Publicado em 28/06/2016 às 15:38

Patricia Abravanel está certa. O misticismo é inimigo do progresso

Patrícia Abravanel divulgação 1024x670 Patricia Abravanel está certa. O misticismo é inimigo do progresso
Patrícia Abravanel apanha dos ignorantes. É patético. Está correta ao falar do misticismo. Quanto maior a influência da religião em uma sociedade, mais ignorante e injusta. Onde ela errou: em relacionar o trabalho com a riqueza. O sucesso maior ou menor de cada país é resultado de um conjunto de fatores, dos quais o trabalho é apenas um. Sugiro a Patrícia a leitura do biólogo Jared Diamond e seu livro "Armas, Germes e Aço".
Mas não é por isso que está sendo condenada, e sim por citar a África como exemplo negativo. Essa condenação não resiste a um sopro de realidade. É movimento reflexo de zumbis politicamente corretos. Não tem nada de racismo no que ela falou.
O que Patrícia disse:
"Em países muito místicos (...), muitas vezes o povo deixa de trabalhar porque fica tão místico que deixa de fazer as coisas certas para poder chegar num objetivo. Em países mais racionais, que têm uma fé em Deus, mas acredita no esforço, no suor, no trabalho, no você se portar, ter um casamento e ter que cuidar dele, esses países vão mais pra frente. Então, um exemplo: a África é muito mística, e a gente vê as consequências, e os Estados Unidos é mais racional, protestante, onde acredita no suor. Então, eu acho que a gente tem que avaliar nossa crença através dos frutos que elas nos trazem".
Agora, o que dizem as pesquisas?
Existem muitas que dizem todas a mesma coisa. Escolho uma especialmente sólida e convincente. O instituto Gallup fez em 2009 uma pesquisa mundial, com o objetivo de identificar os países mais e menos religiosos do mundo. Os pesquisadores perguntaram: "a religião é uma parte importante da sua vida diária?". Os resultados estão abaixo.

Os países mais religiosos do mundo:

Egito
Bangladesh
Sri Lanka
Indonésia
Congo
Sierra Leone
Malawi
Senegal
Djibouti
Marrocos
Emirados Árabes
(a maior parte está na África e é islâmico)

Os menos religiosos:

Estônia
Suécia
Dinamarca
Noruega
República Tcheca
Azerbaijão
Hong Kong
Japão
França
Mongólia
Bielorússia
(A maior parte está na Europa)

Na mesma pesquisa, o Gallup identificou os estados mais e menos religiosos dos Estados Unidos.

Os Estados menos religiosos:

Vermont
New Hampshire
Maine
Massachussets
Alaska
Washington
Oregon
Rhode Island
Nevada
Connecticut

Os mais religiosos:

Mississipi
Alabama
Carolina do Sul
Tennessee
Louisiana
Arkansas
Georgia
Carolina do Norte
Oklahoma
Kentucky
Texas

Os estados mais religiosos dos EUA são os mais pobres, e a religião dominante é a cristão.
Veja: não importa se o país é muçulmano ou cristão. A questão não é de fé. Sobreponha estas listas sobre pesquisas equivalentes sobre nível educacional. A relação é lugar comum. Onde as pessoas são mais educadas, a religião é menos importante. Isso também significa que os países menos religiosos são os com melhor padrão de vida para suas populações. Porque neles prevalece a diversidade, o respeito, o planejamento. Por quê? De novo, sugiro a leitura de Jared Diamond; não é meu assunto aqui.

Onde as pessoas têm menos acesso à educação, à informação, à liberdade de expressão, as religiões são mais importantes para as pessoas, e por consequência a fé tem mais influência dentro de cada sociedade. É o que Patricia chamou genericamente de "misticismo".

Naturalmente, não vivemos no vácuo. Pessoas e grupos com crenças diferentes vão disputar espaços simbólicos, religiosos e políticos. Faz parte da vida e do jogo. Liberdade é a liberdade de acreditar no que você quiser, mesmo que me cause repugnância. Mas esta disputa só é positiva em uma sociedade que não acredita em nada, salvo na defesa da liberdade e do progresso de todos, por igual. Intolerante somente com os intolerantes, com o máximo respeito pela vida e pelas diferenças.
É possível e desejável a convivência harmônica entre cristãos, muçulmanos e judeus; budistas, umbandistas e ateus. Como entre brancos, negros e amarelos, LGBT e héteros, todos os comportamentos, caras, crenças. Mas não é viável sob domínio de uma das religiões, ou raças, ou um grupinho. Só em uma sociedade civil e civilizada, e portanto, não dominada pelo misticismo. Ordenada por leis criadas por todos, que sirvam para todos, e que prevejam direitos e deveres iguais para todos. E só em uma sociedade educada.
A religião estará sempre entre nós, inclusive os fundamentalistas. Vamos acostumar com essa idéia. Mas quanto mais educação e melhor divididas as riquezas, cada vez as religiões terão menos poder na sociedade - é o que as estatísticas demonstram. Foi isso que Patrícia disse, à sua maneira atrapalhada. E é bom acostumar com essa idéia também.

Publicado em 27/06/2016 às 17:29

As bancas de revista são importantes. Nesta terça-feira, é hora da gente defendê-las

IMG 4330  1024x682 As bancas de revista são importantes. Nesta terça feira, é hora da gente defendê las
Devo muito aos jornaleiros. Minha mãe me ensinou a ler. Mas quem me ensinou a gostar de ler foi a banca. Me parecia um lugar mágico, muito mais que uma biblioteca, porque sempre renovada, sempre em mutação, sempre quente. Eu gostava do seriado do Batman e do mundo mágico de Walt Disney, então comecei a ler Batman e os gibis dos patos. E o Manual do Escoteiro Mirim. E mais quadrinhos, e mais revistas, e livros bons e baratos.
Isso foi nos anos 70. De lá para cá a banca virou uma coisa bem diferente, e nossas necessidades de informação, conteúdo, mágica são atendidas de maneira muito mais diversa. O papel é só uma parte da informação que acessamos.
As bancas são também um centro importante de fomento cultural. A cena nacional de quadrinhos seria completamente diferente se nos anos 80 um grupo de artistas, jornalistas e fãs de HQ não tivessem passado a frequentar a banca Tiragem Limitada - que daria origem à loja Comix. Outras bancas reúnem outros grupos, até hoje.
E as bancas, claro, são um centro de convivência. O jornaleiro da esquina é parte da comunidade. Presta serviço a quem vive no pedaço, a quem está de passagem, presta informação, bate papo. O jornaleiro vive de entender sua rua, seu bairro, seu leitor.
Por isso tudo é que é importante que a banca sobreviva. Mas para sobreviver, a banca tem que mudar. E tem que mudar, inclusive, a sua fonte de receitas. Só revista, nos dias de hoje, não sustenta uma banca. Aí é que as bancas começam a ter um mix diversificado de produtos, conforme a necessidade do seu mercado. Mas isso não é o suficiente. Por isso é que nos últimos dez anos, o número de bancas em São Paulo caiu de sete mil para 3500 bancas. Claro que tem as bancas melhores e as piores. Mas hoje, juntando a mudança no comportamento do leitor e a atual crise econômica, mesmo as melhores estão em apuros.
Devo tudo como profissional e empresário à banca. Fiz e faço revista e livro para jovem, inclusive criança bem pequena. Te garanto que as bancas continuam sendo centros importantes de difusão de informação e de opinião. E que elas seguem alimentando o amor à leitura. Tenho interesse prático que as bancas sobrevivam, porque sou jornalista e editor (além de curioso profissional e fuçador da internet...). Veja bem, não morro de fome se todas as bancas fecharem amanhã. Mas já rodei o mundo e sei que cidade civilizada é cidade com banca boa na rua.
E por isso tudo é que é muito importante a aprovação do Projeto de Lei 236/2016, também conhecido como "Banca SP". Ele será votado nesta terça-feira. Foi aprovado na primeira votação, esta é a segunda.
Permitirá que as bancas paulistanas possam veicular publicidade em quatro espaços: um anúncio em cada lateral e dois na parte de trás da banda. Hoje já é assim, mas só pode ter publicidade de produto editorial. Com a lei a banca passa a poder ter publicidade de outros segmentos, como é hoje com os pontos de ônibus e relógios.
A palavra chave aí é "poder". Não quer dizer que todas as bancas farão isso. A adesão será totalmente voluntária. Por isso o argumento de que esse projeto de lei vai contra a Lei da Cidade Limpa é furado. A maioria das bancas hoje já tem cartazes anunciando revista e livros. Uma parte das bancas, provavelmente as que estão em localização mais privilegiada, com visibilidade maior, passarão a ter, em vez de cartazes de revista, cartazes anunciando automóvel, suco, tênis ou o que fôr.
O jornaleiro é um um pequeno empresário. Como em qualquer segmento, existem os mais empreendedores e os menos. Essa lei pode beneficiar muitos pequenos negócios. Fazer isso de maneira descentralizada. Ela exige contrapartidas. O jornaleiro que aderir terá que fazer melhorias na sua banca, que vai desde trocar a estrutura metálica até colocar e cuidar de bancos e banheiro público. Melhor para a cidade. E veja só: uma parte desta receita extra irá como imposto para a própria prefeitura, e não para um caixa comum, mas justamente para o Fundo Municipal de Mobiliário Urbano e Paisagem Urbana.
Urbanistas importantes dizem que o projeto Banca SP é bom e moderno. Mas interesses poderosos estão querendo solapar esse projeto. Por interesse econômico das grandes empresas que hoje controlam a publicidade nos pontos de ônibus o relógios. Ou são colunistas que fizeram parte da administração Kassab, e aí é um interesse eleitoreiro, que simplesmente vai contra tudo que o atual prefeito faz ou propõe.
Não se trata de gostar ou não de Kassab ou Haddad. Não vamos politizar uma questão que é de todos. Idéia é boa é boa, não importa de onde venha. É mesquinhez fazer de São Paulo uma cidade mais burra. Nossas ruas são mais civilizadas com as bancas; nossas crianças aprendem a gostar de ler nas bancas; o jornaleiro presta um serviço importante pra gente. Vamos proteger isso e apoiar o Banca SP.

Publicado em 25/06/2016 às 09:49

O que falta pro Temer dançar na Lava-Jato? Moro aceitar essa delação premiada

cms image 000493386 1024x601 O que falta pro Temer dançar na Lava Jato? Moro aceitar essa delação premiada
Reportagem de hoje da Revista Época não deixa dúvida. O destino do presidente interino está nas mãos de Sérgio Moro. Se Moro aceitar essa delação premiada de José Antunes Sobrinho (acima), um dos donos da Engevix, Temer dança. Antunes diz com todas as letras que pagou propina ao mais notório operador de Temer, João Baptista Lima Sobrinho.

Se Moro não aceitar a proposta de delação de Antunes, enterra sua própria credibilidade - e a da da Lava-Jato. Leia. E prepare-se para fortes emoções nos dias que virão.

Publicado em 23/06/2016 às 15:36

A merenda, as panelas e a pizza

RR estudantes secundaristas em frente a ALESP contra mafia da merenda 29032016004 1 1024x678 A merenda, as panelas e a pizza
É muito bom que o nosso judiciário investigue políticos e empresários corruptos. É excelente que os culpados vão pra cadeia. É imoral, ilegal e inevitável que uma parte muito podre da nossa política continue intocável. É o PSDB paulista. Não importa quantas acusações contra os tucanos, quantas evidências, quantas provas irrefutáveis, saem sempre inocentados de tudo.
Foi assim nas privatizações da era Fernando Henrique, comandados por Sérgio Motta. Foi assim no caso da máfia dos Trens, que se arrasta desde 1997. Caixa dois? Pouca gente lembra do escândalo de Furnas, que já em 2006 sugeria que R$ 5,5 milhões de caixa dois teriam ido para as campanhas de Aécio, Alckmin e Serra. Dá pra ficar lembrando de casos envolvendo políticos do PSDB até amanhã.
Naturalmente não é privilégio dos paulistas: pelo Brasil agora tem muita sujeira envolvendo o PSDB. Minas aparece com destaque, graças ao "mensalão mineiro". O único tucano de alta plumagem que jamais rodou é o ex-governador Eduardo Azeredo. Está provadíssimo que roubou e roubou muito. Foi condenado em primeira instância em 16 de dezembro de 2015, a 20 anos e dez meses de prisão, em regime inicialmente fechado, pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. Mas recorreu à segunda instância e está em liberdade. Enquanto isso, qualquer zé mané citado por delator da Lava-Jato vai direto pra cadeia.
A mais nova palhaçada com a população é a CPI da Máfia da Merenda. É difícil imaginar coisa mais nojenta do que roubar comida de criança pobre, mas é exatamente isso que aconteceu. A investigação envolve assessores diretos, da total confiança de Geraldo Alckmin, incluindo seu chefe de gabinete da Casa Civil, seu braço direito, Luiz Roberto dos Santos; e o presidente da Assembléia Legislativa, seu principal aliado na casa, Fernando Capez. Ontem foi instalada a CPI. Adivinhe: dos nove integrantes, oito são da base de Alckmin, e somente um da oposição. Mais uma vez Alckmin se sai bem em uma operação abafa. Mais uma vez, acusações contra os tucanos vão acabar em pizza.
O Ministério Público é muito valente, mas nunca para enfrentar o PSDB. Os juízes são muito rigorosos, mas nunca para enquadrar o PSDB. Os eleitores de Aécio saíram às ruas somente para derrubar Dilma, não para enfrentar o crime organizado nos palácios ocupados pelo PSDB. Contra a corrupção do PT, muitas pessoas bateram panelas. Contra a corrupção do PSDB, o silêncio destes cúmplices é ensurdecedor.

Publicado em 21/06/2016 às 17:14

O Uber do Uber

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O Uber causa muita polêmica. A única coisa que não gera discussão sobre o Uber é o seu sucesso com os consumidores e com os investidores. O Uber virou até uma maneira de se dizer "empresa nova que entra em um mercado e vira ele de cabeça pra baixo". No jargão da internet, é "Disrupção": uma tecnologia, ou modelo de negócio, que já nasce destruindo a maneira antiga de fazer as coisas.
Então hoje se fala no Uber dos Serviços Domésticos, o Uber das reservas para restaurante, o Uber dos passeadores de cachorro etc. etc.
Só que pouca gente se tocou que já existe o Uber do Uber. Está no nariz de todo mundo. Não no Brasil, mas em muitos países. É uma coisa que torna o Uber absolutamente inútil.
Chama-se... transporte público de qualidade. Mais especificamente: metrô.
Se você for amanhã para Nova York, Tóquio, Paris e várias outras metrópoles, vai perceber que pode ir a qualquer lugar da cidade em pouco tempo, gastando pouquíssimo. E para fora da cidade também. Porque essas cidades têm muitas estações de metrô, todas interligadas. E essas redes são ligadas a ferrovias que atravessam o país, e aliás se conectam com outros países. Dá para ir de uma ponta a outra da Europa só usando transporte público e gastando uma mixaria.
Porque um parisiense usaria o Uber? Para ficar empacado no trânsito, e gastar muito mais do que a passagem de metrô? Só numa situação de emergência. Ou voltando da balada de madrugada, porque nem todas as estações de metrô funcionam a noite toda. Mas para emergências e bebedeiras já existe táxi, né?
Fora que essas cidades (e muitas cidades médias) têm, além do metrô, ônibus limpos, confiáveis e baratos. E é por isso que em muitas das maiores cidades do mundo há décadas boa parte da população não tem carro. Carro pra quê? Transporte público te leva a qualquer lugar, é conveniente e barato. É uma coisa tão boa e eficiente que várias cidades já estão fornecendo transporte público gratuito! Algumas cidades, para todos os passageiros. Outras só em algumas linhas, ou para alguns grupos (por exemplo, estudantes ou idosos).
Tem um outro detalhe. Que cada vez será menos um detalhe, e mais uma prioridade. Menos carro na rua, além de menos trânsito, significa menos poluição no ar. O que é bom para a nossa saúde e para a saúde do planeta. Um modelo de negócio baseado em transporte de uma pessoa, via automóvel queimando gasolina, não faz nenhum sentido no século 21, com as mudanças climáticas à toda.
Onde o Uber poderia fazer sentido? Onde o transporte público é pouco e ruim, onde táxi é caríssimo, onde não há regras trabalhistas como as do primeiro mundo para defender os taxistas. Ou seja, nos países pouco desenvolvidos. Como o Brasil. Mas para 90% dos brasileiros, o Uber é muito caro (e carro é o grande sonho de consumo). Os outros 10% já têm carro e não abrem mão dele...
E brasileiro é brasileiro, claro. Esses dias saí de uma reunião com uma pessoa, ele chamou um Uber, fui junto. Ele ficou no seu escritório, eu ainda estava longe de casa. Falei pro motorista do Uber: eu não tenho o aplicativo, você me leva mesmo assim? Ele falou: claro!
Rodamos mais uns 15 minutos. Perguntei quanto foi? Ele disse que não era nada. Eu falei nada disso, você trabalhou, tenho que te pagar, pô. Ele disse que seria uns oito reais. Dei dez e falei para ficar com o troco. Ele ganhou mais do que se fizesse a corrida via Uber. Eu paguei menos do que se usasse o Uber. O cara me deu um cartãozinho com o telefone e disse: doutor, eu faço corrida particular, precisando é só ligar... O Uber, essa maravilha da tecnologia, não resiste a um telefonema.
Vai ver que é por isso que o Uber dá um prejuízo enorme, no mundo inteiro. Literalmente, bilhões de dólares de prejuízo. Quem fecha a conta? Grandes investidores, que acreditam que um dia o Uber vai dar lucro. Pode ser. Já vi grandes apostas da internet darem em nada, já vi darem em muita coisa. O tempo dirá. Só tenho uma certeza: o futuro é transporte coletivo de qualidade, barato ou gratuito, e não-poluente. E em alguns lugares isso já é o presente. Isso sim é que é inovação. E fazer isso no Brasil é que será a verdadeira disrupção.

Publicado em 17/06/2016 às 15:29

Como fazer um ajuste fiscal quebrando ovos

Omelete 16 Como fazer um ajuste fiscal quebrando ovos
Presta atenção nesses números:

- a renda média do brasileiro que trabalha para o setor privado é de R$ 1,1 mil. O salário mínimo é R$ 880,00. A maioria esmagadora não declara imposto de renda
- 27,3 milhões de brasileiros declararam imposto de renda em 2014
- destes, 1% teve rendimento tributável acima de R$ 26,3 mil por mês
- este 1% correspondem a 0,15% da população.

Esses 0,15% dos brasileiros são a elite. Claro que essa elite também contém, dentro dela, classes A, B, C, D e E.
A classe E da Elite são os que ganham nessa faixa, por perto dos R$ 30 mil por mês. Tenho certeza que não se sentem milionários de jeito nenhum. Mas são extremamente privilegiados, perto do conjunto da população.
A classe A da Elite é uma fatia microscópica da população, que é dona de uma fatia gorda das nossas riquezas. Inclui esses super ricos famosos que estão sempre nas manchetes, nas reportagens de política e economia, e cada vez mais nas reportagens policiais. Entre as classes A e E da Elite está a elite do nosso funcionalismo público. Como muitos que tiveram reajustes salariais este mês, aprovados pelo governo e pelo Congresso Nacional.
O que vem sendo feito nos últimos anos, e o que continua em pauta para os próximos, é indecente e inútil. Qualquer iniciativa de ajuste fiscal no Brasil tem que começar necessariamente pela classe A da Elite. E descer em cascata. Quando o 0,1% mais rico do país tiver feito sacrifícios, podemos exigir do 1% seguinte, e assim em diante. É premissa inegociável que os brasileiros mais pobres serão poupados até o limite do nosso esforço e imaginação. Qualquer proposta diferente disso tem que ser rejeitada de cara. É impossível fazer um omelete sem quebrar ovos - e privilégios.

Publicado em 14/06/2016 às 17:34

Porque gosto da música do Justin Bieber

justing bieber sorry skrillex blood lyrics 30 1024x512 Porque gosto da música do Justin Bieber
Razão é a coisa mais superestimada do mundo. Somos um feixe de instintos, hormônios, memórias. Nos move muito mais a química que as intenções. A gente age antes de refletir, e gosta do que gosta, não do que imagina que deveria gostar. Donde que gosto da nova música do Justin Bieber. Que não é mais nova, é "Sorry", toca sem parar há meses, e durante meses me incomodou e intrigou.
Eu no trânsito vira e mexe ouço rádio. De rock véio, de pop novo, e cada vez mais de música clássica, sinal certo de maturidade chegando, ai caramba. Primeira vez que ouvi "Sorry" foi no rádio. Não sabia de quem era. E gostei não gostando. Quer dizer, fiz minha análise crítica instantânea. Só mais um hit dance-de-FM pré-fabricado por algum megaprodutor, refrão em três notas, letra "macho vulnerável" arfante, puxando o saco das fãs
Depois descobri que era Bieber, e piorou, porque o moleque é um entojo desde garoto-prodígio do YouTube. E de lá para cá virou rebelde de butique, milionário maconheirinho musculoso e mala.
Então porque sempre que tocava eu ouvia até o fim? Porque subia o volume? A porcaria da música ficou me seduzindo e atazanando meses. Como uma mulher que te dá bola e te dispensa. Judia de mim!
Até que esses dias caiu a ficha e, uau, que maravilha é compreender. Que prazer. Que alívio. Eu gosto dessa música do Justin Bieber porque me lembra aqueles hits antigões de Axé. Do primeiro Axé, lá no meio dos anos 80. Luiz Caldas. Sarajane! "A Rodinha" dá quase pra decalcar em cima de "Sorry". Até "O Canto da Cidade", que enterrou a primeira fase do Axé, já 92.
Fui lá ler sobre "Sorry" e descubro os termos "Tropical House" e "Dancehall Pop". Que é definido como uma mistura de house com ritmos jamaicanos, swingados, veranis. Tá, mas o caminho acho que é outro. "Sorry" é produzido por Skrillex, produtor de mão cheia e popstar ele mesmo; que é parceiro de Diplo, idem; Diplo que rodou o Brasil e conhece isso aqui muito bem. Diplo afanou o funk carioca bonito. Desconfio que botou seus conhecimentos de música baiana na roda, aliás na rodinha, pra Skrillex, e aí está "Sorry". E se nós brasileiros não temos a moral de exportar nossa música pro mundo, ué, alguém vai faturar com isso. Certo ele, pop é roubo.
Se me perguntarem se curto Bieber, ou Axé, racionalmente a resposta é não. Mas contra a memória afetiva não há o que fazer. Gosto de "Sorry", sim, porque por baixo da superprodução estéril, premeditada, algo ali me ativa as papilas gustativas, me faz sentir cheiro de pimenta e suor. É pop baiano dos meus vinte e poucos anos. Amor antigo - de outros carnavais. E não vou pedir desculpas por isso, sorry...

Publicado em 14/06/2016 às 13:42

Cumprimento do direito de resposta de Gilberto Gil e Preta Gil

“Foi com surpresa e indignação que Gilberto Gil e Preta Gil tomaram ciência do artigo intitulado “Quem Pagará Pelo Casamento de Preta Gil? Procure Saber...”, de autoria de André Forastieri, publicado na internet pelo portal R7.

Dentre ofensas pessoais e profissionais abusivas e gratuitas, o artigo, apoiado em suposições pessoais do autor, induziu o leitor a acreditar que Gilberto Gil teria custeado o casamento de sua filha com a verba destinada à produção teatral “Gilberto Gil, o Musical”, que fora obtida unicamente por influência de seu cargo como ministro no Governo Lula e pela “amizade” com o atual Ministro da Cultura.

Nada mais irresponsável e equivocado. Houvesse o jornalista cumprido seu papel de apurar, saberia que a produção do espetáculo “Gilberto Gil, o Musical” bem como a autoria do projeto perante o Ministério da Cultura não são de empresa vinculada a qualquer membro da família Gil. E mesmo que fossem, não haveria qualquer fundamento para tal acusação grave e irresponsável do jornalista.

Desnecessário tecer comentários acerca do legado cultural de Gilberto Gil. O artista tem 50 anos de carreira, 54 discos gravados e 8 “Grammy Awards”. Foi vereador; aceitou o convite da Presidência da República para o cargo maior da Cultura no Brasil e seu Ministério jamais esteve envolvido em escândalos ou acusações de desvios de verba. O artigo do Sr. Forastieri é fruto da mais pura irresponsabilidade jornalística.

Preta Gil, por sua vez, trabalha desde os seus 18 anos: lançou quatro CDs, dois DVDs, gravou 2 novelas, apresentou 2 programas de TV e faz um número incontável de apresentações. Sua popularidade, angariada com esforço e investimentos próprios, é inegável. Nos últimos anos, seu bloco reuniu cerca 4 milhões de pessoas no carnaval carioca. Paralelamente à vida artística, Preta mantém atividades empresariais ligadas à produção e ao licenciamento de produtos que levam sua marca, gerando inúmeros empregos diretos e indiretos. E tem o direito de dispor de seus recursos como melhor entender.

A lamentável conduta do jornalista fere não só a dignidade pessoal de Gil e Preta, como também ignora o próprio código de ética da profissão, pelo qual “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade do relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação". O autor e o portal faltaram com o compromisso da verdade, inerente ao exercício do direito de informação.

O direito de informar não pode ser desvirtuado de seu propósito para acobertar manifestações ofensivas, inverídicas ou pejorativas. É em virtude do relevante papel do jornalismo na sociedade que a TV e o rádio são mantidos como concessões públicas que devem atender ao interesse público e zelar pelas garantias individuais. A internet, como veículo informativo, deve também atender a esta função, zelando pela verdade e pelos direitos e garantias individuais.

Gilberto Gil, que defendeu a liberdade digital como Ministro da Cultura, e Preta Gil vêm, por meio desta resposta, lembrar ao jornalista que esta liberdade encontra limites no direito do próximo. Escrever e publicar inverdades para ganhar milhares de "likes" e seguidores, à custa da difamação alheia, isto sim, é uma forma de desvio. Desvio de seu compromisso ético e moral com a verdade.

Vivemos todos dias difíceis, de violência e intolerância em nossa sociedade; e induzir o leitor a acreditar em uma teoria estapafúrdia e odiosa não colabora em nada para o desenvolvimento das relações humanas. Há que se pensar no próximo, há que se medir palavras e, principalmente, manter compromisso com a realidade dos fatos.”

Publicado em 09/06/2016 às 15:39

A Mogi-Bertioga é o Brasil

Molde52 596x340 A Mogi Bertioga é o Brasil
Já peguei a rodovia Mogi-Bertioga centenas de vezes. A estrada é a mesma desde quando comecei a frequentar a região, nos anos 80. É perigosa. Faltam guard-rails, sinalização, iluminação. Neblina, chuva e deslizamentos são comuns. Devia ter sido duplicada há muito tempo. Segue imutável. Paisagem linda, perigo permanente. Toda hora tem acidente. Esse foi mais um - o mais horrível, o mais inevitável.
O litoral norte de São Paulo é maravilhoso. Une serra, mata e mar. Cada praia é uma praia diferente. É um território dividido. De um lado da estrada, bonitas casas e ótima infraestrutura para quem viaja para curtir o final de semana. Do lado de lá, favela. O crescimento na região é mais que desordenado: é caótico. Casas pipocam do nada, invadem a floresta, infraestrutura zero.
A imigração é contínua: brasileiros que vêm de regiões pobres em busca de oportunidades, muitos da Bahia. Vivem de prestar serviços aos turistas. Dinheiro bom só no verão. Raridade esgoto, luz, escola, posto de saúde. Faltam oportunidades para os jovens estudarem e fazerem faculdade. Por isso estes viajavam, por isso morreram. Por descaso do poder público com os filhos dos imigrantes, dos pobres, dos negros.
Nada de novo. Muitos outros jovens brasileiros morrerão à toa, à míngua. O litoral norte é igualzinho toda periferia metropolitana deste país. Mas lá microcosmo no microscópio, miséria à vista dos abonados. Como eu. Não sou hipócrita de me iludar que pertenço à comunidade. Um fosso intransponível me separa dos moradores do litoral. Mas eles me ofereceram pontes, e tenho a sorte de conviver com muitos. A notícia do acidente me gelou o sangue. Liguei lá. Atendeu a mãe de uma menina que vi crescer. Ela disse: "hoje ninguém dormiu. Hoje parece que o tempo parou."

Publicado em 01/06/2016 às 09:26

A menina que foi estuprada engravidou – mas não pode abortar

o FTIMA PELAES facebook 1024x512 A menina que foi estuprada engravidou   mas não pode abortar
Esta semana o Brasil inteiro discute o caso da adolescente que foi sofreu estupro coletivo no Rio de Janeiro. Tirando bolsões de ignorância e preconceito, sempre os mais estridentes nas redes sociais, o sentimento coletivo é de choque, tristeza e alguma resignação. O que ninguém discutiu foi a possibilidade da menina ter engravidado de um dos estupradores.
Dezesseis anos, violentada por dezenas de garotos? Probabilidade enorme de gravidez. Ela engravidou? Não sabemos. Muitas mulheres estupradas engravidam. Se meninas adolescentes, maior a probabilidade, claro. Vamos torcer que não seja o caso dela. Se estiver grávida, sem problemas, porque a lei brasileira dá conta desses casos.
O Brasil já rejeitou o argumento de que interromper gravidez é "tirar uma vida". Surpresa: o aborto já é permitido no país. Hoje, só em dois casos (infelizmente; o aborto precisa ser legalizado). Quando a gravidez coloca em risco a vida da mulher. E quando a gravidez é resultado de um estupro. Mesmo que os fetos sejam perfeitamente viáveis, veja bem. É direito legal da mulher interromper a gravidez. A lei aceita, por enquanto só nesses dois casos, e a mulher não está cometendo nenhum crime.
Mais que isso: nesses casos, o Estado tem o dever de fornecer o auxílio necessário para amparar as mulheres que optarem por abortar. Na cidade de São Paulo, por exemplo, são oferecidos os seguintes serviços para as mulheres que tenham sido estupradas e decidam pelo aborto:
- Atendimento médico
- Contracepção de emergência para casos de estupro, em até 72 horas do ocorrido
- Coleta de material para identificação do agressor por meio de exame de DNA
- Acompanhamento clínico, psicológico e social durante e depois da interrupção da gravidez (ou, se for o caso, durante o pré-natal)
- Exames laboratoriais para diagnósticos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).
Isso é a lei. Há quem queira mudá-la. Para pior. Como a nova Secretária Nacional de Políticas Para as Mulheres, Fátima Pelaes. Na terça-feira, partipou de seu primeiro ato público no cargo, sentada ao lado de Michel Temer. Fátima é socióloga e foi deputada federal por quatro vezes, pelo PMDB do Amapá. Fez parte do governo Dilma. Ficou até abril deste ano no cargo de diretora administrativa da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia). A nova secretária é contra o aborto em qualquer situação. Mesmo em caso de estupro. Já afirmou que luta para mudar a lei nesse sentido.
Detalhe assustador: ela mesma é fruto de um estupro. Em 2010, Fátima revelou em um discurso à Câmara que que sua mãe engravidou depois de ser estuprada. Sua mãe foi estuprada na cadeia, quando estava cumprindo pena. Ela não conhece a identidade do pai.
Fátima já foi a favor do aborto, mas mudou de opinião ao converter-se. Ela faz parte da Assembléia de Deus. Como muitos cristãos fervorosos, evangélicos e católicos, Fátima é radicalmente contra o aborto. O que ela disse na Câmara, em 2010:
"Hoje estou aqui podendo dizer e defender que a vida começa na hora da concepção sim. Se há tempos atrás tivesse feito isso (aborto) não estaria aqui hoje. A gente tem que pensar que dá-se um jeito, consegue sobreviver. Não é fácil, mas é possível. Só eu sei a dor...
Eu já estive também em alguns momentos nesta comissão defendendo o direito ao aborto, dizendo que toda mulher tem direito, que a vida não começa na concepção. Mas eu precisava ser trabalhada, ser curada, eu não conseguia falar disso… Hoje eu posso.
Temos que pensar que direito nós mulheres temos de tirar uma vida. Nós temos aqui, como seres humanos, de trabalhar pela vida."
Em entrevista para um site religioso, Fátima diz que entre 1991 e 2002, "como ainda não conhecia Jesus Cristo, defendi bandeiras de lutas contrárias aos valores bíblicos, como a defesa do aborto, por entender, naquela época, que a mulher era 'dona' de seu corpo". Na mesma entrevista, Fátima Pelaes declarou ter colocado seu mandato à disposição de Deus. "Firmei um compromisso de glorificar o nome do Senhor naquela Casa de Leis.".
Fátima tem todo direito à sua fé e opiniões. Mas o argumento de que "toda vida é sagrada" não tem nexo. "Sagrado" é um termo sem significado jurídico. Pessoas diferentes entendem que coisas diferentes são "sagradas". O pecado de um é virtude para outro. Fé pode ser um impeditivo para uma mulher decidir pelo aborto; se ela preferir seguir com a gravidez, porque é o que sua religião prega, tem todo direito de fazer isso. O que importa em uma sociedade diversa, democrática, não-teocrática, é a lei. E as leis devem servir ao conjunto da sociedade, não à fé de quem ocupa momentaneamente aquele cargo.
E falando em lei, tem uma outra razão porque Fátima Pelaes não deveria ter sido indicada para cargo público, nem por Dilma, nem por Temer. Seu nome está envolvido em um escândalo de corrupção, como tantos no governo anterior e neste. Foi denunciada por desvios de dinheiro público do Ministério do Turismo, em 2011. Em depoimento à Polícia Federal, uma sócia da Conectur (uma empresa fantasma) afirmou que Fátima, na época deputada, embolsou recursos de emendas. O objetivo seria financiar sua campanha à reeleição.
Fátima nega ter passado a mão na nossa grana. Quem sabe é inocente. Mas deveria ser requisito básico para ocupar cargo público nenhuma suspeição de crime. No Brasil temos a regra contrária: todo político é inocente até que seja julgado culpado pelo Supremo Tribunal Federal e não haja possibilidade de recurso...
Quanto a Michel Temer, bem, o que dizer? Os fatos estão aí escancarados. Mas no Brasil de 2016 - em que só 35% dos estupros são notificados; no Rio de Janeiro, em que só 6% dos acusados por estupro vão a julgamento; na semana em que uma garota é estuprada por 33 bandidos - Temer indicar para Secretária das Mulheres alguém que é contra o aborto até em caso de estupro, é mais que um escárnio. É mais que passar recibo de machista. É uma violência contra as mulheres.
A esperança é que nesse governo cai um ministro por semana. Quem sabe essa aí também cai já? Depende, como sempre, e exclusivamente, de nós.
(P.S.: algumas horas depois de sua escolha para a Secretaria repercutir pessimamente, Fátima recuou e publicou a seguinte nota oficial: "Sempre trabalhei de forma democrática para defender a ampliação dos direitos das mulheres. Em respeito à minha história de vida, o meu posicionamento sobre a descriminalização do aborto não vai afetar o debate de qualquer questão a frente da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres. A mulher vítima de estupro, que optar pela interrupção da gravidez, deve ter total apoio do Estado, direito hoje já garantido por lei. Trabalharei, incansavelmente, para combater qualquer tipo de violência contra a mulher.")

Publicado em 24/05/2016 às 19:06

A Lei Rouanet tem que acabar. Mas não à bala

bolsonaro alberto fraga A Lei Rouanet tem que acabar. Mas não à bala
É repulsiva a iniciativa do deputado do DEM, Alberto Fraga, de pedir uma CPI da Lei Rouanet. O deputado da bancada da bala, chapinha de Bolsonaro, diz que já tem 202 assinaturas de deputados, mais que o suficiente para protocolar o pedido. Deve ter sujeira a ser descoberta, nesses anos todos de leis de incentivo? Claro. Mas não é nada perto da sujeira que está à vista de todos.
Quem é Fraga? É ex-tenente da PM. Nas eleições de 2014 arrecadou 1,5 milhão de reais para sua campanha, sendo um milhão de reais da UTC Engenharia, que está no centro da Operação Lava Jato. Sua principal bandeira é a redução da maioridade penal. É réu no STF por corrupção, acusado de exigir propina para assinar contrato, quando era secretário de Transportes do Distrito Federal. O nome de Fraga está em outros inquéritos no STF, envolvendo peculato, falsidade ideológica e crimes contra o sistema nacional de armas. Neste último, ele foi condenado pelo Tribunal de Justiça do DF a quatro anos de prisão em regime aberto, pelo crime de porte ilegal de arma de fogo e de munições de uso restrito. Este é o paladino da moralidade que pretende enfrentar a corrupção na cultura brasileira.
Claro que a Rouanet tem que acabar. Mas não à bala. Fraga não entende outro método que não a violência. É muito representativo do momento autoritário que o Brasil atravessa. Momento que, pelo andar da carruagem, não vai muito longe.
Existem duas maneiras úteis de o dinheiro público financiar a cultura. É sustentando o supernovo, ou levando o superpopular à população. O investimento dos governos deve ir diretamente para sustentar a produção de arte mais impopular, herética, experimental e estapafúrdia. A que não tem nenhuma viabilidade comercial. Ou, alternativamente, pra pagar show grátis de artista famosão na praça/praia, pro povo se divertir. A função do produto cultural é entreter e já não é pouca coisa. A função da arte é totalmente outra. É ser indomável, iluminadora, transformadora.
Tudo o que está entre o supernovo e o superpopular deveria ser julgado caso a caso. Portanto, não pode ser transformado em política pública. Não em um país tão permeável às ações entre amigos. Mudanças nas leis de incentivo ou na política de patrocínios da Petrobras e toda a cultura do país capotam. A maioria dos brasileiros não pode pagar R$ 200 por um show ou R$ 50 por um livro. Deveríamos todos poder votar com o bolso. O projeto do vale-cultura era bom. Não deu em muita coisa. Cinema: a regra da "retomada" são produções de R$ 5 milhões que não recuperam um décimo dos recursos captados via leis de incentivo.
Teatro: a maior parte dos patrocínios vai para montagens de terceira com atores de novela -hits da Broadway etc. Música: idem, com requintes como o ministro da Cultura se beneficiar de renúncia fiscal - o próprio Gilberto Gil levou em 2009 R$ 445 mil do nosso dinheiro.
É excesso de zelo eleger astros sertanejos ou festivais de rock goianos exemplo de lambança. Qual o problema de cada um correr atrás do seu? Não é a história deste país, todos se achegando para perto do cofre? "Se Gil pode, por que não eu?", se pergunta a nova cena artística brasileira, o que prova que ela só é nova na idade de seus participantes. O que interessa é grana grossa, governo, empresa grande. Da tropicália ao mangue beat a hoje, todo mundo adere tão rápido quanto possível. Vale pra cinema, literatura, o que você quiser. É essa a razão da grita dos artistas contra o final do Ministério da Cultura. E nenhuma outra.
A Lei Rouanet deveria sim ser jogada na lata de lixo da história. Não porque financia turnês da Claudia Leitte, Roberto Carlos ou outros que não precisam de dinheiro público. Alguém prova que o novo disco do Caetano Veloso é culturalmente mais importante do que o do MC Bin Laden? A Rouanet deve ir pro vinagre porque transfere ao governo federal e a diretores de marketing de grandes empresas todo o poder sobre o que será financiado na cultura brasileira, o que é a principal razão porque nossa cultura é hoje esse deserto de idéias, essa coisa invertebrada e bundona.
Agora: fazer CPI disso, nesse momento, é tentar dar troco truculento ao setor da cultura, que se opõe em massa a Temer, e faz bastante barulho. O interino precisa se acostumar a levar bordoada e parar com choradeira de "pressão psicológica". As pesquisas antes de assumir eram claríssimas sobre sua impopularidade, comparável à de Dilma. Imagine agora, quando tenta aprovar um pacote de medidas contra direitos dos mais pobres, sem propor nada para taxar os privilégios dos ricos. Imagine agora, que o interino povoou seu governo com corruptos aos montes. Imagine agora, após o episódio Jucá, quando toda a imprensa internacional condena como "conspiração" o movimento que o levou ao poder.
Temer virou objeto de chacota. Tem passado novas vergonhas a cada novo dia de seu mandato. De produção própria, de seus auxiliares e de sua base, como este Fraga. Fechou e reabriu o Ministério da Cultura. Agora adiciona essa coleção de constrangimentos a pecha de perseguidor de artistas (Temer, que tem pretensões de poeta!).
A Lei Rouanet precisa acabar. Mas o governo Temer já está acabando - a cada dia que passa.

Publicado em 16/05/2016 às 17:54

Não chore por Darwyn Cooke

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Um câncer agressivo levou Darwyn Cooke aos 53 anos. Soubemos de sua doença na sexta, morreu no sábado. Perda dolorida. Cooke estava deixando para trás suas obsessões, que homenageou magnificamente. Desbravava novas fronteiras. Não veremos o seu melhor.
O legado que deixa é um monumento a décadas que não viveu: o pós-Guerra, de 45 a 62, "os últimos anos cool". Se passa nesta época a mais bonita carta de amor que alguém já endereçou à DC Comics e ao programa espacial americano, "The New Frontier" (e compre a edição Absolute, de luxo; vale cada cent). Seus outros trabalhos famosos na DC passeavam pela mesma estética. Histórias de Batman; "Antes de Watchmen"; sua reinvenção (e a definitiva) da Mulher-Gato ao lado de Ed Brubaker. Seu nome está nos créditos do desenho que apresentou Batman à geração 90, e determina a estética televisiva "dark deco" do herói até hoje: "Batman, A Série Animada".
Também é este o mundo estiloso e perigoso de The Spirit. Cooke assinou a melhor versão do personagem clássico desde a original de Will Eisner, terna e tensa; e promoveu seu primeiro encontro com Batman. Virou o cara que era sempre lembrado para trabalhos que exigiam ternura pelo passado, o mestre da Era de Prata.

Darwyn Cooke2 1024x747 Não chore por Darwyn Cooke

Em entrevistas, revelou o tratamento que recebeu das duas grandes editoras. A Marvel encomendou a ele um projeto grande, para fazer versões de seus heróis para leitores de todas as idades. Cooke entregou um plano ambicioso e detalhado. A Marvel passou suas anotações para outros criadores e nunca lhe deu satisfação. Prometeu jamais trabalhar para a Marvel de novo. A DC jamais o chamou para assumir um personagem da editora; pelo menos lá teve chance de mostrar outras facetas, e trabalhar com parceiros à sua altura.
Seu talento fazia essas limitações editoriais invisíveis para o leitor. Mas a maestria no estilo retrô tornou-se uma prisão. A ruptura com as travas corporativas ainda foi de época. Os anos 60 são o ambiente de suas adaptações nervosas, noir-sépia, dos livros de Donald Westlake estrelados pelo ladrão profissional Parker. Adaptações, mas autorais, porque literatura policial era a grande paixão de Cooke. Já prefiguravam uma nova fase na sua arte. Numa pausa para respiro no projeto Parker, após quatro livros, lançou uma série original, que desenhava sobre roteiro de Gilbert Hernandez. The Twilight Children é diferente de tudo que fez antes: realismo mágico. Preparava para logo o lançamento de uma criação pessoal, Revengeance, comédia negra passada em 1986, baseada nas suas estrepolias em Toronto aos vinte e poucos anos.
A mais impressionante evidência de sua versatilidade é o livro Graphic Ink: The DC Comics Art of Darwyn Cooke. Traz histórias curtas, capas e ilustrações realizadas por ele para a DC. A diversidade dá vertigem. Cooke faz cartum e cinema, comédia e drama; terror, ficção científica e romance; art deco, grafismo e midcentury modern; Neal Adams, linha clara, Hanna-Barbera, Eisner, Moebius, Toth e muito mais; sempre sendo Darwyn Cooke. É escritor, cartunista, ilustrador, diretor de arte. Faz do velho, novo; encanta e entristece; dá terror e tesão.
Sua morte me chateou muito mais que a de David Bowie. Levei dois dias para perceber a razão. O obra de Bowie que importa está lá atrás, nos nove álbuns primorosos que lançou nos anos 70. Cooke deixa um legado precioso, mas o melhor de seu trabalho, maduro e livre de amarras, estava por vir. Celebremos o muito que fez em sua curta vida; não choremos por Darwyn, que viverá enquanto viverem os quadrinhos, mas pelo que perdemos.

jonah 775x1024 Não chore por Darwyn Cooke

Publicado em 13/05/2016 às 08:35

Os encontros secretos de Michel Temer com o governo dos EUA

de vice a presidente temer assume por ate 180 dias ARh4P0 1024x639 Os encontros secretos de Michel Temer com o governo dos EUA
Vieram à tona hoje dois documentos que precisam ser lidos. Estão em inglês. Porque são relatórios elaborados em inglês. Seus autores são funcionários do governo americano. Relatam conversas reservadas entre Michel Temer e o governo dos EUA. Foram divulgados hoje pela organização Wikileaks. Pela sua importância, em breve deve haver uma tradução confiável. Pela sua importância, segue abaixo a íntegra dos dois, no original.
Os documentos são de 2006. Temer teve outros encontros secretos com o governo americano depois disso? Não sabemos. Ainda. O que há de ilegal no líder do PMDB, futuro vice-presidente, hoje presidente interino, ter conversas secretas com o governo americano sobre os bastidores da política brasileira? Nada.
Mas vale ler mesmo assim.

RELATÓRIO 1

PMDB LEADER PONDERS PARTY'S ELECTORAL OPTIONS
Date:2006 January 11

1. (U) Sensitive but Unclassified - protect accordingly.

2. (SBU) Summary: Federal Deputy Michel Temer, national
president of the Brazilian Democratic Movement Party (PMDB),
believes that public disillusion with President Lula and the
Workers' Party (PT) provides an opportunity for the PMDB to
field its own candidate in the 2006 presidential election.
However, party divisions and the lack of a compelling choice
as a candidate could force the PMDB into an alliance with
Lula's PT or the opposition PSDB. If Lula's polling numbers
do not improve before the PMDB primaries in March, Temer
said his party might nominate its own candidate. This would
still allow the party to forge an alliance with the PT or
PSDB in a runoff, assuming that the PMDB candidate fails to
make the second round. Given its centrist orientation, the
PMDB may hold the balance of votes between the two opposing
forces. It is also likely to remain a force at the local
and state level. Temer believes it has a chance to win as
many as 14 gubernatorial races. End Summary.

3. (SBU) Michel Temer, a Federal deputy from Sao Paulo who
served as president of the Chamber of Deputies from 1997
through 2000, met January 9 with CG and poloffs to discuss
the current political situation. Lula's election, he said,
had raised great hope among the Brazilian people, but his
performance in office has been disappointing. Temer
criticized Lula's narrow vision and his excessive focus on
social safety net programs that don't promote growth or
economic development. The PT had campaigned on one program
and, once in office, had done the opposite of what it
promised, which Temer characterized as electoral fraud.
Worse, some PT leaders had stolen state money, not for
personal gain, but to expand the party's power, and had thus
fomented a great deal of popular disillusion.

4. (SBU) This reality, Temer continued, opens an
opportunity for the PMDB. The party currently holds nine
statehouses and has the second-highest number of federal
deputies (after the PT), along with a great many mayoralties
and city council and state legislative seats. Polls show
that voters are tired of both the PT and the main opposition
party, the Brazilian Social Democratic Party (PSDB). For
example, a recent poll showed former governor (and PMDB
state chairman) Orestes Quercia leading in the race for Sao
Paulo state governor.

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Divisions Dog the Party
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5. (SBU) Asked why the PMDB remains so divided, Temer said
the reasons were both historical and related to the nature
of Brazilian political parties. The PMDB grew out of the
Brazilian Democratic Movement (MDB) under the military
dictatorship, which operated as an umbrella group for
legitimate opposition to the military dictatorship. After
the restoration of democracy, some members left the PMDB to
form new parties (such as the PT and PSDB), but many of
those who remained now act as power brokers at the local and
regional level. Thus the PMDB has no real unifying national
identity but rather an umbrella organization for regional
"caciques" or bosses. Temer noted that the PMDB is not the
only divided party. Although there are 28 political parties
in Brazil, most of them do not represent an ideology or a
particular line of political thinking that would support a
national vision.

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SAO PAULO 00000030 002 OF 003

PMDB Primaries Set for March
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6. (SBU) Temer confirmed press reports that he is seeking
to move the March 5 primary date to a date later in the
month. (Note: March 31 is the deadline for executives and
Ministers to resign their offices if they plan to run for
public office. End Note.) There will be some 20,000
electors, he said, including all PMDB members who hold
electoral office (federal and state deputies, governors,
mayors, vice-governors and -mayors, and other elected
municipal officials) as well as delegates chosen at state
conventions.

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Lula's Numbers Will Drive PMDB Strategy
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7. (SBU) If, between now and the primary, the Lula
government's standing in the polls improves, it is still
possible the PMDB will seek an electoral alliance with Lula
and the PT, Temer said. If not, the PMDB will run its own
candidate. So far, Rio de Janeiro ex-governor Anthony
Garotinho has been working the hardest, reaching out to the
whole country in search of support. But there is resistance
to him from within the PMDB, in part due to his populist
image, in part because there appears to be a ceiling to his
support. Germano Rigotto, governor of Rio Grande do Sul
(reftels) is a possible candidate, though he is still not
well known outside the south. Nelson Jobim, a judge on the
Supreme Federal Tribunal (STF) who has announced his
intention to step down, is another possibility; however, he
can't campaign until he leaves the Tribunal, and he may not
have time to attract the support necessary to win the
primary.

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PMDB's Fallback - PT or PSDB in Second Round
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8. (SBU) Temer was confident that despite its current
division, the PMDB will unite for the election, whether in
support of its own candidate or in alliance with another
party. If it runs a candidate who fails to make it to the
second round, the party will seek to negotiate an alliance
with one of the two finalists. He noted that the PMDB had
supported the government of PSDB former president Fernando
Henrique Cardoso, and said there should be a "re-fusion" of
the two parties into a permanent grand alliance. The PMDB
would have no problem with either Sao Paulo Mayor Jose Serra
or Sao Paulo state governor Geraldo Alckmin, who are
competing for the PSDB nomination. In 2002, the PMDB
supported Serra against Lula.

9. (SBU) Asked about the party's program, Temer indicated
that the PMDB favors policies to support economic growth.
It has no objection to the Free Trade Area of the Americas
(FTAA). It would prefer to see Mercosul strengthened so as
to negotiate FTAA as a bloc, but the trend appears to be
moving the other way.

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Comment: PMDB As Power Broker?
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10. (SBU) For now, the PMDB is keeping its options open.
Though Temer didn't mention it, the party's leadership is
waiting to see whether the "verticalizacao" rule will remain
in force for the 2006 elections. This rule, decreed by a
2002 decision of the Supreme Electoral Tribunal (TSE),
dictates that electoral alliances at the national level must
be replicated in races for governors and federal deputies.
The Senate passed a measure repealing the rule, and the
lower chamber is expected to vote on it shortly, with
prospects uncertain. There is also a legal challenge to the
rule pending which the TSE will likely take up in February.
The PMDB wants to know the rules of the game before deciding
on possible alliances, since most observers believe that a

SAO PAULO 00000030 003 OF 003

PMDB presidential candidate would not fare well under the
current system of "verticalizacao." Temer appeared open to
the possibility of an alliance with either the PT or the
PSDB, or to a stand-alone PMDB candidate. Given its
centrist orientation, the PMDB may hold the balance of votes
between Lula's PT and the opposition PSDB, and thus bears
watching closely in the months ahead. End Comment.

11. (U) Biographic Note: Michel Miguel Elias Temer Lulia
has served as federal deputy from Sao Paulo since 1987,
except for a two-year period (1993-94) when he was Secretary
for Public Security in the Sao Paulo state government. He
studied at the University of Sao Paulo and earned a
Doctorate in Law from the Catholic University of Sao Paulo.
From 1984 through 1986 he was the state's Prosecutor
General. He served as the PMDB's leader in the Camara de
Deputados 1995-97 and as President of the Camara 1997-2000.
He was national president of the PMDB 2001-03 and 2004-
present.

12. (U) This cable was cleared/coordinated with Embassy
Brasilia.

McMullen

RELATÓRIO 2

PMDB CHIEF AFFIRMS PARTY'S POSITION AS POWER BROKER BUT BALKS AT PREDICTING PRESIDENTIAL RACE
Date:2006 June 21

C) SAO PAULO 623; (D) BRASILIA 1136;
(E) SAO PAULO 573 AND PREVIOUS; (F) SAO PAULO 30

SENSITIVE BUT UNCLASSIFIED - PLEASE PROTECT ACCORDINGLY

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SUMMARY
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1. (SBU) Michel Temer, President of the Brazilian Democratic
Movement Party (PMDB), believes President Lula has done a masterful
job of disassociating himself from the political corruption scandals
that have crushed some of his closest advisers. He also has
effectively expanded social programs to earn the loyalty and support
of Brazil's lower-middle and lower classes. At the same time,
Lula's opponent, Sao Paulo ex-Governor Geraldo Alckmin, suffers from
a lack of charisma and a failure to have left a visible mark in five
years at the helm of Brazil's largest state. Nevertheless, Temer
declines to predict what will happen in this race, except to say it
will go to a second round, in which "anything can happen." He
confirmed that his own party will not run a candidate for president
and will not ally with either Lula's Workers Party (PT) or the
opposition Brazilian Social Democracy Party (PSDB), at least not
before the second round. However, the PMDB will win the governors'
races in at least ten and possibly as many as fifteen states, and
will again have the largest bloc in both the Senate and the Chamber
of Deputies, so that "whoever wins the presidential election will
have to come to us to get anything done." END SUMMARY.

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LULA'S SLEIGHT OF HAND
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2. (SBU) In a June 19 meeting with Consul General (CG) and Poloff,
Michel Temer, Federal Deputy from Sao Paulo, offered his assessment
of the balance of forces for the presidential election. Though
anything can still happen -- he has seen candidates overcome much
greater disadvantages than Alckmin currently faces, and win -- it is
clear that President Lula is in a strong position. Temer
dispassionately analyzed how Lula had seen his Chief of Staff and
the entire leadership of his party disgraced, and prominent
Congressional members of his party dragged through scandal, and had
emerged personally more or less untouched. This was partly because
other political parties -- Temer mentioned the PSDB and the Liberal
Front Party (PFL) but not his own PMDB, though his comment could
just as easily apply to them -- had, at different times, been
involved in affairs akin to the PT's infamous "mensalao" bribery
scheme, and were thus not eager to expose the PT's misdeeds to the
fullest.

3. (U) It was also because Lula had such a strong bond with the
people, the so-called C, D, and E classes - i.e., the lower-middle
and lower classes. Many in these strata, in Temer's view, believe
that Fernando Henrique Cardoso (FHC) had robbed the poor and given
to the rich, while Lula robs the rich and gives to the poor. Lula
has expanded the "Bolsa Familia" program from 6.5 million families
in 2004 to 8.7 million in 2005 to 11 million families this year, or
(assuming two children per family) roughly 44 million Brazilians.
This, combined with the increase in the minimum wage, the rise of
the Real against the US dollar, and the fall in the price of certain
basic food staples, make the poor much better off. Paradoxically,
many of the rich, especially bankers and other major financial
players, have also benefited from Lula's policies.

4. (SBU) It is the middle class that has suffered from both an
increasing tax burden and the loss of professional-level jobs. In
truth, Temer continued, it is difficult to be optimistic about
Brazil's economic future. The fact of 11 million families eligible
for Bolsa Familia handouts implies a minimum of 44 million people in
abject misery in Brazil. He described a recent event he had
attended sponsored by the Institute for Industrial Development
Studies (IEDI), where Minister of Development, Commerce, and
Industry Luiz Fernando Furlan delivered an upbeat speech. When
challenged by a member of the audience with a few hard questions and
statistics, Furlan, who has himself been at times a tough critic of
the GoB's economic policies, was at pains to respond. Brazil faces
serious challenges in fostering growth, stimulating productivity,
attracting investment, improving infrastructure, and reducing
inequality; however, Lula's sleight of hand has made many voters all
but unaware of these growing problems.

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ALCKMIN'S LACK OF CHARISMA
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5. (SBU) Meanwhile, Alckmin is simply stuck. Temer believes that
since inheriting the governorship from Mario Covas in 2001, Alckmin
has provided honest, decent, competent government to Sao Paulo.
However, in a country that relishes superlatives, he did not
champion any great works, and his accomplishments are not visible.
Alckmin is not personally aggressive or charismatic and is not given
to showmanship, so he didn't leave a distinctive mark on the state.
By way of comparison, Orestes Quercia (ref C), Governor of Sao Paulo
from 1987 to 1990, was a controversial (many say corrupt) figure,
but he definitely left his mark on the state in the many streets and
highways and prisons and hospitals he built. (COMMENT: The same
might be said of colorful, and reportedly equally corrupt, former
Mayor and Governor Paulo Maluf. END COMMENT.) Former President
Cardoso was another example of a politician who had charisma. But
let's wait and see what happens, Temer suggested. Wait until after
the World Cup, which could impact on the voters in a variety of
different and not easily predictable ways, depending on the result.
Wait until the government-subsidized television advertising begins.
It will be "a great war" on the airwaves, and it opens up
innumerable possibilities for the underdog.

6. (U) Temer, a former Sao Paulo state Secretary for Public
Security, was not certain whether Alckmin would suffer as a result
of the recent violence on the streets and in the prisons of Sao
Paulo (ref E) perpetrated by the criminal gang First Capital Command
(PCC). Some of his public criticism of his successor, Governor
Claudio Lembo, had been unfortunate and not good for his image. But
only time will tell how this situation plays out.

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LULA'S TURN TO THE LEFT?
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7. (SBU) CG asked what a second Lula term would look like, assuming
he is re-elected. Unlike some of our interlocutors, Temer believes
Lula may take a more radical (i.e., populist) approach during a
second term. The recent incident in which radicals from the
Movement for the Liberation of the Landless (MLST) stormed the
Chamber of Deputies (ref D) and committed acts of vandalism was a
harbinger of things to come. The group's leader, a member of the
PT's Executive Committee, had on many occasions over the years been
seen at Lula's side. The PT had suspended him, but had taken no
further action and did not appear particularly upset over the
episode, Temer noted.

8. (SBU) Lula, in Temer's view, was a trade unionist who had done
well for himself, who, once re-elected, might finally begin to heed
his friends on the left. Very possibly he would let himself be led
away from the orthodox macro-economic policies that have dominated
his first term. (COMMENT: Some other observers have also pointed to
the GOB's expansion of social spending in recent months as an
indication that Lula is drifting left. Thus far, however, this
spending seems in line with the pump-priming measures of most
incumbents seeking re-election. While Temer sees Lula's campaign
pitting "rich versus poor" as a sign of things to come in a second
term, many analysts who have followed Lula's career characterize him
as a "cultural conservative" who is unlikely to succumb to the
radical leftist/populist temptation. A more worrisome, and more
likely, scenario is a second-term Lula government that lacks the
policy direction, political will, and working majority in Congress
required to push through essential economic and political reforms.
END COMMENT.)

9. (SBU) Turning to his own party's fortunes, Temer confirmed
reports that the PMDB will not run its own candidate for President,
and will not enter into a formal alliance with either the PSDB or
the PT. Any of these options at the national level, he explained,
would damage the party's chances in some of the states because the
"verticalization" rule remains in effect during the 2006 elections.
The recent ruling by the Superior Electoral Tribunal (TSE), which
would have tightened even further the rules governing party
alliances (ref B), was probably correct, Temer averred, even though
it would have been disastrous for the PMDB. If you're going to
require parties to replicate their national alliances at the state
level, it makes perfect sense to go a step further and say that
parties that don't run or formally support presidential candidates
may not ally at the state level with parties that do. Nevertheless,
as the head of a party whose lifeblood is coalition-building at the
state level, Temer was relieved when the TSE reversed itself within
48 hours, and he looked forward to the 2010 elections when the
Constitutional amendment abolishing the "verticalization" rule
altogether would enter into force.

10. (SBU) If the presidential election goes into a second round, as
Temer is sure it will, the PMDB may at that point throw its support
to one side or the other. The PMDB remains split almost evenly
between the pro- and anti-Lula groups. The former seeks alliances
with the PT and hopes for several Ministries in Lula's second
administration. Temer, who is anti-Lula, was highly critical of the
pro-Lula faction and commented wryly over some of the party's
internal contradictions and divisions. Renan Calheiros, President
of the Senate, is the leader of the PMDB's pro-Lula faction; yet, in
his home state of Alagoas (northeast), the PMDB will support the
PSDB's gubernatorial candidate, Senator Teotonio Vilela. Another
pro-Lula leader is Senator (and former President) Jose Sarney, but
his daughter, PFL Senator Roseana Sarney, will be running for
Governor of Maranhao (also in the northeast) with PMDB support
against a PT candidate. Temer outlined the situation state by
state, ending with Sao Paulo. The PSDB, he noted, badly wants an
alliance with the PMDB, but they want to choose the PMDB candidate
to be Jose Serra's running mate. This issue will be resolved within
the week, since the PMDB holds its state convention on June 24. The
party will not hold a national convention June 29 as originally
planned, since all its issues at the national level were resolved at
a preliminary June 11 caucus.

11. (SBU) Temer, who himself had strongly favored fielding a PMDB
presidential candidate (ref F), noted that by relinquishing this
ambition, the PMDB stands to win the governors' races in ten or
perhaps even fifteen states, and will again have the largest blocs
in both the Senate and the Chamber of Deputies. Thus, whichever
party wins the Presidency will inevitably have to seek an alliance
with the PMDB in order to govern. Temer spoke caustically of the
Lula administration's miserly rewards for its allies in the PMDB.
They give the job of Minister to a PMDB loyalist, but no real
control over the Ministry; thus, he can't accomplish anything. In
contrast, Temer believes that in return for joining a governing
alliance, the party should be given control over a sector of the
economy, agriculture, say, or health, and full responsibility for
operating that sector, and should receive full credit or blame for
the successes and failures in that sector. (COMMENT: Left unsaid,
of course, is that the sort of control Temer envisions would also
give the PMDB, and other allied parties, the opportunity to advance
their political patronage goals at the taxpayers' expense. The
PMDB, which is Brazil's largest political party, is already
well-known as a vehicle for patronage. END COMMENT.)

12. (SBU) Temer was more charitable in his assessment of Alckmin's
campaign and his performance as Governor than Alckmin's own PSDB
colleague, Andrea Matarazzo (ref A). Nevertheless, Temer's critique
hits home: Alckmin may perform in the coming months, but so far he
simply has not connected at any level with the electorate. Lula's
job performance, on the other hand, may be open to question, but his
ability to communicate with and relate to the average Brazilian is
unsurpassed. Temer is correct that whichever candidate wins will
need to turn to the PMDB for support in governing. The real problem
is that the PMDB has no ideology or policy framework that it could
bring to the task of formulating and implementing a coherent
national political agenda. Despite the party's illustrious history
as the guiding force that led Brazil from military dictatorship to
democracy, the PMDB, which now holds the balance of political power,
has devolved into a loose coalition of opportunistic regional
"caciques" who for the most part - and there are exceptions - seek
political power for its own sake. Such a party is hardly suited to
the task of providing political direction, which would be
particularly important in a post-election alliance with Lula's
rudderless PT. END COMMENT.

13. (U) This cable was coordinated/cleared with Embassy Brasilia.

MCMULLEN

Links para a publicação original no Wikileaks:

https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO30_a.html

https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO689_a.html

Publicado em 05/05/2016 às 18:49

Cunha cassado: tudo deve mudar para que tudo fique como está

20160420075507318561a Cunha cassado: tudo deve mudar para que tudo fique como está
Foi muito importante afastar Cunha. Por quê? Porque era um símbolo. E para evitar qualquer chance dele se tornar presidente da república, o que aconteceria em caso de impedimento de Dilma e Temer. A hipótese não era absurda não. E aliás ficou muito mais provável hoje. A posição de Temer é mais frágil a cada dia que passa.
Hoje foram muitas notícias negativas para o vice que quer ser presidente. Temer foi condenado pelo TRE de São Paulo e virou ficha-suja, inelegível por oito anos. O ministro Teori Zavascki citou um pagamento de R$ 5 milhões a "Michel" na liminar que determinou o afastamento de Cunha, uma transcrição de conversa entre Cunha e o executivo Léo Pinheiro, da construtora OAS. O substituto de Cunha na presidência da Câmara, e seu aliado fiel, Waldir Maranhão, tem nas mãos botar para votar (ou não) o processo de impeachment de Temer. Maranhão tem problemas bem sérios com a justiça, e parece bem permeável a pressões. O TSE decidiu incluir informações da Operação Lava-Jato nas ações que pedem a cassação da chapa que elegeu Dilma e Temer.
E para completar, Temer perdeu seu grande aliado no esforço para impedir Dilma. E pode até ver ele transformado em um inimigo, nos próximos dias. Mesmo afastado, Cunha continua poderoso, influente, rico e, claro, sabe de muita coisa.
Dilma não tem condições de terminar o seu mandato? Temer vai pelo mesmo caminho, tão impopular quanto ela e sob suspeição da imprensa internacional. É boa notícia que Cunha saia da linha sucessória. Infelizmente Renan Calheiros o substitui. Tem tanto estofo para a presidência quanto Cunha.
É mais uma evidência que o Brasil não precisa trocar as pessoas, mas o próprio sistema como elas chegam lá.
Não adianta a gente se livrar de um bandido e deixar a porta aberta para outro tomar seu lugar. Não haverá política com P maiúsculo sem reforma política; não haverá reforma política sem uma Constituinte Exclusiva para modernizar nossas leis; não haverá Constituinte sem eleições gerais e limpas.
Enfrentar essa tarefa é difícil e necessário. Caso contrário o Brasil continuará refém da máxima do príncipe de Falconeri, nobre italiano decadente que protagoniza O Leopardo, de Lampedusa: "Tudo deve mudar para que tudo fique como está."

Publicado em 26/04/2016 às 15:53

Por que você precisa defender Bolsonaro

com bolsonaro 19 pedidos de impeachment contra dilma Por que você precisa defender Bolsonaro
Ele é um troglodita. Ele defende a tortura. Ele é machista. Ele tem preconceitos com as minorias. Ele é... Donald Trump. Que está pertinho de ser candidato a presidente dos Estados Unidos. Trump causa horror em muitos, dentro e fora de seu país. Para muitos, seu discurso é uma barbaridade indefensável. Para outros é a única solução para a América. Será presidente? Veremos.
O que não se vê nos Estados Unidos é uma tentativa de calar Trump. Os americanos, mesmo os que têm asco dele, dão de barato que ele tem todo direito de dizer o que bem entender. No Brasil estamos bem longe da compreensão americana do que é liberdade de expressão.
Há petições correndo para que Jair Bolsonaro perca seu mandato, por ter dedicado seu voto pró-impeachment ao governo militar, ao coronel Brilhante Ustra, chefe da tortura. A OAB acionou a Câmara para tirá-lo do Congresso. Dizem que tortura é um crime hediondo, e portanto apologia à tortura é um crime hediondo. Isso é um absurdo. Defender uma posição é completamente diferente de usar violência contra alguém.
As palavras exatas de Bolsonaro foram: “Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff.” Bolsonaro defende seu mandato da maneira mais pusilânime possível. A nota do deputado:

"Em nenhum momento foi feita homenagem a qualquer torturador, considerando a inexistência de sentença condenatória atestando que o Coronel Ustra tenha praticado crime de tortura.
O que existe são apenas acusações de pessoas que não devem ser levadas em consideração, pelo fato de terem interesse em receber indenizações por motivação política. O Coronel Ustra foi um bravo que lutou para evitar que o Brasil fosse comunizado e se transformasse numa imensa Cuba. Estranha também que a OAB não tenha a mesma preocupação com os parlamentares que homenagearam Marighella, Lamarca, Prestes e outros criminosos."
O argumento é que como Ustra jamais foi condenado pela Justiça, é "inocente". Mesmo após dezenas de testemunhas apontarem o coronel como um sádico que chegou a torturar crianças e grávidas. É o argumento frouxo de um canalha, que é o que Bolsonaro é.
Mas os canalhas também têm direito à liberdade de expressão. Mesmo os deputados. Mesmo os perigosos.
É patético que Bolsonaro seja perseguido por exercer sua liberdade de expressão, enquanto gente que teve participação direta na ditadura está tranquila por aí. O bandido que torturou Dilma Rousseff vive tranquilamente no Guarujá e nunca passou um dia na cadeia, nem enfrentar abaixo-assinados ou perseguição. Harry Shibata, legista do Doi-Codi, é meu vizinho de bairro. E, claro, tortura acontece todo dia em alguma delegacia do país.
E vamos responsabilizar não só os executores, mas também os mandantes? O caso mais estarrecedor é o de Delfim Netto, que assinou o AI-5, foi ministro dos militares várias vezes, e fazia a ponte com o empresariado paulista, para o financiamento da tortura na Operação Bandeirantes. Hoje é conselheiro de Temer, depois de fazer o mesmo papel com Lula e FHC, colunista de jornal, "consultor" acusado de continuar ganhando uma dinheirama da corrupção etc.
Bolsonaro tem todo direito de dedicar seu voto a quem quiser. Tem direito de defender que a tortura deveria ser legalizada no Brasil. As declarações de Bolsonaro te causam horror? Mais uma razão para defendê-lo. A liberdade de expressão que importa é a de quem te causa horror. Porque é o certo. E por interesse próprio: o que você diz também pode causar horror a alguém.
Se você ama a liberdade, precisa defender o mandato de Jair Bolsonaro, e seu direito de dizer o que bem entender.

Publicado em 25/04/2016 às 18:54

Leia esse livro: Words and Music, de Paul Morley

words Leia esse livro: Words and Music, de Paul Morley
Indescritível é pouco para Words and Music. O subtítulo é "Uma história do Pop no formato de uma cidade." É uma história da música pop, sim, mas também memória, literatura, provocação, viagem psicodélica. É sobre a conexão do pop com a música clássica e a experimental e com a vida e com tudo. E o eixo de tudo é um videoclipe de Kylie Minogue, "I Just Can´t Get You Out of My Head."
Morley faz parte dessa história e não só como jornalista musical de mão cheia (recebi como referência de boas entrevistas musicais o livro Ask: The Chatter of Pop, das mãos do meu chefe, José Augusto Lemos, ao começar a trabalhar na revista Bizz, 1990. Está comigo até hoje). Foi co-fundador com Trevor Horn do selo ZTT. Foi uma das cabeças por trás do Art of Noise, do Propaganda e, uau, do Frankie Goes To Hollywood.
Leia Words and Music.
A trilha sonora de Words and Music está aqui.

Publicado em 25/04/2016 às 17:14

Nem Dilma, nem Temer, nem eleições: uma proposta imodesta para os jovens do Brasil

Dilma Temer 1024x634 Nem Dilma, nem Temer, nem eleições: uma proposta imodesta para os jovens do Brasil
Nem Dilma nem Temer. É o que o Brasil quer para o Brasil. É o resultado que todas as pesquisas confirmam. Na mais nova, do Ibope, 62% dos brasileiros dizem que querem Dilma e Temer fora do governo e realização de novas eleições para presidente e vice. Só 25% acham que seria uma boa Dilma ficar, e isso só se ela conseguir fazer um acordo com a oposição. E só 8% defendem que Temer assuma a presidência.
Este resultado prova a maturidade do brasileiro. Reconhece que Dilma fez uma péssima gestão e Temer foi seu parceiro próximo nisso, durante todo o tempo. Que Temer conspira para chegar à presidência e Dilma para nela se manter, ambos usando todo o arsenal da pior política. Que se Temer tem Cunha, Dilma tem Renan, símbolos do que há de mais corrupto no Congresso. Que Dilma e Temer deram pedaladas fiscais. Que Dilma e Temer se beneficiaram de doações de empreiteiras para sua campanha, e pelo que tudo indica boa parte foi Caixa 2. Que tanto PT quanto PMDB são partidos manchados pela corrupção. Que o governo Dilma está fraquíssimo e um governo Temer já nasceria tão frágil quanto. Reconhece, enfim, que Dilma e Temer são mais parecidos do que diferentes.
A vontade popular é clara: novas eleições. Não dá para discutir até o terceiro milênio as questões práticas e legais envolvidas nisso. O tempo urge. Um lado argumenta que Dilma foi eleita e tirar ela de lá sem provar crime é golpe. Outro lado diz que não é golpe porque todas as regras da Constituição para o impeachment estão sendo seguidas. O brasileiro não está com paciência para ouvir os argumentos de juristas pró e a favor.
Acorda, Brasília: o bicho está pegando já. A economia derrete. O desemprego explode. Os ganhos dos anos FHC e Lula estão em retrocesso violento."Golpe" é se agarrar ao juridiquês a esta altura do campeonato. Seja por parte de Dilma ou de Temer. O povo quer mudança. Não confia nem em Dilma, nem em Temer para fazer o que é preciso. "Todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido." Vamos lembrar dessa frase?
Há quem entenda que esta rejeição a Dilma e Temer e à classe política em geral abre espaço para a eleição de um oportunista para a presidência. Pode ser. Pode ser o contrário: sinal de inteligência do eleitor, que já compreendeu que não basta mudar as pessoas. É preciso fazer mais. Mas o quê? Isso muita gente não sabe.
O que precisamos é de um Plebiscito Constituinte. O nome já dá preguiça, mas tenha um pouco de paciência antes de formar sua opinião. O Plebiscito é quando o eleitor decide se quer uma coisa ou não quer. Uma Constituinte é quando o eleitor elege uma assembleia de representantes para modificar as regras fundamentais do País. Redefinir os princípios e as instituições. Reconversar como deve funcionar o governo, o Legislativo e o Judiciário. As decisões desses representantes viram a nova Constituição do país. Um Plebiscito Constituinte é um Plebiscito para decidir se o Brasil deve ter ou não uma nova Assembleia Constituinte.
O Plebiscito também deve decidir quais as regras para a eleição de nossos representantes para a Assembleia Constituinte. Por exemplo: se podem se candidatar somente pessoas que tenham ficha limpa ou qualquer um. Se só podem se candidatar pessoas filiadas a partidos, ou qualquer um. E por aí vai.
Uma Assembléia Constituinte tem muito poder. Poder, por exemplo, para fazer uma Reforma Política. Que garanta que de fato os brasileiros estejam representados de maneira proporcional no Legislativo. Que cada um dos poderes tenha sua autonomia e seus limites institucionais. E principalmente que ajude a blindar o Brasil, para que não hajam tantas brechas para má gestão, incompetência e corrupção.
A campanha pelo Plebiscito Constituinte foi proposta por 507 organizações sociais em 2013, no embalo das manifestações daquele ano. Assinavam a proposta alguns partidos, inclusive, veja só, o PT. Em junho de 2013, quando o bicho estava pegando nas ruas, Dilma Rousseff incluiu sua própria versão da proposta dentro do que chamou de "Cinco Pactos Nacionais". A presidente disse: "Quero propor um debate sobre a convocação de um plebiscito popular, que autorize o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita". A proposta de Dilma, atenção, era uma Constituinte somente para fazer a Reforma Política e mais nada. Foi rechaçada. Dilma poderia mesmo assim ter mandado uma Proposta de Emenda Constitucional para o Congresso. Deixou o assunto para lá. Quem sabe está se arrependendo agora?
Marina Silva vem propondo eleições diretas já. Luciana Genro quer mais: “que as eleições municipais de 2016 se transformem em eleições gerais para renovar todos os parlamentos e o Poder Executivo. Eleições sem financiamento privado, conforme decidido pelo STF, e com direitos iguais para todos os candidatos." As propostas das duas ex-candidatas à presidência têm a mesma falha fundamental. Mudar as pessoas sem mudar as regras é enxugar gelo.
Aqui está uma proposta imodesta: nas eleições em outubro, vamos incluir o Plebiscito sobre a criação de uma Assembléia Constituinte. Esta é sobre o nosso futuro. E agora, uma proposta modesta, que é para dar conta do nosso presente: também vamos em outubro escolher novos Presidente e vice e renovar em 100% o Congresso. Isso além do que já estava previsto: prefeito, vereador, deputado estadual. Seria uma boa limpa. Mas não só na sujeira atual, e sim no próprio ambiente que permite que a podridão viceje.
Um detalhe importante: a última vez que tivemos uma Assembleia Constituinte no Brasil foi em 1988, quase trinta anos atrás. Uma parte gigantesca dos brasileiros nem era nascida, outros criancinhas. O mundo mudou demais de 1988 para cá. Está mais que na hora de atualizar o Brasil, da juventude brasileira ter uma Constituinte adaptada aos novos tempos, que seja a sua cara.
Muitas supostas autoridades - comentaristas, jornalistas, especialistas - descartarão de cara esta proposta. Dirão que não está previsto sei lá onde, não vai ter apoio, não tem chance de ser aprovada, é molecagem, não é proposta prática e, o beijo da morte, que é "utópica". Estão todos errados. Como disse o dramaturgo George Bernard Shaw: "o homem razoável adapta-se ao mundo; o não-razoável persiste em tentar adaptar o mundo a si próprio. Portanto, todo progresso depende de homens não-razoáveis."
No mundo da economia e da tecnologia se fala muito de "Disrupção". Significa a criação de uma coisa radicalmente nova, seja uma idéia, uma tecnologia ou um modelo de negócio, que transforma radicalmente o cenário. A disrupção destrói valor, gera valor, torna os modelos anteriores obsoletos e enterra rapidamente seus antagonistas. Uma das maiores teóricas da disrupção, a professora canadense Frances Fox Piven, diz que se aplica também para a política: "os grandes momentos de mudança na história dos EUA vieram em momentos de contestação massiva do que estava estabelecido." Movimentos sociais de base, de massa, teriam esse poder único de transformar demandas supostamente pouco realistas em exigências que não podem mais ser ignoradas.
É a tese central do novo livro This is an Uprising: How Nonviolent Revolt is Shaping the 21st Century (Isso é uma Insurreição: Como a Revolta Não-Violenta Está Moldando o Século 21), de Mark Engler e Paul Engler. O livro acaba de ser lançado. Está dando o que falar, ainda mais com a situação nos Estados Unidos (Trump causando de um lado, o socialista Sanders encantando do outro, e Hillary espremida entre os dois). Naomi Klein, para citar um ícone anti-establishment, diz que o livro é "apaixonante, ambicioso e indispensável".
Os Engler escrevem: "mudanças sociais raramente são tão incrementais ou previsíveis quanto muitos `especialistas` sugerem. Há ocasiões em que uma explosão de resistência parece abrir um novo mundo de possibilidades, criando oportunitades imprevistas de transformação." Os autores citam especificamente o Movimento dos Direitos Civis e Martin Luther King; campanhas de desobediência civil que tiveram resultado contra regimes autoritários na Sérvia, Filipínas, Chile, Polônia e Tunísia, começando por Gandhi na Índia; e o casamento gay, que em 15 anos foi de política impensável nos EUA a um quase consenso na política americana. Mark e Paul aprofundam a questão discutindo o que é preciso para enfrentar as mudanças climáticas e concluem que o incrementalismo não dará conta do desafio: "nunca antes a humanidade dependeu tanto para sua sobrevivência de um movimento social que aposte no que não é prático."
Os movimentos populares de resistência podem causar uma grande disrupção, e mudar para melhor as sociedades. No Brasil, em 2016, não há outra opção. Tá na mão do povão. Porque a elite do país já fez sua escolha. É Jair Bolsonaro. Entre os brasileiros que têm renda familiar mensal superior a dez salários mínimos (o que é só 5% da população, mas o grupo mais influente, inclusive na hora de financiar as campanhas), Bolsonaro lidera a corrida presidencial. Em um dos cenários chega a ter 23% das preferências, e Lula ficaria em segundo lugar, com 13%. Já os pobres mais pobres do Brasil, os eleitores que ganham até dois salários mínimos, Bolsonaro tem só 4% dos votos. A pesquisa é do Datafolha.
Se há uma bandeira que pode unir a maioria de nós, é essa: que o povo decida se quer mudar as regras. Que o povo eleja seus representantes para fazer as novas regras. Que a vontade popular seja soberana. No Brasil, em que a maior parte da população é muito jovem, significa que a vontade do jovem será soberana. Você apóia?
Seria a criação de um novo compromisso entre os brasileiros, em um Brasil que se distancia da ditadura e enfrenta os desafios da democracia. Seria precioso, hoje que estamos unidos como nunca estivemos pelas mídias digitais, e desunidos como nunca estivemos para benefício dos mesmos de sempre.
É fácil? Quase nada que vale a pena de verdade é fácil. Também não é essa dificuldade toda. Não é cenário de ficção-científica nem requer milagre do gênio da lâmpada. É só nos organizarmos para pressionar por uma eleição e um Plebiscito. Já fizemos coisas bem mais complicadas.
E se esta imodesta proposta contém um certo perfume de utopia, qual o problema? Nenhum e muito pelo contrário. Lembremos Eduardo Galeano, intelectual falível, militante manco, que deveria ser leitura obrigatória para quem não viveu o século 20, para os jovens que têm nas mãos a chance e responsabilidade de mudar o Brasil, o mundo: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Publicado em 12/04/2016 às 14:47

O último presente de David Bowie

tumblr mjcv3j4snu1rmxlloo1 1280 1024x1021 O último presente de David Bowie
É bonito o adeus definitivo de David Bowie ao mundo dos videoclipes, que ajudou a inventar, como fez com tantas outras coisas na cultura popular. Sem seu rosto, tem sua cara. O vídeo foi dirigido por Jonathan Barnbrook, artista que criou o design do disco de despedida de Bowie, Blackstar.
A canção é "I Can´t Give Everything Away", a mais simples, talvez a mais bonita do álbum. Só agora, vendo o vídeo, percebi que soa como o disco mais feliz de Bowie, Black Tie White Noise.
É um álbum meio esquecido na discografia de Bowie, porque rica demais. Co-produzido com Nile Rodgers, reafirma a ligação do artista com a música negra, mas dispensa propositalmente o apelo pop irresistível da parceria anterior da dupla, Let´s Dance. É contido e pessoal. Um pouco eletrônico, um pouco rock, um pouco jazz, até instrumental. Foi o reencontro de David com seu instrumento inicial, o saxofone. Voltava à cena elegante, tranquilo. Tudo que o rock não queria ouvir em 1993.
Black Tie White Noise foi gravado no embalo do casamento com Iman, que logo lhe daria uma filha e o acompanhou até a morte. Em retrospecto, foi o momento que reestabeleceu Bowie como um artista que, vida segura, seguiria arriscando na sua arte. Acertando e errando, o que fez até o último dia, até o último vídeo, em que o acerto está na seleção, em vida, de Jonathan Barnbrook. Além de artista gráfico, ele é tipógrafo, criador de fontes. Quem mais acertado para fazer um "lyric video", um clipe focado na letra da canção?
Bowie nos surpreende até depois da morte com um último presente. I can´t give everything away, canta na despedida. Tudo é muita coisa. Bowie nos deu o que queríamos.

Publicado em 07/04/2016 às 15:40

Alckmin, manter Nalini secretário é falta de educação com a gente

JOSE RENATO NALINI 1024x666 Alckmin, manter Nalini secretário é falta de educação com a gente
Para quem sonha ser presidente, Geraldo Alckmin podia caprichar mais quando se trata de Educação. Afinal, o maior chavão da política brasileira é dizer que "educação é a solução". O governador de São Paulo tem desde sempre péssima relação com o professorado, do primário à universidade. Com os alunos nem se fala. Mas tudo que é ruim sempre pode piorar. É o que aconteceu agora.
Ano passado Alckmin cometeu uma barbeiragem daquelas ao tentar impôr uma reorganização das escolas paulistas sem ouvir professores nem alunos, que peitaram o governo e barraram a mudança. Ficou tão feio que o secretário da educação caiu. Foi substituído pelo desembargador José Renato Nalini. Ele tem uma característica muito interessante para um secretário da educação: acha que a educação pública não é dever público. Para ser coerente, deveria pedir demissão imediata do cargo.
Nalini escreveu e publicou no site da Secretaria de Educação um texto surreal. Demonstra absoluta, chocante desconexão com o mundo da educação, e aliás com o mundo em geral. Publico na íntegra abaixo.
Mas antes pinço um trechinho:

"Muito ajuda o Estado que não atrapalha. Que permite o desenvolvimento pleno da iniciativa privada. Apenas controlando excessos, garantindo igualdade de oportunidades e só respondendo por missões elementares e básicas. Segurança e Justiça, como emblemáticas. Tudo o mais, deveria ser providenciado pelos particulares."

Inclusive educação, claro. Que autoridade moral tem Nalini para comandar a educação pública no estado mais rico do país, depois dessa?
Para completar, uma boa sobre Nalini. Um ano atrás, antes de ser secretário, ele deu uma entrevista para o Jornal da Cultura em que defendia que o auxílio-moradia para juízes.
Nalini, então presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, declarou:

“Hoje, aparentemente o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de Imposto de Renda, ele tem que pagar plano de saúde, ele tem que comprar terno, não dá para ir toda hora a Miami comprar terno, que cada dia da semana ele tem que usar um terno diferente, ele tem que usar uma camisa razoável, um sapato decente, ele tem que ter um carro.

Espera-se que a Justiça, que personifica uma expressão da soberania, tem que estar apresentável. E há muito tempo não há o reajuste do subsídio. Então o auxílio-moradia foi um disfarce para aumentar um pouquinho. E até para fazer com que o juiz fique um pouquinho mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome de pânico, tanto AVC etc

Então a população tem que entender isso. No momento que a população perceber o quanto o juiz trabalha, eles vão ver que não é a remuneração do juiz que vai fazer falta. Se a Justiça funcionar, vale a pena pagar bem o juiz.”

Nalini é a favor de um Estado mínimo para os outros - inclusive as crianças e jovens paulistas, pelos quais deveria zelar como secretário de Educação. Mas por outro lado quer um estado generoso para o judiciário. Ele diz que o Estado "já não sabe como honrar suas ambiciosas promessas de tornar todos ricos e felizes". Mas defende que o Estado garanta a fortuna e felicidade dele mesmo e seus colegas.
Que Naldini seja desembargador, e tenha sido presidente do tribunal de justiça, já é preocupante. Que Alckmin faça dele seu secretário sugere que o governador não está nem aí com os milhões de estudantes de São Paulo. Governador, troca de novo de secretário, por favor. Manter Naldini é falta de educação com a gente.

Abaixo, o texto de Nalini.

A sociedade órfã

Uma das explicações para a situação de anomia que a sociedade humana enfrenta em nossos dias é a de que ela se tornou órfã. Com efeito. A fragmentação da família, a perda de importância da figura paterna – e também a materna – a irrelevância da Igreja e da Escola em múltiplos ambientes, gera um convívio amorfo. Predomina o egoísmo, o consumismo, o êxtase momentâneo por sensações baratas, a ilusão do sexo, a volúpia da velocidade, o desencanto e o niilismo.

Uma sociedade órfã vai se socorrer de instâncias que substituam a tíbia parentalidade. O Estado assume esse papel de provedor e se assenhoreia de incumbências que não seriam dele. Afinal, Estado é instrumento de coordenação do convívio, assegurador das condições essenciais a que indivíduos e grupos intermediários possam atender à sua vocação. Muito ajuda o Estado que não atrapalha. Que permite o desenvolvimento pleno da iniciativa privada. Apenas controlando excessos, garantindo igualdade de oportunidades e só respondendo por missões elementares e básicas. Segurança e Justiça, como emblemáticas. Tudo o mais, deveria ser providenciado pelos particulares.

Lamentavelmente, não é isso o que ocorre. Da feição “gendarme”, na concepção do “laissez faire, laissez passer”, de mero observador, o Estado moderno assumiu a fisionomia do “welfare state”. Ou seja: considerou-se responsável por inúmeras outras tarefas, formatando exteriorizações múltiplas para vencê-las, auto-atribuindo-se de tamanhos encargos, que deles não deu mais conta.

A população se acostumou a reivindicar. Tudo aquilo que antigamente era fruto do trabalho, do esforço, do sacrifício e do empenho, passou à categoria de “direito”. E de “direito fundamental”, ou seja, aquele que não pode ser negado e que deve ser usufruído por todas as pessoas.

A proliferação de direitos fundamentais causou a trivialização do conceito de direito e, com esse nome, começaram a ser exigíveis desejos, aspirações, anseios, vontades mimadas e até utopias. Tudo a ser propiciado por um Estado que se tornou onipotente, onisciente, onipresente e perdeu a característica de instrumento, para se converter em finalidade.

Todas as reivindicações encontram eco no Estado-babá, cuja outra face é o Estado-polvo, tentacular, interventor e intervencionista. Para seu sustento, agrava a arrecadação, penaliza o contribuinte, inventa tributos e é inflexível ao cobrá-los.

Vive-se a paranoia de um Estado a cada dia maior. Inflado, inchado, inflamado e ineficiente. Sob suas formas tradicionais – Executivo, Legislativo e Judiciário. Todas elas alvo fácil das exigências, cabidas e descabidas, de uma legião ávida por assistência integral. Desde o pré-natal à sepultura, tudo tem de ser oferecido pelo Estado. E assim se acumulam demandas junto ao Governo, junto ao Parlamento, junto ao sistema Justiça.

O Brasil é um caso emblemático. Passa ao restante do globo a sensação de que todos litigam contra todos. São mais de 106 milhões de processos em curso. Mais da metade deles não precisaria estar na Justiça. Mas é preciso atender também ao mercado jurídico, ainda promissor e ainda aliciante de milhões de jovens que se iludem, mas que poderão enfrentar dificuldades irremovíveis num futuro próximo.

No dia em que a população perceber que ela não precisa ser órfã e que a receita para um Brasil melhor está no resgate dos valores esgarçados: no reforço da família, da escola, da Igreja e do convívio fraterno. Não no viés facilitado de acreditar que a orfandade será corrigida por um Estado que está capenga e perplexo, pois já não sabe como honrar suas ambiciosas promessas de tornar todos ricos e felizes.

Publicado em 06/04/2016 às 16:07

Jim Harrison: uma vida degustada

jim banguela 682x1024 Jim Harrison: uma vida degustada

A América nunca aplaudiu Jim Harrison, talvez o mais classicamente americano dos escritores contemporâneos. Morreu há uma semana sem grande choro da crítica e público. Não passou batido. Mas pelo que ele foi, foi pouco.
Duas explicações: Harrison era versátil e extemporâneo. Escreveu poesia, novela, conto, romance, ensaio, coluna de revista e roteiro pra cinema. Tanta polivalência pega mal nos círculos críticos. Coroa, 78 anos na hora da morte, fazia concessão zero para os gostos da moda, multiculturalismo, protagonismo de minorias etc.
Mais: Harrison  exalava testosterona e glutonice, tesão de viver. Sem caricatura e sem medo. Quanto mais perto da natureza selvagem melhor, mas degustando o melhor da civilização - alta literatura, alta gastronomia. A roça foi o ambiente onde nasceu, sempre viveu, e cenário favorito para seus textos. Mas era cidadão do mundo. Sabia ser brucutu, sabia ser delicado. Viveu com voracidade.
"A morte nos rouba tudo, menos nossas histórias", escreveu. As dele são uma melhor que a outra; os obituários nos lembram de um tempo, um tipo de homem que não existe mais. Só uma: Jim virou roteirista de cinema só porque Jack Nicholson lhe emprestou trinta mil dólares para viver de brisa, com a condição que escrevesse três livros que pudessem virar filmes. Pariu "Legends of The Fall" e "Revenge" em três semanas. Ambos dois viraram filmes, ambos ruins, "Lendas da Paixão" e "Vingança". O terceiro permaneceu livro. Seu primeiro romance também virou filme, esse com Nicholson, Wolf, também fraco, apesar do pedigree do protagonista e do diretor, Mike Nichols.
Sei um monte de causos legais sobre Harrison e quase nada sobre sua obra. Poesia, o que Jim mais curtia escrever, está acima das minhas sensibilidades. Livros dele li só um romance, Dalva, e uma coleção de novelas, Tulip, recomendados. Por quê? Porque a vida vai passando e a gente se distrai. Novos deveres e prazeres vão nos ocupando.
Minha perda. Seu inglês era um banquete.  Trecho intraduzível de Julip:

“I did not want to live out my life in the strenuous effort to hold a ghost world together. It was plain as the stars that time herself moved in grand tidal sweeps rather than the tick-tocks we suffocate within, and that I must reshape myself to fully inhabit the earth rather than dawdle in the sump of my foibles.”

Com sua morte descobri que escreveu recentemente livros com perfume policial. Não deu para resistir. Comprei ontem dois livros de Harrison, um recente, The Great Leader. E já comecei a reler, depois de um quarto de século, suas crônicas gastronômicas, agora reunidas em livro, The Raw and The Cooked: Adventures of a Roving Gourmand.
São por elas que não resisti a escrever sobre sua morte: por gratidão. Como comentei com o amigo que me enviou o bonito obituário do New York Times, "pensei em escrever algo mas li pouquíssimo, não que isso tenha me impedido no passado...". Também jornalista, e muito melhor que eu, o camarada concordou: "disso a gente entende bem!"
Ele e eu descobrimos Harrison de uma maneira que a história enterrou: lendo revista. Jim assinou por anos a coluna mensal The Raw and the Cooked, o Cru e o Cozido, na Esquire, no início dos anos 90, período de renascimento da revista, o último. Durou pouco e marcou muito. Jim lambia os beiços ao escrever sobre comida e bebida. Gostava de cozinhar tanto quanto de comer. Gordura de ganso, vinho borgonha. Devo a ele minha inspiração para começar a pilotar o fogão. A Jim e ao Frugal Gourmet, Jeff Smith, que na época tinha um popularíssimo programa de TV, e terminou seus dias enfrentando acusações de pedofilia...
Parece que foi ontem. "Beware, O wanderer, the road is walking too”, escreveu Harrison.  "Os dias estão marcados contra o que nós pensamos que somos", completou. Jim gostava de escrever novelas, histórias com duração entre o conto e o romance. Também gosto do formato cada vez mais. Gordura só é bom pra cozinhar. Hoje, quanto mais enxutas, mais saboreio minhas leituras.
Como diz o trecho acima de Julip, o tempo passa em grandes ondas, não no tic-tac cotidiano que nos sufoca. Aprendamos com Harrison a degustar cada segundo - na arte, no amor, na mesa, na vida.

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