5
julho
às 19:40

Estive duas vezes na Baixada do Glicério pra fazer a reportagem sobre os flagrantes de assaltos na avenida do Estado.

Exibimos no Domingo Espetacular e no Jornal da Record as imagens de 34 tentativas de assaltos, dez roubos consumados, em apenas seis dias de gravação com uma câmera escondida.

Na reportagem do DE, estava registrada a indignação dos moradores que enfrentam diariamente uma rotina de assaltos. E também a entrevista com o tenente de plantão afirmando que a região está muito segura. As imagens estarrecedoras de assaltos em série o desmentiram. A região não estava segura e ainda não está.

Ontem, quando voltei para fazer a repercussão da primeira reportagem, para o Jornal da Record, vi uma situação bem diferente: policiais com motos fazendo rondas, revistando suspeitos, uma viatura estava parada bem em frente ao sinal onde todos os assaltos foram registrados e uma base móvel, estacionada 100 metros adiante.

Foi por isso que escrevi na primeira frase da reportagem: "no ponto dos bandidos, hoje apareceu a polícia".

O que os moradores querem é que não seja apenas uma maquiagem, uma presença por uns poucos dias, pra dar satisfação à opinião pública depois de uma denúncia tão forte, e nada mais.

Por isso, conto a vocês agora o que eu vi na Baixada do Glicério. A primeira situação que nos impressionou foi o grande número de olheiros na entrada do bairro. Fomos com um carro de reportagem sem a logomarca da Record, pra não chamar atenção. Não adiantou.

Logo que chegamos, os olheiros já estavam atentos a todas as pessoas dentro do carro. E também à câmera.  Um dos olheiros usava um rádio de comunicação. Outro, estava com faixas fosforescentes na roupa, como se fosse um guardador de carros. De um olheiro para outro, a informação sobre a nossa presença chegou rapidamente aos rapazes que usavam maconha e crack na passarela do crime. E todos saíram de lá. Deu tempo apenas para registrar algumas imagens do consumo de drogas no local.

A região está cheia de viciados em crack, que ficam pelas margens do rio Tamanduateí no meio de muito lixo e restos de mercadorias roubadas. Vimos vários relógios e também alguns carregadores de laptops e celulares. Certamente, material roubado descartado ali mesmo por não ter o valor esperado pela quadrilha.

Os prédios do bairro estão degradados. Muitos foram abandonados. E é exatamente isso o que os moradores sentem: abandono.

No hospital da Mooca, bem em frente ao ponto dos assaltos, os funcionários são atacados constantemente. Os ladrões pegam qualquer um que saia do trabalho a pé, sozinho. Por isso, um dos funcionários me disse que pra enfrentar o bando de ladrões, eles também tem que andar em bando.

Quando concluímos nosso trabalho, no sábado, ao voltar para o carro, aquele olheiro que estava vestido de flanelinha, cheirava cocaína na palma da mão. Isso as três horas da tarde, no meio da rua. Essa imagem não pudemos fazer. Ele havia acabado de comprar a droga num sobrado e saiu já consumindo o pó. Ligar a câmera e tentar fazer o registro poderia ser perigoso pra nossa equipe, afinal a venda de drogas acontecia ali, bem em frente onde nosso carro estava estacionado.

Enquanto entrávamos no carro pra voltar à redação, avistei na calçada duas adolescentes com cerca de 13 anos, bem arrumadas, saindo de casa num sábado à tarde pra passear. Imaginei a inquietação dos pais que vivem na Baixada do Glicério, obrigados a conviver diariamente com o crime, a criar os filhos num ambiente degradado e ainda obrigados a esconder o rosto e a voz quando são entrevistados porque qualquer exposição pode implicar em represália dos bandidos.

É por tudo isso que a presença da polícia nas ruas do bairro, um dia depois da reportagem, não resolve nada. A polícia tem que chegar e ficar. E não basta a polícia. O Estado tem que chegar, com programas de recuperação de viciados, com escolas que mantenham as crianças e adolescentes envolvidos em atividades pedagógicas e esportivas, bem longe do crime, e também com a recuperação dos espaços públicos tão destruídos.

A Baixada do Glicério é o endereço de muitas famílias trabalhadoras, de pessoas humildes que prestam um serviço essencial para a cidade, recolhendo e reciclando o lixo. Ali, vivem cidadãos honestos que pertencem ao estado de São Paulo, o mais rico do país, e merecem ser vistos com muito mais respeito.

Mas enquanto isso não acontecer, a Baixada do Glicério vai continuar sendo terra de caos, paraíso dos bandidos.

Em tempo:

1- Fiz essa reportagem com a convicção de que é possível fazer reportagens policiais sem sensacionalismo, com prestação de serviço.

2- Lumi Zúnica, esse é o nome do produtor que conseguiu registrar todos os flagrantes de assaltos na região. Ontem, quando voltei lá, muitos motoristas buzinavam e gritavam "parabéns" ou "obrigado, queremos segurança". Pois o grande merecedor destas palavras se chama Lumi Zúnica.


11
maio
às 17:38

Há alguns meses escrevi aqui sobre o projeto de construção de uma nova estação do metrô na avenida Angélica, no bairro Higienópolis, região central de São Paulo.

O projeto estava pronto, o local escolhido, mas havia uma forte rejeição dos moradores do bairro.

Defendi a construção da nova estação, mas perdi.

Descobri isso ao abrir o jornal hoje cedo e ler que o governo do Estado de São Paulo cedeu às pressões dos moradores endinheirados do bairro que não queriam o metrô por temer que a nova estação atraísse camelôs e pessoas "diferenciadas" (pobres, leia-se).

Perdemos todos que achamos que o metrô é imprescindível pra fazer de São Paulo uma cidade, de fato, moderna. Uma cidade onde todos possam deixar o carro na garagem e chegar de metrô a todos os cantos. Sem ter que enfrentar o stress do trânsito já caótico.

O melhor mesmo seria nem comprar carro, já que Higienópolis tem um sério problema de falta de vagas. Apartamentos nobres, sem vagas. Ótima razão pra ter um metrô por perto, não?

Não para aqueles que acham que metrô é pra gente pobre.

Quando vamos aprender que andar de trem, de ônibus, de metrô não deve ser razão de vergonha?

É chique poder sair de casa a pé, pegar o metrô e 15, 20 minutos depois estar no trabalho, na escola, no consultório médico ou seja lá onde for.

Durante um ano vivi em Nova York e me senti bem chique ao percorrer a cidade toda, pelos trilhos do metrô.

Velho, sujo, com pessoas mendigando nas estações... tudo isso. Problemas que a cidade precisa solucionar, mas enquanto isso, o metrô está lá, dia e noite, chegando a todos os lugares, pra todos.

Quem fez campanha contra o metrô e venceu acha mais chique ficar horas no trânsito insuportável, respirando o ar poluído de São Paulo.

Quem fez campanha contra o metrô acha que as pessoas pobres ("diferenciadas", lembram-se?) não podem frequentar a praça Buenos Aires, nem caminhar pelo bairro que é um dos mais charmosos da cidade.

Apartheid camuflado. Preconceito escancarado.

Moramos no mesmo bairro. Mas vivemos em épocas bem diferentes.

Veja mais:
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

19
janeiro
às 18:07

De volta a São Paulo e ao batente.

Pego os jornais dos últimos dias pra tomar um banho de Brasil, após duas semanas fora e o que sinto é um cheiro velho no ar.

Vamos aos fatos.

Mais de 720 mortos na região serrana do Rio de Janeiro, em apenas alguns dias de chuva forte.  A notícia teve grande repercussão em Portugal e na Espanha, por onde andei. As emissoras de TV europeias deram com destaque as imagens e os números da tragédia brasileira.

Quantos janeiros mais serão necessários para acabar com essa história?

Muda o local, mudam as famílias destruídas e o discurso das autoridades é igualzinho. Culpa da chuva muito além do esperado, culpa do velho problema da ocupação irregular das encostas para o qual nunca aparece solução, culpa do lixo que ainda jogamos nos rios e culpa do nosso serviço de previsão do tempo que solta alertas sem especificar nem mesmo onde o perigo é maior. Dá pra chamar isso de alerta?

Quase R$ 500 milhões desviados da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), entre 2007 e 2010. A Controladoria Geral da União cobra a devolução do dinheiro que desapareceu via convênios irregulares, superfaturamento, dinheiro público que escorre pelo ralo mais uma vez. E os caciques da velha política brigando pelos cargos da Funasa feito cão em cima de carne boa. Esse filme a gente já viu quantas vezes?

E por falar em filme... O Brasil mais uma vez está fora do Oscar, fora da disputa para melhor filme estrangeiro. É a Academia que nos persegue ou somos nós que fazemos as indicações erradas?

E na hora de pedir a conta ao garçom.... Mãos ao alto!  Comer em São Paulo é mais caro que em Nova York. E faz tempo! A conta do restaurante aqui é salgadíssima - uma das mais caras do mundo. E eu fico pensando... Será que não vale a pena pegar mais leve nos preços, talvez as casas ficariam mais cheias... Talvez menos restaurantes falissem... Difícil entender.

E os juros que devem aumentar daqui a pouco, de novo?

São apenas algumas das "novas" manchetes emboloradas.

Não começo o ano pessimista, não. Sai pra lá pessimismo!

Só começo o ano atenta. E torcendo pra que brevemente possamos dizer feliz ano novo!

Adeus Brasil velho!

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A