Em dois dias vou para Israel. Sim, isso mesmo. Menos de um ano depois de chegar no Brasil, volto a Israel. Vou para um "seminário" de política da Federação Israelita do Estado de São Paulo, chamado Assefa Ba'Aretz. Junto a um grupo de mais 22 pessoas, passarei oito dias conversando com personalidades importantes de Israel, como o ministro da educação, o embaixador do Brasil em Israel entre outros. O programa não tem com objetivo uma lavagem cerebral, inclusive porque se tivesse eu não iria. Falaremos com pessoas de oposição ao governo atual, com palestinos, com pessoas que estudam a ISIS e o que está acontecendo no Iraque e na Síria e com muitos outros. Ficaremos hospedados em Jerusalém, mas viajaremos pelo país de acordo com a programação.

A viagem é intensa e bastante corrida, o único momento livre entre o dia 20, em que chego, até o dia 26, em que termina o programa, é antes de começar o shabat, na sexta-feira, dia 24. Vou embora de Israel no dia 27, sendo assim, terei um dia entre o final da Assefa e minha volta ao Brasil. Um dia em Israel, em Jerusalém, onde morei nos quatro primeiros meses do último ano. É difícil de acreditar. Desde que tive essa notícia, há pouco mais de duas semanas, é complicado viver o hoje, sem pensar no dia 18, quando embarco. Não consegui nem começar a pensar no que levarei, no que colocarei na mala, porque é difícil de acreditar.

Decidi me inscrever para participar dessa viagem faz tempo. Tinha que escrever um projeto, um mini CV e conseguir uma carta de recomendação de um presidente de alguma instituição judaica, e o prazo para mandar tudo era 19 de setembro. Enviei tudo no último dia que podia, sem ter ideia do que aconteceria. Eram duas vagas e eu não tinha ideia de quantas outras pessoas tinham mandado o material. Algumas semanas depois, que passei muito ansiosa, fiquei sabendo que tinha sido selecionada. Quase chorei na hora, e desde então não tenho entendido muito bem o que está acontecendo.

Quando desembarquei no Brasil era dia 8 de janeiro deste ano. Achei que só iria novamente para Israel em 2015 ou depois. Mas também sabia que faria tudo para voltar o quanto antes. Porém, tenho certeza que será uma experiência completamente diferente, na qual a única semelhança é o local. O Shnat teve toda uma parte mágica pelas companhias, por ter ido com meus melhores amigos e ter voltado com o sentimento fortalecido em relação a eles, além de pessoas novas que conheci lá. Agora vou sem ninguém que seja meu amigo, sendo a mais nova do grupo, que é composto por pessoas de idades bastante variadas. Sem dúvidas, além de todo o conteúdo que terei lá, será uma experiência enriquecedora viajar "sozinha", algo que nunca fiz.

Chego no Brasil no dia 28, ou seja, não votarei no segundo turno das eleições. Não sei ainda se acho isso bom ou ruim, porque é importante fazer meu papel. Mas não abriria mão dessa oportunidade pelo voto.

Têm pessoas que não entendem. Pelo simples fato de não quererem entender, e quando é o caso, não importa o quanto você insista, eles vão continuar sem entender nada.

No debate de ontem o candidato Eduardo Jorge disse ao tão criticado Levy Fidelix que ele deveria pedir desculpas ao povo brasileiro. A resposta do candidato do PRTB foi: "Você não tem moral nenhuma para me falar disso. O sr. propõe que o jovem use maconha, faz apologia ao crime". Claramente ele não entendeu nada, absolutamente nada que o candidato do PV propõe em sua campanha. Mais que isso, Fidelix não entende e não quer entender nenhum argumento que defende a descriminalização da maconha e do aborto nem a criminalização da homofobia, que não é uma opinião, mas um crime de ódio.

Infelizmente ele não é o único. Falando antes sobre a homofobia, há gente homofóbica que você nem imagina que seja. Gente que apoia Levy e que acha que ele está certo mesmo.

Há, também, quem não se importe. Que simplesmente não vê essa causa como relevante no dia a dia. Acredito que a parte social de um plano de governo inclua tal tema. Tornar uma sociedade igualitária não é apenas lutar para todos tenham o mesmo poder de compra, mas os mesmos direitos, que todos possam andar na rua livremente, sendo como são sem serem discriminados, ou seja, diferenciados por sua orientação sexual. Não acho que sejamos aptos a dizer que é uma “opção”.

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”, disse Martin Luther King. A realidade e os números expressam que quem cala consente: em 2013, 312 homossexuais foram mortos no Brasil, isto é, um a cada 28 horas de acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB). Somos o país com maior índice de homicídios de homossexuais. Será que realmente podemos nos omitir sobre esse assunto? Será que não é relevante pensar nisso ao votar em um candidato?
A estudante Cláudia Costa, 20 anos, opina que a ideia de escolher sua sexualidade é completamente errada: “se sexualidade é opção, quando você (heterossexual) escolheu ser hétero? Se é opção, porque eu, conscientemente, iria escolher ser marginalizada e descriminada? É bem simples”.
“É importante [criminalizar a homofobia] porque pessoas apanham e morrem apenas por serem homossexuais/transexuais. Nenhum hétero/cis apanha POR SER hétero. O próprio hétero sofre com a homofobia: olha o caso dos irmãos na Bahia. Ambos héteros, e sofreram agressão que resultou em morte porque acharam que eram gays”, afirma a estudante. Cláudia acredita que criminalizar a homofobia não é um privilégio. é você tratar um crime de ódio como crime de ódio.

Outro tema polêmico e de grande importância para a sociedade brasileira é a legalização ou descriminalização da maconha. O grupo de notícias UN estimam que 56,12% dos assassinatos tenham ligação direta com o tráfico. E os mortos, em sua maioria, são de jovens pobres de 15 a 25 anos. As fontes sobre o assunto são inúmeras. Temos livros especializados no assunto, documentários que demoraram anos para serem feitos e mostram um lado quase invisível para as classes A e B, especialmente.

Quando pessoas como o Levy Fidelix afirmam que a luta pela descriminalização é incentivar a juventude a fumar maconha falta abrir os olhos e a cabeça para outra visão.

No programa da Rádio Jovem Pan, Os Pingos nos Is, um dos apresentadores disse que caso alguém quisesse ver uma sociedade em que drogas são legalizadas era só ir a Cracolândia, no centro de São Paulo. Sugiro que ele vá a Amsterdam. Primeiro, é preciso entender se a proposta é LEGALIZAR ou DESCRIMINALIZAR. E se a proposta trata sobre maconha ou sobre todas as drogas. A generalização é sempre negativa.

Legalizar quer dizer que as drogas poderiam ser usadas em qualquer lugar, poderiam ser comercializadas. Assim como o álcool, a venda e o consumo seriam regulamentados pelo governo.

Descriminalizar é tirar das drogas o estigma criminoso. O uso continua sendo ilícito, mas não há pena para seu uso.

A maconha é a droga mais discutida atualmente pois tem uso recreativo entre a população e, além disso, tem usos medicinais comprovados.

Daniel Jaca, 24 anos, é a favor tanto descriminalização quanto da legalização da maconha e justifica: “sou a favor da descriminalização, e da legalização por acreditar que regulamentando o plantio, distribuição e consumo, estaríamos indo contra o tráfico como conhecemos, passando a gerar empregos dentro da área, diminuindo o confronto entre polícia e traficantes, e aumentando a segurança para usuários em geral”.

No Hoje, no Brasil, o crime é o tráfico de drogas, assim, usuários não são presos, porém traficantes sim. E tal fato é ressaltado pela estudante de direito Talitha Caldeira, 20 anos, que estagia com direito criminal e vivencia quantos casos de trafico são registrados. “Os ricos utilizam drogas e movimentam esse mercado sem sofrer nenhuma consequência, enquanto os pobres que traficam porque é um dinheiro mais fácil, são os prejudicados”, opina. Talitha ressalta que cerca de 95% das mulheres que estão presas hoje em dia no Brasil por trafico de drogas.

Acho impressionante que, sobre os dois temas, isso sem mencionar a polêmica do aborto, os três candidatos com maior porcentagem dos votos não se pronunciam sobre o assunto. Só mencionaram a criminalização da homofobia quanto surgiram as polêmicas na campanha da candidata do PSB, Marina Silva. Caso ninguém tivesse tocado no assunto, continuaria assim. O triste é saber que são esses candidatos que representam grande parte da população brasileira: ficam calados diante de problemas tão grandes e importantes quando a economia, educação, saúde.

Há muitas práticas da religião judaica que não me agradam, especialmente das correntes mais ortodoxas. Respeito a maioria, só não as que me desrespeitam. Porém, acho que ver o judaísmo apenas como religião é muito limitado. Há, também, o povo judeu, a cultura judaica. Sim, são coisas diferentes.

Um povo é composto por pessoas diferentes e diversas, com todas as opiniões possíveis, chegando a ser até controversas. Sendo assim, cada um tem sua própria concepção das festas judaicas, de acordo com suas crenças pessoais, sua história, seu passado e outras variantes.

Há quem acredite que as festas são momentos de intensa relação com D-us. Essa relação pode ser realizada de formas diferentes, também. Alguns vão a sinagoga rezar, outros estabelecem seus modos particulares de fazê-lo. Há quem veja as festas judaicas não como uma forma de aproximar-se de forças maiores, mas daquilo que está conosco todos os dias, seja a natureza, nós mesmo e/ou o outro.

O que mais admiro na cultura judaica é esse momento que é oferecido para que se possa refletir. É importante pensarmos na nossa relação com o outro, conosco, com D-us, com a natureza e com o que/quem nós mesmos considerarmos importantes.

Quarta e quinta-feira foi Rosh Hashaná, que quer dizer "cabeça do ano", ou seja, é o ano novo judaico, marcado pela criação do primeiro homem e da primeira mulher. Não é igual dia 31 de dezembro que todos passam de branco e festejam até caírem. Não desmereço o ano novo laico, adoro a comemoração, porém, acho que tem um significado diferente de Rosh Hashaná, é outra proposta.

Rosh Hashaná, para mim, que não chego nem perto de ser uma pessoa religiosa, é um oportunidade de recomeço. Nessa festa judaica diz-se que D-us nos escreve no livro da vida para o próximo ano. Todos queremos ser inscritos no livro da vida, queremos ter mais tempo para fazer mais coisas da nossa vida, fazemos planos e queremos poder realizá-los. Assim, devemos fazer por merecer nossa escritura. Sendo verdade que D-us. Levando isso ao pé da letra ou não, é válido levar isso como reflexão.

Acredito que Rosh Hashaná é uma proposta que nos é feita. Uma proposta para refletir, repensar tudo que fizemos no último ano, de avaliar nossas atitudes e a nós mesmos. Nessa época do ano nós temos essa oportunidade. Quando digo "nós" não falo sobre o povo judeu, mas sobre qualquer um que conheça o significado dessa festa.

É estranho que isso seja chamado de "festa", aliás. Parece que não há uma comemoração, que não estamos festejando nada. É comum que se tenha nos dois dias de Rosh Hashaná jantares em família. Porém, festejamos sim. Festejamos o que temos de bom em nossas vidas, e festejamos a nova chance que temos: de melhorar, de crescer, de aprender e, especialmente, de mudar. Não sou crente que a mudança dentro de cada pessoa venha de D-us. Acredito com todo meu coração que ela venha de nós mesmos, que queremos mudar e ser pessoas melhores para o mundo, assim, tornando-o um lugar melhor.

Shaná Tová Umetuká- isto é, um ano bom e doce. Que possamos refletir, repensar e recomeçar. Que sejamos todos reescritos no livro da vida, por nós mesmos.

Jean Wyllys. Queria me mudar para o Rio de Janeiro só para saber em quem votar para o cargo de Deputado Federal.

Recentemente terminei de ler a autobiografia do candidato, Tempo bom, tempo ruim. Mesmo tendo um início de vida bastante pobre e sem grandes perspectivas, em nenhum momento o autor se põe no papel de coitado, mas de alguém que lutou pelo que acreditava desde sempre, traçando seus próprios caminhos a partir de suas crenças pessoais.

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Porém, Jean Wyllys não se atém somente em falar de si, mas em dar uma aula de política, de pensamentos inovadores e que quebram qualquer argumento tradicionalista e conservador. Desde projetos e postural sobre sua principal bandeira, a causa LGBT, até propostas de melhora do atual modelo de governo brasileiro, as 200 páginas escritas pelo atual Deputado são uma aula de política.

Mais que isso, tive a impressão que parte da mágica que Jean viveu e soube por em palavras e em seu livro, ele conseguiu quebrar as barreiras entre estar na televisão, na parte de entretenimento, e ser um intelectual, engajado politicamente e que busca, a cada dia, novas ferramentas para fazer do mundo um lugar melhor. Em 2005 ele estava no Big Brother Brasil, o maior reality show do país. Lá fez sua fama, mas soube mudar sua imagem ao longo do seu tempo, usando seu trabalho e sua luta pelos direitos LGBT e, mais que isso, pelo direitos humanos, para fazer sua carreira com muito sucesso.

Até aos corações mais descrentes em uma mudança na política de nosso país, a perspectiva de Jean Wyllys revive esperanças.

Me assusta que haja pessoas que reprovam a postura dele, que veem como algo que vai contra "os princípios da família", seja lá que família é essa que não aceita as diferenças de seus membros. Aconselharia essa leitura até às pessoas mais conservadoras que existem por aqui, que votam em militares e apoiam a volta da ditadura. Quem sabe não seja uma boa lição sobre cidadania, sobre aceitar o outro e pensar tanto nele quanto em você e no seu próprio umbigo.

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O atual Deputado Estadual pelo Rio de Janeiro comprou a causa da minorias, dos que não tem direitos iguais. Assim, seu slogan é sensível e ideal: "um de nós". Porque ele é mesmo, é mais um brasileiro que é discriminado no dia a dia e que, ainda assim, continua acreditando nos seus ideais.

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Talvez o mais incrível sobre esse candidato seja a falta de medo de reprovação por expor suas opiniões. Ele acredita, e fala e tem coragem. Aliás, em seu livro o autor critica e questiona não só a esquerda brasileira como o partido a qual ele é filiado. Diferente de muitos, Jean Wyllys é capaz de discernir "a melhor opção" do "ideal".

Voe, Jean Wyllys. Que um dia sua campanha tenha tanto volume e apoio que você possa ser eleito para um cargo ainda maior e que continue disseminando essa ideologia inovadora, altruísta e consciente pelo mundo. Quem me dera o mundo fosse feito de mais pessoas assim.

Terminando esse texto notei como falei como se o candidato fosse perfeito. Ele com certeza não é, afinal, é humano. Ele não tem propostas para todas as áreas do país, ele tem um foco, que são os direitos humanos e a reforma da política em relação a eles. Não daria para se candidatar à Presidência da República sem pensar em outros aspectos, como a economia. Pensando no foco que Jean Wyllys tem, ele sabe exercer o seu papel.

Sobre tudo que falarei, parto do princípio que todos temos esperanças. Independente de ser bom ou ruim tê-las, elas existem. São produzidas por nós, mesmo que sem intenção, e projetam expectativas. Nossas esperanças sempre apontam para que, em nossas vidas, tudo acabe bem. Mas não é bem assim que tudo acontece.

Acredito que a maior falácia motivacional que existe é a que garante que, no final, tudo dará certo e, se ainda não deu, é porque ainda não chegou o final. Não vivemos em filmes da Disney ou comédias românticas com 120 minutos de duração.

Quantas coisas não terminam mal? Desde vidas que são tiradas de maneira violenta e brutal até um simples dia em que coisas ruins aconteceram. Têm sim um monte de coisas que acabam mal. Relacionamentos podem acabar mal, demissões podem acabar mal e por ai vai. A vida é um eterno risco. Tudo que começa acaba, e corre risco de ter um desfecho negativo. A parte boa é que tudo que acaba mal já acabou. E você tem a chance de recomeçar.

Sempre dá para virar a página, para tentar algo novo, para ir do zero. Claro que não é fácil, afinal, exige vontade e coragem. Nem sempre nos sentimos seguros para largar as nossas certezas, mesmo que elas não estejam nos fazendo bem, para começar de novo de algo incerto, sem segurança ou garantia. O fim nem sempre é lindo, nem sempre é a melhor parte, e sim o recomeço.

O recomeço traz novas esperanças, novas perspectivas, novas oportunidades. A insegurança e o desconhecido trazem novas vontades, novas motivações e isso sim é "dar certo", nem que seja por apenas um momento. Essa é a parte que é, quase sempre, mágica e feliz.

Assim, o que quero dizer é: pode ser que o final seja bom, mas nem sempre. O que há de mais lindo é o recomeço.

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