No desespero, diante do choque da notícia de 12 mortes tão precoces, as perguntas se repetem pelas ruas.
Por quê? O que levou um ex-aluno da escola a atirar contra crianças que nem conhecia?
Cogitações são levantadas com a intenção séria de encontrar respostas, caminhos, mas também com a intenção de apenas fazer espuma.
Li há pouco nas agências de notícias que o rapaz Wellington tinha hábitos repetitivos - cortava o cabelo a cada 30 dias e usava a camisa pra dentro da calça.
Eu corto o cabelo a cada 30 dias. Meu colega, o repórter Afonso de Mônaco, que trabalha no computador ao lado, usa a camisa pra dentro da calça.
Somos todos candidatos a psicopatas, então?
No afã de explicar... No afã de noticiar... Entramos num vale-tudo de teses e palpites.
A quem culpar? Foi a pergunta que me fiz nas últimas horas.
E acho que milhares de pessoas também.
Vamos culpar o congresso, as autoridades que deveriam ter levado adiante ações mais rígidas contra o desarmamento? Sim, podemos.
Conseguir uma arma hoje é tarefa fácil em qualquer grande cidade brasileira. Receio que nas pequenas e médias também. Isto tem que acabar.
Vamos culpar a polícia que não faz um trabalho eficaz no combate a entrada de novas armas no país? Também podemos.
Vamos culpar a falta de segurança nas escolas públicas? Sim, também podemos. Basta ficar alguns minutos na porta de uma escola particular pra comprovar que ali, onde as famílias pagam mensalidades, há seguranças com rádios, telefones, algumas chegam a ter rondas motorizadas, no momento da saída dos alunos. Isto pode não evitar um massacre numa escola particular, mas é inegável que deixa os alunos um pouco mais protegidos. Então, sim, podemos culpar também a falta de segurança e investimento nas escolas públicas.
Vamos culpar o psicopata, Wellington de Oliveira, o rapaz de hábitos estranhos, que cortava cabelo uma vez por mês e usava camisa pra dentro da calça.
Ouvi, de orelhada, um comentário na conversa cotidiana das ruas: "ele deveria ter ficado vivo pra pagar pelas 12 mortes".
Sim, aí sim, teríamos o culpado perfeito.
O Wellington.
Está claro que Wellington sofria de problemas muito mais sérios que o cabelo ou a camisa.
Ninguém feliz, amado, com boas perspectivas, com desejo genuíno de viver, agiria da forma que ele agiu...
Ninguém a quem chamamos de emocionalmente equilibrado entraria num rompante escola adentro atirando.
Também li os detalhes de que Wellington premeditou tudo. Teria ido à escola uma semana antes, comprado armas com recarregadores rápidos e treinado para atirar.
Isso só faz pesar a culpa sobre as costas do nosso culpado perfeito.
Mas, ao matar 12 inocentes, com a polícia no calcanhar, Wellington também se matou. E como fazer se não temos o culpado perfeito pra levar aos tribunais?
Wellington nos deixa chocados, aterrorizados, solidários às famílias de Realengo.
Talvez, nesta hora de perplexidade, então, possamos refletir se a culpa não é da sociedade.
Sim, a sociedade, que também pode ser entendida como todos nós.
Vamos, sim, culpar os parlamentares, as autoridades, a polícia, a falta de segurança na escola pública.
Mas, somos nós que votamos nas autoridades. Então nós somos a polícia, nós somos a escola. E quantas vezes ignoramos as discussões e ações sobre a polícia que queremos, a escola que queremos? Isso, sem falar nos que acham normal oferecer uma propina à polícia na hora do aperto, aqueles que acham normal sonegar impostos porque já pagam escolas particulares caras, aqueles que acham normal comprar cocaína porque se o tráfico envolve armas, violência, mas a minha festa vai ser bacana, tudo bem... E por aí vai.
Se você chegou até este ponto do texto pode se perguntar: "o que tem Realengo com tudo isso? O que essa louca está escrevendo?"
Pra muitos, nada a ver. Pra mim, tudo.
Acredito, sim, que estamos todos seguindo a vida apressados, cada qual com seu enredo particular, formando juntos uma sociedade que esquece os candidatos a psicopatas pelo caminho.
A escola esquece, as famílias esquecem e nós - que não somos parentes do Wellington (ufa!!!) - nós esquecemos também. Por que lembrar?
Até que um desses que chamamos assim - psicopatas - vai parar nas manchetes dos jornais.
Daí começa a catarse coletiva.
Chocados vamos atrás da resposta... A quem culpar?
Fico desconfiada que estamos precisando nos reinventar como humanos.
Escrevo pensando alto. Sem o intuito de apontar o dedo contra ninguém.
Mas apontando o dedo pra dentro de mim.
Creio que o exercício é necessário e urgente.
Isso pode não eliminar a violência brutal como a que vimos em Realengo.
Mas teríamos, pelo menos, o consolo de estarmos todos tentando.
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