Publicado em 28/09/2016 às 17:30

O que é fascismo e como combatê-lo – o Brasil de 2016, pela visão de Umberto Eco

umbertoeco2 O que é fascismo e como combatê lo   o Brasil de 2016, pela visão de Umberto Eco
Todo governo fascista é autoritário; nem todo governo autoritário é fascista. Trotsky fez primeiro a distinção, antes ainda da ascenção de Hitler, escrevendo sobre Mussolini. É preciso saber o que exatamente você combate, se pretende chegar à vitória.
Nós brasileiros frequentemente nos enganamos que caminhamos na direção de uma democracia ocidental. Alguns sonham com Miami. Outros fantasiam com uma democracia brasileira ao estilo do sul da Europa, como eles têm na Espanha, Portugal, Itália. Com problemas, mas nada que se compare ao nosso massacre cotidiano. Um tanto de liberdade, outro tanto de proteção social, uma certa bagunça e muito calor humano.
Na prática, nosso caminho tem sido o dos nossos parceiros dos Brics: liberdades individuais limitadas como na China, desigualdade social extrema da Índia, poder concentrado na oligarquia e controle da mídia a la Rússia. Sem o crescimento da China e Índia e Rússia, claro. "O Fascismo", disse Benito Mussolini, "deveria chamar-se Corporatismo, porque é a fusão do poder do Estado com o poder das Corporações."
A questão é se o país está avançando na direção de mais liberdade, igualdade, fraternidade - ou menos. Nossa frágil, incompleta, ineficiente democracia avança? O Brasil de 2016 garante mais direitos aos cidadãos, ou só impõe mais deveres?
Putin, execrado pela opinião pública ocidental, tem 82% de aprovação dos russos. Por quê? A renda média do russo subiu 18 vezes nos últimos 17 anos. Sem tretas maiores, e com mais liberdade que 90% dos países do planeta. Segue bem longe do os países do G7, mas quem não está? Putin é... fascista?
E o Brasil, na escala da liberdade, que nota leva? Os abusos de poder por parte do executivo, legislativo e judiciário, que fazem longa parte da nossa história e presenciamos a cada dia - estão aumentando ou diminuindo?
Umberto Eco tentou uma vez criar um método para identificar o fascismo. Reproduzo alguns trechos abaixo, seguidos com o link para o texto integral. É utilíssimo neste mundo e país que vivemos. Antes de você começar a ler, faço uma observação que Eco não fez: o fascismo não precisa necessariamente de um líder carismático no comando do governo. Basta que haja alguém que represente perfeitamente as aspirações da base social do fascismo. Um líder "iluminado e impoluto", que combata sem trégua os "inimigos da nação". Temos um desse?
Leia as palavras de Umberto Eco e responda você mesmo.

"Considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista."

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra-reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.
Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.
Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra”. A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo... Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja do pênis permanente.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral.
Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo via TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular."

Eco termina seu texto (e recomendo enfaticamente que você leia o texto integral - citando uma frase de Franklin Roosevelt de 1938 sobre a América: "se nossa democracia parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país”. Segue valendo - aqui, agora.

Leia o texto completo de Umberto Eco: "O Ur-Fascismo".

Publicado em 23/09/2016 às 15:54

Terry Jones e a arte de assar vacas sagradas

terry 2 Terry Jones e a arte de assar vacas sagradas
Tem gente que não pode ver uma vaca sagrada que já vai botando carvão na churrasqueira, gelando a cerveja e afiando a faca. É minoria que deve muito ao Monty Python. Mesmo que nunca tenha ouvido falar do grupo. A influência deles está em todo lugar. Onde você encontra humor enlouquecido, impiedoso, surreal, estão as digitais de John Cleese, Terry Gilliam, Graham Chapman, Michael Palin, Eric Idle - e Terry Jones.
Nos reconhecemos à distância. Como nossos heróis, zombamos com qualquer coisa, muito além do aceitável ou responsável. O Monty Python esculhambava o patético onde encontrasse - em homem, mulher, gay, jovem, velho, pobre, rico, todas as nacionalidades, profissões e tons de pele. Inclusive, claro, seus próprios tipos: homens razoavelmente bem nascidos e educados, britânicos (menos o americano Gilliam!). Qualque alvo merecia umas lambadas doídas. Sem misericórdia. Como deve ser. E raramente é.
Graham Chapman morreu há muito tempo; quem viu o vídeo dos seus colegas gazendo galhofa no velório, não esquecerá jamais. Terry Hones começa a nos deixar agora, aos poucos. Sofre de demência. A memória funciona menos e menos. Já não dá mais entrevistas. Está parando de falar.
Dói pensar em Terry limitado desse jeito. Talvez seja o principal Python. Era roteirista de mão cheia já nos anos 60. Ele formatou o desformato dos sketches do Monty Python, extremamente inovadores para a época: sem bordão, sem riso pré-gravado, sem "punchline", sem personagens recorrentes. Mas jamais amorfos ou condescendentes.
Dirigiu "A Vida de Brian" e "O Sentido da Vida", co-dirigiu "Monty Python e o Santo Graal". Escreveu mais de vinte livros, produziu e apresentou documentários, foi articulista de jornal... e ator engraçadíssimo. Rio tudo de novo quando revejo Terry vestido de mulher, imitando velhinhas inglesas ou fazendo a mãe de Brian, aquela voz de taquara rachada.
A influência de Terry Jones persistirá. Vamos homenageá-lo fazendo o que ele fez como ninguém. Recusando limites para a liberdade de expressão e de zoação. E vomitando nos espíritos autoritários, sejam autoridades ou não, gente que sempre odeia humor e humoristas, e que, diferente de Terry Jones, vai para a lata de lixo da história.
terry vomito Terry Jones e a arte de assar vacas sagradas

Publicado em 22/09/2016 às 19:28

Você é um ser humano ou um inseto?

roberto bolanos chaves chapolin Você é um ser humano ou um inseto?
"Um ser humano deve ser capaz de trocar uma fralda, planejar uma invasão, matar um porco, comandar um navio, projetar um edifício, escrever um soneto, fazer a contabilidade, construir uma parede, cuidar de um ferimento, consolar os que estão para morrer, receber ordens, dar ordens, cooperar, agir sozinho, resolver equações, analisar um novo problema, adubar a terra, programar um computador, cozinhar uma refeição saborosa, lutar eficientemente, morrer galantemente. Especialização é para insetos."

Outro dia escrevi sobre o AC/DC, e sobre a vantagem competitiva de fazer sempre a mesma coisa e sempre muitíssimo bem, com foco, no capricho, sem distrações. A repercussão foi grande. Mas umas poucas pessoas não entenderam direito meu ponto, ou eu que não soube me comunicar tão bem como gostaria.

Ter foco na sua atividade, na sua expertise, na sua marca, não quer dizer sempre tocar o mesmo samba de uma nota só. Ter interesses variados, gostar de fazer coisas bem diferentes umas das outras, seja na vida pessoal ou no trabalho, não é sinal de dispersão. Pelo menos não necessariamente.

E quando se trata de uma pessoa no início da sua vida profissional, mais ainda é importante experimentar muita coisa diferente. E não só "o que o mercado exige". Quem é que vai saber o que o mercado vai exigir daqui dez, vinte, trinta anos?

Gosto muito de uma história sobre Steve Jobs (e não estou aqui beatificando Jobs, que tinha qualidades e defeitos, como todo mundo; mas ninguém negará que foi um baita de um empresário). Antes de fundar a Apple, garotão hippie meio sem objetivo na vida, Steve mergulhou no budismo. Até acabou visitando o Japão. E se dedicou muito a uma atividade que monges budistas praticam muito no Japão: a caligrafia. É, Steve estudou japonês, e aprendeu a escrever em japonês, usando aquelas penas.

E foi por isso que quando estava criando um computador, lhe ocorreu que o usuário deveria ter a possibilidade de personalizar as letras dos textos. Mudar o tamanho, a fonte, colocar negrito. Isso foi um grande diferenciador do Macintosh, e um passo gigantesco no caminho da personalização dos nossos aparelhos eletrônicos, seja o computador ou, hoje, o celular. Ou seja: estudar budismo, e estudar caligrafia japonesa, coisas que jamais estariam em nenhum curso de engenharia eletrônica, foram um diferencial muito grande na hora de criar um... computador!

É por isso que acho má idéia essa nova proposta de tirar os cursos de artes do Ensino Médio. Tratar arte como supérfluo é uma incompreensão do processo de criação, e aliás do papel da Economia Criativa no nosso mundo atual e futuro. Aliás é ruim tirar educação física também. Preparar para o mercado é impossível: temos que preparar os jovens para a vida, para os desafios que podemos prever e os que nem podemos sonhar.

Ah, sobre o texto lá no alto, é de autoria do Robert A. Heinlein, um dos maiores escritores de ficção científica do século 20. E reler essas linhas me levou, imagine, ao Chaves, o humano, e o Chapolin, o gafanhoto... e ao"chapulin", uma iguaria comum no México. Vendem saquinhos cheios de gafanhoto fritinho e salgado! Eu fui capaz de experimentar. Tem gosto de grama com sal!

Não sou capaz de planejar uma invasão e nem matar um porco, mas sou capaz de fazer algumas dessas coisas que o Heinlein cita. E muitas outras que ele nem cita. Nós todos somos múltiplos. Vamos em um minuto do Budismo à ficção científica ao Chapolin Colorado. Como diz a linda frase do poeta Walt Whitman, "I contain multitudes", eu contenho multidões...

E você? É capaz de quê?

Publicado em 19/09/2016 às 16:08

Fica, Temer

Lula Temer Foto RicardoStuckert InstitutoLula 9abr2015 1024x552 Fica, Temer

Lula e Temer em abril de 2015

Definha a resistência ao governo de Michel Temer. A passagem do tempo arrefece todas as paixões. Mas a crescente aceitação do ex-interino tem outro componente importante. É a inevitável pergunta que as palavras "Fora Temer" provocam: se a gente bota ele pra fora, pôe o quê no lugar?
A volta de Dilma é rejeitada pela maioria absoluta dos nossos compatriotas, inclusive pela maioria dos que elegeram Dilma. Diretas já, todo mundo garante que é muito difícil rolar agora. E se tivesse eleição agora, para votar em quem? Todos os baluartes da nossa política, pró e contra impeachment, inclusive os que se aboletaram em cima do muro, como Marina, batem recordes espetaculares de rejeição. Lula mantém bons índices de popularidade e também tem os maiores índices de rejeição dos eleitores
Basta conversar com o povão na rua para perceber que o país não está nem aí para essas eleições municipais, que dirá para eleições presidenciais. Está desencantado, o que é bem diferente de estar "pacificado". "Unir o Brasil" é fantasia tão improvável quanto o objetivo declarado de Lula, que é unir as esquerdas. Estão muito vencidos os termos "direita" e "esquerda", e pouco querem dizer para as pessoas comuns. Mas vamos usá-los aqui em seus sentidos originais: os representantes do Capital, do Indivíduo e da Permanência, contra os representantes do Trabalho, do Coletivo e da Mudança.
Nem o governo que foi saído era da Esquerda, e nem o governo atual é de Direita. Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma fizeram administrações centristas, com ligeiras inflexões mais pra lá ou pra cá. Nesse quarto de século, as maiorias tiveram ganhos importantes e uma minoria teve ganhos astronômicos. O fosso social brasileiro diminuiu - mas segue profundo.
Naturalmente é impossível e indesejável uma "união das esquerdas". As esquerdas são sempre múltiplas e conflituosas. Quando se "unem" é porque um grupo se impôs aos outros: foi-se a democracia, venceu a autocracia. O cenário que vemos é de multiplicação dos grupos contra Temer, mas não do número de pessoas contra seu governo. A juventude radical se nega a fazer número nas passeatas organizadas pelo PT, que quer a volta de Dilma. Já o PSOL quer diretas já. O próprio PSOL, como o PT, contém diversos agrupamentos internos, rachas variados. A tática do MST não é a do MTST, as feministas não concordam com os black blocs, e por aí vai. Sem problemas. É o que a esquerda é.
Mas nesse momento nenhum desses movimentos anti-Temer dialogam com o Brasil real. O cidadão comum tá em outra, tá vendendo o almoço para pagar a janta. Não espera grandes milagres de políticos, antigos, atuais ou futuros. Acha um pouco ridículo tanta indignação contra Temer, que foi durante todo o governo Lula aliado próximo do governo petista, e vice duas vezes de Dilma. Ué, ele era um cara super bacana até esse ano e virou o vilão da novela? A foto que ilustra esse texto não é do século passado, é de abril de 2015.
E assim o brasileiro vai se acostumando com nossos novos governantes. É fácil para a maioria de nós, que não fomos para as ruas pelo impeachment, e nem contra. Afinal, eles são nossos velhos governantes, com uma ou outra mudança. São praticamente os mesmos personagens que deram as cartas em todos os governos anteriores, desde o final do regime militar. Igual segue a política econômica, sob o mesmo ministro que foi de Lula, Henrique Meirelles. Não há tanques nas ruas, tribunais de exceção, interrupção da vida cotidiana, ou maior limitação das pequenas liberdades que nossa pequena democracia nos oferece.
"As coisas devem mudar para que permaneçam as mesmas", dizia aquele nobre italiano, Burt Lancaster, em "O Leopardo". A versão brasileira poderia ser "as pessoas devem mudar para que as coisas permaneçam as mesmas". Se nos dois anos de governo que lhe sobram Temer parir um novo milagre econômico, pode se reeleger ou eleger um poste em seu lugar. Se nos levar ao cataclisma social, não completa os dois anos. São cenários extremos. O mais provável é - bem, você escolhe em que futuro quer acreditar. Seja qual for, desconfio que qualquer que seja o próximo presidente, Temer, Lula ou quem vier, terá automaticamente o apoio da maioria do Congresso, mas não muita confiança dos eleitores.
No presente, o que existe é uma acomodação. Não é que o brasileiro goste de Temer, ou torça por Temer. As pesquisas e o sentimento das ruas deixam isso muito claro. É mais uma aceitação do inevitável, um muxoxo, um dar-de-ombros: fica, Temer.

Publicado em 14/09/2016 às 16:24

A inspiradora leveza de Calder

alexander calder 856x1024 A inspiradora leveza de Calder

Todo mundo conhece Calder. Até quem nunca ouviu falar dele. Qualquer lojinha de decoração tem uns móbiles à venda. Tem fofo pra quarto de criança, sofisticado para modernos, rústico para bicho-grilos. É um daqueles artistas que se confundem com a obra e viram marca: "Dali", "Mondrian", "Miró". Então qual a razão para estar tão vazia a exposição "Calder E A Arte Brasileira", em pleno sábado à tarde, em plena Paulista, entrada franca?
É que Alexander Calder não é um personagem como, digamos, "Frida", mulher independente, sofrida, ícone feminista em um México rebelde. As filas para a exposição de Frida Kahlo, um tempo atrás, sugeriam aglomeração na porta de festival de rock. Arte é cada vez mais cultura pop, é sobre celebridade, polêmica, dinheiro.
Alexander, "Sandy", Calder, quem era? Um americano tranquilo. Ninguém que inspire paixão. Nasceu com o século, 1898. Família com algumas posses e tradição nas artes. Pai e avô escultores, mãe retratista. Universitário dedicado, Engenheiro Mecânico formado, o que explica o rigor de seus projetos - tá pensando que é fácil equilibrar tanta pecinha?
A palavra que define Calder é "leveza". Seus móbiles flutuam, levitam, pendurados por cabinhos mínimos, delicadeza quase orgânica. Leve também na abordagem, terna, brincalhona. Atravessou o pesadelo do século 20, guerras mundiais, barbaridades variadas, sempre positivo, olhos no horizonte. Não à toa que sua primeira grande retrospectiva nos Estados Unidos, a que finalmente fez seu nome, em 1943, foi organizada por Marcel Duchamp, outro pândego.
A exposição em São Paulo tem escondido em um canto um filminho que é chave para entender o espírito de Calder. Sente e assista. Formado, Sandy fugiu da Engenharia. Foi projetista, e depois retratista de jornal (o que explica seus futuros cartuns feitos a arame). Mas assim que pode se picou para a Paris da Era do Jazz, aluguel barato, cafés animados, a fina flor da arte e da boemia. Recém-chegado, em 1926 já fazia seus bonequinhos de arame, com roupinhas, molas, cenários - o "Circo Calder", que exibia para os amigos, Duchamp, Jean Arp, Léger. Pra quê? Por farra. O filme é sobre o Circo e é uma graça. Mostra Sandy já coroa, brincando com seu Circo de mentirinha, encantado com a bailarina, o Elefante, o engolidor de espadas.
É esse espírito meio palhaço, meio malabarista que Calder transmite em toda sua obra. Nos móbiles, "stabiles" (apoiados no chão), pinturas, esculturas de pequenas a monumentais. É o que falta aos artistas brasileiros que o acompanham na exposição. A maioria das obras brasileiras quase vergam sob tanta seriedade estética, Helio Oiticida, Wilys de Castro... a honrosa, deliciosa exceção é Abraham Palatnik.
Sandy Calder não ganhou dinheiro até os anos 50. Hoje suas obras valem incontáveis milhões e estão nos principais museus do mundo (o de Filadélfia tem a melhor coleção, porque cobre todas as suas fases. Na cidade também está o fino de Duchamp. Visite). Também nunca pareceu se importar muito com isso. Fortuna? Fama? Nos anos 20 o "mercado" de arte mal existia, e muito menos para bonequinhos e penduricalhos.
Seu trabalho dá a impressão de ter vivido e morrido seguindo o lema de Man Ray: "Despreocupado, mas não indiferente". Vem de uma era em que os artistas vinham antes da arte. As obras inspiravam os teóricos, e não o contrário. Viver era tão importante quanto pintar, escrever, esculpir. Tempo que não volta, tempo que pode voltar - nem lá nem cá, equilíbrio impossível, suspenso no ar.

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Publicado em 23/08/2016 às 15:08

Goulart de Andrade e a TV 80: anarquia no ar

goulart 1024x576 Goulart de Andrade e a TV 80: anarquia no ar
A TV no início dos anos 80 era uma anarquia. Ou parecia. Os loucos tinham tomado o hospício: Goulart de Andrade, Fausto Silva, Paulo César Pereio, a turma do Olhar Eletrônico. Humor colegial, amor pela rua. Cenários toscos, gente comum, câmera na mão - a vida como ela nunca tinha sido na sala dos brasileiros.
Sotaque paulistaníssimo. Até nos programas de auditório, todos gravados na cidade, inclusive Chacrinha, que nunca foi tão doido quanto na Bandeirantes. No Rio dominava o padrão global, na própria e na Manchete, que buscava ser mais Hans Donner que o próprio. Todos os outros canais nacionais tinham sede em São Paulo - Record, Bandeirantes, TVS. Os canais locais de São Paulo, Cultura e Gazeta, fundações, orçamentos baixos, eram mais permeáveis às maluquices da garotada saída (ou ainda) na universidade. Boa parte está hoje por aí - o mais visível Marcelo Tas, que virou personalidade; o mais prestigiado Fernando Meirelles, fazendo cerimônia de Jogos Olímpicos, dirigindo filmes premiados.
A Globo dava suas cacetadas, principalmente nas séries, Plantão de Polícia, Malu Mulher e tal. Mas a ação, a gente sabia, estava nos outros canais, depois do horário nobre. Nunca assisti tanta TV quanto entre 1983 e 85. Recém-mudado pra São Paulo, morando sozinho, notívago, a TV era companhia até o hino nacional, duas da manhã, quando acabavam as transmissões.
Eu assistia tudo. Até esportes, que detesto. Via toda terça o "Clube dos Esportistas". Era um programa surreal com Sílvio Luís, Flávio Prado e Ronnie Hein sentados num sofá, recebendo boleiros (que eu não sabia quem eram, porque não assistia futebol). Sempre com um convidado musical, artistas nível Clube do Bolinha, Lilian Gonçalves. Destaque para a garçonete anã, Ferreirinha.
Goulart de Andrade era o mais ousado de todos. Ia onde ninguém ia, ao outro lado da meia-noite. Era observador, era malandro, era voyeur. Mas dava voz para os personagens, voz que eles não tinham (e não têm) nos jornais nacionais ou policiais. Goulart veio da velha TV, dos anos 50, mas soube se atualizar e se cercar de gente nova, que dava o sangue pelo Comando da Madrugada. Empresário, integrava merchandising descarado em seus programas. Foi pioneiro também nisso. Nada dá mais dinheiro hoje na mídia digital que merchan, ou, como se diz hoje, "branded content" e "native ads".
O que tem hoje de parecido? Talvez a "Vice". Mas vá direto ao original. Goulart publicou muito do que fez no seu canal do YouTube (vou lá agora ver se está a cirurgia peniana do Jamelão!). Pra se inspirar, confira essa lista com dez matérias inesquecíveis de Goulart...
O pouco que sobrou da anarquia televisiva daquele período morreu com a MTV Brasil, onde gente como João Gordo, Hermes & Renato e alguns doidos nos bastidores fizeram bonito. Agora a TV é infinitamente mais rica que trinta anos atrás, mas sempre muito bem produzida, planejada, segmentada, marketada. O espaço do risco e da surpresa é a internet, mas você jamais diria isso olhando os canais mais populares do YouTube. O vídeo na internet é cada vez mais dominado pelas personalidades, pela edição, pela busca desesperada de audiência. Tá cheio de coisa doida, e boa, mas que trabalho garimpar. Nos anos 80 a loucura estava ali no seu nariz, nas beiradas do mainstream.
Minha sensação na época é que depois de anos de TV comportadinha, nos anos da ditadura, com a abertura política tivemos uma explosão de criatividade como nunca antes. Ou eu era muito jovem e tudo parecia muito novo, surpreendente, horizonte infinito?
Essa turma, Goulart à frente, botou abaixo aos pontapés as barreiras aceitável na televisão, e portanto no Brasil. Nosso, meu, agradecimento eterno.

Publicado em 17/08/2016 às 16:19

Quando duas coisas incríveis se chocam: Caco, o Sapo canta Talking Heads

Um clássico de uma das bandas mais inteligentes e esquisitas de todos os tempos.
Um clássico da infância de muita gente... Caco, o Sapo, hoje mais conhecido como Kermit. Tão inteligente e esquisito quanto David Byrne!

Publicado em 17/08/2016 às 16:03

Acredite: Pokémon Go vai mudar completamente o mundo (e a sua vida)

pokeworld Acredite: Pokémon Go vai mudar completamente o mundo (e a sua vida)
Cena 1: o despertador toca. Márcia levanta e imediatamente coloca seu Óculos AR-VR. Vê o rosto de sua mãe flutuando no quarto; sinal que ela ligou. Um pouco para trás dela flutuam os logotipos das redes sociais favoritas de Márcia. Com um aceno da mão, roda para baixo os feeds. Fala as palavras “café” e “chuveiro”, para o Óculos ativar a cafeteira e já ligar a água na temperatura ideal. Antes de levantar, acaricia seus três pets, que estão no pé da cama: um gato com os olhos bicolores de David Bowie, um filhote de Panda e o Pikachu. Todos virtuais. AR: Realidade Aumentada. VR: Realidade Virtual.

Cena 2: Márcia caminha na direção do metrô. A vizinha Sônia a cumprimenta pela nova bolsa Chanel virtual. Márcia tem 4789 bolsas virtuais, usa uma nova a cada dia. Esta custou R$ 2,99 e foi baixada durante a noite pelo Óculos; Márcia tem uma assinatura de todos os lançamentos de bolsas virtuais das principais marcas internacionais. A bolsa física é sempre a mesma, superleve, super resistente, super prática.

Para combinar com a cor da nova bolsa, Márcia usa uma Skin customizada. Ajustou o tom da sua pele. O corte de cabelo está mais curto, e o casaco combina perfeitamente – tudo virtual. Como todas as suas Skins, esta também corrige algumas imperfeições do corpo material de Márcia: pés de galinha, marcas de acne, uns quilinhos a mais na cintura. Pensa que precisa malhar mais. Hoje à noite vai baixar uma nova praia virtual, para dar mais vontade de fazer ioga. Bali?

Cena 3: nos três quarteirões até o Metrô, Márcia interage com 78 avatares. Das lojas no caminho (com brindes virtuais, bônus e cash-backs em caso de compra). De marcas com que já tem cadastro, oferecendo e-commerce instantâneo e personalizado, muitos usando celebridades (sua YouTuber favorita, o Pequeno Príncipe, o Dalai Lama). Marcas de consumo mas também ONGs, partidos políticos, causas pedindo seu apoio. O logotipo flutuante do cartão de crédito avisa que seus pontos acumulados já dão direito a mais uma viagem virtual de uma tarde. Ela pode escolher entre diversos locais reais ou imaginários, com direito a acompanhante (ela seleciona Tatooine e Cauã Raymond, paixão da sua adolescência).

Márcia prioriza o que é mais urgente. O avatar do seu chefe em Shenzhen está na esquina cobrando seu relatório sobre a mais nova atualização de software. Márcia trabalha para uma empresa que produz Ambientes Virtuais Educacionais para bebês recém-nascidos. São cada vez mais raros.

Finalmente Márcia chega ao Metrô. Está cheio, mas não muito. Quase ninguém mais tem carro; carros têm AR-VR instalados, mas a interação AR-VR é muito menor – qual é a graça? Se necessário um carro, basta comprar algumas horas de uso e eletricidade para rodar. Claro que a maioria das pessoas não se reúne fisicamente para trabalhar.

Márcia escolheu semana passada ver o Metrô como o museu Hermitage, de São Petersburgo, mas já está enjoando de tanto gigantismo. Com um aceno de mão abre um menu no ar e aponta: “Capela Sistina”. Agora sim. Olhando os detalhes do Juízo Final de Michelangelo, ela pergunta: quanto tempo demorou para pintar isso? Harry Potter, seu assistente pessoal virtual (personalizado e gratuito, cortesia da Wikipedia) responde: quatro anos, de 1508 a 1512.

Na escada rolante estão trolls, fadas, super-heróis, roqueiros falecidos, aliens, animais falantes, celebridades do passado e presente, e pessoas “comuns” –todas usando skins, algumas mais sofisticadas, outras mais simples. O “Plebiscito da Semana” insiste que seu voto é importante para alocar eficientemente os recursos públicos não-virtuais, e portanto limitados. A administração pública é uma combinação de Inteligência Artificial e Crowdsourcing. Márcia vota em eliminar de vez a perfuração em plataformas submarinas; o mundo já tem problemas demais com o clima para queimar mais petróleo.

Mais ofertas de produtos e serviços, a maioria digitais, alguns poucos físicos, aparecem sem parar. Uma se sobrepondo à outra, todas em 3D, interativas. Já andam falando que o novo update grátis do Óculos vai ter olfato virtual, imagine só.

Nossa heroína suspira. Diz “Pause” e “Liga pra minha mãe”. Que atende na hora. Faz cara de “por quê demorou tanto pra me retornar?”, o olhar de reprovação que Márcia reconhece como típico de sua mãe – mesmo que sua mãe esteja no momento usando um skin que a faz parecer com Dory, a peixinha do desenho animado.

As tecnologias de AR-VR, Realidade Aumentada e Realidade Virtual, e a infraestrutura que utilizam (Computação em Nuvem, a Inteligência Artificial, Geolocalização, Logística Avançada, Tecnologia Financeira) vão mudar completamente a maneira como trabalhamos, vivemos, compramos e vendemos. Pokémon Go é um belo início. E é só o início. Agora a revolução AR-VR está nos smartphones. Logo (ainda em 2016) estarão nos primeiros Óculos. Depois, algum dia, em implantes cerebrais... e depois sabe-se lá.

AR-VR vai destruir o mundo de 2016. A educação, a ciência, a arquitetura, o namoro, a mídia, o marketing, o consumo, a política; seu trabalho, meu amigo, sua carreira, minha amiga – tudo será profundamente modificado. Fortunas serão criadas e destruídas. Quem sabe tudo que você aprendeu até agora vai valer muito pouco. Quem sabe você vai surfar essa onda e ganhar muito dinheiro.

Já começou. Baixe Pokémon Go agora. Comece a brincar, porque a revolução não será brincadeira. Jogue, compreenda, estude Pokémon Go. Bote a imaginação para funcionar. É o melhor investimento que você pode fazer no seu futuro profissional (principalmente porque a maioria das pessoas que lerem esse texto não levarão este meu conselho a sério).

E enquanto você se prepara para esse futuro tão próximo, o presente é ganhar dinheiro com Pokémon Go aqui e agora. Hoje de manhã, a dois quarteirões da minha casa, uma loja de produtos naturais oferecia desconto para quem entrasse lá para capturar Pokémon. E você, como está usando Pokémon Go para faturar já?

Assunto para meu próximo texto. E não estranhe se eu voltar muitas vezes a este tema. Eu manjo dos monstrinhos. Trabalho com Pokémon desde 1998, quando, fundador da Editora Conrad, lancei a revista Nintendo World e depois a Pokémon Club (que foi o maior sucesso editorial do ano 2000, aliás...)

E se você já está usando Pokémon Go para fazer marketing, vender, agradar seus clientes – mande para mim! Sei de muitos casos no exterior, mas ainda poucos no Brasil. Quando forem em quantidade suficiente, listarei em um novo post.

É engraçado que depois de todos estes anos eu esteja de volta ao mundo de Pokémon (na verdade, nunca saí dele; tenho longa história no universo dos games, e dos novos negócios; lê aí no meu perfil). Mas não me surpreende.

Os games são o laboratório de teste das inovações que depois explodirão em todo o mercado. Estarei sempre de olho no futuro, então estarei sempre de olho nos games, sempre brincando, sempre jogando. Como diz a música tema do desenho Pokémon: “I know it´s my destiny”!

Publicado em 10/08/2016 às 15:57

A Rio 2016 é racista

rafa ouro A Rio 2016 é racista
Racismo não é que os negros brasileiros têm menos saneamento. Menos casa própria. Menos acesso à saúde, hospital, creche. Nem que são menos alfabetizados, que vivem menos, que vivem pior que os brancos. Racismo não é que os negros são minoria nas universidades, nas redações, no shopping, nos restaurantes. Ou minoria nas novelas, nos telejornais, no público que frequenta os programas de auditório.
Não estão nos palcos dos teatros, são poucos nas paradas de sucesso. Não apresentam talk shows. Há pouquíssimos negros nas gerências e direções das empresas. E no comando da Polícia Militar, Civil, Federal. Não há negros entre os bilionários brasileiros. E não se vê negros nos ministérios, nas secretarias, autarquias, ou nos altos cargos do judiciário.
Mas nada disso é racismo. Não gera indignação. Não é tema pra campanha de candidato nenhum. Não repercute nas redes sociais. Isso é normal. É o dia a dia. Não, racismo é quando eu escrevo a seguinte frase: "Medalha de ouro para uma negra favelada ajuda as negras faveladas em exatamente nada."
Por esse comentário no Twitter, inspirado pela vitória de Rafaela Silva no judô, fui chamado de racista por várias pessoas. Outras também me "xingaram" de gay, homem, branco etc. Muito comum a crítica de que não posso escrever sobre mulheres negras porque não sou mulher nem negra, o que é além de surreal.
Mas nem todo mundo entendeu assim.
Ana Luisa, leitora atenta, escreveu no Facebook sobre o assunto: "aquele post de racista não tem nada. Ao contrário. É uma crítica a um poder público omisso, que quase nada faz para quem é pobre e negro, e a uma sociedade preconceituosa e hipócrita que relega aos próprios negros o conselho de seguir o exemplo de esforço pessoal de uma moça negra que é destaque hoje. Mas é exceção entre uma massa de negras que não tiveram sua condição melhorada por ninguém. E nem ganharam o respeito da classe média anos atrás, lá com aquela medalha de ouro da judoca Edinanci (cujo nome, aliás, caiu no ostracismo). Incrível o tanto de gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, o seu post."
Toda essa gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, não pesa tanto pra mim quanto uma única pessoa ter compreendido tão bem minha intenção quanto Ana Luisa.
Costumo dizer que o Brasil é um problema de interpretação de texto. Também costumo dizer que é inútil tentar entender os outros, e mais ainda tentar mudar os outros. Não dá para mudar a opinião de quem concluiu por esta frase que sou racista. Nem vou tentar. Então sou racista. E não sou racista. Entendeu? Assim é o novo mundo da comunicação.
Esse problema de deficiência de compreensão (ou mesmo de indignação simplista e automática) se tornou uma patologia. Dois exemplos pessoais. Estou respondendo a um processo que pede uma indenização financeira bem grande, por um texto que publiquei aqui no blog. Perdi em primeira instância, estamos recorrendo. A decisão do juiz é baseada no que dei a entender, não no que efetivamente escrevi. É um problema da legislação brasileira, que é dúbia, porque interpretação é sempre subjetiva.
Outro exemplo, mais engraçado, de ontem. Fiz também no Twitter uma piada infantil, daquelas tipo revista Recreio: "O que esse Phelps faz de tão importante? Nada." Pois não é que tem gente me xingando, achando que é uma crítica ao nadador americano? Quando até uma bobagem dessas ofende, está claro que qualquer coisa (mas qualquer coisa mesmo) pode gerar repercussão negativa. Como qualquer coisa pode querer dizer o seu contrário, decidi por um título bem explícito e escandaloso para este texto: "A Rio 2016 é racista".
Sutileza tem hora. Veja: o caminho natural para quem escreve profissionalmente, neste ambiente, é a autocensura e a autopromoção. Ou, caminho contrário e desafiador, apostar na inteligência de poucos. Ser mais mais ambíguo, denso, ambicioso. E muito, muito seletivo. É uma alternativa que me seduz - para daqui a pouco.
Para hoje, sobra ser tão agressivo quanto Rafaela Silva. De fato a medalha de ouro para ela não ajuda em nada as negras faveladas, ou, se você preferir, as afrodescendentes moradoras de comunidades. O que mudará a vida dos milhões de Rafaelas que não chegaram e nunca chegarão a nenhum pódio é dinheiro.
Investir R$ 38 bilhões dos nossos impostos nos Jogos Olímpicos, e não em melhorar a vida dos brasileiros mais pobres - a maioria negros, a maioria favelados - é uma das maiores injustiças já cometidas nesse país. E isso sim é que é racismo.

Publicado em 05/08/2016 às 18:49

Anitta é perfeita pra abertura da Rio 2016

anitta Anitta é perfeita pra abertura da Rio 2016Não podiam ter escolhido artista melhor que Anitta para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Anitta, ex-MC Anitta, nascida Larissa, é a exata imagem que o mundo faz do Brasil: uma bunda mestiça, alegre, amadora. E é puro Rio 2016: oferecida, simpática, provinciana, cirurgia plástica etc. MUITO melhor que Gil e Caetano, que também vão se apresentar na abertura...
É caipirice de brasileiro achar que Anitta não devia estar lá. Os gringos não botam Beyoncé no show de intervalo do SuperBowl? Todas as grandes cantoras internacionais posam de stripper, rebolam com o mínimo de roupa e tal, cantando como são poderosas e empoderadas. Anitta faz isso melhor que todas elas, claro, porque brasileira, com aquele molejo e simpatia que só nosso DNA misturadão permite.
Duro seria se o Brasil resolvesse fingir o que não é na cerimônia de abertura. Foi o que aconteceu no fechamento da Olimpíada de Londres, quando Marisa Monte (!) representou o Brasil. Marisa é insípida e insegura; canta samba como se quisesse impressionar críticos novaiorquinos; carisma abaixo de zero.
E objetivamente Anitta é a artista mais popular do Brasil. É do funk, é do samba, é famosa, é gostosa. Ninguém faz mais sucesso que ela. Merece estar lá. Você pode achar que como cantora ela tem pouca voz; que as letras não dizem nada, que a música é rudimentar; e por aí vai. Tudo verdade e nada disso importa. Anitta é crua, é quente, é nossa, é campeã.

Publicado em 02/08/2016 às 15:32

Se toca, Dilma – ninguém quer mais saber de você

lm dilmarousseff pimentel hartung20151117 3 1024x680 Se toca, Dilma   ninguém quer mais saber de você
Retorno de férias, três semanas longe do Brasil. Passei maravilhosamente bem sem nosso triste noticiário, o enrolol da política, a desconversa na economia, a preguiça nas artes. Desembarco aqui e surpresa: perdida entre chamadas sobre os Jogos Olímpicos, Dilma Rousseff diz que vai propor plebiscito sobre novas eleições para presidente. Quem? Como? Ué, o tempo parou?
Era a exata conversa de Dilma antes de eu viajar. Ué, quer propôr, propõe aí. Grava um vídeo chamando eleições. Escreve uma cartinha. Chama uma entrevista coletiva. Não dá tanto trabalho. Basta querer. Mas Dilma não quer. Dilma não sabe mais o que quer. Imagino que deve fantasiar voltar a 2014 e cumprir as promessas que fez para se reeleger, em vez de trair seus eleitores.
Lá se vai um trimestre que Temer assumiu. Longe do poder, Dilma teve toda oportunidade, e tinha excelentes razões, para propor o que muita gente propunha: novas eleições para presidente. Quando foi afastada, com altíssimo índice de rejeição contra si própria mas também contra Michel Temer, a proposta de novas eleições poderia ter grande apoio popular (e dificilmente passaria no Congresso. E daí? Política não é só pra fazer a mixaria que é fácil fazer...).
Agora ela vem com esse papo de novo? Pra quê? Pra nada. Dilma poderia ter entrado pra história como alguém que pisou na bola, mas na hora H soube enfrentar o momento histórico mostrar desprendimento - grandeza, porque não? Os pequenos também são grandes às vezes. Em vez disso segue nessa toada tediosa, se apequenando cada vez mais. Junto com o partido que um dia foi a grande esperança dos pobres do Brasil e virou essa coisa nanica.
Agora o país quer saber de olimpíada, depois tem eleição, e depois tem o verão, e com ele algum alívio, se não no bolso, pelo menos no espírito. E toca andar pra frente. Não é preciso ser fã de Temer (o que quase nenhum brasileiro é) para reconhecer que o tempo de Dilma se foi. Está na cara. O próprio PT, a própria CUT já enterraram a ex-presidente. Só ela não se toca. Segue por aí, se arrastando como um zumbi, faminta de atenção e, quem sabe, redenção. Não terá.

Publicado em 28/06/2016 às 15:38

Patricia Abravanel está certa. O misticismo é inimigo do progresso

Patrícia Abravanel divulgação 1024x670 Patricia Abravanel está certa. O misticismo é inimigo do progresso
Patrícia Abravanel apanha dos ignorantes. É patético. Está correta ao falar do misticismo. Quanto maior a influência da religião em uma sociedade, mais ignorante e injusta. Onde ela errou: em relacionar o trabalho com a riqueza. O sucesso maior ou menor de cada país é resultado de um conjunto de fatores, dos quais o trabalho é apenas um. Sugiro a Patrícia a leitura do biólogo Jared Diamond e seu livro "Armas, Germes e Aço".
Mas não é por isso que está sendo condenada, e sim por citar a África como exemplo negativo. Essa condenação não resiste a um sopro de realidade. É movimento reflexo de zumbis politicamente corretos. Não tem nada de racismo no que ela falou.
O que Patrícia disse:
"Em países muito místicos (...), muitas vezes o povo deixa de trabalhar porque fica tão místico que deixa de fazer as coisas certas para poder chegar num objetivo. Em países mais racionais, que têm uma fé em Deus, mas acredita no esforço, no suor, no trabalho, no você se portar, ter um casamento e ter que cuidar dele, esses países vão mais pra frente. Então, um exemplo: a África é muito mística, e a gente vê as consequências, e os Estados Unidos é mais racional, protestante, onde acredita no suor. Então, eu acho que a gente tem que avaliar nossa crença através dos frutos que elas nos trazem".
Agora, o que dizem as pesquisas?
Existem muitas que dizem todas a mesma coisa. Escolho uma especialmente sólida e convincente. O instituto Gallup fez em 2009 uma pesquisa mundial, com o objetivo de identificar os países mais e menos religiosos do mundo. Os pesquisadores perguntaram: "a religião é uma parte importante da sua vida diária?". Os resultados estão abaixo.

Os países mais religiosos do mundo:

Egito
Bangladesh
Sri Lanka
Indonésia
Congo
Sierra Leone
Malawi
Senegal
Djibouti
Marrocos
Emirados Árabes
(a maior parte está na África e é islâmico)

Os menos religiosos:

Estônia
Suécia
Dinamarca
Noruega
República Tcheca
Azerbaijão
Hong Kong
Japão
França
Mongólia
Bielorússia
(A maior parte está na Europa)

Na mesma pesquisa, o Gallup identificou os estados mais e menos religiosos dos Estados Unidos.

Os Estados menos religiosos:

Vermont
New Hampshire
Maine
Massachussets
Alaska
Washington
Oregon
Rhode Island
Nevada
Connecticut

Os mais religiosos:

Mississipi
Alabama
Carolina do Sul
Tennessee
Louisiana
Arkansas
Georgia
Carolina do Norte
Oklahoma
Kentucky
Texas

Os estados mais religiosos dos EUA são os mais pobres, e a religião dominante é a cristão.
Veja: não importa se o país é muçulmano ou cristão. A questão não é de fé. Sobreponha estas listas sobre pesquisas equivalentes sobre nível educacional. A relação é lugar comum. Onde as pessoas são mais educadas, a religião é menos importante. Isso também significa que os países menos religiosos são os com melhor padrão de vida para suas populações. Porque neles prevalece a diversidade, o respeito, o planejamento. Por quê? De novo, sugiro a leitura de Jared Diamond; não é meu assunto aqui.

Onde as pessoas têm menos acesso à educação, à informação, à liberdade de expressão, as religiões são mais importantes para as pessoas, e por consequência a fé tem mais influência dentro de cada sociedade. É o que Patricia chamou genericamente de "misticismo".

Naturalmente, não vivemos no vácuo. Pessoas e grupos com crenças diferentes vão disputar espaços simbólicos, religiosos e políticos. Faz parte da vida e do jogo. Liberdade é a liberdade de acreditar no que você quiser, mesmo que me cause repugnância. Mas esta disputa só é positiva em uma sociedade que não acredita em nada, salvo na defesa da liberdade e do progresso de todos, por igual. Intolerante somente com os intolerantes, com o máximo respeito pela vida e pelas diferenças.
É possível e desejável a convivência harmônica entre cristãos, muçulmanos e judeus; budistas, umbandistas e ateus. Como entre brancos, negros e amarelos, LGBT e héteros, todos os comportamentos, caras, crenças. Mas não é viável sob domínio de uma das religiões, ou raças, ou um grupinho. Só em uma sociedade civil e civilizada, e portanto, não dominada pelo misticismo. Ordenada por leis criadas por todos, que sirvam para todos, e que prevejam direitos e deveres iguais para todos. E só em uma sociedade educada.
A religião estará sempre entre nós, inclusive os fundamentalistas. Vamos acostumar com essa idéia. Mas quanto mais educação e melhor divididas as riquezas, cada vez as religiões terão menos poder na sociedade - é o que as estatísticas demonstram. Foi isso que Patrícia disse, à sua maneira atrapalhada. E é bom acostumar com essa idéia também.

Publicado em 27/06/2016 às 17:29

As bancas de revista são importantes. Nesta terça-feira, é hora da gente defendê-las

IMG 4330  1024x682 As bancas de revista são importantes. Nesta terça feira, é hora da gente defendê las
Devo muito aos jornaleiros. Minha mãe me ensinou a ler. Mas quem me ensinou a gostar de ler foi a banca. Me parecia um lugar mágico, muito mais que uma biblioteca, porque sempre renovada, sempre em mutação, sempre quente. Eu gostava do seriado do Batman e do mundo mágico de Walt Disney, então comecei a ler Batman e os gibis dos patos. E o Manual do Escoteiro Mirim. E mais quadrinhos, e mais revistas, e livros bons e baratos.
Isso foi nos anos 70. De lá para cá a banca virou uma coisa bem diferente, e nossas necessidades de informação, conteúdo, mágica são atendidas de maneira muito mais diversa. O papel é só uma parte da informação que acessamos.
As bancas são também um centro importante de fomento cultural. A cena nacional de quadrinhos seria completamente diferente se nos anos 80 um grupo de artistas, jornalistas e fãs de HQ não tivessem passado a frequentar a banca Tiragem Limitada - que daria origem à loja Comix. Outras bancas reúnem outros grupos, até hoje.
E as bancas, claro, são um centro de convivência. O jornaleiro da esquina é parte da comunidade. Presta serviço a quem vive no pedaço, a quem está de passagem, presta informação, bate papo. O jornaleiro vive de entender sua rua, seu bairro, seu leitor.
Por isso tudo é que é importante que a banca sobreviva. Mas para sobreviver, a banca tem que mudar. E tem que mudar, inclusive, a sua fonte de receitas. Só revista, nos dias de hoje, não sustenta uma banca. Aí é que as bancas começam a ter um mix diversificado de produtos, conforme a necessidade do seu mercado. Mas isso não é o suficiente. Por isso é que nos últimos dez anos, o número de bancas em São Paulo caiu de sete mil para 3500 bancas. Claro que tem as bancas melhores e as piores. Mas hoje, juntando a mudança no comportamento do leitor e a atual crise econômica, mesmo as melhores estão em apuros.
Devo tudo como profissional e empresário à banca. Fiz e faço revista e livro para jovem, inclusive criança bem pequena. Te garanto que as bancas continuam sendo centros importantes de difusão de informação e de opinião. E que elas seguem alimentando o amor à leitura. Tenho interesse prático que as bancas sobrevivam, porque sou jornalista e editor (além de curioso profissional e fuçador da internet...). Veja bem, não morro de fome se todas as bancas fecharem amanhã. Mas já rodei o mundo e sei que cidade civilizada é cidade com banca boa na rua.
E por isso tudo é que é muito importante a aprovação do Projeto de Lei 236/2016, também conhecido como "Banca SP". Ele será votado nesta terça-feira. Foi aprovado na primeira votação, esta é a segunda.
Permitirá que as bancas paulistanas possam veicular publicidade em quatro espaços: um anúncio em cada lateral e dois na parte de trás da banda. Hoje já é assim, mas só pode ter publicidade de produto editorial. Com a lei a banca passa a poder ter publicidade de outros segmentos, como é hoje com os pontos de ônibus e relógios.
A palavra chave aí é "poder". Não quer dizer que todas as bancas farão isso. A adesão será totalmente voluntária. Por isso o argumento de que esse projeto de lei vai contra a Lei da Cidade Limpa é furado. A maioria das bancas hoje já tem cartazes anunciando revista e livros. Uma parte das bancas, provavelmente as que estão em localização mais privilegiada, com visibilidade maior, passarão a ter, em vez de cartazes de revista, cartazes anunciando automóvel, suco, tênis ou o que fôr.
O jornaleiro é um um pequeno empresário. Como em qualquer segmento, existem os mais empreendedores e os menos. Essa lei pode beneficiar muitos pequenos negócios. Fazer isso de maneira descentralizada. Ela exige contrapartidas. O jornaleiro que aderir terá que fazer melhorias na sua banca, que vai desde trocar a estrutura metálica até colocar e cuidar de bancos e banheiro público. Melhor para a cidade. E veja só: uma parte desta receita extra irá como imposto para a própria prefeitura, e não para um caixa comum, mas justamente para o Fundo Municipal de Mobiliário Urbano e Paisagem Urbana.
Urbanistas importantes dizem que o projeto Banca SP é bom e moderno. Mas interesses poderosos estão querendo solapar esse projeto. Por interesse econômico das grandes empresas que hoje controlam a publicidade nos pontos de ônibus o relógios. Ou são colunistas que fizeram parte da administração Kassab, e aí é um interesse eleitoreiro, que simplesmente vai contra tudo que o atual prefeito faz ou propõe.
Não se trata de gostar ou não de Kassab ou Haddad. Não vamos politizar uma questão que é de todos. Idéia é boa é boa, não importa de onde venha. É mesquinhez fazer de São Paulo uma cidade mais burra. Nossas ruas são mais civilizadas com as bancas; nossas crianças aprendem a gostar de ler nas bancas; o jornaleiro presta um serviço importante pra gente. Vamos proteger isso e apoiar o Banca SP.

Publicado em 25/06/2016 às 09:49

O que falta pro Temer dançar na Lava-Jato? Moro aceitar essa delação premiada

cms image 000493386 1024x601 O que falta pro Temer dançar na Lava Jato? Moro aceitar essa delação premiada
Reportagem de hoje da Revista Época não deixa dúvida. O destino do presidente interino está nas mãos de Sérgio Moro. Se Moro aceitar essa delação premiada de José Antunes Sobrinho (acima), um dos donos da Engevix, Temer dança. Antunes diz com todas as letras que pagou propina ao mais notório operador de Temer, João Baptista Lima Sobrinho.

Se Moro não aceitar a proposta de delação de Antunes, enterra sua própria credibilidade - e a da da Lava-Jato. Leia. E prepare-se para fortes emoções nos dias que virão.

Publicado em 23/06/2016 às 15:36

A merenda, as panelas e a pizza

RR estudantes secundaristas em frente a ALESP contra mafia da merenda 29032016004 1 1024x678 A merenda, as panelas e a pizza
É muito bom que o nosso judiciário investigue políticos e empresários corruptos. É excelente que os culpados vão pra cadeia. É imoral, ilegal e inevitável que uma parte muito podre da nossa política continue intocável. É o PSDB paulista. Não importa quantas acusações contra os tucanos, quantas evidências, quantas provas irrefutáveis, saem sempre inocentados de tudo.
Foi assim nas privatizações da era Fernando Henrique, comandados por Sérgio Motta. Foi assim no caso da máfia dos Trens, que se arrasta desde 1997. Caixa dois? Pouca gente lembra do escândalo de Furnas, que já em 2006 sugeria que R$ 5,5 milhões de caixa dois teriam ido para as campanhas de Aécio, Alckmin e Serra. Dá pra ficar lembrando de casos envolvendo políticos do PSDB até amanhã.
Naturalmente não é privilégio dos paulistas: pelo Brasil agora tem muita sujeira envolvendo o PSDB. Minas aparece com destaque, graças ao "mensalão mineiro". O único tucano de alta plumagem que jamais rodou é o ex-governador Eduardo Azeredo. Está provadíssimo que roubou e roubou muito. Foi condenado em primeira instância em 16 de dezembro de 2015, a 20 anos e dez meses de prisão, em regime inicialmente fechado, pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. Mas recorreu à segunda instância e está em liberdade. Enquanto isso, qualquer zé mané citado por delator da Lava-Jato vai direto pra cadeia.
A mais nova palhaçada com a população é a CPI da Máfia da Merenda. É difícil imaginar coisa mais nojenta do que roubar comida de criança pobre, mas é exatamente isso que aconteceu. A investigação envolve assessores diretos, da total confiança de Geraldo Alckmin, incluindo seu chefe de gabinete da Casa Civil, seu braço direito, Luiz Roberto dos Santos; e o presidente da Assembléia Legislativa, seu principal aliado na casa, Fernando Capez. Ontem foi instalada a CPI. Adivinhe: dos nove integrantes, oito são da base de Alckmin, e somente um da oposição. Mais uma vez Alckmin se sai bem em uma operação abafa. Mais uma vez, acusações contra os tucanos vão acabar em pizza.
O Ministério Público é muito valente, mas nunca para enfrentar o PSDB. Os juízes são muito rigorosos, mas nunca para enquadrar o PSDB. Os eleitores de Aécio saíram às ruas somente para derrubar Dilma, não para enfrentar o crime organizado nos palácios ocupados pelo PSDB. Contra a corrupção do PT, muitas pessoas bateram panelas. Contra a corrupção do PSDB, o silêncio destes cúmplices é ensurdecedor.

Publicado em 21/06/2016 às 17:14

O Uber do Uber

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O Uber causa muita polêmica. A única coisa que não gera discussão sobre o Uber é o seu sucesso com os consumidores e com os investidores. O Uber virou até uma maneira de se dizer "empresa nova que entra em um mercado e vira ele de cabeça pra baixo". No jargão da internet, é "Disrupção": uma tecnologia, ou modelo de negócio, que já nasce destruindo a maneira antiga de fazer as coisas.
Então hoje se fala no Uber dos Serviços Domésticos, o Uber das reservas para restaurante, o Uber dos passeadores de cachorro etc. etc.
Só que pouca gente se tocou que já existe o Uber do Uber. Está no nariz de todo mundo. Não no Brasil, mas em muitos países. É uma coisa que torna o Uber absolutamente inútil.
Chama-se... transporte público de qualidade. Mais especificamente: metrô.
Se você for amanhã para Nova York, Tóquio, Paris e várias outras metrópoles, vai perceber que pode ir a qualquer lugar da cidade em pouco tempo, gastando pouquíssimo. E para fora da cidade também. Porque essas cidades têm muitas estações de metrô, todas interligadas. E essas redes são ligadas a ferrovias que atravessam o país, e aliás se conectam com outros países. Dá para ir de uma ponta a outra da Europa só usando transporte público e gastando uma mixaria.
Porque um parisiense usaria o Uber? Para ficar empacado no trânsito, e gastar muito mais do que a passagem de metrô? Só numa situação de emergência. Ou voltando da balada de madrugada, porque nem todas as estações de metrô funcionam a noite toda. Mas para emergências e bebedeiras já existe táxi, né?
Fora que essas cidades (e muitas cidades médias) têm, além do metrô, ônibus limpos, confiáveis e baratos. E é por isso que em muitas das maiores cidades do mundo há décadas boa parte da população não tem carro. Carro pra quê? Transporte público te leva a qualquer lugar, é conveniente e barato. É uma coisa tão boa e eficiente que várias cidades já estão fornecendo transporte público gratuito! Algumas cidades, para todos os passageiros. Outras só em algumas linhas, ou para alguns grupos (por exemplo, estudantes ou idosos).
Tem um outro detalhe. Que cada vez será menos um detalhe, e mais uma prioridade. Menos carro na rua, além de menos trânsito, significa menos poluição no ar. O que é bom para a nossa saúde e para a saúde do planeta. Um modelo de negócio baseado em transporte de uma pessoa, via automóvel queimando gasolina, não faz nenhum sentido no século 21, com as mudanças climáticas à toda.
Onde o Uber poderia fazer sentido? Onde o transporte público é pouco e ruim, onde táxi é caríssimo, onde não há regras trabalhistas como as do primeiro mundo para defender os taxistas. Ou seja, nos países pouco desenvolvidos. Como o Brasil. Mas para 90% dos brasileiros, o Uber é muito caro (e carro é o grande sonho de consumo). Os outros 10% já têm carro e não abrem mão dele...
E brasileiro é brasileiro, claro. Esses dias saí de uma reunião com uma pessoa, ele chamou um Uber, fui junto. Ele ficou no seu escritório, eu ainda estava longe de casa. Falei pro motorista do Uber: eu não tenho o aplicativo, você me leva mesmo assim? Ele falou: claro!
Rodamos mais uns 15 minutos. Perguntei quanto foi? Ele disse que não era nada. Eu falei nada disso, você trabalhou, tenho que te pagar, pô. Ele disse que seria uns oito reais. Dei dez e falei para ficar com o troco. Ele ganhou mais do que se fizesse a corrida via Uber. Eu paguei menos do que se usasse o Uber. O cara me deu um cartãozinho com o telefone e disse: doutor, eu faço corrida particular, precisando é só ligar... O Uber, essa maravilha da tecnologia, não resiste a um telefonema.
Vai ver que é por isso que o Uber dá um prejuízo enorme, no mundo inteiro. Literalmente, bilhões de dólares de prejuízo. Quem fecha a conta? Grandes investidores, que acreditam que um dia o Uber vai dar lucro. Pode ser. Já vi grandes apostas da internet darem em nada, já vi darem em muita coisa. O tempo dirá. Só tenho uma certeza: o futuro é transporte coletivo de qualidade, barato ou gratuito, e não-poluente. E em alguns lugares isso já é o presente. Isso sim é que é inovação. E fazer isso no Brasil é que será a verdadeira disrupção.

Publicado em 17/06/2016 às 15:29

Como fazer um ajuste fiscal quebrando ovos

Omelete 16 Como fazer um ajuste fiscal quebrando ovos
Presta atenção nesses números:

- a renda média do brasileiro que trabalha para o setor privado é de R$ 1,1 mil. O salário mínimo é R$ 880,00. A maioria esmagadora não declara imposto de renda
- 27,3 milhões de brasileiros declararam imposto de renda em 2014
- destes, 1% teve rendimento tributável acima de R$ 26,3 mil por mês
- este 1% correspondem a 0,15% da população.

Esses 0,15% dos brasileiros são a elite. Claro que essa elite também contém, dentro dela, classes A, B, C, D e E.
A classe E da Elite são os que ganham nessa faixa, por perto dos R$ 30 mil por mês. Tenho certeza que não se sentem milionários de jeito nenhum. Mas são extremamente privilegiados, perto do conjunto da população.
A classe A da Elite é uma fatia microscópica da população, que é dona de uma fatia gorda das nossas riquezas. Inclui esses super ricos famosos que estão sempre nas manchetes, nas reportagens de política e economia, e cada vez mais nas reportagens policiais. Entre as classes A e E da Elite está a elite do nosso funcionalismo público. Como muitos que tiveram reajustes salariais este mês, aprovados pelo governo e pelo Congresso Nacional.
O que vem sendo feito nos últimos anos, e o que continua em pauta para os próximos, é indecente e inútil. Qualquer iniciativa de ajuste fiscal no Brasil tem que começar necessariamente pela classe A da Elite. E descer em cascata. Quando o 0,1% mais rico do país tiver feito sacrifícios, podemos exigir do 1% seguinte, e assim em diante. É premissa inegociável que os brasileiros mais pobres serão poupados até o limite do nosso esforço e imaginação. Qualquer proposta diferente disso tem que ser rejeitada de cara. É impossível fazer um omelete sem quebrar ovos - e privilégios.

Publicado em 14/06/2016 às 17:34

Porque gosto da música do Justin Bieber

justing bieber sorry skrillex blood lyrics 30 1024x512 Porque gosto da música do Justin Bieber
Razão é a coisa mais superestimada do mundo. Somos um feixe de instintos, hormônios, memórias. Nos move muito mais a química que as intenções. A gente age antes de refletir, e gosta do que gosta, não do que imagina que deveria gostar. Donde que gosto da nova música do Justin Bieber. Que não é mais nova, é "Sorry", toca sem parar há meses, e durante meses me incomodou e intrigou.
Eu no trânsito vira e mexe ouço rádio. De rock véio, de pop novo, e cada vez mais de música clássica, sinal certo de maturidade chegando, ai caramba. Primeira vez que ouvi "Sorry" foi no rádio. Não sabia de quem era. E gostei não gostando. Quer dizer, fiz minha análise crítica instantânea. Só mais um hit dance-de-FM pré-fabricado por algum megaprodutor, refrão em três notas, letra "macho vulnerável" arfante, puxando o saco das fãs
Depois descobri que era Bieber, e piorou, porque o moleque é um entojo desde garoto-prodígio do YouTube. E de lá para cá virou rebelde de butique, milionário maconheirinho musculoso e mala.
Então porque sempre que tocava eu ouvia até o fim? Porque subia o volume? A porcaria da música ficou me seduzindo e atazanando meses. Como uma mulher que te dá bola e te dispensa. Judia de mim!
Até que esses dias caiu a ficha e, uau, que maravilha é compreender. Que prazer. Que alívio. Eu gosto dessa música do Justin Bieber porque me lembra aqueles hits antigões de Axé. Do primeiro Axé, lá no meio dos anos 80. Luiz Caldas. Sarajane! "A Rodinha" dá quase pra decalcar em cima de "Sorry". Até "O Canto da Cidade", que enterrou a primeira fase do Axé, já 92.
Fui lá ler sobre "Sorry" e descubro os termos "Tropical House" e "Dancehall Pop". Que é definido como uma mistura de house com ritmos jamaicanos, swingados, veranis. Tá, mas o caminho acho que é outro. "Sorry" é produzido por Skrillex, produtor de mão cheia e popstar ele mesmo; que é parceiro de Diplo, idem; Diplo que rodou o Brasil e conhece isso aqui muito bem. Diplo afanou o funk carioca bonito. Desconfio que botou seus conhecimentos de música baiana na roda, aliás na rodinha, pra Skrillex, e aí está "Sorry". E se nós brasileiros não temos a moral de exportar nossa música pro mundo, ué, alguém vai faturar com isso. Certo ele, pop é roubo.
Se me perguntarem se curto Bieber, ou Axé, racionalmente a resposta é não. Mas contra a memória afetiva não há o que fazer. Gosto de "Sorry", sim, porque por baixo da superprodução estéril, premeditada, algo ali me ativa as papilas gustativas, me faz sentir cheiro de pimenta e suor. É pop baiano dos meus vinte e poucos anos. Amor antigo - de outros carnavais. E não vou pedir desculpas por isso, sorry...

Publicado em 14/06/2016 às 13:42

Cumprimento do direito de resposta de Gilberto Gil e Preta Gil

“Foi com surpresa e indignação que Gilberto Gil e Preta Gil tomaram ciência do artigo intitulado “Quem Pagará Pelo Casamento de Preta Gil? Procure Saber...”, de autoria de André Forastieri, publicado na internet pelo portal R7.

Dentre ofensas pessoais e profissionais abusivas e gratuitas, o artigo, apoiado em suposições pessoais do autor, induziu o leitor a acreditar que Gilberto Gil teria custeado o casamento de sua filha com a verba destinada à produção teatral “Gilberto Gil, o Musical”, que fora obtida unicamente por influência de seu cargo como ministro no Governo Lula e pela “amizade” com o atual Ministro da Cultura.

Nada mais irresponsável e equivocado. Houvesse o jornalista cumprido seu papel de apurar, saberia que a produção do espetáculo “Gilberto Gil, o Musical” bem como a autoria do projeto perante o Ministério da Cultura não são de empresa vinculada a qualquer membro da família Gil. E mesmo que fossem, não haveria qualquer fundamento para tal acusação grave e irresponsável do jornalista.

Desnecessário tecer comentários acerca do legado cultural de Gilberto Gil. O artista tem 50 anos de carreira, 54 discos gravados e 8 “Grammy Awards”. Foi vereador; aceitou o convite da Presidência da República para o cargo maior da Cultura no Brasil e seu Ministério jamais esteve envolvido em escândalos ou acusações de desvios de verba. O artigo do Sr. Forastieri é fruto da mais pura irresponsabilidade jornalística.

Preta Gil, por sua vez, trabalha desde os seus 18 anos: lançou quatro CDs, dois DVDs, gravou 2 novelas, apresentou 2 programas de TV e faz um número incontável de apresentações. Sua popularidade, angariada com esforço e investimentos próprios, é inegável. Nos últimos anos, seu bloco reuniu cerca 4 milhões de pessoas no carnaval carioca. Paralelamente à vida artística, Preta mantém atividades empresariais ligadas à produção e ao licenciamento de produtos que levam sua marca, gerando inúmeros empregos diretos e indiretos. E tem o direito de dispor de seus recursos como melhor entender.

A lamentável conduta do jornalista fere não só a dignidade pessoal de Gil e Preta, como também ignora o próprio código de ética da profissão, pelo qual “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade do relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação". O autor e o portal faltaram com o compromisso da verdade, inerente ao exercício do direito de informação.

O direito de informar não pode ser desvirtuado de seu propósito para acobertar manifestações ofensivas, inverídicas ou pejorativas. É em virtude do relevante papel do jornalismo na sociedade que a TV e o rádio são mantidos como concessões públicas que devem atender ao interesse público e zelar pelas garantias individuais. A internet, como veículo informativo, deve também atender a esta função, zelando pela verdade e pelos direitos e garantias individuais.

Gilberto Gil, que defendeu a liberdade digital como Ministro da Cultura, e Preta Gil vêm, por meio desta resposta, lembrar ao jornalista que esta liberdade encontra limites no direito do próximo. Escrever e publicar inverdades para ganhar milhares de "likes" e seguidores, à custa da difamação alheia, isto sim, é uma forma de desvio. Desvio de seu compromisso ético e moral com a verdade.

Vivemos todos dias difíceis, de violência e intolerância em nossa sociedade; e induzir o leitor a acreditar em uma teoria estapafúrdia e odiosa não colabora em nada para o desenvolvimento das relações humanas. Há que se pensar no próximo, há que se medir palavras e, principalmente, manter compromisso com a realidade dos fatos.”

Publicado em 09/06/2016 às 15:39

A Mogi-Bertioga é o Brasil

Molde52 596x340 A Mogi Bertioga é o Brasil
Já peguei a rodovia Mogi-Bertioga centenas de vezes. A estrada é a mesma desde quando comecei a frequentar a região, nos anos 80. É perigosa. Faltam guard-rails, sinalização, iluminação. Neblina, chuva e deslizamentos são comuns. Devia ter sido duplicada há muito tempo. Segue imutável. Paisagem linda, perigo permanente. Toda hora tem acidente. Esse foi mais um - o mais horrível, o mais inevitável.
O litoral norte de São Paulo é maravilhoso. Une serra, mata e mar. Cada praia é uma praia diferente. É um território dividido. De um lado da estrada, bonitas casas e ótima infraestrutura para quem viaja para curtir o final de semana. Do lado de lá, favela. O crescimento na região é mais que desordenado: é caótico. Casas pipocam do nada, invadem a floresta, infraestrutura zero.
A imigração é contínua: brasileiros que vêm de regiões pobres em busca de oportunidades, muitos da Bahia. Vivem de prestar serviços aos turistas. Dinheiro bom só no verão. Raridade esgoto, luz, escola, posto de saúde. Faltam oportunidades para os jovens estudarem e fazerem faculdade. Por isso estes viajavam, por isso morreram. Por descaso do poder público com os filhos dos imigrantes, dos pobres, dos negros.
Nada de novo. Muitos outros jovens brasileiros morrerão à toa, à míngua. O litoral norte é igualzinho toda periferia metropolitana deste país. Mas lá microcosmo no microscópio, miséria à vista dos abonados. Como eu. Não sou hipócrita de me iludar que pertenço à comunidade. Um fosso intransponível me separa dos moradores do litoral. Mas eles me ofereceram pontes, e tenho a sorte de conviver com muitos. A notícia do acidente me gelou o sangue. Liguei lá. Atendeu a mãe de uma menina que vi crescer. Ela disse: "hoje ninguém dormiu. Hoje parece que o tempo parou."

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