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Publicado em 27/09/2014 às 00:05

Comemorando os 10 anos do R7

oculus rift inside 0 Comemorando os 10 anos do R7

Dez anos passam voando. Parece que foi ontem que recebi a ligação: hei, estou montando um portal para a Record, traga o seu blog para cá. Mas foi em 2009, uma década atrás. E de lá para cá, parece que a cada ano as coisas acontecem mais rápido.

Parece não. Acontecem mesmo. Resultado de um mundo cada vez mais conectado, com uma infinidade de gente muito inteligente trabalhando pra gente avançar mais rápido ainda. E assim chegamos a 2019, uma década de R7. O futuro chegou à toda.

Como já dizia ainda no século 20 o pai da palavra "cyberspace", William Gibson, o futuro chegou mas está mal distribuído. Continuamos convivendo com problemas que poderíamos ter vencido há muito tempo, da falta de educação à falta de saneamento. Caminhamos muito, mas numa velocidade insuficiente para nossa urgência. Mas há que reconhecer o quanto avançamos.

Muito do que o século 21 conquistou é por causa da tecnologia, que revoluciona nossas vidas muito mais rápido do que conseguimos reformar nossas instituições (e naturezas, claro). E é isso que o R7 é, uma empresa de tecnologia. Não era tão claro em 2009. Todos ainda confundíamos um pouco um portal de internet com um veículo de mídia, como um jornal ou uma revista. É mídia, claro. É conteúdo e serviços, evidente. Mas o DNA vai além.

Isso também não era bem claro nem em 2014, quando comecei a trabalhar no R7 de verdade. Antes eu tinha o blog, mas fazia de casa ou de onde estivesse. Não tinha nada a ver com o dia a dia do R7. Visitava a redação  uma vez a cada três ou quatro meses, batia um papo com a galera e boa.

Em 2014 veio o convite. Vem para cá! E eu, na bica de fazer 50 anos, vinte anos de empresa independente, pensei: se não aproveitar essa chance de aprender de verdade qual é a desse mundo digital, vou aprender quando? Será que servirá para alguma coisa minha experiência de tantos anos fazendo revista e livro e outras coisas de papel, e um pouquinho de internet? Será que todas as minhas cabeçadas como empreendedor vão me valer dentro de uma empresa grande?

Decidi descobrir. Virei editor executivo de Entretenimento. Foi um período muito interessante. Incrível como a gente se adapta rápido a novas situações. Dei sorte porque as pessoas eram muito legais. Me receberam com grande gentileza e infinita paciência. Fiz novos amigos. Passei a conviver diariamente com dezenas de pessoas, a maioria muito jovens, tipo metade da minha idade. A última vez que frequentei redação grande tinha 25 anos, era eu o foca...

Em meses estávamos comemorando os cinco anos do R7. De repente o R7 tinha uma megaoperação de vídeo, o R7 TV. Os dias antes da estreia foram um stress louco, correria insana, e estreou, e depois tinha mais e mais vídeo, e quando vimos tinha florescido ali um ecossistema de vídeo diferente de qualquer outra coisa.

apple watch video cap Comemorando os 10 anos do R7

O tempo continuou acelerando. No meio de 2015, quando chegou o Apple Watch, era um brinquedinho de luxo. Mas também eram objeto de desejo. E útil, porque além de tudo era um novo sistema para fazer pagamentos, e logo ninguém mais usava cartão de crédito e débito. E o Google fez igual e foi mais além em 2016 quando lançou a versão baratinha do Google Glass. Foi o início da tal internet das coisas, em que nossas geladeiras e carros e privadas passaram a ter chips e inteligência e falar entre eles, passaram a incluir também nós. Como indivíduos, e em grupo. A internet das coisas e a inteligência coletiva se uniram, inteligência de gente e de máquina.

A realidade virtual também chegou antes do que se apostava. O pontapé inicial foi quando o Facebook comprou a Oculus, em 2013. Os primeiros óculos virtuais vieram em 2015, caros, só gamer tinha coragem de comprar. Mas os aplicativos foram se expandindo, os modelos se multiplicando. Logo a Realidade Virtual foi se amalgamando com a Internet das Coisas e com a Inteligência Coletiva, tudo Gamificado. Mil modelos de negócio novos por minuto, florescendo e capotando e remixando sem fim. Quem ia imaginar que a Copa do Mundo de 2018 já seria transmitida em VR?

As pessoas comuns passaram a ser mais conectadas, mais informadas, mais empoderadas. Passaram a ter mais voz, e gritaram alto. Muitas vezes foi só ruído e balbúrdia. Mas logo conseguimos perceber novas harmonias e timbres e batidas. Quem fez melhor uso de todas essas novidades foram os mais jovens, e mais abertos e educados, e eles se provaram mais tolerantes e flexíveis e resilientes que qualquer geração anterior. Muito mais que a minha, e olhe que nascemos ali perto do meio do século 20, e tivemos que lidar com essa mudança toda.

google glass explorer Comemorando os 10 anos do R7

Nos anos que passei no R7, assisti isso tudo de uma posição muito privilegiada. Participei um pouquinho da construção de tudo isso. E de várias outras coisas. Algumas frutificaram, outras não deram em grande coisa. Faz parte.

Uma que apostei muito e adorei fazer foi o projeto GIP, nossa sigla para Global Intellectual Properties. A ideia era criar marcas globais, usando plataformas digitais. Nunca me conformei de um país do tamanho do Brasil não ter séries, desenhos animados, personagens e popstars globais. Não tínhamos nada parecido com Angry Birds (que veio da Finlândia na época) ou Minecraft (Suécia), não tínhamos um Justin Bieber (Canadá) ou Pucca (Coreia) ou todos esses nomes dos EUA e Inglaterra conhecidos nos quatro cantos do planeta. Foi muito legal participar do grupo que construiu a primeira propriedade intelectual made in Brazil que hoje é famosa no mundo todo.

Uma iniciativa que achei que ia curtir fazer foi o projeto Incubadora, que logo se transformou no fundo R7 Venture Capital. Investimos em muitos jovens geniais, grandes ideias, sempre de olho no maior impacto positivo possível para o usuário global. Mas logo vi que tinha gente muito melhor que eu para ser mentor dessa garotada e saí de fininho.

Porque de fato não tenho a intimidade com bits que essa garotada tem. Sou um jornalista do século 20 lidando com um futuro de ficção científica. Agora que estamos vivendo cada vez mais, dizem que os 50 são os novos 30. Mas já estou com 54, e como dizia o Clint Eastwood naquele filme, "um homem tem que conhecer suas limitações".

Foi por isso que eu saí do R7. Porque de todas as limitações, a que nunca podemos perder de vista é a limitação do nosso tempo. Por mais que eu adorasse estar engajado com as mudanças fundamentais da minha época, reconheci que tenho um  número limitado de anos pela frente. Pelo menos na boa forma que estou hoje (outra novidade dos últimos anos, virei atleta, ou pelo menos larguei o sedentarismo radical). Tem muita coisa que quero fazer e ainda não fiz, e requer energia, fôlego, boas pernas. É um mundo grande, e ainda não mochilei no Vietnã, não mergulhei nas Maldivas, não pulei de bungee jump na Nova Zelândia. Tenho um filho adolescente com muito gás pra me acompanhar. Então decidi me dar o tempo para fazer tudo isso. E também ler os livros que me faltava. E escrever o que sempre precisei e nunca soube.

Mas não deixei o R7 de todo. Continuo amigo da galera - os que continuam no R7, e tantos que aprenderam lá e hoje usam esse conhecimento para fazer coisas incríveis em outros lugares. Continuo dando uns pitacos, de longe, e às vezes de perto. Continuo fazendo meu blog, que não abandonarei nunca. Um dia, se ainda me quiserem, arrisco voltar, depois que der minha quinta volta ao mundo.

E aqui estou, celebrando esses dez anos que tanto mudaram o Brasil e minha vida. Valeu R7!

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Publicado em 25/09/2014 às 07:05

Seu cachorro é burro e você é porco

 

dogeatsshit Seu cachorro é burro e você é porco

O Brasil é o segundo país com o maior número de cachorros do mundo. São mais de 37 milhões. É muito cachorro. Pior, muito dono de cachorro. O brasileiro está cada vez mais folgado. Mas nem ciclista bate dono de cachorro em arrogância.

Os donos de cachorro determinam que os parquinhos são dos cachorros, não das crianças. Que as calçadas e jardins são privada particular de seus pets.

Deixar o bichinho querido trancado no apartamento o dia inteiro, com ele uivando sem parar, faz parte do cotidiano. Praia, claro, é território livre para cachorro incomodar e defecar. Focinheira? Coleira? Pra quê?
Cansei de discutir com dono de cachorro. Se acham acima desses pobres humanos que não tem cachorros.

São sempre os mesmos argumentos, e não adianta rebater, que tomam como se fosse ofensa pessoal. Até pessoas absolutamente civilizadas em outros departamentos se comportam como umas bestas, quando se trata do seu cachorro (e, engraçado, dono de gato não tem esse tipo de folga. É que gato não tem dono...).

Li que os brasileiros vão gastar R$ 15,4 bilhões em pet food esse ano. Considerando o que tem de ser humano mal nutrido e maltratado nesse país, a informação me revirou o estômago. Tinha acabado de ler essa, saí de casa e trombei com um idiota botando seu cachorro para defecar no meio do meu caminho, na calçada.
Nem todo dono de cachorro é folgado. Mas desconfio que a maioria é. Para facilitar a vida de quem ainda tem disposição de discutir com dono de cachorro, empresto aqui meus argumentos...
"Meu cachorro mas não machuca ninguém."

Cachorro grande é arma letal. Como revólver, tem que ter trava de segurança. Pequeno também pode fazer estrago, principalmente em criança. Fora de casa, cachorro grande tem que usar coleira e focinheira. Segundo o SUS, são 400 internações hospitalares por ano por ataque de cachorro, mais que uma por dia.

Já contei a história da minha vizinha e os 40 pontos que levou na mão por causa de um cachorro - não, por causa da cachorra da dona.

"Meu cachorro é limpinho."
Bicho não tem higiene, nem conceito de limpeza. Come qualquer coisa, inclusive merda de cachorro. encosta em qualquer lugar. Cachorro é limpo se tomar banho todo dia como gente. O seu é lavado todo dia? Aposto que não.

"O cachorro é o melhor amigo do homem!"
Não, é o animal mais submisso ao homem, e especificamente a seu dono. O que é completamente diferente. Aliás, não é porque o cachorro obedece / tem medo de seu dono, que vai ser bonzinho com qualquer um.

"Meu cachorro faz cocô na calçada, mas eu recolho tudo."
Você não tem consideração com as pessoas. Restos do excremento do seu cachorro vão ficar na sola dos sapatos de todo mundo que passar aí, e serão depois levados para dentro das casas das pessoas, esmerdeando tapetes, sofás etc.

"Meu cachorro faz cocô no jardinzinho, mas eu recolho tudo."
Você é egoísta e porcalhão. Os poucos espaços verdes que temos nas nossas cidades não são privada do seu cachorro, são para utilização de todos, sem preocupação com porcaria e doença.

"Se meu cachorro não pode fazer cocô na calçada nem no jardim, vai fazer onde?"
Na sua casa. O cachorro é seu. O cocô do seu cachorro é seu também. Pode ser num lugar certo, pode ser na sua cama, na mesa do jantar, onde você quiser. Não tenho obrigação nenhuma de logo pela manhã cedo ver um cachorro defecando na calçada. Para mim, é tão nojento quanto ver um ser humano fazendo suas necessidades na rua.

"Mas eu moro em apartamento!"
Sinal que você odeia seu cachorro. Tranca numa prisão um bicho que durante milhões de anos de evolução viveu em grandes espaços. Se tornam uns bichos sofredores e  neuróticos. E dar um passeinho por dia com ele não resolve nada.

"E vou deixar o cocô do cachorro no meu lixo do apartamento?"
Claro que não. Vai jogar na privada. O lixeiro não tem obrigação de ficar mexendo no cocô do seu cachorro. Nem os coitados que vivem de procurar material reciclável em lixão.

"Eu adoro levar meu cachorro para a praia! Ele fica tão feliz!"
Claro, ele é um bicho. E você é um porco que está se lixando para os outros. Fora que é contra a lei em muitos lugares, sabia?

"Os cachorros têm tanto direito às ruas quanto nós!"
A cidade foi construída por humanos, para humanos viverem. Não cachorro, elefante, ou marmota. Nós temos prioridade. Só existe tanto cachorro no mundo porque o ser humano cria e alimenta. Se fosse depender puramente da natureza, vivendo em ambiente selvagem, seriam em número infinitamente menor.

"Os cachorros têm tanto direito ao mundo quanto nós!"
Cachorro tem tanto direito à vida e à felicidade quanto o frango que você comeu no almoço. Ou a barata que você envenenou. O cavalo, que é tão "amigo" e bonito quanto um cachorro, faz parte das refeições em muitos lugares do mundo. O Brasil cria e abate cavalos para exportação para países como França e Itália, sabia?

"Imagine que horror, comer um cachorro!"
É um preconceito cultural. Na Índia não comem boi, judeus ortodoxos não comem porco, brasileiro não come cachorro. Mas em vários lugares da Ásia se come cachorro naturalmente. Já escrevi sobre isso. Eu comeria cachorro no jantar de hoje, com muita alegria, porque nunca experimentei, e adoro experimentar comidas novas.

"Qual é o seu problema com cachorro, afinal?"
Nenhum. Resumo da ópera: cachorro é bicho, tem cérebro inferior, é burro. Não vou ter raiva de um quadrúpede. O que desprezo é esse monte de donos dos cachorros folgados e porcalhões. Se você quer tratar seu bicho como gente, divirta-se na sua patetice. Quer impingir sua prepotência ao resto de nós, o animal é você.

korea dog meat Seu cachorro é burro e você é porco
Cachorro pronto para virar o tradicional cozido coreano, o Bosintang
Publicado em 18/09/2014 às 10:43

A vitória de Marina seria notícia boa (como o Ebola e a independência da Escócia)

7zsx0ztqq1 2yql0ihj0i file A vitória de Marina seria notícia boa (como o Ebola e a independência da Escócia)

Quem gosta de boa notícia é publicitário. Gente que é paga para espalhar as maravilhas que acontecerão se comprarmos esse ou aquele produto. Idem assessor de imprensa. Nunca recebi um press release dizendo "empresa Corp S.A. polui, demite e vai à falência". Nem "cantora mocoronga lança outro disco sonolento pra dedéu". É sempre aquele texto épico, tecendo loas ao cliente. Por isso é que a assessoria de imprensa é no mundo todo considerada um ramo da publicidade, e não do jornalismo. No mundo todo fora o Brasil.

Já jornalista gosta de notícia boa. O que é muito diferente de boa notícia. Duro pensar em notícia pior que queda de avião. Mas é exatamente o tipo de notícia boa para um jornalista. Absolutamente inesperada, atrai todas as atenções. Por uns minutos, todos prendemos a respiração, dentro e fora das redações, adrenalina a mil.

Qual a maior notícia das nossas vidas? A queda das torres gêmeas no onze de setembro. Vi acontecer coisa mais importante? Claro - a queda do Muro de Berlim, pra começar. Assisti o homem pousando na Lua na casa da minha avó, que tal? Mas não tinham o mesmo fator surpresa. Isis avança? Notícia boa. Ebola se espalha mundo afora? Idem. Independência da Escócia? Notícia sensacional. Não é que notícia é só notícia ruim. É que quanto maior o choque e a imprevisibilidade dos dias seguintes, mais poderosa a notícia, e mais importante o jornalismo. E, claro, gostamos de nos sentir importantes.

A queda do avião que levava Eduardo Campos foi uma notícia boa, no exato sentido do termo. Foi absolutamente inesperada. Chamou a atenção de todos. Teve grande impacto emocional e social. E foi uma notícia ótima no médio prazo, e quem sabe longo. Catapultou Marina Silva, vice apagada, para uma candidatura competitiva, e talvez à presidência.

Esta é a razão porque a maioria de nós, jornalistas, secretamente torcemos por uma vitória de Marina. Se Dilma vence, sabemos exatamente o que esperar de sua administração, nos próximos quatro anos. Potencial de surpresa zero.

No que conta de verdade para mim, que é grana, Marina também não surpreende em nada. É parecida com Dilma, e mais ainda com Aécio / Armínio. Previsível até demais. Sua principal conselheira é uma banqueira, Neca Setúbal. Quando ela sobe nas pesquisas, as instituições financeiras nacionais e gringas comemoram. Se Marina vencer, ninguém terá o direito de se surpreender com sua política econômica.

Tirando esse lado do dinheiro, com toda a importância que tem, o resto é chute. Marina eleita, não sabemos de fato o que acontecerá. Dá pra especular que tipo de conchavo faria com o PMDB, quão verde ou pró-agronegócio, seria, quão crente ou laica, quão moderna ou atrasada, se faria um governo fraco ou forte, caótico ou sereno. É tudo chute, mesmo as análises mais rigorosas. Porque a própria Marina não sabe o que vem. Nem imaginava ter que lidar com isso. Era só a vice de um candidato sem chance de vencer.

Como a morte de Eduardo Campos, a vitória de Marina nos colocaria em rota menos previsível. É por isso que quando pergunto para os colegas em quem votarão, mesmo quem crava Dilma ou Aécio faz isso com uma certa reticência. Todos nós sabemos que a vitória de Marina seria notícia boa. Se boa notícia ou não, você decide e o tempo dirá - talvez.

 

Publicado em 17/09/2014 às 13:18

Sonhos que anotei

1667e03ae7a06fd1aa5b2210.L Sonhos que anotei
Por um tempo curto demais registrei meus sonhos. A ideia me encanta desde pequeno. Me animei estimulado pela leitura de Rare Bit Fiends. É uma série de histórias em quadrinhos curtas, cada uma adaptação de um sonho de Rick Veitch. Estão reunidas em um livro estupefaciente chamado Rabid Eye.
Sua inspiração é um clássico dos primeiros anos da HQ, Little Nemo in Slumberland, em que um garotinho toda noite visitava o mundo dos sonhos. É meu trabalho favorito de Veitch, que me assusta desde o colegial, quando li Abraxas The Earthman. Considerando o que fez com o Monstro do Pântano, substituindo o insubstituível Alan Moore, não é pouco.
Eu simplesmente acordava e, com as imagens vivas na memória, escrevia o assunto do sonho em um bloquinho no criado mudo. E voltava a dormir, ou levantava para um novo dia.
Anotei pouco, guardei quase nada. Duas páginas. Uma tem um sonho do começo ao fim, assunto para outra manhã. Outra é só uma lista com temas de sonhos, "manchetes". Transcrevo abaixo.
O papel amarelado e vincado entrega a data. É brinde de um evento anual de marketing, do qual participei: Maximídia 2002. Apoio da Varig, que já era, como meus 37 anos de idade. Quem eu era em 2002? Não me reconheço. Lembro coisas que aquele André fez e só.
Não recordo de nada do que está no papel. Nem porque parei de anotar meus sonhos. Mesmo assim são fragmentos preciosos para mim. São os únicos sonhos que salvei e os únicos de que sinto falta. Volto a anotar meus sonhos amanhã? Sim, sim - não, não.
Decifro os garranchos ensonados. Mensagens de um reino antigo, intangível - chaves para portas estranhas que nunca conseguirei fechar.

- pussy - incêndio pikachu - beto / praia perdida/ índios - chineses / gângsters
- Lula navy seal
- Alan Moore não usa a net
- banho de gato - chupando pés
- combate no museu filme "de
- inferno na cadeia = saque de Roma
- a galeria dos cafés onde os felinos falam
- subindo a escada perigosa da montanha, protegendo o menininho, impressionado com as vistas do mar, até chegar ao mar e acariciar golfinhos
- na balada com Joe Strummer

Publicado em 12/09/2014 às 12:30

Dilma não pode atacar Marina pela ligação com Neca Setúbal. Nunca neste país houve maior amigo dos bancos que o PT

 Dilma não pode atacar Marina pela ligação com Neca Setúbal. Nunca neste país houve maior amigo dos bancos que o PT

R$ 513 bilhões. É quanto os bancos lucraram nos doze anos de administração petista. Acusação de Marina Silva? Não, dados do próprio Banco Central. O levantamento é do Valor Data, usando ranking das 50 maiores instituições financeiras, divulgado pelo BC.

Dilma Rousseff vem atacando Marina por sua ligação com Neca Setubal, amiga, conselheira, coordenadora do programa de governo do PSB. Dilma foi pra cima no programa eleitoral gratuito: "A Neca educadora é educadora, mas agora está se comportando como banqueira. À medida que sou herdeira do banco Itaú e defendo a política que defendo claramente os bancos... estou fazendo o papel de banqueira."

Resposta veio voando. Os dois grandes jornais de São Paulo publicaram entrevistas com Neca, "como você se sente com essas acusações da campanha do medo" etc. Não é jornalismo, é propaganda.

A participação de Neca Setubal no Itaú vale uns R$ 800 milhões. Com os outros herdeiros, ela faz parte do bloco controlador do banco. Seu dinheiro pessoal está investido através do private banking do Itaú. Ela é mais que banqueira, ela é dona de banco. Se não quer ser tratada como tal, fácil. Basta vender suas ações.

Este fato incontestável não torna moral o ataque de Dilma. Que não mente, mas omite a verdade. Questionar Marina por proximidade com os bancos? O Itaú e outros bancos ganharam mais de meio trilhão de reais nos 12 anos do PT.

O próprio Lula confirmou há anos: "nunca os bancos ganharam tanto dinheiro como no meu governo". A tendência continuou no governo Dilma, embora a rentabilidade dos bancos tenha caído por um período (porque Dilma forçou a queda dos juros em bancos estatais, e por causa da inadimplência), antes de voltar a crescer.

Por comparação, quer saber quanto os bancos lucraram nos dois mandatos de Fernando Henrique? R$ 31 bilhões. O tucano, quem diria, foi menos amigo dos bancos que os petistas.

Dilma pode falar o quanto quiser que enfrenta os bancos. Os números falam mais alto. E tem um que grita e ensurdece. É quanto o seu governo pagou de juros.

Entre 2009 e 2013, o Brasil pagou R$ 1,19 trilhão em juros da dívida. Isso mesmo: mais de um trilhão de reais. Ano após ano, vem aumentando. Em 2013, recorde histórico: R$ 249 bilhões. Quanto é isso? Para efeito de comparação, o governo de Dilma investiu em 2013 no Bolsa-Família R$ 25 bilhões, e dez vezes mais no Bolsa-Banqueiro...

Em linguagem de gente: o Brasil anos atrás trocou sua dívida externa por uma dívida interna. Que é muito mais cara, porque aqui os juros são muito mais altos que internacionalmente. As contas do Brasil não fecham. Estamos pagando cada vez mais juros para quem nos empresta.

E quem nos empresta a grana? Quem compra títulos públicos. Não é o zé povinho. É quem tem boa grana para investir, e grandes empresas, e, claro, os grandes bancos. Nossas instituições financeiras lucram pesado emprestando ao governo, sem risco nenhum. E por isso fazem questão de influir na hora que escolhemos presidentes e congressistas.

Segundo a prestação parcial de contas dos candidatos, até agora Dilma arrecadou R$ R$ 123,6 milhões, Aécio R$ 46,5 milhões, e Marina R$ 23 milhões. O Estadão publicou uma grande análise detalhando de onde vêm as doações. Vêm, naturalmente, das maiores empresas do Brasil, as que mais têm relações de negócios com o governo. Vale ler a reportagem do Daniel Bramatti.

Se os títulos públicos pagassem juros mais baixos, seria menos lucro para nossa elite rentista e para os bancos. Se o Brasil diminui ou zera sua dívida amanhã, acaba a mamata. Se pagássemos 20% a menos de juros por ano, dava para o país bancar mais dois programas com o custo do Bolsa Família. Imagine o impacto social disso. Ou fazer a famosa revolução na educação, que todo mundo prega, e nunca se materializa.

marina Dilma não pode atacar Marina pela ligação com Neca Setúbal. Nunca neste país houve maior amigo dos bancos que o PT

É pouco provável um enfrentamento com os bancos, ganhe a presidência quem ganhar. "Qual é o seu plano para diminuir rapidamente quanto o Brasil paga de juros, candidata?". Essa é a pergunta que não entra em debate nenhum. Se entrar, a resposta é desconversa na certa.

Um detalhe importantíssimo sobre porque as contas do Brasil não fecham. Não é por causa do Bolsa Família e outros programas sociais. Juntando todos eles, ainda é pouco dinheiro. A razão mais escandalosa é a transferência de recursos públicos a grandes empresários.

Desde 2009, no início de mandato de Dilma, o Tesouro Nacional emprestou R$ 305 bilhões ao BNDES. Cobra a taxa Selic, 11%. O BNDES empresta às empresas cobrando a TJLP, 5%. A diferença é enorme, e detona nossas contas.

Que empresas botaram a mão nessa grana? Quase todas as grandes que você já ouviu falar. Algumas foram com mais sede ao pote. As informações são públicas. Se o leitor fizer muita questão, semana que vem publico aqui uma seleção das que meteram mais a mão no nosso bolso. Por enquanto basta citar só uma pessoa, que simboliza bem tudo isso: foram R$ 10 bilhões do BNDES para Eike Batista. Dinheiro que representa uns 40% do custo anual do Bolsa Família. E que não volta nunca mais para o Tesouro, porque o coitado quebrou, né?

É evidente que tivemos ganhos sociais nos governos petistas. Aliás, também tivemos no governo tucano. Só cego pode negar, como só o pior tipo de cego nega os muitos erros de FHC, Lula, Dilma. Mas o avanço está muito distante do que precisamos, que é garantir pelo menos o básico para todos os brasileiros.
É difícil o Brasil ir para frente na velocidade que precisa, pagando R$ 250 bilhões de juros ao ano. Aumentando sem parar nossa dívida. E transferindo bilhões sem fim para grandes empresários amigos do poder. Esta é a questão política central do Brasil.

Não duvido que os três candidatos tenham bons projetos em seus programas para isso e aquilo. Papel aceita tudo. O que importa de verdade no capitalismo é dinheiro, de onde vem, para onde vai. Aécio escolheu para futuro ministro da Fazenda Armínio Fraga. Explicitou sua posição subalterna ao mundo financeiro. Marina e seus conselheiros, como Eduardo Gianetti, vêm dando declarações no mesmo sentido, "independência" do Banco Central, tarifaço, alta de juros. A ligação com Neca torna muito transparente para que lado pende sua candidatura.

Mas Dilma, por seu histórico, não pode atacar Marina pela ligação com o Itaú. Nunca na história deste país houve maior amigo dos bancos que o PT. Na hora de investir nossos recursos públicos, os três candidatos privilegiam os poderosos, e principalmente o poder financeiro. E por isso é impossível votar pela mudança em 2014.

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Publicado em 11/09/2014 às 17:35

Música não é cerveja (e outras lições que a Skol vai ter que aprender)

miranda zegon dudu marote 4 1024x682 Música não é cerveja (e outras lições que a Skol vai ter que aprender)

O Skol Music é uma espécie de gravadora. Só que em vez de ser uma empresa que ganha dinheiro com música, é uma iniciativa da maior cervejaria do planeta. É composto de três selos. O que é um "selo"? É uma mini-gravadora. Mas idealmente, é mais que isso. É uma identidade, uma visão, um perfil. Por isso, cada um tem um diretor artístico diferente.

E cada um vai gerar não só música, em versão digital, CD e vinil, mas também show, camiseta, pôster, o que for. O objetivo, muito ambicioso, é buscar a relevância de selos que marcaram época, que todo mundo que curte música identifica na hora como referências em seus gêneros. O vídeo de apresentação cita nominalmente três selos legendários: Blue Note (jazz), Motown (soul) e SubPop (grunge).

O selo Cabuum é dedicado ao hip-hop e companhia. O selo Ganzá, à música eletrônica. E o selo Tralalá, ao "indie" (sei lá o que isso quer dizer. Vamos combinar que é música que não busca diretamente atingir o maior mercado possível). Os diretores artísticos são respectivamente Zegon, Dudu Marote e Miranda.
Estão pensando grande e olhando longe. O Skol Music tem um horizonte de cinco anos. Novos selos serão anunciados em 2015. Não vou entrar em critiquinha de que o time de artistas poderia ser mais isso ou mais aquilo. Basta dizer que a seleção mistura novíssimos (como Jaloo) com nomes já com cancha e moral mas sem fama massiva (caso da Karol Conká).

O projeto tem muitas razões pra dar certo. Tem, em primeiríssimo lugar, a grana da Ambev. Já nasce com parcerias com boa parte dos principais festivais de música do país. A Ambev é da Inbev, fortíssima em muitos países - são os donos da Budweiser, pô - e gerenciada por brasileiros. Quem sabe esses artistas brasileiros não começam a participar de festivais e eventos patrocinados por marcas da Inbev planeta afora?

A Skol Music já nasce com a simpatia automática da mídia. Dos jornalistas, porque aposta na liberdade artística, o que foi sinalizado claramente com a seleção dos diretores artísticos.

Sou suspeitíssimo para falar de Dudu Marote, que conheço há mais de 20 anos, acho que da época do grupo Que Fim Levou Robin?, que produziu. Miranda é amigo querido faz mais tempo ainda. Zegon mal conheço, mas é bom paca. As credenciais deles como produtores são públicas e extensas. Colaboro com minha visão pessoal deles. É gente que não precisa de esmola da Ambev. Tem seus próprios históricos de sucesso (de público, de crítica, e muitas vezes de ambos). São ferozmente independentes em suas escolhas. E suficientemente malacos na hora de formatar um talento cru para consumo pop.

O Skol Music também nasce com a simpatia automática da mídia. Porque a Ambev é um dos maiores anunciantes do país, claro. Os departamentos comerciais dos veículos todos têm o maior interesse em manter boas relações com Ambev e Skol. Parece um alinhamento felicíssimo: dinheiro, talento, liberdade, visão de longo prazo, torcida a favor de imprensa e mídia. O que pode dar errado? Tudo.

Impossível capturar um relâmpago numa garrafa. O que fez a lenda do Blue Note, Motown e SubPop (e Chess e Factory e 4AD e Philadelphia International e tantos outros) não têm fórmula. Se tivesse, as próprias gravadoras não estariam enrascadas. A lata de lixo da história da música está entulhada de artistas em quem se investiu rios de dinheiro, e gravadoras que enfiaram fortunas no ralo. Não é assim que funciona.

Tem mais. Ambev e Skol não são players de nicho. Não estão fazendo isso para seduzir meia dúzia de moderninhos paulistanos que, aliás, preferem cervejas regionais de tiragem limitada. O projeto Skol Music não é para o underground. É para impactar jovens A, B e C. Tirando o Tralalá, é música popular entre a rapaziada, pra dançar, pra curtir.

Os discursos durante o lançamento não escondem o sonho de emplacar alguns nomes nacionalmente, quem sabe até além das nossas fronteiras. Não há nada de errado nisso, mas pensar grande tem consequências. Se em um ano nenhum dos artistas dessa primeira safra decolar, que estímulo a cervejaria tem para continuar investindo?

Risco contrário: sucesso estrondoso de um ou dois nomes, que naturalmente passariam a merecer mais investimento e atenção. Em selos independentes, tradicionalmente a banda que se destacava era contratada por uma gravadora maior, trocava o empresário doidão por um profissa, e "se vendia". Um hit e cinco fracassos desequilibra qualquer selo. Finalmente, o beijo da morte: hubris.

O Skol Music se anuncia com a ambição desmedida de mudar a cena musical brasileira. De fazer e acontecer. Lançam três selos e oito nomes na mesma noite, com pocket shows, na própria casa noturna que leva o nome da Skol, em São Paulo. Tá tudo muito direitinho, muito arrumadinho, design dez, mensagem redonda, press release completão na manhã seguinte do festerê. É uma visão muito publicitária do que é, para usar uma palavra demodê, rock´n´roll. Cadê a anarquia e o acaso? O CBGB, onde nasceu o punk novaiorquino, era um buraco imundo com o chão coberto de merda de cachorro. Música, inclusive a mais pop, não é produto, não só, e muito menos com um time de artistas e diretores artísticos como esse. As duas combinam bem, mas música não é cerveja.

Mas torçamos a favor. Se o Skol Music der certo, quem sabe seja a primeira de muitas outras iniciativas culturais investindo na liberdade. Sejam de empresas ou do setor público. Há que dar poder financeiro e institucional às pessoas que têm poder criativo para oxigenar nossa música e nossas artes, hoje acorrentadas por leis de incentivo, prisioneiras de burocratas de ministério, escravas de diretores de marketing. Há que aplaudir quem botou essa parada de pé, e quem está pagando a conta.

Confio desconfiando do compromisso da Ambev. Mas conversei rápido lá com os executivos diretamente envolvidos, e estão empolgadaços. Se daqui a um ano a empresa decidir simplesmente pegar grana equivalente e botar na Lei Rouanet, pena (e sinceramente, por todos os motivos acima, não seria exatamente uma surpresa). Mas dane-se a futurologia e vamos abrir os ouvidos para o agora. E agora, tá na mão dos artistas, e de Dudu, Miranda e Zegon. Garantia que muitos sons interessantes serão gerados nos três selos. Aposto - valendo uma cerveja...

Publicado em 10/09/2014 às 18:43

2014 parece muito com 2001 (estrelando Iggy Azalea)

Iggy Azalea Highsnobiety 001 2014 parece muito com 2001 (estrelando Iggy Azalea)

 

Iggy Azalea. Quem  não conhece vai conhecer. Quem ouve rádio não tem como escapar de "Fancy", número um da Billboard,  e sua participação no hit de outra mocinha, Ariana Grande, "Trouble", idem nas paradas. Emendou com outro sucesso, um dueto com Rita Ora, "Black Widow".

Iggy  é a primeira rapper branca a abafar assim nos EUA. Ouvindo, não dá pra saber que é branca, que dirá australiana - afeta sotaque do sul dos EUA, onde morou um bom tempo. Saiu de uma cidadezinha nas quebradas da Austrália com 16 anos pra virar estrela nos EUA. Ralou paca. Esperta, apostou em um vídeo viral, "Pu$$y", sobre as partes femininas, em 2011.

 

 

Iggy, nascida Amethyst Amelia Kelly, demorou oito anos pra chegar lá. Mas no mundo da música de 2014, o que exatamente quer dizer “chegar lá”? É contratada da Def Jam, a mesma gravadora de Rihanna, Jay Z, Kanye West e Justin Bieber. Vai abrir para Beyoncé na turnê pela Austrália. Já virou garota-propaganda de grife. Namora um jogador de basquete. Não faturou nenhum prêmio da MTV, mas causou. E está no elenco do próximo filme "Velozes e Furiosos".

Agora baterá bundas com Jennifer Lopez, vinte anos mais velha, em potencial megahit que está para estrear: "Booty", bumbum. É a garota certa para medir medidas com a abundante J-Lo. Iggy tem a bunda mais falada da temporada. “Tenho bunda grande e não tenho medo de mostrar”, diz Iggy. Não tem não. A moça tem 94 centímetros de quadril, o que é mais que o padrão raquítico das top models americanas, mas nada demais. Parece ter uma poupança mais polpuda do que realmente tem, porque tem uma cinturinha,  58 centímetros.

gwen eve teen choice 2001 2014 parece muito com 2001 (estrelando Iggy Azalea)

 

Fiquei encasquetado, o que faz uma garotinha nos cafundós da Oceania virar uma popstar desse tamanho? Aí fui ver quando ela nasceu. 1990. E de repente vi Iggy, onze anos, a pequena Amethyst Amelia Kelly, em Mullimbimby, Austrália, assistindo a MTV, e sonhando em ser... Gwen Stefani. E Eve. Ao mesmo tempo. A loira linda,do pop. A negra linda, da rua. Rap muito feminino, melódico, provocativo: "Let Me Blow Ya Mind", 2001.

Gwen é absolutamente desconhecida dos adolescentes. Foi ícone teen duas décadas atrás. Agora, mestra - e é mesmo - vai ensinar os calouros de The Voice. E Iggy, para onde vai? Considerando de onde ela veio, e como se tornou o que se tornou, pouco importa. Iggy Azalea é o que significa "chegar lá" em 2014.  É a cara - e a bunda - do ano.

 


Eve - Let Me Blow Ya Mind ft. Gwen Stefani by bluemagic2014

 

Publicado em 05/09/2014 às 04:00

Um papo animado com Marcelo Tas

 Um papo animado com Marcelo Tas

Marcelo Tas já é meio personagem de desenho animado mesmo. Era quando era o repórter Ernesto Varela, é mais ainda agora. No CQC, no Twitter, em seu blog. Quando tira sarro e até quando fala sério - a gente vê a careca, o óculos, ouve aquela voz.

Inevitavelmente, Tas é mais cartum ainda em seus muitos projetos para o público infantil. O novo, Papo Animado, acaba de estrear no Cartoon Network. É muito legal, um talk show com personagens de desenho animado. Já fiz muita coisa para criança depois de marmanjo, revista, gibi, coleção, site. Falando com Tas, fiquei meio saudoso de fazer algo pra molecada.

Liguei para Marcelo (que não é um cartum, é um ser humano, apesar de ter na vida real aquela voz mesmo) para descobrir: porque um cara bem-sucedido, com trinta e tantos anos de carreira, está entrevistando cartuns?

Tas, porque você vive fazendo programa para criança?
"É um presente que eu ganhei. Gosto muito da companhia deles. Começou no Rá-Tim-Bum. Aprendi a duras penas que é o público mais difícil de atingir, mais inteligente, mais exigente. Não alivia."

Você tem filhos dessa idade?
"Tenho uma menina de nove, a Clarisse. Então vejo como é o dia a dia dela, e do meu filho de treze. Eles é que escolhem o que assistir, como assistir. Eu assisto um tanto com eles. É uma loucura, os desenhos estão cada vez mais incríveis."

Na TV paga, né? Porque na TV aberta, quase não tem mais programação para criança.
"Pois é, é uma pena, porque tem tanto conteúdo fantástico para criança, e só quem tem TV por assinatura tem acesso. São diversos canais, para várias faixas etárias, e quem só tem TV aberta nem sabe que isso tudo existe."

Internet é a solução?
"Olha, as crianças em geral estão usando tecnologia muito bem. Já está no DNA deles. Se deixar, a internet engole tudo... mas não é a tecnologia que resolve tudo. Pai e mãe ainda servem para alguma coisa."

Como você escolheu os entrevistados do Papo Animado?
"Foi em conjunto com o Cartoon Network. É meu quarto projeto com eles, então já sabemos trabalhar juntos. Participei desde o início da criação. Escolhemos a dedo. Um melhor que o outro.

O Rei Gelado!
"Pô, eu entrevistei o Macaco Louco!"

entrevista tas Um papo animado com Marcelo Tas

Você inventava um pouco no meio do papo?
"Não, é tudo totalmente roteirizado. Mas participei disso tudo, do conteúdo. Filmamos pela primeira vez em Atlanta, onde fica a sede do Cartoon. Pude ver de perto como se faz por lá. É uma turma muito profissional, mas muito tranquila, e super criativa. E uma coisa importante, usamos todos os dubladores originais dos desenhos."

E você entrevistou a Mônica. Imagino que deve ter sido difícil de conseguir.
"O Maurício de Souza é um queridão. Mas com ele, as coisas são sempre docemente misteriosas. A Mônica era meu sonho de consumo para o Papo Animado. Então fizemos o contato, explicamos tudo que queríamos fazer. No final, depois de um certo suspense, o Maurício topou tudo. Não alterou nada. Foi demais."

Temos aí uma nova lei chegando, que proíbe totalmente a publicidade para crianças. Sem essa receita, não tem como sustentar os canais infantis. E muito menos bancar produção nacional de conteúdo para esse público. Como fica a molecada?
"É criminoso. Foi uma discussão muito rala, e é uma posição muito autoritária e paternalista. Tipo, seu pai não sabe o que você pode assistir, o estado é que vai dizer..."

E a publicidade também afeta os adultos, né? Por isso que as empresas gastam tanto dinheiro anunciando.  Vamos ter uma lei proibindo anúncios em geral?
"Pois é. Evidente que eu não contra regulamentar a publicidade para crianças. Mas proibir tudo, como está sendo feito, a longo prazo detona a qualidade de toda a televisão, inclusive da TV paga."

Finalmente, qual é a fórmula para pegar a criançada?
"Ousadia no talo."

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Publicado em 04/09/2014 às 16:22

Somos todos macacos – e pior, somos todos burros

1reproducao23 Somos todos macacos   e pior, somos todos burros

Racismo não é o massacre de quase 38 mil negros brasileiros a cada ano - sete entre dez pessoas assassinadas neste país são negras.

Racismo não é que os negros têm menos saneamento. Menos casa própria. Menos acesso à saúde, hospital, creche.

Nem que são menos alfabetizados, que vivem menos, que vivem pior.

Racismo não é que os negros são minoria nas universidades, nas redações, no shopping, nos restaurantes.

Ou minoria nas novelas, nos telejornais, no público que frequenta os programas de auditório.

Não estão nos palcos dos teatros, são poucos nas paradas de sucesso. Não apresentam talk shows.

Há pouquíssimos negros nas gerências e direções das empresas. E no comando da Polícia Militar, Civil, Federal.

Não há negros entre os bilionários brasileiros.

E não se vê negros nos ministérios, nas secretarias, autarquias, ou nos altos cargos judiciário.

Mas nada disso é racismo. Não é assunto pra campanha de candidato nenhum. Isso é normal. É o dia a dia. Tanto que não é manchete.

Não, racismo é quando uma moça branca grita "macaco" para um jogador negro do time adversário.

E a solução para o racismo é humilhar publicamente a moça. Se possível, botar ela na cadeia.

E tirar o time da moça do campeonato. Mesmo que nenhum de seus jogadores tenha gritado "macaco".

Isso é fazer justiça com os negros. E todos fazemos que sim com a cabeça, sim, é o correto, não podemos aceitar uma agressão  como essa. Agora que a justiça foi feita,e está tudo de volta ao normal, podemos todos dormir em paz.

Os negros não são macacos - ou  melhor, são. São tão primatas quanto brancos e amarelos. Somos bichos, movidos por instintos, impulsionados pelo medo e preguiça, pelo atavismo, pelo imediatismo. Criados em clãs, surdos para o que não queremos ouvir, cegos para o que não queremos ver. Todos criados na lama - um ou outro de olho nas estrelas.

Nosso problema não é que somos todos macacos. É que somos todos burros.

Publicado em 03/09/2014 às 00:30

4 gibis para entender o conflito Israel-Palestina

Gente morrendo lá e você recomendando história em quadrinhos? É. Nada abriu meus olhos tanto para a realidade da vida na Palestina e Israel.  Li muitas palavras que me informaram e provocaram reflexão. Assisti triste os documentários. Vejo na internet a foto cruel de cada dia. Esse dias, a foto de uma menina que perdeu sete familiares, inclusive a mãe – e ficou tetraplégica.

Impossível imaginar algo mais terrível. E mesmo assim, para mim nada bate a combinação de palavras e imagens, de história e estória. Tudo que leio, vejo e assisto sobre o tema é informado pela minha relação íntima com essas páginas, viradas repetidamente. Mesmo que você não seja leitor de quadrinhos, vai aprender muito sobre como esse conflito começou, como se agravou, e porque não vai terminar tão cedo.

Os dois primeiros livros foram traduzidos para o português, e você pode comprar já. Os dois seguintes ainda não tem versão brasileira.

sacco witness 4 gibis para entender o conflito Israel Palestina

PALESTINA

Joe Sacco é a grande referência em reportagem em quadrinhos, e esta é sua obra mais importante. A pesquisa visual de Joe é primorosa, só batida pela seu esforço de dar rosto e voz para as pessoas reais que encontra. Ele não se exime de julgar, e deixa transparente sua simpatia pela causa palestina. Mas não peca por reações automáticas, e é didático o suficiente, sem simplismo. Joe explica em pinceladas rápidas as origens do conflito; seu foco é o aqui e o agora. É um clássico, infelizmente atualíssimo, que tivemos o orgulho de publicar no Brasil quando era mais ou menos novidade, em 2002, na editora Conrad. Tudo de Sacco merece ser lido – Notas sobre Gaza, Gorazde (sobre a guerra na Bósnia), O Derrotista...

 Compre Palestina aqui:

CronicasDeJerusalem 4 gibis para entender o conflito Israel Palestina

CRÔNICAS DE JERUSALÉM

Guy DeLisle sempre é muito gostoso de ler, com sua postura equilibrada e sua visão agridoce da vida. O cartunista canadense é casado com uma funcionária da organização humanitária Médicos sem Fronteira.  Guy já escreveu vários livros contando suas temporadas em lugares improváveis – Crônicas Birmanesas (Myanmar), Shenzhen (na China), Pyongyang (Coréia do Norte). Mas Jerusalém é sua obra maior, e não só no  número de páginas. Começando pela sua chegada à cidade, quando vai morar em um bairro árabe, o livro nos leva junto na jornada de Guy. Primeiro, como pai de uma menininha, lidando com as amolações práticas. Com o tempo, Guy vai aprendendo como é a rotina numa cidade dividida, em um país dividido. A abordagem não-militante de Guy evita os julgamentos e nos conquista pela leveza.

Compre Crônicas de Jerusalém aqui:

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EXIT WOUNDS

Mutu Rodan é uma cartunista israelense, e essa foi sua primeira graphic novel, publicada em 2007. É uma história familiar, um romance, um drama e uma história com um certo humor – Rodan foi editora da edição israelense da revista Mad. O personagem principal é um jovem israelense que é avisado por uma desconhecida que seu pai, com quem  não tinha contato, morreu em um atentado terrorista, causado por um  homem-bomba palestino. Transmite brilhantemente a estranha combinação de tédio e terror que domina a vida cotidiana em Israel, estejam ou não envolvidos diretamente ou não com o conflito com a Palestina. O desenho dela é muito bonito – lembra um pouco os clássicos da HQ franco-belga, com seu estilo “linha clara”, tipo Tintin. “Exit Wounds” significa “ferimentos de saída”, o buraco que a bala deixa ao atravessar uma pessoa.

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NOT THE ISRAEL MY PARENTS PROMISED ME

Último livro de Harvey Pekar, interrompido com sua morte. Pekar está para a graphic novel autobiográfica como Sacco para a reportagem em quadrinhos: é a  referência fundamental do gênero. Como diz Douglas Rushkoff na contracapa, essa é sua obra mais importante. Pekar viveu toda a vida em Cleveland, nos EUA. Era judeu, filho de um judeu religioso e uma judia comunista, ambos imigrantes, ambos sionistas. Nada para eles era mais importante do que os judeus conquistarem uma nação própria. Foi neste ambiente que Pekar cresceu, e a parte mais tocante do livro é justamente a autobiográfica. Mas o livro, que se passa no decorrer de um dia, também é um pouco história  do Oriente Médio, páginas muito interessantes visualmente, referenciando cultura e arte de milênios atrás. Tem outro tanto de análise política, e muito de lamento e desabafo. O título original, trocado por pedido do desenhista J.T. Waldman, era “Como perdi a fé em Israel”.  A produção do livro foi interrompida pela morte de Pekar, o que faz seu final ainda mais tocante.

O mais recomendado para leitores casuais, não acostumados a ler quadrinhos, é Crônicas de Jerusalém, também o mais acessível para leitores bem jovens. Abaixo, explico e mostro porquê.

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Publicado em 02/09/2014 às 00:30

Patrick Swayze: nada é dourado pra sempre

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Patrick Swayze era um texano de 57 anos, ex-alcoólatra, bailarino clássico, patinador no gelo, ginasta, ator e cantor. Ele estava com a mesma mulher desde 1970 e gostava de pilotar aviões e criar cavalos árabes. Morreu de câncer de pâncreas, um adeus dolorido.

Patrick será sempre lembrado por seus rodopios em Dirty Dancing e pelo fantasma apaixonado em Ghost. Mas não por mim.

Eu vou lembrar de Patrick Swayze de cabelo oxigenado como o surfista assaltante de Point Break, se entregando à onda perfeita. Como  Jed, líder dos Wolverines, a tropa de adolescentes que dá trabalho para os invasores soviéticos em Red Dawn.

E inevitavelmente como Darrel, irmão de Ponyboy e Soda, o irmão mais velho que todo garoto queria ter.

Ponyboy era C. Thomas Howell. Soda era Rob Lowe. Eles faziam parte de uma gangue de moleques duros e durões em Tulsa, Oklahoma, no início dos anos 60. Da turma também faziam parte Two-Bit (Emilio Estevez), Johnny (Ralph Macchio), Dallas (Matt Dillon) e Steve (Tom Cruise).

Eles eram, são, The Outsiders, o lado colorido de um épico teen filmado em 1983 por Francis Ford Coppola. O lado B, Rumblefish, veio logo depois e colocou mais dois garotos sob o holofote: Nicolas Cage e Mickey Rourke.

Eu tinha dezoito anos quando estes filmes apareceram no Brasil, sob os nomes Vidas Sem Rumo e O Selvagem da Motocicleta. Eram herdeiros mais que dignos de Esplendor na Relva, Buster e Billie e tantos outros dramas hormonais favoritos das sessões coruja da minha adolescência.

Mas esses caras eram da minha idade. Eram da minha geração ou pareciam ser. Isso fez toda diferença.

Se você assistir agora pela primeira vez e achar que a história é coisa de adolescente, saiba que é mesmo. O filme foi baseado em um livro escrito por Susan Hinton quando ela tinha catorze anos e publicado quando ela tinha dezesseis.

Eu queria que todas as pessoas de dezesseis anos do mundo assistissem esses dois filmes.

Vi e revi The Outsiders e Rumblefish muitas vezes. Os dois filmes nunca foram unanimidade nem fizeram grande sucesso, mas foram muito falados e cultuados na época. Depois cresci e esqueci deles. Não assisto faz mais de vinte anos.  Mas se Darrel morreu, está na hora de voltar a reencontrar a velha gangue.

Na época, Ponyboy não entendia seu poema predileto, Nothing Gold Can Stay, de Robert Frost. Nem eu.

Hoje estou mais perto.

dt.common.streams.StreamServer.cls  Patrick Swayze: nada é dourado pra sempre
Nothing Gold Can Stay

Por Robert Frost

Nature’s first green is gold

Her hardest hue to hold

Her early leaf’s a flower;

But only so an hour.

Then leaf subsides to leaf.

So Eden sank to grief,

So dawn goes down to day.

Nothing gold can stay.

patrick swayze Patrick Swayze: nada é dourado pra sempre

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Publicado em 29/08/2014 às 18:41

“Se Marina chamar Armínio Fraga para o Ministério da Fazenda, ele vai” (e outras coisas que você precisa saber sobre o banqueiro mais poderoso do Brasil)

arminio ok Se Marina chamar Armínio Fraga para o Ministério da Fazenda, ele vai (e outras coisas que você precisa saber sobre o banqueiro mais poderoso do Brasil)

Armínio Fraga. Quem é mesmo? Ex-diretor do Banco Central, no segundo mandato de Fernando Henrique. É o que a maioria dos brasileiros que lembra de seu nome sabe sobre ele. É muito pouco, pela sua importância nesse momento. Hora de atualizar.

Para os empresários e banqueiros do Brasil, Armínio é o gestor ideal da política econômica. É a principal razão porque apoiam preferencialmente Aécio, que anunciou formalmente Fraga como seu Ministro da Fazenda, caso vença a eleição. A campanha de Marina Silva sabe. Por isso seu principal conselheiro econômico, Eduardo Gianetti, vem dando entrevistas dizendo que os programas de governo de PSB e PSDB se igualam, em termos de política econômica. Gianetti também vem dizendo que não quer ocupar nenhum cargo em um eventual governo Marina.

Reportagem do jornal Valor Econômico reforça a importância de Armínio no cenário. Assinada por Cristiano Romero e Talita Moreira, cita várias fontes que dizem a mesma coisa. Os banqueiros preferem Aécio, por causa de Armínio. Como o tucano não decola, eles estão "marinando". "O mercado já vê Marina com completo conforto",disse ao Valor um ex-diretor do Banco Central. "Não se vê diferença entre o grupo de Marina e o do PSDB em matéria de assuntos econômicos".

O que faz de Armínio Fraga tão querido por banqueiros, empresários, candidatos? Simplificando, três coisas. Quem ele defende. O que ele defende. E o que declara que fará, no governo.

Armínio é sócio e gestor do fundo Gávea, que fundou em 2003, já no governo Lula. Trata-se de um fundo de investimentos que gere um patrimônio de R$ 16 bilhões. De quem? Não se sabe. Pela legislação, os fundos não precisam revelar quem investe neles.

Uma parte desses investimentos é em outros investimentos, “papel”, como se diz no mercado. Outra parte é em ativos mais sólidos, que a gente consegue entender - uns 60% do total, segundo análise de 2013 da Standard & Poor´s.

A Gávea já investiu na Arcos Dourados, empresa que opera o McDonald’s no Brasil, e depois vendeu. É sócia disso e daquilo. Tempos atrás tentava comprar os Laboratórios Fleury e a GVT. Investiu na Camisaria Colombo, os alimentos Camil, os óculos Chili Beans, Odebrecht, a locadora de carros Unidas, em projetos imobiliários.

Quem controla o fundo Gávea? Não é mais Armínio. Em 2010 ele vendeu o controle do fundo para o J.P. Morgan, que hoje é dono de 55%. O JP Morgan é o maior banco dos Estados Unidos, com ativos de mais de US$ 2,5 trilhões. Esteve muito envolvido em uma colorida coleção de atividades ilícitas, incluindo os escândalos da Enron, Worldcom, a falência do condado de Jefferson, no Alabama, manipulação do mercado de energia, o escândalo dos empréstimos Subprime em 2008, e o caso do golpista Bernie Madoff. Pagou bilhões em multas por essas aprontadas, nos últimos anos. Segue firme e forte. Sem vergonhice não é privilégio tupi.

Um Ministro da Fazenda tem acesso a informações confidenciais. Toma decisões que afeta a economia da nação. Te parece um pouco estranho que uma pessoa possa ao mesmo tempo ser Ministro da Fazenda e banqueiro - mais, sócio minoritário do JP Morgan, o maior banco americano? Você não está sozinho.

Para Armínio, defender os interesses do JP Morgan é defender seus próprios interesses. O que beneficia seus negócios, beneficiará os de outros na sua posição.

Recentemente escrevi neste blog sobre Neca Setubal, coordenadora do governo de Marina e acionista do Itaú, que deve R$ 18,7 bilhões ao Brasil. É um conflito de interesses claro, e assim foi reconhecido - tanto que rendeu 700 mil leituras, e 64 mil "likes" no Facebook, por enquanto.

Mas Neca, há que dizer, é de fato educadora, e é de fato influência modernizadora no pensamento de Marina, do ponto de vista dos costumes. É pró-aborto, por uma legislação de drogas civilizada, e pró-casamento gay, que conseguiu incluir no programa de governo do PSB. Seu papel no Itaú não é a esculhambação que seria Armínio manter sua posição no Gávea e assumir o Ministério da Fazenda. Neca é acionista do Itaú, não gestora. O Itaú é um banco brasileiro, responde à legislação brasileira. Fraga é sócio minoritário do maior banco dos Estados Unidos; seu dinheiro pessoal, e os ativos do JP Morgan no Brasil, estão sob sua responsabilidade.

Armínio afirma agora à Veja que venderia suas cotas no Gávea, caso vá assumir um cargo no governo. Colocaria todos seus investimentos pessoais em uma "conta cega", à qual  não teria acesso até deixar o governo. É rotina em executivos americanos que vão para o governo, e nunca impediu ninguém de fazer suas estripulias (por exemplo Henry Paulson, CEO do Goldman Sachs, e secretário do Tesouro).

A segunda razão porque Armínio é o favorito do grande capital é derivada de suas atividades como banqueiro de investimentos. No Brasil, muitas empresas que fabricam sabonete e torneira, e vendem carro e hamburguer e tal, lucram muito mais no mercado financeiro do que nas suas atividades supostamente principais. Dá muito menos trabalho multiplicar a grana no banco. Frequentemente, grana pública, que as empresas tomam do governo, via BNDES, BB e Caixa. Quanto aos bancos, mais fácil ainda: emprestam diretamente ao governo.

Armínio já declarou várias vezes o que pretende fazer como novo Ministro da Fazenda. Vai deixar o câmbio flutuar, vai aumentar as tarifas públicas, vai dar uma cacetada na inflação - subindo os juros. Juros mais altos, mais lucro pra Armínio, e pra quem tem bastante dinheiro rendendo no banco. É a festa dos rentistas, e ainda menos estímulo para as empresas aplicarem em atividades produtivas, que geram emprego e renda pro povão. Considerando que os bancos já estão com uma dinheirama represada (que o governo Dilma gentilmente lhes cedeu), vêm aí tempos difíceis. Imagine só: tivemos durante anos crédito super facilitado, e agora que quase todo brasileiro tem dívida, os juros dessas dívidas vão aumentar...

A terceira razão porque Armínio é tão querido pelo grande capital é por causa de suas atividades políticas. Costumam dizer que ele é um grande “técnico”, “gestor de primeira” etc. Ninguém ressalta que Armínio é também um militante da política. É que boa dos barões da imprensa está junta com Armínio, em uma instituição criada para defender os ideais e interesses de sua classe.

Armínio é co-fundador e doador do Instituto Millenium. É o quartel-general do antipetismo, que promove em seminários, escolas, redações, redes sociais. Articula, influi, inspira e, para muitos, conspira. É casa da maior parte dos colunistas conservadores mais conhecidos. Alguns ferozes, como os blogueiros da Veja, Rodrigo Constantino e Reynaldo Azevedo.

Quem empresas são as principais apoiadoras do Millenium? Os grupos Abril e Gerdau. Armínio está listado no site do Instituto como um de seus mantenedores, ao lado de nomes como Nelson Sirotsky (RBS), João Roberto Marinho (Globo) e Fábio Barbosa (Abril).

Barbosa é protagonista de um boato que circulou esses dias pelas redações. Contando com a confiança do mercado, e um histórico ligado a causas ambientalistas, seria o nome mais forte para assumir o Ministério da Fazenda num governo Marina. Fábio é ex-presidente dos Bancos Real e Santander, e da Federação Brasileira dos Bancos. Ah, e ex-integrante do Conselho de Administração da Petrobras, inclusive na época do tal escândalo na compra da refinaria de Pasadena.

O que Fábio faz nos dias de hoje? É presidente do Conselho de Administração do grupo Abril, e desde a semana passada, responsável direto pela linha editorial da revista Veja. Qual a diferença entre Barbosa e Fraga? No que interessa, nenhuma.

Dilma tem as qualidades e defeitos que você, eleitor, decidir. Mas sabemos quem é, o que fez e faz, e podemos imaginar o que fará, e em quem se apoiará, caso vença. É importante, antes de decidir seu voto, cada um se informar com o máximo de detalhes sobre os planos dos outros candidatos para a economia brasileira, que nos afeta a todos.

Pense você em votar em Marina ou Aécio, é importante conhecer melhor Armínio Fraga. Em entrevista a O Globo, Armínio afirma que é "100% Aécio" e não aceitaria um cargo no governo de Marina: "respeito muito a história de vida dela, mas não considero ir para o governo." A reportagem do Valor de hoje cita um experiente banqueiro, que disse ao jornal: "Se Marina chamar o Armínio, ele vai".

Possível. Mas nem é necessário. Em caso de vitória de Marina, se não for Armínio, será um igual a ele, Barbosa ou outro. Da mesma turma, pelas mesmas razões. E por isso, Armínio Fraga é o banqueiro mais poderoso do Brasil.

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Publicado em 28/08/2014 às 00:05

A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

beyoncé A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

Maior clichê dizer que a TV anda mais legal que o cinema. Meia verdade. Tá cheio de série ruim, tem filme bom saindo pelo ladrão. É uma comparação desequilibrada. Normalmente se compara o melhor da produção americana para TV paga com os blockbusters mais apelativos de Hollywood, esses filmões de verão 4D, Imax etc. pra vender os megacombos do colesterol.

Prefiro comparar a TV com a... música. A TV que faz sucesso e ganha prêmio, com a música que faz sucesso e ganha prêmio. Prefiro não, aconteceu essa semana. Calhou de termos o Video Music Awards e o Emmy com um dia de diferença. E semelhança zero.

O VMA elegeu vídeo do ano um da Miley Cyrus. Ela pode até ser a cantora que mais chamou atenção nos últimos doze meses. Mas a música, Wrecking Ball, revisita o repertório do Roxette de vinte anos atrás, tipo "It Must Have Been Love". E o vídeo é pedestre. Não fosse a primeira aparição da ex-Hannah Montana transmutada em messalina de mentirinha, passaria batido.

Outros vencedores? Katy Perry, Ariana Grande, 5Th Harmony, Beyoncé... umas bonitinhas em uns clipezinhos fofos, algodão doce pra ouvidos acríticos. A lista completa está aqui.

Vamos comparar com o Emmy? O grande vencedor foi Breaking Bad, série hardcore sobre um professor que vira traficante da pesada, inteligente e violenta. Outros vencedores: séries como Fargo, Veep, True Detective, American Horror Story. Roteiros sólidos, boas interpretações, olho na audiência, mas alguma disposição de correr riscos. O melhor programa de variedades foi o imbatível The Colbert Report. E sobraram três prêmios para Sherlock, que é um ótimo exemplo de como fazer uma série divertida  para todas as idades (a partir dos 10 anos de idade, vá lá). Cito fácil uns dez filmes deste ano bem melhores que tudo isso junto, mas a lista do Emmy não faz feio de jeito nenhum.

Breaking Bad cast SAG 2014 jpg A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

O que essas séries têm em comum? Pressupõem um mínimo de QI por nossa parte. O que toda essa música tem em comum? Parte da premissa que não temos gosto, memória, repertório. Que não adianta dizer nada, porque ninguém está ouvindo, ninguém está prestando atenção, ninguém vai entender. O contrário é verdadeiro. E mais verdadeiro ainda entre a garotada adolescente, que passa o dia todo fuçando e compartilhando e produzindo seu próprio conteúdo na internet.

Mas para o que resta da indústria da música, e o que resta da mídia de massa pra jovem, nada disso importa ou existe. Os executivos estão mais preocupados com a nova foto de Rihanna no Instagram do que com o fato que a garotada está criando seus próprios ídolos no Twitch e no YouTube. Engraçado que ali ao lado no controle remoto, num Cartoon Network da vida, há espaço para coisas como Hora de Aventura, que pega de criança a adulto com aventuras surreais, assustadoras, ternas - porque se arrisca.

hora de aventura A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

Mas se o rock morreu, o pop não morre - está congelado no tempo. Daí a perfeita lógica do VMA fazer uma homenagem especial a Beyoncé, entertainer eficiente e insípida, santa padroeira de todas essas meninas sem roupa e sem nada a dizer. Certo que o Emmy premia o melhor da TV, a votação é diferente, o corte é diferente do da MTV. Mas o VMA não foi sempre isso, porque a MTV não foi sempre isso, porque a própria música pop não foi sempre isso. VMA, MTV e música se renderam à insignificância, a um gueto cada vez menor e menor, que finge ser cada vez maior e maior.

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Publicado em 27/08/2014 às 10:16

Grandes empresários votam em Marina no segundo turno

marina1 Grandes empresários votam em Marina no segundo turno

Como o debate na TV afetará as intenções de voto do eleitor? Demora alguns dias para sabermos. Mas antes do debate, o grande capital brasileiro foi às urnas, na segunda-feira (25). E já escolheu o sucessor de Dilma.

Foi na cerimônia de entrega do anuário Valor 1000, realizada todos os anos pelo jornal Valor Econômico. A festa reuniu o PIB nacional nesta segunda-feira. Neste ano, foram quase 800 empresários. Destes, 284 responderam a uma enquete e opinaram, numa cédula, como votariam para presidente.

Primeira pergunta: Em quem você vai votar para presidente da República? Resultado: 192 votos para Aécio Neves, 41 para Dilma, 36 para Marina.

Segunda pergunta: Em caso de segundo turno entre Dilma e Marina, em quem vota? 124 votos para Marina e 40 para Dilma.

Outro cenário, Aécio versus Dilma no segundo turno: 65,5% dos votos para Aécio, 16,9% para Dilma.

Finalmente, o mais improvável, um segundo turno entre Aécio e Marina. O tucano ganharia de lavada, com 53,5% dos votos, e Marina com só 9,5% — e 37% dos empresários preferiram nem opinar nessa.

Numa pesquisa em outro evento promovido pelo Valor, em maior, o resultado era um pouco diferente. Aécio tinha 72 votos, Eduardo Campos 17, e Dilma só 3 votos. Na época, expliquei por que isso não era necessariamente um problema, e talvez fosse uma boa coisa. Pelo menos, um cenário melhor do que nos outros países dos Brics.

Tudo isso para dizer o seguinte: o candidato ideal do grande capital é Aécio, sem dúvida nenhuma. Reforçou sua posição, anunciando no debate que se vencer, o ministro da Fazenda será Armínio Fraga.

Mas no cenário que temos hoje (sem Aécio no segundo turno, como a pesquisa do Ibope sugere), Marina terá o apoio das maiores empresas do Brasil.

Ué, mas Marina não era considerada ambientalista radical, antibusiness etc.? Bem, seu principal conselheiro econômico, Eduardo Gianetti, vem dando entrevistas afirmando que o programa de Marina está totalmente alinhado com o do PSDB, no que diz respeito ao mundo dos negócios e finanças. E sua principal conselheira política é Neca Setúbal, acionista do Itaú.

Empresário é bicho pragmático. O negócio dos negócios é fazer sua empresa crescer, tomar mercado, ganhar dinheiro, seja quem esteja no poder. Se ajeita com quem quer que ganhe. Mas as preferências dos grandes empresários estão bem claras. Enxergam a política econômica de Aécio e Marina como iguais, ou pelo menos muito semelhantes.

Resta ao eleitor decidir: O que é bom para as grandes empresas, é bom para mim também?

Publicado em 22/08/2014 às 19:49

Marina Silva, Neca Setubal, e a resposta que vale R$ 240 milhões

neca setubal Marina Silva, Neca Setubal, e a resposta que vale R$ 240 milhões

Cutuquei Neca Setubal, coordenadora do programa de governo de Marina Silva, num texto aqui no blog. Repercussão louca. 350 mil leitores, 38 mil compartilhamentos no Facebook. A área de comentários pegou fogo. Muita gente apoiando, muita gente questionando, muita gente não entendendo direito.

Dei muita sorte. Dois dias depois do meu texto, Fernando Rodrigues, um de nossos melhores colunistas políticos, fez uma longa entrevista com Neca Setubal para a Folha e UOL. Recomendo que você leia, seja ou não eleitor de Marina.

Fernando tinha lido meu texto, viu a polêmica que causava, e perguntou sobre meu tema central: considerando que o Itaú, de que Neca é sócia, deve R$ 18,7 bilhões à Receita Federal, e diz que não deve e não vai pagar, não há um conflito de interesses?

Ela, digamos, respondeu. E a resposta dele exige comentários. Eles estão abaixo.

Publicado em 20/08/2014 às 11:29

Antes de votar em Marina, você precisa conhecer Neca – e fazer a pergunta de R$ 18 bilhões

marina Antes de votar em Marina, você precisa conhecer Neca   e fazer a pergunta de R$ 18 bilhões

Você precisa conhecer Neca. Ela é a coordenadora do programa de governo de Marina Silva, pela Rede Sustentabilidade, ao lado de Mauricio Rands, do PSB. O documento será divulgado na semana que vem, 250 páginas consensadas por Marina e Eduardo Campos. Educadora, com longo histórico de obras sociais, Neca conheceu Marina em 2007. É uma das idealizadoras e principais captadoras de recursos da Rede Sustentabilidade.

Sua importância na campanha e no partido de Marina Silva já seria boa razão para o eleitor conhecê-la melhor. Ainda mais após a morte de Eduardo Campos. Mas há uma razão bem maior. Neca é o apelido que Maria Alice Setúbal carrega da infância. Ela é acionista da holding Itausa. Você pode conferir a participação dela neste documento do Bovespa. Ela tem 1,29% do capital total. Parece pouco, mas o valor de mercado da Itausa no dia de ontem era R$ 61,4 bilhões. A participação de Maria Alice vale algo perto de R$ 792 milhões.

A Itausa controla o banco Itaú Unibanco, o banco de investimentos Itaú BBA, e as empresas Duratex (de painéis de madeira e também metais sanitários, da marca Deca), a Itautec (hardware e software) e a Elekeiroz (gás). Neca herdou sua participação do pai, Olavo Setúbal, empresário e político. Foi prefeito de São Paulo, indicado por Paulo Egydio Martins, e ministro das relações exteriores do governo Sarney. Olavo morreu em 2008. O Itaú doou um milhão de reais para a campanha de Marina Silva em 2010 (leia mais aqui).

Em agosto de 2013 - portanto, no governo Dilma Rousseff - a Receita Federal autuou o Itaú Unibanco. Segundo a Receita, o Itaú deve uma fortuna em impostos. Seriam R$ 18,7 bilhões, relativos à fusão do Itaú com o Unibanco, em 2008. O Itaú deveria ter recolhido R$ 11,8 bilhões em Imposto de Renda e R$ 6,8 bilhões em Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. A Receita somou multa e juros.

R$ 18 bilhões é muito dinheiro. É difícil imaginar que a Receita tirou um valor desse tamanho do nada. É difícil imaginar uma empresa pagando uma multa que seja um terço disso. Mas embora o economista-chefe do Itaú esteja hoje no jornal dizendo que o Brasil viveu um primeiro semestre de "estagnação", o Itaú Unibanco lucrou R$ 4,9 bilhões no segundo trimestre de 2014, uma alta de 36,7%. No primeiro semestre, o lucro líquido atingiu R$ 9,318 bilhões, um aumento de 32,1% em relação ao primeiro semestre de 2013. O Unibanco vai muitíssimo bem. E gera, sim, lucro para pagar os impostos e multa devidos - ainda que em prestações.

A autuação da Receita foi confirmada em 30 de janeiro de 2014 pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento. O Itaú informou que iria recorrer desta decisão junto ao Conselho Administrativo de Recursos fiscais. Na época da autuação, e novamente em janeiro, o Itaú informou que considerava  "remota" a hipótese de ter de pagar os impostos devidos e a multa. Mandei um email hoje para a área de comunicação do Itaú Unibanco perguntando se o banco está questionando legalmente a autuação, e pedindo detalhes da situação. A resposta foi: "Não vamos comentar."

O programa de governo de Marina Silva, que leva a assinatura de Maria Alice Setúbal, merece uma leitura muito atenta, à luz de sua participação acionária no Itaú. Um ano atrás, em entrevista ao Valor, Neca Setúbal foi perguntada se participaria de um eventual governo de Marina. Sua resposta: "Supondo que Marina ganhe, eu estarei junto, mas não sei como. Talvez eu preferisse não estar em um cargo formal, mas em algo que eu tivesse um pouco mais de flexibilidade."

Formal ou informal, é muito forte a relação entre Neca e Marina. Uma presidenta não tem poder para simplesmente anular uma autuação da Receita. Mas tem influência. E quem tem influência sobre a presidenta, tem muito poder também. Neca Setúbal já nasceu com muito poder econômico, que continua exercendo. Agora, pode ter muito poder político. É um caso de conflito de interesses? Essa é a pergunta que vale R$ 18,7 bilhões de reais.

Publicado em 18/08/2014 às 17:44

Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

1407853964037 wps 3 Justin Timberlake takes t Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

Tudo que é mais estúpido, superficial e inócuo na cultura americana, a brasileirada sempre corre para imitar. Tanta coisa boa nos Estados Unidos, sempre macaqueamos o que há de mais idiota.

Agora é o desafio do balde de gelo na cabeça, o Ice Bucket Challenge. No Brasil, gente como Ana Maria Braga, Luciano Huck, Ivete Sangalo, Neymar, Carolina Dieckmann e outros luminares da cultura nacional já aderiram. Nos Estados Unidos virou mais que fenômeno pop. É quase obrigação de quem é famoso. De cantores (Justin Timberlake, Justin Bieber) a empresários (Mark Zuckerberg, Jeff Bezos) a atletas (Cristiano Ronaldo, os New York Mets). E outros zilhões de famosos e anônimos que querem aparecer, e postam na internet vídeos fazendo a mesma bobagem.

263934 1280x720 Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

Do que se trata? Em vídeo, você aceita o desafio, e desafia outras três pessoas a fazerem igual, nas próximas 24 horas. Bota gelo em um balde com água. Se na hora H der para trás, doa cem dólares para uma instituição de caridade. Se for em frente e se encharcar todo, doa só dez dólares.

Ver os vídeos dá desgosto com a espécie humana. É o máximo de narcisismo posando de desprendimento.  Claro que tem gente que se molha e doa os cem. Claro que tem gente que doa mais. Claro que o fato dos famosos se filmarem é uma maneira de gerar visibilidade para a campanha. E claríssimo que é uma maneira dos famosos se promoverem, e posarem de caridosos e preocupados com quem sofre.

De fato sofre bastante quem tem ALS (Amyotrophic Lateral Sclerosis, ou Esclerose Lateral Amiotrófica). É uma doença degenerativa horrível. Meio parecida com a doença de Parkinson, que muita gente que tem um velhinho na família conhece bem. A pessoa perde o controle sobre os  músculos, tem dificuldade pra falar, engolir, respirar. É conhecida como doença de Lou Gehrig, por causa do legendário jogador de beisebol que morreu disso.

Se sabe que a maioria (93%) dos afetados são caucasianos, gente branca. O que causa a ALS? Ninguém sabe. Mas segundo a própria Associação que criou a campanha do balde de gelo, veteranos americanos de guerra têm o dobro de chance de ter ALS que um civil. Guerra causa ALS? Vai saber.

O que sabemos com certeza é que na longa lista de doenças que precisam de recursos para pesquisa, a ALS não é prioridade. Seria muitíssimo mais útil gastar o mesmo dinheiro para doar mosquiteiros para a África, ou melhorar o saneamento no Rio de Janeiro. Porque o número de pessoas afetadas pela ALS é minúsculo. Entre a população caucasiana, mais afetada, varia de 1.2 a 4 casos por cem mil pessoas.

Nos EUA existem 30 mil pessoas diagnosticadas com ALS, de um total de quase 320 milhões de americanos. É um pingo d´água no oceano. Por comparação, no mundo  morrem 1.5 milhão de pessoas de HIV/Aids e outros 1.5 milhão, de diarreia. Onde? Onde não tem saneamento, remédio, comida. E água. Já tem gente pegando no pé dos patetas que entraram na campanha do balde de gelo. Olha a cara do menininho perguntando: "Quer dizer que você desperdiça água para evitar doar dinheiro para caridade?"

forasta ok Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

 

A coisa certa a fazer é enfrentar todas as doenças, onde quer que elas estejam, caso afetem muita gente ou meia dúzia. Não é com campanhas cretinas. Poderíamos começar zerando os impostos sobre remédios, e mudando as leis de patentes, que tal? Ou gastando menos com armas e mais com saneamento básico? Não, isso é tudo utopia. Realidade é desperdiçar um balde de água gelada no cucuruto.

Longe de mim fazer pouco de quem sofre com ALS ou de suas famílias. Mas tá cheio de gente sofrendo no mundo - de doença e bomba na cabeça, quase sempre fabricadas nos Estados Unidos, aliás. Vamos bolar uma outra coisa divertida pra ajudar quem tem Ebola, e outra para as criancinhas bombardeadas no Oriente Médio? Transformar desgraça alheia em  diversão de internet é idiota e imoral.

Os gringos, que têm um termo bacaninha para cada coisa, chamam isso  de "slacktivism", que traduzo mal e porcamente para "ativismo de vagabundo". É quando a pessoa gasta o mínimo de esforço, neurônios ou dinheiro para "ajudar" o próximo, com resultados igualmente mínimos, mas gerando grande satisfação pessoal e status social, "veja como sou caridoso e bacana."  Sempre existiu, mas a internet turbinou. Por falar em slacktivism, essa campanha da WWF é a mais complacente e contraproducente que conheço.

Esses famosos da campanha do balde estão na mesma categoria desses indignados de Facebook. Gente que vive gritando contra essa e aquela injustiça e incorreção política. Mas não se mexem para mudar absolutamente nada. No máximo, fingem. E frequentemente lucram com o mundo como ele é, ignorante e vulnerável.

Já vejo você falando "pô, para de ser tão mal humorado, é só uma brincadeira, não faz mal a ninguém e ainda gera uns recursos pra pesquisar essa doença." Bem, entre essa obsessão pela autopromoção camuflada de solidariedade e não fazer absolutamente nada, prefiro a honestidade da imobilidade.

Mas se você quer mesmo meter a mão no vespeiro e buscar soluções políticas de longo prazo, te convido a ler isso aqui. Tem um gráfico que você não vai esquecer. 

E se você quer mesmo ajudar quem está mais precisa, nesse exato momento - pelo mundo afora e no Brasil também - nem precisa jogar um balde de gelo na cabeça. Puxe o cartão de crédito e DOE JÁ. Te desafio.

MSF4 Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

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Publicado em 18/08/2014 às 00:30

Eu não leio livro escrito por mulher

jane austen Eu não leio livro escrito por mulher

Jane Austen: nunca li e nunca lerei

Fiquei besta quando percebi. Arrumava as estantes de casa e pela primeira vez enxerguei o que devia estar na cara. Eu não leio livro escrito por mulher. Dos zilhões de livros de casa, uns 99,5% foram escritos por homens. O que é que há de errado comigo? E, pensando bem, tem algo de errado comigo?
Encasquetado, me ocorreu a pergunta óbvia: eu sempre fui assim, ou é recente? Resposta: eu sempre fui assim. Os livros da minha infância e adolescência que continuam comigo, muitos, são quase todos obras de homens. Certo que troquei muitos em sebo, na faculdade, do que me arrependo muito, inclusive todas as minhas Agatha Christie. Mas o que sobrou da época é só macho. Em ficção científica, é Joan D. Vinge aqui,  R.A. McAvoy e Ursula K. LeGuin acolá. Entre tantos livros policiais, Patricia Highsmith. Vamos ver a estante com ficção americana: Mary McCarthy, Lilian Hellman, Carson McCullers, Harper Lee. Recente e muito bom, o  livro de autoajuda disfarçado de biografia de Montaigne, de Sarah Bakewell, How to Live. Em quadrinhos, quase nada.  Autoras brasileiras, menos ainda. Clara Averbuck, Márcia Denser, Lilian Moritz Schwarz, um querido de Leyla Perrone-Moisés, Vinte Luas. Mais esse, mais aquele. Um pinga-pinga de autoras num oceano de machos.
Por que não leio livros escritos por mulher? Não sei. Nunca pensei nisso. Talvez mulheres não sejam tão atuantes nos meus gêneros favoritos? Mas em qualquer gênero tem muita autora boa (imagino,  não sei, porque não leio). Escolho livro pelo sexo do autor? Imagina, nem entra na equação. Compro livro pelo autor, pelo tema, pelo cheiro. Esse Vinte Luas me botou para ler sobre a era das navegações, li uns vinte livros por causa dele. Preconceito? Nenhum. Dou de barato que mulher tem os mesmos direitos que homem, inclusive sexuais (e o mesmo desafio de defende-los, claro). E tenho zilhas de livros escritos por gays. Quanto se trata de prazeres literários, sou polimorfo perverso.
Qualquer livreiro vai te contar: a maioria das pessoas que entram em livrarias, e compram livros, são mulheres. No Brasil e em qualquer lugar do mundo. Regra geral, a lista de best-sellers é a lista dos livros que estão sendo mais lidos por mulher naquela semana. Mais ainda em ficção, que não-ficção sempre tem também aquelas auto-ajuda pra homem, livro de carreira, gestão, como ficar rico etc.
Donde que muito livro é escrito especificamente para agradar leitoras. E muitos desses são escritos por mulher, naturalmente. Existe isso de leitor homem e leitora mulher? Bem, sim. Tem livro que é pra ser lido por qualquer um, qualquer dos 16 sexos, conforme dizia um velho amigo. E tem livro, e filme, e música que tem alvo certo. 50 Tons de Cinza pode até ter leitor homem, mas foi feito para mulher. Mesma coisa A Culpa é das Estrelas, ou A Menina que Roubava Livros, pra ficar em três que estão na lista dos mais vendidos esta semana. Vamos para os Estados Unidos? A lista de best-sellers do New York Times dessa semana tem cinco autoras no Top 5, dominação total. Claro que não vou ler esses livros. Eles foram especificamente não-feitos para mim.

Arrisco uma outra teoria para a ausência de mulher entre meus autores favoritos. Não leio literatura contemporânea, dessas que vendem pouco e ganham prêmios literários, gênero em que as minas arrasam. Leio pouca ficção. Sempre do século 20 ou antes, períodos em que pouca mulher escrevia, ou escrevia sobre assunto exclusivo de mulher, porque era a isto que tinham acesso, socialmente. OK, sei que Jane Austen não é só isso. Mas na boa, é muito mulherzinha pra  mim. Tentei ler, parei e não tentarei de novo.

Pode ser que isso seja comum. Que eu esteja dentro da norma. Que a maioria dos homens que leem leiam principalmente outros homens, e igual com mulher. Nunca ouvi falar de nada parecido, mas não me parece absurdo. De qualquer forma, fazer ou não parte da maioria  não é prova de nada. Nem explicação de porque eu sou assim. Jornalista, simplesmente reporto o fato: não leio livro escrito por mulher.

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Publicado em 16/08/2014 às 00:30

Quanto mais muda, mais continua a mesma coisa: Arnaldo Jabor, 1997

Arnaldo VALERIA GONCALVEZ eSTADAO CONTEUDO Quanto mais muda, mais continua a mesma coisa: Arnaldo Jabor, 1997

Uma das tundas mais satisfatórias que dei em alguém. Escrevi para a revista Caros Amigos. Não adiantou nada. Jabor foi ficando cada vez mais famoso e rico e popular, inclusive como autor, e cada vez mais conservador, o que é de desanimar até um otimista persistente como eu. Pelo menos desopilou o fígado.

JABOR ALÉM DOS LIMITES

Que alguém leve a sério o que essa gente diz me envergonha, entristece e irrita

Regra nº 28 para viver melhor: evite coisas que você sabe que vão te irritar. Tento seguir. Não leio, por exemplo, Arnaldo Jabor.

Pessoalmente, o sujeito é simpaticão. Tem aquele jeitão à vontade Rio anos 60. Fomos apresentados na redação da Folha, quando eu trabalhava no Folhateen, 1991. Ainda não era personalidade de tevê, só diretor de cinema e uma das apostas da Folha para substituir Paulo Francis.

Jabor leu um texto meu sobre o dr. Hunter S. Thompson, jornalista gonzo e cowboy fora-da-lei. Diz que parece uma figura interessante, está indo para Los Angeles e queria aproveitar para entrevistar o cara. Explico: Hunter mora num rancho isolado perto de Aspen, longinho de L.A.; dá entrevistas em anos bissextos, quase só para velhos companheiros de birita e detonação – é mais fácil uma exclusiva com o papa.

Jabor insiste. Sugiro contato com a editora americana ou a Rolling Stone, onde HST sempre escreveu. Não sei se ele tentou o contato. Sei que a entrevista não saiu.

Pego esta semana uma nova revista de literatura chamada Cult e, adivinha, lá está Jabor citando como grandes influências (depois de Eça de Queirós, João Cabral de Melo Neto, Nélson Rodrigues e americanos tipo Faulkner e Steinbeck) “alguns autores menores, como Norman Mailer… e Hunter Thompson, um dos autores do new journalism”.

Tem de ser muito cabotino para chamar Mailer de autor menor e muito cara-de-pau para citar Hunter Thompson assim como quem não quer nada. Você acreditaria que Jabor leu Thompson desde que fomos apresentados? Você acredita que o Brasil é o país do futuro?

Na mesma entrevista, Arnaldo Jabor explica: “Apesar das loucuras dele, o Francis foi um jornalista muito importante… Francis escreveu um artigo de autocrítica fundamental sobre o fracasso do pensamento delirante da chamada esquerda brasileira. Ele criou uma loucura dentro desse pensamento que depois o Glauber aprofunda em Terra em Transe e que o Caetano aprofunda com o tropicalismo”.

Escuta aqui, cinema não aprofunda artigo de ninguém, e Caetano Veloso só aprofunda meu constrangimento de viver neste país. O Francis morreu enfrentando um processo de 100 milhões de dólares do mesmo governo que o Jabor vive defendendo.
Mais, o Francis apoiou o FHC para presidente e meses depois estava malhando o governo dele. Jabor, como Gilberto Gil, Sônia Braga e outra gente do mesmo calibre, leva esse negócio de comer na mesa dos poderosos a sério: foram até jantar com Clinton e o Totoso, não?

E os press-releases do consenso tucano-classe-média que Jabor divulga na Globo? Com a palavra, o diretor da mais longa propaganda de vodca da história, Eu Sei que Vou te Amar: “É estranho que até hoje ninguém tenha falado na imprensa sobre o que estou fazendo no Jornal Nacional. É uma forma de arte conceitual e ninguém se tocou disso”.

Pretensão sem limites, oportunismo disfarçado de modernidade, subintelectuais ditando as regras. É o tom da vida pública no Brasil 97. Que alguém leve a sério o que essa gente diz me envergonha, entristece e irrita.

Pior, me sinto meio trouxa de gastar espaço com assunto tão inútil.

Porque sei que neste planeta e neste país existe vida inteligente. Gente de verdade com sangue nas veias, gente que precisa ser conhecida, que merece muito mais ocupar estas linhas.

Mas certas coisas indigestas precisam ser vomitadas. E isso, você sabe, é uma daquelas que só se fazem entre caros amigos.

(Caros Amigos, 1997)

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Publicado em 14/08/2014 às 18:43

O supernovo e o superpopular: os R$ 4 milhões para Luan Santana, a Lei Rouanet, o Vale-Cultura, e a diferença entre dinheiro público e privado

1fev2014 luan santana no festival de verao de salvador 1391305168915 1920x1080 O supernovo e o superpopular: os R$ 4 milhões para Luan Santana, a Lei Rouanet, o Vale Cultura, e a diferença entre dinheiro público e privado

Existem duas maneiras úteis de o dinheiro público se envolver com arte: sustentando o supernovo e levando o superpopular aos pobres. É bom uso do Tesouro Nacional apoiar a produção e a circulação de tudo o que é criação intransigente e inédita. Seja nova ou antiga, brasileira ou não. Contanto que o orçamento seja baixo e que não haja hipótese de patrocínio corporativo.

A maioria dos brasileiros não pode pagar R$ 200 por um show ou R$ 50 por um livro. Deveríamos todos poder votar com o bolso. O projeto do vale-cultura merece críticas, mas seria melhor do que nada, que é o que temos hoje.

Tudo o que está entre o supernovo e o superpopular deveria ser julgado caso a caso. Portanto, não pode ser transformado em política pública. Não em um país tão permeável às ações entre amigos.

Mudanças nas leis de incentivo ou na política de patrocínios da Petrobras e toda a cultura do país capotam. Cinema: a regra da "retomada" são produções de R$ 5 milhões que não recuperam um décimo dos recursos captados via leis de incentivo.

Teatro: a maior parte dos patrocínios vai para montagens de terceira com atores de novela -hits da Broadway etc. Música: idem, com requintes como o ministro da Cultura se beneficiar de renúncia fiscal -Gilberto Gil levou em 2009 R$ 445 mil do nosso dinheiro.

É excesso de zelo, portanto, eleger festivais goianos exemplo de lambança. Qual o problema de jovens músicos correrem atrás do seu? Não é a história deste país, todos se achegando para perto do cofre? Perto do rio de dinheiro público que escoa sem fim para megabancos e megafusões, apoiar roqueiros interioranos é um pinguinho no oceano.

"Se Gil pode, por que não eu?", se pergunta a nova cena musical brasileira, o que prova que ela só é nova na idade de seus participantes.
Moeda alternativa, distribuição digital, cooperativas. Sim, quem quer viver de música tem de dar seus pulinhos. Mas o que interessa é grana grossa, governo, empresa grande. Da tropicália ao mangue beat a hoje, todo mundo adere tão rápido quanto possível. Doidão, sim, anarquia, já, mas só louco rasga dinheiro.
A vida, é fato, anda dura. Irving Azoff, empresário de Eagles, Guns N'Roses e hoje CEO da LiveNation, diz que só 6% da receita dos grandes artistas americanos vêm de música gravada. O resto é show, merchandising, patrocínio. Imagine no Brasil.

Arte provocativa já foi criada por gente com contas a pagar. Compromisso zero com o mercado gerou muito lixo para engrupir crítico/acadêmico. Arte não tem regras, mas vida de artista tem. A função da arte não é dar o que o povo quer -é revelar o que ele quer.
Já o artista quer ser bem amado e bem pago. Quem se importa de onde vem a grana?

(escrevi esse texto em 2010, para a Folha, sobre o título "Artista quer ser bem amado e bem pago". Lembrei por causa de uma mini-polêmica com a aprovação de R$ 4,1 milhões na Lei Rouanet, para Luan Santana captar essa grana para uma turnê. Ué, se todos podem, porque ele não? Porque é sertanejo. O certo era acabar com a Lei Rouanet, pra ontem. De 2010 para cá pouco mudou, fora a aprovação do Vale Cultura, que não é grande coisa mas é um passo na direção certa. Abaixo, trecho de um texto deste blog, de 2009, defendendo o Vale Cultura...)

O projeto de Lei cria um Vale-Cultura no valor de R$ 50,00 mensais para quem recebe até cinco salários mínimos. Uns 14 milhões de trabalhadores serão beneficiados. O que você não gastar em um mês, acumula para o mês seguinte.

Será um cartão magnético. É uma mistura de Bolsa Família com Vale Refeição. A grana terá que ser gasta necessariamente na compra de produtos ou eventos culturais - cinema, teatro, shows, livros, CDs, DVDs etc.

Tem lá vários detalhes que podem e devem ser debatidos e melhorados. Mas o princípio é excelente.

Vivemos no capitalismo e aqui a missão do dinheiro privado é se multiplicar. A missão do dinheiro público é beneficiar o público. Quase nada é tão benéfico quanto dinheiro no bolso.

Naturalmente, vai ter crítico descendo o malho. Esse povão burro, vai gastar tudo em CD do Victor & Leo, show de forró e livro do Augusto Cury.

Que seja. Qual o problema? Alguém vai me provar que o novo disco do Caetano Veloso é culturalmente mais importante do que o da banda Calypso?

caetano Fernando Young O supernovo e o superpopular: os R$ 4 milhões para Luan Santana, a Lei Rouanet, o Vale Cultura, e a diferença entre dinheiro público e privado

A função do produto cultural não é educar, engrandecer, iluminar. Se fizer tudo isso, ótimo, mas o valor do produto cultural está em entreter. E já não é pouca coisa.

É claro que o contato com a cultura areja o espírito e o pensamento. Fundamental, visto que os impérios do futuro são os impérios da mente - opa, tirei o dia para tirar a poeira do meu livro de citações de Churchill.

Eu acho muito melhor dar o dinheiro direto na mão do peão lá que esse monte de leis de incentivo que só incentivam a produção comercial direcionada à classe média alta. Que  tem dinheiro próprio para ver os shows ruins que quiser.

Os números do Ministério da Cultura e do IBGE são assustadores. Li no jornal Metro de hoje:

- 86% dos brasileiros não vão ao cinema
- 1,8 é a média de livros lidos por ano
- 73% dos livros estão nas mãos de 16% da população
- 90% dos municípios do país não têm pelo menos um destes itens: cinema, teatro, museu ou espaços culturais multiuso.

Qualquer coisa que ajude a mudar isso tem meu apoio. Na esfera da cultura, dinheiro público deve ir:

a) diretamente para sustentar a produção de arte mais impopular, herética, experimental e estapafúrdia

b) para o bolso de quem mais precisa.

E fim.

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