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Publicado em 18/12/2014 às 16:42

E a música desse verão é…

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Uma viagem no tempo. Quando o balanço começou a ficar robotizado, quando o  black power tomou os sintetizadores dos roqueiros. Espontânea e planejadíssima, uma brisa fresca no suor de quem tá dançando sem parar.

Publicado em 16/12/2014 às 14:47

Discoteca Básica: conheça mil discos que você precisa ouvir

discotecacapa1 Discoteca Básica: conheça mil discos que você precisa ouvir
Conta falsa. Tem muito disco repetido nesse livro de listas, com os dez álbuns favoritos de cem pessoas, organizado pelo jornalista Zé Antônio Algodoal. Leitura delícia, surpresas diversas, presentão de amigo secreto. E você, leitor, leitora, quais são seus 10 discos favoritos?

Publicado em 08/12/2014 às 14:48

Ei, pedestre, sai da minha frente, quer morrer atropelado?

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Guiava eu para o trabalho quando o cretino apareceu do nada na minha frente. Saiu de trás de um carro, uma kombi, sei lá, não deu tempo de ver, e quase não deu tempo de brecar. O cara parou no meio da rua, me olhou muito feio, e acabou de atravessar no ritmo mais lento possível. Só faltou me xingar. Ainda bem que não. Perigava eu ter atropelado o infeliz.

Bem, não, que sou calminho. Mas vai ser folgado assim na Cochinchina. Atrás de mim vinham dois carros e um ônibus, todos obrigados a brecar de repente, um monte de gente em risco. Por quê? Porque um folgado se sente no direito de atravessar a rua na hora que quiser, no ritmo que quiser, e o mundo motorizado que se exploda.

Comentei com conhecidos. Vários viveram ou ouviram histórias parecidas. Um me contou que ouviu uns palavrões de uma moça, "velho broxa" etc. É o novo personagem das nossas cidades: o pedestre-dono-da-rua. Gente que se sente superior a quem está dentro de veículos. Nem olha para os lados antes de atravessar, haja faixa ou não. Os carros, motos, ônibus que estão vindo que freiem como puderem, se puderem. O trânsito que piore, os motoristas que se ferrem, os passageiros que se explodam.

Sou pedestre também. Ando mais nas cercanias da minha casa e do meu trabalho, como a maioria de nós. No meu bairro, supostamente moderninho e civilizado, Vila Madalena, é um perigo dirigir. Não tem tanta gente na rua, mas é enorme a concentração de pedestres (e ciclistas) que se julgam donos do espaço público.

As ruas em volta do R7 são em bairro popular e coalhadas de gente. Temos ali o terminal Barra Funda, de ônibus, metrô e trem; os fóruns trabalhista e criminal; faculdades; botecos, comércio popular; pedestre pra dedéu. E mil carros, ônibus, motos, tudo. Observação: a classe trabalhadora, veja só, olha antes de atravessar. Por quê?

Talvez porque essas mesmas pessoas sejam as que mais usem ônibus. Quando usam carro, são as que mais sofrem com trânsito, porque moram na periferia? Pode ser. Arrisco outra explicação.

Os americanos inventaram a teoria do excepcionalismo dos Estados Unidos. Segundo a doutrina, por natureza a América é completamente diferente dos outros países. Por isso, tem um conjunto de deveres e direitos muito diferente.

A elite brasileira é americanófila em muita coisa e também nisso. Tem plena consciência de que está acima da peãozada. Está de fato. O que vale pra rico não vale para pobre. É dificílimo punir as transgressões de nossos poderosos. Só que "a elite" não é um punhado de bilionários encastelados em fortalezas no Leblon ou na Vila Nova Conceição. Segundo o governo do Brasil, você tem renda acima de R$ 2480,00, já faz parte da "alta classe alta". A elite brasileira somos nós.

No topo da pirâmide está gente que nem caminha na rua, só em carrão blindado com motorista. Alguns agora estão ali citados na Operação Lava-Jato... fantasiemos planos diabólicos para eles. Mas na real, no dia-a-dia, me incomodam menos que essa turminha ongueira-culturets-descolex, que se acha muito cosmopolita mas é caipira até. Que está sempre falando do coletivo mas não desfoca do próprio umbigo. Vivem em São Paulo, esse monstrengo do terceiro mundo, como se estivessem em Amsterdam ou Portland.

Se você acha que atravessar a rua quando lhe dá na telha é um ato de rebelião, de afirmação de civilização, de resistência ao "apocalipse motorizado", cuidado. Um dia desses alguém lhe passa por cima, pateta.

Publicado em 27/11/2014 às 06:00

Leia O Inescrito

es Leia <i>O Inescrito</i>

Era uma vez uma marca de quadrinhos que davam vertigem. Foi devorada pelas beiradas. Agora revive seus tempos de glória, em uma série que celebra o poder das histórias.

Publicado em 26/11/2014 às 06:00

Quem quer fama, quer loucura

 

es Quem quer fama, quer loucura

Neil Strauss e amigas

De perto, todo artista desaponta. Mas alguns capricham no egocentrismo e birutice. E uma coleção de minutos assim dá um livro sensacional - o melhor do pior, por Neil Strauss.

Publicado em 25/11/2014 às 06:00

Planeje seu ano com as brasileiras lindas da minha infância

211113 benicio parceria cicero 8 520x520 Planeje seu ano com as brasileiras lindas da minha infância

Os maiores símbolos sexuais dos anos 70 tinham duas dimensões. Benício as colocou em cartazes de cinema e capas de pocket books. Agora elas voltaram. E uma vai me fazer feliz o ano todo, em 2015.

Publicado em 24/11/2014 às 06:00

Despeça-se de Jack Bruce

dsds Despeça se de Jack Bruce

Durante dois curtos anos, ele estava entre a nata do rock. Ou será que era outra coisa? Foi-se embora e nos convida a ouvir um álbum precioso e semiesquecido: Goodbye.

Publicado em 21/11/2014 às 07:25

Edite sua vida em The Newsroom

l Edite sua vida em <i>The Newsroom</i>

É americaníssima, para o bem e para o mal. É liberal de coração mole. E é um absurdo de bem escrita, editada, costurada, interpretada. A preferida dos jornalistas: The Newsroom.

Publicado em 19/11/2014 às 11:26

Interestelar: uma odisséia ao umbigo

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Não há sequências ou personagens memoráveis nos 169 minutos de Interestelar. A alardeada premissa científica é lugar comum no cinema desde O Planeta dos Macacos, 1968. Só ouvimos duas notas, as únicas no repertório do diretor Christopher Nolan: solene e estridente.

O roteiro conecta coincidências. Não há emoção verdadeira. Os momentos eletrizantes são de matinê, "o computador quebrou, vou ter que dar a volta no buraco negro usando só o manual" etc.

O protagonista vai do piloto audaz ao frio engenheiro sem razão e na velocidade da luz. Ao alcançar seu grande objetivo, o abandona.

Já vimos esses efeitos especiais em filmes anteriores e melhores, como 2001. Em A Origem, do próprio Christopher Nolan. E em uma pá de seriados de divulgação científica, como a recente reinvenção de Cosmos.

O filme acaba quando começa Elysium. O futuro pertence a uns poucos ricaços sortudos, vivendo em condomínios espaciais de luxo. Faltou mostrar os bilhões de miseráveis chafurdando na Terra.

O colunista Georges Monbiot elogiou Interestelar como filme emocionante (não é) e criticou pela mensagem. O herói, logo no começo do filme, explicita: "nós nascemos para ser pioneiros, exploradores, não cuidadores... não estamos na Terra para morrer aqui, mas para deixá-la".

É propaganda da exploração espacial, preferencialmente privada, modinha do momento entre bilionários gringos. É postura indefensável em tempos de aquecimento planetário, pontua Monbiot. Como a unificação da economia e a globalização das culturas, o desafio climático impõe soluções consensadas e transnacionais, além do horizonte do empreendedorismo cowboy.

Interestelar viaja a outra galáxia  sem deixar a órbita do umbigo de Christopher Nolan. O diretor e co-roteirista se pretende intelectual, ideólogo, terapeuta, ambientalista. Quer fazer grande arte e vender pipoca. Quer demais.

Gravidade, outro pseudoépico espacial recente, era assumidamente sobre nada, fora embasbacar o espectador. Interestelar quer ser sobre tudo. E assim em tudo falha.

 

Publicado em 19/11/2014 às 07:00

Faça o que eu digo: investigue o mundo preto e branco de Eduardo Risso

 

risso2 Faça o que eu digo: investigue o mundo preto e branco de Eduardo Risso

 

Todo gibi nasce em preto e branco. Ninguém vivo contrasta os dois com a categoria, crueldade e sex-appeal de Eduardo Risso.

Publicado em 18/11/2014 às 07:00

Faça o que eu digo: ouça o disco que mais ouvi na vida

6a0148c6c126f4970c0162fe8ffe00970d 320wi Faça o que eu digo: ouça o disco que mais ouvi na vida

Todo mundo tem um disco favorito. É o disco que você mais ouviu na vida. Esse é o meu. Qual é o seu?

Publicado em 17/11/2014 às 07:00

Faça o que eu digo: embarque em Night Train, de Martin Amis

amis and hitchens 1 Faça o que eu digo: embarque em <i>Night Train</i>, de Martin Amis

Sou fã de livros secretos de autores conhecidos. Aqueles que nunca entram nas listas de leituras obrigatórias. Que são esquecidos depois de uns anos, obras "menores". Esse é um caso clássico. Grande autor, pequeno livro. Mas vai em velocidade de bala até um final irritantamente inconclusivo. E por isso mesmo, perfeito (e, sim, é Christopher Hitchens ao lado de Amis na foto acima, giovanottos, anos 70...).

Publicado em 14/11/2014 às 08:00

Faça o que eu digo: leia o mangá antes de assistir No Limite do Amanhã

maga Faça o que eu digo: leia o mangá antes de assistir <i>No Limite do Amanhã</i>

O mangá é ficção científica. O filme inspirado nele é uma comédia romântica - Tropas Estelares no Feitiço do Tempo. Li a tradução para o inglês, All You Need is Kill, e vi o DVD, tudo no mesmo final de semana.  Faça isso, ou espere a versão brasileira do mangá. Foi anunciado para breve, pela JBC. Mas tenho boas razões para te dizer para ler antes de assistir - e elas estão aqui.

Publicado em 13/11/2014 às 08:56

Minha nova série em vídeo: Faça o Que Eu Digo

ok Minha nova série em vídeo: Faça o Que Eu Digo

Falar do que te interessa com os amigos, ou conversar com desconhecidos sobre o que interessa a todo mundo? É a encruzilhada que todos enfrentamos, nós, os milhões que publicam em plataformas digitais, profissionalmente ou não. Não há caminho certo o errado. Há que cada um criar o seu, se quiser e puder.

"Amigos" no caso são amigos mesmo, não amigos de Facebook. Não precisa ser íntimo. Não precisa nem você ter visto ao vivo. Mas é gente com quem você tem um tanto de interesses e referências em comum. Alguma confluência de pontos de vista e jeito de viver. Isso gera algum afeto e respeito. Mesmo na mais radical discordância.

Nos últimos anos tentei escrever da maneira mais inclusiva possível. Para ser entendido pela tiazinha e pelo molecote. Evito assuntos obtusos, construções estrambóticas, artefatos culturais cultuados. Não consigo evitar ambiguidade ou humor atravessado, porque automáticos, e blog, claro, depende do dia, das fases da lua e tal.

O resultado era previsível, mas não previ. Meu impacto é cada vez maior sobre gente que me interessa pouco. Por quem tenho pouco respeito e nenhum carinho. Não se trata de desprezar o transeunte. É que antes das redes sociais o cara estava passando na minha rua. Agora, lá pelo terceiro ou quarto nível de compartilhamento, meu texto está chegando a gente que não sabe quem eu sou, nunca ouviu falar de mim e frequentemente nunca ouviu falar de 99% dos assuntos que me interessam na vida. Aí fica difícil. E fica chato fazer blog.

Para arejar um pouco os pensamentos, começo uma série nova no blog. São videozinhos curtos, sempre uma recomendação de uma coisa específica. Não precisa ser um troço desconhecido, mas melhor se não estiver na cara de todos. Sem obrigações de agenda cultural e dane-se o lançamento da semana.

Começo com livro, filme, disco, mangá. No futuro posso recomendar o que me der na telha, um lugar, uma comida, um brinquedinho, sei lá. É mais que recomendação, é uma ordem, e foi assim que batizei, para clarear o caminho: "Faça o que eu digo". Leia esse livro, assista esse filme. Porque nesta série de vídeos só tem o bom e o ótimo. São inimigos frequentes, mas odiemos mais o morno e o médio.

Por escrito, manterei o esforço de comunicação inclusivo (mas tentando excluir leitor burro). Em vídeo, falarei diretamente aos amigos, atuais e futuros. Compartilhando o que me emociona e impressiona, olho no olho.

Esses vídeos não vão causar polêmicas nem atrair grande audiência. Sem problema. Está ótimo se render um ou outro papo legal. Civilização é conversa...

O primeiro vídeo da série está aqui. O tema é: J.D. Salinger. Assista. Faça o que eu digo!

Publicado em 11/11/2014 às 12:50

Assista esse documentário: Memórias de Salinger

Jerome estava no desembarque da Normandia - e levava, embrulhado junto ao peito, páginas de O Apanhador no Campo de Centeio.

Publicado em 31/10/2014 às 07:17

O príncipe, os pavões, e o problema com livros pop

capa Ronnie Von Luta 1024x423 O príncipe, os pavões, e o problema com livros pop

Só André Barcinski encontraria um elo orgânico e inquebrantável entre nomes que parecem distoar tanto: Sidney Magal e Guilherme Arantes, Odair José e Ednardo, Raul Seixas e a Turma do Balão Mágico. Em termos geracionais, faz sentido instantâneo: todos eles frequentavam os mesmos programas de auditório, onde dublavam os sucessos das AMs sob os gritos das colegas de trabalho, entre as coxas de chacretes, lebres, boletes.

Barcinski tem essa combinação única de afeto e rigor, humor malévolo e espírito prático. Só o xará para ser produtivo paca morando em Parati, de frente para o mar... Seu novo livro, Pavões Misteriosos - 1974-1983: A Explosão da Música Pop no Brasil explicita o amor de André pelos personagens. O que evidentemente não os coloca a salvo de críticas ou gozação.

O defeito de Pavões Misteriosos, para mim, que cresci com eles, e com Barça, porque não, nos conhecemos há um quarto de século - é a pressa. O livro cobre uma década, mas passa voando. 25 páginas para os Secos e Molhados, 15 para a disco music brasileira, umas paginetas para a virada comercial da MPB, outras para os primórdios cheirados do rock 80. Cada capítulo é uma delícia que se vai rápido demais. Fechei o livro com "blue balls", como dizem elegantemente os gringos.

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Se cada um destes pavões valeria um livro, como criticar uma biografia de outro artista-enigma do mesmo período, Ronnie Von? Com jeito, porque também de autoria de dois amigos e colegas, Antonio Guerreiro e Luiz Pimentel. E, que falta de originalidade, pela exata mesma razão porque embirro com o livro de Barcinski.

Saiu quase junto: Ronnie Von, o Príncipe que Podia Ser Rei. São bem diferentes, uma bio-perfil versus uma reportagem-ensaio. Mas casam conceitualmente, pelo período histórico, por Ronnie ter sido um popstar gigantesco antes mesmo de haver uma indústria pop no Brasil.

O fato de ter a contracapa escrita por Barcinski amarra ainda mais os dois livros. Nos convida à leitura imediata: "nem a ficção seria capaz de inventar um herói assim, uma mistura de Mick Jagger, Jay Gatsby e Howard Hughes". Ronnie Von é tudo isso mesmo?

Pior que é. E mais. E por isso mesmo é que o livro frustra. A maioria dos potenciais leitores pode não saber que Ronnie Von fez discos psicodélicos, numa segunda fase de sua carreira, discos que foram fracassos comerciais e hoje são cultuados. Só que eu já sei. Quero saber o porquê ele decidiu fazer isso (ainda mais porque Ronnie garante que nunca tomou LSD). E o livro não explica em detalhes. Eu não sabia que "Cavaleiro de Aruanda" era um ponto de umbanda, e também quero saber porque Ronnie Von decidiu gravar isso. E porque virou ator de novela. E porque voltou a ser cantor romântico. E porque virou apresentador. E como superou a doença que quase o matou. A vida de Ronnie Von é surpreendente demais para porquês tão panorâmicos.

O livro escorrega que é uma beleza. Você começa e não quer largar, o que é o máximo elogio para um autor. Sim, todo artista esperto tem que terminar o show com o público pedindo por mais. Mas Guerreiro e Pimentel, como Barcinski, tiram seus astros do palco muito cedo. São 160 páginas para Ronnie, 240 para todos os pavões.

ro O príncipe, os pavões, e o problema com livros popDeu trabalho escrever a bio de Ronnie Von. Barcinski fez mais de cem entrevistas para seu livro. Contou pessoalmente para os amigos causos imperdíveis de várias, que nem estão no livro. Dá dó. Nossa história, e nossa história pop e popular, é tão pouco contada.

Não é preguiça dos autores. É realismo editorial. Um livro de 200 páginas custa de R$ 25 a R$ 30. Um de 400 páginas vai para R$ 50 ou mais. A venda despenca, na maioria dos casos. É o dobro de trabalho pela mesma grana ou menos.

Não que dinheiro seja o motor pra escritor nenhum. Tiragem inicial de livro, no Brasil, é 2 mil exemplares. O escritor fica com 10% do valor do exemplar vendido, três reais, digamos. Esgotada a tiragem inicial, terá embolsado R$ 6 mil. Divida pelas cem entrevistas feitas para Pavões Misteriosos, e temos R$ 60 por entrevista. Não paga telefone e táxi para ir falar com os entrevistados, que dirá o tempo de Barcinski. Ainda que a bio de Ronnie venda bem mais, há que dividir entre dois autores...

É a razão porque temos pouquíssimos livros-reportagem no Brasil. Ainda mais sobre temas pop, com menos chance de vendas governamentais, de emplacar listas de mais vendidos. Eles só existirão por despreendimento do autor. No caso de biografias, pior, porque além de tudo sempre há chance do livro ser recolhido, o que espanta as editoras, e com razão.

Li com prazer Pavões Misteriosos e O Príncipe que Podia Ser Rei. Leria com mais prazer se tivessem o dobro de páginas. Mas quem sou eu para criticar os outros por pesquisarem muito e entregarem livros curtinhos? Fui pelo caminho mais fácil. Requentar textos antigos, minestra com um temperinho de novidade pra enganar. Meu livrinho O Dia Em Que o Rock Morreu é isso, e mais curto e mais barato que os livros dos camaradas. Vende um pouquinho. Cobrirá os custos e mais o suficiente para um ou dois jantares caprichados.

É pouco? Tá bom demais. Zoei com Barcinski outro dia dizendo que o livro dele venderá cinco vezes mais que o meu, e é vinte vezes melhor. Mas o meu deu cem vezes menos trabalho, e portanto estou no lucro...

 

Publicado em 06/10/2014 às 15:53

O mundo que Twin Peaks criou

cooper O mundo que Twin Peaks criou

O agente Dale Cooper

A fita VHS passava de mão em mão. Preciosa, vinha de longe - Los Angeles. Uma fita a cada duas, três semanas, um mês, como demora! E quanto mais perto do fim, maior o tempo entre elas.

Era assim na nossa redação em 1991. Ana Maria Bahiana, nossa correspondente, programava o videocassete de seu apê em Century City, Los Angeles. As fitas vinham para São Paulo pelo malote da Editora Azul. Endereçadas para o diretor de redação das revistas Bizz e Set, de música e de cinema, José Augusto Lemos. Meu chefe. Que assistia rápido e me repassava, fazendo suspense.

Eu via rápido com namorada e amigos, dia de pizza e cerveja e muito debate. Que diabo a gente acabou de ver? E no dia seguinte eu já repassava para outro colega de redação. Queríamos que todos vissem logo, pra gente poder comentar. Cara, viu o anão que fala ao contrário? A mulher que carrega o tronco? A mina dando um nó no cabinho da cereja com a língua? E quem matou Laura Palmer?

Era Twin Peaks. A série que criou o mundo das séries. A gente não sabia disso na época. E jamais imaginaríamos. Porque era uma série era muito doida e muito careta e muito anos 50 e muito do futuro, tudo ao mesmo tempo. Mas foi a matriz do que vinha. Porque Twin Peaks, sem dar audiência gigantesca, dava muito assunto, gerava debates, dividia, conquistava. Fenômeno pop, capa da Rolling Stone. Que loucura. Que mulheres lindas.

twinforasta O mundo que Twin Peaks criou

Twin Peaks não tinha audiência, tinha fãs. Nós queríamos comprar camisetas e canecas e badulaques em geral. Deu um lucrão. É o modelinho perseguido por todas as séries de hoje. Contar uma longa história aos pedaços, com personagens marcantes, mistérios & surpresas, sex-appeal. Causar, marketear, licenciar, faturar. Boxixo é o sangue nas veias da web, que nem existia em 1991.

Twin Peaks implodiu logo. Era estranha demais para ser o que podia ter sido. A segunda temporada fez água; veio um longa metragem; tudo desnecessário. Pioneiros frequentemente quebram a cara. Quem vem depois vê mais longe, porque nos ombros de gigantes. O que veio depois foi Arquivo X, exato filhote de Twin Peaks com Além da Imaginação. O protagonista de Twin Peaks, Agente Cooper, era um cético agente do FBI que, obrigado a eliminar o provável, passa a aceitar o impossível como a única explicação. É Fox Mulder e Dana Scully encapsulados. Arquivo X pegou o começo da web de massa. Dá dinheiro à beça até hoje.

Um quarto de século passa tão rápido que dá tontura. Os produtores de Twin Peaks prometem uma continuação para 2016, no canal Showtime, só nove episódios, todos escritos pela dupla original, o diretor David Lynch e o produtor Mark Frost. Lynch dirigirá todos. O teaser está abaixo. O que esperar? Difícil surpreender uma geração que cresceu com os seriados que beberam em Twin Peaks e depois Arquivo X. A minha safra comemora a curta duração da nova série e cruza os dedos pela volta de Kyle McLachlan como o agente Cooper. Fantasiamos com mais do mesmo, mais estranho, mais além.

Não dá para botar tanta fé? É caça-níqueis? Lynch virou um velhinho ripongo? Não consigo não torcer a favor. Em 1992, minha primeira viagem para os EUA, fiz questão de ir para Seattle, a cena de rock mais quente da época. E de lá para... a verdadeira Twin Peaks. A uma hora de Seattle estão o velho hotel, a cachoeira de Snoqualmie, a floresta, a lanchonete. Comi a torta de cereja. Damn good coffee!

Publicado em 27/09/2014 às 00:05

Comemorando os 10 anos do R7

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Dez anos passam voando. Parece que foi ontem que recebi a ligação: hei, estou montando um portal para a Record, traga o seu blog para cá. Mas foi em 2009, uma década atrás. E de lá para cá, parece que a cada ano as coisas acontecem mais rápido.

Parece não. Acontecem mesmo. Resultado de um mundo cada vez mais conectado, com uma infinidade de gente muito inteligente trabalhando pra gente avançar mais rápido ainda. E assim chegamos a 2019, uma década de R7. O futuro chegou à toda.

Como já dizia ainda no século 20 o pai da palavra "cyberspace", William Gibson, o futuro chegou mas está mal distribuído. Continuamos convivendo com problemas que poderíamos ter vencido há muito tempo, da falta de educação à falta de saneamento. Caminhamos muito, mas numa velocidade insuficiente para nossa urgência. Mas há que reconhecer o quanto avançamos.

Muito do que o século 21 conquistou é por causa da tecnologia, que revoluciona nossas vidas muito mais rápido do que conseguimos reformar nossas instituições (e naturezas, claro). E é isso que o R7 é, uma empresa de tecnologia. Não era tão claro em 2009. Todos ainda confundíamos um pouco um portal de internet com um veículo de mídia, como um jornal ou uma revista. É mídia, claro. É conteúdo e serviços, evidente. Mas o DNA vai além.

Isso também não era bem claro nem em 2014, quando comecei a trabalhar no R7 de verdade. Antes eu tinha o blog, mas fazia de casa ou de onde estivesse. Não tinha nada a ver com o dia a dia do R7. Visitava a redação  uma vez a cada três ou quatro meses, batia um papo com a galera e boa.

Em 2014 veio o convite. Vem para cá! E eu, na bica de fazer 50 anos, vinte anos de empresa independente, pensei: se não aproveitar essa chance de aprender de verdade qual é a desse mundo digital, vou aprender quando? Será que servirá para alguma coisa minha experiência de tantos anos fazendo revista e livro e outras coisas de papel, e um pouquinho de internet? Será que todas as minhas cabeçadas como empreendedor vão me valer dentro de uma empresa grande?

Decidi descobrir. Virei editor executivo de Entretenimento. Foi um período muito interessante. Incrível como a gente se adapta rápido a novas situações. Dei sorte porque as pessoas eram muito legais. Me receberam com grande gentileza e infinita paciência. Fiz novos amigos. Passei a conviver diariamente com dezenas de pessoas, a maioria muito jovens, tipo metade da minha idade. A última vez que frequentei redação grande tinha 25 anos, era eu o foca...

Em meses estávamos comemorando os cinco anos do R7. De repente o R7 tinha uma megaoperação de vídeo, o R7 TV. Os dias antes da estreia foram um stress louco, correria insana, e estreou, e depois tinha mais e mais vídeo, e quando vimos tinha florescido ali um ecossistema de vídeo diferente de qualquer outra coisa.

apple watch video cap Comemorando os 10 anos do R7

O tempo continuou acelerando. No meio de 2015, quando chegou o Apple Watch, era um brinquedinho de luxo. Mas também eram objeto de desejo. E útil, porque além de tudo era um novo sistema para fazer pagamentos, e logo ninguém mais usava cartão de crédito e débito. E o Google fez igual e foi mais além em 2016 quando lançou a versão baratinha do Google Glass. Foi o início da tal internet das coisas, em que nossas geladeiras e carros e privadas passaram a ter chips e inteligência e falar entre eles, passaram a incluir também nós. Como indivíduos, e em grupo. A internet das coisas e a inteligência coletiva se uniram, inteligência de gente e de máquina.

A realidade virtual também chegou antes do que se apostava. O pontapé inicial foi quando o Facebook comprou a Oculus, em 2013. Os primeiros óculos virtuais vieram em 2015, caros, só gamer tinha coragem de comprar. Mas os aplicativos foram se expandindo, os modelos se multiplicando. Logo a Realidade Virtual foi se amalgamando com a Internet das Coisas e com a Inteligência Coletiva, tudo Gamificado. Mil modelos de negócio novos por minuto, florescendo e capotando e remixando sem fim. Quem ia imaginar que a Copa do Mundo de 2018 já seria transmitida em VR?

As pessoas comuns passaram a ser mais conectadas, mais informadas, mais empoderadas. Passaram a ter mais voz, e gritaram alto. Muitas vezes foi só ruído e balbúrdia. Mas logo conseguimos perceber novas harmonias e timbres e batidas. Quem fez melhor uso de todas essas novidades foram os mais jovens, e mais abertos e educados, e eles se provaram mais tolerantes e flexíveis e resilientes que qualquer geração anterior. Muito mais que a minha, e olhe que nascemos ali perto do meio do século 20, e tivemos que lidar com essa mudança toda.

google glass explorer Comemorando os 10 anos do R7

Nos anos que passei no R7, assisti isso tudo de uma posição muito privilegiada. Participei um pouquinho da construção de tudo isso. E de várias outras coisas. Algumas frutificaram, outras não deram em grande coisa. Faz parte.

Uma que apostei muito e adorei fazer foi o projeto GIP, nossa sigla para Global Intellectual Properties. A ideia era criar marcas globais, usando plataformas digitais. Nunca me conformei de um país do tamanho do Brasil não ter séries, desenhos animados, personagens e popstars globais. Não tínhamos nada parecido com Angry Birds (que veio da Finlândia na época) ou Minecraft (Suécia), não tínhamos um Justin Bieber (Canadá) ou Pucca (Coreia) ou todos esses nomes dos EUA e Inglaterra conhecidos nos quatro cantos do planeta. Foi muito legal participar do grupo que construiu a primeira propriedade intelectual made in Brazil que hoje é famosa no mundo todo.

Uma iniciativa que achei que ia curtir fazer foi o projeto Incubadora, que logo se transformou no fundo R7 Venture Capital. Investimos em muitos jovens geniais, grandes ideias, sempre de olho no maior impacto positivo possível para o usuário global. Mas logo vi que tinha gente muito melhor que eu para ser mentor dessa garotada e saí de fininho.

Porque de fato não tenho a intimidade com bits que essa garotada tem. Sou um jornalista do século 20 lidando com um futuro de ficção científica. Agora que estamos vivendo cada vez mais, dizem que os 50 são os novos 30. Mas já estou com 54, e como dizia o Clint Eastwood naquele filme, "um homem tem que conhecer suas limitações".

Foi por isso que eu saí do R7. Porque de todas as limitações, a que nunca podemos perder de vista é a limitação do nosso tempo. Por mais que eu adorasse estar engajado com as mudanças fundamentais da minha época, reconheci que tenho um  número limitado de anos pela frente. Pelo menos na boa forma que estou hoje (outra novidade dos últimos anos, virei atleta, ou pelo menos larguei o sedentarismo radical). Tem muita coisa que quero fazer e ainda não fiz, e requer energia, fôlego, boas pernas. É um mundo grande, e ainda não mochilei no Vietnã, não mergulhei nas Maldivas, não pulei de bungee jump na Nova Zelândia. Tenho um filho adolescente com muito gás pra me acompanhar. Então decidi me dar o tempo para fazer tudo isso. E também ler os livros que me faltava. E escrever o que sempre precisei e nunca soube.

Mas não deixei o R7 de todo. Continuo amigo da galera - os que continuam no R7, e tantos que aprenderam lá e hoje usam esse conhecimento para fazer coisas incríveis em outros lugares. Continuo dando uns pitacos, de longe, e às vezes de perto. Continuo fazendo meu blog, que não abandonarei nunca. Um dia, se ainda me quiserem, arrisco voltar, depois que der minha quinta volta ao mundo.

E aqui estou, celebrando esses dez anos que tanto mudaram o Brasil e minha vida. Valeu R7!

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Publicado em 25/09/2014 às 07:05

Seu cachorro é burro e você é porco

 

dogeatsshit Seu cachorro é burro e você é porco

O Brasil é o segundo país com o maior número de cachorros do mundo. São mais de 37 milhões. É muito cachorro. Pior, muito dono de cachorro. O brasileiro está cada vez mais folgado. Mas nem ciclista bate dono de cachorro em arrogância.

Os donos de cachorro determinam que os parquinhos são dos cachorros, não das crianças. Que as calçadas e jardins são privada particular de seus pets.

Deixar o bichinho querido trancado no apartamento o dia inteiro, com ele uivando sem parar, faz parte do cotidiano. Praia, claro, é território livre para cachorro incomodar e defecar. Focinheira? Coleira? Pra quê?
Cansei de discutir com dono de cachorro. Se acham acima desses pobres humanos que não tem cachorros.

São sempre os mesmos argumentos, e não adianta rebater, que tomam como se fosse ofensa pessoal. Até pessoas absolutamente civilizadas em outros departamentos se comportam como umas bestas, quando se trata do seu cachorro (e, engraçado, dono de gato não tem esse tipo de folga. É que gato não tem dono...).

Li que os brasileiros vão gastar R$ 15,4 bilhões em pet food esse ano. Considerando o que tem de ser humano mal nutrido e maltratado nesse país, a informação me revirou o estômago. Tinha acabado de ler essa, saí de casa e trombei com um idiota botando seu cachorro para defecar no meio do meu caminho, na calçada.
Nem todo dono de cachorro é folgado. Mas desconfio que a maioria é. Para facilitar a vida de quem ainda tem disposição de discutir com dono de cachorro, empresto aqui meus argumentos...
"Meu cachorro mas não machuca ninguém."

Cachorro grande é arma letal. Como revólver, tem que ter trava de segurança. Pequeno também pode fazer estrago, principalmente em criança. Fora de casa, cachorro grande tem que usar coleira e focinheira. Segundo o SUS, são 400 internações hospitalares por ano por ataque de cachorro, mais que uma por dia.

Já contei a história da minha vizinha e os 40 pontos que levou na mão por causa de um cachorro - não, por causa da cachorra da dona.

"Meu cachorro é limpinho."
Bicho não tem higiene, nem conceito de limpeza. Come qualquer coisa, inclusive merda de cachorro. encosta em qualquer lugar. Cachorro é limpo se tomar banho todo dia como gente. O seu é lavado todo dia? Aposto que não.

"O cachorro é o melhor amigo do homem!"
Não, é o animal mais submisso ao homem, e especificamente a seu dono. O que é completamente diferente. Aliás, não é porque o cachorro obedece / tem medo de seu dono, que vai ser bonzinho com qualquer um.

"Meu cachorro faz cocô na calçada, mas eu recolho tudo."
Você não tem consideração com as pessoas. Restos do excremento do seu cachorro vão ficar na sola dos sapatos de todo mundo que passar aí, e serão depois levados para dentro das casas das pessoas, esmerdeando tapetes, sofás etc.

"Meu cachorro faz cocô no jardinzinho, mas eu recolho tudo."
Você é egoísta e porcalhão. Os poucos espaços verdes que temos nas nossas cidades não são privada do seu cachorro, são para utilização de todos, sem preocupação com porcaria e doença.

"Se meu cachorro não pode fazer cocô na calçada nem no jardim, vai fazer onde?"
Na sua casa. O cachorro é seu. O cocô do seu cachorro é seu também. Pode ser num lugar certo, pode ser na sua cama, na mesa do jantar, onde você quiser. Não tenho obrigação nenhuma de logo pela manhã cedo ver um cachorro defecando na calçada. Para mim, é tão nojento quanto ver um ser humano fazendo suas necessidades na rua.

"Mas eu moro em apartamento!"
Sinal que você odeia seu cachorro. Tranca numa prisão um bicho que durante milhões de anos de evolução viveu em grandes espaços. Se tornam uns bichos sofredores e  neuróticos. E dar um passeinho por dia com ele não resolve nada.

"E vou deixar o cocô do cachorro no meu lixo do apartamento?"
Claro que não. Vai jogar na privada. O lixeiro não tem obrigação de ficar mexendo no cocô do seu cachorro. Nem os coitados que vivem de procurar material reciclável em lixão.

"Eu adoro levar meu cachorro para a praia! Ele fica tão feliz!"
Claro, ele é um bicho. E você é um porco que está se lixando para os outros. Fora que é contra a lei em muitos lugares, sabia?

"Os cachorros têm tanto direito às ruas quanto nós!"
A cidade foi construída por humanos, para humanos viverem. Não cachorro, elefante, ou marmota. Nós temos prioridade. Só existe tanto cachorro no mundo porque o ser humano cria e alimenta. Se fosse depender puramente da natureza, vivendo em ambiente selvagem, seriam em número infinitamente menor.

"Os cachorros têm tanto direito ao mundo quanto nós!"
Cachorro tem tanto direito à vida e à felicidade quanto o frango que você comeu no almoço. Ou a barata que você envenenou. O cavalo, que é tão "amigo" e bonito quanto um cachorro, faz parte das refeições em muitos lugares do mundo. O Brasil cria e abate cavalos para exportação para países como França e Itália, sabia?

"Imagine que horror, comer um cachorro!"
É um preconceito cultural. Na Índia não comem boi, judeus ortodoxos não comem porco, brasileiro não come cachorro. Mas em vários lugares da Ásia se come cachorro naturalmente. Já escrevi sobre isso. Eu comeria cachorro no jantar de hoje, com muita alegria, porque nunca experimentei, e adoro experimentar comidas novas.

"Qual é o seu problema com cachorro, afinal?"
Nenhum. Resumo da ópera: cachorro é bicho, tem cérebro inferior, é burro. Não vou ter raiva de um quadrúpede. O que desprezo é esse monte de donos dos cachorros folgados e porcalhões. Se você quer tratar seu bicho como gente, divirta-se na sua patetice. Quer impingir sua prepotência ao resto de nós, o animal é você.

korea dog meat Seu cachorro é burro e você é porco
Cachorro pronto para virar o tradicional cozido coreano, o Bosintang
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