Publicado em 07/12/2016 às 16:47

O Brasil precisa de Renan Calheiros

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Todo mundo que importa no Brasil é a favor da permanência de Renan Calheiros na presidência do Senado. O presidente da república, o PMDB, o PSDB, o PT, o mercado, a Fiesp e os ruralistas. Por quê seria diferente o Supremo Tribunal Federal? Não que ninguém aí tenha a menor dúvida sobre a ficha corrida do senador. À direita, à esquerda, no centrão, da padaria da esquina aos palácios de Brasília, todo mundo sabe que Renan não tem moral nem pra andar na rua, imagine para ser presidente do senado.

A questão é que esses poderosos todos precisam de Renan no momento. Como precisaram de Eduardo Cunha, no passado recente. Poderíamos dizer que o Brasil precisa de Renan; não é Temer; foi Dilma, Lula, Fernando Henrique... Ele está na cena política desde que fazia parte da gangue de Fernando Collor. Se com todas as acusações contra ele segue com todo esse poder, é porque é útil, e eficiente para o que se espera dele.

Renan fará de tudo para aprovar os projetos de lei, as "reformas" que interessam para essa gente toda. A lei que anistia os políticos eleitos com dinheiro sujo; a lei que quebra as pernas da Lava-Jato; a lei que imporá o maior arrocho do planeta; a lei que destrói a aposentadoria do povão, mas mantém os privilégios dos juízes, dos militares e políticos; a lei que perdoa as dívidas das empresas; e por aí segue.

E a lei? E a Constituição, as instituições, as regras? Elas são importantes quando são importantes para esse grupinho de poderosos. Quando a lei não atende a elite, ignore-se a lei. E é por isso que Renan Calheiros pode simplesmente se recusar a obedecer uma decisão do Supremo; que a mesa do Senado assina embaixo da rebeldia de Renan. No Brasil, ordem judicial é pra ser obedecida - mas só quando o criminoso é pobrinho e escurinho, ou quando está atrapalhando a roubalheira dos bandidões.

Então foi costurado um grande acordão em favor de Renan. O que está por trás de tanto apoio a ele?

Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Isso é 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Essas 71.440 pessoas têm renda anual média de R$ 4.17 milhões, uns R$ 350 mil por mês. Tiveram em 2013, ano analisado pela pesquisa do IPEA que melhor radiografou essa elite, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões.

Qual o negócio mais lucrativo e seguro do Brasil? Emprestar dinheiro para o governo, que paga juros altíssimos para financiar sua dívida. Dinheiro que vem do Tesouro Nacional, dos impostos que todos os brasileiros pagam. Se o dinheiro está apertado, é fundamental aprovar leis que tirem mais dinheiro dos pobres para transferir para os bilionários. E é isso que está acontecendo desde 2014, quando Dilma colocou Levy no Ministério da Fazenda, um representante dos bancos. Dilma arrochou a população, mas não entregou tanto a rapadura quanto os endinheirados queriam; sem apoio popular, fraca, foi trocada sem maiores escrúpulos por equipe mais amigável ao mercado, que assumiu com compromisso de "restaurar a confiança".

Seis meses depois, estamos todos em situação muito pior. O tratamento está matando o paciente, porque arrocho não é remédio, é veneno. Com os cofres públicos esvaziando, a prioridade número um da elite nesse momento é  que o Congresso aprove novas leis que garantam que seus rendimentos continuem gigantescos.

Faltou dizer que sem Renan, fica difícil Temer entregar tudo isso na velocidade esperada. E se não entrega, o governo perde o resto de apoio que tem. Temer pode ser substituído, via eleição indireta em 2017. Ou pode até ficar, mas sem apitar. Já está nas manchetes a pressão do "mercado" para Temer substituir sua equipe econômica por um time ainda mais duro. Que imponha um arrocho ainda mais brutal, capitaneado por Armínio Fraga ou alguém que ele indique.

Necessário ressaltar que todo esse papo de ajuste só atinge da classe média para baixo. E que todas essas leis poupam os super-ricos brasileiros, os 0,5% da população que ganham mais de 160 salários mínimos por mês. Talvez você não saiba, mas essas pessoas pagam só 6,51% de sua renda de imposto de renda. Você leu certo. Um assalariado que ganhe R$ 5 mil por mês paga 27,5% de imposto de renda. A elite paga 6,51%, como demonstra o recente estudo do IPEA que melhor radiografa nossa elite. A explicação é que 65,8% da renda total desses super-ricos são rendimentos considerados isentos e não-tributáveis pela legislação brasileira. É o caso dos dividendos e lucros.

Na prática, o imposto de renda aqui só é progressivo do pobre até a classe média, que é justamente a fatia da população que mais paga imposto de renda. É uma receita perfeita para aumentar cada vez mais a desigualdade social, a ignorância e a violência. Todos os países decentes, sejam ricos ou emergentes, tributam todos os rendimentos das pessoas físicas. Não interessa se a renda do salário, de aluguel ou de dividendos. É o justo. É o mais eficiente para o bom funcionamento dos países.

O estudo do IPEA não captura com precisão absoluta a pirâmide social brasileira. Não dá conta de dinheiro escamoteado, de caixa 2 ou remessas enviadas ao exterior. Mas já dá uma noção do tamanho do escândalo. E como é focado no Imposto de Renda, não leva em consideração outra grande injustiça do nosso sistema tributário, que são os impostos indiretos no consumo de produtos, que pesam muito mais para o pobre.

Enfrentar a elite é garantia que você vai ser chamado de irresponsável, baderneiro. Por quê o Supremo peitaria este consenso que tanto compensa, e assumiria o pesado ônus de colocar em risco a aprovação das "reformas"? O executivo pensa que é o Brasil; o legislativo pensa que é o Brasil; o judiciário pensa que é o Brasil; a elite pensa que é o Brasil; e que o Brasil precisa de Renan, dos Renans.

Estão errados. O projeto neoliberal mundial morreu em 2008, mas os zumbis do fundamentalismo financeiro seguem por aí, tentando nos devorar. É imoral e improdutivo continuar enriquecendo 0,5% com o dinheiro dos impostos dos 99,5%. Enfrentar os privilégios dos super-ricos é a pauta política e econômica fundamental de hoje e dos próximos anos. O resto é resto. Mas eles jogam o jogo pra ganhar, sem se importar com as regras, como assistimos em Brasília; e eles estão unidos, e nós não. Por enquanto.

 

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Publicado em 06/12/2016 às 16:58

Brasília está destruindo o Brasil

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O que está acontecendo no Brasil é igualzinho o que está acontecendo no resto do mundo. O capitalismo está fazendo água.  A desigualdade aumenta, o desemprego aumenta, a desesperança aumenta. E o clima esquenta - na sociedade e no meio-ambiente.

Os ricos legislam para os ricos. Espremem as economias para garantir seus ganhos. Pagam cada vez menos impostos. Seus rendimentos dependem cada vez menos do trabalho, e mais e mais do cassino financeiro. Quem vai contra esse estado de coisas é taxado de "populista", "irresponsável", "baderneiro". Mas quem está fazendo baderna são esse 0,01% de bilionários, e seus empregadinhos nas política, na mídia, nas universidades, nas instituições.

Os poderosos querem que o povo aceite tudo de bico calado. De preferência nem entenda direito como está sendo roubado. Falam muito que "o importante é a educação". Mas na prática cortam as verbas da educação. Querem o povo analfabeto, ignorante, anestesiado.

Quando o povo resiste, mandam a PM pra reprimir as "badernas". Se o executivo resiste, que seja enquadrado pelas "forças do mercado". É a mesma história no mundo árabe e na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos. Trump venceu porque Obama, com todo seu belo porte e discurso, não melhorou a vida do povão. E não fez isso porque fez, como todos fazem, o jogo do grande Capital. Agora Trump está lá e vai fazer o quê? Diminuir os impostos dos ricos, abrir as pernas para os bancos (já chamou para Secretário do Tesouro um banqueiro do Goldman Sachs).

E não adianta muito eleger um governo de "esquerda", porque eles também estão são enquadrados. Veja a França, veja a Grécia. O único plano de governo que existe nesse planeta em 2016 é arrochar as populações e chamar isso de austeridade, de "sacrifício inevitável". Mas o enfrentamento está acontecendo. Nesta semana mesmo, a Itália e a Áustria disseram não para políticas de arrocho.

O impeachment no Brasil tinha três objetivos: destruir o PT, melar a Lava-Jato e impôr o maior arrocho da história do Brasil. O próprio PT, aliás, já vinha tentando fazer as três coisas... lambuzando-se na corrupção, contestando o judiciário (às vezes com razão, às vezes não) e botando Levy como Ministro da Fazenda, com um programa para a economia que era o contrário que Dilma prometeu.

O impeachment aconteceu - e todos sabíamos que não havia crime de responsabilidade que o justificasse.

Foi o começo dessa crise institucional sem fim. E agora aqui estamos. Mais uma crise, agora com Renan. É surreal, mas o presidente do Senado se nega a obedecer uma ordem do Supremo Tribunal Federal. E a mesa do Senado vai junto com ele! Num país mais ou menos funcionando, teriam recebido voz de prisão. No mesmo momento, quem protesta contra as propostas de arrocho do governo do Rio apanha da polícia - pelo menos enquanto a PM continuar recebendo salário, o que é duvidoso. Vem aí as delações da Odebrecht.

E como se estivesse tudo na maior tranquilidade, o governo segue propondo mais e mais arrocho nos pobres, e nenhuma cobrança das grandes empresas. Aliás, hoje,  no mesmo dia que anunciam a PEC da aposentadoria, que fará o brasileiro trabalhar até morrer e morrer de trabalhar, ficamos sabendo que o governo prepara um perdão de 90% das dívidas das empresas. Sendo que no Brasil, nesse momento, não há um sujeito que acredite que o Congresso legisla em benefício do país, e não de si próprio.

É difícil enfrentar os poderosos do mundo. Mas é isso ou a rendição. Esse embate exige representação política sólida, leis sólidas, instituições sólidas. É tudo que não temos no momento. No momento, Brasília está destruindo o Brasil. O primeiro passo para o Brasil se levantar é termos um poder executivo e legislativo à altura do desafio. E o único caminho para isso, e não há outro, é através de eleições livres e limpas, para renovar integralmente o Congresso, e elegermos um presidente da república.

 

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Publicado em 05/12/2016 às 15:22

Ferreira Gullar: infelizmente, imortal

Gullar em B Aires 1975 for web2 1024x654 Ferreira Gullar: infelizmente, imortal

"Ferreira Gulag". Trocadilho além do prazo de validade? As novas gerações felizmente não sabem o que é "Gulag", os campos de concentração soviéticos para onde eram despachados os opositores do regime, frequentemente viagem só de ida.

Mas é piada precisa como só certos trocadilhos bobos conseguem ser - é de hoje, ou de alguma madrugada esfumaçada de nicotina e vapores alcoólicos, nos longíquos anos 80? O epíteto para o poeta pipocou prontinho quando sua morte foi noticiada, Gullar instantaneamente canonizado, que é como a gente enterra os célebres da nação.

As novas gerações felizmente também não lembram do pobre Brasil do finzinho da ditadura, quando Ferreira Gullar aspirava a personagem pop. Era desses que sempre tinham um comentário a fazer sobre tudo, figurinhas fáceis nos segundos cadernos dos jornais. Um Caetano menor, um Gabeira das artes. Famosinho a ponto de ser constantemente zoado pela turma do Planeta Diário, "Ferreira Gullar, poeta e gato".

Ninguém leu, lê ou lerá sua poesia. Impopularidade não é demérito. Mas impressiona a repercussão de sua morte. Um passeio pela biografia de Gullar explica melhor que um mergulho em sua obra.

No comecinho dos anos 50 Gullar mudou-se para o Rio. Para um jovem intelectual maranhense seguia (e seguiria sempre) sendo a capital cultural do país. Colou nos influentes da época, principalmente Mário Pedrosa, o único crítico de arte que importava.  Abrigou-se no jornalismo, como tantos de nós que temos mais ambições do que noção do que fazer com a vida. Começou pela área mais previsível e burocrática do jornalismo: revisor da revista o Cruzeiro.

Sua poesia era a abençoada pela melhor crítica internacional e brasileira da época, "concretista". Não demorou para rachar com o pioneiro grupo concretista de São Paulo, por uma questiúncula teórica. Tentou impôr a própria ortodoxia, mas seu grupo no Rio era de artistas plásticos - café pequeno para os paulistanos Augusto e Haroldo de Campos e para Décio Pignatari. Faria carreira curta na imprensa, o suficiente para conseguir seu primeiro carguinho público, no governo, imagine, de Jânio Quadros, diretor da "Fundação Cultural de Brasília". Era 1961.

Nos anos seguintes foi "radicalizando" para a direita da esquerda, o Partido Comunista, a esta altura já esclerótico e desmoralizado há décadas - mais recentemente pela invasão da Hungria, 1956. Tornou-se uma das figuras centrais, e logo presidente, do Centro de Cultura Popular da UNE. Era passar recibo de irrelevância entre escritores sérios, mas tornou-se figura de frente na "arte engajada" que importava naquele momento. O CPC, antro autoritário de comissários da cultura, era mais que engajado: era partidário mesmo.

Para o CPC, as únicas manifestações artísticas aceitáveis eram a denúncia do capitalismo ou a propaganda comunista. Esse restolho da pior fase do regime soviético infestaria por décadas a cultura brasileira, "patrulha ideológica" e companhia. Ou estás conosco ou com os imperialistas, companheiro...

Com o golpe militar, Gullar iria (já em 1971) se asilar na União Soviética, o túmulo do socialismo sob Brejnev. Depois, perambulou por capitais da América Latina. Da Argentina mandou seu "Poema Sujo" contra a ditadura militar.

De volta ao Brasil abrigou-se, como tantos supostos revolucionários de ontem e hoje, sob as asas do establishment. No Rio significava e significa a Rede Globo. Lá co-assinou com velhos companheiros do Partidão roteiros de novelas e seriados. Era da turma. E era da MPB. Seus joguinhos de palavras inspiram muitos desses Arnaldos Antunes e companhia.

Como tantos de nossos artistas, não se negava a assumir uns carguinhos públicos. Depois de servir a Jânio, serviu entre 92 e 95 como presidente do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, que voltou a chamar de Funarte. Chamava-se na época "mudar o sistema por dentro", com os resultados que todos conhecemos.

Colunista da Folha de 2005 até sua morte, tornou-se cruzado de primeira hora contra o governo petista. O Partido Comunista nunca perdoou Lula, que acusava de agente da CIA desde os anos 70. Não ouvimos palavra de Gullar contra os inimigos de Lula, muito menos contra os patrocinadores da novíssima geração de polemistas-colaboracionistas da imprensa nacional.

Coerente até o fim, sua última coluna de jornal despacha Marx para a lata de lixo da história, em busca de uma sociedade igualitária que não incomode o Capital.

Os últimos anos de Gullar foram coroados por sua descida à catacumba da intelectualidade brasileira, a Academia Brasileira de Letras, onde fez par com o conterrâneo José Sarney. Era, enfim, "imortal".

Sua obra - poesia, crítica, teatro, jornalismo - foi fundamentalmente passaporte para uma carreira como intelectual público. A crítica especializada que julgue sua permanência, passados os alinhamentos ideológicos do século 20. É assunto que só a ela importa.

O fardão não lhe faria falta. A vida de Ferreira Gullar segue sendo a trajetória dos sonhos do intelectual público brasileiro. Ferreira Gullar morre; o espírito estalinista que o animou segue entre nós, estéril, imortal.

http://r7.com/BKSz

Publicado em 23/11/2016 às 16:28

Corrupção não é problema, é a solução

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A primeira coisa que fiz quando abri uma empresa foi corromper um funcionário público. Foi em 1993. Eu tinha 27 anos. Pedira demissão do meu emprego para lançar uma revista. Não tinha noção de onde me metia.... mas tinha muitas certezas, muita paixão e muita pressa.

Para montar minha empresinha, e a redação da revista, eu precisava de uma coisa fundamental. Hoje parece ridículo, mas naquela época era difícil de conseguir: uma linha telefone. Em 1993 não existia celular. E telefonia fixa era monopólio estatal. Um telefone em Sâo Paulo valia mais ou menos um terço de um carro popular novo - seria uns R$ 8 mil hoje.

A gente já tinha montado a redação, estávamos sem salário, precisando começar a fazer a revista e lançar logo. Alugamos uma linha da Telesp, que era a companhia telefônica do estado de São Paulo. Demorou mais de um mês pra marcar a instalação! Finalmente chegou o dia, e o técnico da Telesp tocou a campainha da casa. Finalmente nossa empresa ia poder começar a funcionar! Onde já se viu empresa sem telefone? E ainda mais empresa de comunicação, pô!

Passaram uns quinze minutos e o cara tocou a campainha de novo: serviço feito. Eu falei espera um pouquinho, deixa eu testar. Peguei o telefone na minha mesa e nada, mudo. Questionei, ué, não funciona. Ele explicou: não, o nosso serviço da Telesp só vai até o poste. Do poste para dentro da casa a Telesp não faz o serviço. Eu estrilei, mas como é possível isso? Eu alugo a linha e a Telesp não faz a instalação completa? Como eu faço agora? Ele deu de ombros e deu a dica, olha, esse tipo de serviço só particular que faz. Mas se o senhor quiser eu faço um serviço particular pra você...

São aquelas encruzilhadas da vida. Procuro uma outra pessoa pra puxar a linha, ou pago já um dinheirinho pro cara e resolvo isso? Estou sendo conivente com a malandragem? Ou o mundo é assim mesmo, e o negócio é relaxar? Mas se eu já começo minha empresa pagando um troco por fora, mesmo que seja uma coisinha de nada, será que isso não abre as portas para eu fazer o mesmo com grandes coisas, grandes negócios, grandes boladas? Vou virar o tipo de pessoa que desprezo, um corruptor, um corrupto?

Sério que pensei tudo isso naqueles segundos. Para você ter uma idéia o inocente que eu era.

Paguei o cara.

Corrupção é a solução. É um dinheirinho que você paga para resolver um problemão. Às vezes é um dinheirinho que você paga para ganhar um dinheirão. Ou um dinheirão que você paga para ganhar um dinheirão maior ainda.

A corrupção vai existir enquanto houver dinheiro e poder. É o combustível do motor que move o mundo, é o lubricante da engrenagem econômica. É arroz com feijão do brasileiro. Onde há dinheiro para trocar de mãos, vai haver alguém cobrando pra facilitar a transação.  A corrupção está nos governos e nas empresas privadas, das pequenas às gigantescas. Nos sete mares e nos cinco continentes. Se existirem alienígenas em outros planetas, garanto que tem corrupção por lá. Tinha antigamente, tem hoje, vai ter amanhã.

Corrupção não tem só uma fórmula ou formato. Às vezes é até difícil de reconhecer. Por exemplo: quando uma empresa fornece milhões para financiar a campanha de um político. Não quer dizer que ele já está dando algo em troca. Mas existe a pressuposição de que, no futuro, ele vai atuar em favor da empresa, para que ela ganhe muitíssimo mais dinheiro do que deu para ele. É um investimento, digamos assim...

Outro caso ainda menos explícito. Um político no poder atua regularmente em favor de uma empresa, ou um setor da economia, sem ganhar nada em troca. Saindo do cargo, passa a fazer palestras muitíssimo bem remuneradas para essas empresas, vira consultor desse segmento, faz eventos patrocinados etc. É o caso, por exemplo, de Tony Blair e do casal Bill e Hillary Clinton, para ficar em exemplos globais.

A corrupção é tão importante para o bom funcionamento da Terra que existem países que se dedicam fundamentalmente a abrigar o dinheiro da corrupção, do caixa dois, do crime. São os chamados paraísos fiscais. Servem para você esconder dinheiro sujo. Só que existem países muito grandes e poderosos, que se dedicam a muitas outras coisas, e também abrigam paraísos fiscais dentro de seus territórios. Na lista dos dez maiores paraísos fiscais do mundo estão Estados Unidos, Alemanha, Hong Kong, Cingapura...o número um, claro, é a Suíça.

O Brasil anda dando uns passinhos no combate à corrupção, mas de uma maneira equivocada, que na verdade estimula o crescimento da corrupção. Como pode ser isso? Pois é. Nosso país é como uma cidade que estava sendo aterrorizada por duas gangues rivais. Um belo dia a polícia e o ministério público da cidade começam a investigar os crimes, e a prender os criminosos - mas só de uma das gangues. E os jornais da cidade aplaudem, e pedem rigor - mas só para para uma das gangues. E muitos cidadãos saem às ruas, e pedem justiça, e batem panelas - mas só contra uma das gangues.

O resultado é que uma das gangues perde seus líderes, que vão em cana. Perde território. Perde ganhos. E perde integrantes, que bandido não tem lealdade. Logo um monte deles se bandeiam para a gangue que restou, que agora domina a cidade geral. Sem concorrência e sem preocupação. É onde estamos no momento.

Um ponto importante a lembrar é que os corruptos não têm lado, têm interesses. Por isso onde há concentração de poder e dinheiro, sempre haverá corruptos. Um tempinho atrás, a oposição a Dilma critica o governo, porque coalhado de corruptos. Alguns foram presos, a maior parte saiu impune. Hoje, a oposição a Dilma virou governo. E lá estão no governo Temer boa parte dos acusados de corrupção no governo do PT. Alguns, aliás, já estão no crime desde o governo militar, décadas atrás... Cadê o povo batendo panela contra os corruptos do atual governo, de todos os governos? Silêncio absoluto.

Por quê? Porque os panelaços não eram contra a corrupção, eram contra o PT. E porque o brasileiro é inteligente e sabe que corrupção é parte integrante de qualquer governo. A verdade é que nosso povo não está nem aí para a corrupção dos poderosos. Roubem aí, a gente já sabe que vocês vão roubar mesmo... Quanto a economia vai bem, deixamos passar. O bicho pegou contra Dilma porque a combinação recessão & corrupção é explosiva. Agora a recessão está bem pior do que na época de Dilma, e os casos de corrupção continuam espoucando. Veremos o que vai acontecer.

Para mim, roubar dinheiro público devia ser crime hediondo. Porque esses bandidos estão na prática afanando dinheiro da escola das crianças, do hospital dos velhinhos, da segurança das famílias. Quem mais paga imposto no Brasil é o pobre. E é o dinheiro do pobre que vai pro bolso desses milionários que a gente vê todo dia nas manchetes, e não só nas manchetes policiais. Não estou falando só de políticos, mas dos empresários que pagam propina para eles, em troca de roubar a nossa grana.

Já roubar dinheiro privado, bem, depende. Quem é que está sendo prejudicado pela corrupção dentro das corporações? Em todos os anos que passei sendo editor de revista, cansei de ver gente ficar bem rica com corrupção. Eram os compradores de serviços de grandes editoras. Gente que decidia de quem seria comprado o papel pra revista, a gráfica para imprimir, brindes para virem encartados nas revistas...

Quando um cara decide todo mês o destino de milhões de reais, pode crer que as empresas que querem vender vão tentar influenciá-lo. Lembro de um funcionário de terceiro escalão de uma grande editora que tinha carro na praia e carro conversível. E vou te falar, os chefes desses malandros sabiam. Mas não falavam nada, porque também faziam seus rolos. E os subordinados deles sabiam, mas também faziam seus rolinhos. E tudo ficava por isso mesmo. Dava prejuízo para as empresas? Não faço idéia. Talvez elas repassassem seus custos extras para o consumidor final? Então quem exatamente é que foi prejudicado?

Felizmente nunca fui importante, então nunca me ofereceram uma grana boa em troca de favorecimentos. Para não dizer que nunca tentaram me adoçar, já me ofereceram uns dinheirinhos, umas vantagenzinhas, em troca de uns favorzinhos. Resisti, porque tudo coisa bem fácil de resistir. Como diz meu cunhado, o problema da corrupção é que começar por baixo dá nojo, porque quem quer se vender por pouco dinheiro? Não eu, provavelmente não você. Por isso que a gente tem nojo de quem se vende, porque é certo que começou se vendendo por pouco.

Se o dinheiro for grosso a coisa muda de figura. Digamos que você entrou na política, e pela primeira vez é secretário de estado. Chega lá, os outros secretários estão metendo a mão, o segundo escalão está metendo a mão, o governador está metendo a mão, e todo mundo está de boa, sem amolação, curtindo a vida. Pô, se todo mundo faz, é normal, não? A corrupção está nas empresas, nos governos, na propininha do dia-a-dia e no suborno bilionário das multinacionais. Tamo junto irmão!

Corrupção só é problema se você dançar. Temos inúmeros exemplos de gente que está aí roubando há décadas, e segue famosa e poderosa. E se você dançar e tiver bastante dinheiro, sai de boa. Agora mesmo os empreiteiros que lesaram o país em bilhões e bilhões de reais vão sair livrinhos, depois de pagar umas multinhas... o presidente do Senado, que tem 12 processos no Supremo Tribunal Federal, segue dando as cartas... e por aí vai.

Eu já passei dos cinquenta, se não me descolei como criminoso de colarinho branco, não será agora. Mas para você que é jovem, pode ser uma boa opção. O futuro da corrupção é muito promissor, e sempre será, e no Brasil dos próximos anos mais ainda. Fala a verdade: se você tivesse a chance de pegar um dinheiro bom por fora, sem risco de dançar, pegava ou não?

 

 

 

 

 

 

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Publicado em 17/11/2016 às 16:05

Solução para o Rio e o Brasil é a mesma: cana dura

 

cabral Solução para o Rio e o Brasil é a mesma: cana dura

O ex-governador do Rio, Sérgio Cabral

O Rio derrete em câmera lenta. Dois ex-governadores presos em dois dias, Sérgio Cabral e Anthony Garotinho. Assembléia Legislativa sob sítio. Polícia sem receber. Pacotão de arrocho tirando o sono dos cariocas.  Nem parece que outro dia mesmo o Rio celebrava "seu melhor momento", recebia turistas, inaugurava museus, e tinha um prefeito com pretensões à presidência da república. Nem parece que três meses atrás foi sede da grande festa do esporte.Mas estava na cara há anos que quem estava fazendo a festa era a meia-dúzia de sempre. E que a conta da festa ia chegar um dia. E ia chegar para quem nem convidado para a festa foi.

Agora querem entuchar a conta do bacanal dos bacanas no carioca comum. Cortar auxílio social, cortar aposentadoria, cortar salário de funcionário público. As autoridades dizem que não tem outro jeito. Que é duro, mas todos têm que fazer sacrifício. É sempre a mesma lenga. Pimenta no dos outros é refresco.

O Rio é o Brasil amanhã. Ou melhor dizendo, a explicação para os problemas do Rio é a mesma explicação para os problemas do Brasil. Os cariocas e os brasileiros vêm sendo assaltados por um pequeno grupo de grandes ladrões. São grandes empresários que "vendem" para o governo, fazem a manutenção da máquina pública, realizam as obras que pegam bem na hora da eleição. E conseguem esses contratos pagando propina de cima a baixo, do executivo ao legislativo, e vamos combinar que deve sobrar algum para o judiciário também. Fora os grandes empresários e ruralistas que conseguem empréstimos de pai pra filho, a perder de vista, e pagam pingando até o próximo perdão do governo. Fora os grandes banqueiros que com ou sem crise lucram com os juros mais altos do mundo.

São bilhões e bilhões. É sujeira grossa e pra todo lado. Não são os caraminguás do aposentado ou a reforma da escola que quebraram o país. Foi uma aliança de bandidos que está no poder há muito, muito tempo. Na época da ditadura militar, a gente não ficava sabendo, porque a imprensa não tinha liberdade e o ministério público não tinha independência nenhuma. Isso só começou a mudar pra valer na época de Fernando Henrique, e mudou mais ainda sob Lula. E é por isso que a gente fica com a impressão de que hoje temos tanta corrupção. É que hoje a gente fica sabendo, e esses picaretas estão começando a ter o que merecem.

A solução para o Rio, e para o Brasil, é botar corruptores e corruptos em cana, os antigos e os atuais, e pegar de volta o dinheiro que eles roubaram da gente. Demos os primeiros passos. Mas ainda tem muito larápio por aí, roubando dinheiro de hospital, de estádio, de hidroelétrica, da escola e da merenda. Ainda tem partido político que segue incólume, sem condenações, apesar de pilhas de denúncias e evidências contra suas maiores lideranças. Nossa justiça é falha, é parcial, é frequentemente messiânica. É o que temos, e temos que pressioná-la para fazer seu melhor. Porque, francamente, do executivo e do legislativo é bem mais difícil esperar linha dura com os donos do dinheiro.

Impôr sacrifícios ao brasileiro trabalhador antes de impôr justiça a essa bandidagem é indecente e ineficiente. A solução para o Rio e para o Brasil é cana dura para esses grandes ladrões, e pressão forte para recuperar o dinheiro que nos foi roubado. Falta muito. Só começamos o serviço. Agora é garantir que a limpa vai até as últimas consequências. Sem isso, o imposto do brasileiro pobre é que vai continuar pagando a festa do império do crime.

http://r7.com/i_0C

Publicado em 09/11/2016 às 10:50

Trump é a última esperança para os pobres da América

trump1 1024x576 Trump é a última esperança para os pobres da América

Hillary Clinton teve apoio avassalador dos grandes empresários, dos grandes bancos, da grande imprensa. Dos artistas, dos intelectuais, dos movimentos sociais, dos cientistas. Dos economistas e de Wall Street, de líderes internacionais e lideranças comunitárias, de minorias dentro dos EUA, da maioria das pessoas fora dos EUA.

Teve até apoio de alguns republicanos, e de gente que sempre votou republicano. O caso mais chamativo foi de Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia, que mudou para os EUA em 1968, e segundo ele mesmo sempre votou para presidente no candidato republicano.

Hillary conquistou todo esse apoio porque conseguiu convencer o 0,1% dos super ricos americanos que era a melhor candidata para defender os interesses deles. E conseguiu convencer muita gente do povão que ela era a pessoa certa para defender os direitos deles, frente aos interesses da elite. E mais ainda, frente ao partido republicano, e a Donald Trump.

Hillary tentou ser todas as coisas para todas as pessoas. Não colou. Era a pior candidata disponível no partido democrata. É multimilionária, fortuna que apareceu de maneira inexplicável, como as dos políticos brasileiros. É mulher de um ex-presidente, o que cheira nepotismo. Ou talvez seja ex-mulher. Ninguém entende as relações dos dois, e eles não explicam.

Fora um genérico ideário democrata, Hillary não tem posições fora as que as pesquisas de marketing determinam. Votou pela Guerra do Iraque quando o público apoiava, se tornou contra a Guerra do Iraque quando o público parou de apoiar. Diz em público o que a opinião pública vai aplaudir, diz em particular a verdade para seus amigos banqueiros. Como Bill Clinton sempre fez. Mas Bill era um sulista simpático. Hillary, a antipatia em pessoa (me lembra estranhamente Margareth Thatcher).

Se o partido democrata tivesse um candidato menos fracote, talvez tivesse ganhado a presidência. Mas é preciso ir além disso. É preciso voltar à primeira campanha de Bill Clinton, e ao lema que o levou à vitória. Os marketeiros de Bill reduziram todas as questões em debate a uma única frase: “It’s the Economy, Stupid!”. No final, é tudo sobre a economia; a economia determina o resto; a economia ganha e perde eleições.

Como disse uma vez um ditador brasileiro sobre nosso país, nos EUA a economia vai bem e o povo vai mal. O PIB cresce. Mais de 15 milhões de empregos foram criados desde 2010. Mas muitos dos novos empregos são de baixa qualidade, com baixos salários. Muita gente segue desempregada, ou com empregos de meio período. Os americanos continuam sem ter licença-maternidade, décimo-terceiro, férias remuneradas. Aliás, o período de férias médio do americano é de oito dias por ano, o menor em comparação com qualquer país mais ou menos decente.

E a desigualdade? Cresce. Cada vez um grupo menor de super ricos dá as cartas. A maioria dos americanos se sente desconectado dos centros de poder políticos e econômicos - e de fato está. A economia cresce de maneira completamente desigual. Inclusive geograficamente: algumas poucas metrópoles bombam, o interiorzão segue pantanoso.

É a economia, estúpido. Diferente de Clinton, Trump escolheu um lado. Quem votou em Trump? Os pobres. Os mais pobres. Os pobres que moram no campo, em cidades pequenas, em áreas sem potencial econômico. Gente que teve pouca oportunidade para estudar, para crescer, para viver. E gente que nem é tão pobre, mas teme pelo futuro de seus filhos, teme pela sua velhice, teme não ter dinheiro para pagar as contas no fim do mês. Teme o que não conhece, o que não tem na sua cidadezinha, no seu bairrinho - teme o diferente.

Hillary disse para eles que a América vai bem e ofereceu a eles mais do mesmo. Trump disse para eles que a América vai mal e ofereceu a eles mudança. Hillary mentiu. Trump disse a verdade.  Ano após ano, a base da pirâmide americana vê sua vida piorar, e alguns poucos compatriotas alcançando níveis inimagináveis de riqueza. Para esses americanos deixados para trás, Trump parece a última esperança.

O que será a presidência de Trump? Quanto das bazófias e bagaceiras que fizeram seu sucesso nas redes sociais vai sobreviver, na hora do vamos ver? Vai se acomodar na presidência, jogando o jogo de sempre de todo mundo que chega lá? Ele será um bufão machista, racista, fascista - ou isso era um personagem para causar no Twitter e Facebook? E, no final da história, o quanto os pobres americanos podem contar com um playboy septuagenário, filhinho de papai, que nunca teve que enfrentar uma dificuldade de grana na vida?

Ninguém pode responder. Todas as previsões nesse momento são chute. Como em toda eleição, os rivais são muito mais parecidos entre si do que com seus eleitores… Trump é elite, os Clinton são elite. Nem uns nem outros fazem idéia do que é viver como a massa do eleitorado.

A democracia representativa tem duzentos anos de idade e venceu seu prazo de validade. A tecnologia, os costumes, a economia mudaram muito, o sistema político muda a passo de dinossauro. A solução para isso não é menos democracia, é mais - mais liberdade para o cidadão, mais informação, mais educação, mais riqueza para todos. E menos concentração de dinheiro e de poder nas mãos de poucos. Esse é o desafio. E é pra ontem.

O que dá para cravar já é que o sucesso de Trump vai inspirar muitas outras campanhas de políticos pelo mundo afora. E não necessariamente só de conservadores. Trump provou que é possível vencer sem o apoio dos empresários, dos bancos, dos intelectuais e da mídia - contanto que você escolha claramente um lado, e diga a esse lado a verdade. Para milhões de americanos, é preciso mudar, e Trump representa a mudança. E quem dirá que ele não é?

http://r7.com/8_aA

Publicado em 08/11/2016 às 15:40

A vitória é de Trump é notícia boa (e aí mora o problema)

Trump Smiles 1024x686 A vitória é de Trump é notícia boa (e aí mora o problema)
Quem gosta de boa notícia é publicitário. Gente que é paga para espalhar as maravilhas que acontecerão se comprarmos esse ou aquele produto. Idem assessor de imprensa. Nunca recebi um press release dizendo "empresa XPTO. polui, demite e vai à falência". Nem "cantora mocoronga lança outro disco sonolento". É sempre boa notícia. Aquele texto épico, tecendo loas ao cliente. Por isso é que a assessoria de imprensa é no mundo todo considerada um ramo da publicidade, e não do jornalismo. Sem problema - é um trabalho com qualquer outro.
Já jornalista gosta de notícia boa. O que é muito diferente de boa notícia. Duro pensar em notícia pior que queda de avião. Mas é exatamente o tipo de notícia boa para um jornalista. Absolutamente inesperada, atrai todas as atenções. Por uns minutos, todos prendemos a respiração, dentro e fora das redações, adrenalina a mil.
Qual a maior notícia das nossas vidas? A queda das torres gêmeas no onze de setembro. Vi acontecer coisa mais importante? Claro - a queda do Muro de Berlim, pra começar. Assisti o homem pousando na Lua na casa da minha avó, que tal? Mas não tinham o mesmo fator surpresa. Isis avança? Notícia boa. Ebola e Zika se espalham mundo afora? Idem. Reino Unido decide se separar da Europa? Notícia sensacional. Trump? É outro nível. E outro perigo.
Não é que notícia é só notícia ruim. É que quanto maior o choque e a imprevisibilidade dos dias seguintes, mais poderosa a notícia, e mais importante o jornalismo. E jornalistas, como todo mundo, adoram se sentir importantes. A queda do avião que levava Eduardo Campos foi uma notícia boa, no exato sentido do termo. Foi absolutamente inesperada. Chamou a atenção de todos. Teve grande impacto emocional e social. Catapultou Marina Silva, vice apagada, para uma candidatura competitiva, e talvez à presidência. Onde podia render muitas outras surpresas, porque possivelmente fora do esquadro, nem petista, nem tucana. E esta é razão porque toda a imprensa do planeta Terra anda torcendo secretamente pela vitória de Donald Trump.
Isso significa que jornalista é tudo urubu? Bem, não, só os normais... mas jornalista gosta de notícia boa porque dá repercute, dá audiência e dinheiro, que é o que interessa no final do dia. Seja para o profissional ou o YouTuber, o dono da Fox News ou da Al Jazeera, do Le Monde ou do site ali da esquina. A imprensa americana faturou como nunca nesses meses pré-eleição, por causa justamente de Trump. É certa a queda de receita na mídia americana em 2017.
Trump foi mais que notícia boa. Foi uma notícia boa por dia. Às vezes, várias por hora - uma queda de avião depois da outra. Prendeu a atenção do país, do planeta. É o primeiro político do Século 21. Entendeu que hoje, em que o mundo da comunicação é dominado pelas redes sociais, o importante é causar - e mais que isso, o importante é dividir. Quanto maior o bafo, quanto mais polêmica a declaração, quanto mais as pessoas se sentirem provocadas a se posicionar, quanto mais briga, melhor. O que naturalmente vale para qualquer um que posta nas redes sociais, e não só para jornalista. Você é tão urubu quando o repórter mais carniceiro, meu caro amigo, minha querida leitora.
A democracia representativa tem uns duzentos anos de idade. Mudou pouquíssimo nos seus fundamentos. Avança a passo de tartaruga, a tecnologia na velocidade da luz. Dá cada vez menos conta do recado. Como ela ainda não chegou direito na maior parte do planeta, a gente tende a achar que a Democracia ao estilo americano é um objetivo a ser alcançado. Não é. Já venceu esse esquema de a cada quatro anos escolher para nos comandar um garoto-propaganda, escolhido pela máquina partidária, bancado por ricaços e cuidadosamente preparado por publicitários. Tanto isso é verdade que Trump chegou onde chegou ignorando todas essas "regras" do moderno marketing eleitoral...
A democracia pode ter futuro. Depende dela ser no dia a dia muito envolvente, muito emocionante, muito exigente. E na época de eleição, bem monótona. Ser político tem que ser tão atraente quanto ser funcionário público por quatro anos e parar por aí. A democracia precisa abrir mão de partidos, de campanhas milionárias, de marketeiros. Precisa dizer não para infinitas reeleições, parentes na política .Chega de dar um cheque em branco para quem se elege. Tem que tirar da mão do eleito a caneta para gastar na besteira que bem lhe aprouver, para proibir o que não curte e para indicar os juízes que interpretarão as leis. Ser presidente é poder demais. Ser governador, prefeito já é poder demais. É cada vez maior a concentração de poder nas mãos do Executivo e do Legislativo. E ser eleito é passagem só de ida para o clube dos milionários, dos 0,1%, sem ligação nenhuma com a população, conexão total com a elite da elite.
Cada vez mais, a política (e a comunicação; são mais ou menos a mesma coisa) depende de pintar o mundo de preto e branco e jogar um grupo contra o outro. Eleitores de Hillary não podem imaginar que tipo de gente burra votaria em Trump; eleitores de Trump têm horror dos eleitores de Hillary. No Brasil, o PT foi demonizado; já o PT descarta qualquer crítica a seu período no poder como golpismo. E assim caminhamos rápido para lugar nenhum.
Cada vez mais, os eleitores pelo planeta afora estão escolhendo a notícia boa. Aí é que mora o problema. Aumenta a cada dia a probabilidade de elegermos o candidato mais histriônico e mais divisivo, o que promete soluções simples para problemas complexos, toda solução cabendo em Tweet, toda declaração planejada para viralizar. Se Trump não leva desta vez, pode levar na próxima. Se não ele, alguém parecido ou pior. Personagens a la Trump começam a chegar ao poder em outros países. No Brasil, em 2018, porque não?

A premissa da Democracia é o diálogo, a solução negociada para os conflitos, o debate informado. Só é possível entre quem quer conversar. Foi transformada pelas redes sociais nessa balbúrdia inútil, que só pode ser vencida no grito. Na prática, Trump - o estilo Trump de política - venceu. E isso é uma péssima notícia.

http://r7.com/TApX

Publicado em 27/10/2016 às 17:55

Como escrever bem

como escrever Como escrever bem
Se você trabalha com comunicação, precisa saber escrever. E hoje em dia, a maioria das pessoas trabalha com comunicação, de alguma maneira... Mas muita gente sofre para escrever. Pare de sofrer! Eu escrevo profissionalmente desde 1988. Tenho uns truques para compartilhar com você.

A primeira vez que escrevi sobre escrever foi em 1995, numa coluna do Folhateen, falecido caderno para adolescentes da Folha de S. Paulo. Era uma resposta às consultas dos leitores sobre como virar crítico musical (imagine, naquela época ainda existiam críticos musicais).

De lá para cá, escrevi várias vezes sobre o assunto. Quase sempre para consumo interno, para equipes que eu coordenava. Eu envelheço, mas meus colegas sempre têm uns 25 anos... Eles batizaram de “Escolinha do Professor Forasta”. Hoje meu filho tinha que escrever um texto para a escola, e eu disse que talvez fosse útil antes ele ler minha aulinha. E quem sabe seja útil pra você também...

COMO ESCREVER BEM

Escrever bem é defender uma posição original, com argumentos irrefutáveis, de maneira sedutora e clara. Vamos chamá-la de “tese”. Isso pode ser feito em uma frase ou mil. Em uma é melhor.

Se o texto não tem posição, não defende uma tese. E se não tem algum componente de provocação, não defende uma tese original. Aí pode ser o que você quiser - poesia, prosa, “conteúdo” -, mas não é jornalismo. Ou, dizendo de uma outra maneira: não tem o impacto, a organização, a clareza de um texto jornalístico. E você quer que seu texto tenha essas qualidades, mesmo que não trabalhe com jornalismo!

A tese é uma tomada de posição por parte do autor. Ele apresenta sua posição e, em seguida, argumentos que provem que ela está correta. A tese deve ter tema único e bem delimitado, rigor de argumentação e apresentação de provas, profundidade de ideias, avanço da compreensão da área abordada e originalidade.

A ESTRUTURA

O texto jornalístico ideal tem 1500 caracteres. Ele deve defender uma única tese.

O título da matéria deve ser um resumo da tese, expressada da maneira que mais atrairá leitores.

O primeiro parágrafo do texto (também conhecido como “lide") explicita a ideia central do texto e, portanto, é um resumo do texto completo.

O efeito final no leitor deve ser o de que ele escorregou pelo texto - foi paquerado pelo título, seduzido pelo lead e, quando viu, já estava no clímax.

Uma estrutura muito eficiente: tese no lead, seguida de três parágrafos apresentando provas da tese em ordem crescente de força da prova. O último repete a tese e apresenta a prova definitiva de que ela é correta. O último é o parágrafo mais curto.

O TEXTO

As frases devem ser curtas e diretas.

Não use vírgulas.

Não use jargões e termos técnicos. Escreva em português que sua mãe possa entender.

Não use metáforas, bordões, clichês.

Se usar siglas, na primeira vez que mencioná-las, explique o que ela significa e o que ela é em texto entre parênteses.

Abra um parágrafo a cada 400 caracteres.

Quando você achar que o texto está prontinho, perfeito, conte o número de caracteres. Corte 30%.

Depois disso, volte para a primeira linha e desça cortando todas as vírgulas que conseguir. Uma por parágrafo é o máximo desejável.

O ESTILO

Não procure ter um estilo. Estilo é uma mistura de todo mundo que você admira com o que você não consegue deixar de ser. Vai sedimentando com a idade. Preocupe-se em defender sua tese com clareza e eficiência.

Escreva rápido até o final. Revise depois. Desligue o corretor automático, mas verifique as grafias. Você pode usar palavras que não usaria normalmente numa conversa com sua mãe. Mas só uma vez por texto.

Leia muito. Quem não tem tempo para ler não tem tempo para aprender a escrever. Leia gente que sabe escrever, independente do tema abordado. Quando eu era garoto o melhor texto era o de Paulo Francis, imbatível. Aprenda inglês. The Economist é a referência mundial em clareza sobre qualquer assunto.

A formuleta acima funciona. Use e pare de sofrer. Você também pode ignorá-la e escrever bem. Só precisa ser muito inteligente e experiente e talentoso... não, falando sério: antes de se arriscar em textos compridos e complexos, domine o texto curto e direto. É preciso aprender a andar antes de aprender a correr.

Finalmente: se você não se diverte quando escreve, o leitor percebe. Escreva com prazer!

http://r7.com/bmcc

Publicado em 19/10/2016 às 15:48

Cunha se deu bem. E o Brasil, otário, se deu mal

cunhadoido23 11 Cunha se deu bem. E o Brasil, otário, se deu mal
Cunha foi preso. É ladrão de galinha. Quis voar alto demais. Caiu rápido. Sua trajetória pode servir para a gente melhorar nosso país em duas coisas muito importantes. É duvidoso que isso aconteça.
A acusação mais clara e letal contra Cunha é ganhar propina nos esquemas da Petrobras e mandar para o exterior, para a Suíça. Quanto? Ninguém sabe. Falam de R$ 52 milhões na Suíça. Para quem chegou a presidente da Câmara, é dinheiro de pinga. Deve ter muito mais dinheiro em outros lugares.
Até porque só amador ainda tem dinheiro na Suíça. Os super ricos do mundo sabem faz tempo que é melhor colocar seu dinheiro desviado em outros paraísos fiscais. Segundo a organização não-governamental Global Financial Integrity (GFI), entre 2004 e 2013 os milionários brasileiros mandaram para o exterior ilegalmente uma média de U$ 22,6 bilhões por ano. Em português claro: setecentos e setenta bilhões de reais. Todo esse dinheiro foi para paraísos fiscais. Por quê? Porque era dinheiro ganho limpo no Brasil? Não, porque era dinheiro sujo. Os ricos brasileiros pagam pouquíssimo imposto. As grandes empresas brasileiras pagam pouquíssimo imposto. No Brasil o Caixa 2 é sempre a primeira opção, nunca a segunda.
A Suíça é um destino cada vez menos popular para recursos do crime, da corrupção, do narcotráfico, ou simplesmente dinheiro de Caixa 2, escamoteado por ricaços. Quem diz é o próprio Banco Central da Suíça. Segundo eles, no ano 2000, os correntistas brasileiras chegaram a ter US 6,2 bilhões depositados em bancos suíços. Em 2015, tinham "só" US 4,3 bilhões. Continua sendo muito dinheiro, mas é uma queda enorme. A razão é porque a Suíça vem sendo pressionada para aumentar a transparência financeira. Outros países seguem sem pressão nenhuma e viraram os destinos prioritários do dinheiro sujo do planeta.
A prisão de Cunha poderia ser um bom começo para o Brasil entrar a fundo na questão dessa dinheirama nossa que está no exterior. Afinal, é dinheiro que foi mandado ilegalmente para o exterior, sem pagar imposto, e deveria estar aqui sendo útil para a população. Esse dinheiro que o GFI identificou, R$ 770 bilhões, para pagar 28 anos de Bolsa Família, que em 2016 é um investimento de R$ 27 bilhões por ano. Ou, alternativamente, fazer uma revolução na nossa saúde, educação, segurança. Mexer com esse vespeiro é coisa que está bem longe da pauta da Justiça. Da Receita. E da Lava-Jato. Seria arrumar uma treta com a elite da elite, os 0,1% que de fato dão as cartas no Brasil.
A segunda maneira de fazer da prisão de Cunha algo importante é ser extremamente, brutalmente rigoroso com ele com os que o cercam. Apertar, apertar, apertar. Para forçar ele a abrir o bico sobre os grandes esquemas de corrupção, de todos os partidos. E para forçar ele a nos contar o que sabe sobre a movimentação que derrubou Dilma Rousseff. Sem a participação de Cunha, Temer jamais teria ascendido à presidência. É evidente que ele sabe de todas as negociações, todas as movimentações, todos os acordos que levaram ao impeachment. Mas se Cunha conta 10% do que sabe sobre a corrupção, ou 10% dos bastidores do impeachment, não fica pedra sobre pedra.
Essa seria a hora dos brasileiros, tanto os que foram a favor como os que foram contra o impeachment, se unirem com um objetivo maior. Que é fazer a prisão de Cunha representar uma grande mudança no nosso país. Sonhar é grátis... Infelizmente, e o brasileiro comum na rua sabe disso, a real é que Cunha tem 99% de chance de se dar bem.
O mais provável é que Eduardo Cunha fale pouco, entregue gente sem importância, pague algum dinheiro, pegue alguma cadeia. E só. Vamos continuar pagando de otários dos poderosos. Sem impacto no dinheiro sujo que os super ricos desviam para o exterior, sem impacto na corrupção instucionalizada, sem impacto no sistema político do Brasil, a prisão de Cunha será só um show de mídia, com cheiro de acordão. Uma história cheia de som e fúria, significando nada.

http://r7.com/ggnu

Publicado em 07/10/2016 às 16:08

O perigo que se esconde por trás da PEC 241

temer meirelles anuncio 1024x639 O perigo que se esconde por trás da PEC 241
O Brasil gasta muito mais do que arrecada. Por isso nosso país está sempre endividado. Para fechar a conta, o governo tem que tomar dinheiro emprestado, pagando juros gigantes. Aí a dívida só aumenta. E por causa disso falta dinheiro para investir no que é fundamental. E como os juros são altos, as empresas também não investem, e o desemprego só aumenta. É um círculo vicioso, de que o Brasil precisa escapar.
Fácil concordar com isso tudo. E fácil concordar que a solução é uma lei que proíba o governo de gastar demais. Essa é a premissa da Proposta de Emenda Constitucional 241, a PEC 241. É o grande projeto do governo no momento. Muita gente respeitável garante que se ela não for aprovada, o país quebra. É o que o ministro da fazenda, Henrique Meirelles, falou na TV. Temer não está poupando esforços para aprovar a PEC. E ela tem de fato grande chance de ser aprovada.
O que exatamente diz a PEC 241? Que nos próximos 20 anos, até 2036, o governo do Brasil só poderá gastar exatamente o que gasta hoje. O único ajuste permitido será o da inflação anual. É isso que vai ser votado, e provavelmente aprovado, pelo Congresso.
Só tem um probleminha. Que vai virar um problemão.
O Brasil é um dos países que menos investe em saúde. O gasto do poder público em saúde por habitante é mais ou menos R$ 1400 por ano - dá menos de quatro reais por dia. Nos EUA é o equivalente a R$ 15 mil. Na Noruega, o país com melhor padrão de saúde do planeta, o governo investe R$ 28 mil por ano, por cidadão. Abaixo do Brasil, só os países mais miseráveis da África.
E o Brasil é um dos países que menos investe em educação. O gasto anual do poder público com educação é de aproximadamente R$ 10 mil por aluno do ensino básico. Quanto é nos países mais desenvolvidos? Três vezes mais. Por isso é que eles são desenvolvidos... e a gente não.
Ou seja: se a gente aprovar a PEC 241, e continuar investindo essa mesma miséria, o Brasil não vai pra frente. Aliás, vamos piorar muito.
Porque a população continua crescendo. Hoje somos 206 milhões de brasileiros. Em 2036 seremos quase 240 milhões de pessoas. Mais gente dividindo o mesmo investimento em saúde e educação. Então, na prática, o investimento por pessoa vai cair.
Vai piorar porque a população do Brasil está envelhecendo. E quanto mais velho, maior o custo com saúde.
Vai piorar porque a tendência global para as próximas décadas é de criação de empregos muito menor. Os empregos tradicionais estão cada vez mais sendo substituídos pelas máquinas e computadores. No Brasil, situação ainda mais grave, porque temos milhões de jovens com uma educação tão ruim que literalmente não servem para nada. Hoje o Brasil já é campeão de "nem-nem", jovens de 15 a 24 anos que largaram de estudar, e não trabalham, porque não têm qualificação nenhuma...
Então teremos uma porcentagem muito maior de brasileiros que não terão condição de pagar seguro saúde, nem escola particular, o que vai sobrecarregar ainda mais os sistemas públicos. E inevitavelmente as cadeias.
Não vamos nem citar outras questões prementes do país. Por exemplo, o fato de termos apenas metade das casas do país ligadas à rede de esgoto. A situação caótica dos transportes, a situação assustadora da violência. Não vamos nem citar os desafios cada vez mais presentes na área de meio-ambiente, de poluição, de mudança climática...
Vamos ficar só em saúde e educação. É muito claro, os números não mentem. O Brasil precisará investir muito, muito mais nas próximas décadas, para diminuir o descalabro atual. E não investir menos, que é o que a PEC 241 propõe.
Mas se é assim, porque essa campanha tão forte a favor da PEC 241? E porque ela tem grande chance de ser aprovada?
Porque para o Brasil fechar as contas, ou se arrocha os pobres, que é o que a PEC 241 propõe. Ou se cobra impostos dos ricos. Que é o que os outros países fazem.
No Brasil, pobre paga muito imposto, cobrado de maneira indireta em cada produto que compra. Classe Média paga muito imposto, muito imposto de renda, e ainda se aperta para bancar do bolso seguro saúde e escola particular. Tanto pobres quanto classe média pagam também um mundo de juros, embutidos em tudo que consumimos
E os ricos pagam pouquíssimo imposto. Tanto na pessoa física, como na jurídica. No Brasil os ricos pagam pouquíssimo imposto sobre suas propriedades, suas fazendas, seus investimentos financeiros. Pagam pouquíssimo imposto sobre as heranças que deixam. Muito, mas muito menos que nos outros países.
E as grandes empresas também pagam pouquíssimo imposto. Existem mil maneiras de escapar, se você tem recursos suficientes. Fora que as grandes empresas no Brasil se financiam como? Pegando dinheiro emprestado do BNDES, ou seja, dinheiro público, a juros bem suaves.
Os ricos brasileiros têm uma vantagem dupla. Eles pagam pouquíssimo imposto. E têm os maiores rendimentos financeiros do planeta Terra, sem risco nenhum. Como? Justamente emprestando dinheiro para o próprio governo...
É importantíssimo para os ricos brasileiros que a PEC 241 seja aprovada. Para que a conta desse ajuste seja pago pela classe média e pelos pobres, e não por eles, os grandes empresários, grandes banqueiros, grandes fazendeiros. Que é, claro, o grupo que tem mais poder. E mais poder tem para eleger políticos e influenciar a opinião pública. Em qualquer época, em qualquer governo, de qualquer partido.
O resultado da aprovação da PEC 241 será aumentar a transferência dos recursos de 99% da população para os bolsos de 1% de milionários. Espremer ainda mais o povo, para que os super ricos ganhem ainda mais, e sigam pagando pouquíssimo imposto. Esse é o perigo que corremos: condenar nosso país, nosso povo a um atraso infinitamente maior que o atual.
O Brasil precisa fechar as contas, sim. Mas temos que fazer como fazem os países que se desenvolvem. Precisamos investir na educação, na saúde, na segurança, na infraestrutura. Para isso é preciso dinheiro. E para isso é preciso taxar com justiça todas as faixas da população. Proteger ao máximo os mais necessitados. Cobrar moderadamente a classe média. E taxar com vontade os milionários.
Isso faz sentido em outros países. Faria sentido no Brasil. E mais que isso: faria justiça. O que não faz nem sentido, nem justiça, é a PEC 241.

http://r7.com/WQgl

Publicado em 28/09/2016 às 17:30

O que é fascismo e como combatê-lo – o Brasil de 2016, pela visão de Umberto Eco

umbertoeco2 O que é fascismo e como combatê lo   o Brasil de 2016, pela visão de Umberto Eco
Todo governo fascista é autoritário; nem todo governo autoritário é fascista. Trotsky fez primeiro a distinção, antes ainda da ascenção de Hitler, escrevendo sobre Mussolini. É preciso saber o que exatamente você combate, se pretende chegar à vitória.
Nós brasileiros frequentemente nos enganamos que caminhamos na direção de uma democracia ocidental. Alguns sonham com Miami. Outros fantasiam com uma democracia brasileira ao estilo do sul da Europa, como eles têm na Espanha, Portugal, Itália. Com problemas, mas nada que se compare ao nosso massacre cotidiano. Um tanto de liberdade, outro tanto de proteção social, uma certa bagunça e muito calor humano.
Na prática, nosso caminho tem sido o dos nossos parceiros dos Brics: liberdades individuais limitadas como na China, desigualdade social extrema da Índia, poder concentrado na oligarquia e controle da mídia a la Rússia. Sem o crescimento da China e Índia e Rússia, claro. "O Fascismo", disse Benito Mussolini, "deveria chamar-se Corporatismo, porque é a fusão do poder do Estado com o poder das Corporações."
A questão é se o país está avançando na direção de mais liberdade, igualdade, fraternidade - ou menos. Nossa frágil, incompleta, ineficiente democracia avança? O Brasil de 2016 garante mais direitos aos cidadãos, ou só impõe mais deveres?
Putin, execrado pela opinião pública ocidental, tem 82% de aprovação dos russos. Por quê? A renda média do russo subiu 18 vezes nos últimos 17 anos. Sem tretas maiores, e com mais liberdade que 90% dos países do planeta. Segue bem longe do os países do G7, mas quem não está? Putin é... fascista?
E o Brasil, na escala da liberdade, que nota leva? Os abusos de poder por parte do executivo, legislativo e judiciário, que fazem longa parte da nossa história e presenciamos a cada dia - estão aumentando ou diminuindo?
Umberto Eco tentou uma vez criar um método para identificar o fascismo. Reproduzo alguns trechos abaixo, seguidos com o link para o texto integral. É utilíssimo neste mundo e país que vivemos. Antes de você começar a ler, faço uma observação que Eco não fez: o fascismo não precisa necessariamente de um líder carismático no comando do governo. Basta que haja alguém que represente perfeitamente as aspirações da base social do fascismo. Um líder "iluminado e impoluto", que combata sem trégua os "inimigos da nação". Temos um desse?
Leia as palavras de Umberto Eco e responda você mesmo.

"Considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista."

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra-reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.
Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.
Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra”. A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo... Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja do pênis permanente.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral.
Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo via TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular."

Eco termina seu texto (e recomendo enfaticamente que você leia o texto integral - citando uma frase de Franklin Roosevelt de 1938 sobre a América: "se nossa democracia parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país”. Segue valendo - aqui, agora.

Leia o texto completo de Umberto Eco: "O Ur-Fascismo".

http://r7.com/lGDo

Publicado em 23/09/2016 às 15:54

Terry Jones e a arte de assar vacas sagradas

terry 2 Terry Jones e a arte de assar vacas sagradas
Tem gente que não pode ver uma vaca sagrada que já vai botando carvão na churrasqueira, gelando a cerveja e afiando a faca. É minoria que deve muito ao Monty Python. Mesmo que nunca tenha ouvido falar do grupo. A influência deles está em todo lugar. Onde você encontra humor enlouquecido, impiedoso, surreal, estão as digitais de John Cleese, Terry Gilliam, Graham Chapman, Michael Palin, Eric Idle - e Terry Jones.
Nos reconhecemos à distância. Como nossos heróis, zombamos com qualquer coisa, muito além do aceitável ou responsável. O Monty Python esculhambava o patético onde encontrasse - em homem, mulher, gay, jovem, velho, pobre, rico, todas as nacionalidades, profissões e tons de pele. Inclusive, claro, seus próprios tipos: homens razoavelmente bem nascidos e educados, britânicos (menos o americano Gilliam!). Qualque alvo merecia umas lambadas doídas. Sem misericórdia. Como deve ser. E raramente é.
Graham Chapman morreu há muito tempo; quem viu o vídeo dos seus colegas gazendo galhofa no velório, não esquecerá jamais. Terry Hones começa a nos deixar agora, aos poucos. Sofre de demência. A memória funciona menos e menos. Já não dá mais entrevistas. Está parando de falar.
Dói pensar em Terry limitado desse jeito. Talvez seja o principal Python. Era roteirista de mão cheia já nos anos 60. Ele formatou o desformato dos sketches do Monty Python, extremamente inovadores para a época: sem bordão, sem riso pré-gravado, sem "punchline", sem personagens recorrentes. Mas jamais amorfos ou condescendentes.
Dirigiu "A Vida de Brian" e "O Sentido da Vida", co-dirigiu "Monty Python e o Santo Graal". Escreveu mais de vinte livros, produziu e apresentou documentários, foi articulista de jornal... e ator engraçadíssimo. Rio tudo de novo quando revejo Terry vestido de mulher, imitando velhinhas inglesas ou fazendo a mãe de Brian, aquela voz de taquara rachada.
A influência de Terry Jones persistirá. Vamos homenageá-lo fazendo o que ele fez como ninguém. Recusando limites para a liberdade de expressão e de zoação. E vomitando nos espíritos autoritários, sejam autoridades ou não, gente que sempre odeia humor e humoristas, e que, diferente de Terry Jones, vai para a lata de lixo da história.
terry vomito Terry Jones e a arte de assar vacas sagradas

http://r7.com/AsNn

Publicado em 22/09/2016 às 19:28

Você é um ser humano ou um inseto?

roberto bolanos chaves chapolin Você é um ser humano ou um inseto?
"Um ser humano deve ser capaz de trocar uma fralda, planejar uma invasão, matar um porco, comandar um navio, projetar um edifício, escrever um soneto, fazer a contabilidade, construir uma parede, cuidar de um ferimento, consolar os que estão para morrer, receber ordens, dar ordens, cooperar, agir sozinho, resolver equações, analisar um novo problema, adubar a terra, programar um computador, cozinhar uma refeição saborosa, lutar eficientemente, morrer galantemente. Especialização é para insetos."

Outro dia escrevi sobre o AC/DC, e sobre a vantagem competitiva de fazer sempre a mesma coisa e sempre muitíssimo bem, com foco, no capricho, sem distrações. A repercussão foi grande. Mas umas poucas pessoas não entenderam direito meu ponto, ou eu que não soube me comunicar tão bem como gostaria.

Ter foco na sua atividade, na sua expertise, na sua marca, não quer dizer sempre tocar o mesmo samba de uma nota só. Ter interesses variados, gostar de fazer coisas bem diferentes umas das outras, seja na vida pessoal ou no trabalho, não é sinal de dispersão. Pelo menos não necessariamente.

E quando se trata de uma pessoa no início da sua vida profissional, mais ainda é importante experimentar muita coisa diferente. E não só "o que o mercado exige". Quem é que vai saber o que o mercado vai exigir daqui dez, vinte, trinta anos?

Gosto muito de uma história sobre Steve Jobs (e não estou aqui beatificando Jobs, que tinha qualidades e defeitos, como todo mundo; mas ninguém negará que foi um baita de um empresário). Antes de fundar a Apple, garotão hippie meio sem objetivo na vida, Steve mergulhou no budismo. Até acabou visitando o Japão. E se dedicou muito a uma atividade que monges budistas praticam muito no Japão: a caligrafia. É, Steve estudou japonês, e aprendeu a escrever em japonês, usando aquelas penas.

E foi por isso que quando estava criando um computador, lhe ocorreu que o usuário deveria ter a possibilidade de personalizar as letras dos textos. Mudar o tamanho, a fonte, colocar negrito. Isso foi um grande diferenciador do Macintosh, e um passo gigantesco no caminho da personalização dos nossos aparelhos eletrônicos, seja o computador ou, hoje, o celular. Ou seja: estudar budismo, e estudar caligrafia japonesa, coisas que jamais estariam em nenhum curso de engenharia eletrônica, foram um diferencial muito grande na hora de criar um... computador!

É por isso que acho má idéia essa nova proposta de tirar os cursos de artes do Ensino Médio. Tratar arte como supérfluo é uma incompreensão do processo de criação, e aliás do papel da Economia Criativa no nosso mundo atual e futuro. Aliás é ruim tirar educação física também. Preparar para o mercado é impossível: temos que preparar os jovens para a vida, para os desafios que podemos prever e os que nem podemos sonhar.

Ah, sobre o texto lá no alto, é de autoria do Robert A. Heinlein, um dos maiores escritores de ficção científica do século 20. E reler essas linhas me levou, imagine, ao Chaves, o humano, e o Chapolin, o gafanhoto... e ao"chapulin", uma iguaria comum no México. Vendem saquinhos cheios de gafanhoto fritinho e salgado! Eu fui capaz de experimentar. Tem gosto de grama com sal!

Não sou capaz de planejar uma invasão e nem matar um porco, mas sou capaz de fazer algumas dessas coisas que o Heinlein cita. E muitas outras que ele nem cita. Nós todos somos múltiplos. Vamos em um minuto do Budismo à ficção científica ao Chapolin Colorado. Como diz a linda frase do poeta Walt Whitman, "I contain multitudes", eu contenho multidões...

E você? É capaz de quê?

http://r7.com/HmsO

Publicado em 19/09/2016 às 16:08

Fica, Temer

Lula Temer Foto RicardoStuckert InstitutoLula 9abr2015 1024x552 Fica, Temer

Lula e Temer em abril de 2015

Definha a resistência ao governo de Michel Temer. A passagem do tempo arrefece todas as paixões. Mas a crescente aceitação do ex-interino tem outro componente importante. É a inevitável pergunta que as palavras "Fora Temer" provocam: se a gente bota ele pra fora, pôe o quê no lugar?
A volta de Dilma é rejeitada pela maioria absoluta dos nossos compatriotas, inclusive pela maioria dos que elegeram Dilma. Diretas já, todo mundo garante que é muito difícil rolar agora. E se tivesse eleição agora, para votar em quem? Todos os baluartes da nossa política, pró e contra impeachment, inclusive os que se aboletaram em cima do muro, como Marina, batem recordes espetaculares de rejeição. Lula mantém bons índices de popularidade e também tem os maiores índices de rejeição dos eleitores
Basta conversar com o povão na rua para perceber que o país não está nem aí para essas eleições municipais, que dirá para eleições presidenciais. Está desencantado, o que é bem diferente de estar "pacificado". "Unir o Brasil" é fantasia tão improvável quanto o objetivo declarado de Lula, que é unir as esquerdas. Estão muito vencidos os termos "direita" e "esquerda", e pouco querem dizer para as pessoas comuns. Mas vamos usá-los aqui em seus sentidos originais: os representantes do Capital, do Indivíduo e da Permanência, contra os representantes do Trabalho, do Coletivo e da Mudança.
Nem o governo que foi saído era da Esquerda, e nem o governo atual é de Direita. Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma fizeram administrações centristas, com ligeiras inflexões mais pra lá ou pra cá. Nesse quarto de século, as maiorias tiveram ganhos importantes e uma minoria teve ganhos astronômicos. O fosso social brasileiro diminuiu - mas segue profundo.
Naturalmente é impossível e indesejável uma "união das esquerdas". As esquerdas são sempre múltiplas e conflituosas. Quando se "unem" é porque um grupo se impôs aos outros: foi-se a democracia, venceu a autocracia. O cenário que vemos é de multiplicação dos grupos contra Temer, mas não do número de pessoas contra seu governo. A juventude radical se nega a fazer número nas passeatas organizadas pelo PT, que quer a volta de Dilma. Já o PSOL quer diretas já. O próprio PSOL, como o PT, contém diversos agrupamentos internos, rachas variados. A tática do MST não é a do MTST, as feministas não concordam com os black blocs, e por aí vai. Sem problemas. É o que a esquerda é.
Mas nesse momento nenhum desses movimentos anti-Temer dialogam com o Brasil real. O cidadão comum tá em outra, tá vendendo o almoço para pagar a janta. Não espera grandes milagres de políticos, antigos, atuais ou futuros. Acha um pouco ridículo tanta indignação contra Temer, que foi durante todo o governo Lula aliado próximo do governo petista, e vice duas vezes de Dilma. Ué, ele era um cara super bacana até esse ano e virou o vilão da novela? A foto que ilustra esse texto não é do século passado, é de abril de 2015.
E assim o brasileiro vai se acostumando com nossos novos governantes. É fácil para a maioria de nós, que não fomos para as ruas pelo impeachment, e nem contra. Afinal, eles são nossos velhos governantes, com uma ou outra mudança. São praticamente os mesmos personagens que deram as cartas em todos os governos anteriores, desde o final do regime militar. Igual segue a política econômica, sob o mesmo ministro que foi de Lula, Henrique Meirelles. Não há tanques nas ruas, tribunais de exceção, interrupção da vida cotidiana, ou maior limitação das pequenas liberdades que nossa pequena democracia nos oferece.
"As coisas devem mudar para que permaneçam as mesmas", dizia aquele nobre italiano, Burt Lancaster, em "O Leopardo". A versão brasileira poderia ser "as pessoas devem mudar para que as coisas permaneçam as mesmas". Se nos dois anos de governo que lhe sobram Temer parir um novo milagre econômico, pode se reeleger ou eleger um poste em seu lugar. Se nos levar ao cataclisma social, não completa os dois anos. São cenários extremos. O mais provável é - bem, você escolhe em que futuro quer acreditar. Seja qual for, desconfio que qualquer que seja o próximo presidente, Temer, Lula ou quem vier, terá automaticamente o apoio da maioria do Congresso, mas não muita confiança dos eleitores.
No presente, o que existe é uma acomodação. Não é que o brasileiro goste de Temer, ou torça por Temer. As pesquisas e o sentimento das ruas deixam isso muito claro. É mais uma aceitação do inevitável, um muxoxo, um dar-de-ombros: fica, Temer.

http://r7.com/EWLV

Publicado em 14/09/2016 às 16:24

A inspiradora leveza de Calder

alexander calder 856x1024 A inspiradora leveza de Calder

Todo mundo conhece Calder. Até quem nunca ouviu falar dele. Qualquer lojinha de decoração tem uns móbiles à venda. Tem fofo pra quarto de criança, sofisticado para modernos, rústico para bicho-grilos. É um daqueles artistas que se confundem com a obra e viram marca: "Dali", "Mondrian", "Miró". Então qual a razão para estar tão vazia a exposição "Calder E A Arte Brasileira", em pleno sábado à tarde, em plena Paulista, entrada franca?
É que Alexander Calder não é um personagem como, digamos, "Frida", mulher independente, sofrida, ícone feminista em um México rebelde. As filas para a exposição de Frida Kahlo, um tempo atrás, sugeriam aglomeração na porta de festival de rock. Arte é cada vez mais cultura pop, é sobre celebridade, polêmica, dinheiro.
Alexander, "Sandy", Calder, quem era? Um americano tranquilo. Ninguém que inspire paixão. Nasceu com o século, 1898. Família com algumas posses e tradição nas artes. Pai e avô escultores, mãe retratista. Universitário dedicado, Engenheiro Mecânico formado, o que explica o rigor de seus projetos - tá pensando que é fácil equilibrar tanta pecinha?
A palavra que define Calder é "leveza". Seus móbiles flutuam, levitam, pendurados por cabinhos mínimos, delicadeza quase orgânica. Leve também na abordagem, terna, brincalhona. Atravessou o pesadelo do século 20, guerras mundiais, barbaridades variadas, sempre positivo, olhos no horizonte. Não à toa que sua primeira grande retrospectiva nos Estados Unidos, a que finalmente fez seu nome, em 1943, foi organizada por Marcel Duchamp, outro pândego.
A exposição em São Paulo tem escondido em um canto um filminho que é chave para entender o espírito de Calder. Sente e assista. Formado, Sandy fugiu da Engenharia. Foi projetista, e depois retratista de jornal (o que explica seus futuros cartuns feitos a arame). Mas assim que pode se picou para a Paris da Era do Jazz, aluguel barato, cafés animados, a fina flor da arte e da boemia. Recém-chegado, em 1926 já fazia seus bonequinhos de arame, com roupinhas, molas, cenários - o "Circo Calder", que exibia para os amigos, Duchamp, Jean Arp, Léger. Pra quê? Por farra. O filme é sobre o Circo e é uma graça. Mostra Sandy já coroa, brincando com seu Circo de mentirinha, encantado com a bailarina, o Elefante, o engolidor de espadas.
É esse espírito meio palhaço, meio malabarista que Calder transmite em toda sua obra. Nos móbiles, "stabiles" (apoiados no chão), pinturas, esculturas de pequenas a monumentais. É o que falta aos artistas brasileiros que o acompanham na exposição. A maioria das obras brasileiras quase vergam sob tanta seriedade estética, Helio Oiticida, Wilys de Castro... a honrosa, deliciosa exceção é Abraham Palatnik.
Sandy Calder não ganhou dinheiro até os anos 50. Hoje suas obras valem incontáveis milhões e estão nos principais museus do mundo (o de Filadélfia tem a melhor coleção, porque cobre todas as suas fases. Na cidade também está o fino de Duchamp. Visite). Também nunca pareceu se importar muito com isso. Fortuna? Fama? Nos anos 20 o "mercado" de arte mal existia, e muito menos para bonequinhos e penduricalhos.
Seu trabalho dá a impressão de ter vivido e morrido seguindo o lema de Man Ray: "Despreocupado, mas não indiferente". Vem de uma era em que os artistas vinham antes da arte. As obras inspiravam os teóricos, e não o contrário. Viver era tão importante quanto pintar, escrever, esculpir. Tempo que não volta, tempo que pode voltar - nem lá nem cá, equilíbrio impossível, suspenso no ar.

CalderMobile 73 A inspiradora leveza de Calder

http://r7.com/b_9X

Publicado em 23/08/2016 às 15:08

Goulart de Andrade e a TV 80: anarquia no ar

goulart 1024x576 Goulart de Andrade e a TV 80: anarquia no ar
A TV no início dos anos 80 era uma anarquia. Ou parecia. Os loucos tinham tomado o hospício: Goulart de Andrade, Fausto Silva, Paulo César Pereio, a turma do Olhar Eletrônico. Humor colegial, amor pela rua. Cenários toscos, gente comum, câmera na mão - a vida como ela nunca tinha sido na sala dos brasileiros.
Sotaque paulistaníssimo. Até nos programas de auditório, todos gravados na cidade, inclusive Chacrinha, que nunca foi tão doido quanto na Bandeirantes. No Rio dominava o padrão global, na própria e na Manchete, que buscava ser mais Hans Donner que o próprio. Todos os outros canais nacionais tinham sede em São Paulo - Record, Bandeirantes, TVS. Os canais locais de São Paulo, Cultura e Gazeta, fundações, orçamentos baixos, eram mais permeáveis às maluquices da garotada saída (ou ainda) na universidade. Boa parte está hoje por aí - o mais visível Marcelo Tas, que virou personalidade; o mais prestigiado Fernando Meirelles, fazendo cerimônia de Jogos Olímpicos, dirigindo filmes premiados.
A Globo dava suas cacetadas, principalmente nas séries, Plantão de Polícia, Malu Mulher e tal. Mas a ação, a gente sabia, estava nos outros canais, depois do horário nobre. Nunca assisti tanta TV quanto entre 1983 e 85. Recém-mudado pra São Paulo, morando sozinho, notívago, a TV era companhia até o hino nacional, duas da manhã, quando acabavam as transmissões.
Eu assistia tudo. Até esportes, que detesto. Via toda terça o "Clube dos Esportistas". Era um programa surreal com Sílvio Luís, Flávio Prado e Ronnie Hein sentados num sofá, recebendo boleiros (que eu não sabia quem eram, porque não assistia futebol). Sempre com um convidado musical, artistas nível Clube do Bolinha, Lilian Gonçalves. Destaque para a garçonete anã, Ferreirinha.
Goulart de Andrade era o mais ousado de todos. Ia onde ninguém ia, ao outro lado da meia-noite. Era observador, era malandro, era voyeur. Mas dava voz para os personagens, voz que eles não tinham (e não têm) nos jornais nacionais ou policiais. Goulart veio da velha TV, dos anos 50, mas soube se atualizar e se cercar de gente nova, que dava o sangue pelo Comando da Madrugada. Empresário, integrava merchandising descarado em seus programas. Foi pioneiro também nisso. Nada dá mais dinheiro hoje na mídia digital que merchan, ou, como se diz hoje, "branded content" e "native ads".
O que tem hoje de parecido? Talvez a "Vice". Mas vá direto ao original. Goulart publicou muito do que fez no seu canal do YouTube (vou lá agora ver se está a cirurgia peniana do Jamelão!). Pra se inspirar, confira essa lista com dez matérias inesquecíveis de Goulart...
O pouco que sobrou da anarquia televisiva daquele período morreu com a MTV Brasil, onde gente como João Gordo, Hermes & Renato e alguns doidos nos bastidores fizeram bonito. Agora a TV é infinitamente mais rica que trinta anos atrás, mas sempre muito bem produzida, planejada, segmentada, marketada. O espaço do risco e da surpresa é a internet, mas você jamais diria isso olhando os canais mais populares do YouTube. O vídeo na internet é cada vez mais dominado pelas personalidades, pela edição, pela busca desesperada de audiência. Tá cheio de coisa doida, e boa, mas que trabalho garimpar. Nos anos 80 a loucura estava ali no seu nariz, nas beiradas do mainstream.
Minha sensação na época é que depois de anos de TV comportadinha, nos anos da ditadura, com a abertura política tivemos uma explosão de criatividade como nunca antes. Ou eu era muito jovem e tudo parecia muito novo, surpreendente, horizonte infinito?
Essa turma, Goulart à frente, botou abaixo aos pontapés as barreiras aceitável na televisão, e portanto no Brasil. Nosso, meu, agradecimento eterno.

http://r7.com/k_r2

Publicado em 17/08/2016 às 16:19

Quando duas coisas incríveis se chocam: Caco, o Sapo canta Talking Heads

Um clássico de uma das bandas mais inteligentes e esquisitas de todos os tempos.
Um clássico da infância de muita gente... Caco, o Sapo, hoje mais conhecido como Kermit. Tão inteligente e esquisito quanto David Byrne!

http://r7.com/Uh0l

Publicado em 17/08/2016 às 16:03

Acredite: Pokémon Go vai mudar completamente o mundo (e a sua vida)

pokeworld Acredite: Pokémon Go vai mudar completamente o mundo (e a sua vida)
Cena 1: o despertador toca. Márcia levanta e imediatamente coloca seu Óculos AR-VR. Vê o rosto de sua mãe flutuando no quarto; sinal que ela ligou. Um pouco para trás dela flutuam os logotipos das redes sociais favoritas de Márcia. Com um aceno da mão, roda para baixo os feeds. Fala as palavras “café” e “chuveiro”, para o Óculos ativar a cafeteira e já ligar a água na temperatura ideal. Antes de levantar, acaricia seus três pets, que estão no pé da cama: um gato com os olhos bicolores de David Bowie, um filhote de Panda e o Pikachu. Todos virtuais. AR: Realidade Aumentada. VR: Realidade Virtual.

Cena 2: Márcia caminha na direção do metrô. A vizinha Sônia a cumprimenta pela nova bolsa Chanel virtual. Márcia tem 4789 bolsas virtuais, usa uma nova a cada dia. Esta custou R$ 2,99 e foi baixada durante a noite pelo Óculos; Márcia tem uma assinatura de todos os lançamentos de bolsas virtuais das principais marcas internacionais. A bolsa física é sempre a mesma, superleve, super resistente, super prática.

Para combinar com a cor da nova bolsa, Márcia usa uma Skin customizada. Ajustou o tom da sua pele. O corte de cabelo está mais curto, e o casaco combina perfeitamente – tudo virtual. Como todas as suas Skins, esta também corrige algumas imperfeições do corpo material de Márcia: pés de galinha, marcas de acne, uns quilinhos a mais na cintura. Pensa que precisa malhar mais. Hoje à noite vai baixar uma nova praia virtual, para dar mais vontade de fazer ioga. Bali?

Cena 3: nos três quarteirões até o Metrô, Márcia interage com 78 avatares. Das lojas no caminho (com brindes virtuais, bônus e cash-backs em caso de compra). De marcas com que já tem cadastro, oferecendo e-commerce instantâneo e personalizado, muitos usando celebridades (sua YouTuber favorita, o Pequeno Príncipe, o Dalai Lama). Marcas de consumo mas também ONGs, partidos políticos, causas pedindo seu apoio. O logotipo flutuante do cartão de crédito avisa que seus pontos acumulados já dão direito a mais uma viagem virtual de uma tarde. Ela pode escolher entre diversos locais reais ou imaginários, com direito a acompanhante (ela seleciona Tatooine e Cauã Raymond, paixão da sua adolescência).

Márcia prioriza o que é mais urgente. O avatar do seu chefe em Shenzhen está na esquina cobrando seu relatório sobre a mais nova atualização de software. Márcia trabalha para uma empresa que produz Ambientes Virtuais Educacionais para bebês recém-nascidos. São cada vez mais raros.

Finalmente Márcia chega ao Metrô. Está cheio, mas não muito. Quase ninguém mais tem carro; carros têm AR-VR instalados, mas a interação AR-VR é muito menor – qual é a graça? Se necessário um carro, basta comprar algumas horas de uso e eletricidade para rodar. Claro que a maioria das pessoas não se reúne fisicamente para trabalhar.

Márcia escolheu semana passada ver o Metrô como o museu Hermitage, de São Petersburgo, mas já está enjoando de tanto gigantismo. Com um aceno de mão abre um menu no ar e aponta: “Capela Sistina”. Agora sim. Olhando os detalhes do Juízo Final de Michelangelo, ela pergunta: quanto tempo demorou para pintar isso? Harry Potter, seu assistente pessoal virtual (personalizado e gratuito, cortesia da Wikipedia) responde: quatro anos, de 1508 a 1512.

Na escada rolante estão trolls, fadas, super-heróis, roqueiros falecidos, aliens, animais falantes, celebridades do passado e presente, e pessoas “comuns” –todas usando skins, algumas mais sofisticadas, outras mais simples. O “Plebiscito da Semana” insiste que seu voto é importante para alocar eficientemente os recursos públicos não-virtuais, e portanto limitados. A administração pública é uma combinação de Inteligência Artificial e Crowdsourcing. Márcia vota em eliminar de vez a perfuração em plataformas submarinas; o mundo já tem problemas demais com o clima para queimar mais petróleo.

Mais ofertas de produtos e serviços, a maioria digitais, alguns poucos físicos, aparecem sem parar. Uma se sobrepondo à outra, todas em 3D, interativas. Já andam falando que o novo update grátis do Óculos vai ter olfato virtual, imagine só.

Nossa heroína suspira. Diz “Pause” e “Liga pra minha mãe”. Que atende na hora. Faz cara de “por quê demorou tanto pra me retornar?”, o olhar de reprovação que Márcia reconhece como típico de sua mãe – mesmo que sua mãe esteja no momento usando um skin que a faz parecer com Dory, a peixinha do desenho animado.

As tecnologias de AR-VR, Realidade Aumentada e Realidade Virtual, e a infraestrutura que utilizam (Computação em Nuvem, a Inteligência Artificial, Geolocalização, Logística Avançada, Tecnologia Financeira) vão mudar completamente a maneira como trabalhamos, vivemos, compramos e vendemos. Pokémon Go é um belo início. E é só o início. Agora a revolução AR-VR está nos smartphones. Logo (ainda em 2016) estarão nos primeiros Óculos. Depois, algum dia, em implantes cerebrais... e depois sabe-se lá.

AR-VR vai destruir o mundo de 2016. A educação, a ciência, a arquitetura, o namoro, a mídia, o marketing, o consumo, a política; seu trabalho, meu amigo, sua carreira, minha amiga – tudo será profundamente modificado. Fortunas serão criadas e destruídas. Quem sabe tudo que você aprendeu até agora vai valer muito pouco. Quem sabe você vai surfar essa onda e ganhar muito dinheiro.

Já começou. Baixe Pokémon Go agora. Comece a brincar, porque a revolução não será brincadeira. Jogue, compreenda, estude Pokémon Go. Bote a imaginação para funcionar. É o melhor investimento que você pode fazer no seu futuro profissional (principalmente porque a maioria das pessoas que lerem esse texto não levarão este meu conselho a sério).

E enquanto você se prepara para esse futuro tão próximo, o presente é ganhar dinheiro com Pokémon Go aqui e agora. Hoje de manhã, a dois quarteirões da minha casa, uma loja de produtos naturais oferecia desconto para quem entrasse lá para capturar Pokémon. E você, como está usando Pokémon Go para faturar já?

Assunto para meu próximo texto. E não estranhe se eu voltar muitas vezes a este tema. Eu manjo dos monstrinhos. Trabalho com Pokémon desde 1998, quando, fundador da Editora Conrad, lancei a revista Nintendo World e depois a Pokémon Club (que foi o maior sucesso editorial do ano 2000, aliás...)

E se você já está usando Pokémon Go para fazer marketing, vender, agradar seus clientes – mande para mim! Sei de muitos casos no exterior, mas ainda poucos no Brasil. Quando forem em quantidade suficiente, listarei em um novo post.

É engraçado que depois de todos estes anos eu esteja de volta ao mundo de Pokémon (na verdade, nunca saí dele; tenho longa história no universo dos games, e dos novos negócios; lê aí no meu perfil). Mas não me surpreende.

Os games são o laboratório de teste das inovações que depois explodirão em todo o mercado. Estarei sempre de olho no futuro, então estarei sempre de olho nos games, sempre brincando, sempre jogando. Como diz a música tema do desenho Pokémon: “I know it´s my destiny”!

http://r7.com/a9_Q

Publicado em 10/08/2016 às 15:57

A Rio 2016 é racista

rafa ouro A Rio 2016 é racista
Racismo não é que os negros brasileiros têm menos saneamento. Menos casa própria. Menos acesso à saúde, hospital, creche. Nem que são menos alfabetizados, que vivem menos, que vivem pior que os brancos. Racismo não é que os negros são minoria nas universidades, nas redações, no shopping, nos restaurantes. Ou minoria nas novelas, nos telejornais, no público que frequenta os programas de auditório.
Não estão nos palcos dos teatros, são poucos nas paradas de sucesso. Não apresentam talk shows. Há pouquíssimos negros nas gerências e direções das empresas. E no comando da Polícia Militar, Civil, Federal. Não há negros entre os bilionários brasileiros. E não se vê negros nos ministérios, nas secretarias, autarquias, ou nos altos cargos do judiciário.
Mas nada disso é racismo. Não gera indignação. Não é tema pra campanha de candidato nenhum. Não repercute nas redes sociais. Isso é normal. É o dia a dia. Não, racismo é quando eu escrevo a seguinte frase: "Medalha de ouro para uma negra favelada ajuda as negras faveladas em exatamente nada."
Por esse comentário no Twitter, inspirado pela vitória de Rafaela Silva no judô, fui chamado de racista por várias pessoas. Outras também me "xingaram" de gay, homem, branco etc. Muito comum a crítica de que não posso escrever sobre mulheres negras porque não sou mulher nem negra, o que é além de surreal.
Mas nem todo mundo entendeu assim.
Ana Luisa, leitora atenta, escreveu no Facebook sobre o assunto: "aquele post de racista não tem nada. Ao contrário. É uma crítica a um poder público omisso, que quase nada faz para quem é pobre e negro, e a uma sociedade preconceituosa e hipócrita que relega aos próprios negros o conselho de seguir o exemplo de esforço pessoal de uma moça negra que é destaque hoje. Mas é exceção entre uma massa de negras que não tiveram sua condição melhorada por ninguém. E nem ganharam o respeito da classe média anos atrás, lá com aquela medalha de ouro da judoca Edinanci (cujo nome, aliás, caiu no ostracismo). Incrível o tanto de gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, o seu post."
Toda essa gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, não pesa tanto pra mim quanto uma única pessoa ter compreendido tão bem minha intenção quanto Ana Luisa.
Costumo dizer que o Brasil é um problema de interpretação de texto. Também costumo dizer que é inútil tentar entender os outros, e mais ainda tentar mudar os outros. Não dá para mudar a opinião de quem concluiu por esta frase que sou racista. Nem vou tentar. Então sou racista. E não sou racista. Entendeu? Assim é o novo mundo da comunicação.
Esse problema de deficiência de compreensão (ou mesmo de indignação simplista e automática) se tornou uma patologia. Dois exemplos pessoais. Estou respondendo a um processo que pede uma indenização financeira bem grande, por um texto que publiquei aqui no blog. Perdi em primeira instância, estamos recorrendo. A decisão do juiz é baseada no que dei a entender, não no que efetivamente escrevi. É um problema da legislação brasileira, que é dúbia, porque interpretação é sempre subjetiva.
Outro exemplo, mais engraçado, de ontem. Fiz também no Twitter uma piada infantil, daquelas tipo revista Recreio: "O que esse Phelps faz de tão importante? Nada." Pois não é que tem gente me xingando, achando que é uma crítica ao nadador americano? Quando até uma bobagem dessas ofende, está claro que qualquer coisa (mas qualquer coisa mesmo) pode gerar repercussão negativa. Como qualquer coisa pode querer dizer o seu contrário, decidi por um título bem explícito e escandaloso para este texto: "A Rio 2016 é racista".
Sutileza tem hora. Veja: o caminho natural para quem escreve profissionalmente, neste ambiente, é a autocensura e a autopromoção. Ou, caminho contrário e desafiador, apostar na inteligência de poucos. Ser mais mais ambíguo, denso, ambicioso. E muito, muito seletivo. É uma alternativa que me seduz - para daqui a pouco.
Para hoje, sobra ser tão agressivo quanto Rafaela Silva. De fato a medalha de ouro para ela não ajuda em nada as negras faveladas, ou, se você preferir, as afrodescendentes moradoras de comunidades. O que mudará a vida dos milhões de Rafaelas que não chegaram e nunca chegarão a nenhum pódio é dinheiro.
Investir R$ 38 bilhões dos nossos impostos nos Jogos Olímpicos, e não em melhorar a vida dos brasileiros mais pobres - a maioria negros, a maioria favelados - é uma das maiores injustiças já cometidas nesse país. E isso sim é que é racismo.

http://r7.com/WZ2Q

Publicado em 05/08/2016 às 18:49

Anitta é perfeita pra abertura da Rio 2016

anitta Anitta é perfeita pra abertura da Rio 2016Não podiam ter escolhido artista melhor que Anitta para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Anitta, ex-MC Anitta, nascida Larissa, é a exata imagem que o mundo faz do Brasil: uma bunda mestiça, alegre, amadora. E é puro Rio 2016: oferecida, simpática, provinciana, cirurgia plástica etc. MUITO melhor que Gil e Caetano, que também vão se apresentar na abertura...
É caipirice de brasileiro achar que Anitta não devia estar lá. Os gringos não botam Beyoncé no show de intervalo do SuperBowl? Todas as grandes cantoras internacionais posam de stripper, rebolam com o mínimo de roupa e tal, cantando como são poderosas e empoderadas. Anitta faz isso melhor que todas elas, claro, porque brasileira, com aquele molejo e simpatia que só nosso DNA misturadão permite.
Duro seria se o Brasil resolvesse fingir o que não é na cerimônia de abertura. Foi o que aconteceu no fechamento da Olimpíada de Londres, quando Marisa Monte (!) representou o Brasil. Marisa é insípida e insegura; canta samba como se quisesse impressionar críticos novaiorquinos; carisma abaixo de zero.
E objetivamente Anitta é a artista mais popular do Brasil. É do funk, é do samba, é famosa, é gostosa. Ninguém faz mais sucesso que ela. Merece estar lá. Você pode achar que como cantora ela tem pouca voz; que as letras não dizem nada, que a música é rudimentar; e por aí vai. Tudo verdade e nada disso importa. Anitta é crua, é quente, é nossa, é campeã.

http://r7.com/z6Pt

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