Estive duas vezes na Baixada do Glicério pra fazer a reportagem sobre os flagrantes de assaltos na avenida do Estado.
Exibimos no Domingo Espetacular e no Jornal da Record as imagens de 34 tentativas de assaltos, dez roubos consumados, em apenas seis dias de gravação com uma câmera escondida.
Na reportagem do DE, estava registrada a indignação dos moradores que enfrentam diariamente uma rotina de assaltos. E também a entrevista com o tenente de plantão afirmando que a região está muito segura. As imagens estarrecedoras de assaltos em série o desmentiram. A região não estava segura e ainda não está.
Ontem, quando voltei para fazer a repercussão da primeira reportagem, para o Jornal da Record, vi uma situação bem diferente: policiais com motos fazendo rondas, revistando suspeitos, uma viatura estava parada bem em frente ao sinal onde todos os assaltos foram registrados e uma base móvel, estacionada 100 metros adiante.
Foi por isso que escrevi na primeira frase da reportagem: "no ponto dos bandidos, hoje apareceu a polícia".
O que os moradores querem é que não seja apenas uma maquiagem, uma presença por uns poucos dias, pra dar satisfação à opinião pública depois de uma denúncia tão forte, e nada mais.
Por isso, conto a vocês agora o que eu vi na Baixada do Glicério. A primeira situação que nos impressionou foi o grande número de olheiros na entrada do bairro. Fomos com um carro de reportagem sem a logomarca da Record, pra não chamar atenção. Não adiantou.
Logo que chegamos, os olheiros já estavam atentos a todas as pessoas dentro do carro. E também à câmera. Um dos olheiros usava um rádio de comunicação. Outro, estava com faixas fosforescentes na roupa, como se fosse um guardador de carros. De um olheiro para outro, a informação sobre a nossa presença chegou rapidamente aos rapazes que usavam maconha e crack na passarela do crime. E todos saíram de lá. Deu tempo apenas para registrar algumas imagens do consumo de drogas no local.
A região está cheia de viciados em crack, que ficam pelas margens do rio Tamanduateí no meio de muito lixo e restos de mercadorias roubadas. Vimos vários relógios e também alguns carregadores de laptops e celulares. Certamente, material roubado descartado ali mesmo por não ter o valor esperado pela quadrilha.
Os prédios do bairro estão degradados. Muitos foram abandonados. E é exatamente isso o que os moradores sentem: abandono.
No hospital da Mooca, bem em frente ao ponto dos assaltos, os funcionários são atacados constantemente. Os ladrões pegam qualquer um que saia do trabalho a pé, sozinho. Por isso, um dos funcionários me disse que pra enfrentar o bando de ladrões, eles também tem que andar em bando.
Quando concluímos nosso trabalho, no sábado, ao voltar para o carro, aquele olheiro que estava vestido de flanelinha, cheirava cocaína na palma da mão. Isso as três horas da tarde, no meio da rua. Essa imagem não pudemos fazer. Ele havia acabado de comprar a droga num sobrado e saiu já consumindo o pó. Ligar a câmera e tentar fazer o registro poderia ser perigoso pra nossa equipe, afinal a venda de drogas acontecia ali, bem em frente onde nosso carro estava estacionado.
Enquanto entrávamos no carro pra voltar à redação, avistei na calçada duas adolescentes com cerca de 13 anos, bem arrumadas, saindo de casa num sábado à tarde pra passear. Imaginei a inquietação dos pais que vivem na Baixada do Glicério, obrigados a conviver diariamente com o crime, a criar os filhos num ambiente degradado e ainda obrigados a esconder o rosto e a voz quando são entrevistados porque qualquer exposição pode implicar em represália dos bandidos.
É por tudo isso que a presença da polícia nas ruas do bairro, um dia depois da reportagem, não resolve nada. A polícia tem que chegar e ficar. E não basta a polícia. O Estado tem que chegar, com programas de recuperação de viciados, com escolas que mantenham as crianças e adolescentes envolvidos em atividades pedagógicas e esportivas, bem longe do crime, e também com a recuperação dos espaços públicos tão destruídos.
A Baixada do Glicério é o endereço de muitas famílias trabalhadoras, de pessoas humildes que prestam um serviço essencial para a cidade, recolhendo e reciclando o lixo. Ali, vivem cidadãos honestos que pertencem ao estado de São Paulo, o mais rico do país, e merecem ser vistos com muito mais respeito.
Mas enquanto isso não acontecer, a Baixada do Glicério vai continuar sendo terra de caos, paraíso dos bandidos.
Em tempo:
1- Fiz essa reportagem com a convicção de que é possível fazer reportagens policiais sem sensacionalismo, com prestação de serviço.
2- Lumi Zúnica, esse é o nome do produtor que conseguiu registrar todos os flagrantes de assaltos na região. Ontem, quando voltei lá, muitos motoristas buzinavam e gritavam "parabéns" ou "obrigado, queremos segurança". Pois o grande merecedor destas palavras se chama Lumi Zúnica.










Acompanhe as notícias pelo RSS
