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Publicado em 28/08/2015 às 18:43

Ele estuda a desigualdade desde os anos 60 – e sabe como acabar com ela (Como diminuir a desigualdade, parte 2)

Atkinson Ele estuda a desigualdade desde os anos 60   e sabe como acabar com ela (Como diminuir a desigualdade, parte 2)

Sir Anthony Atkinson: o maior especialista no combate à desigualdade

Tem muita gente falando de desigualdade social. E fazendo muito pouco. Falar é fácil. Agir é o que interessa. O Brasil tem tudo para liderar o planeta nisso. É nosso destino. Somos uma das maiores economias do planeta, com recessão e tudo. Mas a riqueza está quase toda concentrada em 0,5% da população. Esses nossos compatriotas super-ricos são os credores brasileiros da dívida brasileira. É quem está se dando bem com juros estratosféricos. Vão faturar firme em 2015. Pagam quase nada de impostos. São os únicos.
Não há como fazer o Brasil mais palatável para os 99,5% restantes sem reduzir os privilégios desses 0,5%. É assim aqui e em qualquer país. Justamente porque aqui a situação é tão insanamente injusta, a oportunidade é tão grande. Um pequeno enfrentamento fará uma enorme diferença.
Não se trata de crucificar os abonados nem santificar a pobreza. É só que o modelo concentrador de riqueza vem dando errado em todos os países. A formulinha de “austeridade” forçada, arrocho e tarifaço e desemprego, é o que levou a Grécia à beira do abismo. Não deu certo lá. Não deu certo na África, no leste Europeu, nos países da primavera Árabe... e não dará certo no Brasil.
Mas há alternativas à política econômica do FMI, que o governo do Brasil nos impõe neste momento? Claro. Muitas. Algumas utópicas nos limites da esquizofrenia. Outras bem pragmáticas.
Um exemplo de pauta prática está no novo livro de Anthony Atkinson, “Inequality: What Can Be Done”. É o maior especialista em desigualdade do mundo. Um senhor de 70 anos, formado em Cambridge, professor da London School of Economics, catedrático em Oxford. Atkinson estuda distribuição de renda desde os anos 60, quando Thomas Piketty usava fralda. Foi mentor de Piketty, aliás.
Por seu trabalho, Atkinson recebeu da coroa inglesa o título de “Sir”. É sempre citado como um dos nomes com grande chance de ganhar um Nobel de Economia. Vamos combinar que ele não é um amador abilolado. Nem um carbonário que pretende incendiar as instituições.
O livro de Atkinson não é trabalho acadêmico e não tem nada de impenetrável. Escreveu para ser lido por qualquer um. O foco é na situação do Reino Unido. Mas suas propostas podem ser adotadas no Brasil ou em qualquer lugar em que a população tenha culhões... e necessidade de mudança urgente.
O que podemos fazer hoje mesmo para criar um Brasil menos desigual? Mais próspero e pacífico? Que recompense a educação, a inovação, o risco? Como diminuir a diferença entre o rendimento do trabalhador e do empreendedor e o rendimento dos investimentos financeiros, responsável pelo abismo crescente entre a elite e os 99,5% restantes?
Atkinson elenca várias propostas. O livro exige tradução urgente para o português. Seleciono quatro:
- Hoje há um grande desequilíbrio de poder entre o capital e o trabalho, entre empregadores e trabalhadores / consumidores. Precisamos de políticas públicas que diminuam a influência do capital.
- Os impostos devem ser progressivos. Quem ganha mais, paga mais. Tony prega que o 1% de super-ricos deve ser taxado em 65% de sua renda. No Brasil eles pagam 6,5% e a classe média alta paga 27,5%.
- Além do imposto sobre a renda, é preciso criar um imposto anual sobre o patrimônio dos mais ricos.
- Criação de um programa de renda mínima universal para crianças (esse já existe no Brasil, e precisa ser muito ampliado e reforçado: o Bolsa-Família).
Sei, são bem arroz-com-feijão. Mas só essas quatro bastariam para fazer um Brasil completamente diferente do que temos. Outras idéias do livro são mais inovadoras. E algumas podem soar estrambóticas, para quem está anestesiado pelo discursinho mercenário dos fundamentalistas das finanças.
Quer um exemplo? Atkinson defende que a inovação tecnológica precisa ser direcionada pela sociedade, através de políticas públicas, para que auxilie a geração de empregos e não o contrário. Parece evidente, mas pela grita contra a proposta de regulamentação do Uber, deve soar como blasfêmia bolchevique para os discípulos do vale-tudo.
Se Atkinson soa radical demais para você, releia o currículo dele, uns parágrafos acima. É um acadêmico respeitadíssimo, um reformista. Radical é quem quer um mundo em que só o capital manda e obedece quem tem juízo.
E repare quem concorda com ele. No dia 14 de junho, o Fundo Monetário Internacional divulgou um estudo chamado Causes and Consequences of Inequality (Causas e Consequências da Desigualdade). Ele foi realizado pelos economistas do próprio FMI.
A principal conclusão: muitas das políticas promovidas pelo próprio FMI são danosas para os países. Exacerbam a desigualdade e prejudicam a produção, o consumo, o emprego.
O estudo defende que as políticas econômicas devem se concentrar em aumentar os salários e qualidade de vida dos 20% mais pobres da população. Aumentar a proteção dos trabalhadores. Estabelecer impostos progressivos (quem ganha mais, paga mais). E criar políticas públicas para reforçar a receita da classe média. O resumo deste estudo é: mais gente com dinheiro no bolso, mais gente consumindo, mais produção, mais emprego. Austeridade é bad for business...
Parece óbvio. E é mesmo. Vamos torcer para esses economistas do FMI não perderem o emprego - se Angela Merkel ler esse estudo, vão todos pra rua. O estudo defende o exato contrário do que a direção do próprio FMI pregou para a Grécia, e que o "mercado", essa vingativa divindade sem rosto, prega para o Brasil.
É preciso inventar à toda velocidade um futuro promissor para a humanidade – um que dê conta de mais 3 bilhões de pessoas, que estão chegando nos próximos 40 anos, e mudanças climáticas brutais. Para isso precisaremos ir bem além das recomendações de Anthony Atkinson, um pensador do século 20. Vamos ter que desbravar os domínios da ficção-científica, embalados por visões fantásticas, embriagados de imaginação.
Mas primeiro há que lidar com nosso medíocre presente, e para dar conta dele não é preciso voar tão alto. Basta pressão social e coragem coletiva. Estratégia na geopolítica e lábia na negociação. Ver, julgar e agir sem vícios. Parece muito? Perto dos desafios das próximas décadas, é só um primeiro - e pequeno - passo.

Publicado em 28/08/2015 às 17:35

Eu apareço demais nesse documentário. Mas você deve assistir mesmo assim

sem dentes Eu apareço demais nesse documentário. Mas você deve assistir mesmo assim

Sou mais que suspeito para falar de Sem Dentes, o documentário sobre o selo Banguela e o rock brasileiro dos anos 90. É dirigido pelo jornalista Ricardo Alexandre, que conheço desde aquela época, e o personagem principal é o Miranda, com quem eu já trabalhava antes disso tudo. Sou velho amigo dos dois. Não fosse isso, apareço no documentário – mais do que mereço pela minha parte nessa história. Mas quem sou eu para reclamar de aparecer demais...

Que tal ver o que os outros andam dizendo do documentário? A Rolling Stone disse que é “um bom retrato do período de insurgência dos independentes”. Alexandre Matias teceu loas no UOL, e melhor elogio, disse que é “hilário”. Eu digo que faltou maldade. Mas sendo Ricardo e Miranda, não tinha como o documentário não ser dominado pelo afeto, porque os dois são uns bonzinhos. Malacos, mas bonzinhos.

O filme revisita a cena roqueira da metade dos 90. Aquela geração: Raimundos, Skank, Nação Zumbi, Mundo Livre, Planet Hemp, Pato Fu e tantos outros. O eixo é o Banguela Records, selo dos Titãs com a Warner, idealizado e dirigido pelo Miranda. Mas o doc vai além. Vai a festivais como Superdemo, Abril pro Rock e Juntatribo. Conta causos, revela segredos. Captura o sabor da época, um tempo em que estávamos embriagados de independência. E relembra uma safra incrível de caras novas tomando a MTV e as FMs e enterrando o rock dos anos 80 – ou pelo menos era o que eu pensava que ia acontecer, mas estava bem enganado...

Assista. Se você não estava lá, não vai acreditar que o Brasil teve uma cena assim. Se estava, meu, é o puro sabor da juventude, quando a gente achava que dava para armar umas paradas boas. E dá, claro.

As novas datas de exibição de Sem dentes: Banguela Records e a turma de 94 são as seguintes:

  • 03 SET MARINGÁ, PR . CINEFLIX
  • 12 SET LIMEIRA, SP . TEATRO ESCOLA DANIEL MARTINS
  • 12 SET TAUBATÉ, SP . SESC
  • 12 SET CAMPINAS, SP . MIS
  • 18 SET SÃO PAULO, SP . CINE OLIDO
  • 25 e 26 SET VOLTA REDONDA, RJ . CINE-TEATRO GACEMSS
  • 02 OUT PARATY, RJ . MIMO FESTIVAL
  • 08 OUT BRASÍLIA, DF . CINE BRASÍLIA
  • 09 OUT RECIFE, PE . MOSTRA PLAY THAT MOVIE
  • 15 OUT FLORIANÓPOLIS, SC . TALIESYN ROCK BAR
  • 20 OUT NATAL, RN . CIENTEC UFRN
  • 24 OUT ANGRA DOS REIS, RJ . CENTRO CULTURAL THEOPHILO MASSAD
  • 29 OUT RIO DE JANEIRO, RJ . CINE ODEON

 

 

 

Publicado em 28/08/2015 às 15:39

Conheça os super-ricos brasileiros – e saiba como você financia a fortuna deles (Como diminuir a desigualdade, parte 1)

Super Ricos Conheça os super ricos brasileiros – e saiba como você financia a fortuna deles (Como diminuir a desigualdade, parte 1)

Os ricos do Brasil são muito mais ricos do que você imagina. São super-ricos. E ficam mais e mais ricos a cada dia que passa. Existem duas razões principais para isso. Os impostos da classe média e dos pobres vão para o bolso dos ricos. E os ricos pagam menos imposto que a classe média e os pobres.

Só agora a gente está entendendo quem são os super-ricos do Brasil. A análise tradicional, feita com as pesquisas do IBGE, não dão conta da realidade. Um novo estudo realizado pelos economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), chega mais perto. Eles  analisaram os dados das declarações de imposto de renda das pessoas físicas. As conclusões são chocantes.

Segundo o IBGE, a renda média do 1% mais rico do país foi de R$ 214 mil em 2012. Mas segundo o estudo do IPEA, a renda anual do 1% mais rico é aproximadamente R$ 575 mil. Explicação: o IBGE não capta toda a renda das pessoas mais ricas, que tem muitas rendas provenientes do capital (como aplicações financeiras, aluguéis, lucros e dividendos).

R$ 575 mil já é uma boa grana: mais de R$ 40 mil por mês. Mas esses 1% ainda não são a elite. Os super-ricos do Brasil ganham acima de 160 salários mínimos por mês. São 0,05% da população economicamente ativa.

Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Isso é 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Essas 71.440 pessoas têm renda anual média de R$ 4.17 milhões, uns R$ 350 mil por mês. Tiveram em 2013, ano analisado pela pesquisa, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões.

E em 2015? Não sabemos, mas é seguro dizer que estão bem mais ricos que em 2015. Quem tem muito capital investe e recebe rendimentos financeiros enormes. Os juros no Brasil são sempre muito altos, mas agora estão estratosféricos. Trabalhar não tem nada a ver com a fortuna crescente dessa turma. Neste nível de renda, trabalha quem quer, não porque precisa.

Qual o negócio mais lucrativo e seguro do Brasil? Emprestar dinheiro para o governo. No Brasil, como na maioria dos países, as contas públicas não fecham no final do ano. Se você tem muita grana, não precisa de criatividade para enriquecer mais e mais. Basta comprar títulos públicos do governo, que paga juros altíssimos para financiar sua dívida. E de onde vem esse dinheiro para pagar os juros? Do Tesouro Nacional, dos impostos que todos os brasileiros pagam.

Mas alguns pagam mais que outros. O detalhe mais cruel sobre a desigualdade brasileira está aí. Os super-ricos brasileiros, esses que ganham mais de 160 salários mínimos por mês, pagam só 6,51% de sua renda de imposto de renda. Você leu certo. Um assalariado que ganhe R$ 5 mil por mês paga 27,5% de imposto de renda. A elite paga 6,51%, como demonstra o estudo do IPEA.

Como isso é possível? É que 65,8% da renda total desses super-ricos são rendimentos considerados isentos e não-tributáveis pela legislação brasileira. É o caso dos dividendos e lucros. Na prática, o imposto de renda aqui só é progressivo do pobre até a classe média, que é justamente a fatia da população que mais paga imposto de renda. É uma receita perfeita para aumentar cada vez mais a desigualdade social no Brasil. É garantia de injustiça, ignorância, violência. E até de atraso em outros campos. Se fala muito que o Brasil tem pouca inovação tecnológica, mas quem vai arriscar capital investindo em inovação, se você pode faturar com juros altos e não pagar quase nada de imposto?

Essa bizarria cruel é criação brasileira. Todos os países decentes, sejam ricos ou emergentes, tributam todos os rendimentos das pessoas físicas. Não interessa se a renda do salário, de aluguel ou de dividendos. É o justo. É o mais eficiente para o bom funcionamento dos países.

O estudo do IPEA não captura com precisão absoluta a pirâmidade social brasileira. Não dá conta de dinheiro escamoteado, de caixa 2 ou remessas enviadas ao exterior. Mas já dá uma noção do tamanho do escândalo. Agora, como é focado no Imposto de Renda, não leva em consideração outra grande injustiça do nosso sistema tributário, que são os impostos indiretos.

Os super-ricos pagam o mesmo imposto sobre produtos que você, eu ou a vovó que recebe Bolsa Família. Pagam o mesmo imposto pelo arroz, o café, o remédio, o fogão. Isso significa que proporcionalmente o pobre paga muito mais imposto a classe média. E infinitamente mais que a elite.

Os super-ricos não são os vilões dessa história. As regras estão aí para beneficiá-los. Não é ilegal. Certamente há na elite gente que topa abrir mão de suas vantagens, em benefício de quem mais precisa... Mas, como era de se esperar, existem super-ricos que atuam diretamente para que esse estado de coisas continue exatamente assim: juros altíssimos e taxação mínima. Basta isso para os donos do capital ficarem mais e mais ricos a cada ano que passa, sem trabalho, sem esforço, sem contribuir para o país.

Os super-ricos têm muito poder. Influenciam muito no debate político e econômico. Abundam na imprensa argumentos a favor de que as coisas se mantenham como são. E são super-ricos os financiadores das campanhas da maioria dos políticos, claro.

A recessão radicaliza a injustiça. Penaliza o trabalhador e o empreendedor, o importador e o exportador, o estudante e o aposentado. Esta recessão não veio do espaço sideral. Foram tomadas decisões erradas no passado? Claro, muitas, desde 1500. Mas não dá para mudar o passado. O futuro felizmente está ao nosso alcance.

Esse ano e os próximos serão muito difíceis. O cenário internacional é hostil. O cobertor está curto. É imoral e improdutivo continuar enriquecendo 0,5% com o dinheiro dos impostos dos 99,5%. Enfrentar os privilégios dos super-ricos é a pauta política e econômica fundamental de 2015 e dos próximos anos. O resto é resto.

Publicado em 19/08/2015 às 10:25

A Batgirl que eu conheci

Em 1995 vivi uma das maiores emoções da minha vida. Vai me chamar de nerd bestalhão? Quando eu crescia não existia esse negócio de nerd. Não gosto a22 A Batgirl que eu conhecidessa palavra. Curtir — e curtir de verdade — ficção científica, seriados, quadrinhos e companhia era simplesmente uma coisa muito bacana. E continua sendo.
Eu comecei nessa vida com Batman. Antes de aprender a ler, e aprendi muito cedo com minha mãe, tenho lembrança de ver o seriado. Eu levava a sério porque os mocinhos levavam a sério. Aqueles bandidos surreais com seus planos mirabolantes — e nossos heróis espalhando comentários edificantes (e socos com BLAM! POW! BIFF!).

Batgirl mais ainda. Era bibliotecária, moça seríssima, filha do Comissário Gordon. E de repente a penteadeira dela virava e disparava em sua motoca a deliciosa Batgirl.

Quando apareceu? Um belo dia. Hoje sei que foi invenção dos roteiristas para enfrentar os comentários que Batman e Robin eram um casal homossexual (coisa que nunca me passou pela cabeça na época. É tese dos anos 50, do livro A Sedução dos Inocentes, e me parece igualmente furada hoje. Batman e Robin são obviamente pai e filho, e hoje são de fato nos quadrinhos).

A TV era preto e branco. Muitos anos depois vi Batgirl em seu esplendor púrpura radiante. Em cinza já era  matadora. Que gata. Rosto delicado, curvas letais. Mais gata só Julie Newmar. Mas a Mulher-Gato só dava as caras de vez em quando, e a Batgirl começou a aparecer em todos os capítulos.

As meninas da época escolhiam quem queriam ser quando crescer: Batgirl ou Mulher-Gato, a Feiticeira ou Jeannie. Os meninos tinham opção mais fácil: paixão por todas.

E nos anos seguintes eu brincava de encontrá-las em outros seriados. Olha aqui a Yvonne Craig no Cyborg! No James West! É ela mesmo debaixo dessa maquiagem verde em Jornada nas Estrelas?

yvonne3 A Batgirl que eu conheci

Em 1995 eu estava na Comic Con com meu amigo e sócio, Mauro Martinez dos Prazeres, da Devir. Já era um grande evento da cultura pop, mas ainda bem focado em quadrinhos, não esse monstro multimídia de hoje. Nunca fui de pedir autógrafos e nem Mauro. Não resistimos. Autografavam Adam West, Julie Newmar e Yvonne Craig. As duas primeiras fotos estão na parede da minha sala: Batman e Mulher-Gato, com dedicatórias. A da Batgirl publicamos na revista Herói e sumiu na redação há muitos anos.

Adam já era velhinho, ou me pareceu — eu tinha 30, qualquer um acima de 50 era coroa pra mim. Julie se mantinha charmosa e ronronou, juro, me chamou de darrrrrling. Yvette não era relíquia: era uma morena bonita. Um pouco mais cheinha que na minha infância, mas os olhos puxados e o meio sorriso estavam lá.

Morreu agora aos 78 anos. Quando me olhou nos olhos tinha 58. Hoje eu é que tenho 50. A vida passa rápido. As paixões da infância são para sempre.

yvonne21 A Batgirl que eu conheci

Um dos textos que eu mais curti escrever na vida, e um dos mais elogiados por gente que gosta do que eu gosto: porque não sou nerd.

E outra versão da mesma história, agora sobre meu outro amor de infância, Julie Newmar.

Publicado em 17/08/2015 às 16:06

99% dos brasileiros não foram às ruas contra o PT. Está na hora de ouvir o que eles têm a dizer

Impeachment 99% dos brasileiros não foram às ruas contra o PT. Está na hora de ouvir o que eles têm a dizer
Quase um milhão de pessoas foram às ruas este domingo pedir o impeachment de Dilma Rousseff. Bastante gente. Menos que parece. Somos 204 milhões de brasileiros. Mais de 99% dos brasileiros ficou em casa. Estão certíssimos. Aliás estamos. Também não fui gritar contra o PT. Ausência não significa aplauso. Muito pelo contrário.
A crise econômica chegou com tudo. Pega nossas famílias, vizinhos, amigos. A fábrica, a fazenda e a start-up. Está pegando geral. A situação internacional não ajuda, mas as causas principais são locais mesmo. A Operação Lava-Jato é ótima, mas na prática tirou uns R$ 50 bilhões da economia. E a política recessiva do governo. Que de ótima não tem nada.
Até José Serra está metendo o pau. Em entrevista ao jornal “Valor Econômico”, o senador tucano surpreendeu ao dizer que a política de ajuste é “burra” e “aprofunda o desajuste”, que a política monetária cambial é “uma insanidade”. Fácil falar isso quando se está na oposição. Mas a facilidade não quer dizer que não seja verdade.
Brasileiro é ignorante. Nos falta formação e informação, porque aqui faltou e falta escola. Somos bem burrinhos na hora de defender coletivamente o nosso. Mas individualmente o brasileiro é bem esperto quando se trata de defender o seu.
Seu João Brasileiro e dona Bete Brasileira sabem que trocar presidente não bota feijão na panela nem quita a conta do celular. Lembram que Aécio e Marina propunham exatamente essa política econômica que hoje Serra critica e a presidente pratica (embora Dilma tenha prometido ano passado que não ia governar para os bancos, e sim para o povo brasileiro. Essa parte todo mundo lembra especialmente bem).
Nossos compatriotas também têm perfeita clareza que um impeachment de Dilma põe no Planalto Michel Temer. O vice-presidente defende essa mesma política recessiva. Levaríamos ao poder o PMDB, partido com um mundo de casos de corrupção.
Quando estouraram os primeiros escândalos envolvendo o PT a vida melhorava ano após ano. Assim se reelegeu Lula e se elegeu Dilma. Política é assim mesmo, concluía o sábio brazuca, e votava com o bolso.
Mas agora que todos sofremos com as consequências dessa política econômica, da operação Lava-Jato, da paralisia em Brasília, o brasileiro faz uma ligação diferente. É assim: "estamos nessa roubada porque os políticos roubaram tanto, que quebraram o país". Se não é verdadeiro, é bem dito, como se diz na Itália. É a economia, estúpido, não a política.
Temos essa parcelinha dos brasileiros que quer tirar o PT do poder a qualquer preço. Alguns até defendem isso ao preço da nossa própria democracia, tão falha, tão frágil. E uma meia-dúzia ainda defende cegamente Lula e Dilma. Para esses todo opositor é coxinha, todo jornalista é canalha, todo crítico é golpista. São minorias míopes. Dominam o debate numa gritaria inócua e interminável. Chega, né?
Brasileiros de todas as camadas vão dando as costas a esse maniqueísmo maníaco. O povão que ficou em casa em vez de gritar contra o governo. E semana passada vimos empresários, banqueiros e companhia pedindo calma e exigindo estabilidade. Há que baixar a bola para poder manter o olho nela.
Escrevi aqui em maio que se continuarmos nessa toada, o Brasil é a próxima Grécia. Vamos quebrar e quebrar feio. Agora ficou evidente. Essa política econômica é ruim para todo mundo.
Os 99% que não foram para as ruas falaram. O que eu ouvi foi: nós não somos contra o PT. Nem o PSDB e nem o PMDB. E muito menos a favor. Nós somos contra a corrupção, seja qual for o partido. Somos contra essa política econômica que causa recessão e inflação. Queremos sossego para trabalhar, empreender, criar nossos filhos e curtir nosso domingão. Queremos menos politicalha e mais pragmatismo. Para ontem.
É querer muito? É exigir o mínimo. Político tem obrigação de ouvir a voz das ruas. Mas dessa vez o grito mais alto veio de quem ficou em casa.

Publicado em 07/08/2015 às 15:55

O que uma banda de rock tem a oferecer depois de 37 anos?

Duran Duran PG 2 1 1024x576 O que uma banda de rock tem a oferecer depois de 37 anos?

Ouvi muito e ouço sempre o último disco do Duran Duran, "All You Need Is Now", de 2010 - já? Foi o primeiro trabalho em duas décadas com o espírito da banda: pop urgente e glamuroso, dançável e existencial, quente e glacial. Obra do produtor Mark Ronson, fã deles desde criancinha. Como eu, que sou desde 1981.

Em setembro finalmente chega o próximo, Paper Gods. O primeiro single está na rua, "Pressure Off". Traz a voz de Janelle Monae e a guitarra fina de Nile Rodgers, que produziu o álbum "Notorious", lá nos anos 80. Olha ele aí, mr. Simpatia, nos bastidores da produção da faixa.

O Duran Duran ao vivo é maravilhoso. Nos estúdios, o histórico é irregular. Todo disco tem umas boas, às vezes inesquecíveis, e quase todo disco é cheio de tropeços. Essa não é divina, mas funciona. Nile honra seus riffs mais deliciosos no Chic. É um dos produtores do álbum, com Mark Ronson e Mr. Hudson, produtor de Kanye West.

O baixista John Taylor fundou o Duran Duran em 1978 com o objetivo de ser "uma mistura de Chic e Sex Pistols". Não conseguiu, mas fez bonito, e continuam fazendo - 37 anos depois.

Publicado em 04/08/2015 às 09:04

Crise no clima: a América queima. Mas o futuro é muito mais assustador

paolo bacigalupi 300x195 Crise no clima: a América queima. Mas o futuro é muito mais assustador

Tempestades de areia. Violência fora de controle. Infraestrutura urbana em pedaços. Refugiados arriscando a vida para atravessar fronteiras. Síria? Congo? Não, Estados Unidos. Basta que uma coisa aconteça: que as mudanças climáticas que afetam os EUA em 2015 continuem nas próximas décadas, como preveem os cientistas. E que continuemos todos  fazendo que o aquecimento global não é com a gente - eu, você, o empresário, o presidente.

A realidade reverbera na ficção. Manchetes dessa semana: incêndios e enchentes assolam a Califórnia; tornados destróem no meio-oeste; Obama lança novo (e tímido) plano para reduzir a emissão de CO2, imediatamente bombardeado pelos seus opositores republicanos e lobbies do setor energético.

É na América e em todo lugar. Notícia do Japão: 25 morrem por causa do calor. Notícia do Brasil: inverno infernal, 25 graus à sombra, e continuamos com a torneiras secas na cidade mais rica do país. Vai piorar.

Nada é tão realista quanto um romance. Quer ver o que o futuro nos reserva? The Water Knife responde com sangue nos olhos. É um thriller violentíssimo, que honra "Chinatown" e "Era uma Vez No Oeste"  tanto quanto suas evidentes inspirações na ficção científica, William Gibson, Bruce Sterling, Neal Stephenson.  Estamos na distopia, mas não no apocalipse. Nada de fantasias brucutu a la "Mad Max". Paolo Bacigalupi busca tanto eletrizar quanto informar, o que não se faz em um vácuo voyeurista.

The Water Knife significa "Faca de Água". É uma profissão: gente especializada em cortar o fornecimento de água de quem não tem como pagar - pessoas, bairros, cidades inteiros. Custe o que custar, pelo lucro do dono da água.

Estamos no Terceiro Mundo, século 21, USA-style. No que restou da cidade de Phoenix, no Arizona, onde o clima sempre foi inimigo do homem. No século 20, a tecnologia levou água e com ela fartura a esse território empoeirado. No 21, o aquecimento global seca mananciais e faz os desertos mais desertos. Arizona, Texas, Novo México se esvaem em areia. Na costa não está melhor: cidades costeiras com recursos constróem diques para conter a subida do nível da água e tufões mais e mais violentos. Quem não pode afunda - Miami é tomada pelo mar. New Orleans, por um furacão bem maior que o Katrina.

A principal fonte de água doce de Phoenix vinha das montanhas rochosas, bem longe. A Califórnia, mais rica, quer ficar com essa água. Las Vegas é paraíso fechado, condomínio-fortaleza para ricos. Milhões penam.  O sul seco dos Estados Unidos se despedaça.

A briga pela posse dos direitos da água envolve capitalistas cowboys, corporações chinesas, políticos corruptos. E os Narco States, o norte do antigo México, uma nação controlada pelos traficantes, como já começa a ser hoje.

Sociedades que apodrecem geram vermes e abutres. Onde há lucro possível com o sofrimento alheio, o homem cede aos seus instintos mais baixos. Faço o que faço porque é a única maneira de sobreviver. Se não for eu, um outro fará. É a moralidade que resta, e quem a ela não adere é louco perigoso. Como diz a personagem Maria, uma jovem órfã texana que vive de vender copos de água, gente que "não vê o mundo como ele é, tem olhos do passado".

The Water Knife tortura seus personagens até a última página - e além. Bacigalupi descreve um cenário doloroso porque convincente.  O livro devia ser leitura obrigatória para os adolescentes do planeta Terra. E eles iam gostar bastante, porque educação sem sermão, e tenso e sexy, também. É o mundo que deixaremos para eles. Adoraria ler algo parecido sobre o Brasil, onde as previsões começam com o Nordeste se tornando um deserto do Saara e milhões de nordestinos migrando para o Sul - e aí pioram bastante. Quando? Nossos netos verão.

O autor já ganhou os principais prêmios da Ficção Científica, o Hugo e o Nebula. Encerra o livro com uma lista de referências onde o leitor pode se informar mais sobre mudança climática. Mas esse livro não é para leitores de ficção científica. É sobre o presente. E como precisamos mudá-lo.

O aquecimento global está aí, inquestionável, nas manchetes do dia. Impõe nossa reinvenção energética. Força um realinhamento econômico global. Desafios que estão muito além da mera inovação tecnológica. E do voluntarismo estéril das campanhas estilo "cada um tem que fazer a sua parte."

Minorar os efeitos mais cruéis do aquecimento global exige enfrentamento político. O autor sabe disso e não acredita em mudança fácil. Paolo Bacigalupi aposta no poder inspirador da informação e da emoção. É o único caminho. Tempos quentes exigem cabeças frias e corações fervilhantes.
______________________________________
Leia aqui o primeiro capítulo de The Water Knife.

http://www.wired.com/2015/05/water-knife-excerpt/

Califórnia queima 300x156 Crise no clima: a América queima. Mas o futuro é muito mais assustador

 

Publicado em 31/07/2015 às 17:59

Falta muito ao governo Dilma. Mas sobram R$ 5 bilhões para jogar na latrina

 

 Falta muito ao governo Dilma. Mas sobram R$ 5 bilhões para jogar na latrina

Nos próximos dias o Ibope vai divulgar o seu Índice de Confiança Social, como faz desde 2009. José Roberto Toledo adianta em sua coluna no Estadão o resultado. Presidência e congresso empatarão na falta de prestígio: 78% dos brasileiros não confiam nessas duas instituições. Recorde de baixa nos dois casos.
Como poderia ser diferente? Dilma descumpre o que prometeu na eleição. Faz a exata política econômica proposta por Aécio Neves. Promove tarifaço, recessão e alta de juros. Crédito evaporou. Produção e varejo estão paralisados. A arrecadação cai, o déficit explode. Deu errado na Grécia, está dando muito errado no Brasil.

Enquanto isso, o governo comemora "economia" na compra de 36 aviões de caça da Suécia. Negociou para abaixar os juros do negócio. Com isso o Brasil economizará R$ 600 milhões. "A presidente Dilma ficou satisfeita com a negociação bem sucedida", disse o ministro da Defesa, Jacques Wagner. O projeto total está orçado em R$ 5 bilhões.

O Brasil corta investimento em escola, hospital, segurança, aposentadoria, salário-desemprego. Mas temos R$ 5 bilhões sobrando para importar aviões de caça, para "proteger nossas fronteiras"?
No mesmo dia em que o governo comemorava essa maravilha de desconto para a compra dos caças, lançava também uma nova plataforma digital para melhorar a comunicação com a sociedade. É o "Dialoga Brasil". Através desse site as pessoas podem dar opiniões e sugestões para a presidência da República.
No lançamento, Dilma disse que para melhorar seu governo é preciso uma "parceria com a sociedade". Afirmou para uma platéia de simpatizantes que "é muito difícil governar um país da dimensão do país sem ouvir as pessoas." Segundo ela, os três eixos são: "O que dá para melhorar no que estamos fazendo? O que a gente deve introduzir nos programas de governo? E o que é possível fazer que ainda não vimos?"
O que é possível fazer? Focar no essencial. Avião de caça, num país sem guerra nem inimigos, é a própria definição do supérfluo. Quer provar que ouve os brasileiros, sua excelência? Começa cancelando esse negócio com a Suécia, que tal?
O Brasil tem longa tradição de políticos que defendem o diálogo mas praticam o monólogo. Dilma vai além. Pedir "parceria com a sociedade”, no mesmo dia em que se confirma a compra desses caças, R$ 5 bilhões nossos jogados na latrina, já não é mais falta de sensibilidade política. É falta de respeito.

Publicado em 23/06/2015 às 16:27

Quando é mais importante ler: a liberdade infinita da literatura juvenil

magic book Quando é mais importante ler: a liberdade infinita da literatura juvenil

Existem livros mágicos. Quem lê um deles vai para sempre acreditar no poder mágico dos livros, do livro. "Harry Potter e a Pedra Filosofal" é um dos mais impressionantes. A escala e a velocidade de seu sucesso sugerem alquimias secretas. O jovem bruxo não se materializou por encanto. Mas gerou um furacão inesperado. Fez do segmento "livro juvenil" o mais quente da indústria editorial. Com consequências no cinema, no merchandising, nos videogames e na TV.

Mas que é um livro juvenil? Até recentemente, a indústria do livro dividia a literatura em dois grupos principais, "adulta" e "infantil" (ou "infanto-juvenil", outro nome, mesmo significado vago). Neste último segmento, agrupava álbuns coloridos para nenês e tijolos de 700 páginas. Para fazer uma ideia: em dezembro de 2001, a revista "Publisher's Weekly", bíblia do mercado editorial, publicou a lista dos 276 livros infantis que venderam mais de 1 milhão de cópias nos EUA. O mais vendido é "Charlotte's Web", de E.B. White, criadora do ratinho Stuart Little. Em seguida, vem "Outsiders", escrito aos 18 anos por S.E. Hinton e filmado por Francis Ford Coppola. Nada a ver um com o outro.

Cabe de tudo na lista. Das Tartarugas Ninja a gente como Dr. Seuss ("O Grinch"), R.L. Stine (da coleção de terror juvenil "Goosebumps") e Roald Dahl ("A Incrível Fábrica de Chocolate"). No Brasil também se mistura banana com laranja. Vi listas de best-sellers infanto-juvenis com "1984" e "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, e "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, ao lado de Cinderela e Cebolinha.

O escritor de ficção-científica Thomas M. Disch diz que os bons autores de livros para adolescentes devem manter a clareza e a inocência de garotos sabidos como Peter Pan. Chama Neotenia. É como os biólogos batizaram a retenção de características imaturas ou larvais no estágio adulto. Para Disch, "os jovens não são seres inferiores, nem miniadultos. São apenas diferentes dos adultos". Têm outras necessidades, outros interesses, outro humor, menos respeito pelo passado, muita curiosidade sobre o futuro, pouca paciência com regras que não criaram, imaginação fértil e muita pressa.

O homem é uma espécie que conta histórias, conta o biólogo Steven Pinker. Para ele, a criança que se encanta com um conto de fadas está fazendo uso de uma herança genética da humanidade. Pinker defende que essa capacidade é uma vantagem evolutiva. Em todos os cantos do planeta, as linguagens são divididas em objetos e ações: substantivos e verbos. Elas nos permitem transmitir informações sobre o que vai acontecer depois, organizando fatos numa sequência temporal.

Não há maneira melhor de transmitir informação densa do que por meio de uma história. Por isso elas têm poder. E os livros incorporam esse poder. Cada livro lido nos muda. Passa a fazer parte da nossa história pessoal. A sequência das obras lidas por cada um é única, pessoal e intransferível. A adolescência é nosso período de liberdade máxima como leitores. Já temos repertório e ambição suficientes para encarar qualquer "lista telefônica". E não temos, ainda, as obrigações sociais que fazem de boa parte da leitura madura um tedioso desfile de manuais (como dar um jeito na economia, na carreira, escolher o vinho, diminuir a barriga etc.). É um castigo que já começa com as leituras obrigatórias para o vestibular (a maldição de "Iracema"). O problema é que se o adolescente não se apaixona pela leitura, nunca mais. É a idade em que é mais importante ler ficção.

O psicólogo Jean Piaget defendia que, nessa fase, "o ser humano está tentando dominar os elementos que lhe faltam para a razão adulta. Precisa aprender a lidar com ideias abstratas e, por isso, precisa ler livros que lidem com abstrações". Deve, portanto, ler histórias fantásticas e selvagens. Quando você não sabe exatamente do que é capaz, precisa de horizontes distantes e ideias desafiadoras. Exige viver aventuras perigosas que testem seus limites. É por essa razão que todo leitor, nessa fase, adora se apossar de livros escritos para adultos. Pode ser uma velharia desbeiçada e empoeirada da estante, herança do irmão mais velho ou do avô.

Qualquer leitor esperto de 13 anos digere numa boa um best-seller típico, que muitas vezes é um livro juvenil para adultos, disfarçado. E quem já passou dos 50 e não leu Sidney Sheldon, Danielle Steel, Irving Wallace ou Morris West no ginásio que atire a primeira pedra. A adolescência também é o momento em que alguns de nós se apaixonam perdidamente por gêneros — principalmente, o policial ou a ficção científica. Com duas vantagens. Uma, você sempre tem uma noção do que te espera. Outra, você tem a história inteira do gênero à sua disposição. Quem se apaixona por Agatha Christie vai descobrir Georges Simenon e Raymond Chandler. Quem fica louco por Isaac Asimov acaba encontrando H.G. Wells e William Gibson. Tipo da paixão que bate e fica. Nenhum desses autores buscava o leitor juvenil. Nem os grandes autores de aventura, como Robert Louis Stevenson e Jack London. Zorro, Drácula, Sherlock Holmes, Conan e o Capitão Nemo foram criados para a diversão de pais, não de filhos. Deram origem e foram parcialmente substituídos pelas histórias em quadrinhos e, mais recentemente, pelos jogos eletrônicos. Essas obras continuam clássicas e são lidas até hoje.

Os romances escritos especificamente para adolescentes são diferentes e muito fáceis de reconhecer. São estrelados por garotos e meninas da mesma faixa etária do leitor, saindo de seu cotidiano e adentrando um universo desconhecido. Enfrentam bruxas, desvendam conspirações, escondem-se em foguetes, lideram piratas. Muitas vezes, também sofrem e sangram. Alguns apresentam universos paralelos para onde o leitor adoraria se mudar, ou de onde ele fugiria voando. Os melhores apresentam as virtudes e desvantagens de cada lado do espelho, com os protagonistas simultaneamente abraçando e rejeitando os dois campos opostos. Exatamente como o adolescente, que mantém um pé na infância enquanto dá um passo maior que as pernas em direção à maturidade. O maior clássico juvenil desse tipo é "O Apanhador no Campo de Centeio", de J.D. Salinger — melhor se lido até os 15 anos e relido periodicamente depois disso.

A inglesa Joanne Kathleen Rowling, criadora de Harry Potter, escreve livros assumidamente juvenis e é o paradigma do segmento. Soube combinar muito bem duas vertentes tradicionais da literatura de seu país: os livros que se passam em internatos e a paixão pelo ocultismo. Aventuras divertidas em colégios internos rígidos são populares na Inglaterra há muito tempo. O crítico inglês Francis Spufford tem uma boa explicação para o sucesso desses livros. As escolas internas são "cidades de crianças". Não há pais por perto. São um espaço de liberdade, onde as regras —justamente por serem externas e impostas— podem ser quebradas ou enfrentadas, sem culpa. O que importa são as regras de convivência estabelecidas pelas próprias crianças: como aprendemos a conviver com nossos semelhantes e diferentes. Inclusive o garoto riquinho e metido da turma inimiga, o velho mestre misterioso, a professora insuportável e a garota tapada. É por isso que Harry e seus leitores adoram o colégio Hogwarts. Esses livros de internato fazem parte do que Spufford chama de "estágio da cidade", quando o jovem leitor passa a se interessar por livros que exploram a convivência realista entre as pessoas. Seja numa fazenda, numa ilha secreta, num vilarejo do velho oeste ou num internato. Na Inglaterra, essas obras exploram também a relação entre as classes sociais.

O ambiente escolar é a única grande diferença entre Harry e o personagem Tim Hunter, criado por Neil Gaiman, em 1990, na minissérie em quadrinhos "Os Livros da Magia". Tim é um garoto órfão, míope, tímido e moreno, de 13 anos. Um dia é levado para conhecer o universo da magia. Se cumprir seu treinamento, poderá se tornar o maior mago do universo. Ganha um mascote/totem para sua jornada: uma coruja, símbolo da sabedoria secreta. Bem parecido com Harry, que só estreou sete anos depois. Gaiman garante que Rowling não plagiou sua criação, mas se inspirou na mesma fonte que ele: a tradição mágica britânica. Há desconfianças de que que houve acordo entre os autores. Realmente as artes na Inglaterra têm ligação tradicional com o oculto. E não só em tempos antigos. A ilha deu ao mundo o mais famoso mago do Século 20, Aleister Crowley. A partir dos anos 60, presenciou a renovação do misticismo e o aparecimento de uma nova geração de criadores fortemente envolvidos com magia. Entre os mais conhecidos estão os escritores de livros e quadrinhos Alan Moore ("A Voz de Fogo" e "Do Inferno") e Grant Morrison, cuja cultuada série "Os Invisíveis" foi a matriz de "Matrix", o filme.

No Reino Unido, até as obras de respeitáveis acadêmicos cristãos, como o inglês J.R.R. Tolkien e o irlandês C.S. Lewis, têm componentes místicos muito fortes. Amigos e contemporâneos, os dois faziam parte do grupo de intelectuais conhecido como "os cristãos de Oxford", criado nessa universidade na década de 30. Colocaram todo seu fervor religioso nas obras que lhes deram fama, "O Senhor dos Anéis" e "As Crônicas de Narnia". Tolkien, estudioso da literatura saxônica, pretendia, com a "saga do anel", criar uma mitologia artificial, mas crível, e tipicamente inglesa, à altura do que imaginava que o país merecesse. Foi mais bem sucedido do que poderia imaginar. Sua influência se espalhou pela cultura mundial. Está aí "Game of Thrones".

Tolkien assumia que a Terra Média era um mundo pré-cristão, cuja história se passava antes do pecado original. Não se incomodava com os paralelos entre o pão dos Elfos e a eucaristia, ou entre Galadriel e a Virgem Maria. Só admitiu que "Gandalf é um anjo". Lewis foi além. As sete "Crônicas de Narnia" são o mais explícito proselitismo cristão, com meninos e meninas explorando um universo paralelo muito imaginativo, onde reina o leão Aslan, o Cristo dessa outra realidade. O primeiro livro, "O Leão, a Bruxa e o Guarda-Roupa", voltou às listas de mais vendidos pelo mundo afora e é muito recomendado por igrejas cristãs da Inglaterra e dos Estados Unidos. É um dos autores prediletos de J.K. Rowling.

Outra grande influência na criação de Harry Potter é Diana Wynne Jones, a grande dama da fantasia inglesa. Escrevendo para jovens desde 1973, já tem vários clássicos no currículo, inclusive os quatro volumes das "Crônicas de Chrestomanci", iniciadas em 1977 e agora popularizadas fora da Inglaterra. Seu personagem principal, o garoto Christopher Chant, é um mago que guarda os portais entre os mundos. Também anterior à "explosão Potter" foi Terry Pratchett , o autor mais vendido do Reino Unido nos anos 90, em qualquer gênero. Somente agora está ficando popular em outras línguas. A série "Discworld", iniciada por "A Cor da Magia", une fantasia alucinada com o mais idiossincrático humor inglês. Terry nos deixou em 2015.

Philip Pulmann ocupa um lugar especial. Ganhou prêmios literários importantes e tem admiradores e detratores igualmente apaixonados. A razão é que sua trilogia "Fronteiras do Universo" é herética, um libelo anti-religioso e anticristão. Inspirada no "Paraíso Perdido", de John Milton, a série relata a batalha final entre a Autoridade, as forças do controle e do ritual, que aprisionam a humanidade há milênios, e a República do Paraíso, que vem lutando pela liberdade desde que os anjos se rebelaram contra Deus. Pulmann é um paradoxo: coloca sua imaginação incomparável a serviço de um elogio do materialismo. Diz que "depois de comida, teto e companhia, não há nada que o homem deseje tanto quanto histórias".

(Escrevi esse texto para o caderno Sinapse, da Folha, em 2002, quando a literatura juvenil começou a explodir, antes de virar o segmento gigante que é hoje, antes de Crepúsculo, Jogos Vorazes, Extraordinário, John Green etc. E, porque não, 50 Tons de Cinza... Hoje são vários ramos, pra menino, menina, mais romântico, mais fantástico etc. O artigo envelheceu um pouco, cortei uns pedaços. Mas ainda há o que aproveitar. Leio de vez em quando um livro bem juvenil, por prazer - recomendo Extraordinário, Jogador Número 1, e A Livraria 24 Horas do Sr. Penumbra. E finalmente tenho um filho na idade para ler essas coisas. Lerá? Veremos. A assinatura do artigo na Folha era: "André Forastieri, 37, é editor e co-fundador da Conrad Editora, especializada no leitor jovem. Agradece a Valderez, sua mãe, por tê-lo ensinado a ler, e a João Carlos, seu pai, pela coleção completa do Sítio do Picapau Amarelo, que ganhou em 1972.")

Publicado em 19/06/2015 às 17:27

O Brasil é a próxima Grécia

1STU9869 Editar 11 1024x682 O Brasil é a próxima Grécia

Christine Lagarde e Dilma: o Brasil se rendeu à política econômica pregada pelo FMI. Se deu errado na Grécia, porque dará certo aqui?

Imagine que você tem uma dívida com um agiota. Você trabalha duro, mas não consegue pagar o principal da dívida. Afinal, há que viver e você tem uma família para sustentar. Mas todo mês paga direitinho os juros.
Aí o agiota sobe unilateralmente os juros da sua dívida. Você não consegue mais pagar os juros. Começa a vender as coisas da sua casa para cumprir seu pagamento. E no mês seguinte, o agiota sobe mais ainda os juros. Você já vendeu a os móveis, a TV, a geladeira.
E ele sobe os juros de novo. A dívida não para de aumentar. Sua família já está dormindo no chão e vivendo de pão e água. E aí o agiota sobe os juros de novo. Você tem que escolher entre comer e pagar os juros da sua dívida. Que continua aumentando. E você já sabe que mês que vem, os juros vão subir mais ainda. Sem fim.
Este é o resumo da política econômica do governo brasileiro. É extremamente eficiente para somente duas coisas: empobrecer a população e enriquecer os agiotas. Se miopia tecnocrata ou cegueira seletiva, tanto faz. Se fosse só isso era suportável. Nos resta tentar enxergar onde estamos e para onde vamos. É doloroso. Não desvie os olhos.
O analista da de crédito da agência Moody´s está vindo para o Brasil. A nota de crédito do Brasil será rebaixada pela Moody´s. Se continua a despencar, o Brasil perde o “grau de investimento”. Significa que os credores do país deixam de acreditar que pagaremos nossas dívidas em dia.
Profecia: não vai acontecer. O Brasil vai vender os móveis, a casa e a família, mas não deixará de pagar os agiotas em dia. É a ordem do dia. Esta decisão tem consequências.
Do jornal Valor Econômico: “Sem capacidade de gerar receita e com pouco espaço para aumentar impostos e mesmo cortar ainda mais os gastos, a almejada sustentabilidade do endividamento pode ser questionada. A dívida bruta, que tem mais peso na avaliação de risco pelas agências de rating, deve fechar 2015 em nível recorde de 63,4%, ante 58,9% em 2014.” E título de outra matéria do Valor: “Mesmo com demanda fraca, inflação resiste”.
As vendas de tudo estão caindo. Abril teve o pior resultado do varejo desde 2001. E mesmo assim a inflação sobe. Por quê? Duas razões fundamentais. A mudança no câmbio, que desvalorizou o real. E porque subiram muito os custos da energia elétrica, água, gás e combustível. Justamente os preços que são administrados pelo poder público.
Ou seja: o governo sobe as tarifas, para aumentar a arrecadação. A inflação sobe. Com a desculpa de segurar a inflação, o governo sobe os juros. Só que a inflação é causada pela desvalorização do real e pelo tarifaço. Não tem nada a ver com a demanda.
Pois os juros altos aumentam a dívida do governo. Paralisam a produção: férias coletivas para todo lado. Alimentam o desemprego: menos 115 mil vagas em maio, e isso só as com carteira assinada. Esvaziam as lojas. Quebram as empresas. Derrubam a arrecadação. O que leva as agências de crédito a nos punir. O que leva o governo a subir mais ainda os juros, retalhar mais as aposentadorias, reduzir mais o orçamento da saúde, educação, segurança.
O Brasil tinha uma decisão a tomar sobre nossos desafios econômicos. Vamos repetir a saída de 2008, crise global que de fato aqui não passou de uma marolinha, porque os bancos públicos irrigaram a economia com juros baixos? Que tal apostar todas nossas fichas na produção, na educação, na inovação? Ou vamos seguir a receita de “austeridade” do sistema financeiro?
Todos os candidatos à presidente em 2014 tinham a mesma proposta: “austeridade”. Tanto faz se operada por Joaquim Levy, Armínio Fraga ou quem fosse. Levy, aliás, foi aluno do professor Fraga, e por isso mesmo escolhido por Dilma. É funcionário de carreira de banco. Segue à risca a receita que levou a Grécia ao buraco: um quarto dos gregos desempregados, o resto também na roubada, e a um passo de dar um calote na sua dívida.
A política econômica do governo é a opção mais danosa socialmente e menos eficiente economicamente. É a formulinha do FMI que petistas e tucanos renegavam nos anos 80, e que nem o FMI defende mais. Hoje a base tucana cobra do PSDB apoio a Levy, mesmo vendo a economia derreter, porque “menor dos males”.
As consequências sociais deste arrocho histórico são previsíveis: custo humano brutal e crescente. As consequências políticas são imprevisíveis. O Plano Real matou a inflação em 1994. Metade dos brasileiros cresceu sem inflação nem desemprego. Não têm noção do que é isso. Milhões de jovens, analfabetos e bacharéis, levando porta na cara – barulho ensurdecedor.
Não há sinal de solução vindo do poder público. Não virá da iniciativa privada. Qualquer empresário com um pingo de juízo está na retranca. Não virá do consumo, que já temos 60 milhões de brasileiros sem crédito para comprar. Não virá dos sindicatos ou dos movimentos sociais, em frangalhos. E não virá da comunidade internacional, como em 1998, quando Fernando Henrique pediu e conseguiu arrego com Bill Clinton.
Quando não há futuro resta radicalizar. Então vêm aí medidas radicais. Não para aliviar a sua vida. Atitudes radicais para reforçar o caixa do país. Caixa que tem destino certo: as contas bancárias dos credores, internos e externos. Dificuldades extremas exigem medidas extremas. Vamos passar nosso patrimônio nos cobres. País vende tudo para pagar o agiota. Desapega, Brasil!
Teremos anos de “ajuste fiscal”, mais conhecido como arrocho. “Realismo tarifário”, vulgo tarifaço. “Austeridade”, que os poderosos de hoje, quando oposicionistas, chamavam de “carestia”. Perderemos empregos, direitos, aposentadoria, serviços, a saúde, o futuro, a vida. Nada importa mais que pagar juros.
A Grécia fez isso durante anos. O país foi destruído para honrar dívidas. Na última eleição, os gregos levaram um partido recém-fundado ao poder federal. O partido Syriza tem programa simples: defender a população grega e peitar os credores. Está apanhando como cachorro magro e ladrão. A política econômica do Brasil é a mesma que jogou a Grécia no buraco. Porque o que deu errado lá daria certo aqui?
O espantoso é a absoluta ausência de reação. Institucional, empresarial, sindical. Ou mesmo nas ruas. Todos estão fazendo o mesmo discurso, unanimemente aplaudido pela imprensa. Qualquer sinal de dissenso é abafado, tachado de “irresponsável”. A população está prostrada. Marchamos confiantes na direção do abismo.
Ver a luz no fim desse túnel é delírio. O buraco é mais embaixo e mais escuro. Temos uns 70 milhões de jovens no Brasil, dos bebês aos 20 anos. A maioria miserável e pouco educada.
Essa multidão deveria entrar no mercado de trabalho nas próximas duas décadas. Para dar conta, o país precisaria criar daqui a 2035 pelo menos 70 milhões de novos empregos. São 3,5 milhões de novos empregos por ano, durante 20 anos seguidos. A chance do Brasil atingir esse objetivo é zero. Estamos fazendo o contrário: fechando vagas.
E assim o bônus demográfico vira ônus. Setenta milhões de jovens desempregados ou em sub-empregos: é um holocausto social. É incendiário. É garantia de tumulto sem fim e violência alucinante, no país que já é campeão mundial de assassinatos.
A Grécia é pequena e uniformemente empobrecida. O Brasil é gigante injusto e a cada dia mais desigual. O que lá é horrível aqui será infernal. Apoiar nossa atual política econômica é apagar o fogo com gasolina.
O Brasil precisa sair desse círculo vicioso de endividamento e carestia crescentes. A política econômica atual vende nosso presente e envenena nosso futuro. É a cobra mordendo o rabo. Nó górdio – que exige corte seco.

Publicado em 18/06/2015 às 18:02

Felicidade é um novo desenho dos Peanuts

peanutsmoive1 1024x575 Felicidade é um novo desenho dos Peanuts

1975, numa viagem – minha mãe pergunta, do que você tanto ri? Eu às lágrimas, desse livro que estou lendo aqui do Charlie Brown.  Meu primeiro. Valderez pegou o pocket book, leu umas tiras, fez aquela cara de “não vejo do que rir, mas você é o menino e você é que tem que achar engraçado”. Mãe é isso: aceitar.

Peanuts não era clássico aqui naquela época. Mal tinha sido publicado no Brasil. Snoopy não era ícone de fofice. Nos EUA era gigante. Foi lançado em 1950. A tira saía em todos os jornais. Tinha desenhos animados na TV. Tudo com a mão do criador, Charles Schulz.

Adoro. Li a biografia de Schulz, à procura de uma pista. De onde vieram esse traço simples e expressivo, esses diálogos afiados, as situações surreais, as décadas acridoces? Sem explicação. Publicamos alguns livros de Peanuts quando eu era sócio da Editora Conrad. Vou te contar, às vezes dá orgulho da minha vida (passa rápido).

Agora é 2015. Quarenta anos depois de eu encontrar Charlie e Snoopy e Linus, Lucy, Sally, Patty, Woodstock. Crianças imperfeitas, em um mundo imperfeito, sem sinal de adulto por perto. E 65 anos depois da primeira tira. O mundo mudou tanto...

E vejo o trailer do novo desenho animado, agora que sou eu pai de um moleque, e me pergunto: as crianças que não mudam nunca, ou é o gênio de Schulz que é eterno?

Publicado em 16/06/2015 às 16:41

Uma canção de amor digna dos anos 80 – e de Brandon Flowers

Brandon Flowers 6 Uma canção de amor digna dos anos 80   e de Brandon Flowers

Não dá pra decidir se presta ou não o novo disco de Brandon Flowers, líder e cantor dos Killers. Frequentemente soa como o pior do final dos anos 80. Produção pesadíssima, muito laquê, rímel, ombreiras. Por baixo do make up exagerado, o incrível talento para melodias de sempre. E aquelas letras derramadas que quebravam o coração das menininhas uma década atrás. Antes dele casar, ter um monte de filhos e se assumir mórmon.

De  vez em quando é o contrário. Soa como o melhor das produções pesadíssimas do final dos anos 80: Trevor Horn, Stock Aiken & Waterman, os caras que faturavam firme nas FMs quando Brandon era um menino - nasceu em 1981. Brandon evolui e involui da new wave para o mais crasso comercialismo. Sério, tem música que parece do Phil Collins...

Mas veja só que beleza e esperteza essa épica canção de amor. Com sample de um hit amargo de três décadas atrás: "Smalltown Boy", do Bronski Beat, sob um garoto gay que precisa deixar o lar, atrás do amor que não encontra em casa. E participação luxuosa de outro baluarte daquele tempo: Neil Tennant, dos Pet Shop Boys.

Ouça. E leia.

Publicado em 15/06/2015 às 18:05

Acredite: um livro pode mudar sua vida. Se o livro é velho e a vida é minha, melhor ainda

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Ricardo Lombardi no selo Desculpe a Poeira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Separei esse para você”, me diz Ricardo Lombardi, e me bota nas mãos um tijolo de quase mil páginas. Justifica na hora a fama de “sommelier de livros”, que alguém lhe botou e ficou. Metidez e descaramento. Mas criar uma nova categoria de livreiro e ser o único representante dela é boa tacada. Como ensina George Lois: mesmo as melhores idéias precisam de bom marketing.

A melhor idéia foi largar a carreira de jornalista. “Desculpe a Poeira” era o nome de seu blog. Virou seu negócio. Trocou as redações pela vida de dono de um mini-sebo escondido nas ruas de Pinheiros. E saiu batendo o bumbo. Agora o sebo Desculpe a Poeira tem uma Kombi, sebo móvel. Lombardi faz “curadoria” de livros para outros estabelecimentos. Vende pela internet na Estante Virtual. E por aí vai. Gormetização dos sebos, putz. Mas é onde estamos. E francamente demorou.

Daqui a pouco Ricardo está dando palestra sobre como largar as corporações, trocar salário por sentido etc. Fiz parecido em 1993 e recomendo. Fiz o caminho contrário ano passado, da vida indie para o R7, mantendo um pé nos projetos paralelos. Esse mês a Tambor publicou biografias em mangá do Dalai Lama e Mahatma Gandhi. Eu me prometi que nunca mais ia publicar livros. Nesse caso não resisti.

Mangás dalai lama gandhi Acredite: um livro pode mudar sua vida. Se o livro é velho e a vida é minha, melhor ainda

A vida do Dalai Lama e de Mahatma Gandhi, agora em quadrinhos

Você não vai achar esses mangás na livraria mais próxima. Estão nas melhores bancas e à venda online. Agora é assim. É cada vez maior o descompasso entre nossa experiência de compra de livros na internet e nas livrarias. Quem ama livros compra há décadas na Amazon, que parece ler nossa mente. Obcecado com a expedição de Rondon e Roosevelt ao Rio da Dúvida, hem? Aqui está o livro que conta a história toda em mais detalhes ainda. E uma biografia em inglês de Rondon. E, ah!, o relato original de Teddy Roosevelt.

Na livraria “de verdade” não tem nada que interessa. Se tem, não dá para encontrar. O vendedor não faz idéia do que estamos falando. As livrarias brasileiras foram para a béstia quando fomos na cola dos americanos.

Nos anos 90 os gringos inventaram essas megastores, Borders, Barnes & Noble, com café e eventos ao vivo. Vendiam também CD, DVD, papelaria, presentinhos e bugigangas várias. Algumas eram focadas em música, e também vendiam livros: Virgin, HMV, Tower. Eram varejão, ponta de gôndola para as grandes editoras e gravadoras, que pagam caro para estar com o grande lançamento do mês bem exposto.

Fui sócio de duas editoras, Conrad e Pixel. Nem te conto o que era difícil colocar nossos livros nas livrarias. Isso inclui os que tinham grande chance de vender bem. As livrarias simplesmente não queriam fazer negócios com editoras menores. Montar uma editora no Brasil que dependa de vender livros para o leitor (e não para o governo) é garantia de frustração e prejuízo.

Donde que quem adora livros foi parando de frequentar livraria. E sebo, bem, sebo é muito legal, mas tem que saber fuçar, e ter tempo de sobra. Até você encontrar algo que te interesse são horas.

Os anos passaram. Planeta afora o modelo de megastore foi destruído pela internet. A maioria das redes implodiu. E agora as livrarias independentes estão reabrindo nos Estados Unidos. Apostam em públicos segmentados. Muitas combinam espaço físico e venda online. Aqui não, ainda. Mas os sinais de mudança estão ali, no bequinho de Lombardi em Pinheiros.

O que ele tem que que nem a Amazon e nem as grandes livrarias têm? O livrão que ele separou para mim explica tudo.

Smiling 673x1024 Acredite: um livro pode mudar sua vida. Se o livro é velho e a vida é minha, melhor ainda

Quase mil páginas do melhor jornalismo imaginável

Não sou leitor da revista Esquire há duas décadas. Difícil eu ler livro de reportagens. Não andei lendo nem escrevendo sobre os anos 60. Mas a sugestão do meu sommelier de livros harmoniza comigo. É “Smiling Through The Apocalypse – Esquire´s History of The Sixties”. São 984 páginas de matérias publicadas na Esquire durante a década de 60. Era a principal revista masculina da época, masculina sem mulher pelada, séria mas divertida.

E é assim o livro. Sério, porque focado nos grandes temas da América no período: Política, Vietnã, Direitos Civis, Contracultura. E divertido, mesmo quando trata de crime e guerra, porque os textos eram escritos para seduzir o leitor.

Esquire pagava bem os colaboradores. Atraía os melhores da ilustração, fotografia, reportagem, opinião. As assinaturas no meu livro formam um time dos sonhos: Gay Talese, Norman Mailer, Gore Vidal, Tom Wolfe, Terry Southern, James Baldwin e por aí vai. O livro rende uns trinta posts para esse blog. Quem sabe virão.

Ricardo Lombardi e eu não somos amigos. Nos vimos umas três vezes antes dele abrir o sebo. Ele não sabe que universitário li e reli trocentas vezes um outro catatau que encontrei na biblioteca da minha faculdade, igualmente antológico nos dois sentidos do termo: The New Journalism, editado por Gay Talese. Foi assim que aprendi que a Esquire foi o berço do New Journalism, o grande movimento de renovação da reportagem. E foi por isso comecei a comprar a Esquire assim que comecei a ganhar o suficiente para isso, já trabalhando na Folha.

E sem saber de nada disso Lombardi acertou na mira. Conhecimento de causa. E da sua causa. Ele está diretamente envolvido na seleção dos livros que coloca à venda no seu sebo. E está lá o dia todo conversando – entrevistando – o seu cliente. É o que bom jornalista faz, perguntas, e com elas chegamos às respostas.

Ricardo passou 25 anos em redações, do Estadão ao Yahoo, muitos anos como editor na Abril. A seleção dos livros para o sebo, e sugestão do livro certo para cada pessoa, é edição. Edição não tem algoritmo da Amazon que substitua. É técnica e arte, experiência e intuição. As revistas estão acabando. Nunca mais veremos nada remotamente semelhante à Esquire. A profissão segue, totalmente transformada. Nesse caso, em vez de pintar papel novo, Lombardi usa o que aprendeu para revender papel velho.

Dá uma certa inveja do camarada. Substituto por inspiração. A visita ao sebo e a leitura pinga-pinga do livrão da Esquire me inspira a compartilhar mais indicações. Raro escrever sobre o que amo. O interesse é muito limitado. Acabo publicando sempre sobre as coisas que me param na garganta. Meus textos do mal saem em jorro, vomitados. E assim continuarei. Faz bem para o fígado. Mas decidi compartilhar aqui também as boas coisas da vida. Já viajei, já rodei, já curti – quase meio século de vida.

Tenho em casa livros e discos e filmes suficientes para montar um sebo (sem exagero). Mais importante, carrego comigo um sebo, uma livraria e um museu: na cabeça, no coração. Sigo o exemplo de Ricardo. Capricharei nas indicações. E daí se interessarem para pouca gente? Se posso fazer a sua vida mais prazeirosa, caro amigo e querida leitora, será uma honra e um prazer. Ler e escrever, editar e conversar: é o que eu sei fazer. É o que eu sei.

Ricardo tá fazendo barulho com a história do sebo e a virada que deu na própria vida. Leia a entrevista dele.  http://vidaria.com.br/2014/11/06/o-sentido-da-vida-e-aprender-a-lembrar-que-hoje-pode-ser-o-ultimo-dia-diz-jornalista-que-largou-direcao-no-yahoo-para-se-dedicar-a-sebo-de-livros/

Hei, curta a página do Desculpe a Poeira no Facebook, e vá lá visitar o Ricardo. Diga que o Forasta te mandou. Rua Sebastião Velho, 28A, em Pinheiros.

https://www.facebook.com/SeboDesculpeAPoeira

Tem um filme sobre essa época da Esquire com o mesmo nome do livro! Focado no Harold Hayes, que era o editor. Vou assistir, assista também. Aqui está o trailer.

https://www.youtube.com/watch?t=57&v=spKC-bHXtrE

Lembra do George Lois  lá do primeiro parágrafo? Era o capista da Esquire. Escreveu um livrinho ótimo que recomendo para qualquer um que trabalhe com comunicação, criação, marketing.

http://www.amazon.com.br/Damn-Good-Advice-People-Talent/dp/0714863483

Compre os mangás sobre o Dalai Lama e o Gandhi. São para todas as idades. Sou suspeito para falar, mas valem a pena.

http://popster.com.br/www-popster-com-br-mangas.html

E finalmente: compre sua própria edição de Smiling Through the Apocalypse. Separei para você...

http://www.amazon.com/Smiling-through-Apocalypse-Esquires-History/dp/0841500029/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1434143991&sr=8-2&keywords=smiling+through+the+apocalypse

Publicado em 01/06/2015 às 16:44

Prefiro que meu pai não troque de sexo, pode ser?

bruce Prefiro que meu pai não troque de sexo, pode ser?

Bruce Jenner mostra sua mudança na Vanity Fair

Homem trocar de sexo depois de velho é esquisito. Se fosse rotina não era notícia. E Bruce Jenner não estava na capa deste mês da Vanity Fair, a maior revista de celebridades do mundo. Bruce, não: Caitlyn.

“Trocar de sexo” é termo impreciso: a gente nasce e morre com os mesmos cromossomos. O termo que se usa é “identificação”. Bruce nasceu e viveu 65 anos como homem, mas agora se identifica como mulher.

Bruce foi muito famoso nos Estados Unidos. Ganhou medalha de ouro no decatlo nas olimpíadas de Montreal, 1976. Minha geração cresceu vendo ele na revista Manchete, em pontas em filmes e seriados, e depois nunca mais.

Nos EUA nunca saiu da mídia. Foi ícone de macheza, garoto propaganda de mil produtos diferentes, convidado de todos os talk shows. Substituiu Erik Estrada no seriado Chips, pô! Todos os meninos queriam crescer para ser igual a Bruce. Montou empresas, ganhou dinheiro. O  sonho americano em pessoa.

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Bruce na série CHiPS

Bruce casou três vezes. Fez quatro filhos, A terceira esposa trouxe para o casamento três filhos, e o sobrenome do marido anterior: Kardashian. Em 2007 começou o reality show mostrando “os bastidores” da família. É um fenômeno de audiência até hoje. Já gerou centenas de milhões de dólares de receita, e sub-programas diversos. Kim, a mais célebre, é uma estrela de primeira grandeza – sem cantar, atuar, sem nunca ter feito nada de notável fora ser bonita e famosa.

Jovem se assumir homossexual a gente já acostumou. Ou se identificar como mulher. Ou a garota se identificar como garoto.

Ser um jovem gay vai ser tornando mais aceitável socialmente, conforme nossos filhos e sobrinhos e netos saem do armário, e aceitamos, porque o amor é mais forte que o preconceito.

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Bruce com a família em 1995

Agora, demorar um tempo para se assumir é uma coisa. Demorar a vida toda é um pouco demais. E se se quem se assume gay não é seu filho, mas seu pai? Seu coroa, que sempre foi macho pra dedéu, ou pelo menos era o que você pensava, e aliás fez você com sua mãe. De repente aquele senhor pelancudo e enrugado anuncia para o planeta que na verdade é mulher. Com roupa de mulher. Peitos de mulher, verdadeiros ou postiços. Voz de mulher. E mais chocante: papo de mulher!

Nunca é tarde demais para ser feliz, dirá um romântico. Mas o que será que dispara uma mudança tão grande, na vida de uma pessoa que já viveu tanto? Boa coisa para perguntar para um psiquiatra. Como meu pai. Rende um bom papo no nosso próximo encontro.

E aí me ocorre que prefiro meu pai como ele é. Sendo homem e se portando como homem. Imagino que ia continuar gostando dele, se começasse a usar batom e saia aos 78 anos de idade. Mas prefiro não ver meu velho de batom, saia e sutiã. É preconceito? É o que é.

Quando li pela primeira vez sobre a mudança de Bruce Jenner, pensei: é inveja do sucesso das filhas. Ele declarou várias vezes que jamais se sentiu atraído por outros homens e sempre foi heterossexual. Para completar, vota no Partido Republicano. Sempre foi, e continua sendo, cristão. E, minha opinião, é e sempre foi gay, mas gay enrustido, como tantos atletas machões.

mulheres Prefiro que meu pai não troque de sexo, pode ser?

Imagine que vida cheia de contradições. E imagine a dureza de envelhecer como coadjuvante para umas molecas arrivistas. As Kardashian são as mulheres mais famosas dos Estados Unidos, referência (pro povão multirracial, não para a elite) de beleza, chiquê, sex-appeal. Bruce perto delas decaiu para papel de parede. Ofensa imperdoável para o ego e espírito competitivo do atleta olímpico? Separou da mulher esse ano e já chama mais atenção que a família inteira junta.

A Vanity Fair jamais colocaria Bruce Jenner na capa. Caitlyn Jenner lá está, uma senhora anglo-saxã, toda repuxada de plástica e retocada de photoshop.Tem seus cinco minutos a mais de fama eternizados pela fotógrafa-estrela Annie Leibowitz. É um perfeito retrato da nossa época. No século 21, sexualidade e celebridade se confundem. Sim, cada um faz o que quer com seu corpo. Mas para Narciso, basta o próprio reflexo – sob as palmas e os holofotes.

Publicado em 13/05/2015 às 09:39

Quem pagará pelo casamento de Preta Gil? Procure saber

 Quem pagará pelo casamento de Preta Gil? Procure saber

Não existem palavras na língua portuguesa para descrever o casamento de Preta Gil. Precisaríamos da precisão zombeteira de Oscar Wilde. Da capacidade de indignação de Eduardo Galeano. Da compreensão do subdesenvolvimento de V.S. Naipaul. Do ouvido apurado e brutal de um Norman Mailer.

Sem um milésimo do talento de nenhum deles, resta focar nos fundamentos do jornalismo: siga o dinheiro.

Quem pagou pelo vestido com trocentas pérolas? A festa para 700 convidados? Os 35 seguranças, os 14 lustres com cristais baccarat, milhares de flores, whisky e champagne? O aluguel da Igreja Nossa Senhora do Carmo, a mais fina da cidade? A descrição é indescritível: “o grande movimento de carros nas ruas estreitas de Santa Teresa causou um nó no trânsito, já que os convidados param em frente à casa para entrar no evento. Alguns ônibus não conseguiram passar e passageiros desceram a rua a pé reclamando.”

Sabemos quem não pagou: o noivo, personal trainer. E sabemos o que não pagou: a carreira de Preta Gil. Tudo que ela toca vira fracasso. Grava discos que ninguém compra, faz shows que ninguém assiste, não emplaca em mídia nenhuma. É a eterna candidata a celebridade. Jamais decolou ou decolará. Pode andar 50 quilômetros por qualquer grande cidade brasileira e não será reconhecida. Resta a figuração boba-da-corte em programas de TV estrelados e dirigidos por seus amigos.

Também sabemos que o casamento não foi pago por seu reality show na internet, “Preta Vai Casar”. A média de audiência de cada vídeo foi perto de 100 mil visualizações. O valor de mil visualizações no YouTube é quase R$ 10,00. Donde que cada vídeo desses vale, no mercado de internet, uns mil reais. Não paga o bolo.

Talvez papai e mamãe, Gil e Flora, empresária do cantor? Espetáculos de desperdício como esse não são raros. Os ricos do Brasil festejam como se o mundo fosse acabar amanhã. Casamento de filha é oportunidade única para se exibir. A nova onda entre os muito ricos é promover festa de debutante para as filhas em Nova York ou Miami. Soube de um banqueiro que tem problemas com a filha adolescente, porque seu helicóptero é o mais simplezinho entre os pais de suas colegas de classe. E por aí vamos.

Mas esse não é só o casamento da filha de um homem rico, de um ex-ministro. É uma reunião de algumas das pessoas mais famosas do Brasil. Algumas muito amadas pelo povão. Outras sem fama, mas perfeitas ilustrações do que é feito o nosso país. Desconhecia o casal Amora Mautner e Arnon Collor de Mello. Ela é filha de Jorge Mautner, ele de Fernando Collor. A poesia alternativa, a tirania alagoense, é tudo a mesma coisa. A arte no Brasil sempre acaba em farsa.

Como se fala sobre reuniões de empresários, “estava lá todo o PIB”. No casamento de Preta Gil estava lá boa parte do PIB cultural brasileiro. Gente que vive “na mídia” e da mídia. No Brasil o capital que importa é a proximidade do poder - midiático, financeiro, e em última instância, estatal.

Por isso é que o Rio continua sendo nossa verdadeira capital. Brasília é um arrabalde aberto de terça a quinta. São Paulo amanhece trabalhando. O Rio é o lugar da fama e do poder. Do dinheiro público, que move as engrenagens da fama e do poder. Ninguém nas nossas artes personifica esta proximidade proveitosa do poder tão bem quanto Gilberto Gil. Conforme sua carreira decaía, se transmutou em ongueiro, político, ministro.

Neste Brasil sem água nem esgoto, homicida, burro, febril de dengue, existe um instrumento perfeitamente legal para artistas tomarem o dinheiro dos impostos e botarem nos próprios bolsos. São as leis de incentivo à cultura. Através delas, empresas deixam de pagar imposto, pegam esse dinheiro e financiam atividades culturais.

Quais empresas? As grandes, e se forem estatais, Petrobras etc., melhor ainda, que fica tudo em casa. Quais atividades culturais? Qualquer uma que o Ministério da Cultura aprovar para “captação”. Gil foi o ministro anos; seu secretário-executivo, Juca Ferreira, é o atual. Pintou uma graninha boa para o próprio Gil, assim que deixou o ministério, claro.

Sob eles, milhões e milhões de reais foram “investidos” pelas empresas amigas nos negócios dos chegados. Porque são isso, negócios, certo? Quando você embolsa dinheiro público para bancar seu show, seu DVD, sua exposição, sua turnê, está fazendo um negócio, e ótimo, porque sem risco. Se ninguém aparecer para assistir ao filme que você produziu, dane-se, você já ganhou o seu. É o que acontece com 90% dos filmes bancados via lei de incentivo. É uma excrescência e uma propina disfarçada. Compra a cumplicidade da classe artística, que a vende baratinho.

É tentador chamar o casamento de Preta Gil de Baile da Ilha Fiscal. Para os que não conhecem nossa história: foi uma festança perdulária que aconteceu numa ilhota na baía da Guanabara, promovida pelo Império, a última antes da proclamação da República. É fato que o festerê de fazer “cultura” e encher o cofre com dinheiro do contribuinte vai diminuir esse ano.

As verbas de marketing das empresas minguarão em 2015. Temos recessão, desemprego e juros altos, e há de piorar. Lá no Planalto os cofres também secaram. O plano do nosso governo para combater a recessão é aprofundá-la, promovendo um arrocho bilionário, que, triste informar, mal começou.

Então vai ter menos dinheiro nosso correndo para as contas dos convivas do banquete. Ou um pouco menos. Mas não desperdice lágrimas com os ricos e famosos. Quem tem dinheiro no banco verá ele se multiplicar em 2015 como nunca vimos no Brasil, pátria dos juros mais altos do planeta.

Quem é chegado dos poderosos sempre garante suas bocadas. Juca Ferreira está lá no Ministério para garantir que o que tiver de verba, vá para as mãos “certas”. O casamento de Preta pode durar para sempre ou acabar semana que vem, que é o que acontece frequentemente com esses enlaces espetaculosos. O descaramento é para sempre.

Não nos faltam só palavras para descrever o que foi esse casamento de Preta Gil. Nos faltam também escritores. Cadê coragem para encrespar com a filha de Gil, eterno ministro e amigo dos amigos? Nossos autores vivem de cachêzinho em seminário patrocinado pelo governo, de edital do governo, de vender livros para o governo. Não ouvirás questionamento a Gil e companhia por parte dos nossos literatos. Precisaríamos de uma versão tupi de Gore Vidal, um bem-nascido que se especializou em cuspir no próprio berço. Ou Louis Auchincloss, advogado, dinheiro velho, que passou a vida escrevendo sobre dinheiro - e como ele nunca sai das mesmas mãos.

Não temos nada parecido. Pena. Precisamos muito de alguém com o talento e a coragem para tranformar em literatura a seguinte notícia, de dezembro de 2014, semanas antes de Juca Ferreira voltar ao ministério: "o Ministério da Cultura autorizou a captação de R$ 6,5 milhões de reais para a peça Gilberto Gil, o Musical. O valor prevê seis meses de apresentação em São Paulo e seis meses no Rio."

Publicado em 11/05/2015 às 17:52

A epidemia de dengue tem uma solução muito simples. E qualquer outra é repelente

a91a5456075807abd519d2760a0eea28 A epidemia de dengue tem uma solução muito simples. E qualquer outra é repelente

Tem desgraça que a gente bota na conta do governo. Tem desgraça que não. Desemprego a gente culpa o presidente. Rua esburaqueada, o prefeito. Governador escapa mais fácil. O que exatamente é responsabilidade do governador do estado? Ninguém sabe direito.

Seca e inundação é sempre culpa lá da madrasta natureza. Falta água em casa porque está chovendo pouco. A enchente levou minha casa porque choveu demais.

Antigamente as epidemias também eram tratadas assim. Na idade média, quando batia a peste negra, era castigo dos céus. Ou vapores invisíveis, alinhamento planetário, aprontada de malévolos estrangeiros, qualquer coisa misteriosa. Menos o que era mesmo: miséria, porcaria, rato, mosquito.

Estamos em 2015. Sabemos muito bem o que causa epidemia. Felizmente a humanidade já foi capaz de exterminar várias e controlar outras. Nesses casos é porque inventamos vacina. Vacina combina com o modo de político lidar com qualquer problema. É de cima para baixo, gastando muita grana, ditando ordens e é isso aí. O governo compra anualmente milhões de doses, e ai do pai que não levar os filhos pra tomar vacina.

Não existe vacina para dengue. Coisa de país subdesenvolvido, pô. Pra quê os laboratórios vão investir em vacina pra miserável? Malária também não tem. Já calvície parece que está pertinho de aparecer o tratamento definitivo.

O Brasil é um país rico com muita pobreza. Mosquito não quer saber se você tem carro importado na garagem. Voa do Capão Redondo ao Morumbi rapidinho. Infecta miseráveis e milionários. Morrem miseráveis, milionários não.

Os especialistas não cansam de explicar que existem três maneiras de enfrentar a dengue. Primeiro, as autoridades têm que borrifar as cidades. É responsabilidade de cada prefeitura. Não cumprida, naturalmente. Detalhe importante: não adianta dar só uma borrifadinha antes do verão, porque agora faz calor no inverno, frio no verão. O clima anda muito doido (e vai ficar cada vez mais louco, com o famoso aquecimento global, igualmente responsabilidade do poder público, nesse caso em nível global).

Os ovos do mosquito Aedes Aegypti se multiplicam na água parada. E no Estado de São Paulo a gente está guardando muito mais água, porque não tem água na torneira, né? Problema também de gestão pública, neste caso estadual. E também sem previsão de solução.

Se prefeituras e governos estaduais não fizeram seu serviço em 2014, ano de relativas vacas gordas, imagine em 2015. Com orçamentos apertados e ajuste fiscal? Vai sonhando.

A questão é que mosquito não conhece fronteira, e a epidemia de dengue finalmente está se tornando nacional. E o Ministério da Saúde finalmente terá que lidar com a dengue em termos nacionais. Com ajuste fiscal ou não.
Quer proteger sua família da dengue, minha amiga? A solução que restou é comprar repelente e esfregar três vezes por dia.

Se você for dar uma caprichada, um tubinho de repelente dura uns três dias. O preço médio é R$ 15,00. Para o mês inteiro, você vai gastar R$ 150,00 em repelente. Numa casa com um casal e dois filhos, são R$ 600,00 mensais.

Considerando que nossos poderosos não fizeram a obrigação de evitar que essa epidemia começasse, agora o mínimo que têm a fazer é pagar pela burrada, e não empurrar a conta pra gente. Até porque 90% das famílias brasileiras não têm condição de desembolsar R$ 600 por mês pra fugir de mosquito, então vão pegar dengue. É mais criança e velhinho morrendo. É mais força pra dengue se alastrar.

Em outras épocas talvez se considerasse a criação da Dengue-brás. Em época de operação Lava-Jato, ficou difícil.

O que resta é a criação do Bolsa-Dengue. Mesadinha de R$ 150,00 para cada brasileiro se lambuzar de óleo anti-mosquito. São trinta bilhões de reais por mês. Qualquer outra solução é repelente.

Publicado em 30/04/2015 às 18:16

A violência no Paraná era inevitável. Vamos parar de culpar a PM. E declarar guerra a quem merece

 A violência no Paraná era inevitável. Vamos parar de culpar a PM. E declarar guerra a quem merece

A função do militar é ganhar a guerra. Para isso ele é ensinado a ver o mundo em preto e branco. O nosso lado e os inimigos.
Líderes de verdade, civis ou militares, sabem: a guerra é o inferno. Em guerra, ambos os lados vão cometer injustiças terríveis. Inocentes vão sofrer, talvez morrer. É inevitável.
Os discursos bonitos sobre guerra e paz e regras e comportamento ético são só discursos. Na prática, na guerra vale tudo. O maniqueísmo é fundamental. É preciso desumanizar o inimigo. Você jamais pode se colocar no lugar do outro. Atrapalha a mira.

Os soldados da Polícia Militar são isso: soldados. A maioria tem pouca educação, pouco treinamento, baixo salário, nenhum horizonte. São doutrinados para pensar em termos de nós e eles. Matam muito. Sem punição. Ué, porque deveriam ser punidos por matar os inimigos? Não o Brasil não está em uma guerra contra o crime?

Não. O crime, organizado ou pé-de-chinelo, é um problema civil. É um ato que vai contra a lei civil, julgado pela justiça civil, que tem que ser enfrentado com métodos civis. O que têm militares a ver com enfrentar o crime? Absolutamente nada.

E o que militares têm a ver com enfrentar manifestantes? Menos ainda. Porque um soldado é treinado para olhar um manifestante desarmado e ver o inimigo. Nem passa pela cabeça de um PM se negar a descer o sarrafo nos caras que protestam. Está lá para isso. Mesmo que discorde, obedece, porque obediência é o elemento fundamental da disciplina militar.

A grande surpresa de Curitiba foi que 17 policiais se negaram a avançar sobre os manifestantes. O governo paranaense informa que serão exonerados. Faz todo sentido. Assim é a disciplina militar.

Li uma vez em algum lugar que é a melhor medida para ver se um país é avançado é ver se ele paga bons salários tanto para os professores como para os policiais. Não sei quem disse, mas ficou. Aqui ambos ganham porcaria.

O movimento dos professores paranaenses é justamente por salários melhores. Quando vi os vídeos da polícia avançando nos professores, lembrei na hora do que li, e pensei: é um braço do povo batendo no outro.

A PM não é o bandido dessa história. A PM é um instrumento. Uma arma na mão de outros, que puxam os gatilhos. Uma coisa importante sobre guerras: quem vence escreve a História. Quem perde é julgado por seus crimes de guerra. Mas não é foi soldadinho raso lá na ponta, que ajudou a colocar inocentes na câmara de gás, que foi julgado em Nuremberg. Foram os mandantes, os nazistas graduados. Mesmo que pessoalmente nunca tenham matado ninguém.

Fazer os mandantes pagar pelos crimes dos mandados não é exatamente justiça perfeita, mas é educativo. Ensina: em guerra, quem manda matar tem tanta sangue nas mãos quanto quem executa ordem. E mais responsabilidade.

As Polícias Militares são Estaduais. O comandante máximo é o governador do Estado. No Paraná, Beto Richa. Pelas regras da guerra, seria lógico que respondesse criminalmente pelos atos da PM contra os professores em Curitiba. Centenas de feridos, alguns muito graves.
Se nesse caso Beto Richa respondesse por agressão, Geraldo Alckmin responderia por homicídio. A PM paulista está matando mais que nunca. No primeiro trimestre de 2013, a PM matou 67 pessoas. No mesmo período de 2014, 157. No primeiro trimestre de 2015, policiais militares mataram 185 pessoas. Isso são os números oficiais. E quantos PMs morreram em São Paulo no mesmo período? Quatro.

Estamos em guerra? 185 mortos de um lado, quatro do outro... Sempre a mesma história, “troca de tiros”. Um monte de casos muitíssimo mal explicados. A violência é exclusividade da Polícia Militar? Praticamente. A Polícia Civil paulista no primeiro trimestre de 2015 matou nove pessoas, um vigésimo do que a PM.

A população sente que o bicho está pegando. Quando morre um PM, a corporação revida passando a régua. Morreu um policial, o povo já está no Whatsapp decretando toque de recolher. Quem der mole na periferia à noite arrisca levar um tiro. Depois é aquele papo, “reagiu”. E com tudo isso, os índices de criminalidade continuam altíssimos.

Não é questão de Richa ou Alckmin, nem do partido esse ou aquele. É como o país é. É igual em todos os estados. Com a conivência do governo federal, da Justiça, das otoridades em geral. No máximo pune-se algum PM que exagerou e foi pego, ali no rés do chão. E lá nas alturas tudo segue como de costume.
Brasileiro sabe há 515 anos: bacana aqui sempre sai na boa. Lendo as manchetes sobre a Operação Lava-Jato, muita gente botou fé que o Brasil começa a mudar. Escrevi aqui há meses que a Lava-Jato já acabava em pizza antes de começar.

Melancólico conhecer tão bem nosso país. Ontem mesmo os STF mandou mandantes da Lava-Jato para casa. Com isso, se evitam novas delações premiadas, novas acusações, se contém o estrago, e vamos logo voltar ao esqueminha normal. Pátria educadora ensina: roube cem reais e vá em cana. Roube cem milhões e vá para sua mansão usando tornozeleira.

A Polícia Militar é criação da ditadura militar. Naquela época era proibida a crítica, a manifestação e o voto. O regime de 64 foi enterrado há vinte anos, e ainda hoje este restolho da ditadura continua por aí. Por quê? Porque nós permitimos isso. Fomos nós que votamos nestes governadores, nos deputados integrantes da “bancada da bala”.
Porque, nós, brasileiros, somos ignorantes. Nossas escolas são uma porcaria. O investimento em educação no Brasil é ridículo, comparado com qualquer país mais ou menos. Os professores do Brasil são tão despreparados e desvalorizados quanto os policiais.

A solução passa por acabar com a PM. Ou pelo menos desmilitarizar a PM. Tanto não é nenhuma heresia que muitos policiais militares defendem isso. Sociedade civil, polícia civil, e Forças Armadas para lidar com tretas externas. Se é que precisamos de Forças Armadas – outro assunto para outro dia.
Se queremos um país decente, temos que valorizar quem cuida da nossa educação e da nossa segurança. Professores e policiais têm que merecer nosso respeito, inclusive para podermos cobrar deles a performance que precisamos. No sistema capitalista, nada diz “respeito” tão alto quanto bons salários. Enquanto isso não muda, o sangue vai continuar correndo.

Vamos mudar? A quem interessa manter professores e policiais no estado de hoje? A quem interessa manter uma força militar dedicada exclusivamente a lidar com problemas civis? Quem ganha com a manutenção do nosso povo neste estado de ignorância e terror? Não é você nem eu. Nem os policiais. E muito menos os professores.

Vamos parar de usar o termo “violência da PM”. Eles pensam que estão em guerra. Foram treinados para isso, lavagem cerebral. Vamos atrás de quem se beneficia com este estado de coisas. Vamos à raiz do problema e vamos arrancá-la. Guerra por guerra, escolhamos a nossa. Declaremos guerra não aos executores, mas aos mandantes da violência - tão nossa, tão triste, tão brasileira.

Publicado em 23/04/2015 às 20:10

Chega de preconceito contra o funk. Deixa MC Melody ser funkeira e rebolar – mesmo que tenha 8 anos de idade

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Funkeiro mata. Funkeira é assassinada. Funkeiro ostenta. Funkeira mirim sensualiza. Dois pesos, duas medidas. Se fosse sambista, sertanejo, roqueiro, o discurso era outro. Funk incomoda, os outros estilos não. Funk existe é mesmo para incomodar.

Quantas vezes você já viu na TV menininhas passistas? Sempre em reportagens simpáticas, olha como a garotinha samba no pé, incrível. Discurso completamente diferente do caso de MC Melody.

Ela tem oito aninhos. É uma criança. Brinca de ser grande, de ser funkeira, de ser Anitta. Rebola como criança. Como vinte anos atrás as menininhas dançavam na boquinha da garrafa ou queriam ser Paquitas.

A grita é que o pai está expondo a menina. Médio. O pai da menina é músico, não neurocirurgião. Era pagodeiro, virou MC Belinho, que funk é onde está a grana na periferia. Fatura com a garota? Mathew Knowles botou a filhinha para cantar e dançar aos oito anos também. Produtor musical, com nove Beyoncé já estava no Destiny´s Child. Logo era um grupo de teenagers, requebrando com pouca roupa. Qual a diferença?

Abra ouvidos e olhos. As letras que Melody canta podem ser adultas, não são pornográficas. Os movimentos são padrão em funk. Ela nem tem ainda hormônios para “sensualizar”. Se você vê Melody dançando e fica excitado, quem tem problema é você, não ela...

Tem até petição online pedindo para o pai perder a guarda da criança. Onze mil pessoas já assinaram. Um advogado do conselho da criança e do adolescente diz que o cara cometeu um crime, que poderia dar até dois anos de cadeia. Genial, a menina (e a irmã) arriscam ficar sem o pai, que as sustenta, para agradar os indignados da internet...

Pai roqueiro cria filho que faz o sinal do capeta com os dedos desde bebê. Fã de Sertanejo embala o churrascão da família com Fernando & Sorocaba. Pagodeiro ensina a garotada só no sapatinho. Criança vai na dos pais, pelo menos até a adolescência. Às vezes para sempre. Mais comum: encrenca um pouco na juventude e acaba se rendendo à sua criação.

Claro que puxar pelo lado do funk rende repercussão e dá cliques. Também sou jornalista e imprensa também é isso aí. É perfeitamente válida a reportagem do camarada Helder Maldonado que levantou essa lebre. A cobertura de TV foi equilibrada. Bem menos o artigo da Deborah Bresser, também aqui no R7, que foi pra cima de MC Belinho. Discordo totalmente de Deborah, que sabe muitíssimo de moda. Pergunto pra amiga: botar essas modelos de 14 anos pra fazer dieta de fome e desfilar na São Paulo Fashion Week não é exploração dos pais também? O tema rendeu um segundo texto no Blog da DB, com comentários dos leitores, que você pode ler aqui. Tem link para o primeiro artigo.

Em qualquer vizinhança você encontra pais e mães fazendo uma série de besteira com as filhas. Inclusive botando pra fora de casa porque engravidou, até hoje. Vamos fazer o quê? Jogar todos os pais de quem discordamos na cadeia? Tem pai mundo afora que cria filha com burca e proíbe de estudar, vamos invadir o Iêmen e mandar o Bope para a Arábia Saudita?

Mau gosto não é pecado e tosqueira não é crime. Botar sua filhinha para dançar funk não é pior que botar para sambar na Maracaí. É bem fácil argumentar que o funk brasileiro hoje influencia a música pop global muito mais que o samba, mas esse é outro texto para outro dia.

Vamos lembrar que vivemos em um país campeão da prostituição infantil, que está aí na cara de todos, e sob o nariz da polícia e autoridades. País campeão em homicídios e mortes decorrentes de abortos, sempre gente nova, sempre gente pobre. Qual a trilha sonora dessa juventude? O funk. Vamos criminalizar até a diversão deles?

Nós brasileiros já temos problemas de sobra, e bem mais sérios, para ficar pegando no pé do pai da Melody. Se você não gosta de funk – música, letras, roupas, ambiente – está no seu direito. Mas preconceito não é direito de ninguém.

Publicado em 16/04/2015 às 17:23

Demolindo o Demolidor, o herói sem cérebro

daredevil costumes marvel netflix 20th Demolindo o Demolidor, o herói sem cérebro

Costelas quebradas... colapso no pulmão... sangrando... e um menino raptado. Um pai com o coração dilacerado. E uma armadilha me esperando. Não... posso... desistir. Não... posso... falhar. Não... posso temer. Tenho que ser.... o Homem Sem Medo!

Momento Frank Miller, esse finzinho do segundo episódio da nova série do Demolidor. Dentes cerrados, corpo quebrado, o mocinho se supera, salva a vítima, quebra a cara dos bandidos. Vamos na fonte: momento Mickey Spillane, grande referência de Miller na reinvenção desse super-herói Marvel na virada dos anos 70 para 80.

Mickey escreveu os livros policiais mais vendidos da infância de Miller. Seu detetive Mike Hammer é macho pra cacete. Whisky cowboy, bifão mal-passado, bala nos vagabundos e ferro nas bonecas.

O Demolidor de Miller é uma história policial que se passa em uma Nova York falida, barra-pesada. Frank era um nerd magricelo de Vermont, uma roça total. Foi morar em Nova York e chapou de tesão pela cidade grande, que conhecia mais dos gibis do Spirit que da vida real. O herói Marvel começou a conviver com prostitutas, traficantes, tiras corruptos, negões do break. Em um momento totalmente Mike Hammer, Miller botou o Demolidor pra brincar de roleta russa com seu inimigo Bullseye. Isso lá é coisa de herói?

Passou a ser. A tara de Frank pelo diálogo durão, heróis brucutus e garotas perigosas é constante em seu trabalho. Se repete em diferentes latitudes. Na distópica Gotham de O Cavaleiro das Trevas (remixado com American Flagg, uma série criada por um colega de estúdio, Howard Chaykin). Na longíqua Grécia de 300, com Leônidas falando grosso como Mike Hammer. De maneira evidente em Sin City, os gibis e os filmes, que co-dirigiu.

Depois dele pilhas de heróis passaram a ser assim, a falar e agir assim, "gritty comics", Wolverine, Justiceiro e companhia.

Outros fizeram parecido antes e depois, ninguém com tanta inteligência. Miller não esquece de entremear a desgraceira com humor, ainda que seco, dolorido, humor das galés. Aprendeu com seu ídolo Will Eisner. E se você quer ler um diálogo inspirador sobre como criar quadrinhos, leia o livro que reúne os dois, saiu no Brasil, "Eisner/Miller".

E mesmo partindo das premissas mais inverossímeis e argumentos mais estrambóticos, Miller nunca trata o leitor como idiota. Seu afeto pelo que faz salta em cada página. É, antes de mais nada, um fã de gibi, de gênero, de cultura pop de segunda. Uma vez disse que preferia os quadrinhos quando eles não eram respeitáveis. Quando eram literatura-lixo, sem direito à prestígio e nem à lista dos mais vendidos na New York Times. Gibi, não "graphic novel".

Frank Miller colage Demolindo o Demolidor, o herói sem cérebro

Li muitos elogios ao seriado pela fidelidade a Miller. Discordo com o estômago. Aceito muita coisa de entretenimento. Até burrice. Ser tratado como burro, não.

Amigo leitor: você é Matt Murdock, o Demolidor. Tá com o corpo todo estourado. Tem uma armadilha com dez caras te esperando ir resgatar um menininho sequestrado. Você é cego, mas tem superpoderes: sentidos muito aguçados, inclusive um radar que te permite ver no escuro. Vai entrar no esconderijo dos bandidos. O que você faz?

a) Invade o antro dos pilantras com a luz acesa e sai no braço com todos, correndo o risco de morrer, não salvar o moleque e tal, ou...

b) tira um fusível da caixa de luz. Entra no escuro, salva o menino. Depois, se tiver interesse, quebra a cara da malandragem toda, que não vai ter como reagir, porque não estão enxergando nada.

Drew Goddard, roteirista e "criador" da série, escolhe a primeira opção. A briga dura séculos. Bem coreografada e bem inútil. Antes do último capanga cair eu já tinha decidido não continuar vendo a série.

Eu já lia o Demolidor quando Goddard usava fraldas, edições Bloch, 1975, Wally Wood, John Romita. Leio de vez em quando até hoje, dependendo de quem escreve. Não é meu super-herói favorito, mas manjo dos paranauê, como diz meu filho.

Matt Murdock é advogado. É inteligente, é estratégico. Li zilhões de páginas em que ele usa a escuridão e seu radar para enfrentar inimigos em maior número e maior poder de fogo. Esse cara na minha TV é uma mula. Não é o Demolidor.

Falta mais que humor. Falta inteligência, e respeito à inteligência do espectador. Falta o carinho de Miller. Não é um gibi falido, impresso em papel vagabundo, feito com muita pressa e muito afeto. É big business para a Marvel e Netflix. É só um produto.

Bem, o que não é? Mas para pegar um produto similar, e bem mais caro, o último filme do Capitão América tinha QI uns cem pontos acima deste seriado.

Besta essa Nova York de mentirinha, toda sombria, pseudo-Gotham. A Manhattan de 2015 é uma Disneylândia perto de 1979. Hell's Kitchen, bairro que é cenário do gibi de Miller e da série atual, hoje foi rebatizada de Clinton. É muito civilizado, como toda a cidade pós Giuliani & Bloomberg. Tomei em Clinton o melhor Dry Martini da minha vida, em um bar cheio de engravatados, já em 2007.

Finalmente, tive vontade zero de mostrar para o meu filho de onze anos, que já assistiu coisas bem pesadas. Até porque a história de Matt é uma história bacana para criança. É um órfão, pobre e deficiente, superando as dificuldades e usando o que aprendeu para defender quem precisa de ajuda. Mas nesse clima pornô-porrada, não rola.

A primeira cena da série mostra um bando de garotas apavoradas que serão vendidas como escravas sexuais, levando choques elétricos de um pilantra. No episódio seguinte é um menino de nove anos que é raptado para ser vendido para ser escravo sexual. Hei, espera aí, é um seriado de super-herói. Precisa mesmo dessa pseudo-adultice? Lembra aquela fase em que "quadrinhos adultos" virou sinônimo de violência sexual e macheza burra.

Picuinhas? Digamos que tenho respeito estético e emocional pelo gibi e um nível mínimo de exigência e crítica. História de super-herói lá tem que ter lógica? Tem sim. Lógica interna, como qualquer gênero literário. Dadas as premissas de cada estilo, suspensa nossa descrença, todo o restante tem que fazer sentido, ou o castelo de cartas não pára em pé. Bater palma pra qualquer coisa é para fã babão.

Então chega de burrice. Tchau pro Demolidor. Prefiro arriscar ver um filme inteligente que não vi. Ou rever. Não precisa ser grande arte não. O Corvo! O Máskara! Para lembrar quando filmes de herói ousavam, porque tinham orçamentos baratos...

E prefiro ler as histórias que eu ainda não li da nova série do herói, escrita por Mark Waid. São boas, são espertas, são verdadeiras. Será uma alegria reencontrar o verdadeiro Matt Murdock. Defensor destemido, um homem sem medo - sem medo de usar o cérebro, e não só os punhos.

Publicado em 13/04/2015 às 14:59

As trilhas abertas por Eduardo Galeano – os caminhos que desbravaram, e por onde outros passarão

galeano1 708x1024 As trilhas abertas por Eduardo Galeano   os caminhos que desbravaram, e por onde outros passarão

Eduardo Galeano é ilegível e indispensável. As Veias Abertas da América Latina é um livro lacrimoso. Dói ler, porque melodramático, e porque o tema exige lágrimas. É sobre como fomos colonizados, escravizados, calados, vendidos. Por séculos. Até hoje? É.

Foi clássico da literatura de oposição dos anos 70 para 80. Li besta no colegial. Nossas elites nos torturaram com requintes de crueldade medieval. Inquisição espanhola perde.

A América Latina permanece colônia em 2015. Seguimos subalternos, cumprindo as ordens dos impérios e seus funcionários nativos. Está aí o ajuste fiscal, que só serve para render juros gordos para quem tem o que aplicar, e garantir notas boas das agências de rating, cuja credibilidade é zero. Pelo menos não é mais “América Latrina”, como dizíamos em 1980, governados como animais por cavalgaduras fardadas. Vivemos menos mal. Não é muito, mas é muita coisa.

Galeano tem sua parte de responsabilidade nisso. Inspirou muita gente a enfrentar governos autoritários. Inspirou também muitos cretinos. Era armamento garantido no arsenal autoritário do stalinismo global. Comunicação é o que gente diz e o que os outros ouvem.

Uns anos atrás Galeano fez uma meia mea-culpa. Disse que escreveria o livro de outra maneira, se fosse hoje. Que na época não tinha conhecimentos mínimos de economia para fundamentar suas teses. Mas não mudou de posição política. Continuou esquerdista a la Século 20. Apoiou acriticamente Hugo Chávez, tão preguiçoso quanto demonizá-lo. Galeano não conseguiu abandonar a visão do mundo em preto e branco, bandidos e seus inimigos, meus amigos. Poucos conseguem.

Caducou no tratamento, mantém-se atual no diagnóstico. Nossa responsabilidade é só nossa, mas nossos problemas não. Muitos, talvez os principais, têm origens fora de nossas fronteiras. Isso não é política, é economia.

Galeano deveria ser leitura obrigatória por esses idiotas que usam as liberdades da democracia para defender que elas acabem. Hm, deixemos os quadrúpedes com seus tapa-olhos. Quem sabe a garotada que foi às ruas em 2013 lê Galeano e se inspira para os anos que virão? Não no stalinismo, torçamos.

A notícia de sua morte me lembrou seu talento de frasista. Galeano mandava bem nos provérbios instantâneos. Enterro Eduardo com eles. Qualquer um fica bem na lápide de Galeano, intelectual falível, militante manco, eterno ícone da luta contra todas as ditaduras.

“Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.”

 

  • “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa.”
  • “Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos.”
  • “Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno.”

    “A direita tem razão quando se identifica com a tranquilidade e com a ordem. A ordem é a diuturna humilhação das maiorias, mas sempre é uma ordem - a tranquilidade de que a injustiça siga sendo injusta e a fome faminta.”

  • “A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será.”
  • “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
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