A laicidade do Estado brasileiro sempre me intrigou. Em meio a crise de confiança entre sociedade e governo, o caso continua a chamar atenção.

O Estado garante muitos direitos aos cidadãos que deixam de ser cumpridos. A promessa de ser um país laico está feita na Carta Magna de 1988, a mais recente Constituição Brasileira, no artigo 5˚:

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

Nota-se, porém, que no dia 15, essa liberdade não foi assegurada.

Charlyane Souza, 29, estava fazendo a prova para passar na OAB, Ordem dos Advogados do Brasil e, mais de uma vez, foi interrompida enquanto fazia o exame por causa de sua hijab.

O que é isso?

hijab designs Liberdade não assegurada

Uma veste que se usa na religião islâmica, religião seguida pela aluna. Ela, em entrevista ao UOL, alega que leu todo o edital da prova e nada dizia-se sobre o tema. Conta que, além de ter sido revistada ao chegar, foi questionada duas vezes. Para piorar, a primeira mulher que foi falar com ela alegou que ela estava usando um objeto de chapelaria.

CHAPELARIA? Sério? Ai entra a questão da laicidade: cadê o respeito com a religião que nos é estranha? Seria a mesma coisa que pedir para que um judeu tirasse sua kipá, alegando ser um chapéu.

Somos ignorantes e preconceituosos com o islamismo. Mas nota-se um aspecto pior que esse: há a imposição de uma religião sobre as demais ou mesmo sobre aqueles que decidem não seguir religião nenhuma.

O catolicismo está em toda parte. Às vezes passa despercebido, mas a ditadura da maioria pode ser notada em mais de um órgão público no Brasil, provando a fragilidade do termo "laico".

Brazilian Supreme Federal Tribunal 1024x625 Liberdade não assegurada

Por que tem uma cruz no Supremo Tribunal Federal? Não que o certo fosse ter a representatividade de todas as religiões, pois no Brasil elas são inúmeras. Contando todas as vertentes do cristianismo, há pelo menos 15. Ainda assim, o Brasil não se declara como pluralista, mas LAICO. Ou seja, nada que diga a respeito do Estado deve estar ligado a qualquer tipo de religião.

Tal qual uma estudante não poderia ser prejudicada pela ignorância em relação às escolhas pessoais dela. Talvez a cruz no STF não ofenda muitos, porém, ele é uma mera prova de que o Brasil não está pronto para deixar de lado a ditadura da maioria, impondo a vontade de muitos e oprimindo minorias, como é o caso de Charlyane.

Disseram a ela que ela deveria ter feito um pedido dizendo ter uma "necessidade especial", como se tivesse algum tipo de deficiência, e não apenas uma diferença do que se considera "normal".

Mas o que mais pode se esperar de um país onde não se abona falta por respeitar feriados religiosos?

Jornalistas nasceram para ser livres.

Essa foi a lição que mais senti no longo caminho que traço todos os dias na pretensão de ser uma. Claro que os grandes sonhos consistem em ser empregado de uma empresa gigante, seja de jornal, televisão ou assessoria de imprensa. Porém, dentro de cada um que escolhe o jornalismo, há um passarinho querendo sair da gaiola e voar longe. Sem ser empregado de ninguém, sem receber ordens ou sem dever grandes satisfações. O jornalista apesar de passar bastante tempo preso nas redações, sente grande necessidade de dar uma volta sem dever nada a ninguém, de fazer uma pauta louca, de escrever sobre um tema interessante para poucos, de desvendar algo que lhe incita muita curiosidade.

Jornalistas não são livres.

Dependem de fontes, de superiores para aprovar a pauta, de verba para realizar uma matéria. Dependem da boa vontade alheia, do que o público pagante tem vontade de ver/ler. O que faz o caminho diário sinuoso e cansativo, muitas vezes. O jornalismo é muito humano, cheio de pressão, decepção e conquistas, sejam elas gigantes ou as pequenas do dia a dia.

"Ninguém é livre de verdade", pensa você, entretanto, acho que o fardo do jornalista é nunca separar sua vida pessoal de seu trabalho. Quem escolhe esse caminho trabalha consigo mesmo como matéria prima e principal ferramenta de trabalho, sendo, assim, eternamente aprisionado por sua escolha e paixão.

Talvez, o mais bonito em toda essa jornada, porém, seja o fato de que a luz no fim do túnel sempre está lá, mesmo que ficando a cada dia mais distante. Não existe jornalista perfeito. Assim como não existe ser humano perfeito. Quando se melhora, sabe-se que é possível ir além e ser melhor ainda.

Faz anos que decidi que queria ser jornalista, mas apenas quatro que aceitei encarar essa jornada. Sabia que não seria fácil, mas a cada dia ela se prova ainda mais difícil. O que só dá mais vontade de continuar tentando até ser metade do que planejo.

Essa foto que você está vendo no canto esquerdo superior é de 2011. Eu adoraria que ela fosse mudada, mas como não mudam, aproveito-a para lembrar de como eu era e do que eu vivia na época em que decidi criar meu blog. Hoje o timehop me contou que ele completa quatro anos.

Lembro bem que a sugestão, naquele momento, já tinha vindo mais de uma vez, mas demorei para criar coragem. Coragem de emitir minhas opiniões pro mundo, coragem de levar tapa na cara, de ser criticada e julgada livremente por qualquer um que passasse por aqui. Sem dúvidas, hoje, quatro anos depois, sou bem feliz por essa escolha de ter um espaço em que sou livre e eu mesma.

Pouco mais de um ano atrás, quando voltei de Israel, meus pais me incentivaram bastante a começar a correr. Nunca tive muito jeito, mas resolvi tentar, o que eu tinha a perder?

O começo foi difícil. A passada e a respiração sem treino, muito distantes do ideal para alguém que corre. Treinos leves que duravam quase 40 minutos e não chegavam nem aos 5 km.

Porém, o mais importante foi: em nenhum momento houve a menos possibilidade de desistência. Comecei a correr certa de que eu queria melhorar e me esforçaria para isso, independente de quanto tempo levasse.

Terminei o ano passado tendo feito quatro corridas de rua, todas de 5 km, correndo bem, fazendo tempos bons. Na primeira vez fiz 34 minutos, na última, 30. O progresso é lento e entre uma dor e outra, mas quando a gente se esforça, ele vem

IMG 9726 Os quilômetros que deixamos para trás

Sempre corro com minha mãe, eu sempre correndo 5 e ela 10. No fim do 2014 nos inscrevi para uma corrida no Dia Internacional da Mulher. Dessa vez um desafio para mim e um pouco mais fácil para ela: 8 km.

Treinei muito, achei que não fosse conseguir. Cheguei aos 7 km bem, mas achei que os 8 seriam muito mais difíceis. Mas consegui.

Fiz a prova em 00h52min42. Não me importei tanto com o tempo, esse vai melhorando aos poucos, mas com não desistir do meu objetivo principal: 3 km a mais do que estava acostumada a correr.

Durante esse período de treinos notei o quanto a corrida ensina sobre a vida. O paralelo não poderia fazer mais sentido:

Quando se começa a correr, tem-se um objetivo, seja em relação a tempo ou quilometragem. E tem que penar para conseguir. Tem que dedicar sempre e se esforçar. Além disso, é importantíssimo, talvez até essencial, pedir ajuda. Um iniciante não tem conhecimento básico. Talvez não saiba que não se pode apenas sair correndo, tem que fortalecer quadril, pernas e por ai vai. Quem acabou de começar não sabe seus limites, não sabe montar seus próprios treinos. Se insistir nisso, pode acabar se machucando.

Correr cansa.

Se você respira errado, dói.

Se você diminui a velocidade, o tempo piora.

Se você forçar demais, se machuca.

Ficar correndo muito tempo pode encher a paciência, imagina só quem corre 21 km, 42 km, e por ai vai.

Mas quando você termina o seu objetivo daquele dia, vale MUITO a pena.

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O mais importante é que, independente de ter sido ajudado, o mérito de conseguir chegar aonde quer é seu. Foi você que correu, você que treinou, fortaleceu seus músculos e superou suas próprias expectativas.

Sem contar que correr se torna terapia, vira o momento em que você pode não pensar em mais nada e não prestar atenção em nada além de você e seu esforço e crescimento.

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Todo esse processo demanda tempo e dedicação. Você não começa a correr e, do nada, está correndo meia maratona – no meu caso, nem mesmo 10 km. É um processo e depende do seu esforço.

IMG 1166 Os quilômetros que deixamos para trás

Queria agradecer e parabenizar todos que correm e sabem o quão difícil é todo esse longo o processo, mas o quanto é gostoso olhar e ver todos aqueles quilômetros que deixamos para trás.

“People sometimes sneer at those who run every day, claiming they'll go to any length to live longer. But don't think that's the reason most people run. Most runners run not because they want to live longer, but because they want to live life to the fullest".

16
fev
10h05

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, é o escritor do livro Tempos Líquidos, que faz uma analise da sociedade atual baseada na insegurança de todos nós. Essa insegurança faz com que tudo se esvaeça muito rapidamente. O que é líquido flui. Por isso, Bauman afirma que os tempos, hoje, são líquidos: passam rápido demais.

Noto que o futebol é um reflexo do paradigma atual de tudo que se vive. Os números astronômicos dados sobre a corrupção também existem dentro do esporte mais popular no Brasil, por exemplo. Temo, inclusive, dizer que não são corrupções diferentes - estão intimamente ligadas. Sendo assim, os tempos líquidos identificados por Bauman em nossa sociedade dão suas caras no futebol.

Todo time tem grandes ídolos. Jogadores inesquecíveis que fizeram história no clube e consagraram-se, carregando, para sempre, o escudo respectivo como parte da sua identidade. Antigamente era comum achar, alguns exemplos saem facilmente:

Mesmo quem não entende nada de futebol sabe que Raí jogou no São Paulo. Destaque no Botafogo de Ribeirão Preto e na Ponte Preta, ganhou uma oportunidade no São Paulo quando tinha 22 anos. Ficou 6 anos no clube, fez 393 jogos e marcou 128 gols. Saiu em 1993 para ir jogar na Europa, no PSG, e voltou ao Brasil cinco anos depois. Claramente para o clube que o consagrou: o São Paulo.

Ademir da Guia pouco ficou no Bangu, no Rio de Janeiro, e foi jogar no Palmeiras, em 1962. Fez 901 jogos pelo Palestra onde, 15 anos depois, aposentou-se, tendo marcado 198 gols.

Zico chegou ao Flamengo em 1971, ficou dois anos na Itália e saiu definitivamente no clube de seu coração em 1989. Até hoje o ídolo é constantemente homenageado pela torcida rubro negra.

Hoje é difícil mencionar grandes ídolos que fizeram carreira em um time e não trocaram. Quantos, hoje, são os que fizeram do clube onde jogaram, o mesmo do seu coração? Quando, antes, seria comum ir assistir um clássico no estádio e ouvir tantos gritos acusando um jogador de ser traidor, mercenário?

Todo santista sentiu uma facada doída no coração quando Ganso, aquele que era a dupla do até hoje ídolo Neymar, transferir-se para o maior rival, São Paulo.

Que palmeirense não tem mágoa de Alan Kardec, artilheiro da série B em 2013, que foi jogar no São Paulo, um dos grandes rivais do clube? Ainda mais quando ele, usando a camisa tricolor, balançou as redes contra seu antigo time.

O futebol acompanha os tempos líquidos deixando poucos remanescentes que creem que honrar o clube é uma das grandes vitórias do jogador. Porém, o coração do torcedor não vem acompanhado de racionalidade. Quem se importa com a liquidez da sociedade? Torcedor quer jogador que honre a camisa, que beije o escudo quando faz gol e que nunca o faça por outro time, muito menos um rival.

Não adianta nenhum jogador ter a habilidade de Pelé se não ama a camisa que veste, como ele amava a do Santos.

pele comemorando no pedra enxuta 0 Liquidez no futebol

De que adianta ter um Viola, que marca gol no dérbi, imita um porco e, depois, vai jogar no maior rival pra depois imitar um gavião?

Claro que existe a parte financeira. Todos os jogadores querem ganhar melhor, mas precisa ser no time rival? Além do que, se o cara é craque, ele vai ganhar bem.

Jefferson, goleiro do Botafogo, é caso raro. Chega a arrancar suspiros de torcedores de outros clubes pelo amor à camisa que veste. Mesmo com salários atrasados, jogando a segunda divisão do Brasileiro, apesar de ser goleiro da Seleção, Jefferson quis ficar. Ele poderia ter processado seu time, como fez Arouca, e ido para outro clube, onde seria titular pelo seu nível. Mas como poucos fazem, escolheu ser ídolo. Assim como fez Rogério Ceni durante toda sua carreira.

jeff Liquidez no futebol

A ferida da "traição" é profunda e poucas vezes superável. Pra quem é louco pro futebol, jogador bom é jogador como Sócrates: que pediu pra morrer num dia de jogo, com seu time campeão. E o universo, que deve gostar de futebol também, atendeu aos pedidos.

socrates Liquidez no futebol

Eu não ia para a Disney desde 2007 e não tinha nem ideia de quando voltaria. Os planos das minhas férias eram passar 10 dias em Miami com minha melhor amiga. Porém, percebemos que ficaríamos um pouco entediadas todo esse tempo no mesmo lugar e, com muito incentivo do irmão dela, resolvemos ir passar dois dias na Disney.

Um pouco loucura mas, o fizemos. Decidimos de um dia pro outro ir, reservamos hotel, alugamos um carro e fomos. Como não teríamos muito tempo, nos planejamos ir em dois parques da Disney, o MGM e o Epcot, e nos dois da Universal, que tem a parte do Harry Potter, a parte mais esperada da viagem, pelo menos por mim.

Chegamos tarde em Orlando e fomos a recepção pegar a chave do quarto e nos deparamos com algo que não sabíamos: agora tudo na Disney funciona com a Magic Band.

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Essa é a chave do seu quarto, mas muito mais que isso, é quase seu passaporte no complexo Disney. Quando você compra seu passe para os parques, ele está ai. Você pode até fazer compras nos parques com isso. A instrução é simples: é só colocar o Mickey com o Mickey.

Acordamos cedo e fomos para o MGM, onde ficam brinquedos clássicos, como a montanha russa do Aerosmith, e o elevador que cai, da série antiga Twilight Zone. A tarde fomos para o Epcot e ficamos lá até o jantar, para poder comer no Japão.

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O dia foi gostoso, apesar de extremamente cansativo. Mas depois de sete anos sem ir, notei que algo chama mais atenção assim que você entre no parque, que não os brinquedos: as lojinhas. É impressionante. Todas as lojinhas são iguais, mas mesmo assim, dá vontade de entrar em todas e ver cada coisinha que tem dentro. O marketing deles é muito baseado no emocional. Minha geração cresceu vendo os desenhos da Disney, não importa se é um homem ou mulher, dá vontade de levar um pouco da sua infância com você dos parques.

Mas esse saudosismo não foi metade do que senti no dia seguinte. A Universal trouxe muito mais emoção do que a Disney, não só pelos brinquedos que são muito melhores.

Hoje no trabalho meu chefe estava falando sobre filmes de adolescente que marcaram época e me perguntou se eu era da geração Harry Potter. Fiz que sim com a cabeça com um sorriso enorme no rosto. Sou, desde os 12 anos, apaixonada, fissurada, pela saga do bruxo.

Assim que entramos na Universal quis ir correndo para a parte correspondente ao Beco Diagonal. Tive que me segurar, mas quando cheguei, acho que travei por alguns instantes. É uma réplica idêntica. Não sabia em qual loja queria entrar primeiro: na de artigos de quadribol, do Olivaras e por ai vai. Não estou exagerando quando digo que quase chorei de tanta felicidade no meio do brinquedo, que era como se fosse dentro do banco de Gringgots. Ele é um pouco montanha russa, um pouco simulador, com hologramas dos personagens principais.

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Depois pegamos o Expresso Hogwarts para chegar à Hogsmead, que fica no Island of Adventure. Mais bem feito impossível e com mais lojas ainda.

Eu tenho 20 anos e estudo em uma faculdade focada em propaganda e marketing. Acho que isso mudou totalmente meu modo de ver a Disney e a Universal. Tudo é feito para que você compre, para que você fique TÃO feliz que se esqueça que não deveria estar comprando aquela besteirinha de tiara da Minnie (prometo que isso eu não comprei) por mais de US$20,00 (que agora significam quase R$55).

Mas o mais impressionante é que, mesmo consciente de tudo isso, eu cai como um patinho. Eu queria comprar tudo, tive que me segurar mais para não fazê-lo. Foi por muito pouco que eu não comprei um gorro da Grifinória, como metade das pessoas que estavam lá, mas ai pensei que eu não precisava gastar US$40,00 por algo que usaria tão poucas vezes na vida. As vestes iguais as dos personagem do filme custam MUITO caro, e mesmo assim, todo mundo compra, afinal, Harry Potter marcou época. Quem não quer deixar de ser trouxa e parecer com um bruxo?

A Disney, assim como a Universal, despertam algo dentro de nós que parece irracional. Se pessoas mais velhas ficam assim, fico imaginando uma criança pequena nos parques, encontrando seus personagens favoritos por ai. Todo mundo quer levar um pouco da Disney embora.

Não tinha um modo melhor de ter acabado as minhas últimas férias "como criança", sem grandes responsabilidades.

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