramos pra conversar com uma pedestre. "O movimento que você está vendo é de apenas um décimo do normal", afirmou.

Amanheceu sexta-feira. E, mais uma vez, encontrei uma Tóquio bem diferente daquela que já vi nos filmes e reportagens. Ruas sem trânsito. Não estou exagerando, era sem trânsito mesmo. Poucos pedestres, cafés vazios, o metrô estava vazio! Sabe aqueles seguranças de luvas branquinhas, pra empurrar os passageiros pra dentro dos vagões, feito sardinha em lata? Estavam todos lá, tranquilos, com as luvas intactas.

Como é minha primeira viagem ao Japão, a todo instante recorria à tradutora. É assim mesmo? Não é feriado hoje?

Não era. Feriado será na segunda-feira próxima. Mas espichar a folga não é um hábito japonês.

A falta de gasolina tirou os carros da rua.

O medo da contaminação radioativa mudou a rotina das 13 milhões de pessoas que vivem em Tóquio.

Durante o dia eu pude visitar um dos pontos onde a radiação é medida na capital. Uma máquina estranha de quase dois metros capta partículas do ar. Os computadores analisam e, de hora em hora, revelam o índice radioativo daquele momento.

Ao meio-dia desta sexta-feira (18), a radiação estava acima do normal, mas, segundo o departamento de pesquisa radioativa, insuficiente para causar qualquer dando à saúde. O técnico que nos acompanhava explicou que com aquela radiação ele saía de casa sem qualquer preocupação.

Mas os moradores têm dúvidas. O mundo desconfia que o governo japonês possa ter ocultado informações.

E o próprio governo já admitiu erros. Demorou a reagir após o terremoto, seguido pelo tsunami da última sexta-feira (11).

Não conseguiu compreender rapidamente que os abalos à usina de Fukushima eram bem mais sérios. Não conseguiu prever a crise nuclear que se instalaria no país dias depois.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) cobra informações mais precisas e claras. Disse que alguns dados repassados pelo Japão estavam errados. E vai começar a calcular a radiação sobre Tóquio pra ter certeza de que não há risco à saúde das pessoas.

A população torce pra que dê certo. Quer o sossego de volta.

E, curiosamente, na capital das multidões, sossego quer dizer grandes congestionamentos, superlotação nos metrôs, nas ruas.

Que volte, então, o caos de Tóquio. Os japoneses estão com saudade.

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15
março
às 10:16

teste radiacao japao blog Retirada ao norte para escapar da radiação

Médicos medem níveis de radiação próximo à região de Fukushima

Meio-dia no Japão, meia-noite no Brasil.

Estamos saindo do hotel rumo ao norte para ficar o mais longe possível da usina nuclear de Fukushima.

Viajo junto com um grupo de 12 jornalistas e técnicos de uma emissora de TV inglesa e acabo de ler pelo Twitter que repórteres da CNN estão fazendo a mesma rota.

O risco de vazamento radioativo já existia quando saí de Tóquio em direção a Sendai, ontem à tarde (14).  Antes de entrar no helicóptero para chegar às áreas mais atingidas pelo terremoto, sabíamos do perigo. Mas era imprescindível chegar até lá. Mostrar toda a devastação. E, naquele momento, o governo reconhecia que o risco de vazamento nuclear existia, mas era pequeno.

Agora o cenário mudou muito. Após a quarta explosão dentro dos reatores, o porta-voz do governo japonês admitiu que o nível da radiação já está bem acima do tolerável e pode provocar danos à saúde. Era o sinal para pisar no freio. Em geral, quando estou numa grande cobertura como essa, acabo sendo guiada pela adrenalina da notícia. Acho que sempre dá pra seguir um pouquinho mais a frente.

Mas desta vez, ouvi a voz dos mais sensatos. 

Já estou na cidade de Akita, a 280 km da usina de Fukushima. Antes, em Sendai, estava a 100 km.

Os ingleses que vieram conosco já estão reservando as passagens para deixar o Japão. Preferem a precaução extrema, a correr qualquer risco de contaminação.

Nós vamos passar a noite aqui, avaliar melhor os riscos e, então, decidir o que fazer.

De qualquer forma, na saída de Sendai, compreendi um pouco mais sobre os japoneses.

Nas expressões de cada rosto, é visível: eles estão preocupados com a ameaça nuclear.

No entanto, ninguém corria pelas ruas, não vi pânico.

A última cena que registramos foi uma fila enorme, dobrando quarteirões. Os japoneses ordenadamente, silenciosamente, tentavam comprar comida e água para estocar. Mesmo que o risco seja muito grande, para a maioria, a proteção será apenas fechar a porta de casa e ficar ali por alguns dias. 

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14
março
às 14:14

Chegamos à região mais afetada pelo terremoto da última sexta-feira (12) no Japão - a Província de Myagi.

Sendai, a capital, é uma cidade grande, com 1 milhão de habitantes. Aos poucos, eles tentam retomar a rotina. Mas como tem sido difícil. Os moradores desta área olham para uma montanha de escombros, um lamaçal enorme na região do aeroporto e parece difícil acreditar no que aconteceu.

Eu e o cinegrafista Joaquim Leite Neto caminhamos pela terra arrasada de Sendai.

E encontramos alguns moradores perplexos, olhando a destruição, tentando encontrar explicações.

As ondas gigantescas avançaram mais de cinco quilômetros sobre a cidade.

Arrastaram tudo o que havia pela frente - carros, aviões, lojas, casas. E pessoas, muitas pessoas....

Quantos moradores foram levados nesta avalanche de água, lama e entulho? Impossível saber.

As informações das agências de notícia do Japão indicam que apenas nesta segunda-feira 2.000 corpos foram encontrados na Província de Myagi. Em Sendai, 200 corpos já foram localizados mas não há equipes de resgate suficientes pra retirar estes corpos do lamaçal.

Enquanto gravávamos a reportagem que será exibida no Jornal da Record de hoje, testemunhamos o heroico trabalho dos policiais e bombeiros.

Poucos homens para vasculhar uma área enorme.

Com pedaços de madeira na mão, eles remexem a lama, olham dentro dos carros. Procuram corpos, como se fossem agulhas no palheiro. Neste local, não há mais esperança de encontrar vida.

Depois de alguns instantes de trabalho, ouvimos um som diferente. Um guarda apita no meio do lamaçal. Os outros policiais espalhados pelo terreno seguem na direção dele.

Isso me fez lembrar uma cena do filme Titanic. Mas lá, no cinema, o apito era pra indicar que havia uma vida a salvar.

Hoje, no fim da tarde em Sendai, o apito era para contabilizar mais uma morte.

Mais uma vítima entre milhares que não tiveram tempo de correr de um tsunami avassalador.

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