5
outubro
às 10:53
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Sou contra o aborto. Mas jamais escolherei um representante -  nem pra síndico do prédio nem pra Presidente da República - levando em conta a convicção pessoal do candidato ou da candidata sobre o assunto.  


Por isso, acompanho com um certo desânimo as notícias sobre a relevância que o tema ganhou nesta campanha.  


A educação brasileira ainda está aprendendo a engatinhar. Milhões de brasileiros deixam o ensino básico sem saber as contas elementares da matemática, sem conseguir compreender um texto simples.


Há milhões de brasileiros sem casa. A espera por uma consulta médica com um especialista pode levar meses. Por uma cirurgia, anos. O Brasil precisa gerar renda, oportunidades, futuro e estamos retidos a uma discussão do passado.  


Sim, uma discussão do passado. Queria encontrar agora à minha frente a porta para o futuro. Lá, nesse tal futuro, a escolha pessoal de cada um seria respeitada. Cada cidadão poderia escolher seu Deus, seu credo, seu destino, seu time, seu candidato, sem interferência de quem quer que seja.


As mulheres - com ou sem seus companheiros e família, poderão decidir, em caso de uma gravidez indesejada, de um estupro,  de um feto com anomalias graves, se desejariam ou não fazer um aborto.  


Sim. Nesse futuro, ainda longínquo pra nós, a escolha pessoal de cada um seria respeitada. Sem que aparecessem CNBBs, evangélicos radicais ou qualquer outra organização pra condenar a decisão de cada um.


Esse futuro poderia se chamar a República do Livre Arbítrio, o lugar onde o indivíduo é respeitado, o lugar onde o preconceito não existe mais. E, de fato, estamos bem longe desse momento.  


"O aborto é a negação da vida", gritam alguns querendo trazer essa discussão para o centro do debate político. Meu Deus, que desserviço para o Brasil.


Escrevo sem qualquer temor às críticas. Simplesmente porque concordo. Sim, pra mim o aborto é a negação da vida. Mas essa é a minha convicção. A minha escolha. E dai?  


Que rei sou eu pra querer impor a minha verdade à coletividade? Jamais!


Descriminalizar o aborto é uma discussão que deve ser feita no Congresso. Lá, sim, todos que quiserem poderão se manifestar. A discussão pode ser feita em igrejas, escolas, centros comunitários. Tudo bem. 


Mas, será necessário lembrar o básico, o óbvio que os radicais do passado se esquecem de dizer.


Se amanhā descriminalizarem o aborto no Brasil, você não estará obrigado a fazer um aborto. Você poderá continuar contra o aborto, você poderá continuar a orientar sua família, seus filhos, sua vida, seguindo a sua crença.


E deve ser respeitado por isso. E quem tiver um pensamento contrário, também.  


Deus, livrai-nos da doença da tirania. Livrai-nos do pensamento pequeno, medíocre daqueles que ainda se acham donos da verdade. 


Me lembro agora de um trecho do livro que li recentemente: Trem Noturno pra Lisboa, de Pascal Mercier. O livro, obviamente, não trata do tema aborto - mas, em muitos momentos, discute a tirania das religiões.  


Na pagina 182, o autor escreve:


"Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso do brilho de seus vitrais, de sua calma gelada, de seu silêncio imperioso. Preciso das marés sonoras do órgão e do sagrado ritual das pessoas em oração. Preciso da santidade das palavras, da elevação da grande poesia. Preciso de tudo isso. Mas não menos necessito da liberdade e do combate a toda a crueldade. Pois uma coisa não é nada sem a outra. E que ninguém me obrigue a escolher."  


Deus, ajude-nos a encontrar o trem noturno para o futuro. Ele há de surgir em nosso caminho.


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27
setembro
às 15:49

presidenciaveis Quem venceu o debate da Record? 


Foi a primeira frase que ouvi hoje, dentro do elevador do hotel, a caminho do café da manhã. E é a pergunta que todos fazem ao fim de um debate, sobretudo nesta reta final e acalorada da corrida entre os presidenciáveis.

Dos bastidores, pude observar bem a reação dos candidatos, assessores e conversar com muitos deles após o fim do programa. Todos saem dizendo que o candidato foi bem, ficou feliz com o desempenho, etc e tal. Parece que não há perdedor, nem ganhador.

E nem sempre há. E foi o que aconteceu ontem. O debate teve pontos altos e baixos para todos os candidatos, sem que nenhum se sobrepusesse claramente sobre os  outros.
Vamos a eles.

José Serra - preferiu a estratégia de não enfrentar Dilma Rousseff. Logo no começo do debate, abriu a série de perguntas e escolheu Plínio. Passa uma impressão de que "amarelou", fugiu do confronto? Os estrategistas dizem que não. Foi apenas uma maneira de não deixar a última palavra com a adversária já que quem responde, sempre faz a tréplica final.

Além disto, Serra evita ficar no papel de carrasco, daquele que apenas acusa para não passar uma impressão de vingativo, que assusta o eleitor. Mas a estratégia de dobradinha com o Plínio não deu certo. Logo no comecinho, Serra pergunta sobre Irã e Plínio elogia o governo Lula. Mais tarde Serra pergunta sobre educação e é chamado de péssimo professor.

Serra parecia fisicamente cansado mas no final surpreendeu e foi muito bem nas considerações finais. Falou de forma simples, pediu  votos e demonstrou sinceridade.
 
Dilma Rousseff - foi beneficiada pela fuga de Serra rumo ao Plínio. A expressão dela no começo do debate era de surpresa com o tom light da discussão. O assunto da quebra de sigilo na receita federal só apareceu porque a própria Dilma falou da investigação, quando respondia a pergunta de Marina Silva sobre o suposto tráfico de influência do ex-braço direito, Erenice Guerra.

Foi bem na defesa, passou firmeza, lembrou a Marina que no Ministério do Meio Ambiente também houve denúncias graves de corrupção e as duas, segundo Dilma, agiram da mesma forma, pedindo apuração completa.

Quem está na frente das pesquisas sabe que pode apanhar muito num debate. Como Dilma não apanhou tanto, os assessores saíram satisfeitos.

Assista ao vídeo com a íntegra do debate

Mas, tem sempre um mas... E o da Dilma está no tom do discurso. Continua falando de um jeito técnico demais. Crescimento sistêmico do emprego, valorização salarial, CGU... Com isso perde boas oportunidades de se dirigir diretamente ao eleitor. Mesmo nas considerações finais, faltou essa espontaneidade e simplicidade nas palavras.

Marina Silva - foi bem pra se mostrar como a terceira via, a opção diferente para o eleitorado. Estava mais popular no discurso, mais clara. A missão de Marina de tentar chegar ao segundo turno é dificílima, tem que herdar a maioria dos votos indecisos e ainda roubar votos dos dois maiores adversários. Por isso a frase da candidata: Serra e Dilma são muito parecidos. Serra deu gargalhada nesta hora mas não entrou no mérito.

O que falta? Mais consistência pra comprovar que tem competência e condições de administrar um país em todos os seus aspectos e não apenas nas questões ambientais. Não estou dizendo que ela não tem condições para isso, mas que nåo conseguiu passar a firmeza e a confiança necessários pra convencer os milhões de eleitores que podem levá-la ao segundo turno.

Plínio de Arruda - esse não perde nunca porque não está ali pra ganhar. Garante sempre a graça dos debates. Franco atirador, bate em todo mundo e não apanha nunca porque nenhum adversário acha que vale a pena o desgaste de bater no Plínio. Ele está nesta disputa pra eleger parlamentares do Psol. Deixa isso claro e deve conseguir votos para o partido. Nada mal, mesmo que o Psol tenha projetos ultrapassados, a vigilância da oposição é necessária sempre.

E, como eu disse que sempre tem um mas... Agora é pra mim mesma. Essas são as minhas impressões, as minhas avaliações de cada candidato. Mas você pode discordar de todas elas. Pode xingar ou esbravejar.

A minha opinião e a sua tem o mesmo valor. Cada voto vale um. E ponto. A soma de todos nós vai eleger mais um ou uma presidente. Que nós elegemos e podemos criticar ou elogiar a vontade. Que seja assim, para todo o sempre.

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24
setembro
às 15:56

urna eletronica tv 20100824 O destino dos ficha sujas: o voto final é seu!

5 x 5. Se fosse futebol teria sido um jogo memorável, com um grito de gol atrás do outro. Mas no campo do STF, o Supremo Tribunal Federal, estavam os ficha-sujas. E uma pergunta: o que fazer com candidatos já condenados e que insistem em não sair da vida pública?

Cabe ao STF decidir se a Lei da Ficha Limpa,  que pode varrer todas essas excelências ficha-sujas pra fora do cenário político, vale já nesta eleição ou somente para as próximas disputas. O empate no Supremo tem gosto de derrota para o Brasil inteiro. A população, cansada de denúncias de corrupção e impunidade, merecia dar o grito de gol ao ver o nome de cada ficha-suja FORA! Todos excluídos definitivamente do jogo.


Mas a decisão final do STF não deve sair antes das eleições. Sem o décimo-primeiro ministro,  desde que Eros Grau se aposentou, o impasse ainda vai longe. O ministro Cezar Peluso bradou durante a sessão: "não tenho vocação para dėspota", pra esclarecer que, como presidente da casa, não iria votar duas vezes pra desempatar a questão. Pelo menos isso.


Se votasse pra desempatar o jogo, o Brasil teria perdido já que o voto de Peluso é favorável aos ficha-sujas. Tambėm votaram com os ficha-sujas os ministros Josė Antônio Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello. 


Os juristas vão dizer que a questão não é simples. Que está em jogo uma complexa análise das leis, que uma nova lei não pode retroagir para prejudicar ninguém. Prefiro o entendimento de que a lei da Ficha Limpa não está retroagindo. A nova lei simplesmente mudou as regras eleitorais neste país. E, ao chegar a hora da votação, aqueles políticos  que não cumprem às novas exigências, não podem ser candidatos. Pronto. Simples e ético, como deveria ser há muito tempo. 


Lamento o 5 x 5. Lamento o impasse. 


Mas o jogo não está perdido porque o juiz é você, sou eu, somos todos nós. O apito está nas mãos de todos os eleitores. No dia 3 de outubro, no sigilo da urna eleitoral, cada um de nós pode dar o voto que faltou no STF. Contra todos os ficha-sujas.


Sugiro uma consulta ao site Transparência Brasil. Clique aqui. É um bom começo pra quem, como eu, deseja ver uma grande faxina na política nacional. 


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19
agosto
às 12:49

Não há nada que se possa dizer pra defender a favela virtual de José Serra. Luzes, câmeras, ação! E começa o batuque na laje.

E os falsos moradores do falso morro cantam sorridentes e parecem bem felizes e ansiosos pra votar no Serra. 

Como a jornalista Christina Lemos registrou aqui no R7, "Não há bala perdida na favela do Serra". Brilhante observação, Christina.

Nem bala perdida, nem o traficante-dono-do-morro a quem o cidadão de  bem dá bom dia e respeita como amigo, pra não morrer numa emboscada na próxima esquina.

De fato, o medo é real demais pra caber numa favela cenográfica. Mas eu pergunto: quem pode atirar a primeira pedra?

Será tão mais correto e ético assim mostrar os políticos subindo as favelas da vida real? Quantas vezes você já viu essa cena?

O candidato-perfeito-desde-sempre sobe as vielas reais das favelas reais, anda no meio do lixo e do esgoto, aperta muitas e muitas mãos, beija criancinhas, sofre com a miséria de milhões de brasileiros e promete que dali pra frente tudo vai ser diferente.

serra frame A favela do Serra: quem pode atirar a primeira pedra?

Os políticos que sobem as favelas reais, chegam lá, geralmente num dia de sol, céu azul para as imagens da pobreza ficarem mais "bonitas" e "emocionantes" no vídeo.

Eles não chegam lá no meio da enchente, do desabamento, nem do tiroteio. Afinal, seria um risco muito grande de chegar a urna antes da hora - a urna funerária.

A verdade é que a favela dos políticos é sempre editada. Não dá pra decidir pela obra de ficção do programa eleitoral gratuito - seja com favelas "reais" ou virtuais. 

O tal voto consciente é o exercício de escolher quem está menos distante do Brasil real. Quem, pelo menos, sabe o endereço.

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12
agosto
às 15:53

José Serra José Serra se sentiu em casa?

Foto: Reprodução



Dos três principais candidatos à Presidência, José Serra é, sem dúvida, o que se porta com mais naturalidade diante das câmeras. Afinal, é o único que já conhece todo o assédio da imprensa numa corrida rumo ao Palácio do Planalto. Ele é o único que se sentou  pela segunda vez na bancada do Jornal Nacional - fato que o próprio Serra fez questão de lembrar durante a entrevista.

Portanto, é natural que José Serra tenha se expressado com muita calma e eloquência. Mas, terminada a entrevista, uma pergunta ficou no ar: José Serra se sentiu em casa, à vontade, pela experiência que tem ou por que os entrevistadores Fátima e William foram mais gentis com o candidato?

Aliás, pergunta que me foi feita algumas vezes, hoje de manhã, nas ruas do meu bairro. Pelo teor das perguntas, é difícil falar em favorecimento. Algumas questões, por exemplo,  foram semelhantes para o candidato do PSDB e para a candidata do PT, DIlma Rousseff.

A pergunta das alianças políticas é uma delas. Dilma teve que explicar porque se aliou aos oligarcas antes tão criticados pelo PT - José Sarney, Fernando Collor e outras companhias mais. Serra teve que explicar sobre a aliança com o PTB de Roberto Jefferson. Os dois acabaram dando respostas bem parecidas.

Dilma teve que falar da inexperiência nas urnas. Serra teve que falar da inexpressividade de seu candidato a vice, Indio da Costa.

Mas há algo que vai além das perguntas: o tom em que elas são feitas. Aí sim, na minha opinião, sutis diferenças aparecem. Serra foi questionado num tom mais gentil e ameno, mesmo quando as perguntas eram de assuntos polêmicos. Foi interrompido menos vezes.

Diante de Dilma, os questionamentos e interrupções me pareceram mais duros. Aliás, tom que toda entrevista com presidenciáveis deveria ter. Dito isto, me restam dúvidas.

O tom mais ameno com Serra existiu mesmo? Ou me enganei? Foi mera coincidência ou intencional???

Hoje cedo mais interrogações surgiram no meu caminho. Li que Roberto Jefferson - aquele deputado denunciado no escândalo de corrupção nos Correios, pivô das denúncias do mensalão, cassado por quebra de decoro parlamentar - comemorou o tom gentil da entrevista com Serra. Escreveu no Twitter: "facilitaram para o meu candidato". Será que ele quis ajudar ou atrapalhar???

Twitter1 José Serra se sentiu em casa?

Foto: Reprodução/ Twitter Oficial Roberto Jefferson



E ainda me veio mais uma questão, Serra disse na entrevista que os deputados querem cargos no governo para corrupção. O que será que Roberto Jefferson quer ao apoiar Serra???

Dúvidas, quantas dúvidas...

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23
julho
às 14:33

No dia seguinte ao meu encontro com o presidente Lula, em Brasília, minha tarefa era fazer uma reportagem para repercutir a entrevista. Jornais do Brasil e também do exterior deram destaque ao que Lula disse. E, sobretudo, ao que não disse. Aos momentos em que se calou pra chorar.

Mas uma repercussão apenas para repetir alguns trechos e colher opiniões não traria nada de novo para os telespectadores. Logo cedo decidi  mostrar alguns trechos inéditos e também os bastidores da conversa com o presidente. Imagens que mostram Lula descontraído, fazendo piadas, falando da vida dos tempos de operário.

Tudo isso, claro, num momento de campanha política acirrada, me trouxe uma dúvida. Mostrar Lula na intimidade do poder é um exagero? A dúvida me transportou para 2002, ano em que cheguei a Brasília, e para o final da era FHC.

No fim daquele ano, pisei pela primeira vez no gabinete presidencial do Palácio do Planalto pra entrevistar FHC. Uma conversa de apenas 20 minutos,  pra registrar o encontro dele com o cartunista Chico Caruso que havia lançado um livro com as melhores charges que fez de FHC em oito anos.

Tinha em mãos algumas poucas e boas imagens do estilo FHC, elegante e descontraído diante das câmeras. Ontem, tinha muitas e boas imagens do estilo Lula, cativante e emocionado diante das câmeras.

 lula FHC ok Lula, FHC e as reflexões de uma repórter

FHC recebeu o cartunista.

Lula diz que não lê a Veja.

FHC era aclamado como intelectual.

Lula, muitas vezes, tratado como um desqualificado.

Dois momentos.

Compará-los trouxe a resposta para a dúvida desta repórter. Não importam as diferenças entre as duas eras. Se em 2002 eu tivesse entrevistado FHC por uma hora e meia, usaria em minha reportagem cada detalhe dos bastidores.

Presidentes são personagens marcantes.  Amados ou odiados são parte da história. E o cidadão comum, tão distante da intimidade dos palácios, tem direito a chegar um pouco mais perto.

As câmeras de TV podem fazer isso.



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