Publicado em 22/09/2017 às 12:50

Minha primavera negra e colorida

earth wind fire playlist JACK FM vancouver 1 1024x575 Minha primavera negra e colorida
Em Piracicaba não existem estações. É quente o ano inteiro. Minha infância foi assim, sem blusa. De junho a agosto cai um pouquinho a temperatura, só pra dizer. Não era problema.
Eu gostava de junho, porque tem São João e as férias estavam ali na bica. De julho, claro, porque eram férias, e as férias de julho duravam anos quando eu tinha doze anos. E de agosto, porque é meu aniversário.
Mas eu também gostava especialmente de setembro, porque o frio ia embora de vez, as flores se abriam, as férias ficavam definitivamente para trás, e o cheiro da queimada de cana deixava nossas narinas.
Quando eu era criança, música internacional era música negra. Não tocava rock na televisão ou no rádio, raríssimas exceções. As trilhas de novela eram funk, disco, baladas, um ou outro Elton John.
Meu primeiro LP foi trilha de rádio, Excelsior, a Máquina do Som. Porque eu comecei a gostar de Beatles? Não sei.
Quando eu comecei a deixar de ser criança e fui nas primeiras festinhas e na discoteca do clube Coronel Barbosa, era som de negro. Passinhos ensaiados, os mais velhos tomando menta com gelo e dando uns beijinhos, a gente só espiando no canto, camiseta Lightning Bolt, calça Lee, o globo espelhado rodando.
De todas as músicas boas daquele ano, eu tinha uma preferida. Que representava perfeitamente tudo isso - a chegada da nova vida, da Primavera. Eu vi eles cantando na TV, que coisa alucinada, e feliz, feliz.
Eu tinha feito Yázigi e peguei o refrão, "do you remember dancing in September? Never was a cloudy day." Isso mesmo, pensei, here comes the sun. Eu não sabia que a Primavera no hemisfério norte começa em março.
Hoje o mundo está ensolarado, céu muito azul aqui na janela da cozinha, e, juro, um passarinho cantou bonito quando eu estava exatamente no meio de escrever esta frase.
Acordei cantando aquela música, tão negra, tão colorida. Porque é primavera. Porque é Setembro.

http://r7.com/DnVO

Publicado em 21/09/2017 às 15:52

O música mais louca, mais crítica, mais assustadora do The Who

o THE WHO 1971 facebook 1024x672 O música mais louca, mais crítica, mais assustadora do The Who

Roger Daltrey e Pete Townshend, 1971

"Won´t Get Fooled Again" talvez não seja a melhor música do The Who. Mas tem a história mais louca. Tem a melhor letra da banda. E o grito mais apavorante do rock. OK, é a melhor música do The Who. Porque outra razão seria a música que quase sempre fecha os shows deles?
Era 1970, todo mundo tomando altas drogas, toda a juventude metida com espiritualidade e política, e Pete Townshend teve uma iluminação. Andava lendo muito sobre sufismo, o ramo do islamismo que advoga a conexão direta com o divino através da música e da dança. Seu livro favorito era O Misticismo do Som e da Música, do líder sufista Inayat Khan, que pregava que para a humanidade encontrar a harmonia espiritual, deveria procurar um acorde universal.
Por sorte felizmente tinha sido inventado recentemente um instrumento perfeito para isso: o sintetizador. Townshend saiu entrevistando pessoas que, para ele, tinham algo a dizer. Gravou as batidas de seus corações e seus eletroencefalogramas. Converteu tudo em sinais de áudio. Brincou bastante com o material, filtrando através de diversos sintetizadores, modificando timbres e sonoridades. Isso tudo foi parar na gravação de "Won´t Get Fooled Again". Foi uma das primeiras vezes que um sintetizador foi integrado no rock.
A letra prefigura o punk rock. É acre em sua descrença de soluções políticas fáceis e definitivas, nas certezas de sua dúvida. "Pego a minha guitarra e toco, como fiz ontem, me ajoelho e peço - que a gente não seja enganado de novo." Mas seremos, seremos, Pete lamenta. "Conheça o novo chefe, igual ao velho chefe..." Não traduzo, o original está abaixo, e não há letra mais crítica na história do rock.
A música, sintetizador "espiritualizado" à parte, tem aquele indefinível quê de soul music que as melhores músicas do The Who tem. Quando eles começaram, ouviam muita música negra. Talvez seja por isso que quando ouço alguns de seus maiores hinos, sempre imagino Tina Turner cantando...
Mas nem Tina seria capaz de dar um berro de gelar a alma, de derreter o coração, como Roger Daltrey dá no final de "Won´t Get Fooled Again." É um grito primal de frustração com nossa pobre natureza humana? De revolta impossível de conter? De guerra?
Vou me perguntar de novo hoje, quando ouvirei pela milionésima vez, pela primeira vez ao vivo. É melhor envelhecer do que morrer jovem...

We'll be fighting in the streets
With our children at our feet
And the morals that they worship will be gone
And the men who spurred us on
Sit in judgment of all wrong
They decide and the shotgun sings the song

I'll tip my hat to the new constitution
Take a bow for the new revolution
Smile and grin at the change all around
Pick up my guitar and play
Just like yesterday
Then I'll get on my knees and pray
We don't get fooled again

The change, it had to come
We knew it all along
We were liberated from the fold, that's all
And the world looks just the same
And history ain't changed
'Cause the banners, they are flown in the next war

I'll tip my hat to the new constitution
Take a bow for the new revolution
Smile and grin at the change all around
Pick up my guitar and play
Just like yesterday
Then I'll get on my knees and pray
We don't get fooled again .

No, no! I'll move myself and my family aside
If we happen to be left half alive
I'll get all my papers and smile at the sky
Though I know that the hypnotized never lie
Do ya?
There's nothing in the streets
Looks any different to me
And the slogans are replaced, by-the-bye
And the parting on the left
Are now parting on the right
And the beards have all grown longer overnight

I'll tip my hat to the new constitution
Take a bow for the new revolution
Smile and grin at the change all around
Pick up my guitar and play
Just like yesterday
Then I'll get on my knees
And pray We don't get fooled again
Don't get fooled again no, no!

Meet the new boss
Same as the old boss

http://r7.com/XYOm

Publicado em 19/09/2017 às 18:10

Bon Jovi: um mestre na arte de cuidar da própria vida

jon bon jovi Bon Jovi: um mestre na arte de cuidar da própria vida

John Francis Bongiovi Jr. está de volta ao Brasil, e para um pai de quatro filhos com 55 anos, looking fucking good. Eu também estaria rebolando feliz se tivesse vendido 130 milhões de álbuns. Talvez sem a mesma ginga e sex-appeal, claro, mas me esforçando paca.
Se você é fã, já comprou seu ingresso para os shows faz tempo. E os (e principalmente as) fãs do Bon Jovi sempre dão um jeito de arrumar dinheiro para ver Jon ao vivo, de novo, de novo. Se você não é fã, mesmo assim tem que aceitar que ninguém faz hinos genéricos, tronitruantes, assobiáveis, all-american melhor que o Bon Jovi.
Umas eles acertam na mosca - Wanted Dead or Alive, Living on a Prayer, It's My Life. Outras nem tanto. As melhores estão lá atrás. É assim na carreira de todo mundo. A última razoável foi "We Weren´t Born to Follow", lá no distante 2009.
O vídeo tinha um monte de heróis americanos, ou pelo menos heróis para um garoto italiano, durango e Democrata de Nova Jersey - Martin Luther King, Al Gore, Bobby Kennedy, astronautas. E Obama, que Jon apoiou. Na última eleição, Hillary.
No universo do Bon Jovi, ser um cara comum é ser a melhor coisa do mundo, o sal da terra, o herói, o protagonista. A banda vende melhor que ninguém o sonho americano: a vida é difícil, mas na terra da liberdade, qualquer um pode conseguir realizar muita coisa. Basta trabalhar duro, ser justo e leal com seus amigos.
O que é verdade, naturalmente; e a prova indiscutível é o próprio Jon saracoteando sorridente no palco na sua frente, não está vendo?
É um ideário que seria country e republicano se não fosse suburbano e liberal. A operação conceitual é interessantíssima. O Bon Jovi existe em um ponto imaginário equidistante de Los Angeles, Memphis e New Jersey. Entre, sei lá, Poison, Elvis e Bruce Springsteen. Nunca fui exatamente fã de Bon Jovi, mas sempre simpatizei e cada vez mais. Piracicabano que vira paulistano tem dessas coisas.
Quando entrei na Folha, 88, era cabeludo e tinha gente que achava que eu era headbanger. Vai ver não diferenciavam minhas camisetas do Joy Division e Dead Kennedys de camisetas do Iron Maiden. Minha primeira capa da Ilustrada foi sobre, adivinha, a então mais recente dentição metaleira, o hard rock de laquê e batom de gente como Motley Crue, Guns N'Roses e... Bon Jovi.
Todos esses caras viraram covers deles mesmos. Jon virou outra coisa. Elvis é a referência mais na cara. Claro que a vida do comportado Jon não tem nada a ver com o doidão Elvis. Aliás, Jon já viveu hoje doze mais que Elvis. Mas ninguém há de negar que mesmo sendo um garoto de cidade, Jon engana bem de cowboy do asfalto.
Bon Jovi, como Presley, domina a arte de ser famosíssimo e manter aquele equilíbrio entre ser inatingível e acessível. Queridíssimo entre as mulheres e “one of the guys” para os homens.
O som? É hard rock superproduzido; é caipira de coração; é o hino que embala sonhos, desilusões e festerê do povão. É, mais ou menos, Victor & Leo. Ouço ecos de Bon Jovi constantemente nesses hinos sertanejos de estádio.
Parte importante da lenda que suportava o Bon Jovi é a da gangue de amigos inseparáveis e superleais, Jon à frente, Richie Sambora como seu fiel escudeiro. Richie está fora da banda há anos, mas só os fãs muito radicais ainda se importam.
O Bon Jovi segue fazendo shows emocionantes e lotando estádios nos cinco continentes. Maratonas só comparáveis às dos Stones e U2, mas mais íntimas e espontâneas. Como, digamos... Bruce Springsteen, de novo.
Jon é tão perfeito que parece de mentira. É mentira mesmo, como todo popstar, mas deve ter seu fundo de verdade, porque nunca pegaram ele de calça curta. Minha teoria: disciplina e tino comercial.
Jon é filho de dois ex-Marines, fuzileiros navais americanos. Ele, John, ela Carol, ex-coelhinha da Playboy. Das que serviam mesas no Club Playboy no final dos anos 50, não das que saíram peladas na revista.
Infância linha dura, pouca grana mas sem miséria. Jon era bonitinho, moleque. Se fez bonitão: plásticas, musculação, jaquetas nos dentes, tratamentos diversos - é só olhar a pele dele com 23 anos e hoje. Sua beleza veio exatamente de onde vêm os visuais de estrelas de cinema, e não é da barriga da mamãe, ainda que DNA ajude bem.
Para completar, Jon tem um legendário “casamento perfeito” e discreto, com sua namorada de colegial, Dorothea. Bonitona ela, mas sem visual de superstar.
Jon cresceu querendo ser um rockstar, e foi rápido. Depois queria ser um menestrel respeitável, como Bruce Springsteen, e não foi. Agora parece que está mais confortável. É facílimo prever os próximos anos do Bon Jovi. Mais discos iguais aos de sempre, mais turnês lotadas, mais sucesso, mais dinheiro e nenhum escândalo à vista.
Não está nada na moda gostar de Springsteen e Bon Jovi. Bem, tenho quase a idade de Jon, e não estou dando a mínima para o que está na moda. O tempo passa, para o bem e o mal. Também me sinto cada vez mais confortável. Ganhamos de presente a vida, para cada um cuidar da sua. Cada vez fica mais claro que, como canta Jon Bon Jovi (e Bruce!), it´s my life...

http://r7.com/rMUZ

Publicado em 19/09/2017 às 17:14

Quem tem cachorro deve pagar IPTU em dobro

Barking Puppy 1024x576 Quem tem cachorro deve pagar IPTU em dobro
Tenho uma certa tentação de enquadrar meus novos vizinhos no Artigo 42 da Lei das Contravenções Penais. A lei federal trata de som alto. Diz que é crime "perturbar alguém, o trabalho ou o sossego alheios com: gritaria ou algazarra; exercendo profissão incômoda ou ruidosa, em desacordo com as prescrições legais; abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos; provocando ou não procurando impedir barulho produzido por animal de que tem a guarda".
Meus novos vizinhos certamente são muito gente fina. Mas como muita gente fina por aí, eles têm cachorros muito barulhentos. Os desgraçados dos bichos latem ardido. E latem qualquer hora. Me acordam noite sim, noite não. Vai ver eles estão estranhando a casa nova. Não é problema meu.
A verdade que não quer calar é que cidade não é lugar pra cachorro. Nesse milhares de anos de convivência, o ser humano viveu quase sempre no campo, e os cachorros também.
Nos últimos cem anos, e mais ainda nas últimas décadas, nós humanos mudamos em massa para cidades. Socamos os cachorros em casas e até apartamentos. Desconfio que a maioria dos cachorros não gostam, tirando mini-espécies tipo poodle. Cachorro é um bicho que gosta de se espalhar. Morar trancado é uma cadeia para eles, afinal.
Evidentemente os donos não têm como controlar os latidos de seus cachorros de madrugada. Só se derem uns soníferos pra bicharada. Justamente por isso é que cidade não devia ter cachorro. Gato tudo bem, gato é silencioso. No máximo dá uns gritinhos quando está transando.
Veja, nem todo cachorro é barulhento. A casa desses meus vizinhos fica a uns 50 metros da minha. A casa ao lado da minha tem um cachorrão velho, o Paco. Também dá umas latidas, mas poucas, e grossas. Incomoda, mas pouco. É aturável.
A questão é que a maioria dos cachorros das nossas cidades são super barulhentos. Porque nesse país há uma justificável paranóia de segurança, e se criou essa teoria furada que cachorro é importante para proteger a casa de ladrão. Quem inventou isso?
A indústria de alimento pra cachorros? Deve ser, porque os ladrões no Brasil usam faz bastante tempo um negócio chamado revólver. Sei que você, dono de cachorro, tem certeza que seu cãozinho é super especial, mas à prova de bala não deve ser.
Como essa lei federal é meio drástica para usar contra vizinhos, fui dar uma pesquisada na Lei do Silêncio paulistana, que só prevê multa. Mas infelizmente o Programa do Silêncio Urbano (PSIU) não permite vistoria em casa, apartamento e condomínio. Só lugares públicos, bar, boate, salão de festa, templo, empresa. A Lei do Silêncio é inútil pra cachorro.
Como as cidades já estão cheias de cachorros, e brasileiro adora cachorro, minha proposta modesta para minimizar o estrago sonoro feito por eles é que as casas que têm cachorro barulhento paguem IPTU em dobro. Vamos contratar uns fiscais pra medir quantos decibéis a cada cachorro emite a cada latido. Vai gerar empregos!
E o dinheiro arrecadado vai pra financiar vidraças à prova de som nas casas dos vizinhos. Quer ter cachorro barulhento, pague por isso.

http://r7.com/41_H

Publicado em 15/09/2017 às 14:58

O adeus da Cassini e a mensagem que nos chega do Cosmos

terra cassini 01 O adeus da Cassini e a mensagem que nos chega do Cosmos
A Cassini, sonda espacial que investigou Saturno, fez hoje seu último mergulho em direção ao planeta. "Cassini é agora parte do planeta que estudou", tuitou a Nasa quando recebeu o último sinal emitido pela sonda. "Obrigado pela Ciência."
Depois de vinte anos e um investimento de US$ 3 bilhões, a missão juntou uma enormidade de dados importantes sobre o sexto planeta do Sistema Solar.
Mas também cumpriu uma outra missão. Talvez ainda mais valiosa. Foi tirar essa foto que você vê acima.
Está vendo aquele pontinho branco, embaixo, à direita?
Somos nós. É a Terra, vista de Saturno.
Dá um arrepio.
Quando vi a foto, lembrei instantaneamente de um trecho do livro "Pálido Ponto Azul", do astrônomo Carl Sagan.

"É nosso lar. Somos nós. Neste pontinho estão todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu.
A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada superstar, cada líder suprem”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam.
Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto.
Nossas atitudes, nossa imaginária auto-importancia, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.
Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não ha nenhum indicio que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nos mesmos.
A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar...
Talvez não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem, tão distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos… o pálido ponto azul."

Carl Sagan não viu os imensos benefícios e imensos desafios da nova comunidade global. Não viu a revolução digital. Morreu antes da ciência compreender a mudança climática causada pelo capitalismo fóssil, que precisamos e vamos derrotar. Mas sabia a coisa mais importante que uma pessoa pode saber.
Você pode olhar a foto acima, e pensar que somos insignificantes, quase nada. Carl Sagan nos via de maneira muito diferente. Somos um pedacinho minúsculo do universo, dizia, mas somos o pedacinho do universo que sabe que o universo existe. Que tenta compreendê-lo. E até mudá-lo - para melhor.
A Terra é só um pontinho flutuando no espaço. Mas pode ser um pontinho brilhante. Depende de nós. Essa é a mensagem da Cassini, de Sagan, minha - do Cosmos.
.

http://r7.com/jfOp

Publicado em 14/09/2017 às 16:47

Lady Gaga não faz falta nenhuma no Rock in Rio

lady gaga 1024x576 Lady Gaga não faz falta nenhuma no Rock in Rio

Lady Gaga já era. Foi o maior sucesso de 2009, quase uma década atrás. Em música pop é um século. Só fãs fundamentalistas sentirão sua falta no Rock in Rio. Quem ainda se importa com Lady Gaga?
Stefani Joanne Germanotta decolou assinando um contrato 360 graus com sua gravadora, a Interscope. Isso significa que a gravadora recebe dinheiro em cada coisinha que ela faz, não só as canções.
A Interscope recebe uma parte da receita dos shows, dos patrocínios (da indústria de cosméticos e todos os outros patrocinadores da moça). Mais que isso: a Interscope vai atrás de desenvolver negócios para a marca “Lady Gaga”.
Com um contrato como esse na mão, naturalmente a gravadora investiu muito em Lady Gaga. Verba de marketing mesmo, à moda antiga. Grandes orçamentos para roupas, para shows rocambolescos, para videoclipes gongóricos.
Os investimentos começam na música, claro. Já os primeiros hits de Gaga, Just Dance e Poker Face, foram coescritos e coproduzidos pela cantora com o sueco-marroquino RedOne. Mais um desses gênios escandinavos do pop pegajoso, com Shakira e cia. no currículo. Até hoje é um dos produtores de seus discos.
Gaga estreou menos genérica que a concorrência. A estratégia da Interscope foi aguar o Electro-Pop, a trilha sonora dos primeiros anos do milênio. Gaga era eletrônica-roqueira, andrógina-irônica como Scissor Sisters, Fischerspooner e Princess Superstar.
Parecia ambiciosa e se vendia como a primeira estrela de uma nova era. Talvez fosse, no máximo, a última superstar concebida no velho mundo das gravadoras gigantescas e da mídia de massa.
O ponto é que muita gente podia ser Lady Gaga. Com um contrato 360 e um investimento deste tamanho, qualquer moça com uma boa voz, um corpinho OK e cara de pau podia ser Lady Gaga.
Ela cita Rilke e Bowie? Dá boas entrevistas? Se refere a si mesma na terceira pessoa? Adula os gays? Anda com papas fashion? Arrota conexões underground? Quem viu a transformação de outra carcamaninha ambiciosa em superestrela, 25 anos atrás, pode prever cada passo de Gaga.
Até sua tentativa de reinvenção como cantora "de verdade", em duetos com Tony Bennett, e pessoa "de verdade", com o àlbum "Joanne". E até o previsível fracasso comercial e crítico dessa tentativa.
Gaga, como Madonna, quer fama e fortuna, mas também prestígio. Quer ser respeitada pelo seu conteúdo. Síndrome de Marilyn Monroe, ô, dó. Como Madonna, está fadada a ser cover de sua versão jovem para sempre, até o lar dos velhinhos.
Uns anos atrás, Lady Gaga lançou um disco chamado ArtPop. Mas Arte é trabalho para quem tem algo de importante a dizer, e diz de maneira que nos toca e desafia. Arte é pessoal, imprecisa, imperfeita, e não sai de linha de montagem, nem do esforço desesperado por aplausos.
Lady Gaga, pobrezinha, nunca foi arte e nunca será. E agora também não é pop, porque cada vez menos popular. É só mais um dinossauro se arrastando pelos estádios do mundo. Sua ausência no Rock in Rio preenche uma lacuna.

http://r7.com/Chsb

Publicado em 13/09/2017 às 15:01

É melhor viver do que morrer jovem: memórias do Rock in Rio, 1985

freddie mercury rock in rio 1985 É melhor viver do que morrer jovem: memórias do Rock in Rio, 1985

Eu tinha 19 anos e estava sozinho no ônibus Copacabana-Cidade do Rock, com o coração na boca. Meu primeiro dia no Rio de Janeiro. Meu primeiro dia de Rock In Rio.
Já morava sozinho em São Paulo há dois anos, mas tive que pedir aprovação para os meus pais mesmo assim. Eu não tinha grana para ir, só estudava. Não encrencaram, ajudaram. Descolaram até um lugar para eu ficar hospedado.
Moleza total. Noite no barrão do festival, dia num mega-apê lotado de obras de arte e livros louquíssimos do Umberto, meu primo cardiologista society, marchand, descoladésimo, que mal vi enquanto estava lá. Se foi antes da hora, como outros que me ajudaram.
Umberto trabalhava e badalava como um louco, jantava fora todo dia. A geladeira dele só tinha guaraná e iogurte de morango. Vivi de sanduba na rua meus dias de Rock In Rio. E salada de frango do Bob's e Malt 90 de noite.
O engraçado é que eu não armei a viagem com ninguém, mesmo sabendo de alguns conhecidos que iam. Não lembro por que foi assim. Encontrei lá, que eu me lembre, dois colegas de colegial, Paulo Cabral - colega jornalista - e Viviane Zveiter, minha amiga de infância. Foi a última vez que vi Viviane - quer dizer, até 2008, aniversário de 25 anos de formatura do colegial. Ela estava igualzinha. Eu, 25 quilos mais pesado. Hope I die before I get old, indeed...
A ironia é que em 85 meu negócio era punk e new wave fazia séculos, e eu estava me sentindo um pouco traído com New Wave ter virado gel com glitter para cabelo. Que ondinha é essa de B-52's, Legal Tender? Eu era fã dos caras desde 1980!
Fiquei mais chateado ainda porque os artistas que eu mais gostava, o próprio B-52's, Go-Go's, Nina Hagen e tal, fizeram umas porcarias de show. Os brasileirinhos, coitados, mal a gente escutava, Paralamas, Kid Abelha, Blitz. O Rock In Rio foi dos dinossauros: Queen, AC/DC, Whitesnake, Yes, Iron Maiden.
Eles é que sabiam tocar em descampados com uma acústica de pesadelo. Fui lá pra implicar com a velharada. Não era e nunca fui metaleiro. Mas tive que me render. Me converti ao AC/DC, que achava coisa pra jacu, lá mesmo. Até hoje cravo sem dúvida nenhuma: o melhor show do festival foi o Queen. Só estando lá para ver. Outro que aquela maldita praga levou, Freddie Mercury.
O Rock In Rio, de uma maneira esquisita, foi o Woodstock do Brasil: rock, amor e lama, um divisor de águas geracional. Não tínhamos voto direto para presidente, mas pelo menos a gente estava livre dos generais. Chega de mau humor. Chega de tromba. Chega de patrulha ideológica. Chega de Fagner, Gonzaguinha, Simone, chororô. Let's rock!
Não arrumei uma namorada lá, mas tentei bastante. Me atolei no gramado e nos lagos de esgoto que se formavam nos banheiros. Meus tênis viraram blocos de barro. Voltei do Rio de havaianas (com meia! estava frio!), cheguei uma da matina. Dormi na rodoviária de SP, para pegar o primeiro ônibus para Piracicaba sete da manhã. Eu tinha me transformado em outro cara.
Foi bom, tudo foi lindo, foi uma aventura. Sem risco, mas para minha parca experiência da época, uma aventura mesmo assim. Perto das maluquices que conhecidos fizeram, tive um festival de playboy total. O mano Paulo César Martin, o Paulão, do Garagem, fritou o braço com o óleo da batata frita e foi enfaixado ver o Ozzy!
O Rock In Rio teve consequências diretas na minha vida. Porque durante o festival, foi realizada uma pesquisa com o público sobre a viabilidade de uma revista sobre rock no Brasil. Em termos de leitores, de anunciantes e tal.
Foi com base nesses resultados que ela foi lançada no Brasil alguns meses depois: Bizz. Ideia de executivos e jornalistas roqueiros, que xavecaram os chefões na Abril. Hei, Carlos Arruda, aquele abraço!
Seis anos depois, eu era editor da Bizz, cabeludo, e passei o Rock In Rio 2 inteiro instalado numa suíte do Copacabana Palace. Dormia de dia, dividia a piscina com o George Michael à tarde, enfiava o pé na jaca noite adentro, nos shows, nas salas Vip das gravadoras e num after que não acabava nunca. Meus dias de rockstar. Dava autógrafo na rua, juro.
Em 2001, voltei for fun, com grandes amigos, para um final de semana regado a REM e Guns N'Roses. Fiquei feliz de ter ido. E nunca mais voltei.
Agora tem outro Rock In Rio. E parece menos legal do que o meu primeiro, porque não tem bandas com cheiro de novidade. Isso ficou para outros festivais, grandes como o Lollapalloza, do tamanho certo como o Popload. Mas também parece mais legal, porque tem eventos paralelos sensacionais, como o GameXP, uma espécie de filial da Comic Con Experience no meio do Rock in Rio, recheada de jogatina, gibi e companhia.
Duvido que voltarei um dia ao Rock in Rio. Festival requer energia jovem. Só se for com meu moleque, que começa a gostar de rock, e rock velho. O ingresso para o Deep Purple, aliás, já está comprado.
Anotem aí, jovenzinhos: hope you get old before you die. Te vejo no show do The Who em São Paulo...

the who founding members roger daltrey and pete townshend 825x524 É melhor viver do que morrer jovem: memórias do Rock in Rio, 1985

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Publicado em 12/09/2017 às 09:01

O novo iPhone e a eterna lição de Steve Jobs

apple iphone8 launch 21 O novo iPhone e a eterna lição de Steve Jobs

Em uma matéria de capa da revista Fortune em 1998, Steve Jobs abriu o jogo sobre seus planos para a Apple: "a referência é a Sony". Ele queria fazer de sua marca de computadores uma referência de qualidade e inovação inquestionáveis, como a empresa japonesa conquistou nos eletrônicos de consumo - TV, som, Walkman.
Já tive milhares de revistas em casa. Joguei fora 95% quando parei de editar revistas. Essa é uma das poucas que guardei. Tem um significado especial para mim. Aprendi muito com Steve, como muitos de nós. No meu caso, a ficha demorou um pouco para cair.
Steve conseguiu ser "a Sony dos computadores" e mais. Anos após sua morte, a Apple segue a empresa mais valiosa do mundo. Cada novo lançamento é cercado de suspense. Agora é o caso dos novos iPhones 8 e X (agora sem cabinho para carregar, sem botãozinho de home, com tela Oled etc.). E das versões melhoradas do Apple Watch, AppleTV e tal.
Tudo bacana e compraremos, os sortudos entre nós que puderem pagar por isso. Mas a Apple não "inova" faz tempo, no sentido habitual que o setor de tecnologia dá à palavra inovar. Tem os mesmos produtos de sempre: computador de mesa e laptop em duas versões, para a casa e o escritório; ipad idem; o iPhone novo e o modelo anterior. É pouco, quase nada. É tudo que importa. O sistema operacional, softwares e serviços são para vender os aparelhos, que é de onde vem a grana.
A empresa continua tirando a maior parte de sua receita e lucros do iPhone, que já tem dez anos, e não mudou conceitualmente desde seu lançamento. É mais potente, tela mais bonita, câmera melhor. É a diferença entre um carro do século 20 e o modelo do ano: pouca.
O destino da Apple em 2017 estava claro naquela longíqua entrevista de Jobs. Que foi um jovem encantado com a cultura oriental, com o zen-budismo e com o Japão. A Sony é a mais americana das empresas japonesas. E a Apple é a mais japonesa das empresas americanas.
Os japoneses adoram novidade, mas veneram a permanência. Sem contradição nem angústia. Em nenhum lugar o moderno e o eterno convivem com tanta harmonia.
Se for para resumir a atitude japonesa com relação à criação - seja de uma empresa, uma faca de cozinha, uma obra de arte ou um telefone celular - dá para reduzir a esta essência:
- Faça pouco
- Faça muito bem
- Seja reconhecido como um mestre na sua especialidade
- Comunique bem o que você faz
- Cobre caro pela qualidade superior.
- Repita.
Isto é criação. Isso eu aprendi com Steve Jobs, depois de muito tempo. Veja bem, não é o que eu faço - é o que eu almejo a fazer.
Fazer em quantidade, com qualidade média, jogar no mercado e brigar no preço também tem seu lugar. Já fiz muito, quem sabe farei novamente no futuro. Mas é comércio, não criação. Não é tarefa para, digamos, espíritos elevados. Ou talvez maduros; Steve já não era criança em 1998, e muito menos eu sou hoje.
Os observadores da indústria até já desistiram de cobrar o próximo grande produto da Apple - o televisor holográfico, o automóvel sem motorista, a impressora 3D, o foguete, o robô. Continuamos torcendo, a cada novo evento da Apple.
Difícil. A Apple não atrai nem atrairá os cérebros mais inovadores, que no Vale do Silício vão para empresas iniciantes, onde terão ações e, se cair um raio, serão os próximos bilionários, os próximos Steve Jobs. Que diferença do Brasil...
Também não vemos a Apple apresentando modelos de negócio disruptivos, liderando na adoção de padrões empresariais inovadores, abraçando causas ambientalistas ou reinventando a roda. A Apple não apresenta grandes novidades porque, ué, não precisa. Assim está ótimo pros acionistas. O cofre está lotado, os fãs fazem fila. A necessidade é a mãe da invenção. A Apple não entrará para a história pela nova versão do iPhone. Não importa.
Tim Cook é um sucessor digno de Jobs, porque igualmente oriental em sua visão da Apple. O que vale é a perfeição da criação. O que foi e o que será são pouco importantes. Só existe o agora, e a vida passa rápido demais, até para gente como Steve jobs. Outra iluminação do Oriente, outra lição que eu quero aprender...

Fortune Nov. 9 1998 O novo iPhone e a eterna lição de Steve Jobs

http://r7.com/wZ1O

Publicado em 11/09/2017 às 15:18

Quem grita “censura” hoje é o censor de ontem e de amanhã

queer Quem grita censura hoje é o censor de ontem e de amanhã
Você já deve saber que a Exposição "Queermuseu - Cartografias da Diferença Brasileira", promovida pelo Santander Cultural em Porto Alegre, foi fechada. A mostra foi acusada de promover pedofilia, zoofilia e debochar de símbolos religiosos. A repercussão nas redes sociais foi muito grande. O Santander cedeu e encerrou a exposição.
O tema envolve arte e ideologia, dinheiro público e marketing corporativo, fé, sexo, dinheiro. Vou pular toda essa parte e ir à parte do assunto que não vi bem explorada. Que é a parte que me interessa.
Qual a minha posição? Sou sempre pela mais absoluta liberdade de expressão. Principalmente das opiniões que considero mais estúpidas e nocivas. Mas tenho consciência que faço parte de uma minoria ínfima de fundamentalistas da liberdade de expressão.
E sei muito bem que a maioria das pessoas mundo afora, e no Brasil também, acredita que deve haver limites para a liberdade de expressão. E os limites são sempre os limites de sua própria opinião, claro. Quem está exagerando é sempre quem está no campo contrário.
Frequentemente quem está de um lado desses debates nem enxerga que o seu lado tem posição. A gente tende a pensar que o nosso lado é sempre o neutro e ponderado, o outro é que é radical e ideológico. Mas toda posição é ideológica, claro.
A grita contra o fechamento da mostra "Queermuseu" vem principalmente de grupos que denunciam como "discurso de ódio" qualquer questionamento às suas próprias posições. Se o Santander patrocinasse uma mostra de arte que desse a menor brecha para ser intepretada como apologia ao racismo, ou apologia à violência contra a mulher, muitas dessas mesmas pessoas que hoje gritam "censura!" estariam tentando fechar a mostra.
Esse caso ilustra lindamente a incompreensão nacional sobre o que é a arte e qual é sua "função". A arte não tem nada a ver com o belo, o justo ou o socialmente responsável. "Arte" não é o que você pensa que é arte, é o que o artista cria. E os artistas que entram para a história são justamente os que criam obras contra o gosto estabelecido na sua época, claro. O resto é entretenimento, propaganda, comércio ou o que você quiser, mas jamais arte.
Esse caso também ilustra perfeitamente a divisão entre as pessoas que acreditam que os problemas da liberdade se resolvem com mais liberdade, e as pessoas que acreditam que os problemas da liberdade se resolvem com menos liberdade. Como disse, estou no primeiro time.
Tanto quem brigou para fechar o "Queermuseu" quanto quem reclama do fechamento estão no segundo time. Um lado ganhou, outro perdeu. É a vida em sociedade: conflito. Conheço pessoas inteligentes e bem-informadas que estão do lado perdedor, amigos inclusive. Passam vergonha ao reclamar de censura ao "Queermuseu". Se você luta para suprimir as vozes contrárias à sua, não me venha choramingar quando grupos sociais majoritários suprimem a sua.
Ou melhor dizendo: pode choramingar sim. Você tem direito à total liberdade de expressão. Inclusive a de tentar cercear a liberdade de expressão dos outros. E inclusive à liberdade de chorar sobre o leite derramado.

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Publicado em 06/09/2017 às 15:28

O que aprendi no meu 7 de setembro inesquecível

Sete de Setembro rio preto O que aprendi no meu 7 de setembro inesquecível
Rua Barão de Limeira 425, três da tarde de 7 de setembro de 1988: André, 23, um metro e oitenta e quatro, 65 quilos, cabelo nos ombros, calça de veludo bege, jaqueta de couro e bota carrapeta, entra na sala pra fazer sua primeira entrevista de emprego na vida e mente sem parar.
Mente sobre sua experiência, que é nenhuma, sobre quanto viajou, quanto leu, o que está lendo, mente mente mente. Se não está mentindo está exagerando, embelezando, enrolando. Os entrevistadores são Márion Strecker, editora da Ilustrada, Maurício Stycer, editor-assistente, e Carlos Eduardo Lins da Silva, secretário de redação da Folha de S. Paulo.
Já tinha mentido no currículo que mandou - e deu certo, foi chamado pra entrevista, certo? E então é hora do teste: escreva em uma hora duas laudas dizendo quais são os principais problemas da Ilustrada e o que você pode fazer para melhorar o caderno. À máquina, favor corrigir erros com branquinho.
O que escrevi? Adoraria ler hoje. Lembro de citar acid house. Eu acabava de voltar de Londres, e tinha dado a entender no currículo que tinha uma larga experiência internacional (que nada, tinha só passado 45 dias mochilando na Europa com a namorada). Que mais? Richard Ellmann, disse que estava lendo sua biografia de Oscar Wilde. Mentirinha - até queria ler mas ainda não tinha comprado não. Esqueci o resto.
Ironias: eu estava de volta ao Brasil. A namorada tinha ficado em Londres. Tinha gasto todo meu dinheiro na viagem. Minha prima mais próxima ia ser operada, tumor no cérebro (sobreviveu, quatro filhos lindões hoje). Eu absolutamente não queria voltar de novo à faculdade, que já tinha abandonado uma vez.
Nunca tinha trabalhado e já tinha mais que decidido que esse negócio de jornalismo não era para mim. Estava empurrando a vida com a barriga, que não tinha. Um dia tomo café e vejo o anúncio no jornal: vaga para cobrir férias durante um mês, na Ilustrada.
No penúltimo dia possível batuquei meu currículo inventado. No último dia fui entregar pessoalmente aquela falcatrua na Folha. Me perdi geral, não manjava nada daquele pedaço da cidade. Durango, não tinha como viajar no feriado, então fiquei na cidade... e no dia seis de setembro tocou o telefone me convocando pra entrevista no dia seguinte.
Se isso, se aquilo, mil ses e meu futuro teria sido completamente diferente. E no dia sete fiz a entrevista. Foi meu sete de setembro inesquecível, meu dia da independência. Comecei a ganhar minha grana, achei minha vocação e aqui estamos. E é por isso que essa data é tão cheia de significado, de simbolismo para mim.
Perguntei muitos anos depois para Márion, que virou amiga: o que te deu para me contratar? E ela retrucou na galhofa: e como não ia te contratar?
Acho que na entrevista percebeu que eu queria muito aquilo, e que eu era o tipo de garoto que a Folha podia aproveitar, e que eu não pensava dentro de caixinhas, e que ia dar o sangue. E dei. Porque quando uns dias depois me chamaram para começar a cobertura de férias de um mês, eu fui lá pra trabalhar o resto da vida.
No primeiro dia de manhã já fui pra rua com uma pauta. Zeca Camargo era o pauteiro, e me mandou fazer uma reportagem sobre o show do Circo Imperial da China no Ibirapuera!
E aí começou. Na primeira semana entrevistei Gianfrancesco Guarnieri e Célia Helena, imagine, eu que nunca entendi nada de teatro. E depois do expediente comecei a pegar críticas de discos e de filmes pra fazer, cortesia de Carlos Rennó e Alcino Leite.
E escrever sobre qualquer coisa que pintasse de quadrinhos, porque o cara que mais manjava do assunto na Ilustrada, Marcos Smirkoff, tinha virado fechador e tinha bem menos tempo. Quem mais estava lá no comecinho? Marco Chiaretti, Carlos Calado, quem mais?
Era uma turma muito generosa, e paciente, e fui aprendendo, e o mês passou e me convocaram para outro mês de cobertura de férias, e aí fui efetivado. Eu era Da Reportagem Local. Nunca tinha visto tanto dinheiro. Não lembro quando era em cruzeiro, nem lembro que moeda a gente usava na época, devia ser uns mil dólares bruto. Tava rico!
E logo tinha uma coluna de HQ às segundas, e estava entrevistando Lobão, Titãs e Lulu Santos, e fazendo matérias de capa, e crítica de cinema, e indo para Londres entrevistar Tina Turner na casa dela, hot legs. Blefava que era um horror, mas lia, lia, lia, gastava boa parte do meu salário em livros e enciclopédias de filmes e rock.
Fui me educando em público, fui aprendendo com os colegas mais experientes.
Logo entrou um monte de gente nova na Ilustrada, minha nova turma. Ia em todos os shows e baladas e me divertia loucamente.
Trabalhar na Ilustrada era o emprego dos meus sonhos quando eu era um colegial em Piracicaba. Miraculosamente, foi meu primeiro emprego. E dezesseis meses depois de pisar pela primeira vez na redação da Folha, eu estava indo embora sem olhar para trás, convidado para ser - com nem dois anos de experiência nas costas - editor da grande revista de música do país, a Bizz.
Esses meses na Folha são um borrão inesquecível na minha vida. Foi na Folha que eu comecei a virar eu. Foi lá que comecei a ser adulto. Foi lá a primeira e última vez que fui jornalista e nada mais.
Porque na Bizz eu já era editor, e tinha que controlar borderô, chefiar equipe e isso e aquilo. Meu chefe quando eu saí, Mário César Carvalho, falou: tá louco, você tá indo bem na Folha, vai trocar pela Bizz?
Ele estava certo, eu estava louco mesmo... louco por aventura, e continuo assim. Foi fazendo a Bizz que me encontrei. E depois larguei tudo para fazer fazer revista independente, e montar editora, e veio outro projeto, e outro.
Publiquei um monte de livros e quadrinhos legais, lancei revistas, montei e desmontei sociedades. Escrevi pra caramba. Fui trabalhar com internet. Trabalhei com centenas de pessoas legais, aprendi muito, e jamais parei de me enfiar em mil e uma e de meter os pés pelas mãos, e sempre, SEMPRE dei um jeito de manter o olho no amanhã e energia para brigar no dia seguinte.
Quase três décadas depois e sigo buscando, defendendo aquela independência, que comecei a conquistar naquele sete de setembro...

http://r7.com/Ohry

Publicado em 04/09/2017 às 16:00

Quando o estuprador também é vítima

 Quando o estuprador também é vítima
Na terça-feira passada, Diego Ferreira de Novais ejaculou em uma passageira de ônibus, em plena Avenida Paulista. Escândalo, nojo e revolta. Mais ainda quando, preso, foi liberado pelo juiz. Decidiu que o que Diego fez não é estupro, mas somente "importunação ofensiva ao pudor". A punição é só multa, sem cadeia.
Escândalo nas redes sociais, com famosos e desconhecidos gritando por justiça, contra a Justiça, e muita gente pedindo sangue. A gritaria subiu de volume quando a imprensa descobriu que Diego já tem 16 boletins de ocorrência por crimes sexuais, quase sempre expondo o pênis em público.
E mais, mais grita ainda quando Diego repetiu o que fez, apenas dois dias depois de ser solto. Sábado passado ele agrediu outra mulher, esfregando o pênis em seu ombro, em um outro ônibus.
Segundo a mãe de Diego, dona Iracema, ele não agia dessa forma até 2006, quando sofreu um acidente de carro e teve ferimentos graves na cabeça. Ficou em coma 15 dias e passou por duas cirurgias no cérebro.
Ela diz que o filho ficou com sequelas graves. Perdeu o olfato e o paladar. Tem sangramentos nasais frequentes e manca da perna direita. "Era um menino alegre e estudioso... virou um garoto silencioso e agressivo", diz ela. Ela defende que o filho passe por tratamento psiquiátrico.
Pode ser que a mãe esteja distorcendo os fatos para proteger Diego. Mas vamos admitir que Dona Iracema está dizendo a verdade?
Deveria ser desnecessário ponderar que uma pessoa com problemas psiquiátricos, ou deficiência mental, pode não ser inteiramente responsável por seus atos. Há casos em que o doente não tem a menor idéia do que faz. Há casos em que têm muita, ainda que não plena, consciência das suas ações. E a mesma pessoa pode ter níveis diferentes de consciência em momentos diferentes.
É, para resumir, complicadíssimo. Coisa para especialista. E não pra comentarista de Facebook.
É fácil fazer o linchamento moral de gente como Diego. É muito fácil escorregar para o linchamento físico. Sabemos como as turbas tratam estupradores. Sabemos seu destino na cadeia.
Para efeito de comparação, vamos pensar nos nossos velhinhos. Digamos que o seu avô, que está com um começo de Alzheimer sai dirigindo, sobe na calçada, atropela e mata uma pessoa inocente. Ele deve ser punido da mesma maneira que alguém que atropelou outra pessoa de propósito? É claro que não.
Diego é uma ameaça para as mulheres? É. Nada indica que vá parar de fazer o que faz. Tanto que mesmo depois de preso, foi lá e agrediu outra mulher. O que aliás indica uma atitude compulsiva e, francamente, um pouco biruta.
Não dá para deixar Diego liberado por aí para cometer violências. Outra coisa é tratá-lo como criminoso cruel e reincidente sem nem antes ele passar por uma avaliação médica.
Quando você trata um tema como estupro de maneira desapaixonada, ponderada, tentando entender quem é o agressor, porque ele agrediu, e se tem consciência do que fez, está mexendo em vespeiro. No mínimo, será acusado de "relativizar" a violência sofrida pela vítima.
Pois é exatamente isso que devemos fazer. A realidade é relativa. O contrário é nos rendermos aos absolutos, ao preto e branco, ao maniqueísmo que exige a supressão imediata, inquestionável do "criminoso", sem nem saber se ele cometeu mesmo um crime, ou se tem noção de que cometeu um crime.
A violência sexual é absolutamente errada? Sem dúvida. Deve ser punida? Com rigor. A aplicação da lei para puni-la deve levar em conta se o agressor sofre de alguma deficiência mental ou problema psiquiátrico? Sem sombra de dúvida. Porque o agressor, o bandido, o "monstro" às vezes também é vítima.

http://r7.com/1udB

Publicado em 01/09/2017 às 15:57

Restaurante proibido para criança é uma boa

chocolate Restaurante proibido para criança é uma boa
Restaurante proibido para criança é coisa comum em muitos lugares do mundo. Aqui no Brasil andou rendendo polêmica. Não há razão. É ótimo que alguns restaurantes sejam mesmo proibidos pra menores. Você está lá naquele jantarzinho romântico namorando, e um bebê fazendo aquela meleca com comida na mesa ao lado? Sai pra lá.
Eu tenho filho já meio grandinho, levei ele muito em restaurante desde bebê, e continuo levando. Mas não levei em bar. Se chego num bar e tem um monte de criancinha correndo, tenho vontade de ir embora. Chorinho de criança não combina com cachaça.
Uma vez fui entrar em um hotel em Cuba, para almoçar no restaurante. Meu filho era pequeno. Sentamos na mesa e o garçom delicadamente nos informou que o hotel era só para maiores. Sem problema. Adultos podem querer ficar em paz sem adolescente fazendo bagunça e crianças berrando.
Essa polêmica sobre restaurante proibido para criança só acontece só porque o brasileiro ainda tem muitas dúvidas sobre seus direitos e deveres, e sobre a diferença entre o público e o privado. Anos atrás, quando o fumo foi proibido nos bares de São Paulo, percebi essa confusão mental que acomete muitos dos nossos compatriotas.
O ideal seria que na placa de cada restaurante e bar de São Paulo tivesse uma plaquinha. Assim:
- aqui se fuma
- aqui se bebe pelado
- aqui não servimos carne
- aqui toca Djavan
- aqui é só para mulher
- aqui é só para homem
- aqui permitido cachorro
- aqui é LGBT
- aqui é pra todo mundo mas só servimos comida vegana
E por aí vai. E claro, deveríamos ter a plaquinha escrita: proibido entrar com criança.
Informação transparente. Na porta, em todos os guias de jornal e da internet.
Entra quem quer. Trabalha lá quem quer. Pode até ter uns alvarás diferentes, pagar impostos de maneira diferente.
É assim que funciona uma sociedade livre. Coisa que, sabemos, não existe. Mas podemos ser um pouco mais livres ou um pouco menos livres.
Porque, veja, não existem espaços públicos. Existem espaços mais públicos ou menos.
A rua é um espaço muito público. O metrô, menos. Da catraca para frente, só entra quem paga. Um hospital público, menos ainda. Só entra doente e acompanhante. E tem regras para tudo.
Um restaurante é muito, muito menos público. Tem dono. E só pode ficar lá quem estiver consumindo.
Outro dia um shopping paulistano passou vergonha porque expulsou um menino negro. Ele é filho de um jornalista branco, que denunciou o caso. Realmente muito feio.
Mas você já se perguntou porque não existem meninos negros fazendo malabarismo com bolinha dentro do shopping e pedindo trocados, mas tem na frente do shopping no cruzamento, na rua?
Porque os seguranças do shopping não deixam, e são pagos pelo shopping para só deixar entrar gente que pareça ter algum dinheiro para gastar. O shopping é privado, e privado mesmo - inclusive têm câmeras filmando a gente e tal.
A questão da liberdade nos espaços públicos e privados é muito importante. Podemos aceitar alguns limites, que são os limites da civilização. É muito errado um restaurante (ou um shopping) se negar a aceitar, por exemplo, negros.
Mas será que um bar só pra mulher é necessariamente discriminação contra homens? E um bar só pra homem é discriminação contra mulher?
Vale pensar a respeito e vale discutir. Eu, pessoalmente, não tenho muita certeza. Só tenho certeza que nesses casos de liberdade, sempre acho melhor errar para o lado de mais liberdade do que para o lado de menos. E de vez em quando, é muito bom ficar em um lugar livre de crianças.

http://r7.com/ms49

Publicado em 30/08/2017 às 16:38

Chico Buarque e o disco que não foi

chico Chico Buarque e o disco que não foi
O novo disco de Chico Buarque é igual todo disco do Chico Buarque. Ele é nosso letrista mais sofisticado e segue assim. As melodias escorregam pelo ouvido, os arranjos são pedestres, a voz é de taquara rachada. Como sempre.
Chico não tem que provar nada para ninguém, claro. Mas todo novo disco é um teste. Todo mundo que chega a esse ponto de uma carreira tão importante concorre consigo mesmo. E de fato, na hora da gente ouvir, não vai ouvir repetidamente um álbum novo só porque no passado o artista fez coisas geniais.
Chico sabe que daqui cem anos será lembrado pelo que fez nos anos 70, não no século 21. Parece em paz com o fato. Não deve satisfações ao público - nenhum artista de verdade deve; se achar que deve não é artista, é marketeiro. Faça o que quiser que será tudo da lei, dizia Raul (hei, teria sido legal uma parceria Chico-Raul, hem?).
Caravanas é o disco que Chico quis fazer, ótimo, mas não é o disco de Chico que eu queria ouvir nesse momento. Ninguém do mundo artístico brasileiro se expõe politicamente como Chico Buarque. Ele dá e sempre deu a cara para bater. Pagou por isso de muitas maneiras. Recentemente, com agressões públicas e mais. Você pode concordar ou discordar das opções políticas dele. Mas se for simplesmente com um "gênio!" ou "vai pra Cuba!", não faz jus à inteligência de Chico.
Chico Buarque tem mais de meio século observando, registrando, refletindo o Brasil. Com sua sensibilidade social e talento imenso, poderia ter nos dado não o disco romântico que queria fazer, mas o disco político que o Brasil 2017 precisa ouvir. Minha crítica a Caravanas não é musical, não é pelo disco que é. Mas pelo disco que poderia ter sido.

http://r7.com/2nBT

Publicado em 29/08/2017 às 12:15

Toda dona de casa deveria receber um salário mínimo

mi 5243210047453038 Toda dona de casa deveria receber um salário mínimo
"Ninguém trabalha em 15,2 milhões de lares". Essa é a manchete de hoje do jornal Valor Econômico. É estarrecedora. Considerando a média nacional de quatro pessoas por domicílio, são 60 milhões de pessoas sem trabalho.
Mas o número de desempregados não é 13,5 milhões?
O cálculo oficial do desemprego é baseado no número de pessoas que procura emprego. Não inclui o que se chama de "desalentados", que desanimaram de buscar ocupação, e nem aposentados.
O levantamento foi feito a pedido do Valor, pelos pesquisadores Samuel Franco e Suiani Febroni, do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), a partir de dados do próprio IBGE.
O mais triste é que as famílias mais pobres são as mais afetadas. Das casas em que o chefe da família cursou o ensino superior, 12% não tem nenhuma pessoa empregada. Quando o chefe de família não tem curso superior, o número sobe para 32% dos domicílios.
É uma tragédia humana sem precedentes no nosso país. Deveria, deve ser a prioridade zero de todos nós. O tema número um do debate político e econômico. Não pode haver pauta mais urgente. Não dá para esperar 2018, e nem dá para esperar que uma eleição resolva uma calamidade deste tamanho num passe de mágica.
O fundamental é começar pela compreensão de que não criaremos 60 milhões de empregos no Brasil. Nem em um, nem em dez, nem em 20 anos. Nem as empresas e muito menos o governo.
A tendência do mundo é o exato contrário: o extermínio crescente de empregos, porque desnecessários graças à crescente automação, globalização, inteligência artificial.
Caminhamos para um mundo de supermercados sem caixa, carros sem motorista, e substituição da maioria dos empregos de colarinho azul e colarinho branco por robôs e computadores. Tanto que em países que estão crescendo, e crescendo bastante, o desemprego continua aumentando.
Imagine no Brasil, com essa crise. Imagine no Brasil, em que metade da população tem menos de trinta anos e um dos piores níveis educacionais do planeta.
A transferência de renda para as camadas mais frágeis da sociedade não é favor, nem caridade. É bom aproveitamento dos nossos recursos, e fará um país melhor, mais saudável e produtivo, e com mais segurança para todos. O que precisamos é de Renda Básica Universal.
Temos um programa razoável de Renda Básica, que é o Bolsa Família. Precisamos de um programa muito mais ambicioso, 20, 50 vezes maior, que dê conta desses milhões e milhões de pessoas que não têm e nunca terão trabalho.
Como pagar? Os ganhos de produtividade trazidos pela tecnologia devem ser repartidos, e não concentrados na mão de uns poucos.
E temos que começar a cobrar impostos de quem tem muito dinheiro, como se faz em todos os países decentes. Hoje esses 60 milhões sem trabalho continuam pagando imposto na comida, no remédio, na luz - e o 0,1% mais ricos do país praticamente não pagam impostos. Essa mamata não é sustentável e tem que acabar. Como têm que acabar os super salários no setor público, e outras abominações que ainda permitimos no nosso país.
Se não dá ainda para o Brasil garantir renda para todos os brasileiros, que comecemos pelo básico.
Toda mulher que cuida da casa e da família, fazendo comida, cuidando de roupa, faxinando, acompanhando a educação dos filhos, muitas vezes cuidando de parentes idosos, merece um salário mensal.
Trabalha e trabalha muito. E seu trabalho tem muito valor. Se você fosse contratar profissionais para fazer esse trabalho, quanto custaria?
Minha proposta modesta - para já, para ontem: que o Brasil pague um salário mínimo para cada uma das mães de família brasileiras, mulheres que labutam em casa. Começando por esses 15,2 milhões de domicílios em que ninguém tem trabalho.
Porque de fato as donas de casa brasileiras estão trabalhando. E de fato, elas saberão muito bem como usar esse dinheiro da maneira mais proveitosa para esta família.
E se você acha essa minha proposta fantasiosa - muito bem, temos 60 milhões de brasileiros sem trabalho, você propõe o quê?

http://r7.com/1MrX

Publicado em 28/08/2017 às 14:26

Quando um artista lança uma campanha, sempre desconfie (do VMA a Caetano e Anitta)

caetano Quando um artista lança uma campanha, sempre desconfie (do VMA a Caetano e Anitta)

Caetano Veloso e Anitta aparecem juntos em vídeo

Agora toda hora tem artista dando lição de moral na gente. Em dia de premiação mais ainda. No Video Music Awards teve pregação de astros como Pink, Kesha, Jared Leto e o grande vencedor da noite, o rapper Kendrick Lamar.

Chamando o espectador para enfrentar o racismo e o machismo. Alertando que existem telefones para ligar em caso de depressão. Pregando que a beleza está na diferença. Defendendo o direito dos transgêneros servirem nas forças armadas americanas. Bradando pra gente ACORDAR!.

Paris Jackson, filha do cara que levou esse discurso de bons sentimentos ao máximo de contradição, convocou: "se todos nos unirmos como um, nosso impacto será gigante... devemos ter zero tolerância com a violência, o ódio e a discriminação."

Tudo muito bonito. Mas esse negócio de todo mundo se unir como um é um convite ao pensamento acrítico, à submissão, ao totalitarismo. É todo mundo se unir atrás do líder iluminado, o gênio, o astro. Que é, claro, o que todo popstar quer: ele lá no palco, os fãs embaixo na platéia, aplaudindo na rede social, comprando sem questionar.

Uns anos atrás não era moda essa discurseira. Todo mundo ia ao VMA e ninguém falava de nada social não. Se defendesse alguma causa, era instantaneamente ridicularizado (Bono do U2 sempre melhor alvo). Mas agora é obrigatório, então todo mundo pica cartão com sua pregação.
Nos EUA os popstars ficam na retórica genérica. Aqui no Brasil também, e põem muito menos a mão no bolso para apoiar as causas. Nos EUA existem leis que estimulam a filantropia. Tipo "doe a grana pra sua ONG favorita ou pague o mesmo valor para o governo".

Mas aqui no Brasil nós temos um outro patamar de arrogância. Porque aqui tratamos nossos artistas como experts em tudo. Nove entre dez entrevistas com Caetano Veloso são sobre assuntos que não têm nenhuma ligação com sua carreira, e sobre as quais ele entende tanto quanto você. Ou menos.
Agora temos uma campanha #TudoPelaAmazonia. Caetano e Anitta juntos convocando todos nós a protestarmos contra a decisão do governo de abrir uma grande área da floresta para a mineração. Eu leio um bocado sobre meio-ambiente, mudança climática, desenvolvimento sustentável e essa parada toda.
Desde que essa decisão do governo foi anunciada, andei lendo especificamente sobre isso. Me parece que a melhor solução seria fazer uma análise caprichada de onde estão os principais recursos minerais da área. Fazer um planejamento detalhado de como explorá-los com o mínimo impacto na floresta e quem mora lá. Fazer tudo com muita transparência.E deixar uma boa parte da grana que esses minérios renderem ali na região mesmo. Em um fundo especial criado para isso, para investimento nas pessoas e no manejamento dos próprios recursos da floresta.

Complicado né? Que trabalheira. E que difícil fazer as coisas direito, nesse mundo tão errado. Mas que alternativa já?
A alternativa a lidar com problemas complexos em toda sua complexidade é dispensar a ação real pelo discurso irreal. É mais fácil simplesmente dizer "todos pela Amazônia". Todos, como prega Paris Jackson, todos obedecendo os iluminados líderes e causando nas redes sociais...

Os nossos maiores problemas são sempre complicados. Os popstars são muito bons em tornar os problemas pop, ou seja, simples de entender, simples de enfrentar com um simples refrão, uma hashtag, um discurso memorável no palco da premiação.

Em uma coisa concordo com os astros da música. Eles sempre mandam a gente resistir. É bom conselho. Resista a eles.

http://r7.com/uDmt

Publicado em 25/08/2017 às 16:47

O mundinho faz-de-conta de Liniker

arte3 O mundinho faz de conta de Liniker
Liniker se identifica como mulher, trans, negra. Em um show em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, desceu ao meio da platéia para cantar. Foi apalpada. Reclamou nas redes sociais:
"Outra vez objetificaram minha bunda, não quero ser objetificada por ninguém. É muito doido porque depois do que aconteceu eu me senti culpada por ter exposto as pessoas que fizeram isso. Mas não devemos nos sentir culpadas por isso, temos que falar mesmo. Não dá para fingir que está tudo bem. Chega! Isso tem que acabar!"
"Objetificar" é o tipo de linguagem que faz sucesso com o público de Liniker, mocinhas estudantes de humanas e companhia. Liniker é desses artistas prisioneiros do circuito Sesc, que a imprensa-curadora aplaude e ninguém fora desse mundinho ouve.
Eu ouvi quando ela apareceu, para saber do que as pessoas estavam falando, e não ouvirei nunca mais.
Mas qualidade não importa em música pop. Como gritar "Isso tem que acabar" no Instagram não importa. Como se arrogar direitos sem se dispôr a defendê-los não importa.
Liniker não foi apalpada porque trans ou negra. Vamos sair desse rarefeito mundinho da patrulha politicamente correta? Se Luan Santana for cantar no meio da platéia no seu show, não só será apalpado, como arrisca não sair vivo, as fãs devoram ele. Vale pra mulher também. Imagine que Anitta desce do palco e vai rebolar no meio da galera sem um cinturão de guarda-costas. É óbvio, evidente que vai ser "objetificada".
Mas isso lá é certo? Certo e errado não diminui risco. A mocinha tem todo o direito de ir de biquíni para o meio da geral no jogo do Flamengo, mas está se arriscando. O playboy tem todo o direito de passear de madrugada com o relógio de dez mil reais no pulso, mas tem grande risco de ser roubado. O ladrão tem direito de roubar? Não, mas depois que o relógio se foi, que adianta reclamar?
Na prática, todos nós sabemos que risco existe e nos portamos de acordo, ou pelo menos quem tem um mínimo de senso. Seres humanos sensatos sabem que o mundo real não é esse mundinho artifical de "espaços seguros", em que ninguém tem discurso fora das regrinhas, e você pode dizer o que quiser e fazer o que quiser sem riscos consequências.
Talvez você não goste desse mundo real e queira mudá-lo. Mas o primeiro passo para isso é aceitá-lo como ele é. E ter consciência de que se você der mole, o mundo vai passar a mão na sua bunda.

http://r7.com/mRpO

Publicado em 24/08/2017 às 15:38

Porque o Brasil adora George R. Martin (e porque não leio seus livros)

george rr martin bode na sala 1024x682 Porque o Brasil adora George R. Martin (e porque não leio seus livros)
Dos dez livros mais lidos do Brasil essa semana, cinco são de George R. Martin, incluindo os três primeiros. Todos fazem parte da série "Crônicas de Gelo e Fogo", que foram adaptadas para a televisão como "Game of Thrones", fenômeno de audiência e repercussão entre os fãs.
É fácil simpatizar com Martin, um tio gordinho e simpático, 68 anos, barbicha, sempre de boné, sempre vestido de qualquer-um, muitas vezes milionário. Cresceu lendo gibis da Marvel e jogando xadrez. Passou a escrever contos e romances de monstro, de ficção científica, de super-heróis, conforme o mercado comprasse. Um escritor profissional, dançando conforme as vendas, profissão que só nos Estados Unidos.
Nos anos 90 os leitores americanos se encantaram com grandes sagas, trilogias, tetralogias, séries compridas e cheias de personagens, principalmente de "fantasia". Termo que engloba muita coisa, mas dá pra resumir em uma expressão bem antiga, "sword and sorcery", espada-e-magia. Você sabe como é: cavaleiros e dragões, princesas e magos, castelos e encantos. Você sabe como é: "O Senhor dos Anéis".
Em 1996, Martin lançou o primeiro episódio de sua série de fantasia. Era justamente "A Song of Ice and Fire - Game of Thrones", aqui "Guerra dos Tronos", o livro mais vendido do Brasil essa semana. Fez sucesso desde o começo, mas nada comparável ao de hoje. Só dez anos depois virou série de TV através da HBO, e fenômeno global. Gerou um monte de livros paralelos, produtos licenciados, bugigangas diversas.
Não sou aficcionado por fantasia, mas também não tenho preconceito. Dei uma folheada de curioso profissional no primeiro livro. Prefiro fazer tratamento de canal que ler um desses inteiro.
Perguntei numa rede social: amigos leitores de George R. Martin, podem me explicar porque curtem tanto esses livros? Uma explicação comum é que seus personagens são ambíguos, não tem mocinho e bandido, bem e mal, maniqueísmo besta. Bem, isso é o mínimo que se aceita em literatura desde o século 19. É um avanço sobre, digamos, Harry Potter, mas não muito mais que isso.
Perguntei aqui pro amigo Tiago Alcântara, que curte a saga e a série, porque ele leu todos os livros e porque curte Martin. Suas respostas foram esclarecedoras. Sim, tem a ambiguidade moral. Mas também a maneira como Martin conta a história, com capítulos mostrando o ponto de vista de só um dos protagonistas. Sua falta de piedade com os personagens, que mata sem piedade; e o charme dos personagens principais, que é difícil abandonar. O próprio ambiente de vale-tudo dos reinos. Também confessou que depois de ter as duas mil páginas dos três primeiros livros, não teria coragem de não ler os seguintes.
Assuntei se os livros têm cenas de sexo como a série. Tiago confirma, mas mais suaves; de qualquer forma, raridade em livros de fantasia, tradicionalmente castos, leitura para todas as idades.
Entendi porque não assisto Game of Thrones. É uma novela. Não gosto de novela desde criança. Nunca assisti uma. Preconceito nenhum. Novela é um produto cultural tão válido quanto filme, videogame ou rap. Mas quando estou na casa dos outros e vejo uns minutos de qualquer novela, me sinto assistindo grama crescer.
O fato de Martin escrever telenovelas em formato de fantasia explica sua popularidade global. Novela é o formato de ficção favorito do planeta. O único lugar onde não era assim são os Estados Unidos. Mas no século 21 os americanos também se renderam à ficção multiepisódios, temporada após temporada desenrolando uma longa história. Brasileiro é doido por novela desde sempre, claro, e assim estão explicados os cinco livros de Martin entre os dez mais vendidos do Brasil.
Se não assisto novela, muito menos vou ler esses tijolaços, novela em papel. Abandonei romances gigantes tem mais de uma década. Sagas em vários volumes nem pensar. Jamais lerei Elena Ferrante etc. Devo estar perdendo muita coisa boa. Tem outras melhores, te prometo, te garanto.
Livro longo, só se for de contos, e o último que li, por acaso, é de fantasia: Cuentos Completos, de Jorge Luis Borges. Recomendadíssimo para você que adora George R. Martin. E para você que abomina, também. Um gostinho, aqui...

http://r7.com/NWLn

Publicado em 23/08/2017 às 16:04

Taylor Swift, uma estrela fabricada – por homens

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Taylor Swift acaba de anunciar seu próximo disco, Reputation. O anterior, 1989, vendeu mais de dez milhões de cópias e fez dela a mais popular estrela do planeta. Faturou um monte de Grammys também. Na cerimônia de premiação, Taylor terminou seu discurso dizendo: "quero dizer a todas as jovens: vão aparecer pessoas que tentarão sabotar o seu sucesso, ou levar o crédito pelas suas realizações ou por sua fama. Mas se você focar no seu trabalho e não deixar elas te atrapalharem, um dia você vai chegar ao seu objetivo. E então vai ver que foi você, e as pessoas que te amam, que fizeram você chegar lá. E essa é a melhor sensação do mundo."
Dias depois, Taylor anunciou a doação de 250 mil dólares para outra cantora, Kesha, para ajudar em um processo contra seu produtor e gravadora. A história é polêmica. Resumindo: Kesha foi descoberta aos 17 anos por um produtor chamado Dr. Luke. Na época, ela assinou um contrato exclusivo com o selo de Luke, que faz parte da gravadora Sony. Ele produziu e co-escreveu "Tik Tok" e outras que fizeram o sucesso da cantora.
O contrato era para cinco discos. Kesha por enquanto lançou dois. "Deve" mais três para a gravadora. No total, já foram vendidos mais de 60 milhões de gravações de Kesha em todo o mundo, entre mídia física e digital. Kesha fatura bem, mas tem que dividir a grana não só com a gravadora, mas com Luke.
Em 2014, Kesha entrou com um processo contra Luke pedindo o cancelamento do contrato. Foi bem mais longe: alegou que Luke abusou sexualmente dela, depois de lhe dar álcool e drogas, repetidas vezes, anos a fio.
Em fevereiro de 2016, a juíza que julgava o caso deu vitória a Luke. Disse o óbvio: é impossível provar que houve abuso sexual tantos anos depois, sem evidências físicas, nem testemunhas; Kesha era maior de idade quando assinou o contrato; o contrato é válido; e boa.
Uma revoada de estrelas saíram em defesa de Kesha. Lady Gaga, Kelly Clarkson, Ariana Grande, Iggy Azalea e outras. A parte divertida é que todas essas moças vivem justamente do trabalho de produtores como Luke, ou seu mentor Max Martin (o sueco que inventou Britney Spears e muitos outros).
São eles que bolam as canções, do começo ao fim, seguindo fórmulas quase "científicas" de sucesso. Elas se limitam a emprestar as vozes, devidamente melhoradas por computadores, e fazer as coreografias apropriadas em clipes e palcos. O pop moderno é karaokê puro.
A parte nada divertida do caso é o coro imbecil de aprovação a Taylor Swift por doar a dinheirama para Kesha e emprestar sua voz a esse discursinho anti-homem e desavergonhadamente marketeiro.
Dar 250 mil dólares, mais de um milhão de reais, para uma cantora famosa pagar custo de advogados, é cuspir na cara de tantas pessoas mundo afora que passam necessidade e podiam usar muito bem essa grana.
Taylor faz a feminista mas seu sucesso é resultado do trabalho de um bando de machos. Desde seu primeiro disco, Taylor Swift tem como parceiro invisível Glen Chapman, produtor e compositor. Sem Chapman ela não tinha carreira no country. "Shake it Off", seu grande sucesso de 2015, é produção de dois homens, Max Martin e Shellback. É a dupla que transformou Swift de estrelinha country em estrelona pop, desde o primeiro grande hit da cantora,
"We Are Never Ever Getting Back Together", em 2012. "Shake It Off" foi milimetricamente planejada. Alude diretamente a hits recentes, como "Happy" e "Let It Go", e antigos, como "Hey Ya", do Outkast.
O disco que ganhou o Grammy, 1989, é assinado por doze produtores, dos quais só dois são mulheres, Imogen Heap e a própria Taylor (que leva o crédito automaticamente. Superstars sempre podem se dar o crédito de co-produtores; é costumeiro).
Taylor Swift escreveu sozinha uma única canção do disco - o restante tem assinatura desses produtores. O vídeo de "Shake it Off" foi dirigido pelo especialista Mark Romanek. E por aí vai. Olha os créditos dos trabalhos de Swift e procura uma mulher lá.
Kesha, aliás, acaba de lançar seu novo álbum, "Rainbow", que emplacou direto em primeiro na parada americana. É assinado por dez produtores, fora a própria Kesha. Adivinhe: dos dez, nove são homens.
Taylor é estrela de proveta, pré-fabricada da cabeça aos pés. Inofensiva, boazinha, boa de patrocinar - "Nazi Barbie", segundo Camille Paglia. Tem dinheiro sobrando, fãs à beça e acrítico puxa-saquismo da imprensa, porque como criticar um ícone feminista que empodera as menininhas do jardim da infância?
Esses popstars todos acabam se achando gênios, e acima da crítica e da lei - assinei contrato? Dane-se, eu sou uma estrela, não preciso seguir a lei, não preciso de ninguém. Muito menos de homem nenhum! "Girl Power!", como cantavam as Spice Girls, grupo criado, claro, por um homem...
Não duvido que Taylor, Kesha e essas estrelas todas acreditem mesmo que é sua genialidade que as levou ao sucesso, e não que sejam resultado de uma linha de montagem. É compreensível que os fãs dessas moças aplaudam babando qualquer pum que elas soltem, que dirá lindos discursos de empoderamento feminino. Mas não dá pra engolir que elas sejam ungidas ao Olimpo do feminismo como grandes batalhadoras contra a opressão do patriarcado.
O feminismo de Taylor Swift é tão falso quanto seu talento. A real é que Taylor, como Kesha e tantas outras superstars, são esterlas fabricadas. E são fabricadas por homens.

http://r7.com/cwHj

Publicado em 21/08/2017 às 10:12

O humor ficou pequeno para um talento do tamanho de Jerry Lewis

jerry lewis O humor ficou pequeno para um talento do tamanho de Jerry Lewis
Jerry Lewis morre sem deixar herdeiros nem legado. Só ótimas lembranças para uma turma que já vai ficando mais pra lá do que pra cá. Ninguém faz ou fará o que ele fez.
Jerry não é presença na TV desde os anos 70, quando minha geração o conheceu em festivais anuais da sessão da tarde, junto com Elvis e os Trapalhões. No cinema não dava as caras desde dez anos antes, metade dos 60. Sua obra não foi para o VHS nem o DVD.
Com a notícia da sua morte, fui procurar em quatro serviços online O Professor Aloprado etc. Nenhum tem nenhum filme de Jerry Lewis. É ilustre desconhecido das últimas duas gerações.
Jerry datou? Vou arriscar mostrar para uns adolescentes, para conferir a reação. Talvez riam, talvez nem consigam entender. E talvez fiquem com vergonha alheia, pela falta de vergonha de Jerry Lewis passar vergonha.
Jerry Lewis controlava seu corpo e rosto como ninguém. Era um remanescente do cinema mudo, nesse sentido. Seus filmes poderiam ser em russo ou latim e você iria rir do mesmo jeito. E tinha uma vitalidade inacreditável. Até porque fez sucesso muito jovem, dos vinte aos 35 anos. Energia máxima, sintonia fina, e sempre o mesmo personagem vulnerável, doce, infantil - mas não mexa com ele.
Jerry levou o humor físico muito além de Charlie Chaplin ou Buster Keaton, experimentando com posições de câmera, edição, som. Em algum momento seus filmes foram ficando abstratos, quase como os melhores desenhos animados da época. Não à toa Frank Tashlin, diretor de seis filmes da carreira solo de Jerry, um melhor que o outro, era um veterano dos Looney Tunes. Experimente "O Bagunceiro Arrumadinho".
O que matou o humor físico nos Estados Unidos foi a televisão. Nas séries impera a comédia de situação. Nos talk shows, os monólogos e papos roteirizados entre apresentador e convidado.
O último gênio do humor físico, quase ao nível de Jerry Lewis mas sem o mesmo espírito inovador, desafiador, foi Jim Carrey, por alguns anos. Rapidamente zarpou pra comédias familiares e chatice. Hoje todos os comediantes querem parecer cool e descolados, o exato contrário do que Jerry nos passava.
A decadência do humor físico seria menos triste se não viesse junto com a decadência do humor verbal. Ninguém é engraçado falando uma hora seguida, que é quanto esses standups falam. É muita gordura, muita enrolação.
O humor verbal sobrevive na internet, nos 140 toques do Twitter, em mini-sketches do YouTube. O físico menos - acho até que pelo tamanho da telinha. Que graça teria ver Jerry fazendo estrepolias com seu corpo em um celular? O humor ficou pequeno demais para um talento do tamanho de Jerry Lewis.

http://r7.com/6gSP

Publicado em 17/08/2017 às 15:24

Desespero dos derrotados não vencerá Barcelona

barcelona rutas turisticas alternativas 1024x628 Desespero dos derrotados não vencerá Barcelona
O mundo é um lugar cada vez mais seguro, mais aberto, mais tolerante, criativo e vibrante. Às vezes não parece, mas é o que apontam todas as evidências e estatísticas. Em poucos lugares você sente isso com tanta certeza e emoção quanto em Barcelona.
A cidade tem dois milênios de história. Já resistiu a visigodos e fascistas. É resolutamente rebelde, independente, alegre. Tem muito respeito por seu passado e muita fé, muito investimento no que vem por aí.
É um lugar para viver bem, com liberdade e confiança. Uma capital dos negócios que também é uma capital do prazer. Justamente por isso é alvo das forças do atraso. Representa como poucas cidades o triunfo do futuro.
Esses terroristas, como os supremacistas brancos que escandalizaram essa semana os Estados Unidos, não significam nada no longo prazo. Matam por desespero, o desespero dos derrotados.
Barcelona vive um dia muito triste. Mas Barcelona sobreviveu a muito pior, nosso mundo sobreviveu a muito pior. Seguirá linda, pujante, diversa, colorida, boa de bola. Esses fundamentalistas assassinos irão para a lata de lixo da história. Barcelona, e o que Barcelona representa, vive e triunfará.

http://r7.com/0L2A

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