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Publicado em 23/06/2015 às 16:27

Quando é mais importante ler: a liberdade infinita da literatura juvenil

magic book Quando é mais importante ler: a liberdade infinita da literatura juvenil

Existem livros mágicos. Quem lê um deles vai para sempre acreditar no poder mágico dos livros, do livro. "Harry Potter e a Pedra Filosofal" é um dos mais impressionantes. A escala e a velocidade de seu sucesso sugerem alquimias secretas. O jovem bruxo não se materializou por encanto. Mas gerou um furacão inesperado. Fez do segmento "livro juvenil" o mais quente da indústria editorial. Com consequências no cinema, no merchandising, nos videogames e na TV.

Mas que é um livro juvenil? Até recentemente, a indústria do livro dividia a literatura em dois grupos principais, "adulta" e "infantil" (ou "infanto-juvenil", outro nome, mesmo significado vago). Neste último segmento, agrupava álbuns coloridos para nenês e tijolos de 700 páginas. Para fazer uma ideia: em dezembro de 2001, a revista "Publisher's Weekly", bíblia do mercado editorial, publicou a lista dos 276 livros infantis que venderam mais de 1 milhão de cópias nos EUA. O mais vendido é "Charlotte's Web", de E.B. White, criadora do ratinho Stuart Little. Em seguida, vem "Outsiders", escrito aos 18 anos por S.E. Hinton e filmado por Francis Ford Coppola. Nada a ver um com o outro.

Cabe de tudo na lista. Das Tartarugas Ninja a gente como Dr. Seuss ("O Grinch"), R.L. Stine (da coleção de terror juvenil "Goosebumps") e Roald Dahl ("A Incrível Fábrica de Chocolate"). No Brasil também se mistura banana com laranja. Vi listas de best-sellers infanto-juvenis com "1984" e "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, e "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, ao lado de Cinderela e Cebolinha.

O escritor de ficção-científica Thomas M. Disch diz que os bons autores de livros para adolescentes devem manter a clareza e a inocência de garotos sabidos como Peter Pan. Chama Neotenia. É como os biólogos batizaram a retenção de características imaturas ou larvais no estágio adulto. Para Disch, "os jovens não são seres inferiores, nem miniadultos. São apenas diferentes dos adultos". Têm outras necessidades, outros interesses, outro humor, menos respeito pelo passado, muita curiosidade sobre o futuro, pouca paciência com regras que não criaram, imaginação fértil e muita pressa.

O homem é uma espécie que conta histórias, conta o biólogo Steven Pinker. Para ele, a criança que se encanta com um conto de fadas está fazendo uso de uma herança genética da humanidade. Pinker defende que essa capacidade é uma vantagem evolutiva. Em todos os cantos do planeta, as linguagens são divididas em objetos e ações: substantivos e verbos. Elas nos permitem transmitir informações sobre o que vai acontecer depois, organizando fatos numa sequência temporal.

Não há maneira melhor de transmitir informação densa do que por meio de uma história. Por isso elas têm poder. E os livros incorporam esse poder. Cada livro lido nos muda. Passa a fazer parte da nossa história pessoal. A sequência das obras lidas por cada um é única, pessoal e intransferível. A adolescência é nosso período de liberdade máxima como leitores. Já temos repertório e ambição suficientes para encarar qualquer "lista telefônica". E não temos, ainda, as obrigações sociais que fazem de boa parte da leitura madura um tedioso desfile de manuais (como dar um jeito na economia, na carreira, escolher o vinho, diminuir a barriga etc.). É um castigo que já começa com as leituras obrigatórias para o vestibular (a maldição de "Iracema"). O problema é que se o adolescente não se apaixona pela leitura, nunca mais. É a idade em que é mais importante ler ficção.

O psicólogo Jean Piaget defendia que, nessa fase, "o ser humano está tentando dominar os elementos que lhe faltam para a razão adulta. Precisa aprender a lidar com ideias abstratas e, por isso, precisa ler livros que lidem com abstrações". Deve, portanto, ler histórias fantásticas e selvagens. Quando você não sabe exatamente do que é capaz, precisa de horizontes distantes e ideias desafiadoras. Exige viver aventuras perigosas que testem seus limites. É por essa razão que todo leitor, nessa fase, adora se apossar de livros escritos para adultos. Pode ser uma velharia desbeiçada e empoeirada da estante, herança do irmão mais velho ou do avô.

Qualquer leitor esperto de 13 anos digere numa boa um best-seller típico, que muitas vezes é um livro juvenil para adultos, disfarçado. E quem já passou dos 50 e não leu Sidney Sheldon, Danielle Steel, Irving Wallace ou Morris West no ginásio que atire a primeira pedra. A adolescência também é o momento em que alguns de nós se apaixonam perdidamente por gêneros — principalmente, o policial ou a ficção científica. Com duas vantagens. Uma, você sempre tem uma noção do que te espera. Outra, você tem a história inteira do gênero à sua disposição. Quem se apaixona por Agatha Christie vai descobrir Georges Simenon e Raymond Chandler. Quem fica louco por Isaac Asimov acaba encontrando H.G. Wells e William Gibson. Tipo da paixão que bate e fica. Nenhum desses autores buscava o leitor juvenil. Nem os grandes autores de aventura, como Robert Louis Stevenson e Jack London. Zorro, Drácula, Sherlock Holmes, Conan e o Capitão Nemo foram criados para a diversão de pais, não de filhos. Deram origem e foram parcialmente substituídos pelas histórias em quadrinhos e, mais recentemente, pelos jogos eletrônicos. Essas obras continuam clássicas e são lidas até hoje.

Os romances escritos especificamente para adolescentes são diferentes e muito fáceis de reconhecer. São estrelados por garotos e meninas da mesma faixa etária do leitor, saindo de seu cotidiano e adentrando um universo desconhecido. Enfrentam bruxas, desvendam conspirações, escondem-se em foguetes, lideram piratas. Muitas vezes, também sofrem e sangram. Alguns apresentam universos paralelos para onde o leitor adoraria se mudar, ou de onde ele fugiria voando. Os melhores apresentam as virtudes e desvantagens de cada lado do espelho, com os protagonistas simultaneamente abraçando e rejeitando os dois campos opostos. Exatamente como o adolescente, que mantém um pé na infância enquanto dá um passo maior que as pernas em direção à maturidade. O maior clássico juvenil desse tipo é "O Apanhador no Campo de Centeio", de J.D. Salinger — melhor se lido até os 15 anos e relido periodicamente depois disso.

A inglesa Joanne Kathleen Rowling, criadora de Harry Potter, escreve livros assumidamente juvenis e é o paradigma do segmento. Soube combinar muito bem duas vertentes tradicionais da literatura de seu país: os livros que se passam em internatos e a paixão pelo ocultismo. Aventuras divertidas em colégios internos rígidos são populares na Inglaterra há muito tempo. O crítico inglês Francis Spufford tem uma boa explicação para o sucesso desses livros. As escolas internas são "cidades de crianças". Não há pais por perto. São um espaço de liberdade, onde as regras —justamente por serem externas e impostas— podem ser quebradas ou enfrentadas, sem culpa. O que importa são as regras de convivência estabelecidas pelas próprias crianças: como aprendemos a conviver com nossos semelhantes e diferentes. Inclusive o garoto riquinho e metido da turma inimiga, o velho mestre misterioso, a professora insuportável e a garota tapada. É por isso que Harry e seus leitores adoram o colégio Hogwarts. Esses livros de internato fazem parte do que Spufford chama de "estágio da cidade", quando o jovem leitor passa a se interessar por livros que exploram a convivência realista entre as pessoas. Seja numa fazenda, numa ilha secreta, num vilarejo do velho oeste ou num internato. Na Inglaterra, essas obras exploram também a relação entre as classes sociais.

O ambiente escolar é a única grande diferença entre Harry e o personagem Tim Hunter, criado por Neil Gaiman, em 1990, na minissérie em quadrinhos "Os Livros da Magia". Tim é um garoto órfão, míope, tímido e moreno, de 13 anos. Um dia é levado para conhecer o universo da magia. Se cumprir seu treinamento, poderá se tornar o maior mago do universo. Ganha um mascote/totem para sua jornada: uma coruja, símbolo da sabedoria secreta. Bem parecido com Harry, que só estreou sete anos depois. Gaiman garante que Rowling não plagiou sua criação, mas se inspirou na mesma fonte que ele: a tradição mágica britânica. Há desconfianças de que que houve acordo entre os autores. Realmente as artes na Inglaterra têm ligação tradicional com o oculto. E não só em tempos antigos. A ilha deu ao mundo o mais famoso mago do Século 20, Aleister Crowley. A partir dos anos 60, presenciou a renovação do misticismo e o aparecimento de uma nova geração de criadores fortemente envolvidos com magia. Entre os mais conhecidos estão os escritores de livros e quadrinhos Alan Moore ("A Voz de Fogo" e "Do Inferno") e Grant Morrison, cuja cultuada série "Os Invisíveis" foi a matriz de "Matrix", o filme.

No Reino Unido, até as obras de respeitáveis acadêmicos cristãos, como o inglês J.R.R. Tolkien e o irlandês C.S. Lewis, têm componentes místicos muito fortes. Amigos e contemporâneos, os dois faziam parte do grupo de intelectuais conhecido como "os cristãos de Oxford", criado nessa universidade na década de 30. Colocaram todo seu fervor religioso nas obras que lhes deram fama, "O Senhor dos Anéis" e "As Crônicas de Narnia". Tolkien, estudioso da literatura saxônica, pretendia, com a "saga do anel", criar uma mitologia artificial, mas crível, e tipicamente inglesa, à altura do que imaginava que o país merecesse. Foi mais bem sucedido do que poderia imaginar. Sua influência se espalhou pela cultura mundial. Está aí "Game of Thrones".

Tolkien assumia que a Terra Média era um mundo pré-cristão, cuja história se passava antes do pecado original. Não se incomodava com os paralelos entre o pão dos Elfos e a eucaristia, ou entre Galadriel e a Virgem Maria. Só admitiu que "Gandalf é um anjo". Lewis foi além. As sete "Crônicas de Narnia" são o mais explícito proselitismo cristão, com meninos e meninas explorando um universo paralelo muito imaginativo, onde reina o leão Aslan, o Cristo dessa outra realidade. O primeiro livro, "O Leão, a Bruxa e o Guarda-Roupa", voltou às listas de mais vendidos pelo mundo afora e é muito recomendado por igrejas cristãs da Inglaterra e dos Estados Unidos. É um dos autores prediletos de J.K. Rowling.

Outra grande influência na criação de Harry Potter é Diana Wynne Jones, a grande dama da fantasia inglesa. Escrevendo para jovens desde 1973, já tem vários clássicos no currículo, inclusive os quatro volumes das "Crônicas de Chrestomanci", iniciadas em 1977 e agora popularizadas fora da Inglaterra. Seu personagem principal, o garoto Christopher Chant, é um mago que guarda os portais entre os mundos. Também anterior à "explosão Potter" foi Terry Pratchett , o autor mais vendido do Reino Unido nos anos 90, em qualquer gênero. Somente agora está ficando popular em outras línguas. A série "Discworld", iniciada por "A Cor da Magia", une fantasia alucinada com o mais idiossincrático humor inglês. Terry nos deixou em 2015.

Philip Pulmann ocupa um lugar especial. Ganhou prêmios literários importantes e tem admiradores e detratores igualmente apaixonados. A razão é que sua trilogia "Fronteiras do Universo" é herética, um libelo anti-religioso e anticristão. Inspirada no "Paraíso Perdido", de John Milton, a série relata a batalha final entre a Autoridade, as forças do controle e do ritual, que aprisionam a humanidade há milênios, e a República do Paraíso, que vem lutando pela liberdade desde que os anjos se rebelaram contra Deus. Pulmann é um paradoxo: coloca sua imaginação incomparável a serviço de um elogio do materialismo. Diz que "depois de comida, teto e companhia, não há nada que o homem deseje tanto quanto histórias".

(Escrevi esse texto para o caderno Sinapse, da Folha, em 2002, quando a literatura juvenil começou a explodir, antes de virar o segmento gigante que é hoje, antes de Crepúsculo, Jogos Vorazes, Extraordinário, John Green etc. E, porque não, 50 Tons de Cinza... Hoje são vários ramos, pra menino, menina, mais romântico, mais fantástico etc. O artigo envelheceu um pouco, cortei uns pedaços. Mas ainda há o que aproveitar. Leio de vez em quando um livro bem juvenil, por prazer - recomendo Extraordinário, Jogador Número 1, e A Livraria 24 Horas do Sr. Penumbra. E finalmente tenho um filho na idade para ler essas coisas. Lerá? Veremos. A assinatura do artigo na Folha era: "André Forastieri, 37, é editor e co-fundador da Conrad Editora, especializada no leitor jovem. Agradece a Valderez, sua mãe, por tê-lo ensinado a ler, e a João Carlos, seu pai, pela coleção completa do Sítio do Picapau Amarelo, que ganhou em 1972.")

Publicado em 19/06/2015 às 17:27

O Brasil é a próxima Grécia

1STU9869 Editar 11 1024x682 O Brasil é a próxima Grécia

Christine Lagarde e Dilma: o Brasil se rendeu à política econômica pregada pelo FMI. Se deu errado na Grécia, porque dará certo aqui?

Imagine que você tem uma dívida com um agiota. Você trabalha duro, mas não consegue pagar o principal da dívida. Afinal, há que viver e você tem uma família para sustentar. Mas todo mês paga direitinho os juros.
Aí o agiota sobe unilateralmente os juros da sua dívida. Você não consegue mais pagar os juros. Começa a vender as coisas da sua casa para cumprir seu pagamento. E no mês seguinte, o agiota sobe mais ainda os juros. Você já vendeu a os móveis, a TV, a geladeira.
E ele sobe os juros de novo. A dívida não para de aumentar. Sua família já está dormindo no chão e vivendo de pão e água. E aí o agiota sobe os juros de novo. Você tem que escolher entre comer e pagar os juros da sua dívida. Que continua aumentando. E você já sabe que mês que vem, os juros vão subir mais ainda. Sem fim.
Este é o resumo da política econômica do governo brasileiro. É extremamente eficiente para somente duas coisas: empobrecer a população e enriquecer os agiotas. Se miopia tecnocrata ou cegueira seletiva, tanto faz. Se fosse só isso era suportável. Nos resta tentar enxergar onde estamos e para onde vamos. É doloroso. Não desvie os olhos.
O analista da de crédito da agência Moody´s está vindo para o Brasil. A nota de crédito do Brasil será rebaixada pela Moody´s. Se continua a despencar, o Brasil perde o “grau de investimento”. Significa que os credores do país deixam de acreditar que pagaremos nossas dívidas em dia.
Profecia: não vai acontecer. O Brasil vai vender os móveis, a casa e a família, mas não deixará de pagar os agiotas em dia. É a ordem do dia. Esta decisão tem consequências.
Do jornal Valor Econômico: “Sem capacidade de gerar receita e com pouco espaço para aumentar impostos e mesmo cortar ainda mais os gastos, a almejada sustentabilidade do endividamento pode ser questionada. A dívida bruta, que tem mais peso na avaliação de risco pelas agências de rating, deve fechar 2015 em nível recorde de 63,4%, ante 58,9% em 2014.” E título de outra matéria do Valor: “Mesmo com demanda fraca, inflação resiste”.
As vendas de tudo estão caindo. Abril teve o pior resultado do varejo desde 2001. E mesmo assim a inflação sobe. Por quê? Duas razões fundamentais. A mudança no câmbio, que desvalorizou o real. E porque subiram muito os custos da energia elétrica, água, gás e combustível. Justamente os preços que são administrados pelo poder público.
Ou seja: o governo sobe as tarifas, para aumentar a arrecadação. A inflação sobe. Com a desculpa de segurar a inflação, o governo sobe os juros. Só que a inflação é causada pela desvalorização do real e pelo tarifaço. Não tem nada a ver com a demanda.
Pois os juros altos aumentam a dívida do governo. Paralisam a produção: férias coletivas para todo lado. Alimentam o desemprego: menos 115 mil vagas em maio, e isso só as com carteira assinada. Esvaziam as lojas. Quebram as empresas. Derrubam a arrecadação. O que leva as agências de crédito a nos punir. O que leva o governo a subir mais ainda os juros, retalhar mais as aposentadorias, reduzir mais o orçamento da saúde, educação, segurança.
O Brasil tinha uma decisão a tomar sobre nossos desafios econômicos. Vamos repetir a saída de 2008, crise global que de fato aqui não passou de uma marolinha, porque os bancos públicos irrigaram a economia com juros baixos? Que tal apostar todas nossas fichas na produção, na educação, na inovação? Ou vamos seguir a receita de “austeridade” do sistema financeiro?
Todos os candidatos à presidente em 2014 tinham a mesma proposta: “austeridade”. Tanto faz se operada por Joaquim Levy, Armínio Fraga ou quem fosse. Levy, aliás, foi aluno do professor Fraga, e por isso mesmo escolhido por Dilma. É funcionário de carreira de banco. Segue à risca a receita que levou a Grécia ao buraco: um quarto dos gregos desempregados, o resto também na roubada, e a um passo de dar um calote na sua dívida.
A política econômica do governo é a opção mais danosa socialmente e menos eficiente economicamente. É a formulinha do FMI que petistas e tucanos renegavam nos anos 80, e que nem o FMI defende mais. Hoje a base tucana cobra do PSDB apoio a Levy, mesmo vendo a economia derreter, porque “menor dos males”.
As consequências sociais deste arrocho histórico são previsíveis: custo humano brutal e crescente. As consequências políticas são imprevisíveis. O Plano Real matou a inflação em 1994. Metade dos brasileiros cresceu sem inflação nem desemprego. Não têm noção do que é isso. Milhões de jovens, analfabetos e bacharéis, levando porta na cara – barulho ensurdecedor.
Não há sinal de solução vindo do poder público. Não virá da iniciativa privada. Qualquer empresário com um pingo de juízo está na retranca. Não virá do consumo, que já temos 60 milhões de brasileiros sem crédito para comprar. Não virá dos sindicatos ou dos movimentos sociais, em frangalhos. E não virá da comunidade internacional, como em 1998, quando Fernando Henrique pediu e conseguiu arrego com Bill Clinton.
Quando não há futuro resta radicalizar. Então vêm aí medidas radicais. Não para aliviar a sua vida. Atitudes radicais para reforçar o caixa do país. Caixa que tem destino certo: as contas bancárias dos credores, internos e externos. Dificuldades extremas exigem medidas extremas. Vamos passar nosso patrimônio nos cobres. País vende tudo para pagar o agiota. Desapega, Brasil!
Teremos anos de “ajuste fiscal”, mais conhecido como arrocho. “Realismo tarifário”, vulgo tarifaço. “Austeridade”, que os poderosos de hoje, quando oposicionistas, chamavam de “carestia”. Perderemos empregos, direitos, aposentadoria, serviços, a saúde, o futuro, a vida. Nada importa mais que pagar juros.
A Grécia fez isso durante anos. O país foi destruído para honrar dívidas. Na última eleição, os gregos levaram um partido recém-fundado ao poder federal. O partido Syriza tem programa simples: defender a população grega e peitar os credores. Está apanhando como cachorro magro e ladrão. A política econômica do Brasil é a mesma que jogou a Grécia no buraco. Porque o que deu errado lá daria certo aqui?
O espantoso é a absoluta ausência de reação. Institucional, empresarial, sindical. Ou mesmo nas ruas. Todos estão fazendo o mesmo discurso, unanimemente aplaudido pela imprensa. Qualquer sinal de dissenso é abafado, tachado de “irresponsável”. A população está prostrada. Marchamos confiantes na direção do abismo.
Ver a luz no fim desse túnel é delírio. O buraco é mais embaixo e mais escuro. Temos uns 70 milhões de jovens no Brasil, dos bebês aos 20 anos. A maioria miserável e pouco educada.
Essa multidão deveria entrar no mercado de trabalho nas próximas duas décadas. Para dar conta, o país precisaria criar daqui a 2035 pelo menos 70 milhões de novos empregos. São 3,5 milhões de novos empregos por ano, durante 20 anos seguidos. A chance do Brasil atingir esse objetivo é zero. Estamos fazendo o contrário: fechando vagas.
E assim o bônus demográfico vira ônus. Setenta milhões de jovens desempregados ou em sub-empregos: é um holocausto social. É incendiário. É garantia de tumulto sem fim e violência alucinante, no país que já é campeão mundial de assassinatos.
A Grécia é pequena e uniformemente empobrecida. O Brasil é gigante injusto e a cada dia mais desigual. O que lá é horrível aqui será infernal. Apoiar nossa atual política econômica é apagar o fogo com gasolina.
O Brasil precisa sair desse círculo vicioso de endividamento e carestia crescentes. A política econômica atual vende nosso presente e envenena nosso futuro. É a cobra mordendo o rabo. Nó górdio – que exige corte seco.

Publicado em 18/06/2015 às 18:02

Felicidade é um novo desenho dos Peanuts

peanutsmoive1 1024x575 Felicidade é um novo desenho dos Peanuts

1975, numa viagem – minha mãe pergunta, do que você tanto ri? Eu às lágrimas, desse livro que estou lendo aqui do Charlie Brown.  Meu primeiro. Valderez pegou o pocket book, leu umas tiras, fez aquela cara de “não vejo do que rir, mas você é o menino e você é que tem que achar engraçado”. Mãe é isso: aceitar.

Peanuts não era clássico aqui naquela época. Mal tinha sido publicado no Brasil. Snoopy não era ícone de fofice. Nos EUA era gigante. Foi lançado em 1950. A tira saía em todos os jornais. Tinha desenhos animados na TV. Tudo com a mão do criador, Charles Schulz.

Adoro. Li a biografia de Schulz, à procura de uma pista. De onde vieram esse traço simples e expressivo, esses diálogos afiados, as situações surreais, as décadas acridoces? Sem explicação. Publicamos alguns livros de Peanuts quando eu era sócio da Editora Conrad. Vou te contar, às vezes dá orgulho da minha vida (passa rápido).

Agora é 2015. Quarenta anos depois de eu encontrar Charlie e Snoopy e Linus, Lucy, Sally, Patty, Woodstock. Crianças imperfeitas, em um mundo imperfeito, sem sinal de adulto por perto. E 65 anos depois da primeira tira. O mundo mudou tanto...

E vejo o trailer do novo desenho animado, agora que sou eu pai de um moleque, e me pergunto: as crianças que não mudam nunca, ou é o gênio de Schulz que é eterno?

Publicado em 16/06/2015 às 16:41

Uma canção de amor digna dos anos 80 – e de Brandon Flowers

Brandon Flowers 6 Uma canção de amor digna dos anos 80   e de Brandon Flowers

Não dá pra decidir se presta ou não o novo disco de Brandon Flowers, líder e cantor dos Killers. Frequentemente soa como o pior do final dos anos 80. Produção pesadíssima, muito laquê, rímel, ombreiras. Por baixo do make up exagerado, o incrível talento para melodias de sempre. E aquelas letras derramadas que quebravam o coração das menininhas uma década atrás. Antes dele casar, ter um monte de filhos e se assumir mórmon.

De  vez em quando é o contrário. Soa como o melhor das produções pesadíssimas do final dos anos 80: Trevor Horn, Stock Aiken & Waterman, os caras que faturavam firme nas FMs quando Brandon era um menino - nasceu em 1981. Brandon evolui e involui da new wave para o mais crasso comercialismo. Sério, tem música que parece do Phil Collins...

Mas veja só que beleza e esperteza essa épica canção de amor. Com sample de um hit amargo de três décadas atrás: "Smalltown Boy", do Bronski Beat, sob um garoto gay que precisa deixar o lar, atrás do amor que não encontra em casa. E participação luxuosa de outro baluarte daquele tempo: Neil Tennant, dos Pet Shop Boys.

Ouça. E leia.

Publicado em 15/06/2015 às 18:05

Acredite: um livro pode mudar sua vida. Se o livro é velho e a vida é minha, melhor ainda

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Ricardo Lombardi no selo Desculpe a Poeira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Separei esse para você”, me diz Ricardo Lombardi, e me bota nas mãos um tijolo de quase mil páginas. Justifica na hora a fama de “sommelier de livros”, que alguém lhe botou e ficou. Metidez e descaramento. Mas criar uma nova categoria de livreiro e ser o único representante dela é boa tacada. Como ensina George Lois: mesmo as melhores idéias precisam de bom marketing.

A melhor idéia foi largar a carreira de jornalista. “Desculpe a Poeira” era o nome de seu blog. Virou seu negócio. Trocou as redações pela vida de dono de um mini-sebo escondido nas ruas de Pinheiros. E saiu batendo o bumbo. Agora o sebo Desculpe a Poeira tem uma Kombi, sebo móvel. Lombardi faz “curadoria” de livros para outros estabelecimentos. Vende pela internet na Estante Virtual. E por aí vai. Gormetização dos sebos, putz. Mas é onde estamos. E francamente demorou.

Daqui a pouco Ricardo está dando palestra sobre como largar as corporações, trocar salário por sentido etc. Fiz parecido em 1993 e recomendo. Fiz o caminho contrário ano passado, da vida indie para o R7, mantendo um pé nos projetos paralelos. Esse mês a Tambor publicou biografias em mangá do Dalai Lama e Mahatma Gandhi. Eu me prometi que nunca mais ia publicar livros. Nesse caso não resisti.

Mangás dalai lama gandhi Acredite: um livro pode mudar sua vida. Se o livro é velho e a vida é minha, melhor ainda

A vida do Dalai Lama e de Mahatma Gandhi, agora em quadrinhos

Você não vai achar esses mangás na livraria mais próxima. Estão nas melhores bancas e à venda online. Agora é assim. É cada vez maior o descompasso entre nossa experiência de compra de livros na internet e nas livrarias. Quem ama livros compra há décadas na Amazon, que parece ler nossa mente. Obcecado com a expedição de Rondon e Roosevelt ao Rio da Dúvida, hem? Aqui está o livro que conta a história toda em mais detalhes ainda. E uma biografia em inglês de Rondon. E, ah!, o relato original de Teddy Roosevelt.

Na livraria “de verdade” não tem nada que interessa. Se tem, não dá para encontrar. O vendedor não faz idéia do que estamos falando. As livrarias brasileiras foram para a béstia quando fomos na cola dos americanos.

Nos anos 90 os gringos inventaram essas megastores, Borders, Barnes & Noble, com café e eventos ao vivo. Vendiam também CD, DVD, papelaria, presentinhos e bugigangas várias. Algumas eram focadas em música, e também vendiam livros: Virgin, HMV, Tower. Eram varejão, ponta de gôndola para as grandes editoras e gravadoras, que pagam caro para estar com o grande lançamento do mês bem exposto.

Fui sócio de duas editoras, Conrad e Pixel. Nem te conto o que era difícil colocar nossos livros nas livrarias. Isso inclui os que tinham grande chance de vender bem. As livrarias simplesmente não queriam fazer negócios com editoras menores. Montar uma editora no Brasil que dependa de vender livros para o leitor (e não para o governo) é garantia de frustração e prejuízo.

Donde que quem adora livros foi parando de frequentar livraria. E sebo, bem, sebo é muito legal, mas tem que saber fuçar, e ter tempo de sobra. Até você encontrar algo que te interesse são horas.

Os anos passaram. Planeta afora o modelo de megastore foi destruído pela internet. A maioria das redes implodiu. E agora as livrarias independentes estão reabrindo nos Estados Unidos. Apostam em públicos segmentados. Muitas combinam espaço físico e venda online. Aqui não, ainda. Mas os sinais de mudança estão ali, no bequinho de Lombardi em Pinheiros.

O que ele tem que que nem a Amazon e nem as grandes livrarias têm? O livrão que ele separou para mim explica tudo.

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Quase mil páginas do melhor jornalismo imaginável

Não sou leitor da revista Esquire há duas décadas. Difícil eu ler livro de reportagens. Não andei lendo nem escrevendo sobre os anos 60. Mas a sugestão do meu sommelier de livros harmoniza comigo. É “Smiling Through The Apocalypse – Esquire´s History of The Sixties”. São 984 páginas de matérias publicadas na Esquire durante a década de 60. Era a principal revista masculina da época, masculina sem mulher pelada, séria mas divertida.

E é assim o livro. Sério, porque focado nos grandes temas da América no período: Política, Vietnã, Direitos Civis, Contracultura. E divertido, mesmo quando trata de crime e guerra, porque os textos eram escritos para seduzir o leitor.

Esquire pagava bem os colaboradores. Atraía os melhores da ilustração, fotografia, reportagem, opinião. As assinaturas no meu livro formam um time dos sonhos: Gay Talese, Norman Mailer, Gore Vidal, Tom Wolfe, Terry Southern, James Baldwin e por aí vai. O livro rende uns trinta posts para esse blog. Quem sabe virão.

Ricardo Lombardi e eu não somos amigos. Nos vimos umas três vezes antes dele abrir o sebo. Ele não sabe que universitário li e reli trocentas vezes um outro catatau que encontrei na biblioteca da minha faculdade, igualmente antológico nos dois sentidos do termo: The New Journalism, editado por Gay Talese. Foi assim que aprendi que a Esquire foi o berço do New Journalism, o grande movimento de renovação da reportagem. E foi por isso comecei a comprar a Esquire assim que comecei a ganhar o suficiente para isso, já trabalhando na Folha.

E sem saber de nada disso Lombardi acertou na mira. Conhecimento de causa. E da sua causa. Ele está diretamente envolvido na seleção dos livros que coloca à venda no seu sebo. E está lá o dia todo conversando – entrevistando – o seu cliente. É o que bom jornalista faz, perguntas, e com elas chegamos às respostas.

Ricardo passou 25 anos em redações, do Estadão ao Yahoo, muitos anos como editor na Abril. A seleção dos livros para o sebo, e sugestão do livro certo para cada pessoa, é edição. Edição não tem algoritmo da Amazon que substitua. É técnica e arte, experiência e intuição. As revistas estão acabando. Nunca mais veremos nada remotamente semelhante à Esquire. A profissão segue, totalmente transformada. Nesse caso, em vez de pintar papel novo, Lombardi usa o que aprendeu para revender papel velho.

Dá uma certa inveja do camarada. Substituto por inspiração. A visita ao sebo e a leitura pinga-pinga do livrão da Esquire me inspira a compartilhar mais indicações. Raro escrever sobre o que amo. O interesse é muito limitado. Acabo publicando sempre sobre as coisas que me param na garganta. Meus textos do mal saem em jorro, vomitados. E assim continuarei. Faz bem para o fígado. Mas decidi compartilhar aqui também as boas coisas da vida. Já viajei, já rodei, já curti – quase meio século de vida.

Tenho em casa livros e discos e filmes suficientes para montar um sebo (sem exagero). Mais importante, carrego comigo um sebo, uma livraria e um museu: na cabeça, no coração. Sigo o exemplo de Ricardo. Capricharei nas indicações. E daí se interessarem para pouca gente? Se posso fazer a sua vida mais prazeirosa, caro amigo e querida leitora, será uma honra e um prazer. Ler e escrever, editar e conversar: é o que eu sei fazer. É o que eu sei.

Ricardo tá fazendo barulho com a história do sebo e a virada que deu na própria vida. Leia a entrevista dele.  http://vidaria.com.br/2014/11/06/o-sentido-da-vida-e-aprender-a-lembrar-que-hoje-pode-ser-o-ultimo-dia-diz-jornalista-que-largou-direcao-no-yahoo-para-se-dedicar-a-sebo-de-livros/

Hei, curta a página do Desculpe a Poeira no Facebook, e vá lá visitar o Ricardo. Diga que o Forasta te mandou. Rua Sebastião Velho, 28A, em Pinheiros.

https://www.facebook.com/SeboDesculpeAPoeira

Tem um filme sobre essa época da Esquire com o mesmo nome do livro! Focado no Harold Hayes, que era o editor. Vou assistir, assista também. Aqui está o trailer.

https://www.youtube.com/watch?t=57&v=spKC-bHXtrE

Lembra do George Lois  lá do primeiro parágrafo? Era o capista da Esquire. Escreveu um livrinho ótimo que recomendo para qualquer um que trabalhe com comunicação, criação, marketing.

http://www.amazon.com.br/Damn-Good-Advice-People-Talent/dp/0714863483

Compre os mangás sobre o Dalai Lama e o Gandhi. São para todas as idades. Sou suspeito para falar, mas valem a pena.

http://popster.com.br/www-popster-com-br-mangas.html

E finalmente: compre sua própria edição de Smiling Through the Apocalypse. Separei para você...

http://www.amazon.com/Smiling-through-Apocalypse-Esquires-History/dp/0841500029/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1434143991&sr=8-2&keywords=smiling+through+the+apocalypse

Publicado em 01/06/2015 às 16:44

Prefiro que meu pai não troque de sexo, pode ser?

bruce Prefiro que meu pai não troque de sexo, pode ser?

Bruce Jenner mostra sua mudança na Vanity Fair

Homem trocar de sexo depois de velho é esquisito. Se fosse rotina não era notícia. E Bruce Jenner não estava na capa deste mês da Vanity Fair, a maior revista de celebridades do mundo. Bruce, não: Caitlyn.

“Trocar de sexo” é termo impreciso: a gente nasce e morre com os mesmos cromossomos. O termo que se usa é “identificação”. Bruce nasceu e viveu 65 anos como homem, mas agora se identifica como mulher.

Bruce foi muito famoso nos Estados Unidos. Ganhou medalha de ouro no decatlo nas olimpíadas de Montreal, 1976. Minha geração cresceu vendo ele na revista Manchete, em pontas em filmes e seriados, e depois nunca mais.

Nos EUA nunca saiu da mídia. Foi ícone de macheza, garoto propaganda de mil produtos diferentes, convidado de todos os talk shows. Substituiu Erik Estrada no seriado Chips, pô! Todos os meninos queriam crescer para ser igual a Bruce. Montou empresas, ganhou dinheiro. O  sonho americano em pessoa.

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Bruce na série CHiPS

Bruce casou três vezes. Fez quatro filhos, A terceira esposa trouxe para o casamento três filhos, e o sobrenome do marido anterior: Kardashian. Em 2007 começou o reality show mostrando “os bastidores” da família. É um fenômeno de audiência até hoje. Já gerou centenas de milhões de dólares de receita, e sub-programas diversos. Kim, a mais célebre, é uma estrela de primeira grandeza – sem cantar, atuar, sem nunca ter feito nada de notável fora ser bonita e famosa.

Jovem se assumir homossexual a gente já acostumou. Ou se identificar como mulher. Ou a garota se identificar como garoto.

Ser um jovem gay vai ser tornando mais aceitável socialmente, conforme nossos filhos e sobrinhos e netos saem do armário, e aceitamos, porque o amor é mais forte que o preconceito.

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Bruce com a família em 1995

Agora, demorar um tempo para se assumir é uma coisa. Demorar a vida toda é um pouco demais. E se se quem se assume gay não é seu filho, mas seu pai? Seu coroa, que sempre foi macho pra dedéu, ou pelo menos era o que você pensava, e aliás fez você com sua mãe. De repente aquele senhor pelancudo e enrugado anuncia para o planeta que na verdade é mulher. Com roupa de mulher. Peitos de mulher, verdadeiros ou postiços. Voz de mulher. E mais chocante: papo de mulher!

Nunca é tarde demais para ser feliz, dirá um romântico. Mas o que será que dispara uma mudança tão grande, na vida de uma pessoa que já viveu tanto? Boa coisa para perguntar para um psiquiatra. Como meu pai. Rende um bom papo no nosso próximo encontro.

E aí me ocorre que prefiro meu pai como ele é. Sendo homem e se portando como homem. Imagino que ia continuar gostando dele, se começasse a usar batom e saia aos 78 anos de idade. Mas prefiro não ver meu velho de batom, saia e sutiã. É preconceito? É o que é.

Quando li pela primeira vez sobre a mudança de Bruce Jenner, pensei: é inveja do sucesso das filhas. Ele declarou várias vezes que jamais se sentiu atraído por outros homens e sempre foi heterossexual. Para completar, vota no Partido Republicano. Sempre foi, e continua sendo, cristão. E, minha opinião, é e sempre foi gay, mas gay enrustido, como tantos atletas machões.

mulheres Prefiro que meu pai não troque de sexo, pode ser?

Imagine que vida cheia de contradições. E imagine a dureza de envelhecer como coadjuvante para umas molecas arrivistas. As Kardashian são as mulheres mais famosas dos Estados Unidos, referência (pro povão multirracial, não para a elite) de beleza, chiquê, sex-appeal. Bruce perto delas decaiu para papel de parede. Ofensa imperdoável para o ego e espírito competitivo do atleta olímpico? Separou da mulher esse ano e já chama mais atenção que a família inteira junta.

A Vanity Fair jamais colocaria Bruce Jenner na capa. Caitlyn Jenner lá está, uma senhora anglo-saxã, toda repuxada de plástica e retocada de photoshop.Tem seus cinco minutos a mais de fama eternizados pela fotógrafa-estrela Annie Leibowitz. É um perfeito retrato da nossa época. No século 21, sexualidade e celebridade se confundem. Sim, cada um faz o que quer com seu corpo. Mas para Narciso, basta o próprio reflexo – sob as palmas e os holofotes.

Publicado em 13/05/2015 às 09:39

Quem pagará pelo casamento de Preta Gil? Procure saber

 Quem pagará pelo casamento de Preta Gil? Procure saber

Não existem palavras na língua portuguesa para descrever o casamento de Preta Gil. Precisaríamos da precisão zombeteira de Oscar Wilde. Da capacidade de indignação de Eduardo Galeano. Da compreensão do subdesenvolvimento de V.S. Naipaul. Do ouvido apurado e brutal de um Norman Mailer.

Sem um milésimo do talento de nenhum deles, resta focar nos fundamentos do jornalismo: siga o dinheiro.

Quem pagou pelo vestido com trocentas pérolas? A festa para 700 convidados? Os 35 seguranças, os 14 lustres com cristais baccarat, milhares de flores, whisky e champagne? O aluguel da Igreja Nossa Senhora do Carmo, a mais fina da cidade? A descrição é indescritível: “o grande movimento de carros nas ruas estreitas de Santa Teresa causou um nó no trânsito, já que os convidados param em frente à casa para entrar no evento. Alguns ônibus não conseguiram passar e passageiros desceram a rua a pé reclamando.”

Sabemos quem não pagou: o noivo, personal trainer. E sabemos o que não pagou: a carreira de Preta Gil. Tudo que ela toca vira fracasso. Grava discos que ninguém compra, faz shows que ninguém assiste, não emplaca em mídia nenhuma. É a eterna candidata a celebridade. Jamais decolou ou decolará. Pode andar 50 quilômetros por qualquer grande cidade brasileira e não será reconhecida. Resta a figuração boba-da-corte em programas de TV estrelados e dirigidos por seus amigos.

Também sabemos que o casamento não foi pago por seu reality show na internet, “Preta Vai Casar”. A média de audiência de cada vídeo foi perto de 100 mil visualizações. O valor de mil visualizações no YouTube é quase R$ 10,00. Donde que cada vídeo desses vale, no mercado de internet, uns mil reais. Não paga o bolo.

Talvez papai e mamãe, Gil e Flora, empresária do cantor? Espetáculos de desperdício como esse não são raros. Os ricos do Brasil festejam como se o mundo fosse acabar amanhã. Casamento de filha é oportunidade única para se exibir. A nova onda entre os muito ricos é promover festa de debutante para as filhas em Nova York ou Miami. Soube de um banqueiro que tem problemas com a filha adolescente, porque seu helicóptero é o mais simplezinho entre os pais de suas colegas de classe. E por aí vamos.

Mas esse não é só o casamento da filha de um homem rico, de um ex-ministro. É uma reunião de algumas das pessoas mais famosas do Brasil. Algumas muito amadas pelo povão. Outras sem fama, mas perfeitas ilustrações do que é feito o nosso país. Desconhecia o casal Amora Mautner e Arnon Collor de Mello. Ela é filha de Jorge Mautner, ele de Fernando Collor. A poesia alternativa, a tirania alagoense, é tudo a mesma coisa. A arte no Brasil sempre acaba em farsa.

Como se fala sobre reuniões de empresários, “estava lá todo o PIB”. No casamento de Preta Gil estava lá boa parte do PIB cultural brasileiro. Gente que vive “na mídia” e da mídia. No Brasil o capital que importa é a proximidade do poder - midiático, financeiro, e em última instância, estatal.

Por isso é que o Rio continua sendo nossa verdadeira capital. Brasília é um arrabalde aberto de terça a quinta. São Paulo amanhece trabalhando. O Rio é o lugar da fama e do poder. Do dinheiro público, que move as engrenagens da fama e do poder. Ninguém nas nossas artes personifica esta proximidade proveitosa do poder tão bem quanto Gilberto Gil. Conforme sua carreira decaía, se transmutou em ongueiro, político, ministro.

Neste Brasil sem água nem esgoto, homicida, burro, febril de dengue, existe um instrumento perfeitamente legal para artistas tomarem o dinheiro dos impostos e botarem nos próprios bolsos. São as leis de incentivo à cultura. Através delas, empresas deixam de pagar imposto, pegam esse dinheiro e financiam atividades culturais.

Quais empresas? As grandes, e se forem estatais, Petrobras etc., melhor ainda, que fica tudo em casa. Quais atividades culturais? Qualquer uma que o Ministério da Cultura aprovar para “captação”. Gil foi o ministro anos; seu secretário-executivo, Juca Ferreira, é o atual. Pintou uma graninha boa para o próprio Gil, assim que deixou o ministério, claro.

Sob eles, milhões e milhões de reais foram “investidos” pelas empresas amigas nos negócios dos chegados. Porque são isso, negócios, certo? Quando você embolsa dinheiro público para bancar seu show, seu DVD, sua exposição, sua turnê, está fazendo um negócio, e ótimo, porque sem risco. Se ninguém aparecer para assistir ao filme que você produziu, dane-se, você já ganhou o seu. É o que acontece com 90% dos filmes bancados via lei de incentivo. É uma excrescência e uma propina disfarçada. Compra a cumplicidade da classe artística, que a vende baratinho.

É tentador chamar o casamento de Preta Gil de Baile da Ilha Fiscal. Para os que não conhecem nossa história: foi uma festança perdulária que aconteceu numa ilhota na baía da Guanabara, promovida pelo Império, a última antes da proclamação da República. É fato que o festerê de fazer “cultura” e encher o cofre com dinheiro do contribuinte vai diminuir esse ano.

As verbas de marketing das empresas minguarão em 2015. Temos recessão, desemprego e juros altos, e há de piorar. Lá no Planalto os cofres também secaram. O plano do nosso governo para combater a recessão é aprofundá-la, promovendo um arrocho bilionário, que, triste informar, mal começou.

Então vai ter menos dinheiro nosso correndo para as contas dos convivas do banquete. Ou um pouco menos. Mas não desperdice lágrimas com os ricos e famosos. Quem tem dinheiro no banco verá ele se multiplicar em 2015 como nunca vimos no Brasil, pátria dos juros mais altos do planeta.

Quem é chegado dos poderosos sempre garante suas bocadas. Juca Ferreira está lá no Ministério para garantir que o que tiver de verba, vá para as mãos “certas”. O casamento de Preta pode durar para sempre ou acabar semana que vem, que é o que acontece frequentemente com esses enlaces espetaculosos. O descaramento é para sempre.

Não nos faltam só palavras para descrever o que foi esse casamento de Preta Gil. Nos faltam também escritores. Cadê coragem para encrespar com a filha de Gil, eterno ministro e amigo dos amigos? Nossos autores vivem de cachêzinho em seminário patrocinado pelo governo, de edital do governo, de vender livros para o governo. Não ouvirás questionamento a Gil e companhia por parte dos nossos literatos. Precisaríamos de uma versão tupi de Gore Vidal, um bem-nascido que se especializou em cuspir no próprio berço. Ou Louis Auchincloss, advogado, dinheiro velho, que passou a vida escrevendo sobre dinheiro - e como ele nunca sai das mesmas mãos.

Não temos nada parecido. Pena. Precisamos muito de alguém com o talento e a coragem para tranformar em literatura a seguinte notícia, de dezembro de 2014, semanas antes de Juca Ferreira voltar ao ministério: "o Ministério da Cultura autorizou a captação de R$ 6,5 milhões de reais para a peça Gilberto Gil, o Musical. O valor prevê seis meses de apresentação em São Paulo e seis meses no Rio."

Publicado em 11/05/2015 às 17:52

A epidemia de dengue tem uma solução muito simples. E qualquer outra é repelente

a91a5456075807abd519d2760a0eea28 A epidemia de dengue tem uma solução muito simples. E qualquer outra é repelente

Tem desgraça que a gente bota na conta do governo. Tem desgraça que não. Desemprego a gente culpa o presidente. Rua esburaqueada, o prefeito. Governador escapa mais fácil. O que exatamente é responsabilidade do governador do estado? Ninguém sabe direito.

Seca e inundação é sempre culpa lá da madrasta natureza. Falta água em casa porque está chovendo pouco. A enchente levou minha casa porque choveu demais.

Antigamente as epidemias também eram tratadas assim. Na idade média, quando batia a peste negra, era castigo dos céus. Ou vapores invisíveis, alinhamento planetário, aprontada de malévolos estrangeiros, qualquer coisa misteriosa. Menos o que era mesmo: miséria, porcaria, rato, mosquito.

Estamos em 2015. Sabemos muito bem o que causa epidemia. Felizmente a humanidade já foi capaz de exterminar várias e controlar outras. Nesses casos é porque inventamos vacina. Vacina combina com o modo de político lidar com qualquer problema. É de cima para baixo, gastando muita grana, ditando ordens e é isso aí. O governo compra anualmente milhões de doses, e ai do pai que não levar os filhos pra tomar vacina.

Não existe vacina para dengue. Coisa de país subdesenvolvido, pô. Pra quê os laboratórios vão investir em vacina pra miserável? Malária também não tem. Já calvície parece que está pertinho de aparecer o tratamento definitivo.

O Brasil é um país rico com muita pobreza. Mosquito não quer saber se você tem carro importado na garagem. Voa do Capão Redondo ao Morumbi rapidinho. Infecta miseráveis e milionários. Morrem miseráveis, milionários não.

Os especialistas não cansam de explicar que existem três maneiras de enfrentar a dengue. Primeiro, as autoridades têm que borrifar as cidades. É responsabilidade de cada prefeitura. Não cumprida, naturalmente. Detalhe importante: não adianta dar só uma borrifadinha antes do verão, porque agora faz calor no inverno, frio no verão. O clima anda muito doido (e vai ficar cada vez mais louco, com o famoso aquecimento global, igualmente responsabilidade do poder público, nesse caso em nível global).

Os ovos do mosquito Aedes Aegypti se multiplicam na água parada. E no Estado de São Paulo a gente está guardando muito mais água, porque não tem água na torneira, né? Problema também de gestão pública, neste caso estadual. E também sem previsão de solução.

Se prefeituras e governos estaduais não fizeram seu serviço em 2014, ano de relativas vacas gordas, imagine em 2015. Com orçamentos apertados e ajuste fiscal? Vai sonhando.

A questão é que mosquito não conhece fronteira, e a epidemia de dengue finalmente está se tornando nacional. E o Ministério da Saúde finalmente terá que lidar com a dengue em termos nacionais. Com ajuste fiscal ou não.
Quer proteger sua família da dengue, minha amiga? A solução que restou é comprar repelente e esfregar três vezes por dia.

Se você for dar uma caprichada, um tubinho de repelente dura uns três dias. O preço médio é R$ 15,00. Para o mês inteiro, você vai gastar R$ 150,00 em repelente. Numa casa com um casal e dois filhos, são R$ 600,00 mensais.

Considerando que nossos poderosos não fizeram a obrigação de evitar que essa epidemia começasse, agora o mínimo que têm a fazer é pagar pela burrada, e não empurrar a conta pra gente. Até porque 90% das famílias brasileiras não têm condição de desembolsar R$ 600 por mês pra fugir de mosquito, então vão pegar dengue. É mais criança e velhinho morrendo. É mais força pra dengue se alastrar.

Em outras épocas talvez se considerasse a criação da Dengue-brás. Em época de operação Lava-Jato, ficou difícil.

O que resta é a criação do Bolsa-Dengue. Mesadinha de R$ 150,00 para cada brasileiro se lambuzar de óleo anti-mosquito. São trinta bilhões de reais por mês. Qualquer outra solução é repelente.

Publicado em 30/04/2015 às 18:16

A violência no Paraná era inevitável. Vamos parar de culpar a PM. E declarar guerra a quem merece

 A violência no Paraná era inevitável. Vamos parar de culpar a PM. E declarar guerra a quem merece

A função do militar é ganhar a guerra. Para isso ele é ensinado a ver o mundo em preto e branco. O nosso lado e os inimigos.
Líderes de verdade, civis ou militares, sabem: a guerra é o inferno. Em guerra, ambos os lados vão cometer injustiças terríveis. Inocentes vão sofrer, talvez morrer. É inevitável.
Os discursos bonitos sobre guerra e paz e regras e comportamento ético são só discursos. Na prática, na guerra vale tudo. O maniqueísmo é fundamental. É preciso desumanizar o inimigo. Você jamais pode se colocar no lugar do outro. Atrapalha a mira.

Os soldados da Polícia Militar são isso: soldados. A maioria tem pouca educação, pouco treinamento, baixo salário, nenhum horizonte. São doutrinados para pensar em termos de nós e eles. Matam muito. Sem punição. Ué, porque deveriam ser punidos por matar os inimigos? Não o Brasil não está em uma guerra contra o crime?

Não. O crime, organizado ou pé-de-chinelo, é um problema civil. É um ato que vai contra a lei civil, julgado pela justiça civil, que tem que ser enfrentado com métodos civis. O que têm militares a ver com enfrentar o crime? Absolutamente nada.

E o que militares têm a ver com enfrentar manifestantes? Menos ainda. Porque um soldado é treinado para olhar um manifestante desarmado e ver o inimigo. Nem passa pela cabeça de um PM se negar a descer o sarrafo nos caras que protestam. Está lá para isso. Mesmo que discorde, obedece, porque obediência é o elemento fundamental da disciplina militar.

A grande surpresa de Curitiba foi que 17 policiais se negaram a avançar sobre os manifestantes. O governo paranaense informa que serão exonerados. Faz todo sentido. Assim é a disciplina militar.

Li uma vez em algum lugar que é a melhor medida para ver se um país é avançado é ver se ele paga bons salários tanto para os professores como para os policiais. Não sei quem disse, mas ficou. Aqui ambos ganham porcaria.

O movimento dos professores paranaenses é justamente por salários melhores. Quando vi os vídeos da polícia avançando nos professores, lembrei na hora do que li, e pensei: é um braço do povo batendo no outro.

A PM não é o bandido dessa história. A PM é um instrumento. Uma arma na mão de outros, que puxam os gatilhos. Uma coisa importante sobre guerras: quem vence escreve a História. Quem perde é julgado por seus crimes de guerra. Mas não é foi soldadinho raso lá na ponta, que ajudou a colocar inocentes na câmara de gás, que foi julgado em Nuremberg. Foram os mandantes, os nazistas graduados. Mesmo que pessoalmente nunca tenham matado ninguém.

Fazer os mandantes pagar pelos crimes dos mandados não é exatamente justiça perfeita, mas é educativo. Ensina: em guerra, quem manda matar tem tanta sangue nas mãos quanto quem executa ordem. E mais responsabilidade.

As Polícias Militares são Estaduais. O comandante máximo é o governador do Estado. No Paraná, Beto Richa. Pelas regras da guerra, seria lógico que respondesse criminalmente pelos atos da PM contra os professores em Curitiba. Centenas de feridos, alguns muito graves.
Se nesse caso Beto Richa respondesse por agressão, Geraldo Alckmin responderia por homicídio. A PM paulista está matando mais que nunca. No primeiro trimestre de 2013, a PM matou 67 pessoas. No mesmo período de 2014, 157. No primeiro trimestre de 2015, policiais militares mataram 185 pessoas. Isso são os números oficiais. E quantos PMs morreram em São Paulo no mesmo período? Quatro.

Estamos em guerra? 185 mortos de um lado, quatro do outro... Sempre a mesma história, “troca de tiros”. Um monte de casos muitíssimo mal explicados. A violência é exclusividade da Polícia Militar? Praticamente. A Polícia Civil paulista no primeiro trimestre de 2015 matou nove pessoas, um vigésimo do que a PM.

A população sente que o bicho está pegando. Quando morre um PM, a corporação revida passando a régua. Morreu um policial, o povo já está no Whatsapp decretando toque de recolher. Quem der mole na periferia à noite arrisca levar um tiro. Depois é aquele papo, “reagiu”. E com tudo isso, os índices de criminalidade continuam altíssimos.

Não é questão de Richa ou Alckmin, nem do partido esse ou aquele. É como o país é. É igual em todos os estados. Com a conivência do governo federal, da Justiça, das otoridades em geral. No máximo pune-se algum PM que exagerou e foi pego, ali no rés do chão. E lá nas alturas tudo segue como de costume.
Brasileiro sabe há 515 anos: bacana aqui sempre sai na boa. Lendo as manchetes sobre a Operação Lava-Jato, muita gente botou fé que o Brasil começa a mudar. Escrevi aqui há meses que a Lava-Jato já acabava em pizza antes de começar.

Melancólico conhecer tão bem nosso país. Ontem mesmo os STF mandou mandantes da Lava-Jato para casa. Com isso, se evitam novas delações premiadas, novas acusações, se contém o estrago, e vamos logo voltar ao esqueminha normal. Pátria educadora ensina: roube cem reais e vá em cana. Roube cem milhões e vá para sua mansão usando tornozeleira.

A Polícia Militar é criação da ditadura militar. Naquela época era proibida a crítica, a manifestação e o voto. O regime de 64 foi enterrado há vinte anos, e ainda hoje este restolho da ditadura continua por aí. Por quê? Porque nós permitimos isso. Fomos nós que votamos nestes governadores, nos deputados integrantes da “bancada da bala”.
Porque, nós, brasileiros, somos ignorantes. Nossas escolas são uma porcaria. O investimento em educação no Brasil é ridículo, comparado com qualquer país mais ou menos. Os professores do Brasil são tão despreparados e desvalorizados quanto os policiais.

A solução passa por acabar com a PM. Ou pelo menos desmilitarizar a PM. Tanto não é nenhuma heresia que muitos policiais militares defendem isso. Sociedade civil, polícia civil, e Forças Armadas para lidar com tretas externas. Se é que precisamos de Forças Armadas – outro assunto para outro dia.
Se queremos um país decente, temos que valorizar quem cuida da nossa educação e da nossa segurança. Professores e policiais têm que merecer nosso respeito, inclusive para podermos cobrar deles a performance que precisamos. No sistema capitalista, nada diz “respeito” tão alto quanto bons salários. Enquanto isso não muda, o sangue vai continuar correndo.

Vamos mudar? A quem interessa manter professores e policiais no estado de hoje? A quem interessa manter uma força militar dedicada exclusivamente a lidar com problemas civis? Quem ganha com a manutenção do nosso povo neste estado de ignorância e terror? Não é você nem eu. Nem os policiais. E muito menos os professores.

Vamos parar de usar o termo “violência da PM”. Eles pensam que estão em guerra. Foram treinados para isso, lavagem cerebral. Vamos atrás de quem se beneficia com este estado de coisas. Vamos à raiz do problema e vamos arrancá-la. Guerra por guerra, escolhamos a nossa. Declaremos guerra não aos executores, mas aos mandantes da violência - tão nossa, tão triste, tão brasileira.

Publicado em 23/04/2015 às 20:10

Chega de preconceito contra o funk. Deixa MC Melody ser funkeira e rebolar – mesmo que tenha 8 anos de idade

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Funkeiro mata. Funkeira é assassinada. Funkeiro ostenta. Funkeira mirim sensualiza. Dois pesos, duas medidas. Se fosse sambista, sertanejo, roqueiro, o discurso era outro. Funk incomoda, os outros estilos não. Funk existe é mesmo para incomodar.

Quantas vezes você já viu na TV menininhas passistas? Sempre em reportagens simpáticas, olha como a garotinha samba no pé, incrível. Discurso completamente diferente do caso de MC Melody.

Ela tem oito aninhos. É uma criança. Brinca de ser grande, de ser funkeira, de ser Anitta. Rebola como criança. Como vinte anos atrás as menininhas dançavam na boquinha da garrafa ou queriam ser Paquitas.

A grita é que o pai está expondo a menina. Médio. O pai da menina é músico, não neurocirurgião. Era pagodeiro, virou MC Belinho, que funk é onde está a grana na periferia. Fatura com a garota? Mathew Knowles botou a filhinha para cantar e dançar aos oito anos também. Produtor musical, com nove Beyoncé já estava no Destiny´s Child. Logo era um grupo de teenagers, requebrando com pouca roupa. Qual a diferença?

Abra ouvidos e olhos. As letras que Melody canta podem ser adultas, não são pornográficas. Os movimentos são padrão em funk. Ela nem tem ainda hormônios para “sensualizar”. Se você vê Melody dançando e fica excitado, quem tem problema é você, não ela...

Tem até petição online pedindo para o pai perder a guarda da criança. Onze mil pessoas já assinaram. Um advogado do conselho da criança e do adolescente diz que o cara cometeu um crime, que poderia dar até dois anos de cadeia. Genial, a menina (e a irmã) arriscam ficar sem o pai, que as sustenta, para agradar os indignados da internet...

Pai roqueiro cria filho que faz o sinal do capeta com os dedos desde bebê. Fã de Sertanejo embala o churrascão da família com Fernando & Sorocaba. Pagodeiro ensina a garotada só no sapatinho. Criança vai na dos pais, pelo menos até a adolescência. Às vezes para sempre. Mais comum: encrenca um pouco na juventude e acaba se rendendo à sua criação.

Claro que puxar pelo lado do funk rende repercussão e dá cliques. Também sou jornalista e imprensa também é isso aí. É perfeitamente válida a reportagem do camarada Helder Maldonado que levantou essa lebre. A cobertura de TV foi equilibrada. Bem menos o artigo da Deborah Bresser, também aqui no R7, que foi pra cima de MC Belinho. Discordo totalmente de Deborah, que sabe muitíssimo de moda. Pergunto pra amiga: botar essas modelos de 14 anos pra fazer dieta de fome e desfilar na São Paulo Fashion Week não é exploração dos pais também? O tema rendeu um segundo texto no Blog da DB, com comentários dos leitores, que você pode ler aqui. Tem link para o primeiro artigo.

Em qualquer vizinhança você encontra pais e mães fazendo uma série de besteira com as filhas. Inclusive botando pra fora de casa porque engravidou, até hoje. Vamos fazer o quê? Jogar todos os pais de quem discordamos na cadeia? Tem pai mundo afora que cria filha com burca e proíbe de estudar, vamos invadir o Iêmen e mandar o Bope para a Arábia Saudita?

Mau gosto não é pecado e tosqueira não é crime. Botar sua filhinha para dançar funk não é pior que botar para sambar na Maracaí. É bem fácil argumentar que o funk brasileiro hoje influencia a música pop global muito mais que o samba, mas esse é outro texto para outro dia.

Vamos lembrar que vivemos em um país campeão da prostituição infantil, que está aí na cara de todos, e sob o nariz da polícia e autoridades. País campeão em homicídios e mortes decorrentes de abortos, sempre gente nova, sempre gente pobre. Qual a trilha sonora dessa juventude? O funk. Vamos criminalizar até a diversão deles?

Nós brasileiros já temos problemas de sobra, e bem mais sérios, para ficar pegando no pé do pai da Melody. Se você não gosta de funk – música, letras, roupas, ambiente – está no seu direito. Mas preconceito não é direito de ninguém.

Publicado em 16/04/2015 às 17:23

Demolindo o Demolidor, o herói sem cérebro

daredevil costumes marvel netflix 20th Demolindo o Demolidor, o herói sem cérebro

Costelas quebradas... colapso no pulmão... sangrando... e um menino raptado. Um pai com o coração dilacerado. E uma armadilha me esperando. Não... posso... desistir. Não... posso... falhar. Não... posso temer. Tenho que ser.... o Homem Sem Medo!

Momento Frank Miller, esse finzinho do segundo episódio da nova série do Demolidor. Dentes cerrados, corpo quebrado, o mocinho se supera, salva a vítima, quebra a cara dos bandidos. Vamos na fonte: momento Mickey Spillane, grande referência de Miller na reinvenção desse super-herói Marvel na virada dos anos 70 para 80.

Mickey escreveu os livros policiais mais vendidos da infância de Miller. Seu detetive Mike Hammer é macho pra cacete. Whisky cowboy, bifão mal-passado, bala nos vagabundos e ferro nas bonecas.

O Demolidor de Miller é uma história policial que se passa em uma Nova York falida, barra-pesada. Frank era um nerd magricelo de Vermont, uma roça total. Foi morar em Nova York e chapou de tesão pela cidade grande, que conhecia mais dos gibis do Spirit que da vida real. O herói Marvel começou a conviver com prostitutas, traficantes, tiras corruptos, negões do break. Em um momento totalmente Mike Hammer, Miller botou o Demolidor pra brincar de roleta russa com seu inimigo Bullseye. Isso lá é coisa de herói?

Passou a ser. A tara de Frank pelo diálogo durão, heróis brucutus e garotas perigosas é constante em seu trabalho. Se repete em diferentes latitudes. Na distópica Gotham de O Cavaleiro das Trevas (remixado com American Flagg, uma série criada por um colega de estúdio, Howard Chaykin). Na longíqua Grécia de 300, com Leônidas falando grosso como Mike Hammer. De maneira evidente em Sin City, os gibis e os filmes, que co-dirigiu.

Depois dele pilhas de heróis passaram a ser assim, a falar e agir assim, "gritty comics", Wolverine, Justiceiro e companhia.

Outros fizeram parecido antes e depois, ninguém com tanta inteligência. Miller não esquece de entremear a desgraceira com humor, ainda que seco, dolorido, humor das galés. Aprendeu com seu ídolo Will Eisner. E se você quer ler um diálogo inspirador sobre como criar quadrinhos, leia o livro que reúne os dois, saiu no Brasil, "Eisner/Miller".

E mesmo partindo das premissas mais inverossímeis e argumentos mais estrambóticos, Miller nunca trata o leitor como idiota. Seu afeto pelo que faz salta em cada página. É, antes de mais nada, um fã de gibi, de gênero, de cultura pop de segunda. Uma vez disse que preferia os quadrinhos quando eles não eram respeitáveis. Quando eram literatura-lixo, sem direito à prestígio e nem à lista dos mais vendidos na New York Times. Gibi, não "graphic novel".

Frank Miller colage Demolindo o Demolidor, o herói sem cérebro

Li muitos elogios ao seriado pela fidelidade a Miller. Discordo com o estômago. Aceito muita coisa de entretenimento. Até burrice. Ser tratado como burro, não.

Amigo leitor: você é Matt Murdock, o Demolidor. Tá com o corpo todo estourado. Tem uma armadilha com dez caras te esperando ir resgatar um menininho sequestrado. Você é cego, mas tem superpoderes: sentidos muito aguçados, inclusive um radar que te permite ver no escuro. Vai entrar no esconderijo dos bandidos. O que você faz?

a) Invade o antro dos pilantras com a luz acesa e sai no braço com todos, correndo o risco de morrer, não salvar o moleque e tal, ou...

b) tira um fusível da caixa de luz. Entra no escuro, salva o menino. Depois, se tiver interesse, quebra a cara da malandragem toda, que não vai ter como reagir, porque não estão enxergando nada.

Drew Goddard, roteirista e "criador" da série, escolhe a primeira opção. A briga dura séculos. Bem coreografada e bem inútil. Antes do último capanga cair eu já tinha decidido não continuar vendo a série.

Eu já lia o Demolidor quando Goddard usava fraldas, edições Bloch, 1975, Wally Wood, John Romita. Leio de vez em quando até hoje, dependendo de quem escreve. Não é meu super-herói favorito, mas manjo dos paranauê, como diz meu filho.

Matt Murdock é advogado. É inteligente, é estratégico. Li zilhões de páginas em que ele usa a escuridão e seu radar para enfrentar inimigos em maior número e maior poder de fogo. Esse cara na minha TV é uma mula. Não é o Demolidor.

Falta mais que humor. Falta inteligência, e respeito à inteligência do espectador. Falta o carinho de Miller. Não é um gibi falido, impresso em papel vagabundo, feito com muita pressa e muito afeto. É big business para a Marvel e Netflix. É só um produto.

Bem, o que não é? Mas para pegar um produto similar, e bem mais caro, o último filme do Capitão América tinha QI uns cem pontos acima deste seriado.

Besta essa Nova York de mentirinha, toda sombria, pseudo-Gotham. A Manhattan de 2015 é uma Disneylândia perto de 1979. Hell's Kitchen, bairro que é cenário do gibi de Miller e da série atual, hoje foi rebatizada de Clinton. É muito civilizado, como toda a cidade pós Giuliani & Bloomberg. Tomei em Clinton o melhor Dry Martini da minha vida, em um bar cheio de engravatados, já em 2007.

Finalmente, tive vontade zero de mostrar para o meu filho de onze anos, que já assistiu coisas bem pesadas. Até porque a história de Matt é uma história bacana para criança. É um órfão, pobre e deficiente, superando as dificuldades e usando o que aprendeu para defender quem precisa de ajuda. Mas nesse clima pornô-porrada, não rola.

A primeira cena da série mostra um bando de garotas apavoradas que serão vendidas como escravas sexuais, levando choques elétricos de um pilantra. No episódio seguinte é um menino de nove anos que é raptado para ser vendido para ser escravo sexual. Hei, espera aí, é um seriado de super-herói. Precisa mesmo dessa pseudo-adultice? Lembra aquela fase em que "quadrinhos adultos" virou sinônimo de violência sexual e macheza burra.

Picuinhas? Digamos que tenho respeito estético e emocional pelo gibi e um nível mínimo de exigência e crítica. História de super-herói lá tem que ter lógica? Tem sim. Lógica interna, como qualquer gênero literário. Dadas as premissas de cada estilo, suspensa nossa descrença, todo o restante tem que fazer sentido, ou o castelo de cartas não pára em pé. Bater palma pra qualquer coisa é para fã babão.

Então chega de burrice. Tchau pro Demolidor. Prefiro arriscar ver um filme inteligente que não vi. Ou rever. Não precisa ser grande arte não. O Corvo! O Máskara! Para lembrar quando filmes de herói ousavam, porque tinham orçamentos baratos...

E prefiro ler as histórias que eu ainda não li da nova série do herói, escrita por Mark Waid. São boas, são espertas, são verdadeiras. Será uma alegria reencontrar o verdadeiro Matt Murdock. Defensor destemido, um homem sem medo - sem medo de usar o cérebro, e não só os punhos.

Publicado em 13/04/2015 às 14:59

As trilhas abertas por Eduardo Galeano – os caminhos que desbravaram, e por onde outros passarão

galeano1 708x1024 As trilhas abertas por Eduardo Galeano   os caminhos que desbravaram, e por onde outros passarão

Eduardo Galeano é ilegível e indispensável. As Veias Abertas da América Latina é um livro lacrimoso. Dói ler, porque melodramático, e porque o tema exige lágrimas. É sobre como fomos colonizados, escravizados, calados, vendidos. Por séculos. Até hoje? É.

Foi clássico da literatura de oposição dos anos 70 para 80. Li besta no colegial. Nossas elites nos torturaram com requintes de crueldade medieval. Inquisição espanhola perde.

A América Latina permanece colônia em 2015. Seguimos subalternos, cumprindo as ordens dos impérios e seus funcionários nativos. Está aí o ajuste fiscal, que só serve para render juros gordos para quem tem o que aplicar, e garantir notas boas das agências de rating, cuja credibilidade é zero. Pelo menos não é mais “América Latrina”, como dizíamos em 1980, governados como animais por cavalgaduras fardadas. Vivemos menos mal. Não é muito, mas é muita coisa.

Galeano tem sua parte de responsabilidade nisso. Inspirou muita gente a enfrentar governos autoritários. Inspirou também muitos cretinos. Era armamento garantido no arsenal autoritário do stalinismo global. Comunicação é o que gente diz e o que os outros ouvem.

Uns anos atrás Galeano fez uma meia mea-culpa. Disse que escreveria o livro de outra maneira, se fosse hoje. Que na época não tinha conhecimentos mínimos de economia para fundamentar suas teses. Mas não mudou de posição política. Continuou esquerdista a la Século 20. Apoiou acriticamente Hugo Chávez, tão preguiçoso quanto demonizá-lo. Galeano não conseguiu abandonar a visão do mundo em preto e branco, bandidos e seus inimigos, meus amigos. Poucos conseguem.

Caducou no tratamento, mantém-se atual no diagnóstico. Nossa responsabilidade é só nossa, mas nossos problemas não. Muitos, talvez os principais, têm origens fora de nossas fronteiras. Isso não é política, é economia.

Galeano deveria ser leitura obrigatória por esses idiotas que usam as liberdades da democracia para defender que elas acabem. Hm, deixemos os quadrúpedes com seus tapa-olhos. Quem sabe a garotada que foi às ruas em 2013 lê Galeano e se inspira para os anos que virão? Não no stalinismo, torçamos.

A notícia de sua morte me lembrou seu talento de frasista. Galeano mandava bem nos provérbios instantâneos. Enterro Eduardo com eles. Qualquer um fica bem na lápide de Galeano, intelectual falível, militante manco, eterno ícone da luta contra todas as ditaduras.

“Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.”

 

  • “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa.”
  • “Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos.”
  • “Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno.”

    “A direita tem razão quando se identifica com a tranquilidade e com a ordem. A ordem é a diuturna humilhação das maiorias, mas sempre é uma ordem - a tranquilidade de que a injustiça siga sendo injusta e a fome faminta.”

  • “A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será.”
  • “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
Publicado em 10/04/2015 às 19:13

Os protestos, os inimigos do Estado e os inimigos do Brasil (ou: porque eu não ajudo os pobres?)

 

IH003800 1 1024x633 Os protestos, os inimigos do Estado e os inimigos do Brasil (ou: porque eu não ajudo os pobres?)

Tem muita gente no mundo passando necessidade. Do básico mesmo: comida, água, teto, remédio. Pra nem falar em escola, hospital, lazer. Outro dia uma reportagem contava que mais da metade da humanidade não tem acesso a analgésicos. A maioria crianças. Viver num mundo assim, num país assim, é de cortar o coração.

E apesar disso a maioria de nós não se mexe um milímetro para ajudar quem precisa. Os refugiados da Síria e os famintos do Sudão estão longe. Mas aqui mesmo na nossa cidade tem gente passando necessidade brava.

A gente vê um desgraçado jogado ali e olha pro lado, pula por cima. Não pergunta do que ele precisa, como podemos ajudar. No máximo dá uns trocos se apertar muito o coração. Sabemos que tem gente sofrendo muito naquele momento, e que a gente poderia ajudar, poderia aliviar, mas não nos mexemos. Você é assim? Eu sou. Por quê?

Porque estamos ocupados vendo seriado, postando no Face, fazendo escova progressiva, assistindo a mesa-redonda, encanando com o trabalho, planejando as próximas férias, tomando cerveja, clicando nas mais lidas. Gritando no Facebook contra a injustiça!

O ser humano já nasce equipado com um chip cerebral que garante que ele é o centro do universo. Cada um vê sempre o mundo do mesmo ponto de vista: do próprio umbigo. No máximo nos importamos com nosso clã, nossa tribo. A família imediata, os amigos mais chegados, o cachorro. E só.

É uma concepção do ser humano um pouco cruel? Certamente tem gente que ajuda o pobre, o fraco, o carente. Parabéns se você é assim. Caridade é muito bonito.

Mas depender de caridade não é uma boa estratégia de sobrevivência, vamos concordar. Eu não aceito depender da iniciativa individual dos outros me ajudarem a comer, morar, viver. Como seria uma sociedade ideal? Um mundo em que a caridade deixasse de existir, porque desnecessária.

Reconhecer a natureza individualista do homem é o primeiro passo para construir sociedades menos injustas. Mas veja: a natureza do indivíduo é individualista. Já a natureza da comunidade é... comunitária.

Uma sociedade não é um monte de indivíduos, cada um se virando como dá. Isso é a descrição de uma selva, não de uma civilização. Se a humanidade quisesse morar numa selva, não teríamos criado a escrita e a roda, construído pirâmides, criado leis etc.

Indivíduos inspiram. Mas foram grupos que concluíram que os mais fracos não podem depender da caridade dos mais fortes. Foi outro dia mesmo, no século 20, e pago com suor e sangue. Sabe o que nenhum desses grupos era? Conservador. Eles não queriam conservar as coisas como sempre foram. Queriam mudar o mundo. E mudaram. Para melhor.

De batalha em batalha foram impostas socialmente regras para civilizar a guerra dos indivíduos pela sobrevivência. Leis como o salário mínimo. A licença-gravidez. A semana de 40 horas. O décimo-terceiro. A escola pública, a vacinação gratuita e por aí vai. Alguns países infelizes ainda não conquistaram muitos desses direitos. Outros garantem às suas populações muito mais que o Brasil.

Tanto nesses países avançados quanto nos nem tanto, como o Brasil, esses direitos estão sob ataque. É sempre a mesma cantilena: tem que cortar na carne, a conta não fecha, não existe almoço grátis.

Dinheiro para os fracos nunca têm. Os fortes, bem, os fortes se garantem no acesso ao dinheiro público. O que é o Petrolão? Uma conspiração em que as maiores e mais poderosas empreiteiras do Brasil se uniram para corromper funcionários da Petrobras e garantir contratos. É um escândalo privado tanto quanto um escândalo público.

Agora nosso Congresso aprovou um projeto de lei que reduz um bocado os direitos de quem trabalha. Com votos a favor da maioria dos partidos. Quem disse não? O PSOL, o PSTU, a maioria dos deputados do PT.

Você poderia imaginar que essa decisão do Congresso ia gerar protestos dos trabalhadores. Mas não. Os protestos que temos, em vez disso, são protestos contra o PT.

Algumas das vozes mais altas nos protestos não estão só gritando contra o PT. Estão clamando por menos estado. Devem estar satisfeitas com a atitude do nosso Congresso. Deveriam estar igualmente satisfeitas com o governo Dilma, que promove um corte mega-bilionário no orçamento do país.

Existem muitas razões para bater panela contra o governo. Democracia é conflito, e que bom que seja assim. Quem quer tranquilidade que mude para uma ditadura, onde reina a calmaria dos cemitérios.

Mas defender a redução do Estado e das leis que nos protegem é outra coisa. Não é nem individualismo. É egoísmo mesmo.

É fácil dizer “não precisamos do Estado” quando você é jovem, saudável, estudou, tem poupança e onde cair morto. É fácil defender corte nas aposentadorias dos velhinhos quando os seus pais têm plano de previdência privada. É fácil defender privatização da educação quando sua família financiou sua escola desde o jardim da infância.

Quando você é um duro, quando não teve chance de estudar, quando você é mãe solteira, quando você é deficiente, quando você é idoso e doente, ter um mínimo de direitos assegurados pela lei e garantidos pelo Estado é tudo. Aliás, a menininha da foto lá no alto trabalha em um lixão, em Natal, Rio Grande do Norte. Você acha que ela precisa de menos ajuda do governo ou mais?

A ironia é que quem grita mais alto contra o governo é quem tem algum ou muito dinheiro para investir. E onde o brasileiro bem-de vida investe? Ora, o melhor negócio do país é investir em títulos públicos. Tanto que está cheio de fundo de investimento gringo trazendo seus dólares para multiplicar aqui. Nossos ricos estão financiando justamente o governo que dizem que querem derrubar... porque é a aplicação que rende mais, pô!

O Brasil não precisa de menos direitos. Nem de menos Estado. Precisa de mais direitos. E precisa de mais Estado. Para a maior parte dos brasileiros o Estado não garante o mínimo do mínimo. Caramba, metade das casas do país não tem esgoto! Como alguém pode dizer que o Brasil precisa de menos Estado?

A missão número um da sociedade brasileira é forçar o Estado a priorizar o que é prioridade. Que é o bem estar os brasileiros. Começando pela proteção dos que precisam mais de proteção.

Isso não é caridade. Caridade faz bem para o coração e para aquela pessoa na sua frente, mas é só. Estender a proteção do Estado para todos os brasileiros é reconhecer a natureza humana. Reconhecer que somos individualistas. E também que as soluções individuais têm limitações.

Alguns objetivos o ser humano só é capaz de conquistar, e de defender, coletivamente. E a maneira mais poderosa de interferir no destino de um país é através do poder público, dos recursos públicos, da vontade pública. O “Brasil” não é um pedaço de terra. É a comunidade formada por todos os brasileiros. Todos. Sim, inclusive aqueles malas com quem você não concorda. E principalmente os mais fracos. Não temos direito de excluir ninguém. A exclusão nos enfraquece.

A construção de um país justo passa pelo Estado. Não há atalhos. Você pode perfeitamente ser inimigo desse governo. Mas se é inimigo do Estado, é inimigo do Brasil

Publicado em 02/04/2015 às 07:00

Com a redução da maioridade penal, a violência não vai diminuir – vai aumentar

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Desperdício de tempo discutir se a redução da maioridade penal é certa ou errada. Certo e Errado é subjetivo. Lei tem que ser construída sob solo mais sólido. O que funciona e o que não? E se funcionou em outro lugar, vai funcionar aqui?

Vamos falar da experiência internacional. E vamos falar de dinheiro.

A maioridade penal foi importante em algum país para diminuir a criminalidade? A resposta é não. Na lista dos 53 países mais seguros do mundo, a maioridade é de 18 anos em 42 deles. O único país rico que pune como adulto os jovens é os Estados Unidos. Justamente o país rico com os maiores índices de criminalidade.

Países diferentes fizeram experiências diferentes para diminuir o crime. Algumas deram certo. Outra não. Punir adolescentes como adultos não funcionou. A razão é simples. Criminoso nunca acha que vai ser pego. Adolescente menos ainda. Têm certeza que podem aprontar impunemente. Os hormônios em erupção garantem a eles: somos invencíveis, invisíveis e imortais. Se ameaça de punição evitasse o crime, nossas cadeias não estariam cheias. Nem as dos americanos.

No tráfego, basta os chefes que hoje usam a molecada de 16 anos como olheiro e avião passar a usar meninos de 11 ou 12. Molequinho pobre precisando descolar algum não falta...

Tem um argumento mais poderoso ainda. De uma pessoa que tem experiência lidando com menor infrator. Garante que a violência vai aumentar, não diminuir. E custar rios de dinheiro, dinheiro nosso, do contribuinte. Em um ano que o governo corta investimentos na segurança, na saúde, na educação.

Ana Luísa e eu somos amigos de longe faz tempo. Só nos falamos pela internet. Somos fãs de algumas coisas em comum, rock, rock velho.
Ana trabalha no Ministério Público de São Paulo. Tem muita experiência com jovens criminosos. Leniência zero. Sabe que não dá para brincar com bandido, tenha 15 ou 50 anos.

Escreveu e publicou no Facebook um texto muito impressionante sobre o tema. Só uma pessoa que está na linha de frente para ter uma visão tão clara sobre o tema. Pedi sua autorização para republicar aqui. Por favor: leia o depoimento de Ana Luísa antes de decidir sua opinião sobre a redução da maioridade penal.

“Com a redução da maioridade penal, vamos precisar de uma nova estrutura, que vai demandar:
- número maior de policiais
- de escreventes judiciais
- de juízes
- criação de novas Varas Criminais e Varas cumulativas (nas Comarcas em que Varas não especializadas cumulam processos criminais e cíveis)
- ampliação do espaço físico de delegacias, tanto para acomodar inquéritos como maior carceragem
- ampliação do espaço físico em fóruns (a digitalização das Varas anda a passos de tartaruga; o papel ainda é o suporte físico dos autos em grande parte do país)
- criação e ampliação de presídios
- contratação de carcereiros, faxineiros, serviços de manutenção, de fornecimento de alimentação, etc.

Traduzindo: GASTO DE MUITO DINHEIRO. Dinheiro que o país não tem, né. Alguém acredita que Dilma e Alckmin vão liberar verba para construir penitenciária? O que fazer então para acomodar a crescente população carcerária? Enfiar adolescentes em espaço no qual já quase não cabem presos? Não.

E dá-lhe indulto pra soltar então os presos mais antigos (muitas vezes bandidos já graduados e imunes à ressocialização) para colocar no lugar adolescentes.

Que talvez pudessem ser ressocializados se permanecessem longe da convivência maléfica com bandidos experientes.

E se você foi vítima de um crime e aguarda ansioso que o processo criminal seja logo julgado, com a condenação da pessoa que lhe fez mal, pode esperar sentado. Com as Varas estouradas, fique satisfeito se, em dois, três anos, com otimismo, for protelada a sentença de primeiro grau (o que não significa punição e fim do processo. Pode haver recurso). Será sorte.

Porque um número assombroso de crimes vai prescrever por decurso do prazo legal dentro do qual é permitido o julgamento. Em uma palavra: impunidade.

A criminalidade vai aumentar, não diminuir. Gente mais perigosa solta; gente menos perigosa presa".

Publicado em 27/03/2015 às 13:27

Nossos escritores em Paris, nossas contas na Suíça: nada a dizer, tudo a perder

rodrigo circ3adaco arquivo pessoal Nossos escritores em Paris, nossas contas na Suíça: nada a dizer, tudo a perder

Rodrigo Ciríaco

Eddie foi abandonado pequeno pelo pai. A mãe morreu de pobre, tuberculosa. Ele tinha cinco anos e ela, 24. Adotado, ganha uma fresta de oportunidade. O pouco tempo de escola lhe garante uma educação.

Então perde a madrasta, o prumo, o apoio de quem chama pai. O futuro lhe escapa. Segue sem patrono nem patrão. Falta dinheiro para comer. Tem um único casaco para enfrentar o frio.

A necessidade leva Eddie à escrita. Escreve de tudo. Artigos, resenhas, curiosidades, poemas, contos. Qualquer coisa para arrancar algum de editores muquiranas. Escreve para vender. Histórias sórdidas de sangue, de assassinos, dementes, belas à beira da morte, monstros à espreita.

Um presente inesperado: o amor incondicional de uma mulher. Mas Eddie nasceu com o signo dos malditos. Deturpa toda amizade, desperdiça toda chance. Só não trai o amigo mais perigoso: o álcool. A bandalheira leva sua carreira, a tuberculose leva sua esposa.

Aos quarenta anos some por seis dias. É encontrado estuporado de bêbado, numa taverna imunda de uma cidade distante da sua. Termina sua vida infeliz no dia seguinte, em um hospital de Baltimore, sete de outubro de 1849.

A história de Edgar Allan Poe – poeta do surreal, precursor do Simbolismo, inventor do conto policial, pioneiro da ficção-científica, maior clássico da literatura americana, tesouro da juventude e velhice - é tão terrível quanto banal. As biografias de grandes e pequenos artistas estão repletas de desesperadas necessidades existenciais e materiais. Vidas que queimam, lenha na fogueira da criação.

É preciso mesmo sofrer para criar? Nascesse Poe herdeiro, com conforto e tempo livre para escrever, teria produzido mais ou melhor? Em 2015: salário, seguro-saúde e plano de previdência privada é boa base para boa arte? Se sim, porque não pagamos salários para os criadores criar?

Escritor profissional é invenção tão americana quanto Poe. "Working writer", no preciso termo ianque, "operário da escrita". Escreve para vender, porque é o que lhe sustenta. Romance, conto, artigo, ensaio, biografia, orelha de livro.

O outro tipo de escritor também trabalha, mas em outra coisa. Diplomata como Guimarães Rosa. Bancário como T.S. Elliot. Médico como Moacyr Scliar. Funcionário público como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade. J.D. Salinger invadiu a Normandia carregando o rascunho de “O Apanhador no Campo de Centeio”. E Charles Dickens aos 12 anos labutava numa fábrica de sapatos, para ajudar a pagar dívidas contraídas pelo pai.

Tantas vezes abandonar o emprego e viver de escrever era um sonho - o único sonho. É noite na periferia: espie pela janela da casinha. Ouve o barulho da máquina de escrever? É o zelador do colégio aqui perto. Mora com a mulher e dois filhos pequenos. Escovão de dia, máquina de escrever madrugada adentro. Poe como inspiração e as crianças ali chorando, depois ressonando, e enfim acordando, e ele que se apronta para mais um dia limpando privadas: Stephen King.

Dá um livro as histórias tristes sobre escritores. Os que tinham que trabalhar em outras coisas. E os que tinham que escrever qualquer coisa, porque era seu trabalho.

Mal terminava eu a sofrida biografia de Poe escrita por Peter Ackroyd, coração em frangalhos, vai pros infernos com tanta desgraça, e pinga na caixa de e-mails a manchete enviada por um amigo:

“Autores Brasileiros Se Queixam da falta de cachê em Salão do Livro de Paris”. O Brasil é o país homenageado no Salão de Paris este ano. Uma comitiva de escritores nacionais foi para lá, com tudo pago.

Luiz Ruffato disse que se sente "como um imbecil que vai trabalhar de graça","é um escárnio com o papel do intelectual do Brasil". Mas vir a um evento desse porte, com tudo pago, não compensa? Paulo Lins responde: "meus livros não vão vender muito mais pelo fato de eu ter vindo. As críticas que saírem aqui podem ajudar, mas isso não é o suficiente."

A declaração definitiva é de Rodrigo Ciríaco, ator de "Te Pego Lá Fora": "não se deveria nem falar em cachê, mas em salário. É uma atividade profissional, um exercício físico e intelectual. E não é um trabalho para mim. Estou trazendo a literatura da periferia de São Paulo, dos saraus, estou falando de uma cena."

Rodrigo nasceu e cresceu na periferia. Conseguiu se formar em História na USP. É professor da rede municipal em São Paulo. É pedir muito pingar uma grana para Rodrigo? Não é isso que vai quebrar o Tesouro Nacional. Qual o problema de pagar um cachêzinho?

O problema de desembolsar dinheiro público para escritor frequentar evento literário é exatamente o mesmo de atores famosos terem contas na Suíça. Esses dias saiu uma listinha de famosos que protegem seus dólares em bancos no exterior, enquanto bancam seus negócios no Brasil usando dinheiro público, via lei de incentivo. Tudo dentro da lei. Tudo errado.

É passar recibo de coadjuvante um escritor almejar salário público. Cobrar cachê pela participação. Cavar verbinha do diretor de marketing. Preparar a palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros que pegam dinheiro do governo para gritar contra o sistema.

Cada um se vira como pode. Escritor não tem esse direito. Nossos pobres escritores em Paris e nossos ricos artistas com contas na Suíça são a mesma face da mesma moeda.

Mas ator diz o que outros escreveram. Sardinha na brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística.

Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do humano. Dizer de maneira poderosa é divino.

Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam. Mas apontam rumos. Sinalizam o norte. E sem eles, nos perdemos.

Onde estão os escritores que o Brasil precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance sobre nossa miséria e nossa fortuna?

Depender do poder político e econômico é se assumir subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Nada. O que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. E as exceções reforçam a regra.

Literatura é dissenso, discórdia, danação. Graham Greene cravou: "A Itália, durante trinta anos sob os Borgias, conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue. Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz - e o que produziram? O relógio de cuco."

E as contas na Suíça, claro.

Publicado em 25/03/2015 às 19:45

Jean Wilys quer legalizar o aborto. Talvez ele não saiba a única diferença entre a vida sexual das mulheres ricas e das pobres

jean wyllys no poder e politica 1329848240282 1920x1080 1024x576 Jean Wilys quer legalizar o aborto. Talvez ele não saiba a única diferença entre a vida sexual das mulheres ricas e das pobres

“Não tem televisão naquela casa.” Era a piada que se fazia antigamente quando o casal tinha um filho atrás do outro. Falta de TV para distrair no sábado à noite, o casal ia lá e pimba – lá vem mais um bebê.

Hoje toda casa tem TV. E a fertilidade vem caindo. Mas no mundo todo as mulheres pobres continuam tendo muito mais filho que as mulheres ricas. Por quê?

No Brasil, não sabemos. Nos Estados Unidos, agora eles sabem. Uma pesquisa do Brookings Institute acompanhou durante um bom tempo 3.885 mulheres que não tinham plano de engravidar. Conclusão: mulheres pobres têm cinco vezes mais chance do que as ricas de ter um filho sem ter planejado.

O que isso tem a ver com a vida sexual de umas e outras? Essa é uma boa surpresa da pesquisa: nada. As classes abastadas e as apertadas se comportam da mesma maneira na cama. Ricaças e remediadas transam mais ou menos o mesmo número de vezes por mês.

Número de parceiros diferentes também não tem a ver com a conta bancária. E a mulher americana média tem uma vida sexual ativa por dez anos antes de se casar. Também nisso classes A e E se assemelham.

O que varia loucamente entre ricas e pobres? Adivinha: dinheiro. É a capacidade financeira de evitar a gravidez. Por exemplo: a taxa de gravidez entre as mulheres que usam DIU é 0,08%. Camisinha é 12%. Camisinha é barato. DIU custa mil dólares para mais nos EUA.

Uma conclusão cruel do instituto Brookings: a desigualdade começa antes do nascimento. Se sua mãe é rica e você é filho único, terá muito mais oportunidades na vida do que se fôr um de quatro irmãos de uma mãe pobre.

Por isso este é um problema que vai além da vida particular de cada um, das escolhas de cada indivíduo. Tem um impacto social brutal. Econômico também, para o país como um todo. Se de um lado falta dinheiro para as mulheres pobres evitarem a gravidez, custa bastante para o governo lidar com tanta criança indesejada. São 21 bilhões de dólares anuais do contribuinte americano gastos com isso.

Os números da pesquisa gritam. Quantas mulheres pobres tiveram uma gravidez no último ano? Nove por cento. Ricas? Três por cento. E quantas crianças nasceram? As mulheres ricas fizeram mais abortos: 32% abortaram propositalmente no último ano, contra só 9% entre as mais pobres. O aborto nos EUA é lei. Mas a aplicação desta lei e a disponibilidade do procedimento depende de legislação local. E o custo também varia, claro.

E no Brasil? A diferença entre mulheres ricas e pobres deve ser infinitamente maior, considerando que o aborto aqui é criminalizado. Outro dia mesmo um médico denunciou à polícia uma moça que tinha feito um aborto. No Brasil quem tem dinheiro faz aborto com todo conforto e segurança, com ótimos médicos em clínicas confortáveis. Quem depende do SUS que corra da polícia.

É essa diferença entre classes que o novo projeto de lei do deputado Jean Wyllys pretende enfrentar. O PL 882/15 prevê a legalização do aborto até 12 semanas de gravidez, se a mulher assim o quiser.

O projeto será muito debatido. É bom que seja mesmo. Mas vamos desde já desqualificar as críticas cretinas. Ainda é muito comum comentários do tipo "essa mulherada fica tendo um filho atrás do outro pra ganhar Bolsa-Família." É preconceito de classe e é estupidez, nos EUA e no Brasil.

Talvez o deputado do PSOL não saiba desta pesquisa, que demonstra que a vida sexual das americanas e pobres é igual. Te empresto o argumento, Jean. Como o Brasil adora se espelhar nos Estados Unidos, pode ser um cala-boca nos críticos mais truculentos.

Conheço (e discordo) de gente ótima que é contra a legalização do aborto no Brasil. Mas aqui nem discuto o aborto em si. O problema é maior e começa bem antes. Com a diferença de tratamento entre classes, nos EUA, aqui, em qualquer lugar. É uma praga a ser combatida em todas as frentes.

Passou a hora de mudar a lei e corrigir essa injustiça. A mulher que engravida sem planejar e decide ter a criança, que tenha. E quem decidir pelo aborto, que possa fazer isso com segurança, sem risco para sua saúde. Sendo rica ou pobre.

Publicado em 19/03/2015 às 13:21

Maria de Nazaré, forte candidata a ministra da educação

Maria de Nazaré 338x600 Maria de Nazaré, forte candidata a ministra da educação

Ministra da Educação deve ser escolhida por eleição direta

Todo mundo está discordando sobre tudo nesse país. Só com uma coisa cem por cento dos brasileiros concordam. A solução para o Brasil é a Educação. De qualidade, para todos. A gente é muito burrinho. Ser uma das dez maiores economias do mundo, com uma educação tão ruim, é receita de desastre.

Exagerei. Os estudantes brasileiros estão em trigésimo-oitavo lugar, entre quarenta países analisados no mais recente ranking da Pearson. O ranking mede capacidade cognitiva e sucesso escolar. Tem país com educação pior que a nossa. Mas você não ia querer morar lá. Se bem que aqui também dá um certo desânimo, ainda mais quando você tem que comprar material escolar. Falando nisso, nossas escolas particulares também são muito ruins, além de carésimas.

O problema da educação é que demora. Você começa a ensinar a criancinha hoje, e ela só vai dar retorno daqui a vinte, trinta anos. Educação não garante nada no curtíssimo prazo. Esse ano, com a crise na economia, vai ter um monte de gente com doutorado indo para o olho da rua. Se preparar para o mercado de trabalho? Vai lá saber quais serão as profissões mais promissoras de 2035.

Há que informar e há que formar. Para algum dia a gente ter uma nação que valoriza aprender, que aprendeu a aprender. De profissionais e também de cidadãos. Quando? O mais rápido possível.

Investir em educação é como o combater o aquecimento global. Dá um trabalho imenso, custa muito dinheiro, mais tempo ainda. Mas tem que ser feito. Porque não fazer nada é garantia de desastre.

Por onde começar? Já começamos. Mas a saída do ministro da Educação, Cid Gomes, me deu uma idéia para a gente avançar mais rápido.

Educação é um desafio grande demais para ser enfrentado só pelo governo federal. Ou estadual, ou municipal. Só por escolas particulares, instituições, fundações, start-ups. É tarefa para ser assumida pelo famoso "conjunto da sociedade". Justamente por isso, o projeto educacional brasileiro precisa estar acima de urgências eleitorais ou divisões partidárias. Claro que definir um grande plano nacional para a educação exige debate, escolhas, tomada de posições. Nada escapa da ideologia. As pontas precisam aceitar divergir em um tanto, e em outro tanto se encontrarem no meio do caminho.

Tem uma pessoa que pode ter grande importância simbólica neste processo. É a pessoa que representa a educação no país. É o ministro da educação. Ele, ou ela, tem que ser o grande interlocutor da sociedade. Para construir pontes e para amarrar as pontas. Uma pessoa que represente a revolução educacional com que sonhamos. Com ministro da educação durando dois meses, fica difícil. E Cid Gomes caiu por razões que nada têm a ver com educação, e tudo a ver com política.

Minha idéia: o ministro da educação não pode ser um político. Nem que seja super honesto e bem intencionado. Não pode ser um técnico. Mesmo que seja incrivelmente bem preparado. Precisamos de um mestre. Proposta ao país: o ministro da educação deve ser escolhido por eleição direta. Quem pode se candidatar? Somente professores que estejam atuando atualmente como professores. Do Fundamental ao Ensino Superior, tanto faz. Não pode ser filiado a partido nenhum. E quem vota? Somente professores. Quer apostar que em pouco tempo teríamos professores mais preparados, mais estimulados, melhor remunerados?

Aposto que os candidatos a ministro mais fortes seriam justamente os que são os melhores professores. Gente como o Jayse, de Itambé, no Pernambuco. O Maurício de Cabedelo, na Paraíba. A Lúcia Helena, de Itaiçaba, no Sergibe. A Gina de Ceilândia. O Josemar de Campo Bom, Rio Grande do Sul. O Felipe de Santo André. Todos eles ganharam o mais importante prêmio da educação brasileira, o Prêmio Professores do Brasil de 2014. Teve 6.808 concorrentes. Foram premiados 39 professores.  Cada um ganhou R$ 6 mil de prêmio.

Como tem mais professora que professor, desconfio que teremos ministra em vez de ministro. Minha candidata é a Maria de Nazaré Souza Freires. Nunca vi na vida, mas ela foi a vencedora deste prêmio em uma categoria muito importante para mim: Educação Digital Articulada ao Desenvolvimento do Currículo. E ela conseguiu esse feito na Escola de Ensino Fundamental José Juca. Sabe onde? Quixadá, no Ceará. Não conheço Nazaré, mas para mim já tem mais currículo que qualquer ex-governador, ex-senador, ex-deputado.

Achou a proposta estrambótica? Mais bizarro é botar outro político no ministério da educação. Definir nosso projeto para a educação é definir nosso projeto de nação...

 

Publicado em 18/03/2015 às 00:00

Quem ganha com a privatização da Petrobras?

petrobras 1024x680 Quem ganha com a privatização da Petrobras?

Em 2009 uma pesquisa com 30 mil universitários brasileiros perguntou: qual a empresa em que você sonha trabalhar? Deu Petrobras na cabeça, pelo quarto ano seguido. Na frente do Google, Ambev, Natura. Como o mundo muda.

Mais importante: como o mundo muda? Mudando a cabeça das pessoas.

A Petrobras de 2015 tem a mesma capacitação de 2009. A mesma tecnologia de ponta. Paga os mesmos salários e benefícios, ajustados. Tem mais reservas que seis anos atrás. Por dentro, mudou pouco a Petrobras.

A encrenca veio de fora. O preço do petróleo despencou, o que não teve nada a ver com a Petrobras. Foi uma manobra da Opec, comandada pela Arábia Saudita. Os sheiks jogaram o preço lá embaixo para manter sua fatia de mercado e inviabilizar economicamente a crescente indústria do xisto nos Estados Unidos. O xisto pode fazer os EUA independentes energeticamente. Seria terrível para a Opec.

Depois, Operação Lava Jato. Conhecemos os funcionários que corroíam as entranhas da Petrobras, a soldo das maiores construtoras do país. Novidade nenhuma. Onde tem dinheiro correndo, tem picareta cobrando pedágio. No mundo estatal e privado. Mas dessa vez os procuradores pegaram, dessa vez a imprensa expôs, dessa vez era uma montanha de dinheiro.

E dessa vez, muito importante, tudo aconteceu sob os olhos do governo, e de um governo petista. Da própria presidente da República, antes ministra da Casa Civil e das Minas e Energia, anos e anos no conselho da Petrobras.

E assim chegamos a um 2015 impensável seis anos atrás. Com a Petrobras operando em meia-bomba, valendo uma mixórdia, dando calote em fornecedores, sem balanço publicado, incapaz de captar recursos. Petrobras agora é sinônimo de lambança e ladroagem. É um buraco sem fundo de dinheiro público! Você sabe a única solução para essas estatais ineficientes, né?

 

A Petrobras não era perfeita em 2009. Era arroubo nacionalisteiro e propaganda oficial. Também não é uma cabeça de porco em 2015. Água mole em pedra dura vai moldando a opinião pública.

José Serra empinou o balão de ensaio em uma entrevista há duas semanas. A saída, disse nosso quase-presidente por duas vezes, é vender uns pedaços da Petrobras.

Depois disso o dólar explodiu. O crédito para as empresas secou. Graúdos de vários partidos se viram envolvidos na Lava Jato. Sexta passada: protesto pró-Dilma, mas contra o arrocho defendido por seu ministro. No mesmo dia o boato em Brasília: se o Congresso não aprovar o ajuste fiscal, Levy sai e a casa cai. Domingo, o eleitorado de Aécio foi pra rua gritar contra a corrupção na Petrobras e pedir a cabeça de Dilma.

Terça, furo de Raquel Landim e David Frielander na Folha. O governo planeja vender partes da Petrobras.

É conspiração privatista? Não, é a nova ordem mundial. A demanda energética do planeta vai dobrar – talvez triplicar – nas próximas décadas. Depende de quantos bilhões de miseráveis vão passar ao status de remediados, em lugares como China e Índia. E Sudeste Asiático. E África! E, porque não, aqui mesmo na América Latina. Os pobres vão querer eletricidade, imagine só.

Tirando um ou outro país sortudo como o Brasil, eletricidade vem de combustível fóssil. A energia pra toda essa gente não virá de usinas nucleares, ecologicamente incorretas. Nem do sol ou do vento, economicamente inviáveis, por decisão da política, mais que da economia. Essa energia virá do petróleo – gasolina, diesel, gás natural. É um imperativo institucional. O óleo negro lubrifica as relações entre os poderosos.

Daí a liberação do xisto nos EUA, passando por cima de todas as objeções ambientais. E daí a ocupação militar americana no Oriente Médio, guerra do Iraque, demonização do Irã. É por isso que a Opec resolveu vender barato o que vendia caro, jogando fora bilhões. É por isso que as paraestatais petrolíferas de Rússia e China cooperam e competem na Eurásia.

No nosso canto, o presidente mexicano Peña Nieto está sob pressão para privatizar a estatal Pemex. Porque, veja só, estão aparecendo lá muitas denúncias de corrupção. A miserável Venezuela é pintada como se grande ameaça de desestabilização na América Latina, e Maduro, antes Chávez, como se fossem o diabo. País com reservona de petróleo sob controle estatal é alvo certo no grande jogo energético do século 21, jogado em décadas, não mandatos.

Nosso Brasilzinho às vezes parece que nem faz parte desse mundão da geopolítica. Mas é só olhar o mapa-mundi e ver nosso território com olhos de gringo. É um Brasilzão. E tem óleo embaixo de toda essa terra.

Não precisa ser repórter para saber que a primeira pergunta que se faz em situações como essa é “Quem se beneficia?”. Ou, como ensinou o informante Garganta-Profunda aos repórteres que investigavam o escândalo de Watergate: “Sigam o Dinheiro”.

Segundo Raquel e David, a Petrobras pretende diminuir a necessidade de investimentos para extrair o petróleo. E reduzir ou até sair de duas áreas de atuação: a distribuição de gás e a geração de energia em termoelétricas.

Quem se beneficia com a destruição da imagem da Petrobras e sua privatização, inteira ou aos pedaços?

Ganham multinacionais do setor energético. Comprarão fatias da Petrobras a preço de banana. Quanto mais subir o dólar, melhor, que compram mais barato ainda. Ganham governos estrangeiros conectados com estas empresas, oficial ou oficiosamente.

Ganham as grandes construtoras brasileiras que hoje não podem fornecer para a Petrobras, por causa da investigação da Lava-Jato. Estarão perfeitamente aptas a prestar serviços para as novas empresas. Essas construtoras são os maiores financiadores de campanha eleitoral, de todos os partidos. Donde todos os partidos têm interesse de terminar esse imbróglio logo.

Ganham nossos políticos. Petrobras paralisada é pré-sal intocado. Ruim para quem já tinha planos para esses royalties. Muitas das cidades que serão mais beneficiadas estão no Rio, território de Eduardo Cunha. O presidente da Câmara tem longo relacionamento com as indústrias de energia e de construção.

Vale lembrar também que nossa Pátria Educadora conta com os recursos do pré-sal para turbinar o orçamento da Educação. Prioridade número um do segundo mandato de Dilma, segundo a própria.

E quem ganha imediatamente com a privatização da Petrobras? A reportagem da Folha já cita os bancos que auxiliarão a Petrobras a vender seus ativos.

A Petrobras é dona de 21 termelétricas. Para passá-las nos cobres, teremos a colaboração do Bradesco BBI. Que também venderá um pedaço a ser definido da Petrobras Distribuidora, dona da marca BR, rede com mais de 7500 postos no Brasil.

A Petrobras também tem algumas centenas de postos de gasolina na Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia. E distribuidoras de gás pelo Brasil afora. Nos dois casos, contaremos com o apoio do Itaú BBA para nos livrarmos delas.

E para não ter que investir em extração a Petrobras também já cogita vender alguns blocos de petróleo propriamente dito. Está cotado para esse papel um banco estrangeiro. A Folha cita o Bank of America Merrill Lynch.

Para quê convocar um banco global? É para encontrar um comprador de fora do Brasil. Mesmo com o Real tão fraquinho, só empresas estrangeiras têm bala para desembolsos desse tamanho. Vale procurar os chineses da China National Petroleum Consortion. A CNPC já é sócia da Petrobras no Campo de Libra, a maior reserva do pré-sal... e falando em bancos globais, vale lembrar que em 2014 o Goldman Sachs recomendou privatizar não só a Petrobras, mas também a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.

Quem sabe até a melhor coisa é mesmo desmembrar a Petrobras, vender por qualquer preço, buscar parceiros internacionais. Ou privatizar inteira. Ou estatizar totalmente? Quem lá sabe? Esta decisão está sendo tomada no calor da gritaria nas ruas. E assim foi atingido o objetivo de toda a narrativa política dos últimos meses.

Quem se beneficia? Quem precisa que a decisão seja tomada assim. No atropelo. Sem questionamento nem debate informado. Apostam que a indignação nos deixou cegos. A aposta vale bilhões. E esses bilhões são nossos.

Publicado em 10/03/2015 às 13:54

Peterson, 14 anos, filho de gays, espancado pelos colegas: o que sua morte nos ensina

ssa Peterson, 14 anos, filho de gays, espancado pelos colegas: o que sua morte nos ensina

 

Foi na porta da escola. Um grupo de colegas cercou Peterson. Como começou? Viram cinco garotos batendo em Peterson. Tocou o sinal e ele ainda conseguiu assistir um pouco de aula. De repente passou mal. Foi levado para o hospital. Passou cinco dias em coma. E morreu ontem.

Por quê apanhou? Peterson estudava nessa escola desde os seis anos. Era perseguido há anos. Porque era filho de gays. Os pais não sabiam. Peterson escondia. Imagine o que se passava na cabeça do garoto.

É tragédia anunciada, dolorida, cotidiana. Nem merece destaque na imprensa, está lá embaixo, escondidinho. A lei muda, mas não muda a cabeça das pessoas. Gay é viado, coisa do mal. E morre mais um. E filho de bicha bichinha é. Que pague pelo pecado de seus pais. E morre um menino inocente.

Peterson não morreu só porque era filho de um casal homossexual. Morreu principalmente porque estudava em escola pública na periferia paulistana, em Ferraz de Vasconcelos. Fosse filho de gays e aluno de escola de elite, podia até ser zoado por algum colega cretino, mas estava vivo. Porque nossas melhores escolas ensinam que todas as pessoas merecem respeito? Não. Porque as escolas pagas têm segurança paga e não permitem esse nível de violência.

Ensino não é antídoto contra estupidez. Educação não é o que nós dizemos, é como agimos. O poder de educar é o poder do exemplo. Podes ensinar quanto quiser seu filho a respeitar as mulheres. Mas se na animação do panelaço você xinga Dilma de vaca, não reclame quando seu herdeiro tratar as mulheres como cadelas.

Liberdade inclui por definição liberdade de ofender. Não sou radicalzinho de rede social, que a cada escorregão politicamente incorreto grita "crime de ódio!". Basta apontar o óbvio: o que ensinamos a nossas crianças, como pais, educadores, como sociedade, tem consequências. Ter um filho me fez querer ser um homem melhor. Duvido que consegui, mas o desafio está colocado, todo dia. O Brasil precisa assumir seus filhos.

Se eu tivesse resumir em uma única palavra o que falta no Brasil, eu diria: exemplos. De coragem, de imaginação, de conduta. Exemplos de liberdade. E principalmente exemplos do que acontece se você agir errado. Seja quem for.

Não consigo não ter dó dos meninos assassinos. Alguém ensinou eles que homossexual tem mais é que se ferrar. Agora ferraram suas vidas. Grande chance de irem em cana, para a Fundação Casa, ex-Febem. Vão sofrer o diabo por uns anos. Grande chance de aprender a ser bandido. Se forem por aí, viverão pouco e mal.

Também dá dó dos pais dos assassinos. Mas tudo compreender é tudo perdoar. Dá mais dó dos pais de Peterson. E do moleque que nunca vai ter chance de crescer.

Os pais de Peterson não culpam diretamente os meninos que mataram seu filho.Dizem que vão processar o Estado, que é p responsável pela segurança nas escolas. Há que aplaudir o espírito do casal. Preparem-se para muita dor e frustração.

O poder público brasileiro nunca é responsabilizado judicialmente por coisa nenhuma. Nem seus gestores. Este processo vai dar em nada ou quase nada. Como o mensalão. Como o escândalo dos trens em São Paulo. Como todos os outros escândalos que você se lembra. Paulo Maluf, mais mau exemplo impossível, está aí se jactando de não ser citado na investigação da Lava-Jato, cantando suas décadas de vida pública limpa...

Vamos vivendo e morrendo assim, educando nossas crianças na lei do cão. A vida boa dos poderosos diz: a corrupção vale a pena. A impunidade de criminosos grita: o crime compensa. A morte de Peterson ensina: se o seu colega tem pais gays, pode espancar ele, garoto...

Publicado em 06/03/2015 às 10:50

Comemore o Dia Internacional da Mulher, mas saiba: o importante é ser loira e magra

 

okok Comemore o Dia Internacional da Mulher, mas saiba: o importante é ser loira e magra

 

 

Economia biológica. Já ouviu falar? É uma nova área da ciência, se é que se pode chamar estatística de ciência. Relaciona características físicas com recompensa monetária. Nos últimos anos estão fazendo muitos estudos nesse campo.

Os resultados são exatamente aquilo que você imagina. Completamente, cruelmente politicamente incorretos. Todo esse discurso de que você pode ser exatamente o que é, e o mundo que se adapte a você, não passa disso, discurso. A teoria na prática é bem outra. Quer mudar o mundo? Comece reconhecendo como é o mundo real.

Se você é gordo, magricelo, baixinho, ou tem voz desafinada, está em desvantagem. Ganham mais dinheiro os altos, bonitos, elegantes. Voz grave também é importantíssimo. Não é à toa que CEOs e políticos fazem curso de dicção, para aprender a falar com aquela voz de narrador de trailer. Ou você acha que Obama nasceu falando assim?

Lucy Kellaway, colunista do Financial Times, fez uma coluna divertida sobre o tema. Lembra uma pesquisa de 2005 com presidentes das maiores empresas dos Estados Unidos. Eles tinham em média 1,82m, seis centímetros a mais que o homem americano médio.

Lucy batizou como "Prêmio Beleza". As pessoas bonitas ganham de 10 a 20% mais que o restante de nós. Um estudo de Harvard pediu a candidatos a empregos que resolvessem quebra-cabeças. As pessoas mais bonitas não se saíram melhor que as médias ou feias. Mas os empregadores preferiam sempre contratar as mais belas.

Mulher? Mais ainda. Segundo os cientistas, para atingir o sucesso financeiro o fundamental é ser loira e magra. Um estudo da universidade de Queensland determinou que as loiras ganham 7% a mais que o restante das mulheres. Um estudo da Universidade de Nova York liga a quantidade de gordura no corpo à quantidade de dinheiro que se deixa de ganhar. A cada 1% a mais de massa corporal, a mulher ganha 0,6% a menos.

Lucy, que é uma inglesa pequena, morena e comum, fecha seu artigo com uma provocação. Sarrista, sugere que os empregadores contratem pessoas feias, baixas e mal-vestidas. Elas farão um trabalho tão bom quanto as lindas, e dá para pagar um pouco a menos.

Então, minha amiga baixinha, gordinha e moreninha, celebre feliz seu dia internacional da mulher. Mas se quiseres celebrar esse mesmo dia em 2016 ganhando um pouco melhor, faça o que a ciência recomenda. Regiminho, salto alto, banho de loja e tintura no cabelo...

 

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