Pisei em Lisboa pela primeira vez nestas férias.
Lá, no Bairro Alto, fui a um restaurante com uma delícia de nome: Farta Brutos. Exatamente como o nome anuncia, um lugar sem frescura, com comida farta, saborosa e doces portugueses pra enlouquecer o freguês. Você não escolhe a sobremesa. As tigelas chegam transbordando e você serve quantas vezes puder.
Bem antes, na entrada, o proprietário oferece um queijo derretido com ervas e não espera a resposta. O queijo surge quentinho seguido de várias outras delícias da casa. E daí pra frente qualquer um diz sim pra tudo que é sugerido ou simplesmente deixado na mesa. É pra ser fartar mesmo.
Mas não fui até lá somente pela comida. Fui também pela história. Era no Farta Brutos que um sujeito bastante sensível saciava a fome com muita frequência. Certamente tinha que se encolher pra atravessar a portinha miúda, escondida atrás das folhagens.
O homem que escreveu livros que marcaram a minha história, o único prêmio Nobel da literatura em língua portuguesa, o autor de Ensaio Sobre a Cegueira vivia ali, entre aquelas mesas apertadas, tomando vinho e comendo bem. De preferência, pataniscas de bacalhau, umas pequenas iscas do peixe bem temperadas e fritas.
Nas fotos, espalhadas pelas paredes, José Saramago aparece rodeado pelos amigos. E no canto preferido do escritor, está o nome dele numa placa colada à parede. Foi na mesa dele que comemos e conversamos durante horas com o dono do restaurante, Francisco.
Saramago frequentou o Farta Brutos por mais de 30 anos. Escolheu o lugar pela amizade com Francisco. Os dois se conheceram ainda jovens. E, claro, além de empanturrar os clientes com boa comida, só tem uma coisa que Francisco gosta mais: contar as histórias do amigo ilustre. Ele mostra bilhetes, cartas, fala dos melhores momentos que viveram... Mata saudades de Saramago a cada freguês com disposição pra ouvir. E eu queria ouvir tudo.
O almoço acabou, as sobremesas chegaram à mesa e, duas horas e meia depois, a conta foi paga. Começou, então, o momento "eu ofereço". Sim, Francisco quer continuar conversando e diz: "eu ofereço dois cálices de Porto pra você e o marido". Logo depois: "eu ofereço mais vinho do Porto" e "eu ofereço... " Aceitei e ganhei a melhor história da viagem.
Francisco conta que ficou muito triste quando Saramago morreu - em junho de 2010. Mas sabia que o amigo não queria ninguém chorando por ele. E sabia também que o Farta Brutos ainda seria o cenário de uma despedida especial para Saramago. Ele estava ansioso a espera que um dos últimos pedidos do amigo fosse atendido. E foi.
No dia 21 de junho - três dias após a morte de Saramago, surge no restaurante a mulher do escritor, a jornalista Pilar del Rio, e outros nove companheiros. Sentam-se à mesa de Saramago e se fartam do bacalhau, dos vinhos e dos doces de lá. Brindam à Saramago, exatamente como ele pediu.
Francisco conta a história com um sotaque ainda mais carregado. Está emocionado e eu me emociono também. Ele mostra a prova de que aquela tarde não foi uma fantasia de um amigo saudoso. O comprovante do pagamento com cartão de crédito. Pilar del Rio pagou 833 euros pelo almoço com os amigos de Saramago. No papelzinho aparece o nome dela, a assinatura e o horário em que a conta foi quitada: 16:21, de uma segunda-feira.
Certamente eles todos saíram de lá bem depois disso. Claro que houve também pra eles os momentos "eu ofereço". Eu saí quase uma hora depois pensando... Esse meu autor predileto soube celebrar a morte. E escolher o amigo...
Fui pelo Saramago. Um dia volto pelo Francisco.
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