
O ataque à maratona de Boston vai chegando ao seu epílogo. Dominou - exageradamente - as atenções do mundo, durante uma semana. Agora um dos responsáveis está morto, outro ferido e preso. Restam os detalhes dos porquês. Como nenhum porquê é suficiente para explicar tamanha maldade, o assunto vai sumindo do noticiário. Fim.
Ou não? Talvez seja o começo de algo novo e diferente. Talvez não hajam mais começos e fins. Os posfácios têm sido os momentos mais iluminadores da história. Durante uma semana, Boston rendeu entretenimento minuto a minuto, caçada aos assassinos de inocentes, a população em fuga, soldados nas ruas da metrópole - Hollywood perde. Agora chegou a hora de discutir o que o filme significa.
Foi exagero. A televisão americana exibia incríveis modelos 3D em computação gráfica dos bairros de Boston, e onde o fugitivo poderia estar. Mas talvez estivesse mais pra lá. Ou acolá. E talvez estivesse armado, e talvez não. E talvez fosse muçulmano, ou não. Na falta do que dizer, e na obrigação de continuar dizendo qualquer coisa, vieram chutes e barbeiragens veio aos borbotões. A internet reciclou tudo, e abriu as comportas para maremoto ainda maior de besteirol.
No minuto que eu soube do ataque, profetizei no Twitter: aposto dez dólares que é obra de um americano psicopata. O FBI concorda. Um diretor declarou anteontem que o ataque de Boston teve mais a ver com as ações alucinadas, como a de Columbine, do que com um ato político. Está mais para dois garotos americanos revoltados com os colegas, do que com dez milhões de garotos do mundo islâmico revoltados com a América.
Tamerlan Tsarnaev
Mas o que importa o que diz o FBI? A agência está sendo questionada de todos os lados. Por que não previu o ataque? Por que não prendeu os irmãos antes? E será que é isso mesmo que aconteceu, ou será que o FBI está acobertando outras razões para o ataque, e outros culpados?
Disse o que tinha a dizer logo no início, e depois mantive a máxima distância possível da história. O mal contamina, a burrice contagia. Se manter informado sobre o que te importa é prazer, sobre o que deve te importar é obrigação. Mergulhar na cascata de desinformação é masoquismo, catucar a feridinha pra ver se infecciona.
Hoje interneto à procura de uma compreensão maior do ataque. Chafurdo em lagoas de análise e palpitol. A história de Boston não domina mais as homepages, mas rende em dobro nas colunas de opinião e nas redes sociais, como o Aleph da lenda, infinitas histórias convergindo no mesmo buraco negro. Alguns reflexos:
- Amanda Palmer, cantora e compositora, escreveu um poema assumindo o ponto de vista do irmão que sobreviveu. Amanda se propõe provocadora e perigosa. É o que era no início da carreira: cabaré, agora mais famosa, porque casada com o astro da fantasia e quadrinhos, Neil Gaiman. A Poem for Dzhokhar revolta os americanos, com exceções no campo ultraliberal.
Há quem peça a cabeça de Amanda, por escrever coisas como "você não sabe mais em que acreditar... você não sabe ajustar o espelho retrovisor." Ela aproveita o barulho e publica outro texto em seu blog, agora explicando como criou o poema. Queria escandalizar. Conseguiu.
David Sirotta causou logo no início do caso, escrevendo um artigo cujo título era "Espero que o assassino de Boston seja branco." Seu argumento é: se forem árabes, isso seria mais um degrau na escalada de incompreensão e violência entre muçulmanos e cristãos e judeus, e argumento para leis de imigração mais duras nos EUA. David diz: se o culpado for ítalo-americano, não bombardearemos Roma...
Sirotta deve ter imaginado que ia ouvir bastante por seu texto. Não podia esperar que ia levar dura apesar de estar certo. Assim que os culpados foram identificados, foram pintados como estrangeiros, não-americanos, não brancos. Mas nos Estados Unidos, imigrantes de origem russa, chechênia, cazaque são considerados brancos pelo governo federal. Os irmãos eram americanos, se vestiam como americanos, viviam como americanos. E eram mais que brancos que eu - eram literalmente caucasianos.
- Há quem garanta que os irmãos não têm nada a ver com o peixe. Seria tudo uma grande conspiração. Os culpados seriam outra dupla, e aliás ligados a uma empresa de segurança muito suspeita. Viagem de doidão? O autor da acusação montou uma peça bem convincente. Alguns compraram. Os vídeos têm milhões de visualizações no YouTube. Decida por você mesmo se é balela, ou suficiente para te colocar uma pulga atrás da orelha. Veja mais aqui.
Ou se preferir, em vídeo:
Boston Marathon Bombing is Staged Terror Attack por perolasblogs no Videolog.tv.
- Por um dia ou dois, a imprensa bateu na tecla dos videogames, como previsto no roteiro: "Há relatos de que Dzhokhar costumava jogar games violentos". O melhor cala-boca veio no Twitter: "é a mesma coisa que dizer que ele era um cara de 19 anos e morava no planeta Terra em 2013".
- Quando as explicações se dividem entre uma teoria conspiratória toda complicada, ou a simples incompetência e lambança, a segunda é sempre mais provável. A mídia americana ajudou a encobertar os verdadeiros culpados? Ou simplesmente enfiou os pés pelas mãos, desesperada por audiência e relevância, mais espectadores, mais cliques? Aposte no óbvio. O Huffington Post até criou um vídeo com os momentos mais constrangedores da cobertura de Boston.
- Os Tsarnaev pelo jeito eram mesmo radicais islâmicos. Muita gente politicamente correta demais diz que é injustiça caracterizá-los assim. Mas Tamerlan, o mais velho, vem sendo descrito por membros da própria comunidade muçulmana de Boston como radical e agressivo, e pela própria família como irascível e truculento. Quer apostar que tinha grande influência sobre o irmão adolescente e o levou no embrulho? Leia aqui.
Sou obrigado a discordar do FBI e da minha primeira impressão. Não é Columbine. Os irmãos não mataram só para causar o caos. Tem uma causa em algum lugar aí. Mas eles não se martirizaram, como os do 9/11, ou os homens-bomba da Intifada. É algo novo e diferente.
- O escritor Douglas Rushkoff honrou seu papel de teórico da mídia. Também viu novidade e diferença, mas de outro gênero. No calor dos acontecimentos, foi crítico, sem abrir mão de ser compassivo. Traduzo alguns destaques de sua coluna na CNN.com, com o título "Terror em Tempo Real":
"Não é uma questão de como reagir a uma crise, ameaça ou tragédia em particular, mas de como lidarmos com o próprio fluxo persistente de urgência... interruptiva ou crônica, a ansiedade continua vindo e vindo... vivemos em um Estado de Choque Presente".
"Nenhuma das narrativas usuais se aplicam. Não vivemos mais em um mundo com começos, meios e fins. Esta estrutura obsoleta foi para o lixo com a Era Industrial... Não planejamos mais nossas carreiras, não investimos mais no futuro. Nós ocupamos, frilamos, negociamos derivativos. Tudo acontece no Agora. Mesmo o Terror."
"Não enfrentaremos mais inimigos no sentido normal. Não podemos começar uma guerra ao terror e declarar vitória quando acabarmos... os desafios da sociedade pós-industrial é menos conquistar e mais administrar preocupações permanentes. O óleo está derramando, o clima está mudando, terroristas estão planejando. Crises não são solucionadas para o futuro, são gerenciadas no presente."
"Só nos libertando das narrativas antiquadas em que nos apoiamos, podemos começar a reconhecer os padrões no aparente caos. Podemos não encontrar respostas que nos mobilizem, nem finais dramáticos e satisfatórios. Mas também não precisaremos inventar histórias emocionantes e falsas para nos motivar a agir."
"Em um mundo em que as crises são constantes e perpétuas, é melhor começar a desenvolver abordagens mais sustentáveis para solucionar os problemas em tempo real, do que pensar em resolvê-los definitivamente. A vida continua."
É.
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