Tentar escapulir de perguntas difíceis ė um dos exercícios preferidos dos políticos, especialmente em campanha.
Pergunta-se sobre um amargo episódio e o candidato faz um malabarismo pra levar a conversa pra outro rumo completamente diferente, bem mais favorável a si mesmo.
Pois a candidata do PV à Presidência, Marina Silva, nem precisava apelar para esta estratégia, levando-se em conta a própria biografia. Mas foi o que fez ontem na entrevista ao Jornal Nacional.
Perguntada sobre o mensalão - esquema fraudulento de repasse de dinheiro a parlamentares durante primeiro mandato do governo Lula - Marina respondeu que não foi conivente com o caso, mas que decidiu permanecer no governo porque achava que ainda tinha a contribuir para o meio ambiente. Um dos entrevistadores insistiu na questão. E o que fez Marina? Disparou um discurso rumo a outro tema, pra falar que desenvolvimento e meio ambiente são compatíveis.

Foto: Daia Oliver/R7
Algumas ideias que podem ter passado pela cabeça do eleitor: "Marina fugiu do assunto porque tem algo a esconder", "não respondeu por constrangimento"... Alguns podem ter pensado até na velha frase-chavão na boca dos eleitores: "são todos farinha do mesmo saco".
Mas todas estas ideias podem estar erradas. Marina falhou porque quis conduzir a entrevista e não ser conduzida pelos entrevistadores. Queria ter a oportunidade de falar sobre desenvolvimento sustentável e apelou para estratégia equivocada. Errou porque tentou fugir do assunto, quando não precisava. Na insistência dos entrevistadores, poderia ter respondido resumidamente sobre o mensalão mais uma vez e ponto. E foi justamente o que faltou a Marina: o ponto final.
Quem acompanhou a participação da candidata, ficou com a impressão de que ela foi preparada para fazer discurso, não para uma entrevista Foi prolixa. Faltou clareza. Objetividade.
Na fala final, quando tinha 30 segundos pra se despedir, foi interrompida com o boa noite dos apresentadores. Era Marina, mais uma vez, se esquecendo do ponto final.
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A manchete não é sensacionalista. É literal. O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, estava de calças curtas na sabatina do R7.
Valendo-me do detalhismo feminino, percebi logo de cara. Tem canela demais aparecendo, pensei. E brancas, típicas de quem anda sem tempo pra pegar uma praia.
Serra seguiu todo o primeiro bloco da sabatina indiferente ao, digamos, probleminha. Mas os assessores que o acompanhavam também perceberam o detalhe incômodo.
No intervalo, sopraram no ouvido dele e, nos próximos blocos, Serra seguiu ora sem cruzar as pernas, ora brigando pra subir as meias e descer as calças.

Fora esta briga, Serra seguiu zen. Ele próprio disse que estava zen. Brincou, não se irritou com nenhuma pergunta, falou calmamente. Mas atirou.
OS ALVOS DE JOSÉ SERRA
PT, petistas e o governo apanharam no discurso de Serra. E Lula? Bem, o presidente quase nem foi citado. Em duas horas de perguntas, Serra falou as quatro letrinhas L-U-L-A apenas meia dúzia de vezes. Evitou botar o presidente na conversa, pra elogiar ou pra bater. Mas bateu, por outras vias.
OS TIROS DE JOSÉ SERRA
Direita troglodita é quem apoia o presidente do Irā, Mahmoud Ahmadinejad, afirmou, lembrando que no Irã, mulheres que traem os maridos são apedrejadas e jornalistas, perseguidos.
Hugo Chavez é Dilmista.
O governo dá dinheiro de presente para o MST, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Algo que Serra diz que jamais faria.
O Dnit - Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes - é um loteamento político, nāo define prioridades.
Os Correios, o Dnit e a Fundação Nacional de Saúde devem ser reestatizados. Hoje, segundo Serra, não servem aos interesses públicos.
Quando a multa é pequena, tudo vale a pena, referindo-se as multas que a campanha da adversária, Dilma Rousseff, já recebeu.
Neste ponto foi confrontado. Os entrevistadores lembraram que o PSDB também foi multado. Lula também foi multado. Seis vezes.
E aí, fica clara a estratégia serrista de não bater diretamente no presidente.
Questionado se Lula infringe a lei deliberadamente, Serra foi evasivo: "Nao sei. Aí não sei se é o Lula ou o governo". E ponto.
Bater num presidente com quase 80% de aprovação não é de grande valia.
Bater no governo, inevitável pra quem está na oposiçāo.
Se os tiros de Serra irão convencer o eleitor, em alguns meses saberemos.
Quanto as calças, acho que a esta hora elas já seguiram para o gabinete do alfaiate.
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No dia seguinte ao meu encontro com o presidente Lula, em Brasília, minha tarefa era fazer uma reportagem para repercutir a entrevista. Jornais do Brasil e também do exterior deram destaque ao que Lula disse. E, sobretudo, ao que não disse. Aos momentos em que se calou pra chorar.
Mas uma repercussão apenas para repetir alguns trechos e colher opiniões não traria nada de novo para os telespectadores. Logo cedo decidi mostrar alguns trechos inéditos e também os bastidores da conversa com o presidente. Imagens que mostram Lula descontraído, fazendo piadas, falando da vida dos tempos de operário.
Tudo isso, claro, num momento de campanha política acirrada, me trouxe uma dúvida. Mostrar Lula na intimidade do poder é um exagero? A dúvida me transportou para 2002, ano em que cheguei a Brasília, e para o final da era FHC.
No fim daquele ano, pisei pela primeira vez no gabinete presidencial do Palácio do Planalto pra entrevistar FHC. Uma conversa de apenas 20 minutos, pra registrar o encontro dele com o cartunista Chico Caruso que havia lançado um livro com as melhores charges que fez de FHC em oito anos.
Tinha em mãos algumas poucas e boas imagens do estilo FHC, elegante e descontraído diante das câmeras. Ontem, tinha muitas e boas imagens do estilo Lula, cativante e emocionado diante das câmeras.

FHC recebeu o cartunista.
Lula diz que não lê a Veja.
FHC era aclamado como intelectual.
Lula, muitas vezes, tratado como um desqualificado.
Dois momentos.
Compará-los trouxe a resposta para a dúvida desta repórter. Não importam as diferenças entre as duas eras. Se em 2002 eu tivesse entrevistado FHC por uma hora e meia, usaria em minha reportagem cada detalhe dos bastidores.
Presidentes são personagens marcantes. Amados ou odiados são parte da história. E o cidadão comum, tão distante da intimidade dos palácios, tem direito a chegar um pouco mais perto.
As câmeras de TV podem fazer isso.
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