14
setembro
às 18:15

Desde que voltei da mina San José, onde 33 homens esperam o resgate a 700 metros de profundidade, não publiquei aqui no Entre Nós nenhum novo texto. Os amigos estranharam esse silêncio inesperado.


"Um momento de tristeza pela história?", me questionou uma amiga. Pensei por alguns segundos e concordei. Jornalismo exige imparcialidade, isenção, precisão nas informações, mas jornalismo é também emoção.  E pra nós, repórteres, é quando a matéria vai ao ar ou é publicada que a emoção vem mais forte. Sai de cena o técnico da informação, fica a pessoa que se emociona com os fatos que testemunha.


É como se eu tivesse voltado do Chile com a respiração presa, em suspense, com uma sensação claustrofóbica de quem sequer consegue se imaginar  nas condições em que aqueles homens estão. E, mais que isso: acompanhar a força daquelas famílias, conhecer histórias de amor renovadas pelas cartas, histórias de lealdade, testemunhar a certeza deles de que o resgate será bem sucedido me fizeram silenciar pra pensar.


É isso! Foi um silêncio esticado pra parar e pensar em tudo que aprendi em apenas três dias no Chile.


Agora, todos os dias, leio na internet os jornais chilenos - www.latercera.com e www.emol.com. Assim, fico mais perto da história dos mineiros - Los 33, como são chamados no país.


Soube da videoconferência com os parentes, o envio racionado de cigarros, o apoio de sobreviventes do acidente aéreo nos Andes que foram até a mina conversar com as famílias. Virou um reality show, muitos já disseram. Sim, virou. Mas de gente de verdade, de pessoas que não pediram este reality show, não estão ali pela promessa da fama instantânea, do dinheiro fácil.


Los 33 estão ali porque foram vítimas de um acidente numa mina sabidamente sem segurança. Ao sair de lá, poderão dar ao mundo uma lição de força, calma e resistência. Podem, sim, se tornar celebridades. Podem virar livro, documentário e, certamente, essa história vai chegar aos cinemas. Mas por este reality show vale a pena torcer, sofrer e, quando a alma pede, simplesmente silenciar.


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26
agosto
às 08:11

chile blog As mensagens dos mineiros do Atacama

Muita poeira, calor e pouca água durante o dia. Frio e a solidão do deserto à noite. E, dia após dia, a angústia de uma espera que ainda pode levar meses.

Assim estão vivendo as famílias dos 33 mineiros, presos na mina de San José no Atacama, 700 metros abaixo da superfície, cobertos por uma avalanche de terra e pedras.

A mina ganhou um segundo nome "campamento Esperanza", em espanhol.

O acampamento da esperança tem banheiros improvisados, dezenas de barracas de camping, refeitório coletivo e está tomado pelos caminhões e equipamentos da imprensa de várias partes do mundo.

Neste primeiro dia aqui não pudemos chegar perto da boca da mina. Ficamos junto das famílias e o que mais me impressionou foi a resistência de todos eles - jovens e idosos, esposas, pais e mães, crianças...

Muitos chegaram no dia do acidente, 5 de agosto, e ninguém fala em arredar o pé daqui.

Eles passam o dia de olho na área onde são feitas as escavações e o contato com os mineiros. Preocupados mas também felizes com a notícia de que todos estão bem.

Todos exibem como relíquias as primeiras cartas que os mineiros enviaram.  Alguns trechos:

"Estranho não poder ver. Não sabe como sofre a alma aqui embaixo, sem poder dizer que estou bem." escreve Edson para o pai.

"Sigam rezando muito para que eu possa sair daqui e quando isto acontecer, compramos o vestido e nos casamos", é a mensagem de Esteban para a noiva.

"Oi meu amor! Estou aqui pensando em você. Pensei que nunca mais voltaria a te ver. Pensei que não poderia ver nossa filha crescendo. Estou contando as horas pra sair daqui e abraçar vocês", escreveu Cláudio para a mulher.

São mensagens de amor a família e à vida. Lá embaixo, a 700 metros, 33 homens desejam intensamente sair da escuridão e recomeçar a viver.

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