Publicado em 26/04/2016 às 15:53

Por que você precisa defender Bolsonaro

com bolsonaro 19 pedidos de impeachment contra dilma Por que você precisa defender Bolsonaro
Ele é um troglodita. Ele defende a tortura. Ele é machista. Ele tem preconceitos com as minorias. Ele é... Donald Trump. Que está pertinho de ser candidato a presidente dos Estados Unidos. Trump causa horror em muitos, dentro e fora de seu país. Para muitos, seu discurso é uma barbaridade indefensável. Para outros é a única solução para a América. Será presidente? Veremos.
O que não se vê nos Estados Unidos é uma tentativa de calar Trump. Os americanos, mesmo os que têm asco dele, dão de barato que ele tem todo direito de dizer o que bem entender. No Brasil estamos bem longe da compreensão americana do que é liberdade de expressão.
Há petições correndo para que Jair Bolsonaro perca seu mandato, por ter dedicado seu voto pró-impeachment ao governo militar, ao coronel Brilhante Ustra, chefe da tortura. A OAB acionou a Câmara para tirá-lo do Congresso. Dizem que tortura é um crime hediondo, e portanto apologia à tortura é um crime hediondo. Isso é um absurdo. Defender uma posição é completamente diferente de usar violência contra alguém.
As palavras exatas de Bolsonaro foram: “Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff.” Bolsonaro defende seu mandato da maneira mais pusilânime possível. A nota do deputado:

"Em nenhum momento foi feita homenagem a qualquer torturador, considerando a inexistência de sentença condenatória atestando que o Coronel Ustra tenha praticado crime de tortura.
O que existe são apenas acusações de pessoas que não devem ser levadas em consideração, pelo fato de terem interesse em receber indenizações por motivação política. O Coronel Ustra foi um bravo que lutou para evitar que o Brasil fosse comunizado e se transformasse numa imensa Cuba. Estranha também que a OAB não tenha a mesma preocupação com os parlamentares que homenagearam Marighella, Lamarca, Prestes e outros criminosos."
O argumento é que como Ustra jamais foi condenado pela Justiça, é "inocente". Mesmo após dezenas de testemunhas apontarem o coronel como um sádico que chegou a torturar crianças e grávidas. É o argumento frouxo de um canalha, que é o que Bolsonaro é.
Mas os canalhas também têm direito à liberdade de expressão. Mesmo os deputados. Mesmo os perigosos.
É patético que Bolsonaro seja perseguido por exercer sua liberdade de expressão, enquanto gente que teve participação direta na ditadura está tranquila por aí. O bandido que torturou Dilma Rousseff vive tranquilamente no Guarujá e nunca passou um dia na cadeia, nem enfrentar abaixo-assinados ou perseguição. Harry Shibata, legista do Doi-Codi, é meu vizinho de bairro. E, claro, tortura acontece todo dia em alguma delegacia do país.
E vamos responsabilizar não só os executores, mas também os mandantes? O caso mais estarrecedor é o de Delfim Netto, que assinou o AI-5, foi ministro dos militares várias vezes, e fazia a ponte com o empresariado paulista, para o financiamento da tortura na Operação Bandeirantes. Hoje é conselheiro de Temer, depois de fazer o mesmo papel com Lula e FHC, colunista de jornal, "consultor" acusado de continuar ganhando uma dinheirama da corrupção etc.
Bolsonaro tem todo direito de dedicar seu voto a quem quiser. Tem direito de defender que a tortura deveria ser legalizada no Brasil. As declarações de Bolsonaro te causam horror? Mais uma razão para defendê-lo. A liberdade de expressão que importa é a de quem te causa horror. Porque é o certo. E por interesse próprio: o que você diz também pode causar horror a alguém.
Se você ama a liberdade, precisa defender o mandato de Jair Bolsonaro, e seu direito de dizer o que bem entender.

Publicado em 25/04/2016 às 18:54

Leia esse livro: Words and Music, de Paul Morley

words Leia esse livro: Words and Music, de Paul Morley
Indescritível é pouco para Words and Music. O subtítulo é "Uma história do Pop no formato de uma cidade." É uma história da música pop, sim, mas também memória, literatura, provocação, viagem psicodélica. É sobre a conexão do pop com a música clássica e a experimental e com a vida e com tudo. E o eixo de tudo é um videoclipe de Kylie Minogue, "I Just Can´t Get You Out of My Head."
Morley faz parte dessa história e não só como jornalista musical de mão cheia (recebi como referência de boas entrevistas musicais o livro Ask: The Chatter of Pop, das mãos do meu chefe, José Augusto Lemos, ao começar a trabalhar na revista Bizz, 1990. Está comigo até hoje). Foi co-fundador com Trevor Horn do selo ZTT. Foi uma das cabeças por trás do Art of Noise, do Propaganda e, uau, do Frankie Goes To Hollywood.
Leia Words and Music.
A trilha sonora de Words and Music está aqui.

Publicado em 25/04/2016 às 17:14

Nem Dilma, nem Temer, nem eleições: uma proposta imodesta para os jovens do Brasil

Dilma Temer 1024x634 Nem Dilma, nem Temer, nem eleições: uma proposta imodesta para os jovens do Brasil
Nem Dilma nem Temer. É o que o Brasil quer para o Brasil. É o resultado que todas as pesquisas confirmam. Na mais nova, do Ibope, 62% dos brasileiros dizem que querem Dilma e Temer fora do governo e realização de novas eleições para presidente e vice. Só 25% acham que seria uma boa Dilma ficar, e isso só se ela conseguir fazer um acordo com a oposição. E só 8% defendem que Temer assuma a presidência.
Este resultado prova a maturidade do brasileiro. Reconhece que Dilma fez uma péssima gestão e Temer foi seu parceiro próximo nisso, durante todo o tempo. Que Temer conspira para chegar à presidência e Dilma para nela se manter, ambos usando todo o arsenal da pior política. Que se Temer tem Cunha, Dilma tem Renan, símbolos do que há de mais corrupto no Congresso. Que Dilma e Temer deram pedaladas fiscais. Que Dilma e Temer se beneficiaram de doações de empreiteiras para sua campanha, e pelo que tudo indica boa parte foi Caixa 2. Que tanto PT quanto PMDB são partidos manchados pela corrupção. Que o governo Dilma está fraquíssimo e um governo Temer já nasceria tão frágil quanto. Reconhece, enfim, que Dilma e Temer são mais parecidos do que diferentes.
A vontade popular é clara: novas eleições. Não dá para discutir até o terceiro milênio as questões práticas e legais envolvidas nisso. O tempo urge. Um lado argumenta que Dilma foi eleita e tirar ela de lá sem provar crime é golpe. Outro lado diz que não é golpe porque todas as regras da Constituição para o impeachment estão sendo seguidas. O brasileiro não está com paciência para ouvir os argumentos de juristas pró e a favor.
Acorda, Brasília: o bicho está pegando já. A economia derrete. O desemprego explode. Os ganhos dos anos FHC e Lula estão em retrocesso violento."Golpe" é se agarrar ao juridiquês a esta altura do campeonato. Seja por parte de Dilma ou de Temer. O povo quer mudança. Não confia nem em Dilma, nem em Temer para fazer o que é preciso. "Todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido." Vamos lembrar dessa frase?
Há quem entenda que esta rejeição a Dilma e Temer e à classe política em geral abre espaço para a eleição de um oportunista para a presidência. Pode ser. Pode ser o contrário: sinal de inteligência do eleitor, que já compreendeu que não basta mudar as pessoas. É preciso fazer mais. Mas o quê? Isso muita gente não sabe.
O que precisamos é de um Plebiscito Constituinte. O nome já dá preguiça, mas tenha um pouco de paciência antes de formar sua opinião. O Plebiscito é quando o eleitor decide se quer uma coisa ou não quer. Uma Constituinte é quando o eleitor elege uma assembleia de representantes para modificar as regras fundamentais do País. Redefinir os princípios e as instituições. Reconversar como deve funcionar o governo, o Legislativo e o Judiciário. As decisões desses representantes viram a nova Constituição do país. Um Plebiscito Constituinte é um Plebiscito para decidir se o Brasil deve ter ou não uma nova Assembleia Constituinte.
O Plebiscito também deve decidir quais as regras para a eleição de nossos representantes para a Assembleia Constituinte. Por exemplo: se podem se candidatar somente pessoas que tenham ficha limpa ou qualquer um. Se só podem se candidatar pessoas filiadas a partidos, ou qualquer um. E por aí vai.
Uma Assembléia Constituinte tem muito poder. Poder, por exemplo, para fazer uma Reforma Política. Que garanta que de fato os brasileiros estejam representados de maneira proporcional no Legislativo. Que cada um dos poderes tenha sua autonomia e seus limites institucionais. E principalmente que ajude a blindar o Brasil, para que não hajam tantas brechas para má gestão, incompetência e corrupção.
A campanha pelo Plebiscito Constituinte foi proposta por 507 organizações sociais em 2013, no embalo das manifestações daquele ano. Assinavam a proposta alguns partidos, inclusive, veja só, o PT. Em junho de 2013, quando o bicho estava pegando nas ruas, Dilma Rousseff incluiu sua própria versão da proposta dentro do que chamou de "Cinco Pactos Nacionais". A presidente disse: "Quero propor um debate sobre a convocação de um plebiscito popular, que autorize o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita". A proposta de Dilma, atenção, era uma Constituinte somente para fazer a Reforma Política e mais nada. Foi rechaçada. Dilma poderia mesmo assim ter mandado uma Proposta de Emenda Constitucional para o Congresso. Deixou o assunto para lá. Quem sabe está se arrependendo agora?
Marina Silva vem propondo eleições diretas já. Luciana Genro quer mais: “que as eleições municipais de 2016 se transformem em eleições gerais para renovar todos os parlamentos e o Poder Executivo. Eleições sem financiamento privado, conforme decidido pelo STF, e com direitos iguais para todos os candidatos." As propostas das duas ex-candidatas à presidência têm a mesma falha fundamental. Mudar as pessoas sem mudar as regras é enxugar gelo.
Aqui está uma proposta imodesta: nas eleições em outubro, vamos incluir o Plebiscito sobre a criação de uma Assembléia Constituinte. Esta é sobre o nosso futuro. E agora, uma proposta modesta, que é para dar conta do nosso presente: também vamos em outubro escolher novos Presidente e vice e renovar em 100% o Congresso. Isso além do que já estava previsto: prefeito, vereador, deputado estadual. Seria uma boa limpa. Mas não só na sujeira atual, e sim no próprio ambiente que permite que a podridão viceje.
Um detalhe importante: a última vez que tivemos uma Assembleia Constituinte no Brasil foi em 1988, quase trinta anos atrás. Uma parte gigantesca dos brasileiros nem era nascida, outros criancinhas. O mundo mudou demais de 1988 para cá. Está mais que na hora de atualizar o Brasil, da juventude brasileira ter uma Constituinte adaptada aos novos tempos, que seja a sua cara.
Muitas supostas autoridades - comentaristas, jornalistas, especialistas - descartarão de cara esta proposta. Dirão que não está previsto sei lá onde, não vai ter apoio, não tem chance de ser aprovada, é molecagem, não é proposta prática e, o beijo da morte, que é "utópica". Estão todos errados. Como disse o dramaturgo George Bernard Shaw: "o homem razoável adapta-se ao mundo; o não-razoável persiste em tentar adaptar o mundo a si próprio. Portanto, todo progresso depende de homens não-razoáveis."
No mundo da economia e da tecnologia se fala muito de "Disrupção". Significa a criação de uma coisa radicalmente nova, seja uma idéia, uma tecnologia ou um modelo de negócio, que transforma radicalmente o cenário. A disrupção destrói valor, gera valor, torna os modelos anteriores obsoletos e enterra rapidamente seus antagonistas. Uma das maiores teóricas da disrupção, a professora canadense Frances Fox Piven, diz que se aplica também para a política: "os grandes momentos de mudança na história dos EUA vieram em momentos de contestação massiva do que estava estabelecido." Movimentos sociais de base, de massa, teriam esse poder único de transformar demandas supostamente pouco realistas em exigências que não podem mais ser ignoradas.
É a tese central do novo livro This is an Uprising: How Nonviolent Revolt is Shaping the 21st Century (Isso é uma Insurreição: Como a Revolta Não-Violenta Está Moldando o Século 21), de Mark Engler e Paul Engler. O livro acaba de ser lançado. Está dando o que falar, ainda mais com a situação nos Estados Unidos (Trump causando de um lado, o socialista Sanders encantando do outro, e Hillary espremida entre os dois). Naomi Klein, para citar um ícone anti-establishment, diz que o livro é "apaixonante, ambicioso e indispensável".
Os Engler escrevem: "mudanças sociais raramente são tão incrementais ou previsíveis quanto muitos `especialistas` sugerem. Há ocasiões em que uma explosão de resistência parece abrir um novo mundo de possibilidades, criando oportunitades imprevistas de transformação." Os autores citam especificamente o Movimento dos Direitos Civis e Martin Luther King; campanhas de desobediência civil que tiveram resultado contra regimes autoritários na Sérvia, Filipínas, Chile, Polônia e Tunísia, começando por Gandhi na Índia; e o casamento gay, que em 15 anos foi de política impensável nos EUA a um quase consenso na política americana. Mark e Paul aprofundam a questão discutindo o que é preciso para enfrentar as mudanças climáticas e concluem que o incrementalismo não dará conta do desafio: "nunca antes a humanidade dependeu tanto para sua sobrevivência de um movimento social que aposte no que não é prático."
Os movimentos populares de resistência podem causar uma grande disrupção, e mudar para melhor as sociedades. No Brasil, em 2016, não há outra opção. Tá na mão do povão. Porque a elite do país já fez sua escolha. É Jair Bolsonaro. Entre os brasileiros que têm renda familiar mensal superior a dez salários mínimos (o que é só 5% da população, mas o grupo mais influente, inclusive na hora de financiar as campanhas), Bolsonaro lidera a corrida presidencial. Em um dos cenários chega a ter 23% das preferências, e Lula ficaria em segundo lugar, com 13%. Já os pobres mais pobres do Brasil, os eleitores que ganham até dois salários mínimos, Bolsonaro tem só 4% dos votos. A pesquisa é do Datafolha.
Se há uma bandeira que pode unir a maioria de nós, é essa: que o povo decida se quer mudar as regras. Que o povo eleja seus representantes para fazer as novas regras. Que a vontade popular seja soberana. No Brasil, em que a maior parte da população é muito jovem, significa que a vontade do jovem será soberana. Você apóia?
Seria a criação de um novo compromisso entre os brasileiros, em um Brasil que se distancia da ditadura e enfrenta os desafios da democracia. Seria precioso, hoje que estamos unidos como nunca estivemos pelas mídias digitais, e desunidos como nunca estivemos para benefício dos mesmos de sempre.
É fácil? Quase nada que vale a pena de verdade é fácil. Também não é essa dificuldade toda. Não é cenário de ficção-científica nem requer milagre do gênio da lâmpada. É só nos organizarmos para pressionar por uma eleição e um Plebiscito. Já fizemos coisas bem mais complicadas.
E se esta imodesta proposta contém um certo perfume de utopia, qual o problema? Nenhum e muito pelo contrário. Lembremos Eduardo Galeano, intelectual falível, militante manco, que deveria ser leitura obrigatória para quem não viveu o século 20, para os jovens que têm nas mãos a chance e responsabilidade de mudar o Brasil, o mundo: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Publicado em 12/04/2016 às 14:47

O último presente de David Bowie

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É bonito o adeus definitivo de David Bowie ao mundo dos videoclipes, que ajudou a inventar, como fez com tantas outras coisas na cultura popular. Sem seu rosto, tem sua cara. O vídeo foi dirigido por Jonathan Barnbrook, artista que criou o design do disco de despedida de Bowie, Blackstar.
A canção é "I Can´t Give Everything Away", a mais simples, talvez a mais bonita do álbum. Só agora, vendo o vídeo, percebi que soa como o disco mais feliz de Bowie, Black Tie White Noise.
É um álbum meio esquecido na discografia de Bowie, porque rica demais. Co-produzido com Nile Rodgers, reafirma a ligação do artista com a música negra, mas dispensa propositalmente o apelo pop irresistível da parceria anterior da dupla, Let´s Dance. É contido e pessoal. Um pouco eletrônico, um pouco rock, um pouco jazz, até instrumental. Foi o reencontro de David com seu instrumento inicial, o saxofone. Voltava à cena elegante, tranquilo. Tudo que o rock não queria ouvir em 1993.
Black Tie White Noise foi gravado no embalo do casamento com Iman, que logo lhe daria uma filha e o acompanhou até a morte. Em retrospecto, foi o momento que reestabeleceu Bowie como um artista que, vida segura, seguiria arriscando na sua arte. Acertando e errando, o que fez até o último dia, até o último vídeo, em que o acerto está na seleção, em vida, de Jonathan Barnbrook. Além de artista gráfico, ele é tipógrafo, criador de fontes. Quem mais acertado para fazer um "lyric video", um clipe focado na letra da canção?
Bowie nos surpreende até depois da morte com um último presente. I can´t give everything away, canta na despedida. Tudo é muita coisa. Bowie nos deu o que queríamos.

Publicado em 07/04/2016 às 15:40

Alckmin, manter Nalini secretário é falta de educação com a gente

JOSE RENATO NALINI 1024x666 Alckmin, manter Nalini secretário é falta de educação com a gente
Para quem sonha ser presidente, Geraldo Alckmin podia caprichar mais quando se trata de Educação. Afinal, o maior chavão da política brasileira é dizer que "educação é a solução". O governador de São Paulo tem desde sempre péssima relação com o professorado, do primário à universidade. Com os alunos nem se fala. Mas tudo que é ruim sempre pode piorar. É o que aconteceu agora.
Ano passado Alckmin cometeu uma barbeiragem daquelas ao tentar impôr uma reorganização das escolas paulistas sem ouvir professores nem alunos, que peitaram o governo e barraram a mudança. Ficou tão feio que o secretário da educação caiu. Foi substituído pelo desembargador José Renato Nalini. Ele tem uma característica muito interessante para um secretário da educação: acha que a educação pública não é dever público. Para ser coerente, deveria pedir demissão imediata do cargo.
Nalini escreveu e publicou no site da Secretaria de Educação um texto surreal. Demonstra absoluta, chocante desconexão com o mundo da educação, e aliás com o mundo em geral. Publico na íntegra abaixo.
Mas antes pinço um trechinho:

"Muito ajuda o Estado que não atrapalha. Que permite o desenvolvimento pleno da iniciativa privada. Apenas controlando excessos, garantindo igualdade de oportunidades e só respondendo por missões elementares e básicas. Segurança e Justiça, como emblemáticas. Tudo o mais, deveria ser providenciado pelos particulares."

Inclusive educação, claro. Que autoridade moral tem Nalini para comandar a educação pública no estado mais rico do país, depois dessa?
Para completar, uma boa sobre Nalini. Um ano atrás, antes de ser secretário, ele deu uma entrevista para o Jornal da Cultura em que defendia que o auxílio-moradia para juízes.
Nalini, então presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, declarou:

“Hoje, aparentemente o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de Imposto de Renda, ele tem que pagar plano de saúde, ele tem que comprar terno, não dá para ir toda hora a Miami comprar terno, que cada dia da semana ele tem que usar um terno diferente, ele tem que usar uma camisa razoável, um sapato decente, ele tem que ter um carro.

Espera-se que a Justiça, que personifica uma expressão da soberania, tem que estar apresentável. E há muito tempo não há o reajuste do subsídio. Então o auxílio-moradia foi um disfarce para aumentar um pouquinho. E até para fazer com que o juiz fique um pouquinho mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome de pânico, tanto AVC etc

Então a população tem que entender isso. No momento que a população perceber o quanto o juiz trabalha, eles vão ver que não é a remuneração do juiz que vai fazer falta. Se a Justiça funcionar, vale a pena pagar bem o juiz.”

Nalini é a favor de um Estado mínimo para os outros - inclusive as crianças e jovens paulistas, pelos quais deveria zelar como secretário de Educação. Mas por outro lado quer um estado generoso para o judiciário. Ele diz que o Estado "já não sabe como honrar suas ambiciosas promessas de tornar todos ricos e felizes". Mas defende que o Estado garanta a fortuna e felicidade dele mesmo e seus colegas.
Que Naldini seja desembargador, e tenha sido presidente do tribunal de justiça, já é preocupante. Que Alckmin faça dele seu secretário sugere que o governador não está nem aí com os milhões de estudantes de São Paulo. Governador, troca de novo de secretário, por favor. Manter Naldini é falta de educação com a gente.

Abaixo, o texto de Nalini.

A sociedade órfã

Uma das explicações para a situação de anomia que a sociedade humana enfrenta em nossos dias é a de que ela se tornou órfã. Com efeito. A fragmentação da família, a perda de importância da figura paterna – e também a materna – a irrelevância da Igreja e da Escola em múltiplos ambientes, gera um convívio amorfo. Predomina o egoísmo, o consumismo, o êxtase momentâneo por sensações baratas, a ilusão do sexo, a volúpia da velocidade, o desencanto e o niilismo.

Uma sociedade órfã vai se socorrer de instâncias que substituam a tíbia parentalidade. O Estado assume esse papel de provedor e se assenhoreia de incumbências que não seriam dele. Afinal, Estado é instrumento de coordenação do convívio, assegurador das condições essenciais a que indivíduos e grupos intermediários possam atender à sua vocação. Muito ajuda o Estado que não atrapalha. Que permite o desenvolvimento pleno da iniciativa privada. Apenas controlando excessos, garantindo igualdade de oportunidades e só respondendo por missões elementares e básicas. Segurança e Justiça, como emblemáticas. Tudo o mais, deveria ser providenciado pelos particulares.

Lamentavelmente, não é isso o que ocorre. Da feição “gendarme”, na concepção do “laissez faire, laissez passer”, de mero observador, o Estado moderno assumiu a fisionomia do “welfare state”. Ou seja: considerou-se responsável por inúmeras outras tarefas, formatando exteriorizações múltiplas para vencê-las, auto-atribuindo-se de tamanhos encargos, que deles não deu mais conta.

A população se acostumou a reivindicar. Tudo aquilo que antigamente era fruto do trabalho, do esforço, do sacrifício e do empenho, passou à categoria de “direito”. E de “direito fundamental”, ou seja, aquele que não pode ser negado e que deve ser usufruído por todas as pessoas.

A proliferação de direitos fundamentais causou a trivialização do conceito de direito e, com esse nome, começaram a ser exigíveis desejos, aspirações, anseios, vontades mimadas e até utopias. Tudo a ser propiciado por um Estado que se tornou onipotente, onisciente, onipresente e perdeu a característica de instrumento, para se converter em finalidade.

Todas as reivindicações encontram eco no Estado-babá, cuja outra face é o Estado-polvo, tentacular, interventor e intervencionista. Para seu sustento, agrava a arrecadação, penaliza o contribuinte, inventa tributos e é inflexível ao cobrá-los.

Vive-se a paranoia de um Estado a cada dia maior. Inflado, inchado, inflamado e ineficiente. Sob suas formas tradicionais – Executivo, Legislativo e Judiciário. Todas elas alvo fácil das exigências, cabidas e descabidas, de uma legião ávida por assistência integral. Desde o pré-natal à sepultura, tudo tem de ser oferecido pelo Estado. E assim se acumulam demandas junto ao Governo, junto ao Parlamento, junto ao sistema Justiça.

O Brasil é um caso emblemático. Passa ao restante do globo a sensação de que todos litigam contra todos. São mais de 106 milhões de processos em curso. Mais da metade deles não precisaria estar na Justiça. Mas é preciso atender também ao mercado jurídico, ainda promissor e ainda aliciante de milhões de jovens que se iludem, mas que poderão enfrentar dificuldades irremovíveis num futuro próximo.

No dia em que a população perceber que ela não precisa ser órfã e que a receita para um Brasil melhor está no resgate dos valores esgarçados: no reforço da família, da escola, da Igreja e do convívio fraterno. Não no viés facilitado de acreditar que a orfandade será corrigida por um Estado que está capenga e perplexo, pois já não sabe como honrar suas ambiciosas promessas de tornar todos ricos e felizes.

Publicado em 06/04/2016 às 16:07

Jim Harrison: uma vida degustada

jim banguela 682x1024 Jim Harrison: uma vida degustada

A América nunca aplaudiu Jim Harrison, talvez o mais classicamente americano dos escritores contemporâneos. Morreu há uma semana sem grande choro da crítica e público. Não passou batido. Mas pelo que ele foi, foi pouco.
Duas explicações: Harrison era versátil e extemporâneo. Escreveu poesia, novela, conto, romance, ensaio, coluna de revista e roteiro pra cinema. Tanta polivalência pega mal nos círculos críticos. Coroa, 78 anos na hora da morte, fazia concessão zero para os gostos da moda, multiculturalismo, protagonismo de minorias etc.
Mais: Harrison  exalava testosterona e glutonice, tesão de viver. Sem caricatura e sem medo. Quanto mais perto da natureza selvagem melhor, mas degustando o melhor da civilização - alta literatura, alta gastronomia. A roça foi o ambiente onde nasceu, sempre viveu, e cenário favorito para seus textos. Mas era cidadão do mundo. Sabia ser brucutu, sabia ser delicado. Viveu com voracidade.
"A morte nos rouba tudo, menos nossas histórias", escreveu. As dele são uma melhor que a outra; os obituários nos lembram de um tempo, um tipo de homem que não existe mais. Só uma: Jim virou roteirista de cinema só porque Jack Nicholson lhe emprestou trinta mil dólares para viver de brisa, com a condição que escrevesse três livros que pudessem virar filmes. Pariu "Legends of The Fall" e "Revenge" em três semanas. Ambos dois viraram filmes, ambos ruins, "Lendas da Paixão" e "Vingança". O terceiro permaneceu livro. Seu primeiro romance também virou filme, esse com Nicholson, Wolf, também fraco, apesar do pedigree do protagonista e do diretor, Mike Nichols.
Sei um monte de causos legais sobre Harrison e quase nada sobre sua obra. Poesia, o que Jim mais curtia escrever, está acima das minhas sensibilidades. Livros dele li só um romance, Dalva, e uma coleção de novelas, Tulip, recomendados. Por quê? Porque a vida vai passando e a gente se distrai. Novos deveres e prazeres vão nos ocupando.
Minha perda. Seu inglês era um banquete.  Trecho intraduzível de Julip:

“I did not want to live out my life in the strenuous effort to hold a ghost world together. It was plain as the stars that time herself moved in grand tidal sweeps rather than the tick-tocks we suffocate within, and that I must reshape myself to fully inhabit the earth rather than dawdle in the sump of my foibles.”

Com sua morte descobri que escreveu recentemente livros com perfume policial. Não deu para resistir. Comprei ontem dois livros de Harrison, um recente, The Great Leader. E já comecei a reler, depois de um quarto de século, suas crônicas gastronômicas, agora reunidas em livro, The Raw and The Cooked: Adventures of a Roving Gourmand.
São por elas que não resisti a escrever sobre sua morte: por gratidão. Como comentei com o amigo que me enviou o bonito obituário do New York Times, "pensei em escrever algo mas li pouquíssimo, não que isso tenha me impedido no passado...". Também jornalista, e muito melhor que eu, o camarada concordou: "disso a gente entende bem!"
Ele e eu descobrimos Harrison de uma maneira que a história enterrou: lendo revista. Jim assinou por anos a coluna mensal The Raw and the Cooked, o Cru e o Cozido, na Esquire, no início dos anos 90, período de renascimento da revista, o último. Durou pouco e marcou muito. Jim lambia os beiços ao escrever sobre comida e bebida. Gostava de cozinhar tanto quanto de comer. Gordura de ganso, vinho borgonha. Devo a ele minha inspiração para começar a pilotar o fogão. A Jim e ao Frugal Gourmet, Jeff Smith, que na época tinha um popularíssimo programa de TV, e terminou seus dias enfrentando acusações de pedofilia...
Parece que foi ontem. "Beware, O wanderer, the road is walking too”, escreveu Harrison.  "Os dias estão marcados contra o que nós pensamos que somos", completou. Jim gostava de escrever novelas, histórias com duração entre o conto e o romance. Também gosto do formato cada vez mais. Gordura só é bom pra cozinhar. Hoje, quanto mais enxutas, mais saboreio minhas leituras.
Como diz o trecho acima de Julip, o tempo passa em grandes ondas, não no tic-tac cotidiano que nos sufoca. Aprendamos com Harrison a degustar cada segundo - na arte, no amor, na mesa, na vida.

Publicado em 31/03/2016 às 17:56

As chances de Temer

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Apostei com um amigo que Temer não será presidente. Vale um jantar caprichado, quem perder paga. Não é torcida. Como 80% dos brasileiros, não aprovo o governo Dilma. Não se trata de ser a favor ou contra o impeachment. Cada brasileiro que decida como se posicionar. Mas aprendi faz tempo que jornalista não deve brigar com a notícia. Lição que também tem me servido bem como empreendedor e executivo.

As notícias nos informam o seguinte: é difícilimo Temer ser presidente. Sobram razões.

Tem a questão dos números. Para levar Temer à presidência, são necessários 342 votos a favor, de um total de 512 votos. O governo precisa de 172 votos para barra o impeachment. Abstenções e abstinências contam como votos contra o impeachment. Os partidos fiéis ao governo somam 216 votos. Os partidos de oposição, 220. Os partidos independentes, 76 votos. A oposição tem que conseguir 122 votos além dos que já têm. Mesmo considerando mudanças de última hora, traições etc., é bem difícil.

Ainda mais considerando que em outubro temos eleição para prefeito, vereador, deputado. Dilma continua a dona da caneta e da chave do cofre. Vai liberar verba para quem apoiá-la.

Temer é vice de Dilma há seis anos. E não vice decorativo: presidente do maior partido da base aliada do governo. Por essa razão, muitos antigovernistas ferrenhos não gostam de Temer. Uma parte enorme do PMDB também é anti-Temer. O partido é rachado desde sempre.

Aos outros caciques do PSDB não interessa apoiar Temer.  Alckmin e Aécio querem ser presidentes. FHC foi um dos fundadores do PSDB justamente para se distanciar do grupo de que Temer fazia parte no PMDB, comandado por Orestes Quércia. Marina Silva também não tem nada a ganhar com Temer presidente.

A grande ameaça contra o governo, dizia-se, era a saída do PMDB. Bem, o PMDB saiu do governo e o governo está aí.  O PMDB aiu à sua maneira, ficando.  Vai manter alguns ministérios e muitos cargos. Dilma vai manter esses votos contra o impeachment. A mudança abre espaço para outros partidos médios se aliarem ao governo.

Bom lembrar que Temer pode ser colhido pela Lava-Jato. É também investigado no STF sob suspeita de participar de um esquema de cobrança de propina no porto de Santos, em São Paulo. E pode ser cassado pelo TSE pelo uso de caixa 2, assim como Dilma. Lembrando: se Temer assume, seu vice será Cunha. O establishment brasileiro vai se arriscar a ter Cunha como presidente do Brasil? Difícil imaginar.

Vamos combinar que é muito comum campanha no Brasil usar  Caixa 2. Mas as outras campanhas não estão sendo investigadas, a de Dilma e Temer está. Nos próximos dias, no máximo semanas, chegarão ao TSE as delações premiadas de onze altos executivos da construtora Andrade Gutierrez. Um dos temas é o uso de Caixa 2 para financiar a chapa Dilma-Temer em 2014.

Se o TSE julga isso rápido, antes do impeachment ser votado, Temer tende a já ser carta fora do baralho. Se o impeachment passa e Temer vira presidente, e só aí o TSE julga a questão, Temer poderia então perder seu mandato.

Existe então o temor de que Temer, caso viesse a assumir, fosse um presidente fraco. Com risco de cair. Que teria que governar com uma coalisão tão fisiológica quanto a atual. E lidar com uma crise econômica complicada.

E teria chegado lá através de uma comissão de impeachment em que a maioria dos integrantes têm problemas com a justiça. Sendo que os presidentes da Câmara e do Senado, que vão gerir esse procedimento, têm problemas complicados com a justiça. Pode todo mundo se provar inocente no final, mas enquanto isso, seria muito fácil para a oposição e a opinião pública, nacional e internacional, questionar a autoridade moral de Temer.

Quanto às famosas pedaladas fiscais de Dilma, Temer fez a mesma coisa. Entre 2014 e 2015, Temer assinou três decretos não numerados de crédito suplementar para diversos órgãos do Poder Executivo, estados e municípios. Liberou R$ 8 bilhões sem o consentimento do Congresso, que é exigido por lei. Se pedalada é razão para tirar Dilma, é razão para tirar Temer.

Muita gente que detesta Dilma e Lula já deixou bem claro que não aceita manobras para tirar a presidente do cargo sem provar crime. Juristas e advogados do Brasil estão divididos. As classes intelectual, acadêmica, artística estão em peso contra. Os sindicatos estão em peso contra. Sem falar nos movimentos sociais tradicionalmente alinhados com a esquerda. Gente com muito poder de fazer barulho.

Mais um fator a ser considerado. Se Temer assume,  o PMDB vira situação, o PSDB vira coadjuvante, e o maior partido da oposição passa a ser o PT. Que vai gritar aos céus que houve golpe. E terá Lula à toda, em franca campanha para a presidência em 2018... esse cenário interessa exatamente para quem? Quem é super a favor do vice ser o próximo presidente? Digamos que dois terços dos peemedebistas, mais a direção da Fiesp e a fatia do PSDB que segue José Serra.

Mais uma razão porque um governo Temer é improvável, agora geopolítica. A imprensa internacional, The Economist, Washington Post e companhia, vozes do establishment, clamam pela renúncia de Dilma. Mas pontuam que se ela insiste em ficar, só pode ser tirada em um processo de absoluta transparência. O Brasil é muito importante no mundo, e na América Latina, para que um golpe de estado aqui seja aceitável pela comunidade internacional. Estamos em 2016, não 1964.

Mesmo com tudo isso, a situação seria completamente diferente se a massa dos brasileiros estivesse nas ruas gritando pela saída de Dilma e posse de Temer. Não está.

Uma nova pesquisa do instituto Data Popular, especialista na classe C, é muito reveladora. Os números:

- 80% dos brasileiros avaliam o governo como ruim ou péssimo

- desses, mais da metade avalia o governo como ruim justamente porque ele não ampliou o Fies e o ProUni, não aumentou o salário mínimo, aumentou tarifas, enfim, Dilma não cumpriu as promessas de campanha (o que deve ser verdade também para boa parte das classes D e E).

- perguntados "que pessoa é capaz de tirar o país da crise", 89% dos brasileiros disseram que não sabem responder.

Em português claro: não há clamor popular por Temer. Nem por qualquer outro nome.

Quais são as hipóteses mais prováveis para o futuro imediato do Brasil? Dilma terminar seu mandato. Ou a chapa Dilma-Temer ter seu mandato cassado pelo TSE. Se isso acontece em 2016, teremos eleições diretas depois de 90 dias. Se acontece em 2017, o próximo presidente será eleito de maneira indireta pelo Congresso.

Arriscar qual desses cenários é o mais provável seria chute. O futuro é imprevisível - como fomos lembrados na última eleição, com a queda de avião que matou Eduardo Campos. Pode até ser que Temer acabe virando presidente.

Mas tudo citado acima não é opinião. São evidências, muitas. Não é futurismo. É o que o presente nos diz: as chances estão contra Temer.

Publicado em 30/03/2016 às 15:39

Negar atendimento a um bebê porque a mãe é do PT é imbecil e imoral

ariane e seu filho francisco Negar atendimento a um bebê porque a mãe é do PT é imbecil e imoral

Ariane e seu filho Francisco

Francisco tem um ano. Sua mãe, Ariane, leva o menino todo mês à pediatra, Doutora Maria Dolores. Consultas de rotina, para acompanhar o desenvolvimento do menino. Levava. A médica se recusa a continuar atendendo Francisco. A razão é a posição política dos pais da criança.

A mensagem que Maria Dolores mandou para Ariane foi a seguinte:

"Bom dia Ariane. Estou neste instante declinando em caratér irrevogável, da condição de Pediatra de Francisco. Tu e teu esposo fazem parte do Partido dos Trabalhadores (ele do Psol) e depois de todos os acontecimentos da semana e culminando com o de ontem, onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e a cores, para todos verem (representante maior do teu partido), eu estou sem a mínima condição de ser Pediatra do teu filho. Poderia inventar desculpas, te atender de mau humor, mas prefiro a HONESTIDADE que sempre pautou minha vida particular e pessoal.

Se quiser posso fazer um breve relatório do prontuário dele para tu levar a outro pediatra.

Gostaria que não insistisse em marcar marcar consultas mais.

Estou profundamente abalada, decepcionada e não posso de forma nenhuma passar por cima dos meus principios. Porto Alegre tem muitos pediatras bons. Estarás bem acompanhada

Espero que compreendas."

Ariane é suplente de vereadora pelo PT, em Porto Alegre. Mesmo que Francisco fosse filho de psicopatas assassinos, a posição de Maria Dolores é um absurdo. O que tem a criança a ver com os pais? O moleque é petista? Amigo do Lula?

E aliás, e se fosse?  Seja a consulta de rotina ou emergência, tem um médico o direito de discriminar quem vai atender? Pela cor, idade ou gênero do paciente? Pelo partido que vota ou time que torce? Maria Dolores nem disponibilizou o prontuário de Francisco para os pais, para que eles possam levar a outro médico.

Isso tudo é uma infâmia.

Mas tudo sempre pode piorar. E frequentemente piora.

Ariane denunciou Maria Dolores ao Conselho Regional de Medicina, o órgão dos próprios médicos que julga casos relativos à ética. Se valerem alguma coisa, cassam o diploma dessa mulher.

Quem saiu em defesa dela? Acredite: o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Paulo de Argollo Mendes. Em entrevista ao jornal Diário Gaúcho, declarou: "Ela tem a nossa admiração".

Como é que é?

Para Mendes, a postura da médica foi "absolutamente ética...  Se tem alguma coisa que te incomoda e que tu achas que vai prejudicar a tua relação com o teu paciente, se tu não vais se sentir confortável, se não vai ser prazeroso para ti atender aquela pessoa, tu deves dizer para ela francamente: olha, prefiro que tu procures um colega."

Se você não se sente confortável com um paciente porque ele é corintiano, vesgo, paraibano ou tucano, a postura ética é se negar a atender? Isso lá é coisa que o presidente de um sindicato que representa os médicos possa dizer? E manter a função? E manter o diploma?

Você, caro leitor antipetista, pode perfeitamente detestar Lula e torcer pelo impeachment de Dilma. É seu direito democrático. Agora imagine por um segundo que a história fosse o contrário: uma médica petista se recusando a atender uma criança, porque o bebê é filho de um eleitor do PSDB. E o presidente do sindicato aplaudisse. É absurdo ou não é?

Democracia é conflito abrandado por regras de civilidade, comuns a todos. Quando você se recusa a aceitar o outro porque ele é diferente de você, não está exercendo seu "direito". Está negando o direito do outro. Essa é a prática das ditaduras, do nazismo, do stalinismo.  Quando vindo de um médico - que se nega a atender um bebê! - é ainda mais repulsivo.

Essa história sintetiza exatamente o que há de mais errado sobre a situação que vivemos. Anos de discurso cada vez mais agressivo - dos dois lados - criaram um clima de "se você não está com a gente, está contra a gente", que justifica cada vez mais preconceito, ignorância, violência. Outro dia bateram num cachorro na rua porque estava com uma bandana vermelha...

Escrevi aqui semana passada que ganhe quem ganhar a queda de braço que hoje paralisa o país, vencedores e derrotados terão que conviver no dia, mês, anos seguintes.  O final era assim:

"Entendo que a juventude tenha fantasias revolucionárias em que nos livramos de "tudo que isso que está aí", seja "o que está aí" o que for. Mas adultos não têm esse direito. Você pode fantasiar com um Brasil sem o PT. Ou um Brasil sem ninguém para se opôr ao PT. Pode fantasiar com uma solução imediata e definitiva para o Brasil. Ou até com uma explosão, um momento mágico que nos faça começar do zero.
É só fantasia. O Brasil será o que fizermos dele - com o povo que temos, a elite que temos, os políticos e policiais e professores e juízes que temos. Essas pessoas estarão conosco por muitos e muitos anos. O Brasil do futuro terá Sarney, Collor, Lula, FHC, Dilma etc; seus filhos, netos, apadrinhados. Teremos que fazer um país melhor com a presença de "tudo isso que está aí".

Faltou dizer que não dá para fazer um país melhor para a geração do Francisco aceitando a postura imoral, imbecil de gente como Maria Dolores e Paulo de Argollo Mendes.  O caminho para o Brasil que merecemos exige o exercício diário da tolerância. Mas nunca, jamais com os intolerantes.

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em 29/03/2016 às 17:54

O modernismo militante e o triunfo místico, material de Mondrian

 O modernismo militante e o triunfo místico, material de Mondrian

Piet Mondriaan pratica Yoga, 1909

A pulsão revolucionária do modernismo foi castrada pelo capitalismo e pelo stalinismo. É uma das premissas provocantes do livro Militant Modernism. Reúne quatro ensaios do inglês Owen Hatherley. Revisitam momentos marcantes da arte moderna. Detalha como seu ímpeto transformador foi pervertido por uma narrativa e prática essencialmente reacionárias - nos espectros opostos da política do século 20.
Hatherley escreve sobre Brecht e Reich e brutalismo e construtivismo como se fosse 1982 e ele assinasse uma crítica sobre o show doidaço de alguma banda estreante em um daqueles semanários musicais que formaram minha geração, NME, Melody Maker. O cara convence, que é o que queremos de um crítico-herói do rock: que me seduza e me leve pra cama; que messianicamente me faça atravessar para o outro lado.
Trechos exigem paciência. Arquitetura britânica do pós-guerra te interessa? Mas o livro vale cada linha e chuta portas. Owen não só propõe uma nova visão e uma re-visão do modernismo, como advoga a relevância da atitude modernista para o século 21. E com uma perspectiva de esquerda de verdade - visionária, não-rancorosa e completamente livre de picuinhas autovitimizantes. Um furacão de ar fresco. Livro de 2008. Owen está no Twitter. Siga ele lá.
Hatherley não me deixou em paz na exposição sobre Piet Mondrian e sua turma, o movimento De Stijl. É a maior que o Brasil já viu sobre o artista. Veio prontinha da Holanda. As peças ocupam criativamente o espaço encantador do Centro Cultural Banco do Brasil. Aqui quadros, ali móveis, linha do tempo em um corredor, plaquinhas pra todo lado, um móbile no vão do CCBB, brinquedos interativos pras crianças no térreo. Corre que ainda dá tempo, vai até o dia 4 de abril.

É hagiográfica, como todas essas exposições, Frida, Dali - aquela babação de ovo com "o gênio". Mondrian está nesse mesmo time, dos criadores que viraram marca, "brand", nome de uma palavra só, para colocar em tudo que é badulaque licenciado.
As linhas e cores primárias de Mondrian estão em copo, chaveiro, lancheira, roupa e até hotel. Em brinquedos e videoclipe de Kate Perry. Rendem fortunas em licenciamento. Têm significado. Não está à mostra, nem na mostra.

katy perry this is how we do 05 o424xq 1024x576 O modernismo militante e o triunfo místico, material de Mondrian

O pincel de Piet Mondriaan era guiado pela fé. Como Kandinsky e Malevitch, sua doutrina era a secreta: a teosofia. Rudolph Steiner, também seguidor de Madame Blavatsky, descreveu a teosofia como filosofia, e não religião. Era ambos. Uma ambiciosa tentativa de superar o cisma entre fé e ciência, leste e oeste, o progressismo da era industrial com o conhecimento (superstição?) dos antigos. Para os teosóficos, a evolução se dá através de sucessivas encarnações; uma ordem cósmica perfeita rege nosso avanço; é possível capturar essa harmonia perfeita aqui e agora, se nos subordinarmos a estas regras universais.
A meta pessoal e artística de Mondrian era ser um canal do eterno para o terreno. Uma conexão espiritual com o eterno, além dos sentidos e da história - e, artista maduro, da representação reconhecível do mundo. É uma procura e uma fuga, e boa época para fugir; a arte de Mondrian passou por duas guerras mundiais como se não fosse com ele.
A espessura de suas linhas negras tem um sentido. O abandono de uma paleta variada pelas cores primárias tem um sentido. A recusa de traços diagonais tem um sentido. Tudo é sentido espiritual na simplicidade aparentemente infantil, industrial de Mondrian, como fartamente documentado pela crítica de arte. Mais importante: o próprio artista explicitou as regras que dominariam sua produção em textos teóricos, onde explica o Neoplasticismo (e o Neoplatonismo!).
Aqueles quadradinhos coloridos - juro - são a representação do espírito humano em evolução, dentro de uma ordem cósmica, perfeita, imutável. Como o comunismo de Stálin e, aliás, o supercapitalismo financeiro do século 21, inimigos então e agora de tudo que é imperfeito, falível, humano.
Mondrian era um fundamentalista. Seus últimos anos sugerem um afrouxamento - jazz, círculos, alegria. O estrago já estava feito. As certezas de Mondrian deixaram uma herança autoritária. A forma virou fôrma. Até que qualquer pintor figurativo fosse automaticamente considerado menor e despachado pelos críticos e marchands para a lata de lixo da história da arte, com o apoio e financiamento do Departamento de Estado americano, que achava bem melhor arte abstrata do que arte de protesto. As alegres caixinhas coloridas, decoração para qualquer quinquilharia na lojinha do CCBB, escondem uma herança estéril: a arte que diz respeito a artistas.
Caminhando de lá para o metrô Sé, eu matutava sobre a falta que essa contextualização faz na exposição do CCBB. Sobre o que pensaria Mondrian dessa ausência. E que faria o pintor da ubiquidade, do sucesso material de sua obra no século 21? Do buffet self-service que é a vida espiritual de nosso tempo, que faz a Teosofia parecer sólido porto seguro?
A paisagem desoladora me impôs Hatherley. O centro de São Paulo que não é mais centro de nada, um projeto de cidade que não deu certo, obras-primas parede a parede com prédios queimados, abandonados. E do outro lado da cidade, todo o Capital da capital na Berrini, em cofres-forte de concreto e vidro. Arquitetura inumana, material e espiritual, que domina com suas certezas imutáveis o mundo, de Nova York a Moscou a Pequim.
E o humanismo? Sobrevive na dúvida, eterna.

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"Evolução", tríptico de Mondrian inspirado por seus estudos Teosóficos, pintado entre 1910 e 1911

Publicado em 17/03/2016 às 16:21

Mudança é só fantasia. A realidade é Maluf julgando corrupção…

lula haddad maluf alianca 1 1024x729 Mudança é só fantasia. A realidade é Maluf julgando corrupção...
Você deseja que Lula e Dilma sumam da face da Terra. Os fãs de Lula e Dilma desejam que Sérgio Moro e todos esses juízes e policiais federais vão para o raio que os parta. O governo deseja governar sem oposição para incomodar. A oposição quer chegar ao poder para governar sem o PT na área para atrapalhar. Todos desejamos que o Brasil se livre de vez dos corruptos e dos corruptores, volte a crescer e todo mundo viva feliz para sempre. Trabalhando como europeus, gastando como americanos, e de preferência sem estragar o meio ambiente.
Mas confundir desejo com realidade é uma fantasia infantil. Bebês pensam que o mundo que os cerca é só uma extensão deles mesmos. Criancinhas têm certeza que todos à sua volta estão ali para os servir. Adolescentes têm certezas sobre tudo, pressa infinita, paciência zero.
Quem já é adulto deveria saber que não é assim que as sociedades funcionam.
Aconteça o que acontecer, daqui a dois, cinco, dez, vinte anos estaremos lidando com muitos desses personagens e muitos desses problemas. Você não vai se livrar de Lula, Moro, Dilma, Alckmin, Bolsonaro, Jean Wylys etc. Tirando morte, eles vão permanecendo. Boa parte dos protagonistas da política brasileira em 2016 já estavam na cena nos anos 70; outros, como Sarney, Fernando Henrique, Serra e José Dirceu, são remanescentes dos anos 60.
Também é o caso de Paulo Maluf, que acaba de ser indicado por seu partido, o PP, para integrar a comissão que vai julgar o impeachment. Maluf é procurado em todos os países decentes do planeta. É um acinte que um corrupto do seu porte esteja lá julgando a corrupção dos outros? Mas ué, ele é amigo de todos. Apoio não se nega, dizem os candidatos, então lá estava Maluf passando a mão na cabeça de Haddad, nosso prefeito "moderno". Maluf que falava bem de Lula, Maluf que agora lança Alckmin candidato a presidente.
Idem Collor, que sofreu impeachment. Nos livramos dele. Depois de uns anos, voltou, e queridísismo dos seus antigos inimigos. Idem tantos que já foram julgados e condenados, ou foram só julgados e condenados pela opinião pública. Idem os filhos, netos, bisnetos que vão herdando fortunas e carreiras políticas. E mesma coisa com os grandes empresários, banqueiros, fazendeiros, barões da imprensa.
Tenho meio século de idade e nenhuma ilusão sobre soluções mágicas. Entendo que a juventude tenha fantasias revolucionárias em que nos livramos de "tudo que isso que está aí", seja "o que está aí" o que for. Mas adultos não têm esse direito.
Você pode fantasiar com um Brasil sem o PT. Ou um Brasil sem ninguém para se opôr ao PT. Pode fantasiar com uma solução imediata e definitiva para o Brasil. Ou até com uma explosão, um momento mágico que nos faça começar do zero.
É só fantasia. O Brasil será o que fizermos dele - com o povo que temos, a elite que temos, os políticos e policiais e professores e juízes que temos. Essas pessoas estarão conosco por muitos e muitos anos. O Brasil do futuro terá Sarney, Collor, Lula, FHC, Dilma etc; seus filhos, netos, apadrinhados. Teremos que fazer um país melhor com a presença de "tudo isso que está aí". O primeiro passo para mudar a realidade é aceitá-la. Lide com isso.

Publicado em 16/03/2016 às 15:22

Temos que endurecer com Lula

Lula ag Estado1 1024x698 Temos que endurecer com Lula
Ao virar ministro Lula ganha foro privilegiado para se defender das acusações da Lava-Jato. E pode até conseguir que sua mulher e filho também tenham. José Dirceu conseguiu, no processo do mensalão. Mas com isso Lula também tem uma grande perda. O de ser um brasileiro igualzinho a você, nos direitos e deveres; somente um cidadão particular.
Influente que fosse, até ontem Lula era um ex-presidente. Tinha que responder pelo seu passado no poder. Agora terá cargo público importantíssimo e influentíssimo. É mais que um ministro; será de fato um primeiro-ministro; talvez estejamos assistindo ao início do seu terceiro mandato de fato. Que, como o próprio já anunciou, será seguido de uma candidatura a presidência em 2018. E outra em 2022? Lula quer se eternizar no poder? É o que parece.
Agora que está de volta ao Palácio do Planalto, Lula tem que responder não só por seu passado. Mas por cada minuto do seu dia. Porque agora é o gestor do nosso dinheiro, do nosso futuro. Porque tudo leva a crer que pretende continuar lá por muito tempo. Sendo ministro, é nosso funcionário, pago com nossos impostos. Daqui para frente tem que merecer escrutínio permanente, marcação minuto a minuto. Cada ato seu tem que ser julgado pelos brasileiros com rigor redobrado. Pensando nos efeitos de suas ações hoje e no que elas podem representar no futuro.
Agora alguns vão questionar legalmente se Lula pode ou não ocupar esse ministério. A justiça decidirá. Lula fica? Lula vai? Economia derrete ou melhora? Façamos nossas apostas amanhã. Hoje o ponto principal é outro. Vamos falar do que é certo e do que é errado. Vamos falar de como deve ser a nossa postura, a de todos os brasileiros, com relação a Lula.
Ninguém sob investigação criminal deveria ocupar cargo público. Seja de que partido for. Muitos ocupam, em administrações de todos os partidos, no executivo e legistlativo. Até gente que já foi condenada. O caso de Paulo Maluf é o mais escandaloso, mas um entre muitos. Lula não faz nada diferente do que tantos outros. É explicação, mas não é desculpa. Não é porque é normal, ou legal, que é moral. Sim, o Brasil aceita essas lambanças. Lula é só mais um caso. Mas não é um caso qualquer: é Lula. E sendo Lula, e estando de fato voltando ao centro do poder, e lá pretendendo permanecer, exige nossa vigilância cerrada. Mesmo que você seja fã dele, é preciso endurecer com Lula.

Publicado em 14/03/2016 às 16:25

Moro não é nosso Trump. É o novo Collor

moro1 1024x601 Moro não é nosso Trump. É o novo Collor
Os protestos do dia 13 só tiveram um vencedor claro: o juiz Sérgio Moro. Porque representa a Justiça? Não, porque é o herói dos justiceiros. Os que mais aplaudem o juiz são os que menos têm paciência para os trâmites da lei, a demora das instituições, o rame-rame das votações pelo impeachment. Gritaram "Fora Dilma" e "Lula na Cadeia", porque, sabe, "já está provado" que eles cometeram esse e aquele crime. Bem, não, ainda não...
Os manifestantes bradam por soluções rápidas e definitivas, o exato contrário do que a democracia advoga e Moro promete. Ninguém sério acusa o juiz de lambança. Mas as últimas duas semanas foram de quebra-quebra entre os que ganham e os que perdem com a Lava-Jato. A suposta imparcialidade de muitos policiais, juízes e promotores foi para as cucuias. A postura pseudo republicana de Dilma e Lula também. Agora é briga de torcida. Há de esquentar mais.
Melhor amornarmos os ânimos. O país não ganha nada canonizando ou demonizando Moro. Suas fanzocas acríticas são tão equivocadas quanto lulistas cegos que o tiram de canalha oportunista. Não quer dizer que não tenha um futuro como político. Sérgio seria inumano se não estivesse pensando nisso.
Mas comparações entre Moro e Trump são forçação de barra. Moro é um preparado juiz paranaense com as simpatias habituais dos magistrados. Trump é um bilionário mitômano que se reinventou como populista de direita. Candidato a cargo público, Moro trocaria o papel de estilingue pelo de vidraça. Rifaria a aplaudida independência pela dependência financeira dos patrocinadores habituais de campanhas eleitorais. Para seus fãs, que fizeram esse domingo uma gigantesca manifestação política contra a política (!), ser candidato a qualquer coisa é automaticamente suspeito.
As massas que protestaram são o exato contrário de "massas". São só muita gente. Não têm nada que as una organicamente, fora o ódio "contra tudo que está aí". A pesquisa do Datafolha na Paulista detalha: classe média alta, maioria acima dos quarenta anos, brancos em maioria esmagadora, claro. São o exato perfil de quem votou nas últimas eleições em Aécio, não por ele, mas por ser o candidato contra o PT. Este domingo foi o terceiro turno para o antipetismo radical.
Os cenários futuros mais prováveis, com ou sem Dilma, indicam a permanência no poder do saladão fisiológico habitual. É cenário de horror para quem quer corte seco com o passado, para quem saiu às ruas no dia 13. Sejam os muitos inteligentes e bem-intencionados, sejam os mais raivosos e ruidosos, que carregavam cartazes exigindo intervenção militar. Ou, mais suaves, aplaudiam Moro e PF + MP - polícia federal e ministério público.
A classe média em qualquer lugar do mundo sonha, como a nossa, com "Ordem e Progresso". Com alguns dando as ordens, e a sociedade obedecendo; quem desobedecer, polícia neles. E com todos progredindo, o que significa mais dinheiro no bolso, ano após anos. E quem atrapalhar, cana.
Isso nada tem a ver com as bagunças da liberdade e as sujeiras da democracia. É uma fantasia. Tão fantástica quando forçar o México a construir um muro que separe o país dos EUA. Faz cada vez mais sucesso pelo mundo afora, o que explica em grande parte Trump, mas também Bernie Sanders. Com a desigualdade crescendo sem parar, os super ricos perderam sua base de apoio tradicional, a classe média. Que rejeita o establishment, sem ter nada de seu para pôr no lugar.
Quando a própria atividade política é automaticamente razão para suspeita, o único político aceitável é o que suspeita dos políticos. Como Trump e Sanders. Ou como na Espanha o Podemos e o Ciudadanos. É claro que quando eles chegam lá, mostram que não eram tão apolíticos assim... como, aliás, fez Lula.
Alimentar essas fantasias assépticas da classe média requer "um novo tipo de político", que é contra os políticos (acredite quem quiser). É oportunidade perfeita para o campo ultraconservador brasileiro, umbilicalmente ligado a Wall Street. Quem saiu às ruas ontem ou bateu palmas pela TV é potencial eleitor do próximo ungido da nossa elite. Há quem tema Bolsonaro. É um bufão. Caiado teria mais o perfil, mas já coroa, com longo currículo. Passou do ponto. Melhor quem nunca tenha ocupado cargo público. Alguns tentaram colar Joaquim Barbosa, da última vez.
Logo começarão a aparecer potenciais candidatos aos principais cargos da nação e, claro, à presidência. Se fosse hoje, Moro teria muitos votos. Sabe-se lá quando teremos nova eleição e o que Moro será até lá. Mas orna, né? Moro para presidente, tanto faz o partido. Você votava nele?
Como nos EUA, onde bilionários mudaram completamente o cenário político, a ponto da vaga republicana estar sendo disputada entre Trump e o ultradireitista Ted Cruz, candidatos no Brasil com esse perfil antipolítica podem não ganhar. Mas no mínimo puxam o debate político para a brasa de seus patronos. Tem financiador no Brasil para candidatos desse perfil? Ô se tem. Mesmo depois da Lava-Jato.
Não duvide que entre os candidatos a presidente do Brasil teremos um "puro". Que não seja Moro, vai rescender a Moro. Pai de família, jovem e bem-sucedido, incorruptível, batalhador, um inimigo dos políticos, um... caçador de marajás? Quem tem mais de quarenta já viu esse filme. Mas os mais jovens não viram. E os mais jovens são a grande maioria dos eleitores.
Collor quase deu certo. Faltou na hora H a adesão dos tucanos, defendida por Fernando Henrique e barrada por Mário Covas. Quase que escapa do impeachment. Mas Collor funcionou para barrar a eleição de Lula em 1989 e "modernizou", "abriu" o país. Nos dias de hoje há quem diga que perto do PT, Collor era a honestidade em pessoa.
Moro não é Collor, e 2016 não é 1992. Só lembro que Collor também foi pintado como salvador da pátria, e seus fãs tinham o exato perfil dos manifestantes deste domingo. Nunca é demais repetir que a história se repete - como farsa.

Publicado em 10/03/2016 às 17:13

Só tem uma boa razão para você protestar no dia 13: se você é rico (ou banqueiro)

vai fica1 Só tem uma boa razão para você protestar no dia 13: se você é rico (ou banqueiro)
Lula na cadeia? Lula fora da cadeia? Cunha, Dilma, Aécio? Vamos falar de coisa séria: dinheiro. Vamos falar de quarenta e oito bilhões de reais. É quanto lucraram em 2015 o Bradesco, Itaú e Santander. Foi R$ 20,6 bi para o Itaú, R$ 19,9 bi e R$ 6,6 para o Santander. Considerando que 2015 foi ano de crise brava, você poderia imaginar que o lucro dos bancos ia cair. Em vez disso, subiu. Bradesco teve lucro 16,4% maior que em 2014; Itaú, 15,6% maior; Santander, 13,2% maior.
E em 2016? A crise econômica apertou. Será que os bancos vão conseguir ter lucros gigantescos novamente? Com a palavra, os próprios bancos, conforme reportagem de Felipe Marques e Vinícius Pinheiro no Valor Econômico. O Itaú indicou a analistas que seu lucro pode cair em torno de 15% ao ano (seria de um pouco mais de R$ 17 bilhões). O Credit Suisse avalia que o Bradesco deve ter uma queda similar, de 14% (também ficaria em torno de R$ 17 bilhões). Já o presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial, garante que o Santander terá lucros maiores esse ano no país. Se essas previsões se confirmarem, os bancos terão lucros gigantescos, no meio da maior recessão da nossa história em décadas. Mas serão lucros menores que em 2015.
Isso, se nada mudar.
Mas os bancos brasileiros, os bancos internacionais, e quem tem muito dinheiro pra investir, seja brasileiro ou estrangeiro, torcem para que uma coisa mude. Uma coisa só. E mude o mais rápido possível.
E essa coisa é a taxa de juros.
Para os especialistas, a queda projetada no lucro dos bancos em 2016 está ligada a três elementos. A diminuição do crédito, o aumento da inadimplência, e a taxa de juros. O crédito vai continuar caindo. Os calotes vão continuar aumentando. O país está em uma recessão brava e não levanta tão cedo. É inevitável que os bancos emprestem ainda menos para empresas e para pessoas físicas. E natural que fazer uma provisão maior dos seus recursos para se protegerem da inadimplência.
Sobra uma única coisa que pode fazer os lucros dos bancos serem muito maiores do que está projetado para 2016. Basta uma canetada. Basta o Banco Central do Brasil subir a taxa de juros. Hoje a taxa básica, a Selic, está em 14,25%. É altíssima para padrões internacionais. É cretiníssima, considerando-se que o país está em recessão, e que a inflação que temos não tem nada a ver com demanda. É resultado direto da desvalorização do real, da instabilidade política e do tarifaço promovido pelo próprio governo ano passado. O PIB está despencando e mesmo assim nossa taxa de juros está nas alturas.
Mas não está alta o suficiente para fazer o lucro dos bancos voltar ao patamar de 2015. E, mais preocupante ainda para os banqueiros, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, já sinalizou que a taxa vai ficar estável, nesse patamar. Ou até, quem sabe, apareça oportunidade para baixá-la.
Donde a pressão dia e noite para que o Banco Central suba os juros. Nos programas de TV, nos artigos dos especialistas, nas análises dos experts internacionais. Donde a pressão sobre Tombini e Nelson Barbosa, fiadores dessa política, e Dilma, chefa dos dois. Dilma que já tentou baixar o patamar dos juros brasileiros anos atrás, na canetada, e levou lambada de tudo que foi lado.
O que acontece se o juro baixar? Diminui o lucro dos bancos. Diminui o lucro de quem tem muito dinheiro investido nos bancos. Não é que eles não vão lucrar. Vão lucrar e muito. Mas não nos patamares indecentes que lucram hoje.
Pela razão que seja, Dilma resiste a subir ainda mais os juros. Então engrossa a cada dia a campanha para o Brasil trocar Dilma por um presidente mais "alinhado com o mercado". Que faça "os ajustes que o Brasil precisa". Que corte na previdência, nas aposentadorias, no valor do salário mínimo. Que nos garanta boas notas das agências de rating. E, claro, que aumente os juros - porque é isso que o Brasil precisa para "restaurar a credibilidade"...
O roteiro da mudança é claríssimo. É fazer exatamente o que está sendo feito na Argentina. O presidente recém-eleito, Maurício Macri, criou uma equipe econômica que é uma perfeita filial de Wall Street. A Bloomberg, que é a voz jornalística mais influente no mercado financeiro global, publicou uma reportagem com o seguinte título: "JPMorgan and Deutsche Bank Boys Are Running the New Argentina" ("os caras do JPMorgan e Deutsche Bank estão dirigindo a Nova Argentina"). É isso. O novo ministro das finanças, Alfonso Prat-Gay. é veterano do JPMorgan. Escolheu como seus braços direitos, para fazer a gestão da dívida do país, outros dois ex-JPMorgan, Luis Caputo e Santiago Bausili. Caputo chegou a ser diretor geral do Deutsche Bank na Argentina. O secretário executivo do Ministério, Mario Quintana, criou o fundo de investimentos Pegasus Venture Capital. E por aí vai. É tudo gente que veio do Goldman Sachs, Barclays, Morgan Stanley. Os postos chave do novo governo argentino estão todos ocupados por financistas, executivos, economistas de banco. Não é à toa que os credores da Argentina estão chamando essa turma de "a melhor equipe econômica da região."
A política econômica atual do Brasil é desastrosa para o país. É necessário e urgente mudá-la. Isso sim seria uma ótima razão para protestos de milhões. Mas os que estão à frente do movimento para tirar Dilma do Planalto têm um projeto ainda mais danoso que o dela (por difícil de imaginar que seja). O protesto deste dia 13 tem como objetivo final tirar Dilma e colocar em seu lugar - bem, quem? E para fazer exatamente o quê? Isso os líderes dos protestos não dizem. Ficam em brados vagos, combater a corrupção etc.
Não falam porque não ganham nada assumindo que o plano para o Brasil é o "Plano Argentina". É ocupar o governo brasileiro com banqueiros. Priorizar os ganhos financeiros e não quem trabalha, produz ou empreende. Piorar a rede de proteção social dos pobres, piorar os serviços, privatizar a qualquer custo e preço. Cortar na carne de quem já está pele e osso. E encher ainda mais os cofres de quem já tem muito, no Brasil e no exterior. Se você pensa que a vida está difícil sob Dilma, não sabe o que te espera.
Isso lá é razão para defender Dilma? Mas de jeito nenhum. Não se trata de defender ou atacar um lado. Se trata de colocar em pauta o que realmente interessa, e o que está acima dos partidos e das pessoas: vamos construir um país mais justo, mais produtivo, mais educado e menos corrupto? Como fazemos isso? Brigando pelo que é importante, não "contra tudo que está aí".
Se você é rico e vai lucrar ainda mais se Dilma for trocado por algum fantoche de Wall Street, ué, vá para as ruas defender seu interesse. Se você é um dos 99,9% dos brasileiros que não vivem de juros, pense duas vezes.

Publicado em 04/03/2016 às 17:29

Lula está na mira, mas o alvo é Dilma

lula 2 1024x682 Lula está na mira, mas o alvo é Dilma
Lula e Dilma estão no banco dos réus. De lá jamais sairão. Uma eventual condenação abrirá a porta para novas acusações. Mas nem precisa. Mesmo se inocentados, permanecerão sob fogo cerrado. A missão de longo prazo é impedir Lula de voltar a concorrer para presidente. A missão imediata é impedir Dilma o quanto antes. O show de hoje, e de todo dia, é para atingir esse objetivo. Show que não tem data para acabar.
Agora bateram mais forte que nunca em Lula, e mais dolorido, em sua família. Ele promete bater de volta. Como todo poderoso e famoso, tem convicção que é um escolhido, e agora certeza que é perseguido. Diz que irá aos quatro cantos do país. Convoca petistas, sindicatos, sem-terra. Falou como falava nos palanques. Deve ter eletrizado os simpatizantes. As manifestações pró e contra Lula e Dilma vêm aí. Arrisca aparecer um mártir. O Brasil vai mal? As coisas sempre podem piorar - e frequentemente pioram.
As investigações são detalhe. Não se trata de provar crime. Se trata de criar um clima político que leve à cassação de Dilma e, sonho dourado, cadeia para ela e Lula. Por enquanto não existe prova de nada contra Dilma, pessoalmente. Mônica Bergamo, na Folha, noticia que a construtora Andrade Gutierrez pode dar à Lava Jato informações sobre pagamentos feitos à campanha de Dilma em 2014, via caixa dois. Se isso acontecer, pode chegar a justificativa necessária para o impeachment da presidente.
Dilma é peso pena que qualquer vento leva. Por mérito pessoal, jamais seria presidente. Lula ganhou quatro eleições para presidente, duas para si, duas para Dilma. Por isso, e pela sua desastrosa gestão da economia do país, é que ela é uma presidente tão fraca.
Lula foi o maior líder de massas que esse país já viu. Foi eleito para priorizar as necessidades dos pobres que o elegeram. Priorizou os grandes - grandes indústrias, grandes bancos, grandes grupos educacionais, grandes fazendeiros, grandes obras, grandes ganhos para quem tinha grandes fortunas. Não ignorou completamente os necessitados, raridade na nossa história. É sua única redenção e justificativa para seu grande capital eleitoral. Esses passinhos que deu na direção de uma melhor distribuição de renda já são pecado mortal para os poucos que têm muito. A profundidade do preconceito de classe no Brasil é poço sem fundo.
Corrupção é mato na história política do país. O papo que o PT "institucionalizou" é só isso, papo. A oposição grita contra Dilma e Lula. Como se o Congresso, presidido por Renan e Cunha, em que a maioria responde a processos, tivesse moral para clamar pela ética. Como se o PSDB não tivesse rencas de acusações a responder. Mas são sempre dois pesos, duas medidas. Lula e companhia têm muito a explicar. Alckmin, Aécio, Serra etc. também. Cadê os paladinos da justiça para encrencar com o PSDB? Fernando Henrique Cardoso corrompeu deputados para garantir a aprovação da emenda da reeleição, que o beneficiou. A Polícia Federal nem investigou... vão bater na porta dele no dia de São Nunca.
Otimistas entendem que o Brasil sairá melhor da Lava-Jato do que entrou - e que se for para começar a limpa pelo PT, que assim seja. Mas investigar de um lado só não é justiça, é perseguição política. Sim, será um país melhor com políticos corruptos na cadeia. Mas não se forem todos de um partido só. Não precisa muito para ampliar o escopo da Lava-Jato. Basta perguntar aos empresários corruptores, envolvidos na Lava-Jato quanto dinheiro deram para o PSDB e outros partidos da oposição, quanto pagaram por palestras, que benefícios suspeitos financiaram. Fácil e difícil assim.
A quem beneficiaria estender a investigação de corrupção ao PSDB, PPS, Democratas, Solidariedade etc.? Não ao "mercado", e como se sabe, quem dita as regras do jogo é quem tem dinheiro. Por que a bolsa sobe e o mercado financeiro celebra quando há cheiro de impeachment de Dilma? Porque o PSDB é ainda mais pró-bancos que o PT, claro.
É diferença sutil, mas há diferença. O PT governou com as elites, mas sua base é o povão. O PSDB é a própria expressão eleitoral da elite, a de verdade e a que aspira a ser. Ambos são partidos de centro, por isso arquiinimigos. Não têm ninguém com expressão eleitoral à esquerda deste centro. Á direita temos conservadores de todos os matizes.
Dilma é o alvo. Mas os tucanos têm receituário parecido com o de Dilma para tratar nossos problemas. Trocar o governo atual por uma outra coalizão fisiológica, só que com o PSDB à frente (e um PT furioso na oposição) seria trocar seis por meia dúzia. Com um agravante. As oposições defendem ainda mais benefícios para os ricos e ainda menos benefícios para os pobres. Os antipetistas querem "ajuste", que em português claro é menos dinheiro para educação, saúde, aposentadorias. Querem menos impostos (principalmente para os ricos) e juros sempre, sempre mais altos. Implementadas, as políticas defendidas pela oposição são garantia de acirramento da nossa desigualdade, que atrasa o país e é causa fundamental dessa penúria em que vivemos - material, intelectual, eleitoral. O tratamento arrisca matar o paciente.
Não que a saída de Dilma, e Lula fora do páreo, seja garantia de ascenção dos tucanos ao poder. No caso de convocação de novas eleições, pode acontecer qualquer coisa. O fastio do eleitor com os políticos está aí, em todas as pesquisas. Podemos eleger um populista de direita, um Trump à brasileira. Podemos eleger qualquer coisa.
Dilma pode sobreviver, mesmo com uma condenação de Lula, se não houver nenhuma prova contra ela? Sim. FHC terminou seu mandato, com o PT batendo forte, muitas acusações de corrupção, e pedidos de impeachment. Para ficar em um caso similar, outro "poste", Celso Pitta, que Paulo Maluf elegeu em São Paulo, também governou até o final. Podemos ter sim mais três anos de Dilma no poder, crise econômica se aprofundando, crise política pegando fogo. Considerando o estado do Brasil, a pergunta é: para quê?

Publicado em 01/03/2016 às 13:21

A lei é cretina, mas é a lei

 A lei é cretina, mas é a lei

Diego Dzodan, vice-presidente do Facebook

O vice-presidente do Facebook chegou ao Brasil e foi preso pela Polícia Federal. O pedido de prisão preventiva de Diego Jorge Dzodanpartiu de um juiz da comarca de Lagarto, em Sergipe. A razão é “descumprimento de ordens judiciais”. De fato foram dadas ordens. De fato elas não foram cumpridas.

A justiça solicitou endereços físicos de suspeitos de tráfico, para serem usadas em uma investigação de crime organizado. Eles trocavam mensagens pelo Facebook e pelo Whatsapp.

Segundo a própria Polícia Federal, o executivo foi procurado três vezes nos últimos meses. Sem resposta do Facebook, o juiz estipulou multa diária de R$ 50 mil. Ela não foi cumprida por trinta dias. Depois a multa aumentou para um milhão de reais por dia. E nada de resposta do Facebook. E agora o executivo foi pra cadeia.

Dá vergonha? Dá. Mas é um absurdo que ilumina outros dois absurdos. Façamos do constrangimento um chamado à ação.

O poder judiciário brasileiro está cada vez mais espaçoso. As sociedades abominam o vácuo. O poder executivo abandonou o protagonismo. O legislativo escandaliza pelo toma-lá-dá-cá e se perde em picuinhas partidárias. Então juízes, promotores, delegados estão se concedendo cada vez mais poder. Um país civilizado requer leis decentes e Justiça que as garanta, mas uma nação não é delegacia, tribunal ou cadeia.

Então a primeira coisa que essa prisão de Diego inspira é a questionar essa militância do judiciário. Que frequentemente desliza para militância partidária e gana de aparecer. Vamos celebrar que nossa Justiça é melhor que nos anos que passaram, mas vamos reconhecer que falta muito para ser a instituição de que o Brasil precisa. Será que não estamos precisando de uma boa reforma no Judiciário, de Sergipe ao Supremo?

Segundo: um país precisa de leis decentes, que a Justiça garanta, e todo mundo cumpra igualmente. Não é o caso do Facebook, que é dono do WhatsApp. O aplicativo é vital na vida de mais de cem milhões de brasileiros. E mesmo assim o Whatsapp não existe como empresa no Brasil. Assim, quando há um questionamento judicial envolvendo o WhatsApp, quem é responsabilizado é o Facebook. Está certo? Está certíssimo.

Não é a primeira vez que coisa desse tipo acontece. O primeiro caso marcante foi a prisão do presidente do Google, Fábio Coelho, em 2012, por causa de ordem judicial - um juiz de Mato Grosso do Sul mandou o Google tirar do ar vídeos postados no YouTube contra um candidato a prefeito. O Google disse que não podia tirar, porque a responsabilidade sobre o conteúdo é de quem postou. Deu problema, ficou por isso mesmo.

Em dezembro de 2015, a Justiça mandou suspender o WhatsApp. A base do bloqueio é a lei do Marco Civil da Internet, que exige que serviços ofertados no país respeitem a legislação brasileira. O bloqueio ficou só 12 horas fora do ar. Pela lei, o WhatsApp deveria estar bloqueado até agora. De novo: deu problema, ficou por isso mesmo.

As empresas que atuam no Brasil têm obrigações iguais perante a justiça, sejam brasileiras ou estrangeiras. Não tem o menor cabimento a padaria da esquina ser obrigada a ter CNPJ e o WhatsApp, gigantesco, não. Os gigantes da internet frequentemente agem como donos do mundo. Mas do ponto de vista jurídico não existe "mundo", o que existem são países. Quer fazer negócio aqui, obedeça a lei daqui. Pague impostos aqui. Cumpra as regras daqui. No momento a Apple se recusa a obedecer uma ordem judicial nos EUA. É valentia e arrogância. Nenhum cidadão está acima da lei, e nenhuma empresa, pequena ou grande. A empresa que conteste o quanto puder nos tribunais; em última instância, quem decide o que é justo tem que ser a nação, não o CEO.

Claro que não é justo ou inteligente um juiz lá nas quebradas mandar bloquear o WhatsApp ou prender quem lhe dá na telha. Também não é ilegal. Se a lei é cretina, e o juiz sem noção, bem, é o preço de fazer negócios no Brasil (ou nos EUA, ou Angola, ou no Planeta Terra). Preço alto, como sabemos todos.

Quem sabe o Facebook se toca, toma a iniciativa de regularizar a situação do WhatsApp no Brasil, e inspira outras empresas globais a fazer o mesmo? O que vale para empresinhas tupiniquins tem que valer para empresonas estrangeiras.

Publicado em 24/02/2016 às 15:09

A primeira vez com os Rolling Stones ninguém esquece

stones 1024x576 A primeira vez com os Rolling Stones ninguém esquece
Da primeira vez que vi os Rolling Stones, comecei meu texto pelo título: "Qual o problema de Mick rebolar até os 51 anos?". Foi em 1995. Eu tinha trinta anos.
Esse ano quem faz 51 anos sou eu, e rebolarei no show dos Stones em São Paulo, garanto. É minha última vez e a primeira vez do meu filho. O moleque tem 12 anos. Quem sabe se terá chance de ver outra vez os Stones? Pelo pique dos velhinhos, aposto - torço - para que sim. Time is on our side.
Ainda que eles sejam a maior banda cover do mundo, são também a maior banda do mundo, ponto - e sempre serão.
O texto segue abaixo...

É fácil ver seu primeiro show dos Stones e decretar: "Eles ainda são a maior banda de todos os tempos" etc. É mais fácil ainda relegar os velhinhos ao papel de banda cover mais cara do mundo.
É fácil porque ambas as alternativas são verdadeiras. Especialmente a segunda, se você assistir "Voodoo Lounge" duas noites seguidas.
Não se engane: tudo que parece ser espontâneo, "visceral" e rock'n'roll no show é na verdade planejado até os minimíssimos detalhes (com um pequeno desvio-padrão: sábado não teve "Rocks Off" e "Midnight Rambler", teve "You Can't Always Get What You Want" e tal). Na manhã seguinte, não dá para ignorar o aspecto cabaré da coisa toda.
Nem sempre foi assim. Durante uns dez anos, os Stones realmente foram a maior banda de rock do mundo –a banda que duas gerações de pais mais detestaram.
Bem que eu queria ter visto os Stones naquela época, qualquer show entre o Marquee, Altamont e a turnê de 75. Deve ter sido realmente emocionante ver uma bandinha de blues inglesa e desajeitada se tornar um perigo para a sociedade.
Os idiotas objetivos nunca entenderam essa moral toda dos Stones. Claro que eles nunca foram muito mais que uma excelente banda de bar. Mas a questão não é musical.
Como resumiu um amigo, os Stones eram os maiores porque eram os maiores encrenqueiros. Bandidagem, satanismo, militância, drogas, promiscuidade, viadagem – tudo que antes dos Stones queimava a fita de qualquer um, depois dos Stones se tornou obrigatório para todo candidato a rockstar.
Hoje eles estão calminhos e vivendo do passado. Pode muito bem ser que o conceito de Rolling Stones 95 seja uma aberração. Num mundo ideal, o avião teria caído com Jagger e cia. dentro em algum dia de 1969. Assim poderíamos idolatrar nossos heróis em paz, sem o constrangimento de assistir ao aparecimento das rugas e das carecas.
Ou talvez sejam mais honestos dinossauros tipo Pink Floyd, que assumem compartilhar da senilidade do seu público.
Mas se o que nossa sociedade propõe é a adolescência eterna, qual é o problema de rebolar até os 51 anos? Mick Jagger nunca cantou "hope I die before I get old". Se a única oportunidade que o Brasil teve de ver os Stones foi agora, paciência. Nem sempre a gente consegue o que quer.
No final das contas, o que interessa sobre essa história de envelhecer é como você gastou o seu tempo. Várias bandas foram muito mais sedutoras que os Stones e nos levaram para a cama. Profetas menos diletantes que Mick Jagger nos convenceram que não havia futuro e o negócio era sair quebrando tudo. Gente sombria nos iniciou no ocultismo, gente bêbada propôs que cair pela sarjeta era a única saída, gente cínica defendeu que ficar rico era a melhor vingança.
Mas ninguém fez tudo isso, ao mesmo tempo, e tão bem. Só os Rolling Stones, a maior banda de rock de todos os tempos.

(E em 2012, quando eles lançaram sua última música inédita, Doom and Gloom, que tocam na turnê sul-americana, escrevi novamente sobre eles...)

Os Rolling Stones estão de volta. Nunca nos deixaram de fato. Nunca nos deixarão. É pantomima pelo menos desde Tattoo You, trinta anos atrás. É circo melhor que o de Soleil. Tem música nova no pedaço, Doom and Gloom. É um ganchinho pra nos enganar, pra nos levar a comprar a nova coletânea caça-níquel da banda, comemorando os cinquenta (!?) anos dos Stones. A música é Rolling Stones identificável a quilômetros, genérica, mas desce quente como bourbon.
O vídeo tem Noomi Rapace, a hacker da trilogia Millenium, a mocinha que enfrentou o Alien, sexy e esperta, em graus variáveis de grotesqueria e nudez. Nem precisava. A letra é melhor do que 99% do que você ouviu esse ano. É tópica. A expressão Doom and Gloom significa algo como Só Desgraça. Quando alguém só fala coisa deprimente, bodeante, baixo astral, os gringos dizem que a pessoa está full of Doom and Gloom.
Jagger comenta 2012: guerra aqui, depressão acolá, hiperconsumismo, apocalipse ambiental à espreita. Leva a sério a dor, que é real, mas não resiste ao sarcasmo - você não vai levar aquilo pelo que pagou, cara; hey, baby, dane-se isso tudo, vem dançar comigo. Também não resisto: é só rock'n'roll, mas eu gosto.

Publicado em 23/02/2016 às 17:46

Mentindo sobre homens: Taylor Swift, Kesha e o feminismo pré-fabricado

taylor swift kesha 1024x593 Mentindo sobre homens: Taylor Swift, Kesha e o feminismo pré fabricado

Na última edição do Grammy, a grande vencedora, Taylor Swift, terminou seu discurso dizendo: "quero dizer a todas as jovens: vão aparecer pessoas que tentarão sabotar o seu sucesso, ou levar o crédito pelas suas realizações ou por sua fama. Mas se você focar no seu trabalho e não deixar elas te atrapalharem, um dia você vai chegar ao seu objetivo. E então vai ver que foi você, e as pessoas que te amam, que fizeram você chegar lá. E essa é a melhor sensação do mundo."
Dias depois, Taylor anunciou a doação de 250 mil dólares para outra cantora, Kesha, para ajudar em um processo contra seu produtor e gravadora. A história é polêmica. André Barcinski explica as técnicas de Luke e detalha o caso em seu blog. Resumindo: Kesha foi descoberta aos 17 anos por um produtor chamado Dr. Luke. Na época, ela assinou um contrato exclusivo com o selo de Luke, que faz parte da gravadora Sony. Ele produziu e co-escreveu "Tik Tok" e outras que fizeram o sucesso da cantora. O contrato era para cinco discos. Kesha por enquanto lançou dois. "Deve" mais três para a gravadora. No total, já foram vendidos mais de 60 milhões de gravações de Kesha em todo o mundo, entre mídia física e digital. Kesha fatura bem, mas tem que dividir a grana não só com a gravadora, mas com Luke.
Em 2014, Kesha entrou com um processo contra Luke pedindo o cancelamento do contrato. Foi bem mais longe: alegou que Luke abusou sexualmente dela, depois de lhe dar álcool e drogas, repetidas vezes, anos a fio. Essa semana, a juíza que julga o caso deu vitória a Luke. Disse o óbvio: é impossível provar que houve abuso sexual tantos anos depois, sem evidências físicas, nem testemunhas; Kesha era maior de idade quando assinou o contrato; o contrato é válido; e boa.
Uma revoada de estrelas saíram em defesa de Kesha. Lady Gaga, Kelly Clarkson, Ariana Grande, Iggy Azalea e outras. A parte divertida é que todas essas moças vivem justamente do trabalho de produtores como Luke, ou seu mentor Max Martin (o sueco que inventou Britney Spears e muitos outros). São eles que bolam as canções, do começo ao fim, seguindo fórmulas quase "científicas" de sucesso. Elas se limitam a emprestar as vozes, devidamente melhoradas por computadores, e fazer as coreografias apropriadas em clipes e palcos. O pop moderno é karaokê puro.
A parte nada divertida do caso é o coro imbecil de aprovação a Taylor Swift por doar a dinheirama para Kesha e emprestar sua voz a esse discursinho anti-homem e desavergonhadamente marketeiro. Dar 250 mil dólares, mais de um milhão de reais, para uma cantora famosa pagar custo de advogados, é cuspir na cara de tantas pessoas mundo afora que passam necessidade e podiam usar muito bem essa grana.
Taylor faz a feminista mas seu sucesso é resultado do trabalho de um bando de machos. Desde seu primeiro disco, Taylor Swift tem como parceiro invisível Glen Chapman, produtor e compositor. Sem Chapman ela não tinha carreira no country. "Shake it Off", seu grande sucesso de 2015, é produção de dois homens, Max Martin e Shellback. É a dupla que transformou Swift de estrelinha country em estrelona pop, desde o primeiro grande hit da cantora,
"We Are Never Ever Getting Back Together", em 2012. "Shake It Off" foi milimetricamente planejada. Alude diretamente a hits recentes, como "Happy" e "Let It Go", e antigos, como "Hey Ya", do Outkast.
O disco que ganhou o Grammy, 1989, é assinado por doze produtores, dos quais só dois são mulheres, Imogen Heap e a própria Taylor (que leva o crédito automaticamente. Superstars sempre podem se dar o crédito de co-produtores; é costumeiro). Taylor Swift escreveu sozinha uma única canção do disco - o restante tem assinatura desses produtores. O vídeo de "Shake it Off" foi dirigido pelo especialista Mark Romanek. E por aí vai. Olha os créditos dos trabalhos de Swift e procura uma mulher lá.
Taylor é estrela de proveta, pré-fabricada da cabeça aos pés. Inofensiva, boazinha, boa de patrocinar. Como Kesha, como toda essa gente, ganha muito dinheiro. Popstars vivem cercados de puxa-sacos. Donde que se acham gênios, e se acham acima da lei - assinei contrato? Dane-se, eu sou uma estrela, não preciso seguir a lei, não preciso de ninguém. Muito menos de homem nenhum! "Girl Power!", como cantavam as Spice Girls, grupo criado, claro, por um homem...
Não duvido que Taylor, Kesha e essas estrelas todas acreditem mesmo que é sua genialidade que as levou ao sucesso, e não que sejam resultado de uma linha de montagem. É compreensível que os fãs dessas moças aplaudam acriticamente qualquer pum que elas soltem, que dirá lindos discursos de empoderamento feminino.
Mas não dá pra engolir que elas sejam ungidas ao Olimpo do feminismo como grandes batalhadoras contra a opressão do patriarcado... O feminismo de Taylor Swift é tão falso quanto seu talento. A real é que Taylor, Kesha e essas cantoras todas são estrelas fabricadas. E são fabricadas por homens.

Publicado em 22/02/2016 às 14:56

João Santana: como o roqueiro virou marqueteiro

santana e dilma 1024x576 João Santana: como o roqueiro virou marqueteiro
João Santana aprendeu a enrolar os outros em duas profissões que ensinam isso muito bem: o jornalismo e a música. Se formou em jornalismo em Salvador, mas fez seu nome primeiro como letrista do grupo Bendegó. Foi um dos muitos filhos do Tropicalismo, mezzo rock, mezzo brasilidade, forró, xote.
Santana assinava "Patinhas", apelido de quando foi tesoureiro de centro acadêmico. Foi o principal parceiro de Gereba, fundador do Bendegó, e participou de seis discos do grupo. As letras, bem, julgue por você mesmo. Esse foi um dos seus maiores sucessos, "Sinal de Amor e Perigo", gravado por Diana Pequeno.

À noite e a cidade parece que some
Perdida no sono dos sonhos dos homens
Que vão construindo com fibras de vidro
Com canções de infância, com tempo perdido
Um grande cartaz um painel de aviso
Um sinal de amor e de perigo
Um sinal de amor e de perigo
Há tempo em que a terra parece que some
Em meio a alegria e tristeza dos homens
Que olham pros campos pros mares cidades
Pras noites vazias, pra felicidade
Com o mesmo olhar de quem grita no escuro
O melhor foi feito no futuro
O melhor foi feito no futuro
Enquanto o amor for pecado eo trabalho um fardo
Pesado passado presente mal dado
As flores feridas se curam no orvalho
Mas os homens sedentos não encontram regato
Que banhe seu corpo e lave sua alma
O desejo é forte mas não salva
O desejo é forte mas não salva
Enquanto a tristeza esmagar o peito da terra
E a saudade afastar as pessoas partindo pra guerra
Nós vamos perdendo um tempo profundo
A força da vida o destino do mundo
O segredo que o rio entrega pra serra
Haverá um homem no céu e deuses na terra
Haverá um homem no céu e deuses na terra
Haverá um homem no céu e deuses na terra

O que isso quer dizer? Não quer dizer nada. Mas soa bem. Patinhas já tinha talento para marketing eleitoral desde aquela época.
Depois Patinhas trocou a música pelo Jornal da Bahia, e O Globo, Veja, Jornal do Brasil e finalmente Isto É. Virou João Santana e jornalista premiado. Na Isto É deu grande contribuição à nação e não dá para discordar: entrevistou o motorista Eriberto França, matéria que ajudou a derrubar Fernando Collor, que era o presidente. Santana faturou um Prêmio Esso pelo feito.
Tenho um amigo que conhece bem Santana, desde quando era Patinhas. Me garante que é muito inteligente e muito lido - um intelectual de verdade. Como essa figura virou o mago das eleições, o cara que reelegeu Lula no auge do mensalão, Dilma que ninguém conhecia, Haddad idem? E presidentes em Angola, República Dominicana e Venezuela (Chávez / Maduro)? E, caramba, trabalhou nas campanhas de Celso Pitta e Antonio Palocci?
No alvo de investigações da Lava-Jato, Santana tem muito o que explicar. Dinheiro de origem suspeita (mas que verba de campanha política nesse país não é?).
Mas explicar de verdade a trajetória dessa figura interessantíssima requer mais. Trabalho de detetive, analista da imprensa, psicanalista e crítico musical. E cabe, principalmente, reouvir suas canções...
Essa é é uma das músicas mais famosas do Bendegó. Também não diz nada. Ou diz? Que tal começar por ela nossa investigação sobre João Santana?

Publicado em 15/02/2016 às 15:55

Deadpool é o herói que 2016 merece

deadpool 1024x576 Deadpool é o herói que 2016 merece
Deadpool é um filme extraordinariamente sofisticado. Funciona como filme de super-herói, romance terno, comédia alucinada, terror torturante e paródia disso tudo. Te agarra pelas partes baixas, te segura pelos sentidos - eu vi isso mesmo? Eu ouvi isso mesmo?
O diretor, Tim Miller, é um estreante, o que é impressionante. Vem da animação, o que ajuda a explicar o ritmo frenético a la Looney Tunes. A dupla de roteiristas já mostrou talento pra bobagem em Zumbilândia e GI Joe: Retaliação. Mas Deadpool é muito melhor escrito, tanto argumento como diálogos. Diretor, roteiristas e elenco mandaram benzaço. Até o astro Ryan Reynolds, que nunca mostrou ser mais que uma posta de carne, quem diria.
Todo esse arsenal criativo não está a serviço de alguma causa estética nobre. É o gênio pelo gênio, Ars Gratia Ars, como rugia o leão da Metro. Traduzindo do blablablá de Hollwyood para português claro, significa "tudo por dinheiro", e nesse caso é tudo até o talo.
Não é nem que Deadpool torna obsoletos os filmes de super-herói. Faz isso fácil, até porque está difícil encarar mais um dramalhão épico sobre kryptonianos angustiados. Deadpool arrota na cara do superheroísmo careta e, sensacional, enfim temos um super-herói com vida sexual, e mais, aberto a experiências novas (e profundas...).
Fará escola. Será infinitamente revisto, reciclado, regurgitado. Como foram, digamos, as comédias malucas dos irmãos Zucker, ou a violência autoreferente de Quentin Tarantino - para ficar nos antepassados mais escancarados de Deadpool. Contra o sucesso não há argumentos, lição número um do business e do show business. Dane-se o passado, mandemos latrina abaixo os três atos, começo-meio-e-fim, gênero demarcado, clareza, personagens.
Nos anos 80, quando os críticos queriam malhar um filme, diziam que parecia um videoclipe. Nos 90, que parecia um videogame. Deadpool é a cara da geração WhatsApp/Snapchat. O garoto/garota que faz tudo ao mesmo tempo. Foco total na turma e no próprio umbigo. Mas tira sarro de si mesmo, dos amigos e do mundo. O máximo da tecnologia e da esperteza, a serviço da máxima zoeira. E esse mundo não merece mesmo ser zoado?
Nada parece tanto com os jovens de 2016 quanto Deadpool. Ele, eles herdarão a Terra. Podia ser bem pior. Relaxe e aproveite.

Publicado em 01/02/2016 às 18:11

Zika e Microcefalia: é hora de legalizar o aborto

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A epidemia de Zika vírus não tem solução. A epidemia de microcefalia tem uma só. É aborto. A mulher que quiser certeza de que não terá um filho com microcefalia precisa interromper a gravidez. Classe social não pode ser empecilho. Não é mais questão polêmica. É questão de saúde pública.
Os argumentos contra a legalização do aborto não se sustentam. Usar o aborto para evitar ter um filho microcéfalo não é "eugenia". Eugenia é quando o Estado privilegia determinadas características genéticas, em detrimento de outras. É a Alemanha nazista matando judeus e ciganos, esterilizando cegos, homossexuais, esquizofrênicos. No Brasil estamos falando do exato contrário. É hora do Estado parar de se meter na vida pessoal das mães, dos casais. Políticas eugênicas são sempre um cerceamento da liberdade. Aborto legal no Brasil, ao contrário, será mais liberdade.
O argumento de que "toda vida é sagrada" não tem nexo. "Sagrado" é um termo sem significado jurídico. Pessoas diferentes entendem que coisas diferentes são "sagradas". O pecado de um é virtude para outro. Fé pode ser um impeditivo para a mãe; se ela preferir seguir com a gravidez, porque é o que sua religião prega, tem todo direito de fazer isso. O que importa em uma sociedade diversa, democrática, não-teocrática, é a lei.
A lei brasileira já rejeitou o argumento de que interromper gravidez é "tirar uma vida". Surpresa: o aborto já é permitido no Brasil. Hoje, só em dois casos. Quando a gravidez coloca em risco a vida da mulher. E quando a gravidez é resultado de um estupro. Mesmo que os fetos sejam perfeitamente viáveis, veja bem. É direito legal da mulher interromper a gravidez. A lei aceita, por enquanto só nesses dois casos, e a mulher não está cometendo nenhum crime.
Mais que isso: nesses casos, o Estado tem o dever de fornecer o auxílio necessário para amparar as mulheres que optarem por abortar. Na cidade de São Paulo, por exemplo, são oferecidos os seguintes serviços para as mulheres:

- Atendimento médico
- Contracepção de emergência para casos de estupro, em até 72 horas do ocorrido
- Coleta de material para identificação do agressor por meio de exame de DNA
- Acompanhamento clínico, psicológico e social durante e depois da interrupção da gravidez (ou, se for o caso, durante o pré-natal)
- Exames laboratoriais para diagnósticos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).

Pergunta: se uma brasileira pode abortar com o apoio do Estado, caso corra risco de vida, ou caso tenha sido estuprada, porque ela não pode abortar em outras situações? O Estado tem o direito de obrigar uma mãe a ter um filho microcéfalo? A resposta é não. É uma imposição imoral - que deve também ser ilegal. Quem quiser se arriscar a ter um filho microcéfalo, que faça isso. Quem não quiser correr riscos, que tenha todo apoio para interromper a gravidez.
O aborto já deveria ter sido legalizado no Brasil há muito tempo, como já é em todos os países ricos e educados. Mas no Brasil só os ricos e educados fazem aborto em caso de suspeita de microcefalia, porque custa os olhos da cara. Reportagens têm relatado casos em que mulheres da classe alta pagam até R$ 15.000,00 para interromper a gravidez, como prevenção. A epidemia de Zika escancara a necessidade desse direito ser estendido a mulheres de todas as classes sociais.
Importante dizer que essa epidemia não tem prazo para acabar. A conversa sobre vacina é propaganda vazia. Os maiores especialistas no tema afirmam que estamos a dez, talvez quinze anos de uma vacina contra Zika. Não se conhece direito a doença. Até hoje, a Dengue já foi objeto de 14.840 estudos acadêmicos. O Zika só teve até hoje 242 estudos. Os dados são do National Center for Biotechnology Information. Os cientistas afirmam que há um "vácuo" no conhecimento sobre a doença. Esta reportagem da Bloomberg explica bem a enrascada.
No pouco tempo desde que a Zika explodiu no Brasil, já passamos de 4.200 casos de bebês microcéfalos. Em dez anos serão quantos? Quarenta, cinquenta mil? Milhões? E no mundo?
Mesmo com o aborto legalizado, muitas mães decidirão ter seus filhos mesmo assim. Que tenham o apoio financeiro necessário do poder público. Que essas famílias saibam cuidar dessas crianças e conviver com suas decisões. Terão direito ao BPC, o Benefício de Proteção Continuada, que garante um salário mínimo mensal a pessoas com deficiência que não tenham meios para se sustentar nem podem ser sustentadas pela família, independente da idade. Um salário mínimo não dá para nada, para quem tem um filho nessa situação, muitos sem controlar movimento, sem ver, com espasmos, com problemas cognitivos terríveis.
Se essas famílias processarem o Estado por crime de responsabilidade podem perfeitamente ganhar indenizações bem grandes. É o certo. O Aedes Aegypti se propaga por responsabilidade do poder público. O Zika é obra da natureza mas essa epidemia não é natural. É obra do poder público brasileiro. É negligência.
É o Estado que nega saneamento e serviços de saúde decentes à maioria dos brasileiros. Foi o governo de Fernando Henrique Cardoso que abriu mão de combater o Aedes Aegypti em 1998, quando José Serra transferiu essa responsabilidade para os municípios (mais detalhes sobre essa irresponsabilidade fatal aqui).
Lula e Dilma não consertaram a besteira do governo tucano. Teve dinheiro para Copa, Olimpíada, empresários amigos, encher os cofres dos bancos com juros altíssimos. Dinheiro para investir em saneamento, a coisa mais básica para a saúde de um povo, faltou.
E agora falta dinheiro para tudo, porque a crise econômica está pegando forte. Bem, vai ter que aparecer de algum lugar. Há que se federalizar o combate ao mosquito e distribuir repelente para o país todo; há que fazer esgoto; há que pesquisar vacina; há que ajudar financeiramente essas famílias.
Mas antes de mais nada é preciso estender às mulheres pobres o direito ao aborto, que as mulheres mais ricas já tem. As fotos não mentem: a maioria das mulheres que enfrenta esse pesadelo é de jovens, negras, pobres. O Estado tem grande responsabilidade por essa crise. O Estado não tem direito de obrigar essas brasileiras a terem filhos microcéfalos. Essa decisão é delas. Legalizar o aborto é fazer justiça.

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