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Publicado em 27/11/2014 às 06:00

Leia O Inescrito

es Leia <i>O Inescrito</i>

Era uma vez uma marca de quadrinhos que davam vertigem. Foi devorada pelas beiradas. Agora revive seus tempos de glória, em uma série que celebra o poder das histórias.

Publicado em 26/11/2014 às 06:00

Quem quer fama, quer loucura

 

es Quem quer fama, quer loucura

Neil Strauss e amigas

De perto, todo artista desaponta. Mas alguns capricham no egocentrismo e birutice. E uma coleção de minutos assim dá um livro sensacional - o melhor do pior, por Neil Strauss.

Publicado em 25/11/2014 às 06:00

Planeje seu ano com as brasileiras lindas da minha infância

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Os maiores símbolos sexuais dos anos 70 tinham duas dimensões. Benício as colocou em cartazes de cinema e capas de pocket books. Agora elas voltaram. E uma vai me fazer feliz o ano todo, em 2015.

Publicado em 24/11/2014 às 06:00

Despeça-se de Jack Bruce

dsds Despeça se de Jack Bruce

Durante dois curtos anos, ele estava entre a nata do rock. Ou será que era outra coisa? Foi-se embora e nos convida a ouvir um álbum precioso e semiesquecido: Goodbye.

Publicado em 21/11/2014 às 07:25

Edite sua vida em The Newsroom

l Edite sua vida em <i>The Newsroom</i>

É americaníssima, para o bem e para o mal. É liberal de coração mole. E é um absurdo de bem escrita, editada, costurada, interpretada. A preferida dos jornalistas: The Newsroom.

Publicado em 19/11/2014 às 11:26

Interestelar: uma odisséia ao umbigo

okokok <i>Interestelar</i>: uma odisséia ao umbigo

Não há sequências ou personagens memoráveis nos 169 minutos de Interestelar. A alardeada premissa científica é lugar comum no cinema desde O Planeta dos Macacos, 1968. Só ouvimos duas notas, as únicas no repertório do diretor Christopher Nolan: solene e estridente.

O roteiro conecta coincidências. Não há emoção verdadeira. Os momentos eletrizantes são de matinê, "o computador quebrou, vou ter que dar a volta no buraco negro usando só o manual" etc.

O protagonista vai do piloto audaz ao frio engenheiro sem razão e na velocidade da luz. Ao alcançar seu grande objetivo, o abandona.

Já vimos esses efeitos especiais em filmes anteriores e melhores, como 2001. Em A Origem, do próprio Christopher Nolan. E em uma pá de seriados de divulgação científica, como a recente reinvenção de Cosmos.

O filme acaba quando começa Elysium. O futuro pertence a uns poucos ricaços sortudos, vivendo em condomínios espaciais de luxo. Faltou mostrar os bilhões de miseráveis chafurdando na Terra.

O colunista Georges Monbiot elogiou Interestelar como filme emocionante (não é) e criticou pela mensagem. O herói, logo no começo do filme, explicita: "nós nascemos para ser pioneiros, exploradores, não cuidadores... não estamos na Terra para morrer aqui, mas para deixá-la".

É propaganda da exploração espacial, preferencialmente privada, modinha do momento entre bilionários gringos. É postura indefensável em tempos de aquecimento planetário, pontua Monbiot. Como a unificação da economia e a globalização das culturas, o desafio climático impõe soluções consensadas e transnacionais, além do horizonte do empreendedorismo cowboy.

Interestelar viaja a outra galáxia  sem deixar a órbita do umbigo de Christopher Nolan. O diretor e co-roteirista se pretende intelectual, ideólogo, terapeuta, ambientalista. Quer fazer grande arte e vender pipoca. Quer demais.

Gravidade, outro pseudoépico espacial recente, era assumidamente sobre nada, fora embasbacar o espectador. Interestelar quer ser sobre tudo. E assim em tudo falha.

 

Publicado em 19/11/2014 às 07:00

Faça o que eu digo: investigue o mundo preto e branco de Eduardo Risso

 

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Todo gibi nasce em preto e branco. Ninguém vivo contrasta os dois com a categoria, crueldade e sex-appeal de Eduardo Risso.

Publicado em 18/11/2014 às 07:00

Faça o que eu digo: ouça o disco que mais ouvi na vida

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Todo mundo tem um disco favorito. É o disco que você mais ouviu na vida. Esse é o meu. Qual é o seu?

Publicado em 17/11/2014 às 07:00

Faça o que eu digo: embarque em Night Train, de Martin Amis

amis and hitchens 1 Faça o que eu digo: embarque em <i>Night Train</i>, de Martin Amis

Sou fã de livros secretos de autores conhecidos. Aqueles que nunca entram nas listas de leituras obrigatórias. Que são esquecidos depois de uns anos, obras "menores". Esse é um caso clássico. Grande autor, pequeno livro. Mas vai em velocidade de bala até um final irritantamente inconclusivo. E por isso mesmo, perfeito (e, sim, é Christopher Hitchens ao lado de Amis na foto acima, giovanottos, anos 70...).

Publicado em 14/11/2014 às 08:00

Faça o que eu digo: leia o mangá antes de assistir No Limite do Amanhã

maga Faça o que eu digo: leia o mangá antes de assistir <i>No Limite do Amanhã</i>

O mangá é ficção científica. O filme inspirado nele é uma comédia romântica - Tropas Estelares no Feitiço do Tempo. Li a tradução para o inglês, All You Need is Kill, e vi o DVD, tudo no mesmo final de semana.  Faça isso, ou espere a versão brasileira do mangá. Foi anunciado para breve, pela JBC. Mas tenho boas razões para te dizer para ler antes de assistir - e elas estão aqui.

Publicado em 13/11/2014 às 08:56

Minha nova série em vídeo: Faça o Que Eu Digo

ok Minha nova série em vídeo: Faça o Que Eu Digo

Falar do que te interessa com os amigos, ou conversar com desconhecidos sobre o que interessa a todo mundo? É a encruzilhada que todos enfrentamos, nós, os milhões que publicam em plataformas digitais, profissionalmente ou não. Não há caminho certo o errado. Há que cada um criar o seu, se quiser e puder.

"Amigos" no caso são amigos mesmo, não amigos de Facebook. Não precisa ser íntimo. Não precisa nem você ter visto ao vivo. Mas é gente com quem você tem um tanto de interesses e referências em comum. Alguma confluência de pontos de vista e jeito de viver. Isso gera algum afeto e respeito. Mesmo na mais radical discordância.

Nos últimos anos tentei escrever da maneira mais inclusiva possível. Para ser entendido pela tiazinha e pelo molecote. Evito assuntos obtusos, construções estrambóticas, artefatos culturais cultuados. Não consigo evitar ambiguidade ou humor atravessado, porque automáticos, e blog, claro, depende do dia, das fases da lua e tal.

O resultado era previsível, mas não previ. Meu impacto é cada vez maior sobre gente que me interessa pouco. Por quem tenho pouco respeito e nenhum carinho. Não se trata de desprezar o transeunte. É que antes das redes sociais o cara estava passando na minha rua. Agora, lá pelo terceiro ou quarto nível de compartilhamento, meu texto está chegando a gente que não sabe quem eu sou, nunca ouviu falar de mim e frequentemente nunca ouviu falar de 99% dos assuntos que me interessam na vida. Aí fica difícil. E fica chato fazer blog.

Para arejar um pouco os pensamentos, começo uma série nova no blog. São videozinhos curtos, sempre uma recomendação de uma coisa específica. Não precisa ser um troço desconhecido, mas melhor se não estiver na cara de todos. Sem obrigações de agenda cultural e dane-se o lançamento da semana.

Começo com livro, filme, disco, mangá. No futuro posso recomendar o que me der na telha, um lugar, uma comida, um brinquedinho, sei lá. É mais que recomendação, é uma ordem, e foi assim que batizei, para clarear o caminho: "Faça o que eu digo". Leia esse livro, assista esse filme. Porque nesta série de vídeos só tem o bom e o ótimo. São inimigos frequentes, mas odiemos mais o morno e o médio.

Por escrito, manterei o esforço de comunicação inclusivo (mas tentando excluir leitor burro). Em vídeo, falarei diretamente aos amigos, atuais e futuros. Compartilhando o que me emociona e impressiona, olho no olho.

Esses vídeos não vão causar polêmicas nem atrair grande audiência. Sem problema. Está ótimo se render um ou outro papo legal. Civilização é conversa...

O primeiro vídeo da série está aqui. O tema é: J.D. Salinger. Assista. Faça o que eu digo!

Publicado em 11/11/2014 às 12:50

Assista esse documentário: Memórias de Salinger

Jerome estava no desembarque da Normandia - e levava, embrulhado junto ao peito, páginas de O Apanhador no Campo de Centeio.

Publicado em 31/10/2014 às 07:17

O príncipe, os pavões, e o problema com livros pop

capa Ronnie Von Luta 1024x423 O príncipe, os pavões, e o problema com livros pop

Só André Barcinski encontraria um elo orgânico e inquebrantável entre nomes que parecem distoar tanto: Sidney Magal e Guilherme Arantes, Odair José e Ednardo, Raul Seixas e a Turma do Balão Mágico. Em termos geracionais, faz sentido instantâneo: todos eles frequentavam os mesmos programas de auditório, onde dublavam os sucessos das AMs sob os gritos das colegas de trabalho, entre as coxas de chacretes, lebres, boletes.

Barcinski tem essa combinação única de afeto e rigor, humor malévolo e espírito prático. Só o xará para ser produtivo paca morando em Parati, de frente para o mar... Seu novo livro, Pavões Misteriosos - 1974-1983: A Explosão da Música Pop no Brasil explicita o amor de André pelos personagens. O que evidentemente não os coloca a salvo de críticas ou gozação.

O defeito de Pavões Misteriosos, para mim, que cresci com eles, e com Barça, porque não, nos conhecemos há um quarto de século - é a pressa. O livro cobre uma década, mas passa voando. 25 páginas para os Secos e Molhados, 15 para a disco music brasileira, umas paginetas para a virada comercial da MPB, outras para os primórdios cheirados do rock 80. Cada capítulo é uma delícia que se vai rápido demais. Fechei o livro com "blue balls", como dizem elegantemente os gringos.

capa pavoesmist 1000x1500 1 O príncipe, os pavões, e o problema com livros pop

Se cada um destes pavões valeria um livro, como criticar uma biografia de outro artista-enigma do mesmo período, Ronnie Von? Com jeito, porque também de autoria de dois amigos e colegas, Antonio Guerreiro e Luiz Pimentel. E, que falta de originalidade, pela exata mesma razão porque embirro com o livro de Barcinski.

Saiu quase junto: Ronnie Von, o Príncipe que Podia Ser Rei. São bem diferentes, uma bio-perfil versus uma reportagem-ensaio. Mas casam conceitualmente, pelo período histórico, por Ronnie ter sido um popstar gigantesco antes mesmo de haver uma indústria pop no Brasil.

O fato de ter a contracapa escrita por Barcinski amarra ainda mais os dois livros. Nos convida à leitura imediata: "nem a ficção seria capaz de inventar um herói assim, uma mistura de Mick Jagger, Jay Gatsby e Howard Hughes". Ronnie Von é tudo isso mesmo?

Pior que é. E mais. E por isso mesmo é que o livro frustra. A maioria dos potenciais leitores pode não saber que Ronnie Von fez discos psicodélicos, numa segunda fase de sua carreira, discos que foram fracassos comerciais e hoje são cultuados. Só que eu já sei. Quero saber o porquê ele decidiu fazer isso (ainda mais porque Ronnie garante que nunca tomou LSD). E o livro não explica em detalhes. Eu não sabia que "Cavaleiro de Aruanda" era um ponto de umbanda, e também quero saber porque Ronnie Von decidiu gravar isso. E porque virou ator de novela. E porque voltou a ser cantor romântico. E porque virou apresentador. E como superou a doença que quase o matou. A vida de Ronnie Von é surpreendente demais para porquês tão panorâmicos.

O livro escorrega que é uma beleza. Você começa e não quer largar, o que é o máximo elogio para um autor. Sim, todo artista esperto tem que terminar o show com o público pedindo por mais. Mas Guerreiro e Pimentel, como Barcinski, tiram seus astros do palco muito cedo. São 160 páginas para Ronnie, 240 para todos os pavões.

ro O príncipe, os pavões, e o problema com livros popDeu trabalho escrever a bio de Ronnie Von. Barcinski fez mais de cem entrevistas para seu livro. Contou pessoalmente para os amigos causos imperdíveis de várias, que nem estão no livro. Dá dó. Nossa história, e nossa história pop e popular, é tão pouco contada.

Não é preguiça dos autores. É realismo editorial. Um livro de 200 páginas custa de R$ 25 a R$ 30. Um de 400 páginas vai para R$ 50 ou mais. A venda despenca, na maioria dos casos. É o dobro de trabalho pela mesma grana ou menos.

Não que dinheiro seja o motor pra escritor nenhum. Tiragem inicial de livro, no Brasil, é 2 mil exemplares. O escritor fica com 10% do valor do exemplar vendido, três reais, digamos. Esgotada a tiragem inicial, terá embolsado R$ 6 mil. Divida pelas cem entrevistas feitas para Pavões Misteriosos, e temos R$ 60 por entrevista. Não paga telefone e táxi para ir falar com os entrevistados, que dirá o tempo de Barcinski. Ainda que a bio de Ronnie venda bem mais, há que dividir entre dois autores...

É a razão porque temos pouquíssimos livros-reportagem no Brasil. Ainda mais sobre temas pop, com menos chance de vendas governamentais, de emplacar listas de mais vendidos. Eles só existirão por despreendimento do autor. No caso de biografias, pior, porque além de tudo sempre há chance do livro ser recolhido, o que espanta as editoras, e com razão.

Li com prazer Pavões Misteriosos e O Príncipe que Podia Ser Rei. Leria com mais prazer se tivessem o dobro de páginas. Mas quem sou eu para criticar os outros por pesquisarem muito e entregarem livros curtinhos? Fui pelo caminho mais fácil. Requentar textos antigos, minestra com um temperinho de novidade pra enganar. Meu livrinho O Dia Em Que o Rock Morreu é isso, e mais curto e mais barato que os livros dos camaradas. Vende um pouquinho. Cobrirá os custos e mais o suficiente para um ou dois jantares caprichados.

É pouco? Tá bom demais. Zoei com Barcinski outro dia dizendo que o livro dele venderá cinco vezes mais que o meu, e é vinte vezes melhor. Mas o meu deu cem vezes menos trabalho, e portanto estou no lucro...

 

Publicado em 06/10/2014 às 15:53

O mundo que Twin Peaks criou

cooper O mundo que Twin Peaks criou

O agente Dale Cooper

A fita VHS passava de mão em mão. Preciosa, vinha de longe - Los Angeles. Uma fita a cada duas, três semanas, um mês, como demora! E quanto mais perto do fim, maior o tempo entre elas.

Era assim na nossa redação em 1991. Ana Maria Bahiana, nossa correspondente, programava o videocassete de seu apê em Century City, Los Angeles. As fitas vinham para São Paulo pelo malote da Editora Azul. Endereçadas para o diretor de redação das revistas Bizz e Set, de música e de cinema, José Augusto Lemos. Meu chefe. Que assistia rápido e me repassava, fazendo suspense.

Eu via rápido com namorada e amigos, dia de pizza e cerveja e muito debate. Que diabo a gente acabou de ver? E no dia seguinte eu já repassava para outro colega de redação. Queríamos que todos vissem logo, pra gente poder comentar. Cara, viu o anão que fala ao contrário? A mulher que carrega o tronco? A mina dando um nó no cabinho da cereja com a língua? E quem matou Laura Palmer?

Era Twin Peaks. A série que criou o mundo das séries. A gente não sabia disso na época. E jamais imaginaríamos. Porque era uma série era muito doida e muito careta e muito anos 50 e muito do futuro, tudo ao mesmo tempo. Mas foi a matriz do que vinha. Porque Twin Peaks, sem dar audiência gigantesca, dava muito assunto, gerava debates, dividia, conquistava. Fenômeno pop, capa da Rolling Stone. Que loucura. Que mulheres lindas.

twinforasta O mundo que Twin Peaks criou

Twin Peaks não tinha audiência, tinha fãs. Nós queríamos comprar camisetas e canecas e badulaques em geral. Deu um lucrão. É o modelinho perseguido por todas as séries de hoje. Contar uma longa história aos pedaços, com personagens marcantes, mistérios & surpresas, sex-appeal. Causar, marketear, licenciar, faturar. Boxixo é o sangue nas veias da web, que nem existia em 1991.

Twin Peaks implodiu logo. Era estranha demais para ser o que podia ter sido. A segunda temporada fez água; veio um longa metragem; tudo desnecessário. Pioneiros frequentemente quebram a cara. Quem vem depois vê mais longe, porque nos ombros de gigantes. O que veio depois foi Arquivo X, exato filhote de Twin Peaks com Além da Imaginação. O protagonista de Twin Peaks, Agente Cooper, era um cético agente do FBI que, obrigado a eliminar o provável, passa a aceitar o impossível como a única explicação. É Fox Mulder e Dana Scully encapsulados. Arquivo X pegou o começo da web de massa. Dá dinheiro à beça até hoje.

Um quarto de século passa tão rápido que dá tontura. Os produtores de Twin Peaks prometem uma continuação para 2016, no canal Showtime, só nove episódios, todos escritos pela dupla original, o diretor David Lynch e o produtor Mark Frost. Lynch dirigirá todos. O teaser está abaixo. O que esperar? Difícil surpreender uma geração que cresceu com os seriados que beberam em Twin Peaks e depois Arquivo X. A minha safra comemora a curta duração da nova série e cruza os dedos pela volta de Kyle McLachlan como o agente Cooper. Fantasiamos com mais do mesmo, mais estranho, mais além.

Não dá para botar tanta fé? É caça-níqueis? Lynch virou um velhinho ripongo? Não consigo não torcer a favor. Em 1992, minha primeira viagem para os EUA, fiz questão de ir para Seattle, a cena de rock mais quente da época. E de lá para... a verdadeira Twin Peaks. A uma hora de Seattle estão o velho hotel, a cachoeira de Snoqualmie, a floresta, a lanchonete. Comi a torta de cereja. Damn good coffee!

Publicado em 27/09/2014 às 00:05

Comemorando os 10 anos do R7

oculus rift inside 0 Comemorando os 10 anos do R7

Dez anos passam voando. Parece que foi ontem que recebi a ligação: hei, estou montando um portal para a Record, traga o seu blog para cá. Mas foi em 2009, uma década atrás. E de lá para cá, parece que a cada ano as coisas acontecem mais rápido.

Parece não. Acontecem mesmo. Resultado de um mundo cada vez mais conectado, com uma infinidade de gente muito inteligente trabalhando pra gente avançar mais rápido ainda. E assim chegamos a 2019, uma década de R7. O futuro chegou à toda.

Como já dizia ainda no século 20 o pai da palavra "cyberspace", William Gibson, o futuro chegou mas está mal distribuído. Continuamos convivendo com problemas que poderíamos ter vencido há muito tempo, da falta de educação à falta de saneamento. Caminhamos muito, mas numa velocidade insuficiente para nossa urgência. Mas há que reconhecer o quanto avançamos.

Muito do que o século 21 conquistou é por causa da tecnologia, que revoluciona nossas vidas muito mais rápido do que conseguimos reformar nossas instituições (e naturezas, claro). E é isso que o R7 é, uma empresa de tecnologia. Não era tão claro em 2009. Todos ainda confundíamos um pouco um portal de internet com um veículo de mídia, como um jornal ou uma revista. É mídia, claro. É conteúdo e serviços, evidente. Mas o DNA vai além.

Isso também não era bem claro nem em 2014, quando comecei a trabalhar no R7 de verdade. Antes eu tinha o blog, mas fazia de casa ou de onde estivesse. Não tinha nada a ver com o dia a dia do R7. Visitava a redação  uma vez a cada três ou quatro meses, batia um papo com a galera e boa.

Em 2014 veio o convite. Vem para cá! E eu, na bica de fazer 50 anos, vinte anos de empresa independente, pensei: se não aproveitar essa chance de aprender de verdade qual é a desse mundo digital, vou aprender quando? Será que servirá para alguma coisa minha experiência de tantos anos fazendo revista e livro e outras coisas de papel, e um pouquinho de internet? Será que todas as minhas cabeçadas como empreendedor vão me valer dentro de uma empresa grande?

Decidi descobrir. Virei editor executivo de Entretenimento. Foi um período muito interessante. Incrível como a gente se adapta rápido a novas situações. Dei sorte porque as pessoas eram muito legais. Me receberam com grande gentileza e infinita paciência. Fiz novos amigos. Passei a conviver diariamente com dezenas de pessoas, a maioria muito jovens, tipo metade da minha idade. A última vez que frequentei redação grande tinha 25 anos, era eu o foca...

Em meses estávamos comemorando os cinco anos do R7. De repente o R7 tinha uma megaoperação de vídeo, o R7 TV. Os dias antes da estreia foram um stress louco, correria insana, e estreou, e depois tinha mais e mais vídeo, e quando vimos tinha florescido ali um ecossistema de vídeo diferente de qualquer outra coisa.

apple watch video cap Comemorando os 10 anos do R7

O tempo continuou acelerando. No meio de 2015, quando chegou o Apple Watch, era um brinquedinho de luxo. Mas também eram objeto de desejo. E útil, porque além de tudo era um novo sistema para fazer pagamentos, e logo ninguém mais usava cartão de crédito e débito. E o Google fez igual e foi mais além em 2016 quando lançou a versão baratinha do Google Glass. Foi o início da tal internet das coisas, em que nossas geladeiras e carros e privadas passaram a ter chips e inteligência e falar entre eles, passaram a incluir também nós. Como indivíduos, e em grupo. A internet das coisas e a inteligência coletiva se uniram, inteligência de gente e de máquina.

A realidade virtual também chegou antes do que se apostava. O pontapé inicial foi quando o Facebook comprou a Oculus, em 2013. Os primeiros óculos virtuais vieram em 2015, caros, só gamer tinha coragem de comprar. Mas os aplicativos foram se expandindo, os modelos se multiplicando. Logo a Realidade Virtual foi se amalgamando com a Internet das Coisas e com a Inteligência Coletiva, tudo Gamificado. Mil modelos de negócio novos por minuto, florescendo e capotando e remixando sem fim. Quem ia imaginar que a Copa do Mundo de 2018 já seria transmitida em VR?

As pessoas comuns passaram a ser mais conectadas, mais informadas, mais empoderadas. Passaram a ter mais voz, e gritaram alto. Muitas vezes foi só ruído e balbúrdia. Mas logo conseguimos perceber novas harmonias e timbres e batidas. Quem fez melhor uso de todas essas novidades foram os mais jovens, e mais abertos e educados, e eles se provaram mais tolerantes e flexíveis e resilientes que qualquer geração anterior. Muito mais que a minha, e olhe que nascemos ali perto do meio do século 20, e tivemos que lidar com essa mudança toda.

google glass explorer Comemorando os 10 anos do R7

Nos anos que passei no R7, assisti isso tudo de uma posição muito privilegiada. Participei um pouquinho da construção de tudo isso. E de várias outras coisas. Algumas frutificaram, outras não deram em grande coisa. Faz parte.

Uma que apostei muito e adorei fazer foi o projeto GIP, nossa sigla para Global Intellectual Properties. A ideia era criar marcas globais, usando plataformas digitais. Nunca me conformei de um país do tamanho do Brasil não ter séries, desenhos animados, personagens e popstars globais. Não tínhamos nada parecido com Angry Birds (que veio da Finlândia na época) ou Minecraft (Suécia), não tínhamos um Justin Bieber (Canadá) ou Pucca (Coreia) ou todos esses nomes dos EUA e Inglaterra conhecidos nos quatro cantos do planeta. Foi muito legal participar do grupo que construiu a primeira propriedade intelectual made in Brazil que hoje é famosa no mundo todo.

Uma iniciativa que achei que ia curtir fazer foi o projeto Incubadora, que logo se transformou no fundo R7 Venture Capital. Investimos em muitos jovens geniais, grandes ideias, sempre de olho no maior impacto positivo possível para o usuário global. Mas logo vi que tinha gente muito melhor que eu para ser mentor dessa garotada e saí de fininho.

Porque de fato não tenho a intimidade com bits que essa garotada tem. Sou um jornalista do século 20 lidando com um futuro de ficção científica. Agora que estamos vivendo cada vez mais, dizem que os 50 são os novos 30. Mas já estou com 54, e como dizia o Clint Eastwood naquele filme, "um homem tem que conhecer suas limitações".

Foi por isso que eu saí do R7. Porque de todas as limitações, a que nunca podemos perder de vista é a limitação do nosso tempo. Por mais que eu adorasse estar engajado com as mudanças fundamentais da minha época, reconheci que tenho um  número limitado de anos pela frente. Pelo menos na boa forma que estou hoje (outra novidade dos últimos anos, virei atleta, ou pelo menos larguei o sedentarismo radical). Tem muita coisa que quero fazer e ainda não fiz, e requer energia, fôlego, boas pernas. É um mundo grande, e ainda não mochilei no Vietnã, não mergulhei nas Maldivas, não pulei de bungee jump na Nova Zelândia. Tenho um filho adolescente com muito gás pra me acompanhar. Então decidi me dar o tempo para fazer tudo isso. E também ler os livros que me faltava. E escrever o que sempre precisei e nunca soube.

Mas não deixei o R7 de todo. Continuo amigo da galera - os que continuam no R7, e tantos que aprenderam lá e hoje usam esse conhecimento para fazer coisas incríveis em outros lugares. Continuo dando uns pitacos, de longe, e às vezes de perto. Continuo fazendo meu blog, que não abandonarei nunca. Um dia, se ainda me quiserem, arrisco voltar, depois que der minha quinta volta ao mundo.

E aqui estou, celebrando esses dez anos que tanto mudaram o Brasil e minha vida. Valeu R7!

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Publicado em 25/09/2014 às 07:05

Seu cachorro é burro e você é porco

 

dogeatsshit Seu cachorro é burro e você é porco

O Brasil é o segundo país com o maior número de cachorros do mundo. São mais de 37 milhões. É muito cachorro. Pior, muito dono de cachorro. O brasileiro está cada vez mais folgado. Mas nem ciclista bate dono de cachorro em arrogância.

Os donos de cachorro determinam que os parquinhos são dos cachorros, não das crianças. Que as calçadas e jardins são privada particular de seus pets.

Deixar o bichinho querido trancado no apartamento o dia inteiro, com ele uivando sem parar, faz parte do cotidiano. Praia, claro, é território livre para cachorro incomodar e defecar. Focinheira? Coleira? Pra quê?
Cansei de discutir com dono de cachorro. Se acham acima desses pobres humanos que não tem cachorros.

São sempre os mesmos argumentos, e não adianta rebater, que tomam como se fosse ofensa pessoal. Até pessoas absolutamente civilizadas em outros departamentos se comportam como umas bestas, quando se trata do seu cachorro (e, engraçado, dono de gato não tem esse tipo de folga. É que gato não tem dono...).

Li que os brasileiros vão gastar R$ 15,4 bilhões em pet food esse ano. Considerando o que tem de ser humano mal nutrido e maltratado nesse país, a informação me revirou o estômago. Tinha acabado de ler essa, saí de casa e trombei com um idiota botando seu cachorro para defecar no meio do meu caminho, na calçada.
Nem todo dono de cachorro é folgado. Mas desconfio que a maioria é. Para facilitar a vida de quem ainda tem disposição de discutir com dono de cachorro, empresto aqui meus argumentos...
"Meu cachorro mas não machuca ninguém."

Cachorro grande é arma letal. Como revólver, tem que ter trava de segurança. Pequeno também pode fazer estrago, principalmente em criança. Fora de casa, cachorro grande tem que usar coleira e focinheira. Segundo o SUS, são 400 internações hospitalares por ano por ataque de cachorro, mais que uma por dia.

Já contei a história da minha vizinha e os 40 pontos que levou na mão por causa de um cachorro - não, por causa da cachorra da dona.

"Meu cachorro é limpinho."
Bicho não tem higiene, nem conceito de limpeza. Come qualquer coisa, inclusive merda de cachorro. encosta em qualquer lugar. Cachorro é limpo se tomar banho todo dia como gente. O seu é lavado todo dia? Aposto que não.

"O cachorro é o melhor amigo do homem!"
Não, é o animal mais submisso ao homem, e especificamente a seu dono. O que é completamente diferente. Aliás, não é porque o cachorro obedece / tem medo de seu dono, que vai ser bonzinho com qualquer um.

"Meu cachorro faz cocô na calçada, mas eu recolho tudo."
Você não tem consideração com as pessoas. Restos do excremento do seu cachorro vão ficar na sola dos sapatos de todo mundo que passar aí, e serão depois levados para dentro das casas das pessoas, esmerdeando tapetes, sofás etc.

"Meu cachorro faz cocô no jardinzinho, mas eu recolho tudo."
Você é egoísta e porcalhão. Os poucos espaços verdes que temos nas nossas cidades não são privada do seu cachorro, são para utilização de todos, sem preocupação com porcaria e doença.

"Se meu cachorro não pode fazer cocô na calçada nem no jardim, vai fazer onde?"
Na sua casa. O cachorro é seu. O cocô do seu cachorro é seu também. Pode ser num lugar certo, pode ser na sua cama, na mesa do jantar, onde você quiser. Não tenho obrigação nenhuma de logo pela manhã cedo ver um cachorro defecando na calçada. Para mim, é tão nojento quanto ver um ser humano fazendo suas necessidades na rua.

"Mas eu moro em apartamento!"
Sinal que você odeia seu cachorro. Tranca numa prisão um bicho que durante milhões de anos de evolução viveu em grandes espaços. Se tornam uns bichos sofredores e  neuróticos. E dar um passeinho por dia com ele não resolve nada.

"E vou deixar o cocô do cachorro no meu lixo do apartamento?"
Claro que não. Vai jogar na privada. O lixeiro não tem obrigação de ficar mexendo no cocô do seu cachorro. Nem os coitados que vivem de procurar material reciclável em lixão.

"Eu adoro levar meu cachorro para a praia! Ele fica tão feliz!"
Claro, ele é um bicho. E você é um porco que está se lixando para os outros. Fora que é contra a lei em muitos lugares, sabia?

"Os cachorros têm tanto direito às ruas quanto nós!"
A cidade foi construída por humanos, para humanos viverem. Não cachorro, elefante, ou marmota. Nós temos prioridade. Só existe tanto cachorro no mundo porque o ser humano cria e alimenta. Se fosse depender puramente da natureza, vivendo em ambiente selvagem, seriam em número infinitamente menor.

"Os cachorros têm tanto direito ao mundo quanto nós!"
Cachorro tem tanto direito à vida e à felicidade quanto o frango que você comeu no almoço. Ou a barata que você envenenou. O cavalo, que é tão "amigo" e bonito quanto um cachorro, faz parte das refeições em muitos lugares do mundo. O Brasil cria e abate cavalos para exportação para países como França e Itália, sabia?

"Imagine que horror, comer um cachorro!"
É um preconceito cultural. Na Índia não comem boi, judeus ortodoxos não comem porco, brasileiro não come cachorro. Mas em vários lugares da Ásia se come cachorro naturalmente. Já escrevi sobre isso. Eu comeria cachorro no jantar de hoje, com muita alegria, porque nunca experimentei, e adoro experimentar comidas novas.

"Qual é o seu problema com cachorro, afinal?"
Nenhum. Resumo da ópera: cachorro é bicho, tem cérebro inferior, é burro. Não vou ter raiva de um quadrúpede. O que desprezo é esse monte de donos dos cachorros folgados e porcalhões. Se você quer tratar seu bicho como gente, divirta-se na sua patetice. Quer impingir sua prepotência ao resto de nós, o animal é você.

korea dog meat Seu cachorro é burro e você é porco
Cachorro pronto para virar o tradicional cozido coreano, o Bosintang
Publicado em 18/09/2014 às 10:43

A vitória de Marina seria notícia boa (como o Ebola e a independência da Escócia)

7zsx0ztqq1 2yql0ihj0i file A vitória de Marina seria notícia boa (como o Ebola e a independência da Escócia)

Quem gosta de boa notícia é publicitário. Gente que é paga para espalhar as maravilhas que acontecerão se comprarmos esse ou aquele produto. Idem assessor de imprensa. Nunca recebi um press release dizendo "empresa Corp S.A. polui, demite e vai à falência". Nem "cantora mocoronga lança outro disco sonolento pra dedéu". É sempre aquele texto épico, tecendo loas ao cliente. Por isso é que a assessoria de imprensa é no mundo todo considerada um ramo da publicidade, e não do jornalismo. No mundo todo fora o Brasil.

Já jornalista gosta de notícia boa. O que é muito diferente de boa notícia. Duro pensar em notícia pior que queda de avião. Mas é exatamente o tipo de notícia boa para um jornalista. Absolutamente inesperada, atrai todas as atenções. Por uns minutos, todos prendemos a respiração, dentro e fora das redações, adrenalina a mil.

Qual a maior notícia das nossas vidas? A queda das torres gêmeas no onze de setembro. Vi acontecer coisa mais importante? Claro - a queda do Muro de Berlim, pra começar. Assisti o homem pousando na Lua na casa da minha avó, que tal? Mas não tinham o mesmo fator surpresa. Isis avança? Notícia boa. Ebola se espalha mundo afora? Idem. Independência da Escócia? Notícia sensacional. Não é que notícia é só notícia ruim. É que quanto maior o choque e a imprevisibilidade dos dias seguintes, mais poderosa a notícia, e mais importante o jornalismo. E, claro, gostamos de nos sentir importantes.

A queda do avião que levava Eduardo Campos foi uma notícia boa, no exato sentido do termo. Foi absolutamente inesperada. Chamou a atenção de todos. Teve grande impacto emocional e social. E foi uma notícia ótima no médio prazo, e quem sabe longo. Catapultou Marina Silva, vice apagada, para uma candidatura competitiva, e talvez à presidência.

Esta é a razão porque a maioria de nós, jornalistas, secretamente torcemos por uma vitória de Marina. Se Dilma vence, sabemos exatamente o que esperar de sua administração, nos próximos quatro anos. Potencial de surpresa zero.

No que conta de verdade para mim, que é grana, Marina também não surpreende em nada. É parecida com Dilma, e mais ainda com Aécio / Armínio. Previsível até demais. Sua principal conselheira é uma banqueira, Neca Setúbal. Quando ela sobe nas pesquisas, as instituições financeiras nacionais e gringas comemoram. Se Marina vencer, ninguém terá o direito de se surpreender com sua política econômica.

Tirando esse lado do dinheiro, com toda a importância que tem, o resto é chute. Marina eleita, não sabemos de fato o que acontecerá. Dá pra especular que tipo de conchavo faria com o PMDB, quão verde ou pró-agronegócio, seria, quão crente ou laica, quão moderna ou atrasada, se faria um governo fraco ou forte, caótico ou sereno. É tudo chute, mesmo as análises mais rigorosas. Porque a própria Marina não sabe o que vem. Nem imaginava ter que lidar com isso. Era só a vice de um candidato sem chance de vencer.

Como a morte de Eduardo Campos, a vitória de Marina nos colocaria em rota menos previsível. É por isso que quando pergunto para os colegas em quem votarão, mesmo quem crava Dilma ou Aécio faz isso com uma certa reticência. Todos nós sabemos que a vitória de Marina seria notícia boa. Se boa notícia ou não, você decide e o tempo dirá - talvez.

 

Publicado em 17/09/2014 às 13:18

Sonhos que anotei

1667e03ae7a06fd1aa5b2210.L Sonhos que anotei
Por um tempo curto demais registrei meus sonhos. A ideia me encanta desde pequeno. Me animei estimulado pela leitura de Rare Bit Fiends. É uma série de histórias em quadrinhos curtas, cada uma adaptação de um sonho de Rick Veitch. Estão reunidas em um livro estupefaciente chamado Rabid Eye.
Sua inspiração é um clássico dos primeiros anos da HQ, Little Nemo in Slumberland, em que um garotinho toda noite visitava o mundo dos sonhos. É meu trabalho favorito de Veitch, que me assusta desde o colegial, quando li Abraxas The Earthman. Considerando o que fez com o Monstro do Pântano, substituindo o insubstituível Alan Moore, não é pouco.
Eu simplesmente acordava e, com as imagens vivas na memória, escrevia o assunto do sonho em um bloquinho no criado mudo. E voltava a dormir, ou levantava para um novo dia.
Anotei pouco, guardei quase nada. Duas páginas. Uma tem um sonho do começo ao fim, assunto para outra manhã. Outra é só uma lista com temas de sonhos, "manchetes". Transcrevo abaixo.
O papel amarelado e vincado entrega a data. É brinde de um evento anual de marketing, do qual participei: Maximídia 2002. Apoio da Varig, que já era, como meus 37 anos de idade. Quem eu era em 2002? Não me reconheço. Lembro coisas que aquele André fez e só.
Não recordo de nada do que está no papel. Nem porque parei de anotar meus sonhos. Mesmo assim são fragmentos preciosos para mim. São os únicos sonhos que salvei e os únicos de que sinto falta. Volto a anotar meus sonhos amanhã? Sim, sim - não, não.
Decifro os garranchos ensonados. Mensagens de um reino antigo, intangível - chaves para portas estranhas que nunca conseguirei fechar.

- pussy - incêndio pikachu - beto / praia perdida/ índios - chineses / gângsters
- Lula navy seal
- Alan Moore não usa a net
- banho de gato - chupando pés
- combate no museu filme "de
- inferno na cadeia = saque de Roma
- a galeria dos cafés onde os felinos falam
- subindo a escada perigosa da montanha, protegendo o menininho, impressionado com as vistas do mar, até chegar ao mar e acariciar golfinhos
- na balada com Joe Strummer

Publicado em 12/09/2014 às 12:30

Dilma não pode atacar Marina pela ligação com Neca Setúbal. Nunca neste país houve maior amigo dos bancos que o PT

 Dilma não pode atacar Marina pela ligação com Neca Setúbal. Nunca neste país houve maior amigo dos bancos que o PT

R$ 513 bilhões. É quanto os bancos lucraram nos doze anos de administração petista. Acusação de Marina Silva? Não, dados do próprio Banco Central. O levantamento é do Valor Data, usando ranking das 50 maiores instituições financeiras, divulgado pelo BC.

Dilma Rousseff vem atacando Marina por sua ligação com Neca Setubal, amiga, conselheira, coordenadora do programa de governo do PSB. Dilma foi pra cima no programa eleitoral gratuito: "A Neca educadora é educadora, mas agora está se comportando como banqueira. À medida que sou herdeira do banco Itaú e defendo a política que defendo claramente os bancos... estou fazendo o papel de banqueira."

Resposta veio voando. Os dois grandes jornais de São Paulo publicaram entrevistas com Neca, "como você se sente com essas acusações da campanha do medo" etc. Não é jornalismo, é propaganda.

A participação de Neca Setubal no Itaú vale uns R$ 800 milhões. Com os outros herdeiros, ela faz parte do bloco controlador do banco. Seu dinheiro pessoal está investido através do private banking do Itaú. Ela é mais que banqueira, ela é dona de banco. Se não quer ser tratada como tal, fácil. Basta vender suas ações.

Este fato incontestável não torna moral o ataque de Dilma. Que não mente, mas omite a verdade. Questionar Marina por proximidade com os bancos? O Itaú e outros bancos ganharam mais de meio trilhão de reais nos 12 anos do PT.

O próprio Lula confirmou há anos: "nunca os bancos ganharam tanto dinheiro como no meu governo". A tendência continuou no governo Dilma, embora a rentabilidade dos bancos tenha caído por um período (porque Dilma forçou a queda dos juros em bancos estatais, e por causa da inadimplência), antes de voltar a crescer.

Por comparação, quer saber quanto os bancos lucraram nos dois mandatos de Fernando Henrique? R$ 31 bilhões. O tucano, quem diria, foi menos amigo dos bancos que os petistas.

Dilma pode falar o quanto quiser que enfrenta os bancos. Os números falam mais alto. E tem um que grita e ensurdece. É quanto o seu governo pagou de juros.

Entre 2009 e 2013, o Brasil pagou R$ 1,19 trilhão em juros da dívida. Isso mesmo: mais de um trilhão de reais. Ano após ano, vem aumentando. Em 2013, recorde histórico: R$ 249 bilhões. Quanto é isso? Para efeito de comparação, o governo de Dilma investiu em 2013 no Bolsa-Família R$ 25 bilhões, e dez vezes mais no Bolsa-Banqueiro...

Em linguagem de gente: o Brasil anos atrás trocou sua dívida externa por uma dívida interna. Que é muito mais cara, porque aqui os juros são muito mais altos que internacionalmente. As contas do Brasil não fecham. Estamos pagando cada vez mais juros para quem nos empresta.

E quem nos empresta a grana? Quem compra títulos públicos. Não é o zé povinho. É quem tem boa grana para investir, e grandes empresas, e, claro, os grandes bancos. Nossas instituições financeiras lucram pesado emprestando ao governo, sem risco nenhum. E por isso fazem questão de influir na hora que escolhemos presidentes e congressistas.

Segundo a prestação parcial de contas dos candidatos, até agora Dilma arrecadou R$ R$ 123,6 milhões, Aécio R$ 46,5 milhões, e Marina R$ 23 milhões. O Estadão publicou uma grande análise detalhando de onde vêm as doações. Vêm, naturalmente, das maiores empresas do Brasil, as que mais têm relações de negócios com o governo. Vale ler a reportagem do Daniel Bramatti.

Se os títulos públicos pagassem juros mais baixos, seria menos lucro para nossa elite rentista e para os bancos. Se o Brasil diminui ou zera sua dívida amanhã, acaba a mamata. Se pagássemos 20% a menos de juros por ano, dava para o país bancar mais dois programas com o custo do Bolsa Família. Imagine o impacto social disso. Ou fazer a famosa revolução na educação, que todo mundo prega, e nunca se materializa.

marina Dilma não pode atacar Marina pela ligação com Neca Setúbal. Nunca neste país houve maior amigo dos bancos que o PT

É pouco provável um enfrentamento com os bancos, ganhe a presidência quem ganhar. "Qual é o seu plano para diminuir rapidamente quanto o Brasil paga de juros, candidata?". Essa é a pergunta que não entra em debate nenhum. Se entrar, a resposta é desconversa na certa.

Um detalhe importantíssimo sobre porque as contas do Brasil não fecham. Não é por causa do Bolsa Família e outros programas sociais. Juntando todos eles, ainda é pouco dinheiro. A razão mais escandalosa é a transferência de recursos públicos a grandes empresários.

Desde 2009, no início de mandato de Dilma, o Tesouro Nacional emprestou R$ 305 bilhões ao BNDES. Cobra a taxa Selic, 11%. O BNDES empresta às empresas cobrando a TJLP, 5%. A diferença é enorme, e detona nossas contas.

Que empresas botaram a mão nessa grana? Quase todas as grandes que você já ouviu falar. Algumas foram com mais sede ao pote. As informações são públicas. Se o leitor fizer muita questão, semana que vem publico aqui uma seleção das que meteram mais a mão no nosso bolso. Por enquanto basta citar só uma pessoa, que simboliza bem tudo isso: foram R$ 10 bilhões do BNDES para Eike Batista. Dinheiro que representa uns 40% do custo anual do Bolsa Família. E que não volta nunca mais para o Tesouro, porque o coitado quebrou, né?

É evidente que tivemos ganhos sociais nos governos petistas. Aliás, também tivemos no governo tucano. Só cego pode negar, como só o pior tipo de cego nega os muitos erros de FHC, Lula, Dilma. Mas o avanço está muito distante do que precisamos, que é garantir pelo menos o básico para todos os brasileiros.
É difícil o Brasil ir para frente na velocidade que precisa, pagando R$ 250 bilhões de juros ao ano. Aumentando sem parar nossa dívida. E transferindo bilhões sem fim para grandes empresários amigos do poder. Esta é a questão política central do Brasil.

Não duvido que os três candidatos tenham bons projetos em seus programas para isso e aquilo. Papel aceita tudo. O que importa de verdade no capitalismo é dinheiro, de onde vem, para onde vai. Aécio escolheu para futuro ministro da Fazenda Armínio Fraga. Explicitou sua posição subalterna ao mundo financeiro. Marina e seus conselheiros, como Eduardo Gianetti, vêm dando declarações no mesmo sentido, "independência" do Banco Central, tarifaço, alta de juros. A ligação com Neca torna muito transparente para que lado pende sua candidatura.

Mas Dilma, por seu histórico, não pode atacar Marina pela ligação com o Itaú. Nunca na história deste país houve maior amigo dos bancos que o PT. Na hora de investir nossos recursos públicos, os três candidatos privilegiam os poderosos, e principalmente o poder financeiro. E por isso é impossível votar pela mudança em 2014.

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Publicado em 11/09/2014 às 17:35

Música não é cerveja (e outras lições que a Skol vai ter que aprender)

miranda zegon dudu marote 4 1024x682 Música não é cerveja (e outras lições que a Skol vai ter que aprender)

O Skol Music é uma espécie de gravadora. Só que em vez de ser uma empresa que ganha dinheiro com música, é uma iniciativa da maior cervejaria do planeta. É composto de três selos. O que é um "selo"? É uma mini-gravadora. Mas idealmente, é mais que isso. É uma identidade, uma visão, um perfil. Por isso, cada um tem um diretor artístico diferente.

E cada um vai gerar não só música, em versão digital, CD e vinil, mas também show, camiseta, pôster, o que for. O objetivo, muito ambicioso, é buscar a relevância de selos que marcaram época, que todo mundo que curte música identifica na hora como referências em seus gêneros. O vídeo de apresentação cita nominalmente três selos legendários: Blue Note (jazz), Motown (soul) e SubPop (grunge).

O selo Cabuum é dedicado ao hip-hop e companhia. O selo Ganzá, à música eletrônica. E o selo Tralalá, ao "indie" (sei lá o que isso quer dizer. Vamos combinar que é música que não busca diretamente atingir o maior mercado possível). Os diretores artísticos são respectivamente Zegon, Dudu Marote e Miranda.
Estão pensando grande e olhando longe. O Skol Music tem um horizonte de cinco anos. Novos selos serão anunciados em 2015. Não vou entrar em critiquinha de que o time de artistas poderia ser mais isso ou mais aquilo. Basta dizer que a seleção mistura novíssimos (como Jaloo) com nomes já com cancha e moral mas sem fama massiva (caso da Karol Conká).

O projeto tem muitas razões pra dar certo. Tem, em primeiríssimo lugar, a grana da Ambev. Já nasce com parcerias com boa parte dos principais festivais de música do país. A Ambev é da Inbev, fortíssima em muitos países - são os donos da Budweiser, pô - e gerenciada por brasileiros. Quem sabe esses artistas brasileiros não começam a participar de festivais e eventos patrocinados por marcas da Inbev planeta afora?

A Skol Music já nasce com a simpatia automática da mídia. Dos jornalistas, porque aposta na liberdade artística, o que foi sinalizado claramente com a seleção dos diretores artísticos.

Sou suspeitíssimo para falar de Dudu Marote, que conheço há mais de 20 anos, acho que da época do grupo Que Fim Levou Robin?, que produziu. Miranda é amigo querido faz mais tempo ainda. Zegon mal conheço, mas é bom paca. As credenciais deles como produtores são públicas e extensas. Colaboro com minha visão pessoal deles. É gente que não precisa de esmola da Ambev. Tem seus próprios históricos de sucesso (de público, de crítica, e muitas vezes de ambos). São ferozmente independentes em suas escolhas. E suficientemente malacos na hora de formatar um talento cru para consumo pop.

O Skol Music também nasce com a simpatia automática da mídia. Porque a Ambev é um dos maiores anunciantes do país, claro. Os departamentos comerciais dos veículos todos têm o maior interesse em manter boas relações com Ambev e Skol. Parece um alinhamento felicíssimo: dinheiro, talento, liberdade, visão de longo prazo, torcida a favor de imprensa e mídia. O que pode dar errado? Tudo.

Impossível capturar um relâmpago numa garrafa. O que fez a lenda do Blue Note, Motown e SubPop (e Chess e Factory e 4AD e Philadelphia International e tantos outros) não têm fórmula. Se tivesse, as próprias gravadoras não estariam enrascadas. A lata de lixo da história da música está entulhada de artistas em quem se investiu rios de dinheiro, e gravadoras que enfiaram fortunas no ralo. Não é assim que funciona.

Tem mais. Ambev e Skol não são players de nicho. Não estão fazendo isso para seduzir meia dúzia de moderninhos paulistanos que, aliás, preferem cervejas regionais de tiragem limitada. O projeto Skol Music não é para o underground. É para impactar jovens A, B e C. Tirando o Tralalá, é música popular entre a rapaziada, pra dançar, pra curtir.

Os discursos durante o lançamento não escondem o sonho de emplacar alguns nomes nacionalmente, quem sabe até além das nossas fronteiras. Não há nada de errado nisso, mas pensar grande tem consequências. Se em um ano nenhum dos artistas dessa primeira safra decolar, que estímulo a cervejaria tem para continuar investindo?

Risco contrário: sucesso estrondoso de um ou dois nomes, que naturalmente passariam a merecer mais investimento e atenção. Em selos independentes, tradicionalmente a banda que se destacava era contratada por uma gravadora maior, trocava o empresário doidão por um profissa, e "se vendia". Um hit e cinco fracassos desequilibra qualquer selo. Finalmente, o beijo da morte: hubris.

O Skol Music se anuncia com a ambição desmedida de mudar a cena musical brasileira. De fazer e acontecer. Lançam três selos e oito nomes na mesma noite, com pocket shows, na própria casa noturna que leva o nome da Skol, em São Paulo. Tá tudo muito direitinho, muito arrumadinho, design dez, mensagem redonda, press release completão na manhã seguinte do festerê. É uma visão muito publicitária do que é, para usar uma palavra demodê, rock´n´roll. Cadê a anarquia e o acaso? O CBGB, onde nasceu o punk novaiorquino, era um buraco imundo com o chão coberto de merda de cachorro. Música, inclusive a mais pop, não é produto, não só, e muito menos com um time de artistas e diretores artísticos como esse. As duas combinam bem, mas música não é cerveja.

Mas torçamos a favor. Se o Skol Music der certo, quem sabe seja a primeira de muitas outras iniciativas culturais investindo na liberdade. Sejam de empresas ou do setor público. Há que dar poder financeiro e institucional às pessoas que têm poder criativo para oxigenar nossa música e nossas artes, hoje acorrentadas por leis de incentivo, prisioneiras de burocratas de ministério, escravas de diretores de marketing. Há que aplaudir quem botou essa parada de pé, e quem está pagando a conta.

Confio desconfiando do compromisso da Ambev. Mas conversei rápido lá com os executivos diretamente envolvidos, e estão empolgadaços. Se daqui a um ano a empresa decidir simplesmente pegar grana equivalente e botar na Lei Rouanet, pena (e sinceramente, por todos os motivos acima, não seria exatamente uma surpresa). Mas dane-se a futurologia e vamos abrir os ouvidos para o agora. E agora, tá na mão dos artistas, e de Dudu, Miranda e Zegon. Garantia que muitos sons interessantes serão gerados nos três selos. Aposto - valendo uma cerveja...

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