20
janeiro
às 14:17

jose saramago getty images A última ceia de Saramago


Pisei em Lisboa pela primeira vez nestas férias.


Lá, no Bairro Alto, fui a um restaurante com uma delícia de nome: Farta Brutos. Exatamente como o nome anuncia, um lugar sem frescura, com comida farta, saborosa e doces portugueses pra enlouquecer o freguês. Você não escolhe a sobremesa. As tigelas chegam transbordando e você serve quantas vezes puder.


Bem antes, na entrada, o proprietário oferece um queijo derretido com ervas e não espera a resposta. O queijo surge quentinho seguido de várias outras delícias da casa. E daí pra frente qualquer um diz sim pra tudo que é sugerido ou simplesmente deixado na mesa. É pra ser fartar mesmo.


Mas não fui até lá somente pela comida. Fui também pela história. Era no Farta Brutos que um sujeito bastante sensível saciava a fome com muita frequência. Certamente tinha que se encolher pra atravessar a portinha miúda, escondida atrás das folhagens.


O homem que escreveu livros que marcaram a minha história, o único prêmio Nobel da literatura em língua portuguesa, o autor de Ensaio Sobre a Cegueira vivia ali, entre aquelas mesas apertadas, tomando vinho e comendo bem. De preferência, pataniscas de bacalhau, umas pequenas iscas do peixe bem temperadas e fritas.


Nas fotos, espalhadas pelas paredes,  José Saramago aparece rodeado pelos amigos. E no canto preferido do escritor, está o nome dele numa placa  colada à parede. Foi na mesa dele que comemos e conversamos durante horas com o dono do restaurante, Francisco.


Saramago frequentou o Farta Brutos por mais de 30 anos. Escolheu o lugar pela amizade com Francisco. Os dois se conheceram ainda jovens. E, claro, além de empanturrar os clientes com boa comida, só tem uma coisa que Francisco gosta mais: contar as histórias do amigo ilustre. Ele mostra bilhetes, cartas,  fala dos melhores momentos que viveram... Mata saudades de Saramago a cada freguês com disposição pra ouvir. E eu queria ouvir tudo.


O almoço acabou, as sobremesas chegaram à mesa e, duas horas e meia depois, a conta foi paga. Começou, então,  o momento "eu ofereço". Sim, Francisco quer continuar conversando e diz: "eu ofereço dois cálices de Porto pra você e o marido". Logo depois: "eu ofereço mais vinho do Porto" e "eu ofereço... " Aceitei e ganhei a melhor história da viagem.


Francisco conta que ficou muito triste quando Saramago morreu - em junho de 2010. Mas sabia que o amigo não queria ninguém chorando por ele. E sabia também que o Farta Brutos ainda seria o cenário de uma despedida especial para Saramago. Ele estava ansioso a espera que um dos últimos pedidos do amigo fosse atendido. E foi.


No dia 21 de junho - três dias após a morte de Saramago, surge no restaurante a mulher do escritor, a jornalista Pilar del Rio,  e outros nove companheiros. Sentam-se à mesa de Saramago e se fartam do bacalhau, dos vinhos e dos doces de lá. Brindam à Saramago, exatamente como ele pediu.


Francisco conta a história com um sotaque ainda mais carregado. Está emocionado e eu me emociono também. Ele mostra a prova de que aquela tarde não foi uma fantasia de um amigo saudoso. O comprovante do pagamento com cartão de crédito. Pilar del Rio pagou 833 euros pelo almoço com os amigos de Saramago. No papelzinho aparece o nome dela, a assinatura e o horário em que a conta foi quitada: 16:21, de uma segunda-feira.


Certamente eles todos saíram de lá bem depois disso. Claro que houve também pra eles os momentos "eu ofereço". Eu saí quase uma hora depois pensando... Esse meu autor predileto soube celebrar a morte. E escolher o amigo...


Fui pelo Saramago. Um dia volto pelo Francisco.


adriano saramago ok A última ceia de Saramago


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15
novembro
às 12:36

Falei que não podia contar todos os bastidores da viagem da presidente eleita, pra não quebrar o ineditismo da reportagem do Domingo Espetacular. E não podia mesmo.


Agora que já foi ao ar, aqui está... o resultado de dois dias e meio seguindo os passos de Dilma Rousseff. Alguns irão perguntar, porque mostrar os detalhes não-oficiais de uma viagem, o que ela viu, comeu... o que experimentou?


Simples, porque até as maiores autoridades são de carne e osso. Feito qualquer um de nós.  Depois de mostrar a Dilma candidata, procuramos mostrar simplesmente a Dilma por trás da presidente eleita. Espero que tenham gostado.


Amanhã faço o caminho de volta. Mais 30 horas de viagem até o Brasil... Voltar é sempre bom.

14
novembro
às 16:41

Daqui a pouco ela chega ao Planalto pra trabalhar. E ao Alvorada pra dormir.

Mas a presidente eleita, Dilma Rousseff,  já passou por um outro palácio esta semana. Foi durante a rápida visita que fez à Coreia do Sul.

Foram apenas dois dias e meio em Seul, uma agenda cheia de compromissos do G-20, a imprensa inteira de plantão na porta do hotel e, mesmo assim, Dilma conseguiu escapar por algumas horas pra conhecer um pouco mais da história sul-coreana.

O palácio visitado por Dilma tem um nome  impronunciável, com nove consoantes e apenas quatro vogais. Palácio Gyeongbokgung. A morada dos antigos monarcas chineses. Foi o palácio principal da Dinastia Joseon, que teve inicio em 1392. Ou seja, o Palácio já estava lá, imponente, cercado por lindas montanhas bem antes da descoberta do Brasil.

Na verdade, não se trata de um palácio só. São várias construções coloridas dentro de uma imensa área retangular onde havia a residência da rainha, do rei, dos parentes, as áreas de trabalho e lazer. Diante do palácio  principal ficam as lápides onde os reis foram enterrados.

Estas construções já foram destruídas algumas vezes ao longo da história e reconstruídas no estilo original pelos coreanos.

3 O castelo de Dilma

2 O castelo de Dilma

1 O castelo de Dilma

4 O castelo de Dilma

O zelo pela história é admirável neles.

O lugar é patrimônio da humanidade e sagrado para a população do país.

Dilma Rousseff, com seu jeitão objetivo, não deu muitos detalhes da visita. Quando apareceu diante dos jornalistas, disse apenas: "fui lá e voltei. É muito bonito."

Não sei o que mais impressionou a presidente. Pra  mim, além do colorido dos prédios e da beleza das montanhas ao redor, são as noivas de Gyeongbokgung que roubam a cena.

Elas peregrinam pra lá em busca dos melhores ângulos para as fotos do casório.

E os vestidos... bem, só vendo pra entender.

É hoje à noite no Domingo Espetacular. Vamos mostrar também muitas outras curiosidades da primeira viagem internacional de Dilma depois de eleita. Apenas a nossa equipe viajou com ela no avião.

Qual será a comida que ela mais gostou? E o que deixou pra trás?

Não posso contar agora, senão meu chefe me torce a orelha.

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