Publicado em 01/02/2016 às 18:11

Zika e Microcefalia: é hora de legalizar o aborto

gravida mae producao independente 1024x682 Zika e Microcefalia: é hora de legalizar o aborto
A epidemia de Zika vírus não tem solução. A epidemia de microcefalia tem uma só. É aborto. A mulher que quiser certeza de que não terá um filho com microcefalia precisa interromper a gravidez. Classe social não pode ser empecilho. Não é mais questão polêmica. É questão de saúde pública.
Os argumentos contra a legalização do aborto não se sustentam. Usar o aborto para evitar ter um filho microcéfalo não é "eugenia". Eugenia é quando o Estado privilegia determinadas características genéticas, em detrimento de outras. É a Alemanha nazista matando judeus e ciganos, esterilizando cegos, homossexuais, esquizofrênicos. No Brasil estamos falando do exato contrário. É hora do Estado parar de se meter na vida pessoal das mães, dos casais. Políticas eugênicas são sempre um cerceamento da liberdade. Aborto legal no Brasil, ao contrário, será mais liberdade.
O argumento de que "toda vida é sagrada" não tem nexo. "Sagrado" é um termo sem significado jurídico. Pessoas diferentes entendem que coisas diferentes são "sagradas". O pecado de um é virtude para outro. Fé pode ser um impeditivo para a mãe; se ela preferir seguir com a gravidez, porque é o que sua religião prega, tem todo direito de fazer isso. O que importa em uma sociedade diversa, democrática, não-teocrática, é a lei.
A lei brasileira já rejeitou o argumento de que interromper gravidez é "tirar uma vida". Surpresa: o aborto já é permitido no Brasil. Hoje, só em dois casos. Quando a gravidez coloca em risco a vida da mulher. E quando a gravidez é resultado de um estupro. Mesmo que os fetos sejam perfeitamente viáveis, veja bem. É direito legal da mulher interromper a gravidez. A lei aceita, por enquanto só nesses dois casos, e a mulher não está cometendo nenhum crime.
Mais que isso: nesses casos, o Estado tem o dever de fornecer o auxílio necessário para amparar as mulheres que optarem por abortar. Na cidade de São Paulo, por exemplo, são oferecidos os seguintes serviços para as mulheres:

- Atendimento médico
- Contracepção de emergência para casos de estupro, em até 72 horas do ocorrido
- Coleta de material para identificação do agressor por meio de exame de DNA
- Acompanhamento clínico, psicológico e social durante e depois da interrupção da gravidez (ou, se for o caso, durante o pré-natal)
- Exames laboratoriais para diagnósticos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).

Pergunta: se uma brasileira pode abortar com o apoio do Estado, caso corra risco de vida, ou caso tenha sido estuprada, porque ela não pode abortar em outras situações? O Estado tem o direito de obrigar uma mãe a ter um filho microcéfalo? A resposta é não. É uma imposição imoral - que deve também ser ilegal. Quem quiser se arriscar a ter um filho microcéfalo, que faça isso. Quem não quiser correr riscos, que tenha todo apoio para interromper a gravidez.
O aborto já deveria ter sido legalizado no Brasil há muito tempo, como já é em todos os países ricos e educados. Mas no Brasil só os ricos e educados fazem aborto em caso de suspeita de microcefalia, porque custa os olhos da cara. Reportagens têm relatado casos em que mulheres da classe alta pagam até R$ 15.000,00 para interromper a gravidez, como prevenção. A epidemia de Zika escancara a necessidade desse direito ser estendido a mulheres de todas as classes sociais.
Importante dizer que essa epidemia não tem prazo para acabar. A conversa sobre vacina é propaganda vazia. Os maiores especialistas no tema afirmam que estamos a dez, talvez quinze anos de uma vacina contra Zika. Não se conhece direito a doença. Até hoje, a Dengue já foi objeto de 14.840 estudos acadêmicos. O Zika só teve até hoje 242 estudos. Os dados são do National Center for Biotechnology Information. Os cientistas afirmam que há um "vácuo" no conhecimento sobre a doença. Esta reportagem da Bloomberg explica bem a enrascada.
No pouco tempo desde que a Zika explodiu no Brasil, já passamos de 4.200 casos de bebês microcéfalos. Em dez anos serão quantos? Quarenta, cinquenta mil? Milhões? E no mundo?
Mesmo com o aborto legalizado, muitas mães decidirão ter seus filhos mesmo assim. Que tenham o apoio financeiro necessário do poder público. Que essas famílias saibam cuidar dessas crianças e conviver com suas decisões. Terão direito ao BPC, o Benefício de Proteção Continuada, que garante um salário mínimo mensal a pessoas com deficiência que não tenham meios para se sustentar nem podem ser sustentadas pela família, independente da idade. Um salário mínimo não dá para nada, para quem tem um filho nessa situação, muitos sem controlar movimento, sem ver, com espasmos, com problemas cognitivos terríveis.
Se essas famílias processarem o Estado por crime de responsabilidade podem perfeitamente ganhar indenizações bem grandes. É o certo. O Aedes Aegypti se propaga por responsabilidade do poder público. O Zika é obra da natureza mas essa epidemia não é natural. É obra do poder público brasileiro. É negligência.
É o Estado que nega saneamento e serviços de saúde decentes à maioria dos brasileiros. Foi o governo de Fernando Henrique Cardoso que abriu mão de combater o Aedes Aegypti em 1998, quando José Serra transferiu essa responsabilidade para os municípios (mais detalhes sobre essa irresponsabilidade fatal aqui).
Lula e Dilma não consertaram a besteira do governo tucano. Teve dinheiro para Copa, Olimpíada, empresários amigos, encher os cofres dos bancos com juros altíssimos. Dinheiro para investir em saneamento, a coisa mais básica para a saúde de um povo, faltou.
E agora falta dinheiro para tudo, porque a crise econômica está pegando forte. Bem, vai ter que aparecer de algum lugar. Há que se federalizar o combate ao mosquito e distribuir repelente para o país todo; há que fazer esgoto; há que pesquisar vacina; há que ajudar financeiramente essas famílias.
Mas antes de mais nada é preciso estender às mulheres pobres o direito ao aborto, que as mulheres mais ricas já tem. As fotos não mentem: a maioria das mulheres que enfrenta esse pesadelo é de jovens, negras, pobres. O Estado tem grande responsabilidade por essa crise. O Estado não tem direito de obrigar essas brasileiras a terem filhos microcéfalos. Essa decisão é delas. Legalizar o aborto é fazer justiça.

Publicado em 26/01/2016 às 17:53

Dengue e Microcefalia: a responsabilidade de José Serra

110480 ext arquivo 1024x698 Dengue e Microcefalia: a responsabilidade de José Serra
Na década de 60, o Brasil erradicou o Aedes Aegypti. Não quer dizer que 100% dos mosquitos morreram. A dengue tem presença contínua em algumas regiões do país - é doença endêmica. Quando a incidência aumenta muito é que é epidemia.
A primeira epidemia da "nossa época" foi em 1986. Fruto da urbanização, do aumento da população, da falta de investimento em saneamento. De lá para cá, tivemos novas epidemias periodicamente. Mas no século 21 a situação piorou muito. E a explicação para isso é simples.
Em 1996, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o ministro da Saúde, Adib Jatene, anunciou um projeto ambicioso e detalhado para acabar com a dengue no Brasil. O orçamento seria de R$ 4,5 bilhões, a ser coordenado pela Fundação Nacional da Saúde, a Funasa, órgão do Ministério. Esse dinheiro seria investido em saneamento básico (mais da metade do valor), inseticida e educação da população. Em novembro do mesmo ano, Jatene deixou o ministério. Seu substituto durou um ano e não implementou o plano.
Em 1998, José Serra assumiu o Ministério da Saúde. Anunciou como seu objetivo fundamental enfrentar uma nova epidemia de dengue, que fazia estragos, principalmente no Rio de Janeiro. Disse que o Brasil entrava em "guerra" contra o mosquito. Declarou: "o triunfo será das forças da saúde." Mas era época de contenção de gastos. Serra também não implementou o plano de Jatene e realizou uma mudança fatal. O combate à proliferação do mosquito, que antes era responsabilidade federal, passou a ser dos municípios.
O governo federal passou a mandar uma fatia da verba para cada cidade. Pior: boa parte da verbas foi mandada com o objetivo genérico de combater doenças transmissíveis, e não especificamente a dengue. Os prefeitos gostaram, claro, mais dinheiro para gastar como bem entendessem. O Ministério da Saúde não supervisionou o uso do dinheiro. Novas e piores epidemias se seguiram.
Em reportagem de 2002, quando Serra deixou o ministério, o repórter Mário Magalhães detalhou na Folha de S. Paulo o que aconteceu no Rio, foco principal da epidemia, e ouviu especialistas sobre a decisão de Serra. A reportagem completa está aqui.
Alguns trechos:

"Em 1998, um plano operativo da Funasa previu que seriam necessários 10.461 agentes sanitários no Rio concentrados na aplicação de inseticidas. Havia 1.638 efetivos da fundação e 5.243 contratados por temporada -um déficit de 3.580. Em 1999, os temporários eram 5.792. Foram demitidos no fim de junho daquele ano."

"Num depoimento à Justiça no ano passado, o coordenador de Vigilância Ambiental da Funasa, Guilherme Franco Neto, ex-coordenador regional no Rio, disse que foi contrário à dispensa dos mata-mosquitos. Em abril de 2001, a Coordenação de Dengue do município do Rio previu uma epidemia no verão de 2002 com grande incidência de febre hemorrágica. A sugestão de contratação de 1.500 agentes e compra de equipamentos foi ignorada. O prefeito Cesar Maia (PFL) exonerou em seguida seu secretário da Saúde, Sérgio Arouca (PPS), que o alertara."

"A Funasa não informou quanto gastou em 2000 e 2001, quando parte das verbas contra a dengue foi enviada aos municípios em pacotes gerais contra doenças transmissíveis, sem estabelecer a enfermidade-alvo. Nos últimos anos, a Saúde aprofundou no combate ao Aedes aegypti a política de descentralização e municipalização prevista pela Constituição e pela Lei Orgânica de 1990. Os mata-mosquitos contratados pela Funasa foram dispensados em todo o país porque a fundação repassou a verba para os municípios executarem as ações antidengue."

"A descentralização da saúde não foi feita de forma bem planejada no país", diz o epidemiologista Roberto Medronho, diretor do Núcleo de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Muitas vezes não há capacitação e recursos. O afastamento dos mata-mosquitos no Rio foi uma atitude irresponsável. Precisaria de transição." Em Nova Iguaçu (RJ), a prefeitura contratou uma agência de extermínio de baratas para abater larvas e mosquitos. No Rio, a tarefa é da empresa de lixo."

"O ministério tem obrigação de fazer a vigilância do dinheiro que está repassando", diz o diretor do Instituto de Doenças Tropicais da Universidade de São Paulo, Marcos Boulos. "Tem de monitorar e uniformizar o trabalho." Boulos aponta outro problema: uma cidade pode implantar um projeto vitorioso contra a dengue. Se o município ao lado não tiver o mesmo comportamento, "seus" mosquitos contaminarão o vizinho. "É jogar dinheiro pelo ralo."

"Para o infectologista Rivaldo Venâncio da Cunha, professor de doenças infecciosas e parasitárias da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, o "fracasso começa no abandono do projeto de Jatene. Nos últimos anos, deu-se ênfase quase exclusiva ao controle químico. A utilização de inseticidas é feita irracionalmente. Em locais como Campo Grande e Fortaleza, as larvas desenvolveram resistência a inseticidas". O coordenador de pós-graduação em Medicina Tropical da Universidade Federal de Minas Gerais, Manoel Otávio da Costa Rocha, destaca outros três problemas: a falta de mobilização social "adequada" contra a dengue, a manutenção do bate-boca entre esferas de poder sobre a culpa pelas epidemias e a falta de continuidade nas ações antidengue. "Os mosquitos voltam a nível exponencial em dois, três anos."

E, como sabemos em 2016, voltaram mesmo. E voltaram piores. Espalhando a febre Chikungunya e a Zika.
Na época, Serra foi muito criticado por sua gestão no Ministério da Saúde, e pela explosão da dengue. Depois ele foi ser candidato a presidente da república. A piada na época é que ele seria o "presidengue". Perdeu para Lula. Segue com o objetivo de chegar à presidência da república.
Agora, a Dengue mata mais que nunca. E a Zika ameaça a gravidez de milhares de brasileiras. Moças jovens e pobres que terão bebês com problemas de saúde inimagináveis. Tragédia que podia, devia ter sido evitada. Mas se tornou inevitável a partir da decisão microcéfala de José Serra, com aprovação de FHC.
E do descaso dos governantes que vieram depois. Depois de catorze anos do governo "dos trabalhadores", seguimos com metade das casas do país sem esgoto... agora é que Dilma propõe ações de emergência contra o mosquito?
A dengue e a Zika não são obra do acaso. Nem maldade da natureza.
São crime de responsabilidade.

Publicado em 11/01/2016 às 15:57

O longo, furioso adeus de David Bowie

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Saturno é o signo da melancolia criativa. É sob a luz dessa estrela negra que David Bowie nos deixa dançando sozinhos. Se vai como chegou, ao som de saxofones, vergando de ansiedade e ambição, um olho na platéia, outro em seu legado. Todo estilo, todo cálculo, todo significado. Cai o homem, nasce a lenda - comemorada como nas lápides, com uma estrela negra.

Três meses atrás escrevi sob sua penúltima despedida, dos palcos. Nada de sabia sobre seu câncer ou BlackStar, seu último disco. Está aí abaixo. Encontremos conforto na galhofa. Velório é lugar de piada. Bowie nunca temeu o riso e o ridículo. Dá um pouco de vergonha do adeus displicente. Tentação de fazer um elogio à altura do velho amigo que se vai - David era seu amigo também, não era?

Resisto às palavras. BlackStar renderá infinitas interpretações nos dias e anos que virão. Ouça e crie a sua. Ouça Bowie e crie o seu. Evitemos retrospectivas críticas. Fujamos de qualquer audição anotada de suas canções de despedida. Nada de despedidas lamurientas.

Silêncio em homenagem a David Bowie, que não se deixou silenciar com a noite próxima - que enfrentou com fúria a chegada da escuridão.

BOWIE JÁ VAI TARDE
David Bowie nunca mais excursionará. Ótimo. O rock já é uma gerontocracia. Podemos dispensar outro brontossauro engambelando tiozinhos e sobrinhos em arapucas corporativas, parques temáticos para rebeldes de araque. Choram os fãs? Os admiradores batem palmas e torcem para que Bowie nunca mais pise em um palco.
A informação vem de boa fonte. John Giddings diz que Bowie disse a ele pessoalmente: “me aposentei, não vou mais excursionar”. Giddings foi o promotor de todas as excursões britânicas de Bowie desde a turnê “Glass Spider”, em 1987, época da turnê “Glass Spider”. Na época, Bowie explicava que fazia rock para pessoas de sua geração, porque a garotada queria música eletrônica, e não rock, e isso era bom. Tinha 40 anos. Sua contribuição já estava feita. Mesmo que ele tenha escrito boas canções e feito bons shows depois.
Bowie não lança um grande álbum desde 1983, Let´s Dance. Entre 1970 e 1983 escreveu e gravou 12 álbuns irrepreensíveis. Ninguém na história do rock fez igual. São clássicos, na mais precisa definição. Não porque fizeram sucesso que enternecem nossa memória. Nem porque viraram parte da paisagem. E sim por que resistem a novas audições e interpretações e por que mudaram o que veio depois. Comprove ouvindo hoje “Station to Station” ou “Low”, para ficar em dois dos menos festejados.
Não que sua música diga tudo. Bowie sempre foi mais que música. Suas roupas, atitudes, afetações, colaboradores e entrevistas sempre contaram tanto - frequentemente mais - que suas canções. É tudo indissociável, é tudo parte da obra. Nunca foi o melhor melodista, letrista, instrumentista ou cantor. Mas ninguém foi tão popstar e tão rockstar ao mesmo tempo; tão rudimentar e ambicioso e apelativo e transgressor. Trocava de persona como de fantasia. É tudo que todo mundo depois dele quis ser. E frequentemente foi: de Madonna e Michael Jackson a Lady Gaga e Lana del Rey e quem você quiser.
Porque tanta sede por ver Bowie em um palco novamente? Alguém imagina que vai nos encantar ou surpreender? É impossível ultrapassar o que ele já fez em suas apresentações, em teatralidade e repertório.
Como era impossível que The Next Day tivesse a densidade de informação, sensibilidade e argúcia de seus grandes álbuns. Saiu em 2013, dez anos depois do anterior. O aplauso da crítica foi acrítico.  Uma segunda audição, anos depois, confirma a primeira impressão. Não fez história e não faz feio. Mas ninguém precisa ouvir essas canções ao vivo. Bowie, sejamos sinceros, vai tarde. E Bowie, nascido em 1947, faria muito feio em um palco em 2015. Não é um palhaço como Keith Richards ou Ozzy Osbourne. Roqueiros não melhoram com o tempo, e mais: são prisioneiros do seu tempo.
A recepção de The Next Day se deve ao silêncio de Bowie no século 21. David teve um ataque do coração em 2004 (é isso que dá fumar). Nada como uma angioplastia para forçar revisão das suas prioridades. Se recolheu. Parou de gravar, tocar e se comunicar com o mundo exterior. Foi curtir a filhinha, hoje jovem, Alexandria, que esconde dos paparazzi. Tem também um filho adulto, diretor de cinema talentoso, Duncan Jones. Uma mulher linda e companheira, Iman. Vive entre Nova York e Londres. Nunca mais fez um show. Não precisa trabalhar, ponto. É muito rico.
Nesta era em que todos falam sem parar, e um quer falar mais alto que o outro, e todos gritam aos ventos suas mínimas e míseras conquistas, David Bowie calar é incompreensível. Nos provoca e ofende. Que conforto, então, que Bowie tenha lançado disco e feito vídeos para promover The Next Day. Mas que desperdício que o faça sem espalhafato! Cadê a tour mundial? O show no Rock in Rio? O dueto com Beyoncé, Jamie XX, Emicida?
Nada feito. Bowie não precisa arrastar a carcaça pelos palcos do mundo para pagar as contas, que bom. A mostra de suas roupas e badulaques, que passou por São Paulo, já foi show suficiente. E suas tours legendárias estão aí na internet para quem quiser se deslumbrar, pela primeira vez, para sempre, e cada um com sua favorita. Serious Moonlight, a mais solar, já viu?
O fato de ter se aposentado das turnês não quer dizer que nunca mais subirá em um palco. Dispenso. Sua produção posterior e atual não tem importância. A não ser, talvez, para ele. E talvez seja por isso mesmo que tanta gente quer vê-lo de novo nos palcos. Porque queremos seu bem, pelo bem que sua obra clássica nos fez e faz.
Mas é mais precioso seu isolamento: antídoto poderoso à glossolalia que nos embevece e bestifica. Bowie fez mais que a maioria de nós e se despede com elegância, à francesa. Merece a aposentadoria de luxo.
Merecemos seu silêncio.

Publicado em 05/01/2016 às 15:57

Feliz aniversário para o maior diretor de cinema do mundo

animation master hayao miyazaki retires from feature filmmaking header 1 Feliz aniversário para o maior diretor de cinema do mundo

Hayao Miyazaki cercado por suas criações

Hoje Hayao Miyazaki faz 75 anos. Desconheço criador com sensibilidade similar. Conta histórias que tocam pessoas de todas as idades, em todos os lugares. Sabe inspirar e assustar; provoca emoção e questionamento; eletriza e encanta.
No Japão, que valoriza o talento para a criação como nenhum outro país do planeta, ele é um ícone. Miyazaki-sensei: mestre absoluto, inquestionável. Ninguém mais japonês. Aliás, conhecer um pouquinho de cultura japonesa adiciona uma camada extra de prazer ao espectador de seus filmes. Muitos de seus personagens são Yokai, criaturas da mitologia tradicional do Japão. Muito do que viveu, como criança do dolorido pós-guerra, informa suas escolhas.
E ninguém mais universal. Miyazaki já ganhou todos os prêmios importantes do mundo. Do Oscar aos festivais de Berlim e Veneza e muito mais. O mundo se reconhece em seu trabalho, que não tem nada de provinciano. As influências internacionais estão lá para quem quer ver: ficção científica, fantasia, Moebius, Alice no País das Maravilhas; socialismo, feminismo, ambientalismo.
Parece que tudo que toca é perfeito. Até as lojinhas especializadas na venda de mercadorias com os personagens criados por Miyazaki são encantadoras. Estão espalhadas pelo Japão e vivem cheias de seus fãs.
No Brasil muita gente ainda entende animação como uma arte menor, ou até programa exclusivo para criancinha. É pena. Perdem a oportunidade de se maravilhar com criaturas e ambientes inimagináveis. De se apaixonar por heroínas como Kiki, Ponyo, Nausicaa. De engajar o rico humanismo de Miyazaki, contido, ambíguo. Se você conhece e ama, revisite, como fiz em 2015, com imenso proveito e prazer. Se não conhece, conheça: este é meu presente de ano novo para você.

Publicado em 28/12/2015 às 16:17

Seja o número 1: a única estratégia para enfrentar 2016

keep calm i am number 1 Seja o número 1: a única estratégia para enfrentar 2016
O segundo homem a pisar na Lua não entrou para a história. Ninguém lembra de quem ganhou a medalha de prata. O filme em segundo lugar nas bilheterias não fatura um pouco menos, fatura muito menos que o primeiro.
Justo? Injusto? Herança genética que faz o clã seguir o macho alfa? Conspiração capitalista? Como você quiser. O fato é que é assim. É mais assim ainda em época de crise econômica. E apesar de termos consciência disso, raramente agimos de acordo.
É a estratégia mais tiro-e-queda que eu conheço para ganhar dinheiro: ser o número 1. A primeira marca em que você pensa, quando está pensando em uma categoria de produtos. Tem um milhão de empresas boas por aí, oferecendo produtos e serviços bons. E muito poucas oferecendo aquela coisa imperdível, que você não pode viver sem.
Isso não tem nada a ver com market share. Não se trata de ser o maior. Nem o primeiro a chegar ao mercado. Nem o mais inovador, sustentável, a melhor empresa para trabalhar. Parabéns para a empresa que mais inova, menos polui e é ótima empregadora.
Mas estou falando de outra coisa.
Nunca escrevo sobre negócios neste blog, nem em lugar nenhum. Já dou pitaco sobre quase tudo, não vou dar conselho para empreendedor; nada mais patético que esses gurus sabe-tudo. Mas abro uma exceção, porque de fato sei algumas coisas, e de fato 2016 está pedindo. Tenho visto tanta gente se dando mal com suas empresas que me sinto na obrigação a compartilhar uma das poucas coisas que aprendi.
Montei minha primeira empresa em 1993. De lá para cá dei muita cabeçada e também dei sorte de vez em quando. Ganhei umas, perdi outras, aprendi um bocado. Aprendi principalmente a focar no que é mais importante.
O foco em ser o número 1 é uma coisa que raramente aparece em livros de gestão e blogs de empreendedores. Se você trabalha em uma empresa, é importante entender exatamente o que significa ser o número 1. Se você é o fundador ou gestor de uma empresa, é mais importante ainda.
Vou dar um exemplo muito claro, de um ramo que conheço muito: a indústria de Livros. Quem é a editora número 1 do Brasil neste momento?
A Darkside é a editora número 1 do Brasil.
A Aleph é a editora número 1 do Brasil.
A JBC é a editora número 1 do Brasil.
A Ideal é a editora número 1 do Brasil.
Não conhece nenhuma delas? Não se culpe.
É porque você não é fã de Terror, Ficção-Científica, Mangá ou Rock, respectivamente os segmentos em que elas são focadas, e em que cada uma delas é indiscutivelmente a número 1. As quatro têm produtos excelentes, catálogos focados, comunicação orgânica e eficiente com os fãs de cada um desses gêneros.
Mas quem é a editora número 1 do Brasil "de verdade"?
A pergunta não faz sentido e não importa pra ninguém. Certamente é uma editora gigantesca, que atua em um monte de segmentos, e publica todo tipo de livro para todo tipo de leitor. E nenhum leitor compra seus livros por ser dessa editora. Então qual a vantagem de ser a maior, sem ser a número 1?
Uma empresa com essas características é, principalmente, um grande alvo.
Hoje, com a facilidade da comunicação digital, é viável você criar uma marca que é a número 1 para um número suficiente de consumidores. E se for mesmo, deixam de ser consumidores e viram fãs, amigos, evangelizadores. Clientes fiéis - enquanto você for o número 1. Escorregou para o segundo lugar, tchau.
Depois de todos esses anos, aquela história de Cauda Longa finalmente faz sentido. Mas de uma maneira diferente do discursinho "tem espaço para todo mundo". Tem espaço para toda empresa que seja a número 1.
Essa estratégia vale só para o mundo editorial? Só para empresas de nicho? É coisa de "empresa de internet"?
Não mesmo. Vale para qualquer segmento. De qualquer tamanho. Vou dar um exemplo da minha vizinhança. Com a recessão, muitos bares e restaurantes da Vila Madalena andam às moscas. Mas o Galinheiro Grill segue cheio. É um restaurante muito antigo do bairro. Começou com uma portinha, hoje ocupa uma esquina gigantesca na rua Inácio Pereira da Rocha. Serve todo tipo de carne grelhada, com todo tipo de acompanhamento.
Mas o nome resume o que eles prometem e entregam brilhantemente. Eles fazem o melhor galeto grelhado da região. Há décadas. Sem falha. Por um preço honesto. O que significa preço honesto? Significa que você não se incomoda de pagar um pouco mais caro do que em outros lugares, porque o Galinheiro Grill é o número 1. Por isso vive cheio em plena crise.
Falar em grill dá sede de cerveja. Os brasileiros mais ricos do planeta usaram exatamente a mesma estratégia. O império global da 3G Capital começou com um insight. Em grande parte dos países emergentes, empresas familiares ganhavam rios de dinheiro com a sensacional margem de lucro que se materializa quando você transforma água em cerveja.
Lemann, Telles e Sicupira decidiram ser os cervejeiros número 1 do Brasil. E depois, do mundo. Têm outros negócios? Agora têm: Burger King, Kraft-Heinz - negócios que têm boa sinergia com o principal, que é cerveja. Mantêm a obsessão em ser o número 1 da cerveja, com distância cada vez maior do segundo colocado. E certamente querem ser o número 1 em fast food, salgadinhos e por aí vai. Clareza absoluta. O livro sobre eles chama "Pense Grande". O que todo gestor tem a aprender com eles é: pense unicamente em ser o número 1.
Volto ao mercado editorial e a minha experiência pessoal. Durante alguns anos, fui sócio da editora de revistas número 1 para o público infanto-juvenil. Era a Conrad, e dominávamos bem esse segmento, com as revistas Herói, Pokémon Club, Nintendo World, EGM, Super Menina, Smack. E mais revistas de atividades, cards colecionáveis, adesivos. E mangás como Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco.
Como estávamos ganhando um bom dinheiro, resolvemos diversificar. Tínhamos caixa para investir. E já que conquistamos tanto sucesso com esse público jovem, porque não teríamos com outros públicos também? Nada engana mais que fazer sucesso. Quando viu está se achando um gênio dos negócios.
Então criamos uma editora de livros para adultos. E investimos em revistas para adultos. As duas frentes se provaram muito difíceis. Exigiram muita dedicação da gente. Dedicação que deixamos de ter com o segmento que dominávamos. Foi distração e desperdício.
Tenho orgulho do que fizemos no segmento adulto, mas só como editor. Como empresário, tenho vergonha. Foi uma das maiores barbeiragens da minha vida.
Essa diversificação nos tirou do número 1. Foi o começo do fim, que para mim chegou em 2005, quando deixei a editora que fundei. Fiz outras estrepolias empresariais depois; muitos causos bons; um dia conto.
O caso mais evidente de empresa que se deu bem quando decidiu ser a número 1 é o da Apple. Ao voltar à direção da empresa, em 1997, Steve Jobs não reconheceu a empresa que fundou. A companhia tinha uma linha de produtos gigantesca. Notebooks, desktops, o portátil Newton, impressoras, periféricos diversos. Para estudante, profissional, empresa. Cada um em diversas versões, para atender todos os tipos de consumidor possível e imaginável. E cada um dos grandes varejistas, conforme suas especificações.
A Apple fazia de tudo. E não era a melhor em nada.
Jobs focou em ser o número 1. Não em tudo. Nem em computadores. Mas somente e exclusivamente a marca número 1 de computadores para pessoas criativas. Jogou fora toda a linha anterior de produtos da Apple. A nova linha teria só quatro produtos. Um desktop e um notebook para uso profissional de pessoas criativas, e um desktop e um notebook para uso doméstico de pessoas criativas.
Tirou o disk-drive dos computadores e botou todas em caixas coloridas e divertidas. O slogan reforçava que os produtos da Apple não eram para todo mundo, de propósito, eram só pra você, que é meio doido, criativo, especial: Think Different.
Todos esses anos depois, a Apple mantém exatamente a mesma estratégia: ser a marca número 1 de aparelhos digitais para pessoas criativas, divertidas, diferentes - ou que aspiram a ser tudo isso. E todos esses anos depois, quantos outros produtos a Apple lançou? De importantes, pouquíssimos: o iPod, o iPhone, o iPad, todos indiscutivelmente o número 1 de sua categoria. Todos embalados no sistema operacional mais amigável, o iOS, e em serviços que mantém o seu consumidor fiel. Entrou para o mundo Apple, é difícil sair.
Importante lembrar que a Apple não inventou o MP3 Player, o smartphone, nem o tablet. E vale ressaltar que a Apple não tem o maior market share em nenhum dos segmentos em que atua. Mesmo assim, é a maior empresa do mundo em valorização de mercado e dá rios de dinheiro para seus acionistas.
É claro que existem muitos fatores que explicam fracassos e sucessos, não só um lema ou uma estratégia. Você pode e deve desconfiar de receitas mágicas, ou de bilionários que parecem ter o "toque de midas". Duvide de empresas que divulgam práticas empresariais angelicais e lucros recordes. Seja a editora, o bar, o gigante da bolsa, a marca global.
Mas o foco em tornar a sua empresa a melhor na sua área de atuação - seja qual seja - dá uma clareza imensa. Força você a alinhar seus recursos, seu tempo, sua equipe, seu esforço pessoal. Independente do tamanho da empresa.
O mundo dos negócios é guerra. Em ano de crise, juro alto, desemprego alto, inflação alta, é guerra sem trégua. Vamos lutar por uma política econômica anti-recessão, gritemos por juros baixos, pela defesa da renda do brasileiro. Mas enquanto lutamos pelo que é de todos, não descuide do que é seu.
Resmungar do governo, qualquer governo, não paga as contas.
Sem querer me meter a guru e já me metendo, deixo o conselho: se eu fosse você, decidia ser ótimo em uma única coisa. Não sei de estratégia melhor para enfrentar o novo ano. Escolha seu front. E ataque com tudo. Foco total. Sem distração. Sem desvios, sem atalhos, sem ego.
Em 2016, seja o número 1.

Publicado em 18/12/2015 às 16:56

2015, o ano do igual – e uma promessa de diferença para 2016

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"Todas as histórias são continuações; influência é felicidade". Nunca foram tão verdadeiras as palavras de Michael Chabon quanto em 2015. A autoreferência deu o tom esse ano. Notas dissonantes se perderam no uníssono. Esforço árduo, valorizar as diferenças no meio desse coro de iguais. Esforço inútil?
O ano em que a cobra mordeu o rabo termina com chave de ouro, ou seja lá qual for o metal mais valioso de Tatooine. O episódio 7 de Star Wars é sobre Star Wars. Uma visita a cenários, personagens, emoções, filmes já visitados mil vezes. O deserto, a floresta, a neve; o robô fofo, o vilão dividido, os jovens convocados à aventura, o mentor experiente. É como a décima visita à DisneyWorld: mais, mais, mais do mesmo. É um filme de fã para fãs. É pouco? É tudo.
E não é.
O Despertar da Força acerta por não errar. Mas evitar o erro não é acerto. É perfeição. E a perfeição é por definição domínio do entretenimento, e não da arte. Arte é risco. Pop é produto. Star Wars é o maior produto cultural da nossa era, e a Disney é a maior produtora de cultura pop do mundo. Não exijamos experimentação de investimentos de bilhões de dólares – quatro bilhões, exatamente, o quanto a Disney pagou pela Lucasfilm em 2012. Mas não finjamos que à perfeita satisfação das nossas expectativas de consumo se resumem a vida e o mundo.
Veja: O Despertar da Força é exatamente, rigorosamente o que os fãs queriam. O diretor J.J. Abrams personifica o provérbio de Chabon. Dirigiu um Missão Impossível, dois Jornada nas Estrelas, Super 8 (uma continuação conceitual de E.T. e Goonies) e agora Guerra nas Estrelas. É especialista em cuidar dos filhos dos outros. É babá. Não vamos esperar que ele vá parir nada. E nem é para isso que foi contratado.
Não vamos criticar Jurassic World por ter a profundidade de uma Montanha-Russa. Nem Mad Max: Estrada da Fúria por ter o QI de um show do Iron Maiden. Não procuremos os significados em Velozes e Furiosos, Vingadores, 007, Cinderella. Não é "bom" ou "ruim" ou um melhor e o outro pior. O ponto é que o tema de cada um desses grandes sucessos globais é sua própria mitologia. É a cultura popular rodando em círculos.
Vale para a música, a TV, e, claro, as redes sociais, que batem palmas para o igual tão alto, que não conseguimos ouvir mais nada. O tema de Taylor Swift é Taylor Swift, por sua vez construção virtual, homenagem a todas as princesinhas pop virginais das décadas passadas. Adele: igual. Coldplay: igual. Sertanejos das nossas paradas, comédias românticas dos nossos cinemas, livros nas listas dos mais vendidos: igual, igual, igual. Idem meu querido Duran Duran, que ilustrou a capa de seu disco de 2015 com citações visuais às quase quatro décadas de história da banda.
Não se trata nem mais da famosa pós-modernidade, em que toda cultura era referência e recombinação consciente do passado. Parece algo além. Consequência das redes sociais? Nossa cultura olha no espelho e só vê o próprio umbigo.
O mesmo de sempre está sempre fresquinho porque vende mais? Ou vende mais porque está sempre fresquinho? Como fazer o antigo – melhor dizendo, o eterno – ser sempre atual? Não descobriram fórmula exata. Há que falar aos hormônios. E há que abrir a carteira e destruir, ou comprar, a concorrência. É que Disney fez com Pixar, Marvel e Lucasfilm. E o que Facebook fez com Instagram e Whatsapp. É em todo canto da economia, e não só da indústria cultural. Cada vez menos empresas são donas de fatias maiores e maiores de seus segmentos.
Como o sucesso se retroalimenta em níveis infinitos no capitalismo superconectado do século 21, não existem mais hits, só superhits. A diferença do primeiro lugar para o segundo só tende a aumentar; 10% dos artefatos culturais ocupam 90% da nossa percepção. É exatamente como se dividem as riquezas do planeta. Não acredite em coincidências.
Perfeição pop não é pouco. Um dos discos mais perfeitos desse ano é Music Complete, do New Order. Justamente porque soa como o ideal platônico de New Order, melódico e melancólico, para dançar e pensar. Audições repetidas só me deixam mais contente. E, sim, assistirei contente novamente O Despertar da Força. Daqui uns seis meses.
Mas contentamento não é felicidade. Chabon puxou a sardinha para sua brasa. Falava de livros, não filmes ou canções ou seriados. "All novels are sequels", no original. Traduzi infielmente para "histórias", de propósito. Cravando que livros são só revisitas a livros passados, ele emprestava o que resta do prestígio autoral da literatura a formas coletivas, massificadas de expressão. Chabon é co-autor do roteiro de Homem-Aranha 2 e escreveu as letras do último disco de Mark Ronson, “Uptown Funk” etc. Sabe onde ganha o seu...
Para onde vamos? O mundo a cada ano é mais é dos enormes e dos minúsculos, sem território intermediário. É assim na divisão das riquezas e da nossa atenção. Difícil mudar, difícil mudarmos. Impossível? Impossível é palavra definitiva demais. Os outros filmes, os outros livros, as outras idéias e maneiras de viver e de mudar estão aí para quem quiser saber disso. Num pequeno filme como Ex Machina; uma banda que não estourará, como Young Fathers; em um papo entre Brian Eno e Yannis Varoufakis, perdido no site do Guardian; no gibi patrocinado pelos leitores via internet; no livro empoeirado no fundo do sebo. Em maneiras independentes de pensar e agir.
Tenho feito pouco para fazer circular o diferente que me chama atenção. Uma promissora promessa de ano novo: compartilhar com mais regularidade e generosidade meus encontros com o diferente. Com o que interessa para poucos, o que não foi nem será popular, na cultura, no pensamento, na vida. Atenção, não falo do novo, do fresquinho, do frequíssimo: falo do diferente. E falo não retwittando, "curtindo", "postando". Não "posto". Escrevo. Aqui nesse blog. Apareça quando quiser.
O eterno é item constante no meu cardápio. Levei meu filho para ver Star Wars pela primeira vez no cinema. Levarei para ver os velhos Rolling Stones, talvez pela última vez nos palcos. Alguns mitos preenchem nossos apetites – mesmo quando já quase nem sentimos o sabor do recheio. Mesmo cobertos de marketing e nostalgia, we still can get some satisfaction...
Há que viver aqui e agora, que é onde e quando temos para viver. Mas viver de verdade, e não por procuração. Buscar satisfação, não se satisfazer à toa. Já tem muita gente ecoando acriticamente consensos pré-fabricados, seja sobre cinema, economia, sexo e tudo mais.
Preciso acreditar que meus olhos ainda estão abertos para outros sons, outras visões, outros mundos. E os olhos de muitas outras pessoas também. Essa confiança é que me forçará a desviar o olhar do seguro, do reconfortante, da “felicidade”. Minha história também é continuação. Aos 50 anos, talvez seja principalmente continuação. Mas não só.

Publicado em 16/12/2015 às 15:52

2015: os melhores livros do (meu) ano

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Listinha encurtada de livros bacanas lidos esse ano. Nem todos lançados em 2015, mas a maioria é. Não bate em nada com as listas de melhores que vi por aí. As listas de melhores romancistas das publicações gringas é de cair para trás, só gente jovem, moderna e descolada. Dá preguiça até de fuçar.
Não inclui leituras profissionais. Um desses que recomendo sem ter lido todo (pra variar) é de Sir Anthony Atkinson, Inequality - What Can Be Done?. É bem amigável considerando que ele é eterno candidato ao Oscar de Economia, e leitura muito necessária pelos brasileiros, nesses tempos de recessão auto-inflingida.
Como de costume, autores nacionais não marcam presença no meu criado-mudo.

PERFIDIA
Los Angeles possuída nos dias do ataque a Pearl Harbor. James Ellroy no seu mais alucinado. Romance policial negro como a vida. Começo de um novo quarteto de romances - oba! Ellroy nos brindou esse ano com outro shot quente como inferno: a noveleta Shakedown: Freddie Otash Confesses, exclusivamente digital. O diabo aí de cima é um detalhe da capa.

CUNNING PLANS
Livro que reúne as palestras doidonas de Warren Ellis. Esse ano ele lançou duas novas séries de quadrinhos provocativas e perturbadoras, Trees e Injection. E toda segunda-feira é uma alegria receber a newsletter dele, Orbital Operations.

PAOLO BACIGALUPI
É meu escritor de ficção científica favorito no momento. Li em 2015 The Water Knife, The Windup Girl, The Drowned Cities. É o que batizaram de "cli-fi", ficção científica inspirada pelos cenários aterradores que as mudanças climáticas prometem. Mais uma ótima recomendação da newsletter do Ellis.

CIDADES INVISÍVEIS
Para quem acha que fantasia não pode ser alta literatura, recomendo essa delícia de Italo Calvino. Devia ter lido trinta anos atrás, mas sempre é tempo. Fãs de Borges, vão sem medo. Já comecei outro dele, Cosmicomics.

COLEÇÃO PHILIP K. DICK
A editora Aleph tem feito um trabalho primoroso publicando os maiores clássicos da ficção científica - Duna, Asimov, William Gibson e muito mais. Destaco a coleção de livros do Philip K. Dick, sensacional. Prefiro no original, mas se não se viras bem em inglês, não encontrarás edições melhores.

MALDITO
A biografia de José Mojica Marins escrita por André Barcinski e Ivan Finotti já era bacana demais. Mas esta nova edição de luxo, com zilhões de fotos e 666 páginas, ficou melhor ainda. Para quem curte terror, cinema nacional, ou simplesmente uma história inacreditável - e real.

JOGADOR NÚMERO 1
Melhor fantasia adolescente do século 21 - mas faz mais sentido se você cresceu nos anos 80. Ernest Cline depois escreveu outro livro mais molecão: Armada. Leia e dê pro seu filho fã de Star Wars, como eu fiz.

POINT TO POINT NAVIGATION
Segundo volume das memórias de Gore Vidal. Despretensioso, fofoqueiro, afiado. E tocante, porque enfrenta os anos de decadência física e mental de Vidal, sua geração e o amor de sua vida.

SATIN ISLAND: A NOVEL
Tom McCarthy é o Nicholson Baker do ambiente corporativo super high-tech, autocongratulatório, pretensamente revolucionário. Máxima atenção aos mínimos detalhes. Como disse Paulo Francis sobre 2001 - Uma Odisséia no Espaço: entre o hipnótico e o monótono.

A CONCISE HISTORY OF JAPAN
A coleção da Cambridge de "histórias concisas" é preciosa. Antes de viajar para qualquer lugar, ou durante, compre e leia. Ou simplesmente leia. Essa do Brett L.Walker sobre o Japão é sólida e não para no presente: projeta o futuro.

SMILING THROUGH THE APOCALYPSE: ESQUIRE´S HISTORY OF THE SIXTIES
Todos os livros dessa lista antes desse foram lidos em formato digital. Li mais um monte em 2015, comprados em sebos, mas deletei da memória, pela bagunça mental habitual. E estão todos encaixotados: ataque de cupins em casa! Ano que vem faço outra lista só das maravilhas dos sebos.
Esse anda viajando comigo, então ficou fácil incluir. Vou lendo aos poucos e fora de ordem o catatau de mais de mil páginas. Falta pouco; comecei pelos autores e temas que mais me interessavam. Tem Tom Wolfe, Norman Mailer, Gore Vidal, William Burroughs, Saul Bellow e por aí vai. O melhor do new jornalism, e melhor jornalismo jamais se fará.

Essa lista não tem quadrinhos porque fiz uma lista só dos gibis que mais curti em 2015. Leia aqui!

Publicado em 10/12/2015 às 19:40

Os melhores quadrinhos de 2015

Estou sendo injusto e esquecendo uma renca de maravilhas. Perdão aos esquecidos, especialmente aos brasileiros. Reformas em casa! Todos os meus livros e gibis estão encaixotados, graças a um ataque de cupins malditos. Então a lista é de cabeça, e dando uma olhada no meu Tablet e criado mudo.  Meus favoritos Warren Ellis,  Garth Ennis, Alan Moore e Grant Morrison correm por fora: tem que ler qualquer coisa que eles fizerem.

SERGIO TOPPI

Que absurdo que eu conhecia porcamente o trabalho desse italiano! Isso que dá só saber ler direito em português e inglês - agora é que os álbuns dele estão saindo nos EUA, como The Collector e Sharaz-De.  Vale fazer uma conta na Amazon Italia para comprar toda a obra de Toppi, que influenciou gente muito conhecida por aqui, como Walt Simonson.

toppi04 Os melhores quadrinhos de 2015

MAD: THE ORIGINAL IDIOTS

Edição com três livros, com tudo que foi produzido pelos gênios Wally Wood, Jack Davis e Will Elder no início da revista.

ED BRUBAKER

O criador que mais me divertiu esse ano, com três séries ótimas, e bem diferentes uma da outra. Velvet é uma agente renegada, quarentona e durona, em  ambiente James-Bondiano dos anos 70. Fatale é uma imortal que preferia morrer, numa série que vai do grunge a Lovecraft. The Fade Out é noir puro, a la James Ellroy, numa Hollywood sob o macartismo.

The Fade Out issue three 674x1024 Os melhores quadrinhos de 2015

SUPER-HERÓIS
Voltei a ler algumas coisas de Marvel, DC e companhia, sempre em formato digital, compradas via Comixology. As super-sagas que mudam tudo e não mudam nada, não tenho paciência de ler. Mas sigo prestando atenção em alguns autores, como Mark Waid (Demolidor, Hulk) e Kurt Busiek (Astro City). Curti muito os gibis de Mark Millar, feitos sempre no formatinho para virarem logo filme: Chrononauts, Jupiter´s Circle, Starlight.

O CÃO QUE GUARDA AS ESTRELAS
Tem saído muito mangá bom no Brasil. Esse é muito especial, para todos os leitores e idades. Meu filho, que tem 12 anos, prefere muito mais mangá que quadrinhos americanos ou brasileiros, e seus favoritos no momento são Parasyte, Tokyo Ghoul e Limit. Estou relendo Blade of the Immortal, em bela reedição da JBC.

banner c o que guarda as estrelas 610x240 Os melhores quadrinhos de 2015

JH WILLIAMS III
Compro qualquer coisa desenhada por ele. É um dos maiores talentos trabalhando com quadrinhos fantásticos atualmente. Felizmente, ele costuma trabalhar com grandes escritores, como Alan Moore (Promethea) e agora Neil Gaiman (Sandman: Prelúdio, que não dá pra não ler; mas se não fosse a arte de JH, não teria metade da graça). Confira também Batwoman, (bem) escrita e ilustrada por ele.

O ESCULTOR
Outro dia me pediram recomendação de gibis contemporâneos com abordagem adulta, mas que nos toquem o coração e a imaginação, para um leitor de 15 anos. Indiquei esses três:  Habibi, de Craig Thompson; Asterios Polyp, de David Mazzuchelli; e um que saiu esse ano, O Escultor, de Scott McCloud. Francamente esperava um pouco mais de McCloud, talvez o principal teórico dos quadrinhos das últimas décadas; mesmo assim o quase-bom dele é melhor que o ótimo da maioria dos criadores.

O Escultor 21 715x1024 Os melhores quadrinhos de 2015

SHOWA: A HISTORY OF JAPAN
É uma coleção de mangás que parecem uns tijolos, contando a história do Japão no século 20, misturada com a história do próprio autor, Shigeru Mizuki. Ele se autosacaneia sem dó... mesmo quando perde um braço na Segunda Guerra. E a mesma falta de pieguice perspassa a obra inteira. Mizuki morreu agora no final do ano.

321 FAST COMICS, PÉTALAS E A SAMURAI
Estamos vivendo a era de ouro da HQ brasileira. Tem saído muita, muita coisa boa, graças ao Catarse, às vendas diretas, aos pontos especializados, ao e-commerce... e à iniciativa dos criadores, que não ficam esperando as coisas acontecerem. Assim que os cupins permitirem, farei uma lista de quadrinhos bacanas de brasileiros que li essa temporada.
Por enquanto vou puxar a sardinha para minha brasa: três dos álbuns mais bacanas de HQ nacional foram lançadas pela Tambor Quadrinhos. São o 321 Fast Comics, do Felipe Cagno. Pétalas, de Gustavo Borges e Cris Peter . E o novo é A Samurai, uma história inesquecível da Mylle Silva,  ilustrada por oito artistas. Muita coisa boa made in Brasil pra gente ler e pelo que vi na Comic Con Experience, 2017 será ainda melhor. É uma ótima época para ler quadrinhos, e quadrinhos brasileiros mais ainda.

a samurai capa Os melhores quadrinhos de 2015

Publicado em 02/12/2015 às 17:29

Precisamos acabar com a PM

teste1 1024x376 Precisamos acabar com a PM

No Rio, cinco jovens inocentes chacinados quando iam a uma lanchonete. Em São Paulo, borrachada nos estudantes que ocupam as escolas, em defesa de seu direito de estudar. É todo dia, em todas as cidades do Brasil. A Polícia Militar é violenta, violenta demais. Mas gritar contra os PMs é um erro. Injusto e inútil.

Parece insano dizer isso vendo as fotos dos garotos chacinados, Carlos Eduardo, Cleiton, Roberto, Wesley e Wilton. Quem tem filho sente no coração ao ver os pais em lágrimas, procurando desesperados um porquê. Parece ridículo aliviar o papel da PM ao ver a meninada paulista levando cacetada e spray de pimenta na cara. Mas a função do militar é ganhar a guerra. Para isso, ele é ensinado a ver o mundo em preto e branco. O nosso lado e os inimigos.

Líderes de verdade, civis ou militares, sabem: a guerra é o inferno, na guerra vale tudo. Em guerra, todos os lados vão cometer injustiças terríveis. Inocentes vão sofrer, talvez morrer. É inevitável. Os discursos bonitos sobre regras e comportamento ético são só discursos.  O maniqueísmo é fundamental. É preciso desumanizar o inimigo. Você jamais pode se colocar no lugar do outro. Atrapalha a mira.

Os soldados da Polícia Militar são isso: soldados. E soldados que dificilmente deixarão de ser só isso, soldados.  A maioria tem pouca educação, pouco treinamento, baixo salário, nenhum horizonte. São doutrinados para pensar em termos de nós e eles. Matam muito. Sem punição. Ué, porque deveriam ser punidos por matar os inimigos? O Brasil não está em uma guerra contra o crime?

Não. O crime, organizado ou pé-de-chinelo, é um problema civil. É um ato que vai contra a lei civil, julgado pela justiça civil, que tem que ser enfrentado com métodos civis. O que têm militares a ver com enfrentar o crime? Absolutamente nada.

E o que militares têm a ver com enfrentar manifestantes? Menos ainda. Porque um soldado é treinado para olhar um manifestante desarmado e ver o inimigo. Nem passa pela cabeça de um PM se negar a descer o sarrafo nos caras que protestam. Está lá para isso. Mesmo que discorde, obedece, porque obediência é o elemento fundamental da disciplina militar. Então o PM não entende quando manda sair e o estudante adolescente não obedece.

Em Curitiba, quando o governador Beto Richa mandou descer o porrete nos professores que protestavam por melhores salários,  17 policiais se negaram a avançar sobre os manifestantes. O governo paranaense exonerou. Faz todo sentido. Assim é a disciplina militar.

Li uma vez em algum lugar que é a melhor medida para ver se um país é avançado é ver se ele paga bons salários tanto para os professores como para os policiais. Não sei quem disse isso, mas marcou. Aqui ambos ganham porcaria. Quando vi  fotos de PMs batendo nos estudantes das escolas públicas paulistas, lembrei disso e pensei: é um braço do povo batendo no outro.

O PM não é o bandido dessa história.Os PMs são um instrumento. Uma arma na mão de outros, que puxam os gatilhos. Uma coisa importante sobre guerras: quem vence escreve a História. Quem perde é julgado por seus crimes de guerra. Mas não foi soldadinho raso lá na ponta, que ajudou a colocar inocentes na câmara de gás, que foi julgado em Nuremberg. Foram os mandantes, os nazistas graduados. Mesmo que pessoalmente nunca tenham matado ninguém.

Fazer os mandantes pagar pelos crimes de seus comandados não é exatamente justiça perfeita, mas é educativo. Ensina: em guerra, quem manda matar tem tanto sangue nas mãos quanto quem executa ordem. E mais responsabilidade.

As Polícias Militares são Estaduais. O comandante máximo é o governador. Pelas regras da guerra, seria lógico que Pezão respondesse criminalmente pelos atos da PM contra os cinco garotos cariocas. Aliás: todos os governadores responderiam por homicídio.

São Paulo também. A PM paulista está matando mais que nunca. No primeiro trimestre de 2013, a PM matou 67 pessoas. No mesmo período de 2014, 157. No primeiro trimestre de 2015, policiais militares mataram 185 pessoas. Isso são os números oficiais. E quantos PMs morreram em São Paulo no primeiro trimestre de 2015? Quatro.

Estamos em guerra? 185 mortos de um lado, quatro do outro... Sempre a mesma história, “troca de tiros”. Um monte de casos muitíssimo mal explicados. A violência é exclusividade da Polícia Militar? Praticamente. A Polícia Civil paulista no primeiro trimestre de 2015 matou nove pessoas, um vigésimo do que a PM.

A população sente que o bicho está pegando. Quando morre um PM, a corporação revida passando a régua. Morreu um policial, o povo já está no Whatsapp decretando toque de recolher. Quem der mole na periferia à noite arrisca levar um tiro. Depois é aquele papo, “reagiu”. E com tudo isso, os índices de criminalidade continuam altíssimos.

Não é questão pessoal, ou do partido esse ou aquele. É como o país é. É igual em todos os estados. Com a conivência do governo federal, da Justiça, das otoridades em geral. No máximo pune-se algum PM que exagerou e foi pego, ali no rés do chão. E lá nas alturas tudo segue como de costume.

Na prática, a Polícia Militar é criação de 1967, obra da ditadura militar. Naquela época eram proibidas a crítica, a manifestação e o voto. O regime de 64 foi enterrado há décadas e ainda hoje este restolho da ditadura continua por aí. Por quê? Porque nós permitimos isso. Fomos nós que votamos nestes governadores, nos deputados integrantes da “bancada da bala”.

Porque fizemos isso? Porque nós, brasileiros, somos ignorantes. Nossas escolas são uma porcaria. O investimento em educação no Brasil é ridículo, comparado com qualquer país mais ou menos. Os professores do Brasil são tão despreparados e desvalorizados quanto os policiais. E quando os professores ou alunos resolvem protestar, sempre aparece o argumento de que "é exacerbação política".

A solução passa por acabar com a PM. Ou pelo menos desmilitarizar a PM. Tanto não é nenhuma heresia que muitos policiais militares defendem isso. O Brasil precisa ser uma Sociedade civil, com uma polícia civil, e Forças Armadas para lidar com tretas externas. Se é que precisamos de Forças Armadas. Há bons argumentos em contrário e concordo com eles.
Se queremos um país decente, temos que valorizar quem cuida da nossa educação e da nossa segurança. Professores e policiais têm que merecer nosso respeito, inclusive para podermos cobrar deles a performance que precisamos. No sistema capitalista, nada diz “respeito” tão alto quanto bons salários. Enquanto isso não mudar, o sangue vai continuar correndo.

Os policiais têm uma missão importantíssima. Precisam de salários, treinamento e cobrança à altura de suas responsabilidades. Só assim vão conquistar o respeito que merecem, e serem de fato integrados à sociedade brasileira. Para isso, o Brasil precisa dissolver as polícias militares.

Polícia é um serviço como qualquer outro. Tem que se submeter às leis e à Justiça, como qualquer outro departamento público. O policial é tão funcionário público quanto um enfermeiro ou um professor. É um cidadão como você e eu. O que serve para um tem que servir pra todos - princípio básico da democracia.

Vamos mudar? A quem interessa manter professores e policiais no estado de hoje? A quem interessa manter uma força militar dedicada exclusivamente a lidar com problemas civis? Quem ganha com a manutenção do nosso povo neste estado de ignorância e terror? Não é você nem eu. Nem os policiais. E muito menos os professores e alunos. Sem falar  nas famílias dos garotos mortos no Rio, crivados de balas pela PM.

Vamos parar de usar o termo “violência da PM”. A violência é do Estado contra os cidadãos. Vamos enfrentar quem se beneficia com este estado de coisas. Vamos à raiz do problema e vamos arrancá-la. O problema é quem se beneficia com a existência da PM e o monopólio da violência - tão nossa, tão triste, tão brasileira.

 

Publicado em 30/11/2015 às 16:24

Geraldo, agora vamos falar sério sobre o fechamento das escolas

 Geraldo, agora vamos falar sério sobre o fechamento das escolas
Eu quero pedir uma coisa ao governador. Mas antes preciso explicar umas coisinhas sobre São Paulo e sobre Geraldo Alckmin. Para quem mora no estado e para quem não mora. O que acontecer agora com as escolas paulistas interessa a todos os brasileiros. Em 2018 teremos nova eleição para presidente da república. Alckmin é pré-candidato. Tem boas chances. Especialmente se seu opositor for do PT.
Geraldo Alckmin está no poder no estado de São Paulo desde 1994, e na política desde os anos 70. É do interior, Pindamonhangaba, onde foi vereador e prefeito. Foi um dos fundadores do PSDB, em 1988.
Foi vice-governador de Mário Covas duas vezes. Nesse período, foi também responsável pelo programa de privatização do Estado. Está no quarto mandato como governador.
Esteve fora do poder brevemente, quando saiu do governo para se candidatar a prefeito de São Paulo. Perdeu mas logo foi realojado como secretário de desenvolvimento do estado, no governo de José Serra.
Alckmin tem forte apoio dos grandes do estado, na indústria, agricultura, mercado financeiro, comunicação. Seu discurso é sempre pelo trabalho, pelo progresso, pela ordem. Alckmin tem muitos eleitores mas não tem fãs. Representa melhor que qualquer outro tucano o antipetismo do paulista (e principalmente do paulista do interior). É afável no trato, mas não na hora de escalar seus auxiliares, frequentemente duros na hora de lidar com interesses contrários na sociedade.
São Paulo é disparado o estado mais rico do Brasil. Tem 3% do território nacional e 22% da população do país. Somos 44 milhões de paulistas. Se fosse um país independente, seria uma das 20 maiores economias do mundo.
Vive-se melhor aqui do que em outros lugares do Brasil. Aqui tem muita riqueza, e muita, muita pobreza, e uma classe média gigante. Do plano Real até hoje, o Brasil teve vento a favor nuns 80% do tempo. A economia paulista cresceu muito nesses anos. O governo estadual fez pouco nessas décadas? Não, fez muito. Mas fez pouco, se você se guiar  pelos índices. Objetivamente, o crime só piorou, a saúde é ruim, o transporte segue terrível. Os números estão aí.
Mas não há escândalo maior do que a deficiência de São Paulo em educação. Sim, São Paulo tem uma educação público melhor que os outros estados.  Não, isso não é grande vantagem. E pelo contrário, escamoteia o que deveria ser escancarado.
Que é: pela riqueza do estado de São Paulo, nossas crianças e jovens deveriam ser bem educadas, do maternal ao doutorado. Nossas escolas deveriam ser bem equipadas. Nossos professores deveriam ser bem remunerados. Hoje não é assim. E muito pelo contrário.
Tanto que estão aí as escolas sendo fechadas, sem explicação, sem diálogo com pais, professores, alunos. E vá perguntar para os professores das universidades paulistas como vai o ensino superior...
Na frase clássica de propaganda, "Educação é dever do estado e direito de todos". Mas direito nunca é uma coisa que te dão. É exclusivamente o que você conquista e consegue defender. É o que tentam fazer, à maneira deles, os alunos que ocupam quase 200 escolas em todo o estado: defender seu direito à educação.
Estão certíssimos. Não se trata de discutir se as escolas deveriam ser fechadas ou não, se seria melhor ter escolas só com fundamental, outra só com médio etc. Se trata de deixar claro para o governador que ele não tem poder de decretar o fechamento de escolas sem discutir essa questão com a sociedade. Não pode fazer isso na base da canetada não. Ponto final e acabou o assunto.
Os paulistas e os brasileiros em geral precisam aprender que democracia não acontece a cada quatro anos, na hora do voto. Acontece todo dia. E democracia não se faz com bons modos e "sem baderna". Democracia é diálogo, é debate, é conflito. É às vezes ocupação, sim. Sem poder de pressão não há possibilidade de negociação. O governo tem poder. Agora os alunos também têm - se os apoiarmos. Irrestritamente.
Ganhar a eleição não é receber um cheque em branco da população. É conquistar um voto de confiança. E é sua responsabilidade, Geraldo (vamos conversar agora de igual para igual, pode ser?) demonstrar a cada novo dia que é digno da confiança que a maioria dos paulistas depositou em você.
Olha, sejamos pragmáticos. Você tem só 63 anos, uma longa carreira política pela frente. Suas chances em 2018 e em outras eleições serão melhores se você não tiver que explicar aos eleitores da nação porque fechou todas essas escolas em São Paulo. Então considere o meu pedido, que que é o de muitos outros paulistas, os que votaram você e os que não votaram. Pelos pais, pelos alunos, pelos professores, e pelos seus próprios interesses e currículo, Geraldo, cancela essa barbaridade de fechar escola. Demite esse secretário de educação, que já demonstrou não ter o menor jeito pra lidar democraticamente com a discordância. E vamos mudar de assunto.
Aliás, que tal falarmos da falta de água? Aqui em casa continuo com as torneiras secas, Geraldo...
alckmin 1024x512 Geraldo, agora vamos falar sério sobre o fechamento das escolas

Publicado em 19/11/2015 às 18:17

O problema do capitalismo é o Capital

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Pode ser que um dia, lá no futuro, daqui a cem anos, nossos bisnetos olhem para 2015 e fiquem estupefatos da gente ainda não ter inventado um sistema mais justo e bacana do que o capitalismo. Por enquanto isso é o melhor que nós, engenhosos primatas, conseguimos construir. E com todos os seus cruéis defeitos, o mundo de 2015 é bem menos pior do que o de cem anos atrás.
O problema são os super ricos e as estruturas que existem para servi-los. Hoje temos todas as áreas da economia global à mercê de meia dúzia de instituições financeiras. Umas 30, na verdade, concentradas principalmente em Nova York e Londres. São comandadas por gente muito inteligente, que é estimulada a buscar retornos gigantescos, via bônus igualmente gigantescos. Mandam no planeta e quem tem juízo obedece. Segue mais válida que nunca a provocação do dramaturgo Bertold Brecht: "o que é roubar um banco, comparado com fundar um?"
Zoeira à parte, a balança de poder vem se desequilibrando muito. Não foi sempre assim. Na época de Brecht o sistema financeiro tinha muito menos poder de fogo que hoje. Claro que vivemos num mundo capitalista. Claro que sem estrutura financeira robusta não há economia que se sustente. Claro que o mundo precisa de bancos.
Mas cada vez parece que valem menos trabalho, produção, iniciativa. Só o que vale de verdade é o capital. Quem tem multiplica, quem não tem que se vire. Aliás o capital de Wall Street responde por boa parte das valorizações desses gigantes instantâneos da Internet, que têm pouca relação com geração de valor genuíno.
O problema do capitalismo, para resumir em uma palavra, é o Capital. Ou, para ser mais preciso, o valor excessivo que estamos dando ao Capital.
Tanto que a economia global não pára em pé desde, pelo menos, 1997. Em vez das famosas crises cíclicas do capitalismo, agora temos uma crise permanente, que muda periodicamente de continente e não pára de dar a volta ao mundo. Esse estado de coisas está na raiz de uma parte enorme dos problemas que afligem as pessoas e países. Alguns de maneira mais dramática. Como o Brasil.
Fernando Nogueira da Costa manja do assunto. Um de seus livros é "Brasil dos Bancos".
Cita revela um número espantoso em um artigo publicado no jornal Valor Econômico. Em junho de 2015, o Brasil tinha 85 milhões de cadernetas de poupança com até R$ 5 mil aplicados. O saldo médio dessas poupanças era R$ 482. No mesmo mês, o Brasil tinha 57.505 clientes de private banking. O saldo médio dessas aplicações era uma fortuna: R$ 12 milhões. A diferença é uma loucura e faz toda a diferença. Cada cliente de private banking "vale" quase 25.000 brasileiros comuns.
O blog de Nogueira, professor da Unicamp, tem outros números embasbacantes. A renda anual mínima para se situar entre os 5% mais ricos era de R$ 57.600 em 2012, cerca de R$ 5.000 mensais. O 1% no topo da pirâmide ganhava no mínimo R$ 203.100 ao ano, uns R$ 15.000 ao mês. Já o topo do topo (0,1%) tinha renda anual mínima era de R$ 871.700 e a mensal, acima de R$ 67.000. E ainda não chegamos no 0,01%... Virando esses números de ponta cabeça, a conclusão: 95% dos brasileiros ganham menos que R$ 5000 mensais, uns 1300 dólares. É dessa turma que se quer arrancar mais impostos?
Fica explícito como o plano de austeridade que nos foi imposto em 2015 não tem como funcionar. Não é possível equilibrar as contas nacionais "forçando" o crescimento da poupança. Do artigo de Nogueira: "quando predomina na sociedade uma atitude de apertar os cintos, supostamente para aumentar a poupança, diminui o consumo, aumentam os estoques, cancelam-se demandas aos fornecedores, eleva-se a capacidade ociosa, desestimula-se novos investimentos. Então, a multiplicação de renda e emprego é reduzida... com a intenção predominante de se aumentar a poupança, ela acaba diminuindo!"
Problemão para as contas do país e para quem depende do próprio trabalho. Mas para esses 57.505 sortudos, o Brasil de 2015 é o melhor dos mundos, porque os juros sobem a cada mês. Você nem precisa se mexer e a grana aplicada rende mais dia após dia. E os bancos brasileiros também estão de boa na lagoa, tanto que em pleno 2015, com recessão pegando, seguem tendo lucros bilionários.
É uma situação imoral, ineficiente, e internacional. Tem jeito? Mas é claro. Podemos atenuar esse estado de coisas distribuindo de maneira mais equânime o valor de cada peça da engrenagem. O capital tem que valer, mas também trabalhar, produzir, empreender. Temos uma população global cada vez mais mais educada, mais consciente, mais conectada. Nos cabe impôr regulamentação eficiente a bancos e fundos de investimento. Acabar com paraísos fiscais. E criar em todo lugar leis e e regras que diminuam a desigualdade de renda e patrimônio. Temos que taxar os super ricos, e os bancos têm que lucrar menos. Não tem outro caminho. Vale para o mundo, vale para o Brasil.

Quer saber como os jovens super ricos estão tornando os EUA um país cada vez mais injusto? Leia aqui.

E leia aqui como você ajuda a financiar as fortunas dos super ricos brasileiros, que pagam menos imposto que nós...

E visite o blog do Fernando!

Publicado em 12/11/2015 às 19:34

Nesta Sexta 13, Zé do Caixão vai te arrastar para a frente da TV

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Estreia hoje a minissérie sobre o cineasta mais maldito do Brasil. Só que maldito aqui não é sinônimo de obscuro. Mojica era o contrário: super, hiper popular. Quando eu era criança Zé do Caixão era mais que um personagem. Era um nome que todo mundo conhecia, TODO MUNDO. Tipo Pelé, Roberto Carlos. Tinha um programa que passava tarde da noite. Minha mãe não me deixava assistir. Não que eu quisesse. Só as chamadas já eram de arrepiar.

Tem mais de vinte anos, ou seja, foi outro dia mesmo quando André Barcinski me ligou um e perguntou: quer conhecer o Zé do Caixão? Mas é claro. Fomos jantar umas bistecas no Sujinho com as respectivas, Mojica acompanhado por duas discípulas jovenzinhas, vestindo preto, claro, ele com as unhas compridas. Os garçons ficavam com medo, rodeavam, mantinham uma certa distância. No meio do jantar, uma das moças avisou: "Mestre, está na hora". Levantou e foi pingar colírio nos olhos de Mojica, que nos explicou: "sofro de um distúrbio ocular que causa uma dor excruciante. Somente três pessoas no mundo têm essa doença, mas os outros dois se suicidaram de desespero."

Essa foi a primeira vez. Houveram outras. Vi o livro que deu origem à minissérie, Maldito, sendo escrito na minha frente, pelo Ivan Finotti, com quem eu trabalhava na redação da revista Herói, e co-assina o livro com Barcinski. Fui jurado de uma formatura da escola de atores de Mojica. Adiantei a grana pra financiar telecinagem de um filme do Mojica para ser exibido em Sundance. Quase lançamos na editora um gibi do herói-vilão  Aliás, botei ele na capa da Herói! Ih, é história paca.

Mas nada que se compare com as histórias do xará. André Barcinski sempre teve admiração e afeto pela obra de Mojica, mesmo antes de conhecê-lo. Depois, virou uma espécie de guardião de Mojica. Ajudou o ídolo de muitas maneiras. Apresentou seus filmes para serem lançados no exterior (como Coffin Joe). Levou ele para os EUA. Criou e produziu o programa do Zé do Caixão no Canal Brasil. Chamou Mojica para ser padrinho de sua filha. E muito, muito mais. O que não quer dizer que ele não tenha também rido, e rido à beça, e nos botado todos pra rir junto, com as confusões e causos de Mojica. Busca aí "Barcinski" e "Zé do Caixão" na internet e confere.
Agora Maldito ganha uma nova edição, de luxo, completona, cheia de fotos. Com muito mais páginas, 666, como convém. Publicada pela editora Darkside, especialista em terror e fantasia, que aliás vem fazendo um trabalho excepcional. Leia que só lendo para acreditar, e é leitura que mostra um Brasil e um cinema que precisam ser conhecidos.

E agora aí está a minissérie, que tem roteiro co-assinado por Barça. Mesmo inspirada por Maldito, tem uma estrutura bem diferente, que escapa do esqueminha habitual da biografia ligue-os-pontos. Não conto porque perde a graça. E olha, mesmo que você nunca tenha visto um filme do Zé do Caixão, mesmo que você deteste horror, que não dê a mínima para a história do cinema brasileiro te digo: ligue hoje a noite no Space e assista. A performance de Matheus Nachtergaele, bem, ele encarnou o personagem... e a história de Mojica, ué, é do outro mundo.
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Publicado em 06/11/2015 às 15:36

Uma Biblioteca Pública tem direito de promover um evento cultural que discrimina um grupo social?

stranger Uma Biblioteca Pública tem direito de promover um evento cultural que discrimina um grupo social?
Defendamos a mais radical liberdade de expressão. Política pública é outra coisa. O espaço público é o espaço da democracia. Se você quer escrever um livro pró-nazista, escreva. Mas financiar seu livro com dinheiro dos nossos impostos, edital, lei de incentivo, de jeito nenhum. Patrulha ideológica é repulsivo. Patrocínio público ao preconceito, também.
Quem decide o que pode e o que não pode? A lei; a sociedade; quem fizer mais pressão. Não é tão preto no branco. As fronteiras não são tão claramente demarcadas. Isso não é necessariamente ruim. É questionando os limites que avançamos. Mas, às vezes, regredimos. Como hoje.
Imagine que uma biblioteca municipal paulistana promova um encontro literário e estabeleça a seguinte regra: não pode ter negro entre os palestrantes. Tudo certo? E se for: não pode ter mulher? É preconceito? E se for: é proibido gay nos painéis? Tudo bem pra você?
Nestes dias 8 e 9 de novembro, a Biblioteca Viriato Correia, em São Paulo, abriga um evento chamado Encontro Irradiativo. É derivado de um documento chamado Manifesto Irradiativo, definido pelos autores como "nosso grito por diversidade, visibilidade e representação. Porque pessoas de todos os gêneros, sexualidades, cores, biotipos, religiões, neurodiversidades, e camadas socioeconômicas marginais merecem espaço na literatura especulativa nacional como personagens, escritores, ilustradores, editores, e demais profissionais do mercado editorial."
Pode tudo. Quase tudo. Têm direito à palavra palestrantes de todas as cores, gêneros e sexualidades, contanto que não seja branco, e homem, e heterossexual. Isso num evento de "literatura especulativa", guarda-chuva para gêneros como ficção científica, fantasia, horror, que deveriam estar livres de amarras.
Os painéis do evento têm temas como "Porque Nerds São Preconceituosos" e o curso "Como escrever um personagem trans". O encontro mereceu artigo simpático na Carta Capital. O autor, Antonio Luiz M.C. Costa, explica: "Nem um só dos palestrantes e expositores, vale notar, será um homem branco heterossexual. Isso não significa que não sejam bem-vindos nas plateias ou como alunos. A proposta é fazer desta uma oportunidade para eles ouvirem e as minorias falarem e dar oportunidade a uma verdadeira diversidade de visões da cultura capaz de romper com o pensamento hegemônico."
Imagine esse mesmo parágrafo trocando "homem branco heterossexual" por "homem negro homossexual". Imagine um evento que dá somente a palavra aos homens, e dá às mulheres somente a chance de "ouvirem".
Sobre minorias, bem, pouco menos da metade dos brasileiros é homem. Desses, bem menos que a metade são brancos. Desses homens brancos, a maioria é oprimida economicamente pelo 0,1% que controla as riquezas da nação. Aliás são bem oprimidos economicamente os autores de ficção científica made in Brasil, gênero que nunca vendeu nada no nosso país.
Que as minorias se expressem e que briguem por tanto espaço quanto puderem. A vida brasileira, e a arte brasileira, precisam ser oxigenadas. Escrevi aqui mesmo outro dia um texto explicando porque o Brasil não ganha o Nobel de literatura. Minha explicação, só mezzo galhofa, é que o escritor brasileiro é chato - homem, branco, hetero, cinquentão, de classe média alta, escrevendo sobre seu mundinho.
Isso não quer dizer que um livro escrito por um negro, índio, lésbica, trans etc. tem automaticamente qualidade, merece ser lido, debatido etc. Se for bacana, sim, se for uma porcaria, não. Quem decide? Cada leitor. O autor é o autor. A obra é a obra.
Os organizadores desse Encontro Irradiativo têm uma postura profundamente preconceituosa. E defendo o direito deles defenderem esse absurdo autoritário. Porque liberdade de expressão é a liberdade de uma pessoa que você detesta defender uma coisa que você despreza. Mas não usando recursos públicos.
Dá vergonha ver a prefeitura de São Paulo apoiando isso. Na nossa cidade, que com razão se orgulha de sua infinita diversidade. E ainda mais numa biblioteca - espaço que, por definição, deveria ser o mais democrático, inclusivo e livre dos espaços públicos.

(Ah: a ilustração lá no alto é um detalhe da capa de Um Estranho em Uma Terra Estranha, um dos primeiros romances de ficção científica a abordar o tema da identidade sexual, e de várias maneiras precursor da revolução de costumes dos anos 60. O livro foi escrito em 1961 por Robert Anson Heinlein - homem, branco, heterossexual).

Publicado em 05/11/2015 às 17:11

Conheça os jovens super-ricos americanos – e porque os EUA vão ser um país cada vez mais injusto

rich kids Conheça os jovens super ricos americanos   e porque os EUA vão ser um país cada vez mais injusto

Cinquenta e nove trilhões de dólares. Uns 240 trilhões de reais. Consegue imaginar essa quantia? É quanto os jovens americanos vão receber de herança nessa geração.

O cálculo é do Centro de Riqueza e Filantropia do Boston College, citado em reportagem da revista Bloomberg Business Week. O tema especial da edição é "New Money", a nova geração de milionários e bilionários que estão mudando o mundo. E mudando para pior.

As reportagens são muito boas e vão da Bolívia à China. Mas a matéria mais impressionante trata de como as famílias milionárias estão investindo para garantir a fortuna de seus filhos, contratando empresas especializadas em gestão e outras em educação financeira.

Os EUA nunca foram tão desiguais. Hoje, 5% dos domicílios controlam 63% da riqueza do país. Se você vai para a elite da elite, os números são mais absurdos ainda. O caso mais escandaloso: a família Walton, herdeira do fundador do Wal-mart, é mais rica que os 40% domicílios mais pobres dos Estados Unidos. É, você leu direito.

Esse perfil lembra o das sociedades do terceiro mundo. Lembra o Brasil, onde os 50% mais pobres têm 10% da riqueza. O que aconteceu com o país mais poderoso do mundo? Décadas de estagnação industrial, achatamento do poder de compra da classe média, crise imobiliária, enfraquecimento dos sindicatos, desregulamentação do mercado financeiro. E décadas em que novas leis foram aprovadas.

Ano após ano, políticos propõem e aprovam novas leis, diminuindo os impostos pagos pelos super ricos.  Hoje, o máximo que se pode cobrar de imposto sobre herança é 35%. Mas hoje a lei permite tantos abatimentos, descontos e artimanhas que nem os maiores bilionários americanos pagam isso. Adivinhe quem financia as campanhas desses políticos?

Esses US$ 59 trilhões que a garotada vai receber de herança é garantia de que os EUA vão se tornar cada vez mais desiguais e mais injustos. E mais um problema: esse estado de coisas é péssimo para a economia americana.

Quando a riqueza aumenta na base da pirâmide social, isso se reflete instantaneamente em mais consumo de produtos e serviços, mais dinheiro girando em grandes volumes. Quando a riqueza aumenta lá no topo, o reflexo disso na economia como um todo é infinitamente menor.

A razão é óbvia. Quando os investimentos financeiros da madame rendem mais um milhãozinho de dólares, o que ela pode fazer? Comprar mais uma bolsa, mais um relógio, mais um carro? O mesmo dinheiro, distribuído para mil pessoas, tem impacto muito maior na economia.

E no Brasil, como é? Pior, claro. O teto de imposto de herança estabelecido pelo governo é 8%, mas cada estado tem liberdade de definir sua taxa. No estado de São Paulo, que tem a maior concentração de super ricos, a taxa é 4%. É muito abaixo da média mundial. Na Inglaterra é 40%. Porque você acha que o padrão de vida dos ingleses é o que é, e o nosso é o que é?

Se diz por aí que o brasileiro paga muito imposto, e é verdade. Mas isso é da classe média para baixo. Não os nossos super ricos. Nem na vida. E nem na morte.

Você pode ler a edição da Bloomberg Business Week aqui (em inglês).

E leia meu artigo anterior para entender  como o seu trabalho financia a fortuna crescente dos super ricos brasileiros.

Publicado em 22/10/2015 às 19:34

A prova de Redação no Enem é injusta, estúpida e tem que acabar

Enem 2015 A prova de Redação no Enem é injusta, estúpida e tem que acabar

A Redação sempre dá polêmica no Enem. Uns anos atrás os estudantes que foram mal na prova até exigiram revisão. O Exame Nacional do Ensino Médio de 2012 teve quatro milhões, centro e treze mil e quinhentas e cinquenta e oito redações avaliadas. Destas, cerca de 75 mil foram entregues em branco, e 72 mil foram anuladas por motivos diversos (como, por exemplo, escrever menos que as sete linhas exigidas).
Do total das redações, 76,32% foram avaliadas por dois corretores, 20,1% por três corretores, e destas, 2,43% por uma banca extra. A avaliação foi feita por 5.683 corretores, que passaram por dois treinamentos - um geral, e outro específico para ajudar na análise do tema da prova.
E mesmo assim, candidatos acionaram o ministério público federal para terem direito de vista à redação. Uma petição com mais de nove mil assinaturas coletadas pela internet bancaram a representação. E no Rio, uma estudante conseguiu da justiça o direito de ver a correção de sua redação. Houve movimentos pelas ruas, passeatas, protestos em doze capitais. Nos anos seguintes, menos protestos, mas mesmas polêmicas.
Segundo o MEC, a avaliação leva em conta os seguintes itens: compreensão da proposta, domínio da norma padrão da língua escrita, e a capacidade de selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. É evidente que a maioria dos jovens do mundo não tem a menor condição de fazer isso. Aliás, nem dos adultos. Muito menos jovens e adultos brasileiros, considerando o patamar quarto-mundista de nossa educação pública e particular.
O que o MEC exige é que ao final do terceiro ano do ensino médio nossos jovens tenham aprendido a pensar por si próprios, e defender o que pensam por escrito. É o que Michel de Montaigne batizou no século 16 de ensaio, e o próprio slogan do Enem 2015 faz referência a isso: "Um Ensaio Para a Vida". É mais que pedir demais. É bobagem, porque a maioria das faculdades e dos empregos não exige pensamento independente, nem saber escrever. Nem no Brasil e nem em lugar nenhum, mas aqui as faculdades são péssimas. O que já conheci de jovem diplomado e semi-analfabeto não é pouca coisa. Sempre foi assim e assim continua sendo; quem sabe um dia muda; não há sinais no horizonte e muito pelo contrário.
Não sei quase nada na vida, mas escrevo profissionalmente desde 1988, aprendi, e ensino grátis. Não tem segredo. É fácil escrever direito e é muito difícil escrever magnificamente. Como nossas escolas não ensinam nem um nem outro, esta exigência do MEC é um insulto. Até porque os temas não fazem parte do currículo escolar, não preocupam ninguém, e certamente jamais passaram pela cabeça de 99,99% dos brasileiros.
Em 2012 foi "a Imigração para o Brasil no Século 21". Em 2013, "Efeitos da Implantação da Lei Seca". Em 2014, "Publicidade Infantil em Questão no Brasil". Em 2015 será alguma bobagem semelhante. O governo defende que a redação aborde "questões contemporâneas". É insano. Nossa escola não é contemporânea, não desafia os alunos. Valoriza a decoreba, não a reflexão.
Uma professora de uma escola pública modelo, dessas que aparecem em propaganda no horário político, me contou: lá não tem e nunca teve papel higiênico para os alunos. A Associação de Pais e Mestres é que tem que bancar. O papel que o estado manda é só para os traseiros de professores e funcionários.
Já dinheiro para computador, há bastante. Mas a escola não precisa de mais PCs. A urgência é tirar os computadores entregues há um ano de suas caixas. Eles estão mofando. Precisa instalar, e treinar os professores para utilizá-los. Os professores também gostariam de poder escolher livros à altura de seus alunos. E não ter que encomendar algum do menu disponível, sempre pobre, sempre conservador, sempre das mesmas editoras e autores. Ah, e seria bom ter uma marmiteira, para que os alunos possam esquentar seus almoços, em vez de comer tudo frio. Outra amiga me conta de suas visitas a escolas da periferia de São Paulo, onde a porta para a quadra fica aberta toda noite, para poder rolar festa funk. E por aí vai...
Isso é em São Paulo, imagine nos cafundós do Maranhão. Bem, nosso governador vai fechar agora um monte de escolas - quem sabe isso melhora a educação no Estado...
E o Enem quer que alunos que estudaram em escolas assim saibam construir um ensaio com começo, meio e fim? É justo exigir de nossos jovens o que não demos a eles? E exigir o que a maior parte do ensino superior e do mercado de trabalho não exigem? A única resposta justa é não. Vamos acabar com a prova de redação no Enem.

Publicado em 22/10/2015 às 19:02

Minhas 10 bandas de rock favoritas

Duran Duran. E mais nove.
Vídeo novo, primeiro do novo álbum, Paper Gods.
Com São Nile Rodgers, e a cutchuqíssima Janelle Monae.
Música pra festear. Vídeo pra rever, simples como dançar.
Mensagem para nossa época: é hora de avançar para o futuro - sem pressão.

Publicado em 22/10/2015 às 18:21

O dueto perfeito

romantic disney up ellie carl O dueto perfeito
UP – Altas Aventuras foi o último grande desenho da Pixar. Os primeiros quatro minutos são de derreter o coração. Junto com a primeira parte de Wall-E, é o que se fez de melhor em animação no século 21. Enternecem e iluminam nossa frágil humanidade.
Mas os minutos de UP que contam a vida em comum de Carl e Ellie são ainda mais tocantes que as desventuras do robôzinho no lixão que virou a Terra. Porque são gente de verdade, gente como a gente é, ou como a gente conhece. Jovens que viram adultos que viram velhos, sempre juntos, sempre diferentes. Ellie, a aventureira, Carl, o certinho, e suas pequenas vitórias e doloridas derrotas. A sua vida como a vida é.
E por causa da música, o tema do amor do casal. É composição de Michael Giacchino, que também fez outras trilhas incríveis como a de Os Incríveis e Super 8, e não nega o sangue italiano. Não chorei nem quando a mãe do Bambi morreu. Mas esses minutinhos de UP me apertaram a garganta na época que vi. E hoje vi esse vídeo bobo. Feito por um pianista celebridade da internet, Jason Lyle Black. Com seus avós, que têm 80 anos, são casados a seis décadas, e toda a vida têm tocado duetos ao piano.
Aí lembrei de tantas vidas em comum que já vi. E dos maridos que já vi cuidando das suas mulheres, e das mulheres cuidando de seus maridos. Com desprendimento e dificuldade, com paciência e amor. E meu coração de novo transbordou.

E aqui estão os minutos iniciais de UP. Que você encontre um par para preencher seu Livro de Aventuras!

Publicado em 20/10/2015 às 10:11

O Brasil não precisa de caças da Suécia. Precisa é da sabedoria da Costa Rica

dilma O Brasil não precisa de caças da Suécia. Precisa é da sabedoria da Costa Rica

O Brasil é o 11º país com maiores gastos militares. Em 2015, deve chegar a R$ 31,9 bilhões. É 1,3% do PIB. A presidente do Brasil decide como gastar essa dinheirama. Dilma está na Suécia, posando para foto dentro de um caça. Em julho, o ministro da defesa da época, Jaques Wagner, comemorava “economia” na compra desses 36 aviões suecos para nossa Aeronáutica. Negociavam para abaixar os juros do negócio. O projeto total estava orçado em R$ 5 bilhões. “A presidente Dilma ficou satisfeita com a negociação bem sucedida”, disse Wagner.

Agora o novo ministro da defesa diz que a compra vai sair por R$ 4,5 bilhões. Quem é o substituto de Wagner? Não importa. É um dos ministérios que deveriam deixar de existir. Função de militar é matar, e o Brasil não tem inimigos. Não precisamos de exército, marinha ou aeronáutica. Deveriam ser abolidos. Não faria a menor diferença.

Melhor: faria grande diferença para o bem. Na América Latina, não há país mais civilizado que a Costa Rica. Por várias razões, e a principal é que a Costa Rica aboliu as forças armadas em sua constituição de 1949. Tem uma guarda civil e uma guarda rural e só.

Ninguém diga que aquele canto do mundo é tranquilo. A América Central já enfrentou de tudo. Ditadores, guerrilheiros, narcotraficantes, mafiosos, multinacionais que mandavam em países inteiros. A Costa Rica ali no olho do furacão e, em mais de seis décadas, sempre manteve seu rumoada de exército.

O que iam gastar com “defesa”, investiram onde mais importava — no ataque aos seus principais problemas. Hoje a Costa Rica tem alto índice de alfabetização, meio-ambiente superprotegido, pontua bem em todos os principais índices do bem viver planetário. Não é um país rico, nem de longe, mas em média vive-se com mais paz lá que em qualquer outro lugar da América Latina.

Desarmar o Estado ajuda a desarmar o espírito? No Brasil, ao contrário, temos armas para todo lado. O governo federal tem as Forças Armadas, os Estados têm polícias militares, cidades suas polícias civis, bandidos suas metrancas, e cidadãos particulares seu revólver no porta-luva.

Temos até nossa própria indústria bélica. Frequentemente temos a vergonha de ver tanques brasileiros usados por ditaduras diversas contra manifestantes pacíficos. Com tudo isso, e sem inimigos, o Brasil vive uma violência sem fim.

O Brasil tem longa tradição de políticos que defendem o diálogo mas praticam o monólogo. Dilma vai além. A crítica mais comum que se faz a ela é que não ouve ninguém. Quer provar o contrário, sua excelência? Começa cancelando esse negócio com a Suécia.

Quando o dinheiro está sobrando, desperdício passa batido. Agora que o cobertor está curto, há que focar no que importa e cortar o resto. Avião de caça modernex, num país sem guerra nem inimigos, é a própria definição do supérfluo. O Brasil corta investimento em escola, hospital, segurança, aposentadoria, salário-desemprego. Mas temos R$ 4,5 bilhões sobrando para importar aviões de caça, para “proteger nossas fronteiras”?

Se o Brasil abrisse mão de suas forças armadas, quem iria guardar nossas fronteiras? A pergunta é outra: que país é capaz de invadir e ocupar um lugar do tamanho do Brasil, com quase 200 milhões de habitantes? Nenhum. No século 21, as nações se digladiam por outros meios. Cérebros valem mais que balas. Inovação mais que avião.

O Brasil podia ter uma boa polícia federal, um timezinho de forças especiais bem treinadas, e um abraço. Baita economia. Mas não. Trocamos Geisel e Figueiredo por FHC e Lula e Dilma, gente que foi perseguida pelos militares, e mesmo assim mantiveram tudo igual. Nos últimos anos Dilma trocou o ministro da defesa, Nelson Jobim por Celso Amorim, e Jaques Wagner por Aldo Rebelo, e tudo continua como dantes no quartel de abrantes.

Desconfio que nós brasileiros, estamos prontos para seguir o exemplo da Costa Rica. O Brasil, infelizmente, não está. Pelo menos em uma coisa evoluímos bastante. Como diz o amigo Edson Aran: eu sou do tempo em que o militar é que demitia o presidente…

Publicado em 13/10/2015 às 19:16

Playboy é mulher pelada. Botou roupa, perdeu Playboy!

barbi 1024x682 Playboy é mulher pelada. Botou roupa, perdeu Playboy!

Barbi Benton: a primeira coelhinha, ninguém esquece

A Playboy vai deixar de publicar foto de mulher pelada. É uma estupidez. Foi o grande diferencial da revista com relação às que vieram antes e depois. Antes era a Esquire, onde Hugh Hefner, fundador da Playboy foi redator: a revista do que interessa para o homem, com sex-appeal, mas “decente”. Depois, Hustler, 100% sexo explícito, e hoje variedade infinita entre esses falsos opostos.
A fórmula da Playboy é como a da Coca-Cola, segredo. E não industrial: segredo artesanal. Seus melhores editores foram verdadeiros equilibristas. Muito humor e um tanto de seriedade. Muito bom-viver e alguma provocação. Mulher para domar e para namorar.
Claro que a Playboy era principalmente inspiração para masturbação. Mostrava nua, disponível e provocante a vizinha lindinha das fantasias dos americanos. Não era “revista de sacanagem”. Era revista para fantasiar. As moças não pareciam prostitutas. Pareciam estar a fim, e não a fim de dinheiro.
Hoje vemos mocinhas lindinhas praticando o kama sutra e muito além, perversões de A a Z, de todos os modelos e nacionalidades. Está tudo na internet, de graça. A Playboy perdeu esse bonde. Poderia ser a dona do YouPorn, RedTube, e todos esses serviços de pornografia digital instantânea. Mas não é, como nenhum dos grandes canais de televisão é dono do YouTube, e nenhuma empresa de mídia é dona do Google ou do Facebook, as empresas de mídia que mais faturam no planeta Terra. É fácil identificar as bobeadas nas empresas dos outros. As Playboy Enterprises cometeram muitas.
Tropeço imperdoável foi o reality show mostrando Hugh Hefner como um velho babão, morando com três “namoradas” falsas loiras e falsas em geral. Nos anos 60 e 70, Hefner era personagem, mas também editor de mão cheia e de sucesso. A Playboy de fato era para ser lida pelos artigos. O time de colaboradores da revista foi a fina flor do jornalismo americano. Playboy divertia e influía, combinação perfeita e quase impossível.
Hefner era símbolo de realização, não só da vida boa que os machos de sua geração e seguintes sonhavam ter. No reality show se assumiu paródia de si mesmo, modelo obsoleto, pagando por companhia de garotas com idade pra serem suas netas, um Olacyr de Moraes gringo. Tudo que o homem do século 21 não quer ser quando envelhecer.
No Brasil, Playboy foi sonho de um jovem, que convenceu o pai a editor a fazer no Brasil as três revistas americanas que mais admirava: Time, Fortune e Playboy. Era Roberto Civita, que fez, e fez muito bem, suas versões das três. Eram Veja, Exame e a própria Playboy, licenciada da edição americana, mas com identidade muito própria. A revista brasileira teve sua fase de ouro quando a americana já não tinha tanto apelo assim. Grandes entrevistas, grandes cartunistas, grandes fotógrafos, muito molho, tudo do melhor. E as mulheres mais maravilhosas e mais famosas do Brasil sonhavam em posar para a Playboy.
Comecei a ler a Playboy antes dela existir por aqui. Pingavam umas raramente por aqui nos anos 70, de pais de amigos. Minhas primeiras memórias são da cutchuquinha que ilustra este post, Barbi Benton. Lá pros 14 anos eu já era desse tamanho de hoje, e comprava de um jornaleiro amigo. Comprei intermitentemente desde então – escolhendo pela capa, como todo mundo. Fui convidado uma única vez pra colaborar; escrevi sobre o Velvet Underground em 1991.
Tive e tenho amigos na redação da Playboy brasileira. Espero que siga despindo as personagens que todo mundo quer ver peladinhas. Seja a atriz, a funkeira ou a gari gata. As taras da molecada de hoje e as da nossa juventude, porque não? Vi uma foto de Magda Cotrofe esses dias, continua batendo um bolão. Aliás, a foto era ela com a filha. Aliás, vamos mudar de assunto.
Fosse eu o ditador lá da Playboy Enterprises, seguiria o exemplo da Abril. Uma revista linda e leve, esperta sem ser metida, com carteira recheada para convencer as famosas mais desejadas do mundo a tirar a roupa.
Colocaria trinta fotos da estrela da edição na revista. E essas trinta e mais cem no site, junto com o making of do ensaio, em vídeo. E, claro, o arquivo completo dos trocentos anos da Playboy. Todos aqueles zilhões de textos e ilustrações e cartuns e piadas e mulheres incríveis. Um dólar por mês. Você não assinava? Você e eu e mais uns vinte milhões de machos. E mais um monte de moças que gostam de moças. E senhoras que liam a Playboy pelos artigos.
Mas infelizmente a Playboy americana se rendeu à chatice. Ao padrão politicamente correto de agências e anunciantes, que veta investimento em publicações que “objetificam” as mulheres. E à necessidade de compartilhar seu conteúdo nas redes sociais, Facebook etc., que são caretas e vetam nudez. A Playboy pode até sobreviver. Será mais uma. Só tem a perder.
O futuro sabe-se lá. O passado não se apaga. Todos aqueles textos e reportagens, ilustrações e piadas e ensaios, tudo vive. E o que a Playboy fez por gerações de homens não tem preço. Deu prazer e fez pensar. O que mais você pode desejar?

Publicado em 07/10/2015 às 16:18

Porque o Brasil não ganha o Prêmio Nobel de Literatura

Nobel Porque o Brasil não ganha o Prêmio Nobel de Literatura
Todo ano quando é anunciado o Nobel de literatura, duas palavras pipocam: nunca li. Quando vou me informar sobre o vencedor, outras duas se repetem com incrível frequência: nunca lerei. Os vencedores de 2013 e 2014, Alice Munro e Patrick Modiano, bem, parei em um estágio anterior, e, admito, muito comum: nunca ouvi falar.
Imperdoável? Jornalista tem esse cacoete de posar de sabichão. A gente pode nunca ter lido, assistido, ido ou vivido, mas tem que fazer de conta que sabe de tudo. Pior que nosso vício privado virou virtude das massas. Com a internet, somos todos pseudo-especialistas instantâneos em tudo, com direito a opinião sobre tudo, e acalorada e radical sempre faz mais sucesso.
O prêmio é entregue desde 1901. Li 29 dos vencedores - li alguma coisa dos 29, para ser preciso, não "a" obra. Para pegar uma amostrinha recente, no século 21 os vencedores foram:

2014 - Patrick Modiano

2013 - Alice Munro

2012 - Mo Yan

2011 - Tomas Transtromer

2010 - Mario Vargas Lllosa

2009 - Herta Muller

2008 - Jean-Marie Gustave Le Clézio

2007 - Doris Lessing

2006 - Orhan Pamuk

2005 - Harold Pinter

2004 - Elfriede Jelinek

2003 - John M. Coetzee

2002 - Imre Kertész

2001 - V.S. Naipaul

2000 - Gao Xingjian

Se sentiu ignorante? Eu sim. Devemos estar perdendo um monte de coisa boa. Mas a academia sueca também perdeu. Porque quase nenhum dos meus autores favoritos de todos os tempos ganhou o prêmio.
A maioria dos vencedores do Nobel escrevem no gênero "drama realista contemporâneo". Já leio muita não-ficção, ensaios, jornalismo. Quando leio ficção, é exclusivamente por prazer. Que também encontro neste gênero, que domina premiações e atenção da crítica. Mas encontro mais em outros cantos.
Previ dois anos atrás que pela crescente estatura internacional do país, na próxima décda o prêmio anos não nos escapa, e mantenho. Se um autor brasileiro vencerá por merecimento, ou porque simplesmente chegou a hora do Brasil levar o prêmio, é outra história.
O Nobel não premia "o melhor escritor do mundo do ano". No caso de nomes consagrados que escrevem em inglês, o habitual é premiar pelo conjunto da obra - vide Pinter, Lessing e Naipaul (os únicos deste século que li, com Vargas Llosa).
Quando a obra é em língua "exótica", o Nobel premia um tanto o autor, e muito a literatura daquela cultura, país, continente. Você não vai ver autores africanos ganharem três anos seguidos, ou asiáticos, ou latino-americanos. O que nos leva à eterna questão: e o Brasil, porque nunca ganhou, e quando vamos ganhar?
Adoraria encontrar um autor conterrâneo que abrace nossa complexidade social. Meio Naipaul e meio Philip K. Dick.  Com ginga e humor.  Nem precisa tanto: alguém que não faça feio do lado de Pinter e Vargas-Llosa. De cabeça, não me ocorre ninguém. Ninguém que dê conta do mundo além de nossas fronteiras; ninguém que dê conta de nossa realidade única, radical, improvável. Talvez sejamos melhores biógrafos, ensaistas, cronistas, piadistas e tuiteiros que romancistas e, aliás, contistas.
A melhor explicação é a mais simples: o escritor brasileiro é um chato. É homem, branco, tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, e uns 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem diploma universitário, mora em metrópole etc. etc.
Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as profissões mais comum dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80 para cá.
O assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, de 1997 a 2012, de editoras variadas. É mostra significativa.
Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de "pluralidade de perspectivas sociais". Nossos livros não incluem brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal nos nossos livros.
A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta. Não há negros nas redações, na universidade, nas posições de comando do País. O típico escritor brasileiro simplesmente não convive com negros de igual para igual. Mas há mais discriminação nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável, bandido e, principalmente, coadjuvante.
Faz sentido que 36% dos nossos escritores sejam jornalistas. Tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas.
Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu! Bem,  sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista, 50 anos, branco etc., e passo muito bem sem ler sobre mim. Nem em versão romantizada, e muito menos realista...
A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raríssimas exceções.
O problema não é o País de origem nem a profissão dos autores. É o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Poucos leitores se interessam pelos problemas dos brasileiros letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades.
E pior ainda quando o livro vira policial noir de butique, com direito a uma garota de programa e um milionário assassinado. Sai pra lá, neurótico professor de literatura! Vade retro, safo repórter de jornal popular! Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade. Hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos.
Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive. Nos Estados Unidos, é o que garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever. Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina...
Não, sacanagem. Tá cheio de professor por aí que manda muito bem nas mal-traçadas. A desgraça é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e isso vale também para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).
No Brasil literatura é segunda profissão ou hobby. Um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem: meia dúzia vai ler. E ele não vai ganhar dinheiro nenhum com isso. Pelo menos impressionar os amigos tem que poder, pô!
Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. O problema é quando a profissão do escritor não é escrever, é “ser escritor”. Cobrar cachê pela participação. Cavar verbinha do diretor de marketing. Preparar a palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros picaretas que pegam dinheiro público via Lei Rouanet para gritar contra o sistema.
Cada um se vira como pode? Escritor não tem esse direito. Sardinha na brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística. Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do humano. Dizer de maneira poderosa é divino.
Escritor que depende do poder político e econômico se assume subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Pouco ou nada. O que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. As exceções reforçam a regra. A cultura do Brasil é dominada pelo consenso que compensa.
Graham Greene cravou: "A Itália, durante trinta anos sob os Borgias, conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue. Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz - e o que produziram? O relógio de cuco."
Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulisses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, casado com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos pequenos pra criar. Na ponta oposta da respeitabilidade crítica, igual. A fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro sucesso, quando labutava como zelador e morava em um trailer, datilografando até altas horas, os nenês chorando.
Podemos e devemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.
Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa literatura é papo de crítico cretino.
A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. "Influence is Bliss", resume Michael Chabon, que faz isso melhor que a maioria.
A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Todos vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas. Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.
A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam. Mas apontam rumos. Sinalizam um norte. E sem eles, nos perdemos. A vencedora do Nobel de literatura de 2015 é jornalista e das boas, Svetlana Alexievich. Vive no mundo, não em seu mundinho. Repórter, lhe importa mais a voz dos outros que a sua. Seu tema é a dor de parto de um mundo pós Guerra Fria, uma Rússia pós soviética, num continente quietamente deflagrado. Nunca tinha ouvido falar. Li umas linhas dela hoje, pela primeira vez.
Onde estão nossas Svetlanas? Cadê os escritores de que o Brasil precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance sobre nossa miséria e nossa fortuna? A Itália do século XV é um nada de sacanagem perto do Brasil do século 21.
Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em literatura é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.

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