8
abril
às 20:03

Severino Silva Ag O Dia grande A quem culpar?

No desespero, diante do choque da notícia de 12 mortes tão precoces, as perguntas se repetem pelas ruas.

Por quê? O que levou um ex-aluno da escola a atirar contra crianças que nem conhecia?

Cogitações são levantadas com a intenção séria de encontrar respostas, caminhos, mas também com a intenção de apenas fazer espuma.

Li há pouco nas agências de notícias que o rapaz Wellington tinha hábitos repetitivos - cortava o cabelo a cada 30 dias e usava a camisa pra dentro da calça.

Eu corto o cabelo a cada 30 dias. Meu colega, o repórter Afonso de Mônaco, que trabalha no computador ao lado, usa a camisa pra dentro da calça.

Somos todos candidatos a psicopatas, então?

No afã de explicar... No afã de noticiar... Entramos num vale-tudo de teses e palpites.

A quem culpar? Foi a pergunta que me fiz nas últimas horas.

E acho que milhares de pessoas também.

Vamos culpar o congresso, as autoridades que deveriam ter levado adiante ações mais rígidas contra o desarmamento? Sim, podemos.

Conseguir uma arma hoje é tarefa fácil em qualquer grande cidade brasileira. Receio que nas pequenas e médias também. Isto tem que acabar.

Vamos culpar a polícia que não faz um trabalho eficaz no combate a entrada de novas armas no país? Também podemos.

Chuva de flores jadson MArques AE A quem culpar?

Vamos culpar a falta de segurança nas escolas públicas? Sim, também podemos. Basta ficar alguns minutos na porta de uma escola particular pra comprovar que ali, onde as famílias pagam mensalidades, há seguranças com rádios, telefones, algumas chegam a ter rondas motorizadas, no momento da saída dos alunos. Isto pode não evitar um massacre numa escola particular, mas é inegável que deixa os alunos um pouco mais protegidos. Então, sim, podemos culpar também a falta de segurança e investimento nas escolas públicas.

Vamos culpar o psicopata, Wellington de Oliveira, o rapaz de hábitos estranhos, que cortava cabelo uma vez por mês e usava camisa pra dentro da calça.

Ouvi, de orelhada, um comentário na conversa cotidiana das ruas: "ele deveria ter ficado vivo pra pagar pelas 12 mortes".

Sim, aí sim, teríamos o culpado perfeito.

O Wellington.

Está claro que Wellington sofria de problemas muito mais sérios que o cabelo ou a camisa.

Ninguém feliz, amado, com boas perspectivas, com desejo genuíno de viver, agiria da forma que ele agiu...

Ninguém a quem chamamos de emocionalmente equilibrado entraria num rompante escola adentro atirando.

Também li os detalhes de que Wellington premeditou tudo. Teria ido à escola uma semana antes, comprado armas com recarregadores rápidos e treinado para atirar.

Isso só faz pesar a culpa sobre as costas do nosso culpado perfeito.

Mas, ao matar 12 inocentes, com a polícia no calcanhar, Wellington também se matou. E como fazer se não temos o culpado perfeito pra levar aos tribunais?

Wellington nos deixa chocados, aterrorizados, solidários às famílias de Realengo.

Talvez, nesta hora de perplexidade, então, possamos refletir se a culpa não é da sociedade.

Sim, a sociedade, que também pode ser entendida como todos nós.

Vamos, sim, culpar os parlamentares, as autoridades, a polícia, a falta de segurança na escola pública.

Mas, somos nós que votamos nas autoridades. Então nós somos a polícia, nós somos a escola. E quantas vezes ignoramos as discussões e ações sobre a polícia que queremos, a escola que queremos? Isso, sem falar nos que acham normal oferecer uma propina à polícia na hora do aperto, aqueles que acham normal sonegar impostos porque já pagam escolas particulares caras, aqueles que acham normal comprar cocaína porque se o tráfico envolve armas, violência, mas a minha festa vai ser bacana, tudo bem... E por aí vai.

h700 A quem culpar?

Se você chegou até este ponto do texto pode se perguntar: "o que tem Realengo com tudo isso? O que essa louca está escrevendo?"

Pra muitos, nada a ver. Pra mim, tudo.

Acredito, sim, que estamos todos seguindo a vida apressados, cada qual com seu enredo particular, formando juntos uma sociedade que esquece os candidatos a psicopatas pelo caminho.

A escola esquece, as famílias esquecem e nós - que não somos parentes do Wellington (ufa!!!) - nós esquecemos também. Por que lembrar?

Até que um desses que chamamos assim - psicopatas - vai parar nas manchetes dos jornais.

Daí começa a catarse coletiva.

Chocados vamos atrás da resposta... A quem culpar?

Fico desconfiada que estamos precisando nos reinventar como humanos.

Escrevo pensando alto. Sem o intuito de apontar o dedo contra ninguém.

Mas apontando o dedo pra dentro de mim.

Creio que o exercício é necessário e urgente.

Isso pode não eliminar a violência brutal como a que vimos em Realengo.

Mas teríamos, pelo menos, o consolo de estarmos todos tentando.

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8
abril
às 11:40

Nada que se escreva ou se diga irá tirar das famílias de Realengo a dor da perda.

Dor ainda maior quando o rito natural da vida é rompido. Quando pais perdem os filhos.

Doze adolescentes. Como mãe, me ponho por alguns instantes no lugar de cada uma destas famílias, conseguindo apenas imaginar o tamanho deste terrível sofrimento.

Não estou na cobertura deste massacre no Rio de Janeiro. Escrevo para me solidarizar com cada um dos parentes daqueles que morreram.

E também das crianças e adolescentes que escaparam dos tiros, mas ficarão marcadas por este trauma.

Que nossa sociedade saiba cuidar destes pequenos sobreviventes.

Que nossa sociedade saiba refletir sobre o assunto com maturidade.

E que as famílias que hoje se revoltam com tanta brutalidade, com a perda de seus filhos tão jovens, possam um dia reencontrar a paz.

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14
março
às 14:14

Chegamos à região mais afetada pelo terremoto da última sexta-feira (12) no Japão - a Província de Myagi.

Sendai, a capital, é uma cidade grande, com 1 milhão de habitantes. Aos poucos, eles tentam retomar a rotina. Mas como tem sido difícil. Os moradores desta área olham para uma montanha de escombros, um lamaçal enorme na região do aeroporto e parece difícil acreditar no que aconteceu.

Eu e o cinegrafista Joaquim Leite Neto caminhamos pela terra arrasada de Sendai.

E encontramos alguns moradores perplexos, olhando a destruição, tentando encontrar explicações.

As ondas gigantescas avançaram mais de cinco quilômetros sobre a cidade.

Arrastaram tudo o que havia pela frente - carros, aviões, lojas, casas. E pessoas, muitas pessoas....

Quantos moradores foram levados nesta avalanche de água, lama e entulho? Impossível saber.

As informações das agências de notícia do Japão indicam que apenas nesta segunda-feira 2.000 corpos foram encontrados na Província de Myagi. Em Sendai, 200 corpos já foram localizados mas não há equipes de resgate suficientes pra retirar estes corpos do lamaçal.

Enquanto gravávamos a reportagem que será exibida no Jornal da Record de hoje, testemunhamos o heroico trabalho dos policiais e bombeiros.

Poucos homens para vasculhar uma área enorme.

Com pedaços de madeira na mão, eles remexem a lama, olham dentro dos carros. Procuram corpos, como se fossem agulhas no palheiro. Neste local, não há mais esperança de encontrar vida.

Depois de alguns instantes de trabalho, ouvimos um som diferente. Um guarda apita no meio do lamaçal. Os outros policiais espalhados pelo terreno seguem na direção dele.

Isso me fez lembrar uma cena do filme Titanic. Mas lá, no cinema, o apito era pra indicar que havia uma vida a salvar.

Hoje, no fim da tarde em Sendai, o apito era para contabilizar mais uma morte.

Mais uma vítima entre milhares que não tiveram tempo de correr de um tsunami avassalador.

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