20
outubro
às 12:13

mineiro A emoção contida de um homem chamado Florencio Ávalos 


Alguns se impressionaram com a reação dele ao sair da mina. O filho, Byron, chorava. Gritava de emoção. E o pai, Florencio Ávalos, o primeiro a ser resgatado, saiu contido. Abraçou o filho, mas sem prantos, sem a explosão que muitos esperavam. A tal explosão veio com o segundo resgatado, Mario Sepúlveda, que levou pedras para superfície, fez piadas e puxou o grito dos resgatistas que estavam ali trabalhando.


No momento em que Florencio era resgatado, eu entrava ao vivo na Record, junto com o colega Reinaldo Gottino pra narrar o feito inédito. O primeiro homem a ficar 69 dias preso, 700 metros abaixo da terra, renascia. Naquele instante uma multidão estava paralisada no acampamento esperança, diante da TV. Quando Florencio deixou a cápsula, todos começaram a se abraçar e chorar.


Pela primeira vez, em 17 anos de experiência como repórter, chorei numa transmissão ao vivo. Era impossível não se comover com a emoção de toda aquela gente que teve força e esperança para esperar tanto tempo. A vitória do Florencio era a vitória de todos eles ali. E as lágrimas de Florêncio, ninguém viu. Se elas existiram, ficaram escondidas atrás dos óculos escuros pra proteger a visão.


Reencontrei Florencio e o filho juntos, três dias depois. Eu já havia entrevistado o Byron, na véspera. E isto facilitou nosso contato com o pai. Ele estava receoso, não queria dar entrevistas, queria saber as perguntas antes. Mas quando expliquei que seria uma reportagem para o Brasil e que ele teria a liberdade pra responder apenas as questões que quisesse, Florencio aceitou gravar com a nossa equipe com exclusividade para o Domingo Espetacular.


As únicas condições de Florêncio: não falar sobre as condições de segurança da mina - assunto sob investigação policial - e não falar em detalhes sobre os colegas, pra não invadir a privacidade deles. Falou, então, de si mesmo. Da experiência incrível e mais difícil que jamais imaginou viver. O Florencio que conheci, durante 25 minutos de entrevista, era novamente um homem contido.


Durante todo o tempo que conversamos, Florencio tinha um nó na garganta que ele não deixava desatar. Ele segurou a emoção firme ali, sem deixar escapar. Falou do sofrimento de não encontrar uma saída. Da angústia de ver a comida acabando e não chegar nenhum sinal de resgate. Do clima difícil no abrigo nos primeiros dias, quando o grupo ainda estava muito nervoso e se desentendia com facilidade. Falou dos gritos e lágrimas que uniram os 33, quando a esperança chegou ao fundo da San José.


Quando a sonda chegou, era o sinal de que chegaria comida. E lá embaixo havia 33 homens loucos de fome. Quando a primeira sonda chegou era o sinal de que o resgate também chegaria. Eles só não imaginavam que demoraria tanto. Florencio disse me disse imaginava que em 20 dias tudo estaria terminado. E foram 69 dias de confinamento.


Ele contava tudo isso, com aquele nó preso na garganta. Perguntei a ele, como aguentava segurar tanto a emoção. Percebia que ele estava muito traumatizado, muito emocionado, mas contido. E ele respondeu que, como homem, sempre tentava dissimular para não cair em prantos. Como homem, ele deveria ser forte, mesmo visivelmente fragilizado.


Este é o Florencio que conheci. Por isso, quando muitos esperavam uma explosão de lágrimas na saída da Fênix, viram um homem contido, abraçando o filho e, talvez, desejando sair logo da frente das câmeras. Um homem que provavelmente estivesse fazendo uma força enorme pra não chorar. A força que teve pra sobreviver 69 dias no inferno da mina incluía sair do buraco contido, sem prantos.


Em dois momentos da entrevista, Florencio quase foi vencido pelo choro. Quase. Foi no momento de falar do reencontro com o filho Byron. Disse que quando viu que o filho estava chorando muito, olhou pra baixo e respirou fundo, pra não se desesperar dentro da cápsula. Pensar no filho, quando estava lá embaixo, era o que dava forças pra este homem tão resistente acreditar que haveria vida após o confinamento na San José.


Ele diz que nunca deixou de acreditar, nunca pensou na morte, porque queria muito retomar a vida ao lado dos filhos. Alem do Byron, ele tem o mais velho, César, de 16 anos. Florencio havia recebido alta médica na véspera, havia dormido a primeira noite em casa, depois do confinamento. Mas naquele sábado, teve que retornar ao hospital para mais uma consulta, como estava combinado. E, então, pode encontrar muitos dos mineiros que também tiveram que retornar ao médico.


Neste instante, Florencio se calou e disse: "um só dia longe dos meus amigos e já foi muito difícil pra mim. Não consigo imaginar como será a minha vida sem todos eles por perto".


Frágil, sensível, humano, amoroso. Florencio revelava tudo isso, mesmo sem chorar. Era um homem forte admitindo que a companhia de outros 32 homens será essencial pra que ele continue a vida. Admitindo que sente falta da presença dos novos amigos, como da própria família. E dizendo que fará de tudo pra conviver com todos eles, pra saber como estão, pra dividir as emoções da vida com os outros 32. Mais que amigos, segundo Florêncio, irmãos.


Os 33 irmãos do Atacama vão sofrer, mas  certamente vão tomar rumos diferentes. Cada um vai tocar a vida e a herança desta história incrível do seu jeito. Alguns voltarão a ser mineiros pra trabalhar como antes. Outros nunca mais pisarão numa mina. Alguns devem conseguir fazer da própria experiência uma fonte de renda - seja escrevendo livros, dando palestras. Outros não pensam nessa hipótese.


O futuro de Florêncio, o primeiro homem a sair do abismo, ainda é incerto. Ele diz que quer voltar a estudar, encontrar outra profissão. Falou em ser professor, mas não tem uma convicção formada ainda. A mulher, Mônica, sonha ver o marido médico. Seja como for, conheci o Florencio Ávalos que não chora. Mas revela toda emoção que sente.



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14
setembro
às 18:15

Desde que voltei da mina San José, onde 33 homens esperam o resgate a 700 metros de profundidade, não publiquei aqui no Entre Nós nenhum novo texto. Os amigos estranharam esse silêncio inesperado.


"Um momento de tristeza pela história?", me questionou uma amiga. Pensei por alguns segundos e concordei. Jornalismo exige imparcialidade, isenção, precisão nas informações, mas jornalismo é também emoção.  E pra nós, repórteres, é quando a matéria vai ao ar ou é publicada que a emoção vem mais forte. Sai de cena o técnico da informação, fica a pessoa que se emociona com os fatos que testemunha.


É como se eu tivesse voltado do Chile com a respiração presa, em suspense, com uma sensação claustrofóbica de quem sequer consegue se imaginar  nas condições em que aqueles homens estão. E, mais que isso: acompanhar a força daquelas famílias, conhecer histórias de amor renovadas pelas cartas, histórias de lealdade, testemunhar a certeza deles de que o resgate será bem sucedido me fizeram silenciar pra pensar.


É isso! Foi um silêncio esticado pra parar e pensar em tudo que aprendi em apenas três dias no Chile.


Agora, todos os dias, leio na internet os jornais chilenos - www.latercera.com e www.emol.com. Assim, fico mais perto da história dos mineiros - Los 33, como são chamados no país.


Soube da videoconferência com os parentes, o envio racionado de cigarros, o apoio de sobreviventes do acidente aéreo nos Andes que foram até a mina conversar com as famílias. Virou um reality show, muitos já disseram. Sim, virou. Mas de gente de verdade, de pessoas que não pediram este reality show, não estão ali pela promessa da fama instantânea, do dinheiro fácil.


Los 33 estão ali porque foram vítimas de um acidente numa mina sabidamente sem segurança. Ao sair de lá, poderão dar ao mundo uma lição de força, calma e resistência. Podem, sim, se tornar celebridades. Podem virar livro, documentário e, certamente, essa história vai chegar aos cinemas. Mas por este reality show vale a pena torcer, sofrer e, quando a alma pede, simplesmente silenciar.


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26
agosto
às 08:11

chile blog As mensagens dos mineiros do Atacama

Muita poeira, calor e pouca água durante o dia. Frio e a solidão do deserto à noite. E, dia após dia, a angústia de uma espera que ainda pode levar meses.

Assim estão vivendo as famílias dos 33 mineiros, presos na mina de San José no Atacama, 700 metros abaixo da superfície, cobertos por uma avalanche de terra e pedras.

A mina ganhou um segundo nome "campamento Esperanza", em espanhol.

O acampamento da esperança tem banheiros improvisados, dezenas de barracas de camping, refeitório coletivo e está tomado pelos caminhões e equipamentos da imprensa de várias partes do mundo.

Neste primeiro dia aqui não pudemos chegar perto da boca da mina. Ficamos junto das famílias e o que mais me impressionou foi a resistência de todos eles - jovens e idosos, esposas, pais e mães, crianças...

Muitos chegaram no dia do acidente, 5 de agosto, e ninguém fala em arredar o pé daqui.

Eles passam o dia de olho na área onde são feitas as escavações e o contato com os mineiros. Preocupados mas também felizes com a notícia de que todos estão bem.

Todos exibem como relíquias as primeiras cartas que os mineiros enviaram.  Alguns trechos:

"Estranho não poder ver. Não sabe como sofre a alma aqui embaixo, sem poder dizer que estou bem." escreve Edson para o pai.

"Sigam rezando muito para que eu possa sair daqui e quando isto acontecer, compramos o vestido e nos casamos", é a mensagem de Esteban para a noiva.

"Oi meu amor! Estou aqui pensando em você. Pensei que nunca mais voltaria a te ver. Pensei que não poderia ver nossa filha crescendo. Estou contando as horas pra sair daqui e abraçar vocês", escreveu Cláudio para a mulher.

São mensagens de amor a família e à vida. Lá embaixo, a 700 metros, 33 homens desejam intensamente sair da escuridão e recomeçar a viver.

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25
agosto
às 13:09

chile A caminho da mina de Copiapó  

Nove da manhã no deserto do Atacama. Do avião mal dava pra avistar as montanhas. Uma névoa cobria a região e o só uma hora depois o sol começou a despontar.

Eu e o cinegrafista Humberto Lima acabamos de desembarcar em Copiapó. Estamos na rota 5, a caminho da mina San José, pra contar a saga de 33 homens na escuridão.

Muito provavelmente até dezembro os mineiros presos a 700 metros abaixo da superfície da terra ficarão sem ver a luz do sol. Mas eles ainda não sabem disso.

Por enquanto não podem saber que o resgate será tão lento, pra não perderem os ânimos. E força é o que a imprensa chilena tenta passar aos parentes de todos eles.

Nas TVs, o rosto até então anônimo de cada mineiro, é mostrado como exemplo de força e superação. Os homens, presos há 20 dias desde o desabamento do acesso à mina, estão debilitados.

Cada operário perdeu cerca de 10 quilos. Ontem eles receberam a primeira refeição líquida - um caldo de chocolate e framboesa. Também enviaram para as famílias as primeiras cartas.

São relatos emocionantes, pedidos de oração e declarações de amor. A equipe de resgate conseguiu estabelecer contato por telefone com os mineiros.

Eles conversaram por 20 minutos com o presidente chileno, Sebastian Piñera e pediram: "faça tudo que puder pra nos retirar desde inferno."

Assim a imprensa local chama o caso - "o inferno da mina de Copiapó". E mesmo no inferno há muita esperança.

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