Publicado em 27/04/2015 às 20h07

A primeira vez que errei

Uma pessoa muito querida me disse "você não fala do seu novo estágio como você falava do outro. Quando você passou no outros, seus olhos brilhavam, agora não mais".

Eu mudei de estágio. Eu saí da ESPN e não foi fácil tomar essa decisão, simplesmente porque não é fácil desistir de algo que você queria tanto ou que você lutou tanto para que se tornasse realidade. Porém, eu não estava feliz. Simplesmente não deu certo. E foi aquele papo bem de fim de namoro: "o problema não é você, sou eu". E foi isso mesmo, o problema era eu, que não me encontrei como estagiária de TV.

Eu sentia falta das letras, sentia falta de mexer na informação diretamente, de dizer alguma coisa para alguém.

Em outras gerações talvez o emprego não passasse de uma obrigação. Você deveria cumpri-la e a missão estava completa. Mas hoje o trabalho é a sua vida inteira, é tudo e mais um pouco. Mesmo quando você não está no trabalho, você está pensando nele, falando dele, fazendo algo que talvez se encaixasse no trabalho.

Na ESPN eu tinha uma função que muitas outras pessoas adorariam ter, estava ocupando um lugar onde outra pessoa seria feliz, enquanto eu não era.

Então, eu mudei de trabalho. Fui trabalhar no site da Revista Forbes, onde eu escrevo o dia inteiro. Claro que a minoria dos textos são meus, mas nesse período - pouco mais de um mês - eu percebi que eu procurei os meus objetivos e minha felicidade no lugar certo, onde eu sempre soube que seria feliz, na escrita.

Claro que eu já tinha errado. Mas dessa vez era. Eu já tinha tomado decisões ruins, mas nunca tinha tomado uma decisão que tivesse sido errada da forma que foi, mas para tudo tem uma primeira vez na vida. E como toda primeira vez, foi difícil. Fechei uma pauta hoje cujo tema lembra essa situação toda: errei meu curso, e agora? Não errei meu curso, mas tinha errado minha área.

Foi bom ouvir, ao longo desse tempo, que tanta gente errou e erra todos dias. Afinal, tenho certeza que continuarei errando. O importante é tirar lições importantes de fases turbulentas da vida. Do meu erro aprendi mais de mim mesma. Do meu erro procurei uma nova oportunidade e aprendi que quando você trabalha com alguma coisa que te realiza, que te completa, tudo melhora. Acho que o maior impacto que isso teve em mim foi no momento em que uma amiga da faculdade me disse que até minha voz tinha mudado desde que me encontrei um pouco mais.

Não é como se tudo fosse perfeito - aliás, nada é. Não é como se eu fosse ter só um emprego pro resto vida - inclusive, espero muito que ainda tenha muitos.

Mas aprendi a errar. E aprendi que dá pra errar e pra ser feliz depois isso, porque tudo passa. Mesmo se as algo der errado de novo, provavelmente vai voltar a dar certo depois.

Hoje meus olhos talvez não brilhem mais quando falo do meu novo estágio como brilharam quando passei na ESPN, mas talvez nenhum outro estágio tenha esse efeito, e não tem problema. Pelo simples motivo de que aprendi que nada é isento de defeitos e que toda experiência tem seu lado bom e seu lado ruim.

Enfim, eu mudei de emprego e eu estou feliz.

Publicado em 13/04/2015 às 19h20

Felicidade todo dia?

Um dia desses ela me perguntou se nós somos obrigados a sermos felizes.

Não... Mas deveríamos querer ser. E prezar por isso. E nos esforçarmos para isso.

Mas ai pensei o que seria de nós se realmente existe esse compromisso todo, de estar feliz 100% do tempo, de sorrir por tudo.

Frejat não achava que seria bom. Achava que rir de tudo era coisa de gente desesperada.

Têm dias que são ruins mesmo, e a gente quer desabar.

Quer saber? Pode.

Se forem todos, temos um problema.

Se todos forem felizes, temos uma mentira.

Ninguém conhece o prazer sem a dor. Ninguém conhece a alegria sem a tristeza.

Nem todo dia é de sol. Nem todo dia tudo tudo dá certo.

Tem que chover pra encher a cantareira, não dá para tomar sol todos os dias.

E faz parte. A gente aprende assim.

Tô muito mais com Vinicius do que com Chico.

Não existe lei que nos obrigue a ser feliz. Mesmo que ser alegre seja bem melhor do que ser triste.

Não tem obrigação, tem determinação.

Publicado em 07/04/2015 às 20h21

A escravidão que nos impomos

Estamos no meio do feriado de Pessach, feriado judaico que lembra a saída dos judeus do Egito. Os judeus religiosos têm a tradição de lembrar esse momento da história não comendo chametz, ou seja, nada que é fermentado, porque na pressa da fuga o povo não teve tempo de fermentar o pão. Por isso, nessa época do ano é comum comer matzá.

Um valor normalmente relacionado com Pessach é a liberdade. Para mim, que quase não cumpro ritos religiosos, é importante ressignificar os feirados judaicos, porque acredito que todos eles têm algo a nos ensinar. Li um texto uma vez falando sobre os nossos sairmos dos nossos próprios Egitos, ou seja, sermos capazes de nos libertarmos daquilo que nos prende e nos faz mal.

No clima da festa, refleti sobre quanto somos feitos escravos das opiniões de outras pessoas. Muitas vezes, mesmo quando estamos infelizes, ou simplesmente insatisfeitos, aceitamos essa condição por ouvirmos conselhos alheios, não nos esforçando para mudar.

Apesar de muitos argumentarem que ninguém é livre de verdade, acredito que há momentos em que tomamos atitudes libertadores, por mais que elas durem apenas alguns segundos. Quando se trata de nós mesmos, somos os únicos que podem tomar decisões, sejam elas certas ou erradas. Se der certo, ótimo. Se não der, acontece. Aprendemos com nossos erros e ninguém pode viver essas experiências no nosso lugar.

Para mim isso tem relação direta com a outra comemoração do dia de hoje: o dia do jornalista. Ser jornalista tem tudo a ver com se libertar de Egitos internos, com não se render a ser escravo de uma fonte, ou de um veículo ou de trabalhar em algum lugar que não se encaixa com sua ideologia pessoal. Faz parte da profissão não se prender a opiniões alheias e ser independente e autossuficiente para exercer o trabalho jornalístico. Imagina se cada jornalista do mundo levar em consideração tudo que ouve?

Ser jornalista envolve o comprometimento com a verdade, envolve não se aprisionar na escravidão da vaidade, preocupando-se com marcas, com aparecer, além do mais, envolve ser feliz no meio dessa loucura toda. Ser jornalista é, talvez, nunca ter sua vida pessoal separada da profissional.

Mais importante que tudo, ser jornalista é ajudar a tirar pessoas da escravidão da ignorância do dia a dia, da qual só podemos nos libertar pela informação.

jornalista A escravidão que nos impomos

Publicado em 18/03/2015 às 22h54

Liberdade não assegurada

A laicidade do Estado brasileiro sempre me intrigou. Em meio a crise de confiança entre sociedade e governo, o caso continua a chamar atenção.

O Estado garante muitos direitos aos cidadãos que deixam de ser cumpridos. A promessa de ser um país laico está feita na Carta Magna de 1988, a mais recente Constituição Brasileira, no artigo 5˚:

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

Nota-se, porém, que no dia 15, essa liberdade não foi assegurada.

Charlyane Souza, 29, estava fazendo a prova para passar na OAB, Ordem dos Advogados do Brasil e, mais de uma vez, foi interrompida enquanto fazia o exame por causa de sua hijab.

O que é isso?

hijab designs Liberdade não assegurada

Uma veste que se usa na religião islâmica, religião seguida pela aluna. Ela, em entrevista ao UOL, alega que leu todo o edital da prova e nada dizia-se sobre o tema. Conta que, além de ter sido revistada ao chegar, foi questionada duas vezes. Para piorar, a primeira mulher que foi falar com ela alegou que ela estava usando um objeto de chapelaria.

CHAPELARIA? Sério? Ai entra a questão da laicidade: cadê o respeito com a religião que nos é estranha? Seria a mesma coisa que pedir para que um judeu tirasse sua kipá, alegando ser um chapéu.

Somos ignorantes e preconceituosos com o islamismo. Mas nota-se um aspecto pior que esse: há a imposição de uma religião sobre as demais ou mesmo sobre aqueles que decidem não seguir religião nenhuma.

O catolicismo está em toda parte. Às vezes passa despercebido, mas a ditadura da maioria pode ser notada em mais de um órgão público no Brasil, provando a fragilidade do termo "laico".

Brazilian Supreme Federal Tribunal 1024x625 Liberdade não assegurada

Por que tem uma cruz no Supremo Tribunal Federal? Não que o certo fosse ter a representatividade de todas as religiões, pois no Brasil elas são inúmeras. Contando todas as vertentes do cristianismo, há pelo menos 15. Ainda assim, o Brasil não se declara como pluralista, mas LAICO. Ou seja, nada que diga a respeito do Estado deve estar ligado a qualquer tipo de religião.

Tal qual uma estudante não poderia ser prejudicada pela ignorância em relação às escolhas pessoais dela. Talvez a cruz no STF não ofenda muitos, porém, ele é uma mera prova de que o Brasil não está pronto para deixar de lado a ditadura da maioria, impondo a vontade de muitos e oprimindo minorias, como é o caso de Charlyane.

Disseram a ela que ela deveria ter feito um pedido dizendo ter uma "necessidade especial", como se tivesse algum tipo de deficiência, e não apenas uma diferença do que se considera "normal".

Mas o que mais pode se esperar de um país onde não se abona falta por respeitar feriados religiosos?

Publicado em 17/03/2015 às 17h15

Jornalista nasce pra ser livre

Jornalistas nasceram para ser livres.

Essa foi a lição que mais senti no longo caminho que traço todos os dias na pretensão de ser uma. Claro que os grandes sonhos consistem em ser empregado de uma empresa gigante, seja de jornal, televisão ou assessoria de imprensa. Porém, dentro de cada um que escolhe o jornalismo, há um passarinho querendo sair da gaiola e voar longe. Sem ser empregado de ninguém, sem receber ordens ou sem dever grandes satisfações. O jornalista apesar de passar bastante tempo preso nas redações, sente grande necessidade de dar uma volta sem dever nada a ninguém, de fazer uma pauta louca, de escrever sobre um tema interessante para poucos, de desvendar algo que lhe incita muita curiosidade.

Jornalistas não são livres.

Dependem de fontes, de superiores para aprovar a pauta, de verba para realizar uma matéria. Dependem da boa vontade alheia, do que o público pagante tem vontade de ver/ler. O que faz o caminho diário sinuoso e cansativo, muitas vezes. O jornalismo é muito humano, cheio de pressão, decepção e conquistas, sejam elas gigantes ou as pequenas do dia a dia.

"Ninguém é livre de verdade", pensa você, entretanto, acho que o fardo do jornalista é nunca separar sua vida pessoal de seu trabalho. Quem escolhe esse caminho trabalha consigo mesmo como matéria prima e principal ferramenta de trabalho, sendo, assim, eternamente aprisionado por sua escolha e paixão.

Talvez, o mais bonito em toda essa jornada, porém, seja o fato de que a luz no fim do túnel sempre está lá, mesmo que ficando a cada dia mais distante. Não existe jornalista perfeito. Assim como não existe ser humano perfeito. Quando se melhora, sabe-se que é possível ir além e ser melhor ainda.

Faz anos que decidi que queria ser jornalista, mas apenas quatro que aceitei encarar essa jornada. Sabia que não seria fácil, mas a cada dia ela se prova ainda mais difícil. O que só dá mais vontade de continuar tentando até ser metade do que planejo.

Essa foto que você está vendo no canto esquerdo superior é de 2011. Eu adoraria que ela fosse mudada, mas como não mudam, aproveito-a para lembrar de como eu era e do que eu vivia na época em que decidi criar meu blog. Hoje o timehop me contou que ele completa quatro anos.

Lembro bem que a sugestão, naquele momento, já tinha vindo mais de uma vez, mas demorei para criar coragem. Coragem de emitir minhas opiniões pro mundo, coragem de levar tapa na cara, de ser criticada e julgada livremente por qualquer um que passasse por aqui. Sem dúvidas, hoje, quatro anos depois, sou bem feliz por essa escolha de ter um espaço em que sou livre e eu mesma.

Perfil

Anita Efraim, estudante de jornalismo na ESPM. Vivendo a vida desde 25 de setembro de 1994, e com este blog compartilha cada dia que vive em busca de algo que não tem ideia do que seja.

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