Sou contra o aborto. Mas jamais escolherei um representante - nem pra síndico do prédio nem pra Presidente da República - levando em conta a convicção pessoal do candidato ou da candidata sobre o assunto.
Por isso, acompanho com um certo desânimo as notícias sobre a relevância que o tema ganhou nesta campanha.
A educação brasileira ainda está aprendendo a engatinhar. Milhões de brasileiros deixam o ensino básico sem saber as contas elementares da matemática, sem conseguir compreender um texto simples.
Há milhões de brasileiros sem casa. A espera por uma consulta médica com um especialista pode levar meses. Por uma cirurgia, anos. O Brasil precisa gerar renda, oportunidades, futuro e estamos retidos a uma discussão do passado.
Sim, uma discussão do passado. Queria encontrar agora à minha frente a porta para o futuro. Lá, nesse tal futuro, a escolha pessoal de cada um seria respeitada. Cada cidadão poderia escolher seu Deus, seu credo, seu destino, seu time, seu candidato, sem interferência de quem quer que seja.
As mulheres - com ou sem seus companheiros e família, poderão decidir, em caso de uma gravidez indesejada, de um estupro, de um feto com anomalias graves, se desejariam ou não fazer um aborto.
Sim. Nesse futuro, ainda longínquo pra nós, a escolha pessoal de cada um seria respeitada. Sem que aparecessem CNBBs, evangélicos radicais ou qualquer outra organização pra condenar a decisão de cada um.
Esse futuro poderia se chamar a República do Livre Arbítrio, o lugar onde o indivíduo é respeitado, o lugar onde o preconceito não existe mais. E, de fato, estamos bem longe desse momento.
"O aborto é a negação da vida", gritam alguns querendo trazer essa discussão para o centro do debate político. Meu Deus, que desserviço para o Brasil.
Escrevo sem qualquer temor às críticas. Simplesmente porque concordo. Sim, pra mim o aborto é a negação da vida. Mas essa é a minha convicção. A minha escolha. E dai?
Que rei sou eu pra querer impor a minha verdade à coletividade? Jamais!
Descriminalizar o aborto é uma discussão que deve ser feita no Congresso. Lá, sim, todos que quiserem poderão se manifestar. A discussão pode ser feita em igrejas, escolas, centros comunitários. Tudo bem.
Mas, será necessário lembrar o básico, o óbvio que os radicais do passado se esquecem de dizer.
Se amanhā descriminalizarem o aborto no Brasil, você não estará obrigado a fazer um aborto. Você poderá continuar contra o aborto, você poderá continuar a orientar sua família, seus filhos, sua vida, seguindo a sua crença.
E deve ser respeitado por isso. E quem tiver um pensamento contrário, também.
Deus, livrai-nos da doença da tirania. Livrai-nos do pensamento pequeno, medíocre daqueles que ainda se acham donos da verdade.
Me lembro agora de um trecho do livro que li recentemente: Trem Noturno pra Lisboa, de Pascal Mercier. O livro, obviamente, não trata do tema aborto - mas, em muitos momentos, discute a tirania das religiões.
Na pagina 182, o autor escreve:
"Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso do brilho de seus vitrais, de sua calma gelada, de seu silêncio imperioso. Preciso das marés sonoras do órgão e do sagrado ritual das pessoas em oração. Preciso da santidade das palavras, da elevação da grande poesia. Preciso de tudo isso. Mas não menos necessito da liberdade e do combate a toda a crueldade. Pois uma coisa não é nada sem a outra. E que ninguém me obrigue a escolher."
Deus, ajude-nos a encontrar o trem noturno para o futuro. Ele há de surgir em nosso caminho.
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