Começou com meus pais em visita de final de semana, e Madonna. Meu texto de sexta sobre a não-tão-moça acabou saindo terça. Deu tempo de me perguntarem: quem é aquela outra lá no vídeo? É M.I.A., uma das figuras mais interessantes do século 21, e seu novíssimo vídeo está aqui:

M.I.A. - Bad Girls por perolasblogs no Videolog.tv.

Segunda à noite chorei de rir nos 20 anos do Garagem. Duas horas e meia de recuerdos e conversa mole, cercado de velhos amigos. No final me pediram para escolher uma única música, para entrar na edição final do programa. Eu escolhi uma que a gente tocou logo no começo do programa, lá em 1992, e continua uma pedrada.

Ministry - Jesus Built My Hotrod por perolasblogs no Videolog.tv.

Terça ia bem com um almoço com três executivos / empreendedores de Internet, uma conversa exploratória do tema que debateremos nesta sexta-feira, na Campus Party: a cultura do tudo grátis e o que isso significa pra gente, a gente normal e a gente que trabalha com jornalismo, cultura, internet e tal.

Minha semana capotou sangrentamente à tarde, com a morte de um velho amigo e a constatação de que nos falamos três vezes nos últimos cinco anos. Não consegui fazer a homenagem que ele merecia, nem tentei - é próximo e dolorido demais. Só consegui postar um bilhete de adeus no Facebook, e um vídeo da canção que Mauro Martinez dos Prazeres queria na sua despedida.

O assunto da semana foi a rebelião da polícia militar. Escrevi sobre isso duas vezes, primeiro para exigir a dissolução da PM, depois para apresentar a quem não conhecia o projeto de lei, hoje no Senado, que propõe a unificação das polícias de todo o Brasil. Lembrava de uma citação e não conseguia localizar, agora caiu a ficha:

Sobre a polícia

Talvez tenhamos inventado um novo tipo de homem quando nós (Eles) designaram alguns homens para policiar outros. Eles escolheram homens a quem seriam arrancados os véus da sociedade, grandes e pequenos. Alguns enlouquecerão. Outros se transformarão em brutos e obedientes funcionários de um Estado insensível. E alguns se tornarão incapazes de ver o mundo a não ser como um zoológico feio, injusto e sem esperança, cheio de animais que os destroçariam na primeira oportunidade - somente por eles serem os guardas do zoológico, somente por eles manterem a todos vivos e seguros.

Warren Ellis, Captain Swing

Mas também fui pegar os livros do meu filho, que chegaram bem atrasados, e levei ele pra fazer um teste e ver em que estágio vai entrar na escola de inglês, que ele começa agora. Assisti um pedaço de um velho Arquivo X, triste, triste. Conversei sobre gibis e política e internet e dei muita risada ao perceber que estava de gaiato na festa de aniversário de Clara Ant. Lidei com a reforma na parte elétrica aqui da casa. A tortura nunca acaba.

FoxMulder small A minha semana

Trabalhei bastante - no novo site da Tambor, em um press release sobre o convidado de honra de nosso evento, GameWorld, e também no conteúdo da festa que vai ser boa; li algumas dezenas de emails, respondi uns; dei meus pitacos sobre detalhes finais da nossa rede social Bubot; li uns três artigos que prestaram; xinguei a pseudo-privatização dos aeroportos e liguei para o banco e procurei documentos e não encontrei; avancei umas trinta páginas em Reamde, de Neal Stephenson; e que tantas mais coisas que nem sei?

E ainda é quinta, meio dia e oito, e tenho uma reunião às duas, mas antes de é preciso almoçar, tomar banho e me despachar para o Morumbi, e o jantar à noite é depois das dez, e a Campus Party sexta à tarde requer uma mini-reflexão, e preciso fazer umas compras para a barca com casais amigos e seus filhos no final de semana, mas acaba de queimar o micro-ondas e vou precisar comprar outro urgente.

Meu amigo morreu e eu decidi não ir no velório nem no enterro. Eu estou vivo.

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Choro a perda de Mauro Martinez dos Prazeres, cérebro único, coração enorme, amigo que acaba de zarpar de repente, e que sou incapaz de homenagear. É cedo; algum dia.

Porque nunca foi um sujeito normal, nunca fez tudo igual, e misturava lucidez e maluquez como ninguém que eu jamais conheci. É um caminho tão fácil seguir...

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greve 2 ok Pela unificação de todas as polícias do Brasil em uma polícia civil

Os protestos da Polícia Militar por todo o país têm razão de ser, mas não têm direito de ser. A razão é que as polícias militares estaduais, por serem militares, não têm direitos civis.

A falta de segurança que afeta todos os brasileiros precisa ser enfrentada. Um dos pressupostos para ganharmos esta guerra é  a dissolução da Polícia Militar.

É evidente que não basta transformarmos todos os policiais militares do país em policiais civis, amanhã, para que magicamente o Brasil se transforme numa Suíça.

Polícia de qualidade exige treinamento, salários e cobrança à altura. Há que se prever esse investimento nos orçamentos. Há que criar um sistema de supervisão desta polícia pela sociedade.

Felizmente já existe uma proposta de lei que prevê as principais mudanças necessárias. Não sou especialista, mas parece um grande avanço, para a população, os policiais e o país; no mínimo é um ótimo começo.

O projeto é do senador Blairo Maggi, e a íntegra está aqui. É a PEC SF 102/2011, apresentada em outubro do ano passado.

greve bahia terça G okokokokok Pela unificação de todas as polícias do Brasil em uma polícia civil

Os principais trechos estão abaixo. Tratam da adoção de uma polícia única e civil, do piso nacional e de onde virá o dinheiro para isso, e da criação de um conselho civil que supervisionará as atividades desta polícia única.

O movimento na Bahia incendeia as polícias de todo o país. Os governos estaduais não têm como resolver a situação. Tem gente morrendo à toa todo dia. Estamos na véspera do Carnaval. Cabe ao governo federal tratar esta proposta de emenda à constituição com a urgência que o momento exige.

“Art. 144

§ 9º A remuneração dos agentes públicos integrantes dos órgãos relacionados neste artigo será fixada na forma do § 4º do art. 39, assegurado piso nacional a ser fixado em lei federal, que disciplinará fundo nacional, com participação da União, dos Estados e dos municípios, visando a sua suplementação, bem como a vinculação de percentuais do orçamento.

§ 10. É facultado à União, no Distrito Federal e Territórios, e aos estados a adoção de polícia única, no seu respectivo âmbito, cujas atribuições congregam as funções de polícia judiciária, a apuração de infrações penais, de polícia ostensiva, administrativa e a preservação da ordem pública.

§ 11. O Conselho Nacional de Polícia, cuja competência e organização são definidas em lei complementar, presidido por Ministro do Superior Tribunal de Justiça e composto por membros do Poder Judiciário, do Ministério Público, das polícias estaduais, federal e do Distrito Federal e Territórios, por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil e membros da sociedade civil indicados pelo Senado e pela Câmara dos Deputados, nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal, para mandato de dois anos, admitida uma recondução.” (NR)

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Os policiais da Bahia estão em pé de guerra. Nove outros estados ameaçam aderir à greve. É uma oportunidade de ouro para fazer o que precisa ser feito: dissolver a Polícia Militar.

greve1 ok Pela dissolução imediata da Polícia Militar

Greve da Bahia/Foto:Lucio Tavora/AE

A PM é um aborto legal. É criação ditatorial. Polícia é um serviço como qualquer outro. Tem que se submeter às leis e à Justiça, como qualquer outro departamento público. O policial é tão funcionário público quanto um enfermeiro ou um professor. É um cidadão como você e eu. O que serve para um tem que servir pra todos - princípio básico da democracia.

Mas a PM é militar. Segue regras militares e é julgada pela Justiça Militar, garantia de impunidade para aprontadas. Sendo militar, por definição não tem direito a greve.

Desde que existe Exército, soldado tem que lutar, nem que na marra, e quem se recusa sempre foi severamente punido, muitas vezes com pena de morte. Se não a debandada era geral, né? Viu o inimigo chegando com forças superiores, dá licença, vamos entrar em greve...

greve2 ok Pela dissolução imediata da Polícia Militar

Greve na Bahia - Foto: Raul Spinassé/Agência A Tarde/AE

Se os policiais militares brasileiros querem ter direto a greve - o que é muito justo - precisam abdicar de serem militares. Não dá pra querer ter diretos civis e militares ao mesmo tempo. Qualquer grupo civil pode muito bem ocupar a Assembleia Legislativa da Bahia. A PM não tem esse direito.

pinheirinho1 ok Pela dissolução imediata da Polícia Militar

Confronto no Pinheirinho/Foto: Nilton Cardin/AE

A reivindicação dos PMs é a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 300, que estabelece um piso salarial nacional para eles. Cobram aprovação para já. O governo diz que só em 2013, por causa de cortes orçamentários. Os tiras dizem que Dilma volta atrás em promessa de campanha.

pinheirinho2 ok Pela dissolução imediata da Polícia Militar

Confronto no Pinheirinho/Foto: Nilton Cardin/AE

O governo diz que não tem grana agora. Mentira. O governo tem dinheiro pra fazer estádio pra Copa e emprestar para Cuba reformar seu porto, claro que tem dinheiro pra aumentar a polícia. Não interessa.

A PM é o cão de guarda das autoridades. Na hora de tirar estudante da USP, de tratar craqueiro na porrada, de invadir Pinheirinho, os policiais obedecem aos comandos sem pestanejar - "estamos apenas cumprindo ordens".

Pois a Justiça baiana decretou a ilegalidade do movimento grevista. Agora não obedecem a Justiça, por que querem aumento? Piada.

Os policiais têm uma missão importantíssima. Precisam de salários, treinamento e cobrança à altura de suas responsabilidades. Só assim vão conquistar o respeito que merecem, e serem de fato integrados à sociedade brasileira. Para isso, o Brasil precisa dissolver as polícias militares. Polícia, só civil.

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cicalacom Garagem, vinte anos hoje à noite

Foto: Barcinski e Paulão com o produtor Roy Cicala

Se você vê uma vaca sagrada e já vai puxando o sal grosso e botando a cerveja pra gelar, é da minha turma. Tive sorte de encontrar, hm, almas gêmeas. Vou encontrar outros espíritos de porco semelhantes hoje à noite. A diferença é que eles são mais engraçados e inteligentes e entendem mais de rock que eu. Seus melhores amigos são sempre melhores que você.

Vou me divertir MUITO. Mais do que seria razoável em uma segunda-feira. Beleza. Eu já fazia isso duas décadas atrás. É um reencontro de velhos amigos, ao vivo, na concorrência: os 20 anos do programa Garagem, no UOL, nove horas da noite.  Aqui.

O Garagem se dedicou sempre a tocar o melhor rock, principalmente novo - com amor às velharias, mas sem submissão baba-ovo a nada. A entrevistar gente estranha, divertida e interessante. A zoar quem merece ser zoado, com a maior brutalidade e malvadeza de que fomos capazes. Alvos clássicos: Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes.

O Garagem começou de brincadeira e continuou de sacanagem. Foi culpa do amigo André Barcinski. Ele fazia um programa de rádio legal no Rio de Janeiro, o Caixa Preta. Depois que mudou pra São Paulo, não sossegou enquanto não começou um programa aqui. Me convocou pra sócio-fundador. Era segunda, da meia-noite às duas, na Gazeta FM. Fazíamos totalmente de graça, e é assim até hoje, independência total.

Logo percebi que não tinha o menor jeito pra ficar escolhendo música, e que minha parca atenção com novidades não gerava material em quantidade para um programa semanal. Sem problemas: eu atendia o telefone, que não parava de tocar, batia papo com os convidados, falava bastante besteira. Lembrança querida: coro de O Homem de Nazaré, com João Gordo e mais uma renca, no dia que Antonio Marcos, nosso Brian Jones, morreu.

Saíamos pilhadíssimos do programa e íamos pra noite. Ia dormir quatro, cinco da manhã toda segunda. Eu entrava antes do almoço no meu emprego na Bizz. Já começava a semana ferrando tudo. Mesmo com 26 anos, era punk. Depois de uns quatro meses, tirei o time. Continuei da turma e fiz algumas participações especiais nas duas décadas seguintes.

Fui no máximo coadjuvante, e ouvinte frequente. A turma oficial do Garagem inclui, além de Barcinski, os também jornalistas Paulo César Martin e, na última temporada menos presente, Álvaro Pereira Jr - esse trio é o espírito da bagaça. Mas a turma oficiosa vai bem mais longe. Renato Yada estava ali nos primeiros momentos; Gabriel Gaiarsa e Larissa Zylbersztajn foram os escravos da, hm, formação clássica; e mais Marcelo Orozco, Fábio Nipo Luso, e uma gangue de desajustados, e outra multidão de esquisitos, dos quais muitos foram nas muitas e boas festas do Garagem.

O programa de vinte anos do Garagem reúne os melhores (!) momentos dessas duas décadas. Precioso trabalho de arqueologia do Paulão. Estaremos todos lá ao vivo pra rachar o bico e dar nossos pitacos.

Se você alguma vez ouviu o Garagem - e muita gente descobriu maravilhas lá, e se descobriu - o programa de hoje é obrigatório. Se não, bem, não dá pra descrever, mas dá para garantir: você nunca ouviu nada igual. E tem muito, muito mais - aqui.

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O amigo Alex Antunes, eternamente militante cultural, inventou um programa chamado Pós-Bizz. Foi inspirado pelos intermináveis e divertidíssimos debates político-socio-etílico-musicais das duas comunidades Bizz, do Facebook.

Que diabo é Bizz? Era uma revista onde trabalharam o Alex, e a Bia Abramo, e depois deles, eu. Alex nos convocou os dois para participar da segunda edição do programa. Foi transmitido ao vivo. Agora está pingando aos pedaços na internet.

É de alguma maneira ligado a um negócio chamado Pós-TV. Que é produzido pelo Fora do Eixo. Que eu não sei explicar o que é. E também não importa neste caso. Foram duas horas de papo ou mais. A gente se divertiu bem.

Deve ter saído alguma coisa que preste. Jamais saberei.

Aqui tem sete minutos. É mais que suficiente para responder definitivamente à pergunta que tantas vezes ouvi: por que você nunca trabalhou em televisão?

PosBIZZ 01/02/2012 - parte 1 por perolasblogs no Videolog.tv.

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Portraits FINAL 02 2 A melhor razão para ler um livro

His thoughts are a tattoo needle inking the space on an ace. É com frases cortantes como diamantes que se faz um romance negro como a noite. As mais letais são, como uma mulher fatal, inexplicáveis. Te atacam sem aviso e sem possibilidade de defesa. Evitar escorregar para a paródia é trabalho para homens crescidos.

É o caso de Michael Chabon, fã profissional, que nunca encontrou um gênero que não quisesse parafrasear.  Já remixou capa e espada (Gentlemen of the Road), história de detetive (The Final Solution), romance histórico (The Amazing Adventures of Kavalier and Clay) e por aí vai.

The Yiddish Policemen's Union é um romance noir a la Philip Marlowe, com um detetive maltratado pela vida e pelo amor, chegado numas cachaças, a quem só restou a obstinação de se arrastar até o final do caso que investiga.

Sendo Chabon, tem mais. A história se passa em um lugar e tempo imaginários, uma história alternativa. Depois da Segunda Guerra Mundial, os judeus não conseguiram manter o estado de Israel, que foi tomado pelos árabes. O que fazer com tanto judeu, pós-holocausto? O governo americano, um tanto a contragosto, criou uma solução temporária: migração para um território demarcado no Alasca, sem possibilidade de viagem livre para fora.

É um gueto com prazo de validade: 60 anos. Chegamos em 2007 com Sitka, uma cidade de três milhões de habitantes, todos judeus, a maioria vinda da Europa oriental. Agora todos estão novamente desterrados, porque os EUA estão retomando a cidade, e chegou a hora de enfrentar outra, mais uma, diáspora.

É, portanto, um típico romance policial dos anos 40, mas na verdade de ficção especulativa - embora a tecnologia seja absolutamente alinhada com a nossa - e mais uma história de judeus, e de amor, e ambiciosa, e inventiva, e fácil, como são as histórias de Chabon. Ganhou o Hugo, o principal prêmio da ficção científica mundial, em 2008.

forasta A melhor razão para ler um livro

Sou fã do cara. Li até seus livros de ensaios (Maps and Legends) e de dicas de como ser homem! É Manhood for Amateurs, sobre ser filho e pai, e sensível sem ser babaca. Mas enrolei anos antes de ler este. O título me parecia, hm, judeu demais. Nada contra e arrisca eu ter um sanguinho pelo lado da minha bisavó, Ana; os Coslovic eram judeus convertidos, corre a lenda familiar.

Mas mundinho étnico fundamentalista, tiras de barbicha e trancinha, deu preguiça. Vi em 2007 quando a Amazon me ofereceu, vi em vitrine nos EUA, fui empurrando. Dois meses atrás esbarrei na edição americana capa-dura no sebo aqui de perto. Quinze irresistíveis reais.

Que prazer ler um livro de sebo, com história, com cheiro, anos depois dele ser assunto! Foi minha leitura de reveillon, e escorregou goela abaixo como uma Veuve Clicquot geladinha.

Li que Chabon trabalha agora em Telegraph Avenue, um romance contemporâneo. Não me animou. Pulei seus dois primeiros, The Mysteries of Pittsburgh e Wonder Boys. Não tenho o menor saco para ler sobre universitários e seus professores e namoricos cabeça e os problemecos da classe média intelectualizada dos states.

Aguardo com ansiedade maior a adaptação cinematográfica de The Yiddish Policemen's Union. É infilmável, mas está nas mãos de outros especialistas em refrescar gêneros, os irmãos Joel e Ethan Coen. Sean Penn como Meyer Landmann?

Telegraph Avenue é uma avenida em Berkeley. E segundo o autor, este livro é uma desculpa para passar o máximo de tempo "pesquisando" em lojas de discos usados, como a Amoeba, ali pertinho. De qualquer jeito, tem meu voto de confiança.

Michael Chabon não é uma figura ímpar, um ícone, um rebelde, nem vai entrar para a história. Foi bonito; aos 49 anos, acusa o golpe. É só um de nós, um pouco mais talentoso, e agora mais riquinho - entre livros, vende seu tempo para Hollywood, dando um tapa nos diálogos de superproduções (a próxima é John Carter de Marte, de Edgar Rice Burroughs e da Disney; outro gênero, fantasia heróica, pronto para a recriação).

O que Chabon não é: gênio ou aspirante a. Sem problema. Desde quando ler é ligar os pontos do canône ocidental? Dane-se. Faço minha sua resposta a críticos que o acusam de submissão às regras da baixa literatura: "eu leio para me divertir. E escrevo para divertir."

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free Como trabalhar de graça e ganhar com isso (te conto na Campus Party)

É um dos enigmas de nosso tempo: a tecnologia em geral e a internet em particular acostumou todos nós a acessar conteúdo de graça. Está tudo lá, ao alcance de quem teclar. Ninguém quer pagar nada por livro, música, cinema, jornalismo. Mas vai mais longe. Ferramentas digitais ajudam todo mundo a comprar mais e mais barato todo tipo de produto, de alface orgânica a armário para o bebê.

Ótimo para quem compra, péssimo para quem vende. As margens de lucro vão sendo espremidas, e os empregos terceirizados para cada vez mais longe. Sugira que alguém deve pagar por música, filme ou jornalismo, e só falta os mais jovens te cuspirem na cara. Sugira que estes mesmos jovens trabalhem de graça, e serás chamado de porco capitalista.

Esses tempos atrás, eu li sobre a debandada da indústria têxtil da China. É, os salários chineses subiram um pouco nos últimos anos, as empresas estão indo para lugares onde os salários são mais desgraçados, Miyamar, Laos e por aí vai. Tá pensando que é para fabricar porcaria?

Estas fábricas produzem roupas com algumas das grifes mais famosas do Ocidente. A mocinha compra a blusa pensando em Paris e Milão, mas ela foi fabricada por uma garota do Laos de dezoito anos, que trabalha 14 horas por dia...

Tá, é drama bem mais explícito para proletários asiáticos do que para o brasileiro que quer viver de conteúdo. Mas pega mesmo assim. Tenho um amigo que dirige uma das maiores revistas do país. Sabe que o futuro já chegou e se instalou e quer fazer parte dele.

Mas quando eu conto como é o mundo digital, ele gela. Como sobreviver? Como exercer sua profissão? E o que garante que o modelo de negócio e trabalho que funciona hoje vai ser viável no ano, no mês que vem?

Donde que apareceu este tema para a próxima Campus Party. Quatro caras que têm o que dizer sobre o assunto, e respeitáveis currículos para bancar seus pitacos. E seu amigo aqui, convocado para moderar o papo, ou melhor, provocar debates e aumentar a temperatura ao talo.

Serão 45 minutos no mínimo interessantes - resuminho oficial abaixo. Se vais ao Campus Party, está convidado. Te espero no dia 10/2, das 15h15 às 16h45, no Anhembi Parque!

A CULTURA DO GRÁTIS E DO FREEMIUM TRABALHANDO A SEU FAVOR

Um mundo free representa um apelo enorme para os usuários, mas um enorme desafio para quem quer viver da internet. Uma discussão sobre os modelos, oportunidades e ideias (que vão além da publicidade) para resolver essa questão!

Debatedores

Caique Severo

Jornalista com formação em administração e marketing, trabalha com internet desde 1993. Participou da criação de alguns dos principais portais brasileiros, como Brasil Online, Zaz e Terra. Desde 2007 é um dos responsáveis pelo portal iG.

Jonny Ken Itaya

Responsável pelo Migre.me, um dos principais aplicativos para Twitter no Brasil. Trabalha com informática desde 97. Já trabalhou com edição de fotos, animações flash, administração de redes e programação. Também participa do Decodificando, podcast que fala de aplicação das leis sobre as novas tecnologias, é colunista do Techtudo e blogueiro no Infopod.

Daniel Wjuniski

CEO e co-fundador do Minha Vida. Também é sócio e participou da criação do Portal iCarros junto com os fundadores da WebMotors e do Banco Itáu. Foi selecionado pela Endeavor em 2009. Em 2011 foi vencedor do prêmio Empreendedor do Ano - E&Y, na categoria Emerging e do Prêmio Empreendedor de Sucesso da revista Pequenas Empresas Grandes negócios.

Alexandre Canatella

Empreendedor nato, apontado pelo revista Próxxima como uma das personalidades pioneiras da internet brasileira, co-fundador de CyberCook, CyberDiet e VilaMulher. sobrevivente da bolha de internet com o modelo de freemium no ano de 2000 com o lançamento de um serviço de dietas online. Palestrante e debatedor nos principais eventos e conferências do mercado online, escreve para ResultsOn e INFO. Ganhador do Prêmio iBest, ABANET e Prêmio ""Hermann Gmeiner"" de Responsabilidade Social.

André Forastieri (mediador)

Diretor de conteúdo do portal social Bubot e da Tambor Digital, agência de conteúdo e marketing especializada em games. Jornalista desde 1988, passou pela Folha e revistas Bizz e SET; fundou e dirigiu durante doze anos a Conrad Editora, especializada em quadrinhos e livros; foi diretor editorial da revista PC Magazine. Escreve sobre cultura, comportamento e tecnologia em seu blog, no portal R7.

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forasta Trabalhar menos: é bom pra saúde e pra economia

Meu primeiro emprego foi em jornal. Jornal é fábrica. Fui adestrado para imersão absoluta na produção de textos em prazo exíguo, e para fazer isso sob tiroteio de interrupções e distrações, telefone tocando, colega do lado batendo papo, TV ligada no jogo, e você lá parindo seu artiguinho. Foi e é utilíssimo na minha vida.

Na época não existia email, web, nada disso. Dava bem mais trabalho ser jornalista. Hoje é moleza, está tudo à distância das teclas; memória valia muito, hoje nada. Mas essa facilidade atordoante também é a mãe de todas as distrações.

Quanto tempo já gastei zanzando pela internet, ou cavocando vídeos obscuros? Eu e todo mundo, mas como jornalista passa pelo menos oito horas por dia na frente de um computador, é maior a chance de ver sua produtividade escorrer pelo ralo.

Por isso, muitas boas soluções para lidar com pressões e distrações vêm de jornalistas. Várias levam a assinatura da minha colunista de carreira favorita, Lucy Kellaway, do Financial Times. Sua coluna é republicada no Brasil pelo jornal Valor Econômico. Leia aqui.

A autora do malvado Who Moved My Blackberry?, romance engraçadíssimo sobre lesmas corporativas, deu esta semana a melhor dica para gerenciar seu trabalho que eu vi em muito tempo. Com a palavra, Lucy:

"Quando meus filhos eram pequenos, eu tinha de chegar em casa em um horário determinado todos os dias para liberar a babá. Eu não tinha escolha, e assim minhas tarefas ficavam milagrosamente sempre pronta a tempo.

Agora tenho a opção de trabalhar de forma mais flexível - ou seja, por mais tempo e de maneira menos inteligente - e por isso nunca deixei de aproveitá-la. Mas agora que tenho a oportunidade de pensar nisso, vejo que que essa ideia radical, de sair do trabalho na hora certa, não é nova. É chamada de trabalho das nove às cinco, e se não me falha a memória, teve muito sucesso."

Lucy Kellaway ok Trabalhar menos: é bom pra saúde e pra economia

Lucy Kellaway

Ironia de Ms. Kellaway? A demanda está mais que nunca em pauta. Segundo a federação de sindicatos britânica Trades Union Congress (TUC), mais de cinco milhões de trabalhadores do Reino Unido trabalharam 1.968 milhão de horas-extra sem pagamento em 2011. Se eles fizessem todo esse trabalho grátis começando dia primeiro de janeiro de 2012, iriam trabalhar na faixa até dia 24 de Fevereiro!

Por isso, a TUC selecionou 24/2 para ser a décima celebração anual do Work Your Proper Hours Day, o Dia de Trabalhar Suas Horas E Nada Mais. Para participar do protesto, basta neste dia o trabalhador chegar na hora certa, e não mais cedo, usar todo seu horário de almoço, e ir embora na hora certa.

É bom para a saúde. Segundo um estudo de 2010 do European Heart Journal, trabalhar três horas (ou mais) do que sete horas por dia corresponde a um aumento de 60% em doenças do coração.

Mas se todo mundo trabalhar menos não vai fazer um estrago desgraçado na economia? Pelo contrário. Segundo a TUC, as horas extras sem remuneração equivalem a um milhão de empregos que deixam de existir no Reino Unido. E como não rola salário em hora extra sem remuneração, o governo também perde em impostos, e esse trabalho todo não se traduz em maior consumo, também.

Atenção: o cálculo da TUC não inclui o tempo gasto fora de hora com emails, smartphones, pesquisa e tal ligados ao trabalho. Se incluísse, o número de horas extras que os britânicos trabalham sem ganhar nada aumentaria muito.

No Brasil já temos legislação mais avançada que a britânica, na teoria. Uma nova lei determina: tempo que você passa conectado digitalmente com seu trabalho, fora das suas oito horas diárias, conta como tempo extra. Parece bom, mas é contraproducente.

Porque com essa nova lei, seremos estimulados a passar MAIS tempo trabalhando fora de hora, e não menos. Sugiro lei no sentido contrário: cada minuto que você passar respondendo email à noite ou escrevendo relatório no final de semana deve ser descontado do seu salário. Em compensação, poderíamos passar a contar como hora extra o tempo que a gente passa no trânsito, a caminho do trabalho.

Estou com Lucy, ou melhor, um pouco além. Embora eu seja seis anos mais novo que ela, essa vida de jornalista no terceiro-mundo é bem mais puxada que na Inglaterra. Jornalista aqui leva vida de cão, e envelhce quatro anos em um, como cachorro.

Oito horas por dia, ou mesmo sete, já é muito para minha carcaça. Meu plano é adotar a semana de trabalho de 21 horas - mas vou deixar para explicar isso direito depois, porque decidi começar a diminuir minha carga horária neste exato minuto.

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alckmin 20100915 g Contra o impeachment de Geraldo Alckmin
Clique aqui

Recebi um convite para endossar o abaixo-assinado pelo impeachment do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. O documento cita os casos Nossa Caixa e Alstom, ambos com perfume de falcatrua grossa; a mão pesada na USP e na Cracolândia; a desocupação da fazenda Pinheirinho, que fede aos céus; e por aí vai.

Eu teria mais uma bela lista de reclamações a fazer da administração do meu estado (e bairro, e cidade, e país, mas vamos focar). A principal é a militarização da administração pública da cidade de São Paulo, um retrocesso e tanto (leia post aqui).

Outro ponto importante: o Brasil não tem caminho para o futuro que não passe por São Paulo, estado mais rico e moderno do país, nossa conexão com o século 21. A visão desinformada e autoritária do eixo tucanato-malufismo que administra São Paulo é obstáculo a ser posto abaixo com urgência (leia o post aqui).

Mas vamos ser realistas: é difícilimo derrubar Alckmin com abaixo-assinado. Ele tem apoio de quem tem bala, porque se provou de confiança dos home. E mesmo que fosse viável desalojar o governador, desaconselho. Porque se devolvemos Geraldo para a sacristia, assume seu vice, Guilherme Afif Domingos, hoje candidato a prefeito pelo PSD de Gilberto Kassab. A empresa de Afif, a Indiana Seguros, foi acusada em 2010 de favorecimento: levou contratos de mais de dez milhões de reais da prefeitura de Kassab, então seu colega de partido no DEM. Afif trabalhou muitos anos com Maluf e Pitta. Deve ter aprendido alguma coisa.

Boa desculpa para impedirmos Afif? Talvez seja. Mas neste caso assume o presidente da Assembléia Legislativa. É o advogado, ex-ministro da agricultura do governo FHC e representante do agronegócio Barros Munhoz, do PSDB. Ele é réu em 21 processos, e já foi condenado por improbidade administrativa. Se fazes questão, a ficha completa está aqui.

barros munhoz2 Contra o impeachment de Geraldo Alckmin
Temos então duas alternativas, as duas ruins. Uma é tentar botar essa gente para fora via eleitoral, primeiro na Cidade e depois no Estado, com altíssimo risco de substituirmos seis por meia dúzia. Afinal, o principal candidato da oposição para prefeitura de São Paulo é o ex-ministro Fernando Haddad, responsável nos últimos anos por esta beleza de educação pública que temos no Brasil. Haddad vem cortejando Gabriel Chalita (escritor católico conservador, ex-secretário de educação de Alckmin), do PMDB, e o próprio Kassab, 80% de rejeição em São Paulo, que acenou com a possibilidade de indicar um vice para Haddad. Para o estado, daqui a dois anos, o ungido de Lula para concorrer ao cargo atual de Alckmin parece ser Aloysio Mercadante, imagino que em aliança com a pior escória da política paulista, dentro da política de apoio-não-se~rejeita que garantiu Lula e Dilma.

Não se emocionou? Nem eu. Adoraria empichar Alckmin, Kassab e uns 99% dos ocupantes de cargos públicos no Brasil. Só a bala, e estou velho pra pregar a revolução armada, não sei atirar etc. Por essas e outras que não voto há anos, manterei a posição em 2012, e fico com a segunda alternativa, também ruim. Que é bater em todo mundo. Todos esses caras merecem apanhar, alguns mais que outros; mais que obrigação, é um prazer.

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