Publicado em 13/02/2017 às 15:35

Avaliação de Doria tem maioria de “péssimo”,”ruim” e “regular”

O prefeito de São Paulo começou mal. Com um mês de mandato, a maioria dos paulistanos não vê de maneira positiva a gestão Doria. É o que diz a nova pesquisa Datafolha.

 Avaliação de Doria tem maioria de péssimo,ruim e regular

João Doria versão gari (Foto: Brazil Photo Press/Folhapress)

Segundo o levantamento, para 13% dos os paulistanos, a gestão é ruim ou péssima e para 33% é regular. É um total de 46%. Outros 44% dizem que é boa ou que é ótima. Dez por cento não opinaram.

Entre os mais pobres, com renda familiar até dois salários mínimos, Doria tem reprovação maior. Só 35 dos paulistanos mais pobres aprovam o prefeito. Já entre a elite, quem ganha mais de dez salários mínimos, Dória tem aprovação de 66%.

Todas essas informações, e outras, estão em uma matéria da Folha que tem o seguinte título: "Maioria aprova programas de Dória, e só 13% reprovam início da gestão". Ele está correto. O meu também.

A íntegra da matéria da Folha está aqui.

Doria foi eleito em primeiro turno há três meses com 53,29% dos votos válidos. Tem o apoio dos governos estadual e federal e simpatia da imprensa. Está gerando factoides todos os dias, posando de gari, cortando grama, em cadeiras de rodas etc, tudo que for possível para aparecer positivamente na mídia. Vem até sendo citado como forte candidato a governador em 2018. Talvez até algum dia presidente da República!

E mesmo assim tem uma minoria aprovando Dória. Um terço, 33%, dá de ombros, gestão "regular". É uma performance decepcionante. E ainda nem deu tempo de acontecer o desgaste do tempo, das expectativas frustradas, que vai minando toda gestão. O que acontece?

Uma análise possível: a vitória acachapante de Dória não foi a vitória acachapante de Dória. Foi a derrota acachapante de Haddad, que fez uma administração medíocre, e do PT, há anos enxovalhado sem dó pela mídia e Lava-Jato (e fez bastante por merecer).

A maioria não votou para Dória. Votou contra Haddad e o PT. Dória mantém a admiração de muitos eleitores, e mais ainda dos mais abonados. Mas a maioria dos paulistanos não está lá muito impressionada.

O tempo dirá se Dória vai aprender que uma empresa e uma cidade são coisas bem diferentes. Que os paulistanos não são consumidores, nem acionistas. Somos cidadãos. E seremos mais cidadãos ainda quando deixarmos de ler só os títulos das matérias, e sair compartilhando qualquer coisa nas redes sociais. Se vale a pena ler, vale a pena ler com atenção, analisar e pensar por si próprio.

E vale a pena lembrar sempre da lição do economista Roberto Campos, que dizia: "Os números são como o biquíni. Sevem para esconder o essencial."

http://r7.com/Z9bA

Publicado em 08/02/2017 às 10:07

O Espírito Santo de hoje é o Brasil de amanhã

caos no espírito santo 850x491 O Espírito Santo de hoje é o Brasil de amanhã

O Espírito Santo fez o dever de casa. O governador Paulo Hartung saneou o Estado. Equilibrou as contas públicas. É exemplo a ser seguido pelos outros Estados. No ano passado esse era o discurso dos jornalistas, dos economistas, dos experts. Silenciaram nos últimos dias. Silenciaram também 87 pessoas, assassinadas desde a última sexta-feira.

A violência no Espírito Santo está diretamente ligada aos planos de austeridade impostos pelo governo estadual nos últimos anos. Como o crescimento da violência no Brasil - e do desemprego e do desespero - está diretamente ligada aos planos de austeridade impostos pelo governo federal desde 2014. Quando os arrochos nacional e local se somam, as vítimas se multiplicam.

O que os 10.300 policiais militares do Espírito Santo querem? É a PM com o mais baixo piso salarial do país, R$ 2460,00. A média do Brasil é R$ 3980,00. Eles não têm aumento há sete anos, e há três anos o governo estadual nem repõe as perdas da inflação. Os PMs também reivindicam a renovação da frota de veículos, a melhora das condições do hospital da polícia, e a compra de coletes à prova de bala, que estariam em falta.

É fácil de argumentar que não devia existir Polícia Militar, só civil. Mas vamos deixar isso para lá no momento, e reconhecer que o que os PMs do Espírito Santo pedem não é muito. É muito pouco: salário mais próximo da média nacional e condições mínimas para fazer seu trabalho, que é bem perigoso.

Em vez de negociar com a polícia militar, o governador pediu ao governo tropas do exército. Chegaram lá e tomaram tiros dos bandidos. Vitória segue paralisada, comércio e escolas fechadas, ônibus não circulam. Os turistas fogem das praias capixabas. Os corpos se acumulam no departamento médico legal, que não dá conta de tanta morte. A Polícia Civil está avaliando se adere à greve. E as esposas dos PMs seguem protestando nas portas dos quartéis.

Qual a proposta concreta do governo do Espírito Santo para a PM? Nenhuma. A questão é que se o governador cede aos PMs, terá que ceder aos policiais civis. E depois ao resto do funcionalismo.

O governador Paulo Hartung, do PMDB, começou essa política de arrocho já em 2015. Mesmo tendo os custos com funcionalismo bem abaixo do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal. Naturalmente não faltou dinheiro para outras atividades do governo - desonerações a grandes empresas, obras eleitoreiras etc. Foi louvado, e até considerado um bom candidato à presidência da República.

Tem outra questão. Se o governo começa a ceder às demandas dos funcionários do Estado, daqui a pouco vai ter que ceder às demandas da população que é atendida pelo Estado. Do povão em geral, que precisa de giz na sala de aula e merenda no intervalo, vaga e leito no hospital, paz para ir e voltar do trabalho, e outras coisas simples assim. E isso é exatamente o que os administradores do país, dos estados e das cidades se recusam a nos dar. Não que nada disso seria "dado", porque que a gente já paga bem caro por isso tudo.

Nos últimos tempos ouvimos muito o argumento de que "o Brasil está quebrado" - o país, os estados, as cidades - o que exigiria medidas duras. "Herança Maldita" que exige cortar na carne, no osso. Nos salários, aposentadorias, direitos.

Na verdade, a conta é outra. O Brasil não está quebrado. O que o Brasil não pode mais se permitir é ter 99% dos brasileiros pagando muitos impostos, e o 1% dos brasileiros mais ricos pagando quase nada de impostos. Nossos milionários pagam pouco imposto de renda como pessoa física, pagam pouco imposto de herança, e como pessoa jurídica pagam também pouquíssimo imposto. Além disso as grandes empresas têm toda espécie de benefícios do Tesouro Nacional. Empréstimos de pai para filho do BNDES e BB, dívidas perdoadas, "desonerações" etc.

Ontem o Espírito Santo já contava 75 assassinatos, depois de três dias de greve da PM. Ontem o Itaú, o maior banco do Brasil, publicou o seu balanço. No ano de 2016, com a maior recessão que o país já viveu, o Itaú lucrou R$ 22 bilhões. Se esse lucro fosse taxado em 50%, ainda assim seria um belíssimo lucro. O que dá para fazer com R$ 11 bilhões? Escola, estrada, esgoto.

Esse é só um de muitos exemplos possíveis. Se o Brasil não der um presente bilionário às empresas de telecomunicações, como quer o governo, também teremos um bom dinheiro para pagar policiais, professores, enfermeiras. É a Lei Geral das Telecomunicações, que está para ser aprovada, e transfere para Oi e outras teles um valor tão grande, que nem se sabe exatamente quanto é. O governo diz que é R$ 17 bilhões, o Tribunal de Contas da União diz que é R$ 105 bilhões...

E por aí vai.

Ainda podemos botar na conta o tanto que se desvia na corrupção, que sabemos não é pouco. E o que se sonega, que sabemos que é muito. Segundo a Procuradoria da Fazenda Nacional, a sonegação de impostos no Brasil pode chegar a R$ 500 bilhões por ano. Para você comparar: o Bolsa-Família custa R$ 27 bilhões por ano.

A próxima vítima será o Rio de Janeiro. O estado está para assinar um acordo com o governo federal que inclui um pacotão de arrocho para cima dos funcionários públicos do estado, inclusive policiais. Uma das exigências do governo é a privatização da Cedae, a companhia estadual de águas e esgotos, o que será feita por Pezão, vice de Sérgio Cabral...

As políticas de "austeridade" no mundo todo deram errado e estão dando muito errado aqui também. Em 2017 o Brasil não vai crescer nada. O que o poder público nos oferece são serviços públicos cada vez piores, chegando à insanidade de termos 87 mortos em quatro dias no Espírito Santo.

Na prática, os brasileiros pobres e da classe média sustentam as benesses dos brasileiros super ricos, a mamata dos sonegadores e a sujeira da corrupção. Então falta dinheiro para cobrir as necessidades básicas da população. Se a gente parar de sustentar os ricos, o Brasil equilibra as contas rápido.
E se além disso os ricos passarem a pagar a sua parte, o Brasil rapidamente vai ser tornar... rico.

Vamos encarar a realidade: tem dinheiro de sobra para o Brasil ser um país melhor para todos. Esta é a única pauta que importa, a pauta que precisamos impôr a cada dia, e também a cada nova eleição. Basta cobrar mais imposto de quem pode pagar mais, o que nunca aconteceu. Bater forte na sonegação e nos sonegadores, o que nunca aconteceu. E bater forte na corrupção e nos corruptores, o que começou a acontecer - mas só começou e agora, pelo jeito, parou.
Na prática, o que está sendo feito pelos nossos governantes, e apoiado pelos economistas, colunistas, especialistas, é o contrário do que precisa ser feito. O Espírito Santo de hoje é o Brasil de amanhã. E a próxima vítima é você.

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Publicado em 31/01/2017 às 19:20

Teori, Eike, Temer, Carmem Lúcia: a hora de virar a mesa

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Sabemos hoje o mesmo que sabíamos no dia que Teori Zavascki morreu. O avião caiu. O juiz e os outros morreram. Foi a chuva, falha mecânica, barbeiragem do piloto? A Aeronáutica divulgou laudo dizendo que os dados extraídos do gravador "não apontam qualquer anormalidade nos sistemas da aeronave." Foi assassinato? São dezenas, talvez centenas de pessoas que se beneficiaram da morte dele. Estão sendo investigados?
Não sabemos. Já mudamos de assunto. Agora é Eike Batista. A careca. A cela. O que ele almoça e janta. A reação dos filhos. Luma nas redes sociais. A prisão de Eike vem no momento perfeito para nos fazer esquecer Teori. Tirar o foco dos "acordos" da União com o Rio, que força arrocho no funcionalismo e privatização (e outros Estados estão na fila). Distrai da reeleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. Do acordo no Senado, com Eunício de Oliveira, o tesoureiro do PMDB, na presidência, e Renan como líder do governo.
Para não falar das "reformas" que nos aguardam, da Previdência para começar. Da ajuda bilionário às teles, da Operação Oi... a lista vai longe.
Distrai, principalmente, de Carmem Lúcia Antunes Rocha, presidente do Supremo Tribunal Federal, sempre elogiadíssima, reservada, discreta, técnica, teve até Caetano Veloso cantando para ela quando foi empossada...
Carmem Lúcia homologou as 77 delações premiadas da Odebrecht. Mantém sigilo sobre todas. O procurador geral da República, Rodrigo Janot, não pediu a suspenção do sigilo. Por quê? Não explica. Nem ela.
O sigilo vai até quando? É difícil e fácil responder. Em casos anteriores Janot pediu a Teori que fosse suspenso o sigilo. No caso de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, foram só vinte dias. No caso do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, foram 166 dias.
Agora são 77 delações, só da Odebrecht. Podem demorar vinte dias, 166 dias, mais, menos. Podem ficar pro dia de São Nunca. A delação de Otávio Azevedo, ex-executivo da construtora Andrade Gutierrez, foi homologada em 6 de abril de 2016. Até agora seu conteúdo é secreto.
E é facílimo responder. O sigilo vai durar o tempo necessário para que vazamentos seletivos abatam os inimigos políticos do governo. Até que acordos sejam feitos para que os poderosos citados nas delações negociem saídas. Até que a missão do atual governo seja cumprida.
Atenção: o governo não é o Planalto. O governo é o amálgama de interesses entre o Executivo, Legislativo e Judiciário. O que os une é a submissão ao grande Capital e a compreensão que a maioria dos brasileiros não tem noção do que acontece no Brasil, nem imaginação para sonhar com outro país, e muito menos energia para construi-lo. O que move o Brasil é a inércia.
Foi nessa prostração, na falta de proteína do nosso povo, que apostaram os governos que se seguiram à ditadura, do PSDB e do PT. Os únicos partidos de verdade do país, porque orgânicos, representantes de grupos sociais de verdade. Governaram com o pior da política brasileira. Enricaram os ricos, deram umas esmolas para os pobres, garantiram sua parte. Lambuzaram-se. É o habitual em política, aqui e em qualquer lugar - aqui com mais ganância e descaramento, talvez.
Quando a economia global virou, o cobertor encurtou. Alguém ia ter que pagar a conta. Temos uma elite ultra-privilegiada: não paga impostos, nem na jurídica, nem na física; nem imposto de herança. Tem os maiores rendimentos do planeta Terra, bastando manter seu dinheiro no banco, emprestado ao governo, que é seu empregado. Assim se empurrou a conta para a classe média, os pobres e os miseráveis. É o que Dilma fez. É o que Temer faz, de maneira ainda mais cruel e inconsequente, começando pela PEC do Teto, chamada pela ONU de "o mais radical pacote de austeridade do planeta".
O impeachment teve outras três funções importantes. A primeira foi exterminar o PT, o que foi feito (com a devida colaboração do próprio PT, que desperdiçou seu capital simbólico e seu mandato histórico). Falta retirar os direitos políticos de Lula, o que inevitavelmente virá ainda em 2017.
A segunda missão da conspiração era, com a desculpa de que o país e os estados estão "quebrados", forçar privatizações a toque de caixa. A preço amigo, para empresas amigas, e naturalmente com as devidas comissões enchendo os devidos bolsos. É o que está acontecendo. E o terceiro objetivo era minimizar os estragos da Lava Jato.
É evidente que os políticos no Executivo e no Legislativo não tinham como fazer tudo isso sem a colaboração do Judiciário. Mas a História é dinâmica, seus atores são múltiplos, e quanto mais complexa a sociedade, maior a probabilidade dos melhores planos darem com os burros n´água.
O Brasil não seguiu o roteiro previsto. Nem na economia e na política, que seguem afundando, nem na Justiça. A Lava-Jato é um pequeno e patético passo na direção de um Brasil mais transparente; a turma de Moro, messiânica e parcial; mas bem melhor que nada. E ver na cadeia Marcelo Odebrecht, Eike, Cunha etc. deve tirar o sono de muitos bacanas.
Que bacanas? Não sabemos. É sigilo...
Das 77 delações, conhecemos os nomes citados em apenas uma delação. Alguns famosos: Aécio, Pallocci, Romário, Skaf, Renan, Mantega, Geddel, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Kátia Abreu, Eunício Oliveira, Rodrigo Maia. Entre os que ocupam cargo no governo: Antônio Imbassahy (novo secretário de governo de Temer), Bruno Araújo (Ministro das Cidades) , Kassab, Moreira Franco... e Temer. Faltam 76 delações. Imagine o que vem - ou viria - por aí.
Além de manter sob sigilo as delações, Carmem Lúcia faz suspense sobre o método que usará para selecionar o novo relator da Lava-Jato. A maioria aposta que ela vai optar pelo sorteio. E é muito provável que somente entre os integrantes da Segunda Turma do STF: Gilmar Mendes, Toffoli, Lewandoski e Celso de Mello. Nenhum especialmente fã da Lava Jato, para dizer o mínimo. Mesmo que fosse entre os dez integrantes do plenário, a perspectiva é nada animadora - ainda mais considerando esse sigilo sem fim e sem lógica.
A cereja no bolo: nesta quarta-feira, no mesmo dia que Carmem Lúcia determina como será a escolha do relator, também está na sua mesa uma ação que pode... transformá-la em Presidente da República.
É a ação da Rede Sustentabilidade, que questiona se um réu no STF pode ocupar a linha de sucessão da presidência. O julgamento foi inciado no dia 3 de novembro. O relator, Marco Aurélio Mello, e outros cinco ministros votaram pela impossibildade de haver réus na linha sucessória. Réus como... Rodrigo Maia e Eunício de Oliveira. Se o STF seguir nessa linha, em caso de afastamento de Temer, quem assumiria a presidência seria a presidente do STF, a própria Carmem Lúcia. É um caso chocante conflito de interesses, mas a gente não se choca com mais nada.
O que faria Teori se estivesse vivo? Jamais saberemos. Felizmente para um grande número de poderosos, ele está morto.
O conluio Executivo-Legislativo-Judiciário botou suas cartas na mesa. Ao que parece, a jogada é empurrar com a barriga a Lava-Jato, aprovar as "reformas" que der, privatizar tudo voando e chegar até 2018 fora da cadeia e com os bolsos cheios. Se a situação fugir do controle, e Temer perder o mandato, improvável, assume - veja só - Carmem Lúcia.
Com ela ou com Temer, em 2018 tem eleição e em 2019 teremos outro governo. Que será o mesmo governo. Porque será o mesmo STF e os mesmos políticos, obedecendo aos interesses dos mesmos poderosos. E segue a farsa...
São cartas marcadas. Difícil virar o jogo. Talvez o melhor seja virar a mesa.

http://r7.com/A4BI

Publicado em 30/01/2017 às 15:25

“Pssica”: um livro escrito em vermelho-sangue

pssica Pssica: um livro escrito em vermelho sangue

“Pssica” dói da primeira à última página. São poucas, noventa e seis. Tentador e impossível ler em uma sentada só. Edyr Augusto escreve em carne viva.

O livro é populado por gente violenta, vivendo e morrendo violentamente - e arrastando inocentes para o inferno. Pai carola, tio safado, amiga traíra, marido apaixonado. Escrava sexual, prefeito, traficante, jagunço, radialista. "Ratos d´água", piratas dos rios. Da selva urbana de Belém ao faroeste de Marajó, dos igarapés infinitos ao garimpo, ao Suriname, a lugar nenhum.

O livro é de 2015. Teve tiragem pequena e boas críticas. Um amigo recomenda a outro, como um presente. Cuidado: não é noir de boutique. Nem "literatura". Não embalará festivais descolados. Rescende a suor, diesel, cachaça, cocaína. A referência mais comum é Rubem Fonseca, mas o parentesco é distante. Em entrevistas Edyr cita autores que admira, e que não fazem parte do repertório habitual da crítica brasileira, como Elmore Leonard, Denis Lehane. E James Ellroy, que também é mestre da narrativa dura e delirante.

Mas onde Ellroy é épico, Edyr é cotidiano. É só seu o cipoal de narradores, brasileiros de carne e osso. É só seu o mergulho no turbihão amazônico. Impiedoso, explicou ao Estadão porque não alivia para personagem nenhum: "Viver é difícil. Viver é perigoso." Leia a entrevista com Edyr na Vice. Ele já ganhou prêmios e foi publicado no exterior. Escreveu outros cinco livros, sempre publicados pela Boitempo. Compre todos aqui.

"Pssica" é uma viagem sem volta ao inferno verde, ao Brasil manchado de sangue. Olhe aqui, exige Edyr, e não conseguimos desviar os olhos dos milhões brutalizados pela miséria, os sessenta mil assassinatos por ano, as favelas, cadeias, puteiros. "Pssica" é gíria para mau olhado. Amaldiçoa nosso eterno país do futuro, eternamente escravocrata. "Me salva", implora a protagonista do livro, Jane, inesquecível. Mas no Brasil ninguém está a salvo. É um destino que Edyr Augusto entende - e enfrenta.

http://r7.com/m5Cv

Publicado em 12/01/2017 às 17:08

Meirelles inicia o maior ataque ao funcionalismo público

meirelles dormindo1 1024x438 Meirelles inicia o maior ataque ao funcionalismo público
Sem alarde, o governo de Michel Temer e o Supremo Tribunal Federal iniciaram esta semana o maior ataque ao funcionalismo público que o Brasil já viu. À frente da operação está o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. A blitz continua na semana que vem, quando deve ser aprovado o acordo da União com o estado do Rio de Janeiro. Esse compromisso incluirá a redução da jornada de trabalho e dos salários dos funcionários públicos do Rio. Também está previsto o aumento da contribuição previdenciária dos funcionários públicos, que hoje é de 11%.
Como o estado do Rio "está quebrado", enfiaram também no acordo a privatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), que pode chegar a render R$ 5 bilhões. O responsável pela venda será o BNDES. Que mais está na mesa de negociação? Um plano de demissão voluntária e o corte de funcionários terceirizados.
Mas custa caro demitir. Para isso, entrou em jogo o Banco do Brasil, para quem o Rio deve R$ 10,8 bilhões. Fechado o grande acordo, o Banco do Brasil poderia fazer um novo empréstimo para o Estado, justamente para financiar os programas de demissão voluntária e para bancar o alongamento de dívidas do Rio. Em troca de tudo isso, o estado do Rio ficará de três a cinco anos sem pagar os juros da dívida com a União e outras instituições federais.
Mas pode diminuir salário de funcionário público? A lei permite isso? "Vamos submeter o acerto ao STF para ter segurança jurídica e evitar contestações adiante?, disse Meirelles ao jornal Valor Econômico. Se ele falou que vai submeter ao STF, é que ele já sabe que vai passar... o acordão está feito. Mais um.
Tem um probleminha. O próprio STF julgou institucional em 2007 o artigo 23 da Lei de Responsabilidade Fiscal, que possibilita a redução temporária da jornada de trabalho e dos vencimentos de funcionários públicos. Mas talvez não seja problemão. Basta o Supremo jogar no lixo sua decisão de 2007. Absurdos desse tipo têm acontecido, como vimos quando Renan peitou o STF. E isso pode muito bem acontecer agora. O Supremo, e a ministra Carmem Lúcia, dão sinais escancarados de que estão afinadíssimos com o governo Temer.
Agora um detalhe muito importante para você, que não é carioca. Na verdade, o que está em jogo não é o Rio de Janeiro. É muito maior que isso.
Em setembro de 2016, 20 estados brasileiros assinaram uma carta pedindo ajuda financeira à União, alegando colapso. De lá para cá, a situação só piorou. E vai continuar piorando. A política econômica de Temer é a continuação da política econômica de Dilma. Deu errado em todos os países em que foi tentada. Não tem porque dar certo aqui. Mas a crise é útil para o governo. Serve de desculpa para se fazer o que jamais um governo teria força para fazer em condições normais (e muito menos um governo com níveis pífios de aprovação popular).
A crise é a justificativa que o governo precisa para aprovar um ataque sem precedentes ao funcionalismo público do Brasil. Se o Supremo Tribunal Federal decidir pela legalidade da redução de jornada e salários, ao Rio vão se seguir acordos similares em boa parte dos estados, a começar por Minas Gerais e Rio Grande do Sul. E se pode fazer isso com funcionário estadual, porque não poderia se fazer o mesmo com o funcionário da união, ou o funcionário municipal?
Isso tudo tem grande chance de acontecer. Como foi aprovada a PEC do teto de gastos. Como quase foi aprovado o pacote bilionário de ajuda às teles, mais conhecido como "Operação Oi". É como o governo pretende aprovar a "reforma" da Previdência e um pacotaço de privatizações a toque de caixa. Porque há uma conspiração de silêncio acobertando as consequências disso tudo. Só vemos discussões pseudo-técnicas, sempre usando a premissa de que o Brasil não tem dinheiro. Quando sabemos que os brasileiros mais ricos seguem sem pagar impostos, que empresas gigantes seguem pegando dinheiro público com juros de pai para filho, e sonegando na cara dura...
É uma boa oportunidade para discutir que serviços nós queremos do Estado, quanto estamos dispostos a pagar por eles, e de onde deve vir o dinheiro para isso.
No Brasil, "funcionário público" virou sinônimo de vagabundo. E todos nós já ouvimos um milhão de vezes que o Estado brasileiro é gigantesco, inchado e ineficiente.
Vamos aos números: de cada cem trabalhadores brasileiros, doze são funcionários públicos. É a média dos países da América Latina. Onde o atendimento à população também deixa muito a desejar. Nos países desenvolvidos, a média é de 21 funcionários públicos para cada cem trabalhadores. E nos países mais desenvolvidos do planeta, como Dinamarca e Noruega, mais de um terço da população economicamente ativa trabalha para o governo. Não dá pra gente chegar lá do dia para a noite, mas é uma questão-chave: em que tipo de país queremos viver, na Bolívia ou na Suécia?
O funcionalismo público no Brasil tem distorções absurdas, perfeito reflexo da má distribuição de renda no país como um todo. Temos de fato marajás no funcionalismo e isso tem que acabar. Mas é uma minoria minúscula. A maioria dos servidores tem salário baixo. E baixa escolaridade, pouco treinamento, pouca perspectiva. A distribuição física também é um problemão. Temos uma concentração exagerada de funcionários em algumas grandes cidades, e principalmente nos bairros mais abonados dessas cidades. E pouquíssimo funcionário público nas periferias.
Sem se fingir de Suécia, dá pra começar fazendo o arroz com feijão. Fazer um choque de gestão no funcionalismo público, acompanhado de um plano de cargos e carreiras que faça sentido. Distribuir essa gente direito pelas nossas cidades. Tolher ao máximo a terceirização, que dá enorme margem à corrupção. Estimular profissionais de primeira a ir para o setor público e lá ficar. Enfim, basta copiar o que fazem países civilizados, ou que querem se civilizar. Não precisamos nem devemos reinventar a roda.
Também é uma ótima oportunidade de se criar um foco organizado de resistência à danosa política econômica de Temer e Meirelles. A PEC do Teto é exterminadora do futuro, mas não afeta o presente do brasileiro. O presente às teles, que foi suspenso temporariamente por pressão da sociedade (e promete voltar à pauta do governo em fevereiro), não motiva a população a protestar. Outras lambanças parecidas têm passado mais ou menos batido, e há que desculpar o brasileiro, que está bem ocupado em vender o almoço para pagar a janta.
Já um ataque frontal ao direito estabelecido do funcionário público é outra história. É explicitamente arrocho e explicitamente ilegal. Começa pelo Rio, mas tem potencial para atingir doze de cada cem trabalhadores brasileiros. A resistência também está começando pelo Rio. O Movimento Unificado dos Servidores Estaduais, que reúne 42 entidades, entre sindicatos e associações, já avisa que levará a questão ao plenário do STF, mesmo que o acordo seja fechado entre a União e o governo do Rio, e chancelado por Carmem Lúcia.
Esse ataque ao funcionalismo é mais um ataque à população brasileira mais pobre. Quem pagará por essa "economia" serão não só os funcionários públicos e suas famílias, mas os brasileiros mais necessitados, velhos, crianças, doentes. Enquanto isso, a elite segue faturando com os juros mais altos do mundo. E o Judiciário vai se tornando uma elite intocável, com salários enormes que não seguem teto nenhum, recessos generosos e benefícios milionários. Não podemos permitir mais essa barbaridade. O Estado brasileiro precisa ser reinventado, não destruído.

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Publicado em 06/01/2017 às 15:20

A solução para as prisões é liberar as drogas e libertar os presos

 A solução para as prisões é liberar as drogas e libertar os presos

Talvez você não se importe muito quando acontece uma chacina na cadeia, como essas na Amazônia. Afinal, é um bando de bandidos. Não farão muita falta para o Brasil. Talvez até ache que eles mereciam morrer. Acontece que a violência na cadeia é só o reflexo de um problema muito maior, que é a violência na sociedade. E a solução para vencermos a violência no Brasil, dentro e fora das cadeias, é exatamente a mesma. E não é o que você imagina. Tem dez minutos? É o suficiente para você ver as coisas como nunca viu antes.

A maioria dos presos no Brasil são jovens, pobres, negros e ignorantes. Do total,  56% têm entre 18 e 29 anos, 67% são negros, 53% têm o curso fundamental incompleto. Indo um pouco mais fundo na escolaridade (que será importante no final desse texto), temos também 11% de ensino médio incompleto e 6% de analfabetos.

Eles estão na cadeia principalmente por quatro razões: 27% por tráfico, 21% por roubo, 14% por homicídio, 12% por furto (esses são os percentuais entre os homens, que são a maioria dos presos; as mulheres têm números diferentes; a maioria está presa por tráfico, poucas por crimes violentos). A maior parte dos presos por tráfico é por traficar uma quantidade muito pequena de drogas. E também sabemos que uma parte enorme dos roubos, homicídios e furtos são ligados justamente ao tráfico.

Imagine por um segundo que as drogas são legalizadas no Brasil. Viram um produto que faz mal para a saúde como qualquer outro, como álcool, café e cigarro.  Em momentos diferentes da história, o café, o álcool e o tabaco foram ilegais. Hoje, este trio movimenta bilhões e têm sua produção e consumo liberados e /ou regulamentados.

Fazem mal pra saúde? Bem? Não é o ponto. O ponto é que se eu tomar dois litros de café por dia e tiver uma baita gastrite a vítima sou eu. Estou no meu direito. Temos tanto direito de consumir droga quanto fumo, álcool, café. Cada ser humano tem direito de fazer o que bem entender com o seu corpo. E nada com o corpo alheio, a não ser com autorização do outro. Não se trata de defender o uso de drogas, e sim a liberdade de cada pessoa decidir.

As pessoas querem e pagam caro por drogas. A ilegalidade só alimenta o crime. Vamos vender droga no supermercado com embalagem bacana, na farmácia, na balada. Dá para cobrar mais barato que hoje e ainda cobrar impostos altos e encher os cofres públicos – podemos botar todo esse imposto para construir hospitais e creches e escolas, em vez de cadeias, que tal?

O impacto da legalização seria gigantesco. Seria o fim do tráfico e das facções criminosas. Cairiam automaticamente roubo, homicídio e furto. Diminuiria a corrupção na polícia. Aumentaria muito nossa segurança.

Se as drogas passam a ser legais, a decisão lógica é anistiar os presos por tráfico. Liberdade para eles e para quem cometeu pequenos furtos, pequenos crimes ligados ao tráfico. Tornozeleira resolve. Cana para quem cometeu crime de verdade e só. E cana de verdade para esses empreiteiros e políticos que fazem delação premiada...

Parece impossível? Impossível é a gente continuar convivendo com essa violência, essa insegurança cotidiana, sessenta mil assassinatos por ano. E jogar bilhões de reais fora com essa política de repressão às drogas que não funcionou em lugar nenhum do mundo. O Brasil tem 600 mil pessoas na cadeia e continua sendo o maior consumidor de crack do planeta, e o segundo maior de cocaína. Só estamos atrás dos Estados Unidos, justamente quem inventou essa “guerra às drogas”. Por isso, aliás, é que os EUA começam a legalizar as drogas, começando pela maconha, que hoje tem consumo liberado em diversos estados.

Finalmente, uma questão importante: se a gente liberar as drogas, e soltar os presos, o que eles vão fazer nas ruas, se não puderem voltar a traficar? Bem, felizmente já descobrimos a solução para esse problema também. Nós vamos dar dinheiro para eles. E a maioria deles não voltarão ao crime.

O planeta Terra hoje tem sete bilhões de pessoas. Em algumas décadas seremos nove bilhões. A maioria dos que virão vão nascer em lugares pobres, e terão justamente o perfil dos nossos presos: jovens, pobres, negros, com baixa escolaridade.

Já não temos emprego pra todo mundo hoje, em 2017. É evidente que não teremos emprego para mais esses dois bilhões de pessoas. E com o avanço da tecnologia, e da automação, mais e mais empregos que existem hoje serão eliminados nos anos que virão. Inclusive, provavelmente, o meu e o seu.

É por isso que vários países, instituições e até empresas, da extrema esquerda à extrema direita, estão investigando a Renda Básica. É uma política que transfere dinheiro do Estado diretamente para o cidadão, dinheiro suficiente para cada um viver de maneira modesta. Em vez do Estado dar dinheiro a juros baixos pra empresas, pra tentar gerar empregos, ou criar estruturas inchadas e burocráticas para ajudar a população, simplesmente paga todo mês uma quantia para cada pessoa. E boa.

Segundo alguns estudos, a Renda Básica desestimula a pessoa a se arriscar no crime. E estimula a realizar mais trabalhos não-remunerados, como cuidar da família, das crianças e idosos, da sua rua, sua cidade, do mundo. Além, claro, de liberar nosso tempo para a gente se educar, namorar e ser feliz.

Atenção: se a pessoa arrumar emprego, continua ganhando. Se for pra cadeia, e depois dela sair, continua ganhando o tempo todo. Não é auxílio temporário. É para sempre, incondicional. Dinheiro grátis. Como hoje a vacina, por exemplo, é grátis (se você quer saber mais sobre o assunto, pesquise aí na internet: “Universal Basic Income”). Temos dinheiro de sobra para isso. Os Estados Unidos, para ficar em um caso só, colocaram oito trilhões de dólares na economia mundial desde 2008, dinheiro que antes "não existia". Essa grana foi para salvar os bancos americanos. Dinheiro para bilionários e grandes empresas sempre aparece. Está na hora de pingar um pouco para as pessoas comuns também.

Isso tudo te parece conversa de louco? Loucura é aceitar esse inferno, quando o paraíso está aí, ao nosso alcance. Quem parece louco é o ministro da Justiça, que declarou que a situação nas prisões brasileiras está “sob controle”, semanas depois de afirmar que ia erradicar toda a maconha das Américas...

A violência no Brasil, e nas cadeias brasileiras, é consequência direta das drogas serem ilegais. Vamos legalizar tudo, esvaziar as cadeias, e estabelecer um programa de Renda Básica. O Brasil já tem uma iniciativa importante nesse sentido, o Bolsa-Família. É urgente e estratégico ampliá-lo radicalmente. Para começarmos a fazer justiça. E algum dia, termos paz.

http://r7.com/dZxA

Publicado em 21/12/2016 às 13:57

Os melhores livros que eu li em 2016 (e você não)

maya 705x1024 Os melhores livros que eu li em 2016 (e você não)

Vladimir Mayakovsky

Os melhores livros que li em 2016 não foram traduzidos para o português. Talvez nem sejam.  Nossa pobre indústria editorial foi varrida em 2016 por uma tempestade perfeita. Foram por água abaixo as compras governamentais e os editais. As distribuidoras e livrarias  "ou não distribuem, ou não vendem, ou não pagam", me conta um amigo editor. O leitor está cada dia mais pobre. E 2017 há de ser pior.

É verdade pra ficção, mas ainda para não-ficção. Especialmente se contra a corrente. Resta ler no original, sempre a um clique de distância. O que há de mais importante para aprender  do que inglês? É a língua franca do século 21, a língua internacional da ciência, da arte, da grana.

O Brasil sempre foi de pouca leitura. Nos próximos anos, rolaremos morro abaixo, pelo descalabro na educação, pela recessão permanente, pelo crescente encanto dos smartphones e redes sociais. Sobrarão alguns leitores, mas a tendência do livro é virar disco de vinil, artefato vintage para colecionadores.

Enquanto isso leio, e aliás espero morrer com um livro na mão, a imagem acabou de me ocorrer, e não me deixará mais. Esse ano li pouquíssima ficção, como sempre em absoluto descompasso com os lançamentos do ano. Ando lendo quadrinho pra caramba, o que sacia bem minha sede por histórias inventadas.

Tem muito quadrinho brasileiro bom. Gringos, depois que comprei um tabletão, ler gibi passou a ser um prazer maior ainda, e instantâneo, clicou comprou. Em janeiro faço uma lista só de quadrinhos bacanésimos que li em 2016, que tal? E também ficam pra depois as preciosidades que  garimpei esse ano, nas estantes do meu sebo favorito, o Desculpe a Poeira.

De mais "normal", inesperadamente li vários livros sobre música, que ouço muito mas nunca rende leituras. Li com proveito Eu Não Sou Cachorro, Não (Paulo César Araújo), Magneticos 90 (Gabriel Thomaz e Daniel Juca), Rick Bonadio (Rick e Luiz Carlos Pimentel), Viva La Vida Tosca (João Gordo e André Barcinski) e Meninos Em Fúria (Marcelo Paiva e Clemente). Barcinski garante que a biografia do Bruce Springsteen é maravilhosa e assino embaixo sabendo que jamais lerei.

A temporada foi convidativa para ler ficção científica: Warren Ellis (Normal), Paolo Bacigalupi (The Drowned Cities), William Gibson (The Peripheral) e Bruce Sterling (Black Swan, Pirate Utopia). Comprei uma nova edição (de uns dez anos atrás) da história da ficção científica do Brian Aldiss, só por causa dos novos capítulos finais, The Trillion-Year Spree. Acabou de chegar Sci-Fi Chronicles: A visual history of the Galaxy´s Greatest Science Fiction, 575 páginas, meu presente de Natal.

Recomendo muito a edição comemorativa de quinhentos anos de A Utopia, de Thomas More. Já tinha lido A Utopia umas dez vezes, mas essa edição ficou demais. Tem introdução do China Miéville, que te fará ver o livro de maneira completamente diferente (!), e ensaios finesse da Ursula K. LeGuin. E, sim, A Utopia é ficção científica.

Li Julian, de Gore Vidal, biografia em primeira pessoa do  apóstata. Não chega perto de Criação, outro romance de Vidal que se passa na antiguidade, perfeitamente perdoável porque Julian foi escrito vinte anos antes. Mesmo assim é delicioso, uma farsa épica sobre o imperador acidental que troca suas pretensões intelectuais pela certeza de um destino manifesto. Dá para perceber que Vidal escreveu na Itália, para onde foi dar um trato no roteiro de Ben-Hur e para onde acabou se mudando. Emendei SPQR, uma história supreendente das partes que interessam do Império Romano, da Mary Beard.

Também tracei a coletânea de colunas de Vidal para a revista The Nation, baluarte da esquerda americana, um monte de assunto velho, mas velho que eu vivi, e vai escrever bem assim em Ravello. E um livro fotográfico dele, Vidal In Venice. Adoro Veneza e já li paca sobre a cidade (leia Venice do Peter Aykroyd), mas não resisti à verve do velho.

Reli The Shock of The New, do Robert Hughes. A minissérie foi minha introdução audiovisual ao tema "arte moderna" na TV Cultura quando eu tinha uns 16 anos. Continua brilhante. Li sobre arte russa, a maioria edições russas, bilíngues. Continuo ignorante, o troço é imenso, e nós no Ocidente não manjamos nada. O beabá são os livros sobre as coleções da galeria Tretyakov e do Hermitage, nos dois casos divididos entre arte pré e pós revolução soviética. Tem Ilya Repin e outros realistas maravilhosos do século 19. Tem uns simbolistas sensacionais. Tem Tatlin e o grupo futurista/construtivista e companhia, e aquela baita explosão de criatividade dos primeiros anos da revolução, antes de Stalin impôr o realismo socialista, Mayakovsky, Rodchenko.

E tem a curiosíssima vanguarda pós segunda guerra, não-abstrata, totalmente diversa do mainstream artístico do Ocidente. Com o tempo os artistas russos foram criando sua própria pop art, e op-art e street art e tal, dentro daquela caretice cinzenta de Brejnev. História fantástica. Aliás, a história da Rússia é fantástica em geral. Nós tínhamos uma visão parcialíssima sobre o país quando era URSS, e continuamos míopes na era Putin. Para contrabalançar um pouco o viés americano, a sugestão é A Concise History of Russia, do especialista Paul Bushkovitch.

Na mesma onda curti Militant Modernism, que defende que a pulsão revolucionária do modernismo foi castrada pelo capitalismo e pelo stalinismo.  Owen Hatherley escreve sobre Brecht e Reich e brutalismo e construtivismo como se fosse uma crítica de banda estreante na Melody Maker em 1982. Owen advoga a relevância da atitude modernista para o século 21 com uma perspectiva não-rancorosa e completamente livre de picuinhas autovitimizantes.

Uma experiência intrigante foi reler todos os contos de Jorge Luiz Borges - mas agora em espanhol, 456 páginas, a obra completa em ordem cronológica. Perco umas palavras, mas é hipnótico. A edição é da Sudamericana. Imagino o paraíso como uma biblioteca, como ele...

Reencontro igualmente enriquecedor foi com Sartre, Camus e turminha, graças a Sarah Bakewell e seu At The Existentialist Café. O livro não encanta como o anterior de Sarah, How To Live Well, mistura de auto-ajuda com os Ensaios do meu ídolo Michel de Montaigne. Pulei umas tretas bizantinas entre os protagonistas. Mas os existencialistas respiram.

Sobre a grande surpresa política de 2016, não foi surpresa para minha assessora especial para assuntos econômicos. Ela recomenda muito Dark Money: The Hidden History of The Billionaires Behind the History of the Radical Right, que segundo ela explica Trump e a massacrante vitória republicana no Congresso. Não li mas vou por ela.

Finalmente, seguem abaixo os quatro melhores livros do ano sobre política/economia/tecnologia/inovação/mudança climática /desigualdade / renda mínima. Que, claro, é tudo o mesmo assunto. Um título com ênfase um pouco mais pra cá, outro mais pra lá. Leia todos em 2017. Está em tempo.

Antes, menções honrosas para And the weak suffer what they must? Europe´s Crisis and America´s Economic Future, do ex-ministro das Finanças da Grécia, e rockstar da esquerda européia, Yannis Varoufakis; Throwing Rocks at the Google Bus: How Growth Became the Enemy of Prosperity, de outro astro pop, Douglas Rushkoff; e Inventing the Future: PostCapitalism and a World Without Work, de Nick Smicek e Alex Williams.

Utopia for Realists: The case for a Universal Basic Income, Open Borders and a 15-Hour Workweek, Rutger Bregman

Não há emprego para 7 bilhões de humanos, que dirá para os 9 bilhões que seremos em algumas décadas. Isso é óbvio e ululante. Tanto que esse assunto dominou as discussões políticas de ponta em 2016, dos libertários do Silicon Valley aos jovens radicais da esquerda européia: a renda mínima universal. É, como sempre defendeu Eduardo Suplicy... temos máquinas para trabalhar pra gente; falta desvincular renda de trabalho. Como? O holandês Bregman explica, com clareza jornalística.

This Changes Everything: Capitalism versus the Climate, Naomi Klein

Tijolaço da ex-musa dos protestos. Klein, apesar da visão de ongueira bem nascida, vai ao cerne da questão ambiental: o que está causando  mudança climática de nossa era não é o carbono e não são os humanos - é o Capitalismo. Sepulta iniciativas individuais, "consumo consciente" etc. Empilha evidências da impossibilidade de  mudar nosso destino dramático (e bicho, é DRAMÁTICO) sem mudar a maneira que organizamos nossos esforços e exploramos nossos recursos. Na última página, você estará convencido de que não dá pra enfrentar a mudança no clima sem enterrar o Capitalismo.

Post Capitalism, Paul Mason

Bem, e depois do Capitalismo vem o quê? Mason, ex-colunista de Economia da BBC e Channel 4, responde de maneira provocativa e convincente. Argumenta que a revolução digital coloca o Capitalismo em cheque, porque a megadistribuição de conhecimento (que é ilimitado) solapa a concentração de propriedade (que é limitada). Tem outros vetores aí: automação, inteligência artificial e coletiva, crise climática... Mason, formação marxista e cabeça independentíssima, escreve que é uma delícia.

E agora juntando todos esses temas políticos com inovação e com ficção científica, recomendo muito Four Futures, do Peter Frase. Ele é editor do site Jacobin.com. O livrinho propõe quatro alternativas de futuro, organizadas em dois eixos: riqueza e distribuição. Em um futuro, temos muita riqueza bem distribuída; outro, pouca riqueza bem distribuída; muita riqueza mal distribuída, e pouca riqueza mal distribuída.

São dois socialismos e duas barbáries. Não é previsão sobre o amanhã: é reflexão sobre o agora. Incomoda reconhecer o Brasil na sua descrição do Exterminismo, em que "os pobres não são mais recurso a ser explorado, só uma inconveniência ou um perigo." Mas é onde estamos, e ainda não sabemos para onde vamos.

Importante: você está proibido de baixar versões pirata desses livros. É roubar de gente como a gente, não de milionários. Seja grato a quem compartilha com você grandes histórias, grandes idéias. Decidir que esses autores merecem seu tempo é decidir que eles merecem seu dinheiro...

http://r7.com/_59Q

Publicado em 19/12/2016 às 17:30

Presente para teles pode chegar a R$ 105 bilhões

kassab 1024x593 Presente para teles pode chegar a R$ 105 bilhões

Está acontecendo nesse exato momento o maior golpe no bolso do brasileiro desde - bem, talvez desde sempre. Segundo o Tribunal de Contas da União, pode chegar a R$ 105 bilhões. Isso faz o prejuízo da Petrobras pelas mãos das empreiteiras e políticos envolvidos na Lava-Jato, de R$ 20 bilhões, parecer fichinha.

Para você ter uma idéia, dá para pagar quatro anos de Bolsa Família. Ou dá para cobrir os R$ 72,5 bilhões do rombo da Previdência da União em 2016 (e ainda sobra uma graninha boa, mais de trinta bi). Segundo outras fontes, talvez seja menos - só uns quarenta bilhões. Muito, muito dinheiro de qualquer jeito. Vamos dar um apelido fácil de lembrar? Que tal chamar de "Operação Oi"?

Essa trama começa em junho. Quando a Oi entrou com o maior pedido de recuperação judicial do país, no valor de R$ 65 bilhões. Poucos dias depois saíram as primeiras reportagens sobre uma possível "mudança regulatória" nas regras do setor das telecomunicaçoes, que o governo estudava para "estimular a economia". Foi uma das primeiras iniciativas na área econômica de Michel Temer, então ainda presidente interino. O responsável era o Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab.

O que essa "mudança regulatória" propõe?

Pela lei vigente no Brasil, quando os contratos das Teles terminarem, em 2025, elas têm a obrigação de devolver parte do seu patrimônio físico à união, patrimônio que elas vem usando e administrando desde a privatização. São antenas, cabos, torres, instalações, redes e milhares de imóveis. É patrimônio do país, não das teles.

Mas com a nova lei essa dinheirama toda vai ficar com as empresas. Em troca, elas se "comprometem" a investir valor equivalente. Me engana que eu gosto... isso aí é uma iniciativa do governo para viabilizar uma "operação salvação" da Oi. As outras teles também saem ganhando: Claro, Vivo, Algar e Sercomtel. Mas sem esse alívio bilionário, investidor nenhum vai botar dinheiro na Oi, esse buraco sem fundo. E tem muita gente interessada em salvar Oi. Interesse próprio, principalmente.

Sem essa ajudinha do governo com o patrimônio público, a Oi quebra definitivamente. O que rende mais uma investigação tão complicada quanto a própria Lava-Jato.

A operação é tão escabrosa que a população não sabe nem exatamente o quanto é o tamanho da tunga. Reportagem de Felipe Frazão na Veja, esse final de semana, cita um valor de R$ 20 bilhões, e mais R$ 20 bilhões em perdão de multas das Teles. Mas o TCU fala de R$ 105 bilhões, depois de fazer uma auditoria.

Apesar dos valores gigantescos, o Projeto de Lei da Câmara foi aprovado sem alarde na Comissão Especial de Desenvolvimento Nacional, semana passada. Já ia seguindo para Michel Temer sancionar. Um grupo de senadores tentou barrar, liderado por Vanessa Graziotin. Queriam que a nova lei vá ao plenário para ser discutida e votada. A secretaria-geral da mesa do Senado acaba de jogar fora a iniciativa deles. O patrono dessa nova lei no Senado, aliás, é Renan Calheiros, que surpresa...

Mais uma vez, Brasília age na calada da noite. Aprovam leis importantíssimas na correria, sem o Brasil nem entender o impacto delas. Nesse caso, sem as leis nem chegarem a serem votadas em plenário. Vale lembrar que no dia onze de outubro, o Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, disse o seguinte sobre a Oi: “Nós temos duas premissas: trabalhar para que não haja intervenção e não haverá injeção de dinheiro público [no processo de recuperação da empresa]”.

Impedir esse assalto ao Brasil requer uma pressão popular muito grande. Na véspera desse Natal de carestia, com tudo que os brasileiros têm que enfrentar, e um assunto complicado desses, resistir é muito difícil. Eles contam com nossa desatenção, nosso desalento. E mantêm o discurso de que é preciso o povo fazer sacríficios, que os juros continuem altos, que é fundamental cortar o investimento nos estudantes, dos velhos, dos aposentados, dos deficientes...

O que deve ser feito?

De cara é preciso parar tudo, até que a gente saiba exatamente qual é o valor. Existe uma diferença enorme entre R$ 105 bilhões, o valor dado pelo TCU, e R$ 20 bilhões, que é o que valor deste patrimônio segundo o governo. Vamos entender esse valor direitinho. Depois disso que se debata, que se analise, que se vote. Paralisação imediata da "Operação Oi". E já!

http://r7.com/GaP1

Publicado em 15/12/2016 às 18:39

O que não é arte? (estrelando o Pantera Negra e Ta-Nehisi Coates)

ta nehisi feature art 1024x575 O que não é arte? (estrelando o Pantera Negra e Ta Nehisi Coates)

Ta-Nehisi Coates ganhou o "Genius Grant" da fundação MacArthur em 2015. É dado para umas vinte pessoas por ano. É a coisa mais próxima de um atestado de Gênio que alguém pode levar nos EUA, e vai junto uma boa grana também, 625 mil dólares. Também é vencedor de vários prêmios literários importantes.  Nada mal para um jornalista de 41 anos com só dois livros publicados, sendo que o primeiro suas memórias, e o segundo uma carta para seu filho.

Mas os dois livros têm como tema central o racismo nos Estados Unidos de hoje. É o foco da carreira e da reputação de Coates. O que faz dele um autor recomendável para quem se interessa pelo tema, e obrigatório nos cursos de humanas das universidades americanas.

Ou seja: eu jamais leria Coates se ele não tivesse escrito o gibi mais vendido da Marvel no ano de 2016. É "Pantera Negra", o mais importante e interessante super-herói negro dos quadrinhos, que em breve terá sua própria superprodução nos cinemas. Contratar Coates foi jogada de marketing certeira da Marvel, que como todas as divisões da Disney investe bastante na imagem de corporação-amiga-da-diversidade. A série foi bastante promovida e teve a repercussão mais bajulatória possível (a ilustração deste post é de uma matéria da Wired e faz de Coates a identidade secreta do Pantera Negra...).

Para tornar a história ainda mais sedutora, o pai de Coates era um Pantera Negra de verdade. Um militante negro da pesada, nos anos 60. Por isso Coates tem esse nome exótico, núbio, que significa "terra dos negros". Em uma entrevista, contou que era muito fã de quadrinhos e de RPG quando moleque. Somando tudo, e sabendo que a arte do gibi seria do sempre confiável Brian Steelfreeze, não resisti a ler o primeiro volume do Pantera Negra de Coates, 144 páginas.

O personagem, se você não conhece, ou só viu sua aparição no filme "Capitão América - Guerra Civil",  é T´challa, rei de um pequeno e superdesenvolvido país africano, Wakanda. Caso único na África, Wakanda jamais foi conquistado por nenhum invasor. Seu povo é treinado para a guerra e para a ciência. Contam com um recurso natural sem igual, o metal Vibranium, base de uma tecnologia única, utilizado também para construir armas - e a própria "armadura" de herói do Pantera Negra. T´challa já foi apresentado assim, como o rei africano de um país africano supertecnológico, na sua primeira aparição em um gibi do Quarteto Fantástico de 1963, assinado por Stan Lee e Jack Kirby, os maiores criadores de super heróis da história.

O Pantera Negra tem uma longa carreira no super-heroísmo, mas nunca teve uma série que prestasse de verdade até os anos 90, quando emendou duas ótimas. A primeira, assinada por Christopher Priest e Mark Texeira, tirou T´challa da selva e o botou na selva urbana, Nova York, como se fosse Shaft ou um desses black power perigosos dos anos 70. A segunda, escrita pelo diretor de cinema Reginald Hudlin e ilustrada pelo poderoso John Romita Jr., ampliou a mitologia de Wakanda e fez do Pantera Negra um personagem à altura dos nomes mais famosos da Marvel.

Minha expectativa era que Coates lesse essas duas séries e desse o passo lógico seguinte. Usasse  sua experiência jornalística e foco ensaístico, para no gibi iluminar as questões raciais que ainda hoje dividem a América e o mundo. E, naturalmente, contasse uma história emocionante, e cheia de ação. Porque é um gibi de super-herói, ué.

Mas escrever um gibi decente, que seja fiel ao espírito do personagem, o que inevitavelmente exigiria enfrentar a questão racial, é pouco para nosso Coates. Assim, decidiu discutir também o embate tradição e tecnologia. O problema dos refugiados e a herança do colonialismo. Também tem um drama familiar ali. Sem esquecer a luta de classes (com direito a citação de Hobbes). E, claro, há que privilegiar a questão de gênero - e assim o autor transfere o protagonismo do Pantera Negra para um casal de guerreiras lésbicas, que se tornam líderes de uma rebelião etc.

Coates verga sob o peso de sua ambição, completamente desproporcional à sua experiência com quadrinhos. E aos próprios quadrinhos de super-herói, que não são exatamente a melhor plataforma para vôos filosóficos, sociológicos, psicológicos, pedagógicos desta altitude. O problema não é a pauta de Coates (embora ela seja bem esquerdinha esquemática, ligue-os-pontos). Até porque os gibis Marvel sempre foram muito permeáveis às questões de seu tempo, dentro de seus limites. Tudo que nosso frágil mundo não precisa é de censores exigindo escola sem partido, arte sem partido, vida sem partido. O que precisamos é o contrário:  tomar partido.

O ponto é outro. Pantera Negra não funciona como gibi, e assim não funciona como debate, nem como propaganda. Podemos discutir até amanhã o que é arte, mas antes é necessário estabelecer o que não é. Arte não é púlpito, cartilha ou manual de etiqueta. Nem mesmo uma arte populista, rastaquera, corporativa como gibis de super-heróis Marvel. Não precisa ser um Gênio para entender isso.

http://r7.com/lLuJ

Publicado em 12/12/2016 às 18:44

João Gordo: uma vida tosca, uma história de amor

livro joao gordo viva la vida tosca darkside books post João Gordo: uma vida tosca, uma história de amor

André Barcinski é um grande contador de causos, e João Gordo tem muito causo bom pra contar. Mas Viva La Vida Tosca é a história de João, contada de uma maneira que João Gordo jamais seria capaz de contar. O livro é todo em primeira pessoa, e Barcinski captura a voz de João. Estão lá a língua ferina, o olho clínico, a explosão iminente. Mas vai além.

É de cair o queixo a trajetória de João, das quebradas da Zona Norte paulistana aos palcos do mundo afora, da celebridade na TV à reinvenção como pai de família vegano e responsável. Tudo isso sem nunca abandonar o espírito de enfrentamento, que está lá, página após página. João Gordo não amansou. Só controlou a tendência à autosabotagem. É um punk véio, mas segue punk.

E punk é o livro, agressivo, desrespeitoso. Inclusive como objeto. Como de costume nas edições da Darkside, o acabamento e o projeto gráfico são primorosos. Viva La Vida Tosca é editado como um fanzine, com zilhões de fotos. A capa é sensacional, foto de Rui Mendes, outra lenda do rock paulistano.

Com toda a bagaceira das 318 páginas, Viva La Vida Tosca é uma história de... amor. Do amor que o pai de João não consegue expressar. Da paixão do gordinho adolescente pelo rock, seu passaporte para outro mundo. Do flerte perigoso com a autodestruição, que só supera graças ao amor exigente da fã que virou sua mulher, e finalmente sobre o amor incondicional que João finalmente encontra, em seus filhos. Para rir, para chorar, para cair o queixo: Viva La Vida Tosca toca o terror - e nos toca o coração.

Recomendo muito - compre o seu já!

http://r7.com/Ua4R

Publicado em 07/12/2016 às 16:47

O Brasil precisa de Renan Calheiros

AC Renan Calheiros fala sobre cortes orcamentarios 090920150001 1024x681 O Brasil precisa de Renan Calheiros

Todo mundo que importa no Brasil é a favor da permanência de Renan Calheiros na presidência do Senado. O presidente da república, o PMDB, o PSDB, o PT, o mercado, a Fiesp e os ruralistas. Por quê seria diferente o Supremo Tribunal Federal? Não que ninguém aí tenha a menor dúvida sobre a ficha corrida do senador. À direita, à esquerda, no centrão, da padaria da esquina aos palácios de Brasília, todo mundo sabe que Renan não tem moral nem pra andar na rua, imagine para ser presidente do senado.

A questão é que esses poderosos todos precisam de Renan no momento. Como precisaram de Eduardo Cunha, no passado recente. Poderíamos dizer que o Brasil precisa de Renan; não é Temer; foi Dilma, Lula, Fernando Henrique... Ele está na cena política desde que fazia parte da gangue de Fernando Collor. Se com todas as acusações contra ele segue com todo esse poder, é porque é útil, e eficiente para o que se espera dele.

Renan fará de tudo para aprovar os projetos de lei, as "reformas" que interessam para essa gente toda. A lei que anistia os políticos eleitos com dinheiro sujo; a lei que quebra as pernas da Lava-Jato; a lei que imporá o maior arrocho do planeta; a lei que destrói a aposentadoria do povão, mas mantém os privilégios dos juízes, dos militares e políticos; a lei que perdoa as dívidas das empresas; e por aí segue.

E a lei? E a Constituição, as instituições, as regras? Elas são importantes quando são importantes para esse grupinho de poderosos. Quando a lei não atende a elite, ignore-se a lei. E é por isso que Renan Calheiros pode simplesmente se recusar a obedecer uma decisão do Supremo; que a mesa do Senado assina embaixo da rebeldia de Renan. No Brasil, ordem judicial é pra ser obedecida - mas só quando o criminoso é pobrinho e escurinho, ou quando está atrapalhando a roubalheira dos bandidões.

Então foi costurado um grande acordão em favor de Renan. O que está por trás de tanto apoio a ele?

Os super-ricos brasileiros possuem um patrimônio de R$ 1,2 trilhão. Isso é 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes do Brasil. Essas 71.440 pessoas têm renda anual média de R$ 4.17 milhões, uns R$ 350 mil por mês. Tiveram em 2013, ano analisado pela pesquisa do IPEA que melhor radiografou essa elite, um rendimento conjunto de R$ 298 bilhões.

Qual o negócio mais lucrativo e seguro do Brasil? Emprestar dinheiro para o governo, que paga juros altíssimos para financiar sua dívida. Dinheiro que vem do Tesouro Nacional, dos impostos que todos os brasileiros pagam. Se o dinheiro está apertado, é fundamental aprovar leis que tirem mais dinheiro dos pobres para transferir para os bilionários. E é isso que está acontecendo desde 2014, quando Dilma colocou Levy no Ministério da Fazenda, um representante dos bancos. Dilma arrochou a população, mas não entregou tanto a rapadura quanto os endinheirados queriam; sem apoio popular, fraca, foi trocada sem maiores escrúpulos por equipe mais amigável ao mercado, que assumiu com compromisso de "restaurar a confiança".

Seis meses depois, estamos todos em situação muito pior. O tratamento está matando o paciente, porque arrocho não é remédio, é veneno. Com os cofres públicos esvaziando, a prioridade número um da elite nesse momento é  que o Congresso aprove novas leis que garantam que seus rendimentos continuem gigantescos.

Faltou dizer que sem Renan, fica difícil Temer entregar tudo isso na velocidade esperada. E se não entrega, o governo perde o resto de apoio que tem. Temer pode ser substituído, via eleição indireta em 2017. Ou pode até ficar, mas sem apitar. Já está nas manchetes a pressão do "mercado" para Temer substituir sua equipe econômica por um time ainda mais duro. Que imponha um arrocho ainda mais brutal, capitaneado por Armínio Fraga ou alguém que ele indique.

Necessário ressaltar que todo esse papo de ajuste só atinge da classe média para baixo. E que todas essas leis poupam os super-ricos brasileiros, os 0,5% da população que ganham mais de 160 salários mínimos por mês. Talvez você não saiba, mas essas pessoas pagam só 6,51% de sua renda de imposto de renda. Você leu certo. Um assalariado que ganhe R$ 5 mil por mês paga 27,5% de imposto de renda. A elite paga 6,51%, como demonstra o recente estudo do IPEA que melhor radiografa nossa elite. A explicação é que 65,8% da renda total desses super-ricos são rendimentos considerados isentos e não-tributáveis pela legislação brasileira. É o caso dos dividendos e lucros.

Na prática, o imposto de renda aqui só é progressivo do pobre até a classe média, que é justamente a fatia da população que mais paga imposto de renda. É uma receita perfeita para aumentar cada vez mais a desigualdade social, a ignorância e a violência. Todos os países decentes, sejam ricos ou emergentes, tributam todos os rendimentos das pessoas físicas. Não interessa se a renda do salário, de aluguel ou de dividendos. É o justo. É o mais eficiente para o bom funcionamento dos países.

O estudo do IPEA não captura com precisão absoluta a pirâmide social brasileira. Não dá conta de dinheiro escamoteado, de caixa 2 ou remessas enviadas ao exterior. Mas já dá uma noção do tamanho do escândalo. E como é focado no Imposto de Renda, não leva em consideração outra grande injustiça do nosso sistema tributário, que são os impostos indiretos no consumo de produtos, que pesam muito mais para o pobre.

Enfrentar a elite é garantia que você vai ser chamado de irresponsável, baderneiro. Por quê o Supremo peitaria este consenso que tanto compensa, e assumiria o pesado ônus de colocar em risco a aprovação das "reformas"? O executivo pensa que é o Brasil; o legislativo pensa que é o Brasil; o judiciário pensa que é o Brasil; a elite pensa que é o Brasil; e que o Brasil precisa de Renan, dos Renans.

Estão errados. O projeto neoliberal mundial morreu em 2008, mas os zumbis do fundamentalismo financeiro seguem por aí, tentando nos devorar. É imoral e improdutivo continuar enriquecendo 0,5% com o dinheiro dos impostos dos 99,5%. Enfrentar os privilégios dos super-ricos é a pauta política e econômica fundamental de hoje e dos próximos anos. O resto é resto. Mas eles jogam o jogo pra ganhar, sem se importar com as regras, como assistimos em Brasília; e eles estão unidos, e nós não. Por enquanto.

http://r7.com/O2Uj

Publicado em 06/12/2016 às 16:58

Brasília está destruindo o Brasil

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O que está acontecendo no Brasil é igualzinho o que está acontecendo no resto do mundo. O capitalismo está fazendo água.  A desigualdade aumenta, o desemprego aumenta, a desesperança aumenta. E o clima esquenta - na sociedade e no meio-ambiente.

Os ricos legislam para os ricos. Espremem as economias para garantir seus ganhos. Pagam cada vez menos impostos. Seus rendimentos dependem cada vez menos do trabalho, e mais e mais do cassino financeiro. Quem vai contra esse estado de coisas é taxado de "populista", "irresponsável", "baderneiro". Mas quem está fazendo baderna são esse 0,01% de bilionários, e seus empregadinhos nas política, na mídia, nas universidades, nas instituições.

Os poderosos querem que o povo aceite tudo de bico calado. De preferência nem entenda direito como está sendo roubado. Falam muito que "o importante é a educação". Mas na prática cortam as verbas da educação. Querem o povo analfabeto, ignorante, anestesiado.

Quando o povo resiste, mandam a PM pra reprimir as "badernas". Se o executivo resiste, que seja enquadrado pelas "forças do mercado". É a mesma história no mundo árabe e na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos. Trump venceu porque Obama, com todo seu belo porte e discurso, não melhorou a vida do povão. E não fez isso porque fez, como todos fazem, o jogo do grande Capital. Agora Trump está lá e vai fazer o quê? Diminuir os impostos dos ricos, abrir as pernas para os bancos (já chamou para Secretário do Tesouro um banqueiro do Goldman Sachs).

E não adianta muito eleger um governo de "esquerda", porque eles também estão são enquadrados. Veja a França, veja a Grécia. O único plano de governo que existe nesse planeta em 2016 é arrochar as populações e chamar isso de austeridade, de "sacrifício inevitável". Mas o enfrentamento está acontecendo. Nesta semana mesmo, a Itália e a Áustria disseram não para políticas de arrocho.

O impeachment no Brasil tinha três objetivos: destruir o PT, melar a Lava-Jato e impôr o maior arrocho da história do Brasil. O próprio PT, aliás, já vinha tentando fazer as três coisas... lambuzando-se na corrupção, contestando o judiciário (às vezes com razão, às vezes não) e botando Levy como Ministro da Fazenda, com um programa para a economia que era o contrário que Dilma prometeu.

O impeachment aconteceu - e todos sabíamos que não havia crime de responsabilidade que o justificasse.

Foi o começo dessa crise institucional sem fim. E agora aqui estamos. Mais uma crise, agora com Renan. É surreal, mas o presidente do Senado se nega a obedecer uma ordem do Supremo Tribunal Federal. E a mesa do Senado vai junto com ele! Num país mais ou menos funcionando, teriam recebido voz de prisão. No mesmo momento, quem protesta contra as propostas de arrocho do governo do Rio apanha da polícia - pelo menos enquanto a PM continuar recebendo salário, o que é duvidoso. Vem aí as delações da Odebrecht.

E como se estivesse tudo na maior tranquilidade, o governo segue propondo mais e mais arrocho nos pobres, e nenhuma cobrança das grandes empresas. Aliás, hoje,  no mesmo dia que anunciam a PEC da aposentadoria, que fará o brasileiro trabalhar até morrer e morrer de trabalhar, ficamos sabendo que o governo prepara um perdão de 90% das dívidas das empresas. Sendo que no Brasil, nesse momento, não há um sujeito que acredite que o Congresso legisla em benefício do país, e não de si próprio.

É difícil enfrentar os poderosos do mundo. Mas é isso ou a rendição. Esse embate exige representação política sólida, leis sólidas, instituições sólidas. É tudo que não temos no momento. No momento, Brasília está destruindo o Brasil. O primeiro passo para o Brasil se levantar é termos um poder executivo e legislativo à altura do desafio. E o único caminho para isso, e não há outro, é através de eleições livres e limpas, para renovar integralmente o Congresso, e elegermos um presidente da república.

http://r7.com/6C8I

Publicado em 05/12/2016 às 15:22

Ferreira Gullar: infelizmente, imortal

Gullar em B Aires 1975 for web2 1024x654 Ferreira Gullar: infelizmente, imortal

"Ferreira Gulag". Trocadilho além do prazo de validade? As novas gerações felizmente não sabem o que é "Gulag", os campos de concentração soviéticos para onde eram despachados os opositores do regime, frequentemente viagem só de ida.

Mas é piada precisa como só certos trocadilhos bobos conseguem ser - é de hoje, ou de alguma madrugada esfumaçada de nicotina e vapores alcoólicos, nos longíquos anos 80? O epíteto para o poeta pipocou prontinho quando sua morte foi noticiada, Gullar instantaneamente canonizado, que é como a gente enterra os célebres da nação.

As novas gerações felizmente também não lembram do pobre Brasil do finzinho da ditadura, quando Ferreira Gullar aspirava a personagem pop. Era desses que sempre tinham um comentário a fazer sobre tudo, figurinhas fáceis nos segundos cadernos dos jornais. Um Caetano menor, um Gabeira das artes. Famosinho a ponto de ser constantemente zoado pela turma do Planeta Diário, "Ferreira Gullar, poeta e gato".

Ninguém leu, lê ou lerá sua poesia. Impopularidade não é demérito. Mas impressiona a repercussão de sua morte. Um passeio pela biografia de Gullar explica melhor que um mergulho em sua obra.

No comecinho dos anos 50 Gullar mudou-se para o Rio. Para um jovem intelectual maranhense seguia (e seguiria sempre) sendo a capital cultural do país. Colou nos influentes da época, principalmente Mário Pedrosa, o único crítico de arte que importava.  Abrigou-se no jornalismo, como tantos de nós que temos mais ambições do que noção do que fazer com a vida. Começou pela área mais previsível e burocrática do jornalismo: revisor da revista o Cruzeiro.

Sua poesia era a abençoada pela melhor crítica internacional e brasileira da época, "concretista". Não demorou para rachar com o pioneiro grupo concretista de São Paulo, por uma questiúncula teórica. Tentou impôr a própria ortodoxia, mas seu grupo no Rio era de artistas plásticos - café pequeno para os paulistanos Augusto e Haroldo de Campos e para Décio Pignatari. Faria carreira curta na imprensa, o suficiente para conseguir seu primeiro carguinho público, no governo, imagine, de Jânio Quadros, diretor da "Fundação Cultural de Brasília". Era 1961.

Nos anos seguintes foi "radicalizando" para a direita da esquerda, o Partido Comunista, a esta altura já esclerótico e desmoralizado há décadas - mais recentemente pela invasão da Hungria, 1956. Tornou-se uma das figuras centrais, e logo presidente, do Centro de Cultura Popular da UNE. Era passar recibo de irrelevância entre escritores sérios, mas tornou-se figura de frente na "arte engajada" que importava naquele momento. O CPC, antro autoritário de comissários da cultura, era mais que engajado: era partidário mesmo.

Para o CPC, as únicas manifestações artísticas aceitáveis eram a denúncia do capitalismo ou a propaganda comunista. Esse restolho da pior fase do regime soviético infestaria por décadas a cultura brasileira, "patrulha ideológica" e companhia. Ou estás conosco ou com os imperialistas, companheiro...

Com o golpe militar, Gullar iria (já em 1971) se asilar na União Soviética, o túmulo do socialismo sob Brejnev. Depois, perambulou por capitais da América Latina. Da Argentina mandou seu "Poema Sujo" contra a ditadura militar.

De volta ao Brasil abrigou-se, como tantos supostos revolucionários de ontem e hoje, sob as asas do establishment. No Rio significava e significa a Rede Globo. Lá co-assinou com velhos companheiros do Partidão roteiros de novelas e seriados. Era da turma. E era da MPB. Seus joguinhos de palavras inspiram muitos desses Arnaldos Antunes e companhia.

Como tantos de nossos artistas, não se negava a assumir uns carguinhos públicos. Depois de servir a Jânio, serviu entre 92 e 95 como presidente do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, que voltou a chamar de Funarte. Chamava-se na época "mudar o sistema por dentro", com os resultados que todos conhecemos.

Colunista da Folha de 2005 até sua morte, tornou-se cruzado de primeira hora contra o governo petista. O Partido Comunista nunca perdoou Lula, que acusava de agente da CIA desde os anos 70. Não ouvimos palavra de Gullar contra os inimigos de Lula, muito menos contra os patrocinadores da novíssima geração de polemistas-colaboracionistas da imprensa nacional.

Coerente até o fim, sua última coluna de jornal despacha Marx para a lata de lixo da história, em busca de uma sociedade igualitária que não incomode o Capital.

Os últimos anos de Gullar foram coroados por sua descida à catacumba da intelectualidade brasileira, a Academia Brasileira de Letras, onde fez par com o conterrâneo José Sarney. Era, enfim, "imortal".

Sua obra - poesia, crítica, teatro, jornalismo - foi fundamentalmente passaporte para uma carreira como intelectual público. A crítica especializada que julgue sua permanência, passados os alinhamentos ideológicos do século 20. É assunto que só a ela importa.

O fardão não lhe faria falta. A vida de Ferreira Gullar segue sendo a trajetória dos sonhos do intelectual público brasileiro. Ferreira Gullar morre; o espírito estalinista que o animou segue entre nós, estéril, imortal.

http://r7.com/BKSz

Publicado em 23/11/2016 às 16:28

Corrupção não é problema, é a solução

corrupção 1024x707 Corrupção não é problema, é a solução

A primeira coisa que fiz quando abri uma empresa foi corromper um funcionário público. Foi em 1993. Eu tinha 27 anos. Pedira demissão do meu emprego para lançar uma revista. Não tinha noção de onde me metia.... mas tinha muitas certezas, muita paixão e muita pressa.

Para montar minha empresinha, e a redação da revista, eu precisava de uma coisa fundamental. Hoje parece ridículo, mas naquela época era difícil de conseguir: uma linha telefone. Em 1993 não existia celular. E telefonia fixa era monopólio estatal. Um telefone em Sâo Paulo valia mais ou menos um terço de um carro popular novo - seria uns R$ 8 mil hoje.

A gente já tinha montado a redação, estávamos sem salário, precisando começar a fazer a revista e lançar logo. Alugamos uma linha da Telesp, que era a companhia telefônica do estado de São Paulo. Demorou mais de um mês pra marcar a instalação! Finalmente chegou o dia, e o técnico da Telesp tocou a campainha da casa. Finalmente nossa empresa ia poder começar a funcionar! Onde já se viu empresa sem telefone? E ainda mais empresa de comunicação, pô!

Passaram uns quinze minutos e o cara tocou a campainha de novo: serviço feito. Eu falei espera um pouquinho, deixa eu testar. Peguei o telefone na minha mesa e nada, mudo. Questionei, ué, não funciona. Ele explicou: não, o nosso serviço da Telesp só vai até o poste. Do poste para dentro da casa a Telesp não faz o serviço. Eu estrilei, mas como é possível isso? Eu alugo a linha e a Telesp não faz a instalação completa? Como eu faço agora? Ele deu de ombros e deu a dica, olha, esse tipo de serviço só particular que faz. Mas se o senhor quiser eu faço um serviço particular pra você...

São aquelas encruzilhadas da vida. Procuro uma outra pessoa pra puxar a linha, ou pago já um dinheirinho pro cara e resolvo isso? Estou sendo conivente com a malandragem? Ou o mundo é assim mesmo, e o negócio é relaxar? Mas se eu já começo minha empresa pagando um troco por fora, mesmo que seja uma coisinha de nada, será que isso não abre as portas para eu fazer o mesmo com grandes coisas, grandes negócios, grandes boladas? Vou virar o tipo de pessoa que desprezo, um corruptor, um corrupto?

Sério que pensei tudo isso naqueles segundos. Para você ter uma idéia o inocente que eu era.

Paguei o cara.

Corrupção é a solução. É um dinheirinho que você paga para resolver um problemão. Às vezes é um dinheirinho que você paga para ganhar um dinheirão. Ou um dinheirão que você paga para ganhar um dinheirão maior ainda.

A corrupção vai existir enquanto houver dinheiro e poder. É o combustível do motor que move o mundo, é o lubricante da engrenagem econômica. É arroz com feijão do brasileiro. Onde há dinheiro para trocar de mãos, vai haver alguém cobrando pra facilitar a transação.  A corrupção está nos governos e nas empresas privadas, das pequenas às gigantescas. Nos sete mares e nos cinco continentes. Se existirem alienígenas em outros planetas, garanto que tem corrupção por lá. Tinha antigamente, tem hoje, vai ter amanhã.

Corrupção não tem só uma fórmula ou formato. Às vezes é até difícil de reconhecer. Por exemplo: quando uma empresa fornece milhões para financiar a campanha de um político. Não quer dizer que ele já está dando algo em troca. Mas existe a pressuposição de que, no futuro, ele vai atuar em favor da empresa, para que ela ganhe muitíssimo mais dinheiro do que deu para ele. É um investimento, digamos assim...

Outro caso ainda menos explícito. Um político no poder atua regularmente em favor de uma empresa, ou um setor da economia, sem ganhar nada em troca. Saindo do cargo, passa a fazer palestras muitíssimo bem remuneradas para essas empresas, vira consultor desse segmento, faz eventos patrocinados etc. É o caso, por exemplo, de Tony Blair e do casal Bill e Hillary Clinton, para ficar em exemplos globais.

A corrupção é tão importante para o bom funcionamento da Terra que existem países que se dedicam fundamentalmente a abrigar o dinheiro da corrupção, do caixa dois, do crime. São os chamados paraísos fiscais. Servem para você esconder dinheiro sujo. Só que existem países muito grandes e poderosos, que se dedicam a muitas outras coisas, e também abrigam paraísos fiscais dentro de seus territórios. Na lista dos dez maiores paraísos fiscais do mundo estão Estados Unidos, Alemanha, Hong Kong, Cingapura...o número um, claro, é a Suíça.

O Brasil anda dando uns passinhos no combate à corrupção, mas de uma maneira equivocada, que na verdade estimula o crescimento da corrupção. Como pode ser isso? Pois é. Nosso país é como uma cidade que estava sendo aterrorizada por duas gangues rivais. Um belo dia a polícia e o ministério público da cidade começam a investigar os crimes, e a prender os criminosos - mas só de uma das gangues. E os jornais da cidade aplaudem, e pedem rigor - mas só para para uma das gangues. E muitos cidadãos saem às ruas, e pedem justiça, e batem panelas - mas só contra uma das gangues.

O resultado é que uma das gangues perde seus líderes, que vão em cana. Perde território. Perde ganhos. E perde integrantes, que bandido não tem lealdade. Logo um monte deles se bandeiam para a gangue que restou, que agora domina a cidade geral. Sem concorrência e sem preocupação. É onde estamos no momento.

Um ponto importante a lembrar é que os corruptos não têm lado, têm interesses. Por isso onde há concentração de poder e dinheiro, sempre haverá corruptos. Um tempinho atrás, a oposição a Dilma critica o governo, porque coalhado de corruptos. Alguns foram presos, a maior parte saiu impune. Hoje, a oposição a Dilma virou governo. E lá estão no governo Temer boa parte dos acusados de corrupção no governo do PT. Alguns, aliás, já estão no crime desde o governo militar, décadas atrás... Cadê o povo batendo panela contra os corruptos do atual governo, de todos os governos? Silêncio absoluto.

Por quê? Porque os panelaços não eram contra a corrupção, eram contra o PT. E porque o brasileiro é inteligente e sabe que corrupção é parte integrante de qualquer governo. A verdade é que nosso povo não está nem aí para a corrupção dos poderosos. Roubem aí, a gente já sabe que vocês vão roubar mesmo... Quanto a economia vai bem, deixamos passar. O bicho pegou contra Dilma porque a combinação recessão & corrupção é explosiva. Agora a recessão está bem pior do que na época de Dilma, e os casos de corrupção continuam espoucando. Veremos o que vai acontecer.

Para mim, roubar dinheiro público devia ser crime hediondo. Porque esses bandidos estão na prática afanando dinheiro da escola das crianças, do hospital dos velhinhos, da segurança das famílias. Quem mais paga imposto no Brasil é o pobre. E é o dinheiro do pobre que vai pro bolso desses milionários que a gente vê todo dia nas manchetes, e não só nas manchetes policiais. Não estou falando só de políticos, mas dos empresários que pagam propina para eles, em troca de roubar a nossa grana.

Já roubar dinheiro privado, bem, depende. Quem é que está sendo prejudicado pela corrupção dentro das corporações? Em todos os anos que passei sendo editor de revista, cansei de ver gente ficar bem rica com corrupção. Eram os compradores de serviços de grandes editoras. Gente que decidia de quem seria comprado o papel pra revista, a gráfica para imprimir, brindes para virem encartados nas revistas...

Quando um cara decide todo mês o destino de milhões de reais, pode crer que as empresas que querem vender vão tentar influenciá-lo. Lembro de um funcionário de terceiro escalão de uma grande editora que tinha carro na praia e carro conversível. E vou te falar, os chefes desses malandros sabiam. Mas não falavam nada, porque também faziam seus rolos. E os subordinados deles sabiam, mas também faziam seus rolinhos. E tudo ficava por isso mesmo. Dava prejuízo para as empresas? Não faço idéia. Talvez elas repassassem seus custos extras para o consumidor final? Então quem exatamente é que foi prejudicado?

Felizmente nunca fui importante, então nunca me ofereceram uma grana boa em troca de favorecimentos. Para não dizer que nunca tentaram me adoçar, já me ofereceram uns dinheirinhos, umas vantagenzinhas, em troca de uns favorzinhos. Resisti, porque tudo coisa bem fácil de resistir. Como diz meu cunhado, o problema da corrupção é que começar por baixo dá nojo, porque quem quer se vender por pouco dinheiro? Não eu, provavelmente não você. Por isso que a gente tem nojo de quem se vende, porque é certo que começou se vendendo por pouco.

Se o dinheiro for grosso a coisa muda de figura. Digamos que você entrou na política, e pela primeira vez é secretário de estado. Chega lá, os outros secretários estão metendo a mão, o segundo escalão está metendo a mão, o governador está metendo a mão, e todo mundo está de boa, sem amolação, curtindo a vida. Pô, se todo mundo faz, é normal, não? A corrupção está nas empresas, nos governos, na propininha do dia-a-dia e no suborno bilionário das multinacionais. Tamo junto irmão!

Corrupção só é problema se você dançar. Temos inúmeros exemplos de gente que está aí roubando há décadas, e segue famosa e poderosa. E se você dançar e tiver bastante dinheiro, sai de boa. Agora mesmo os empreiteiros que lesaram o país em bilhões e bilhões de reais vão sair livrinhos, depois de pagar umas multinhas... o presidente do Senado, que tem 12 processos no Supremo Tribunal Federal, segue dando as cartas... e por aí vai.

Eu já passei dos cinquenta, se não me descolei como criminoso de colarinho branco, não será agora. Mas para você que é jovem, pode ser uma boa opção. O futuro da corrupção é muito promissor, e sempre será, e no Brasil dos próximos anos mais ainda. Fala a verdade: se você tivesse a chance de pegar um dinheiro bom por fora, sem risco de dançar, pegava ou não?

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Publicado em 17/11/2016 às 16:05

Solução para o Rio e o Brasil é a mesma: cana dura

cabral Solução para o Rio e o Brasil é a mesma: cana dura

O ex-governador do Rio, Sérgio Cabral

O Rio derrete em câmera lenta. Dois ex-governadores presos em dois dias, Sérgio Cabral e Anthony Garotinho. Assembléia Legislativa sob sítio. Polícia sem receber. Pacotão de arrocho tirando o sono dos cariocas.  Nem parece que outro dia mesmo o Rio celebrava "seu melhor momento", recebia turistas, inaugurava museus, e tinha um prefeito com pretensões à presidência da república. Nem parece que três meses atrás foi sede da grande festa do esporte.Mas estava na cara há anos que quem estava fazendo a festa era a meia-dúzia de sempre. E que a conta da festa ia chegar um dia. E ia chegar para quem nem convidado para a festa foi.

Agora querem entuchar a conta do bacanal dos bacanas no carioca comum. Cortar auxílio social, cortar aposentadoria, cortar salário de funcionário público. As autoridades dizem que não tem outro jeito. Que é duro, mas todos têm que fazer sacrifício. É sempre a mesma lenga. Pimenta no dos outros é refresco.

O Rio é o Brasil amanhã. Ou melhor dizendo, a explicação para os problemas do Rio é a mesma explicação para os problemas do Brasil. Os cariocas e os brasileiros vêm sendo assaltados por um pequeno grupo de grandes ladrões. São grandes empresários que "vendem" para o governo, fazem a manutenção da máquina pública, realizam as obras que pegam bem na hora da eleição. E conseguem esses contratos pagando propina de cima a baixo, do executivo ao legislativo, e vamos combinar que deve sobrar algum para o judiciário também. Fora os grandes empresários e ruralistas que conseguem empréstimos de pai pra filho, a perder de vista, e pagam pingando até o próximo perdão do governo. Fora os grandes banqueiros que com ou sem crise lucram com os juros mais altos do mundo.

São bilhões e bilhões. É sujeira grossa e pra todo lado. Não são os caraminguás do aposentado ou a reforma da escola que quebraram o país. Foi uma aliança de bandidos que está no poder há muito, muito tempo. Na época da ditadura militar, a gente não ficava sabendo, porque a imprensa não tinha liberdade e o ministério público não tinha independência nenhuma. Isso só começou a mudar pra valer na época de Fernando Henrique, e mudou mais ainda sob Lula. E é por isso que a gente fica com a impressão de que hoje temos tanta corrupção. É que hoje a gente fica sabendo, e esses picaretas estão começando a ter o que merecem.

A solução para o Rio, e para o Brasil, é botar corruptores e corruptos em cana, os antigos e os atuais, e pegar de volta o dinheiro que eles roubaram da gente. Demos os primeiros passos. Mas ainda tem muito larápio por aí, roubando dinheiro de hospital, de estádio, de hidroelétrica, da escola e da merenda. Ainda tem partido político que segue incólume, sem condenações, apesar de pilhas de denúncias e evidências contra suas maiores lideranças. Nossa justiça é falha, é parcial, é frequentemente messiânica. É o que temos, e temos que pressioná-la para fazer seu melhor. Porque, francamente, do executivo e do legislativo é bem mais difícil esperar linha dura com os donos do dinheiro.

Impôr sacrifícios ao brasileiro trabalhador antes de impôr justiça a essa bandidagem é indecente e ineficiente. A solução para o Rio e para o Brasil é cana dura para esses grandes ladrões, e pressão forte para recuperar o dinheiro que nos foi roubado. Falta muito. Só começamos o serviço. Agora é garantir que a limpa vai até as últimas consequências. Sem isso, o imposto do brasileiro pobre é que vai continuar pagando a festa do império do crime.

http://r7.com/i_0C

Publicado em 09/11/2016 às 10:50

Trump é a última esperança para os pobres da América

trump1 1024x576 Trump é a última esperança para os pobres da América

Hillary Clinton teve apoio avassalador dos grandes empresários, dos grandes bancos, da grande imprensa. Dos artistas, dos intelectuais, dos movimentos sociais, dos cientistas. Dos economistas e de Wall Street, de líderes internacionais e lideranças comunitárias, de minorias dentro dos EUA, da maioria das pessoas fora dos EUA.

Teve até apoio de alguns republicanos, e de gente que sempre votou republicano. O caso mais chamativo foi de Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia, que mudou para os EUA em 1968, e segundo ele mesmo sempre votou para presidente no candidato republicano.

Hillary conquistou todo esse apoio porque conseguiu convencer o 0,1% dos super ricos americanos que era a melhor candidata para defender os interesses deles. E conseguiu convencer muita gente do povão que ela era a pessoa certa para defender os direitos deles, frente aos interesses da elite. E mais ainda, frente ao partido republicano, e a Donald Trump.

Hillary tentou ser todas as coisas para todas as pessoas. Não colou. Era a pior candidata disponível no partido democrata. É multimilionária, fortuna que apareceu de maneira inexplicável, como as dos políticos brasileiros. É mulher de um ex-presidente, o que cheira nepotismo. Ou talvez seja ex-mulher. Ninguém entende as relações dos dois, e eles não explicam.

Fora um genérico ideário democrata, Hillary não tem posições fora as que as pesquisas de marketing determinam. Votou pela Guerra do Iraque quando o público apoiava, se tornou contra a Guerra do Iraque quando o público parou de apoiar. Diz em público o que a opinião pública vai aplaudir, diz em particular a verdade para seus amigos banqueiros. Como Bill Clinton sempre fez. Mas Bill era um sulista simpático. Hillary, a antipatia em pessoa (me lembra estranhamente Margareth Thatcher).

Se o partido democrata tivesse um candidato menos fracote, talvez tivesse ganhado a presidência. Mas é preciso ir além disso. É preciso voltar à primeira campanha de Bill Clinton, e ao lema que o levou à vitória. Os marketeiros de Bill reduziram todas as questões em debate a uma única frase: “It’s the Economy, Stupid!”. No final, é tudo sobre a economia; a economia determina o resto; a economia ganha e perde eleições.

Como disse uma vez um ditador brasileiro sobre nosso país, nos EUA a economia vai bem e o povo vai mal. O PIB cresce. Mais de 15 milhões de empregos foram criados desde 2010. Mas muitos dos novos empregos são de baixa qualidade, com baixos salários. Muita gente segue desempregada, ou com empregos de meio período. Os americanos continuam sem ter licença-maternidade, décimo-terceiro, férias remuneradas. Aliás, o período de férias médio do americano é de oito dias por ano, o menor em comparação com qualquer país mais ou menos decente.

E a desigualdade? Cresce. Cada vez um grupo menor de super ricos dá as cartas. A maioria dos americanos se sente desconectado dos centros de poder políticos e econômicos - e de fato está. A economia cresce de maneira completamente desigual. Inclusive geograficamente: algumas poucas metrópoles bombam, o interiorzão segue pantanoso.

É a economia, estúpido. Diferente de Clinton, Trump escolheu um lado. Quem votou em Trump? Os pobres. Os mais pobres. Os pobres que moram no campo, em cidades pequenas, em áreas sem potencial econômico. Gente que teve pouca oportunidade para estudar, para crescer, para viver. E gente que nem é tão pobre, mas teme pelo futuro de seus filhos, teme pela sua velhice, teme não ter dinheiro para pagar as contas no fim do mês. Teme o que não conhece, o que não tem na sua cidadezinha, no seu bairrinho - teme o diferente.

Hillary disse para eles que a América vai bem e ofereceu a eles mais do mesmo. Trump disse para eles que a América vai mal e ofereceu a eles mudança. Hillary mentiu. Trump disse a verdade.  Ano após ano, a base da pirâmide americana vê sua vida piorar, e alguns poucos compatriotas alcançando níveis inimagináveis de riqueza. Para esses americanos deixados para trás, Trump parece a última esperança.

O que será a presidência de Trump? Quanto das bazófias e bagaceiras que fizeram seu sucesso nas redes sociais vai sobreviver, na hora do vamos ver? Vai se acomodar na presidência, jogando o jogo de sempre de todo mundo que chega lá? Ele será um bufão machista, racista, fascista - ou isso era um personagem para causar no Twitter e Facebook? E, no final da história, o quanto os pobres americanos podem contar com um playboy septuagenário, filhinho de papai, que nunca teve que enfrentar uma dificuldade de grana na vida?

Ninguém pode responder. Todas as previsões nesse momento são chute. Como em toda eleição, os rivais são muito mais parecidos entre si do que com seus eleitores… Trump é elite, os Clinton são elite. Nem uns nem outros fazem idéia do que é viver como a massa do eleitorado.

A democracia representativa tem duzentos anos de idade e venceu seu prazo de validade. A tecnologia, os costumes, a economia mudaram muito, o sistema político muda a passo de dinossauro. A solução para isso não é menos democracia, é mais - mais liberdade para o cidadão, mais informação, mais educação, mais riqueza para todos. E menos concentração de dinheiro e de poder nas mãos de poucos. Esse é o desafio. E é pra ontem.

O que dá para cravar já é que o sucesso de Trump vai inspirar muitas outras campanhas de políticos pelo mundo afora. E não necessariamente só de conservadores. Trump provou que é possível vencer sem o apoio dos empresários, dos bancos, dos intelectuais e da mídia - contanto que você escolha claramente um lado, e diga a esse lado a verdade. Para milhões de americanos, é preciso mudar, e Trump representa a mudança. E quem dirá que ele não é?

http://r7.com/8_aA

Publicado em 08/11/2016 às 15:40

A vitória é de Trump é notícia boa (e aí mora o problema)

Trump Smiles 1024x686 A vitória é de Trump é notícia boa (e aí mora o problema)
Quem gosta de boa notícia é publicitário. Gente que é paga para espalhar as maravilhas que acontecerão se comprarmos esse ou aquele produto. Idem assessor de imprensa. Nunca recebi um press release dizendo "empresa XPTO. polui, demite e vai à falência". Nem "cantora mocoronga lança outro disco sonolento". É sempre boa notícia. Aquele texto épico, tecendo loas ao cliente. Por isso é que a assessoria de imprensa é no mundo todo considerada um ramo da publicidade, e não do jornalismo. Sem problema - é um trabalho com qualquer outro.
Já jornalista gosta de notícia boa. O que é muito diferente de boa notícia. Duro pensar em notícia pior que queda de avião. Mas é exatamente o tipo de notícia boa para um jornalista. Absolutamente inesperada, atrai todas as atenções. Por uns minutos, todos prendemos a respiração, dentro e fora das redações, adrenalina a mil.
Qual a maior notícia das nossas vidas? A queda das torres gêmeas no onze de setembro. Vi acontecer coisa mais importante? Claro - a queda do Muro de Berlim, pra começar. Assisti o homem pousando na Lua na casa da minha avó, que tal? Mas não tinham o mesmo fator surpresa. Isis avança? Notícia boa. Ebola e Zika se espalham mundo afora? Idem. Reino Unido decide se separar da Europa? Notícia sensacional. Trump? É outro nível. E outro perigo.
Não é que notícia é só notícia ruim. É que quanto maior o choque e a imprevisibilidade dos dias seguintes, mais poderosa a notícia, e mais importante o jornalismo. E jornalistas, como todo mundo, adoram se sentir importantes. A queda do avião que levava Eduardo Campos foi uma notícia boa, no exato sentido do termo. Foi absolutamente inesperada. Chamou a atenção de todos. Teve grande impacto emocional e social. Catapultou Marina Silva, vice apagada, para uma candidatura competitiva, e talvez à presidência. Onde podia render muitas outras surpresas, porque possivelmente fora do esquadro, nem petista, nem tucana. E esta é razão porque toda a imprensa do planeta Terra anda torcendo secretamente pela vitória de Donald Trump.
Isso significa que jornalista é tudo urubu? Bem, não, só os normais... mas jornalista gosta de notícia boa porque dá repercute, dá audiência e dinheiro, que é o que interessa no final do dia. Seja para o profissional ou o YouTuber, o dono da Fox News ou da Al Jazeera, do Le Monde ou do site ali da esquina. A imprensa americana faturou como nunca nesses meses pré-eleição, por causa justamente de Trump. É certa a queda de receita na mídia americana em 2017.
Trump foi mais que notícia boa. Foi uma notícia boa por dia. Às vezes, várias por hora - uma queda de avião depois da outra. Prendeu a atenção do país, do planeta. É o primeiro político do Século 21. Entendeu que hoje, em que o mundo da comunicação é dominado pelas redes sociais, o importante é causar - e mais que isso, o importante é dividir. Quanto maior o bafo, quanto mais polêmica a declaração, quanto mais as pessoas se sentirem provocadas a se posicionar, quanto mais briga, melhor. O que naturalmente vale para qualquer um que posta nas redes sociais, e não só para jornalista. Você é tão urubu quando o repórter mais carniceiro, meu caro amigo, minha querida leitora.
A democracia representativa tem uns duzentos anos de idade. Mudou pouquíssimo nos seus fundamentos. Avança a passo de tartaruga, a tecnologia na velocidade da luz. Dá cada vez menos conta do recado. Como ela ainda não chegou direito na maior parte do planeta, a gente tende a achar que a Democracia ao estilo americano é um objetivo a ser alcançado. Não é. Já venceu esse esquema de a cada quatro anos escolher para nos comandar um garoto-propaganda, escolhido pela máquina partidária, bancado por ricaços e cuidadosamente preparado por publicitários. Tanto isso é verdade que Trump chegou onde chegou ignorando todas essas "regras" do moderno marketing eleitoral...
A democracia pode ter futuro. Depende dela ser no dia a dia muito envolvente, muito emocionante, muito exigente. E na época de eleição, bem monótona. Ser político tem que ser tão atraente quanto ser funcionário público por quatro anos e parar por aí. A democracia precisa abrir mão de partidos, de campanhas milionárias, de marketeiros. Precisa dizer não para infinitas reeleições, parentes na política .Chega de dar um cheque em branco para quem se elege. Tem que tirar da mão do eleito a caneta para gastar na besteira que bem lhe aprouver, para proibir o que não curte e para indicar os juízes que interpretarão as leis. Ser presidente é poder demais. Ser governador, prefeito já é poder demais. É cada vez maior a concentração de poder nas mãos do Executivo e do Legislativo. E ser eleito é passagem só de ida para o clube dos milionários, dos 0,1%, sem ligação nenhuma com a população, conexão total com a elite da elite.
Cada vez mais, a política (e a comunicação; são mais ou menos a mesma coisa) depende de pintar o mundo de preto e branco e jogar um grupo contra o outro. Eleitores de Hillary não podem imaginar que tipo de gente burra votaria em Trump; eleitores de Trump têm horror dos eleitores de Hillary. No Brasil, o PT foi demonizado; já o PT descarta qualquer crítica a seu período no poder como golpismo. E assim caminhamos rápido para lugar nenhum.
Cada vez mais, os eleitores pelo planeta afora estão escolhendo a notícia boa. Aí é que mora o problema. Aumenta a cada dia a probabilidade de elegermos o candidato mais histriônico e mais divisivo, o que promete soluções simples para problemas complexos, toda solução cabendo em Tweet, toda declaração planejada para viralizar. Se Trump não leva desta vez, pode levar na próxima. Se não ele, alguém parecido ou pior. Personagens a la Trump começam a chegar ao poder em outros países. No Brasil, em 2018, porque não?

A premissa da Democracia é o diálogo, a solução negociada para os conflitos, o debate informado. Só é possível entre quem quer conversar. Foi transformada pelas redes sociais nessa balbúrdia inútil, que só pode ser vencida no grito. Na prática, Trump - o estilo Trump de política - venceu. E isso é uma péssima notícia.

http://r7.com/TApX

Publicado em 27/10/2016 às 17:55

Como escrever bem

como escrever Como escrever bem
Se você trabalha com comunicação, precisa saber escrever. E hoje em dia, a maioria das pessoas trabalha com comunicação, de alguma maneira... Mas muita gente sofre para escrever. Pare de sofrer! Eu escrevo profissionalmente desde 1988. Tenho uns truques para compartilhar com você.

A primeira vez que escrevi sobre escrever foi em 1995, numa coluna do Folhateen, falecido caderno para adolescentes da Folha de S. Paulo. Era uma resposta às consultas dos leitores sobre como virar crítico musical (imagine, naquela época ainda existiam críticos musicais).

De lá para cá, escrevi várias vezes sobre o assunto. Quase sempre para consumo interno, para equipes que eu coordenava. Eu envelheço, mas meus colegas sempre têm uns 25 anos... Eles batizaram de “Escolinha do Professor Forasta”. Hoje meu filho tinha que escrever um texto para a escola, e eu disse que talvez fosse útil antes ele ler minha aulinha. E quem sabe seja útil pra você também...

COMO ESCREVER BEM

Escrever bem é defender uma posição original, com argumentos irrefutáveis, de maneira sedutora e clara. Vamos chamá-la de “tese”. Isso pode ser feito em uma frase ou mil. Em uma é melhor.

Se o texto não tem posição, não defende uma tese. E se não tem algum componente de provocação, não defende uma tese original. Aí pode ser o que você quiser - poesia, prosa, “conteúdo” -, mas não é jornalismo. Ou, dizendo de uma outra maneira: não tem o impacto, a organização, a clareza de um texto jornalístico. E você quer que seu texto tenha essas qualidades, mesmo que não trabalhe com jornalismo!

A tese é uma tomada de posição por parte do autor. Ele apresenta sua posição e, em seguida, argumentos que provem que ela está correta. A tese deve ter tema único e bem delimitado, rigor de argumentação e apresentação de provas, profundidade de ideias, avanço da compreensão da área abordada e originalidade.

A ESTRUTURA

O texto jornalístico ideal tem 1500 caracteres. Ele deve defender uma única tese.

O título da matéria deve ser um resumo da tese, expressada da maneira que mais atrairá leitores.

O primeiro parágrafo do texto (também conhecido como “lide") explicita a ideia central do texto e, portanto, é um resumo do texto completo.

O efeito final no leitor deve ser o de que ele escorregou pelo texto - foi paquerado pelo título, seduzido pelo lead e, quando viu, já estava no clímax.

Uma estrutura muito eficiente: tese no lead, seguida de três parágrafos apresentando provas da tese em ordem crescente de força da prova. O último repete a tese e apresenta a prova definitiva de que ela é correta. O último é o parágrafo mais curto.

O TEXTO

As frases devem ser curtas e diretas.

Não use vírgulas.

Não use jargões e termos técnicos. Escreva em português que sua mãe possa entender.

Não use metáforas, bordões, clichês.

Se usar siglas, na primeira vez que mencioná-las, explique o que ela significa e o que ela é em texto entre parênteses.

Abra um parágrafo a cada 400 caracteres.

Quando você achar que o texto está prontinho, perfeito, conte o número de caracteres. Corte 30%.

Depois disso, volte para a primeira linha e desça cortando todas as vírgulas que conseguir. Uma por parágrafo é o máximo desejável.

O ESTILO

Não procure ter um estilo. Estilo é uma mistura de todo mundo que você admira com o que você não consegue deixar de ser. Vai sedimentando com a idade. Preocupe-se em defender sua tese com clareza e eficiência.

Escreva rápido até o final. Revise depois. Desligue o corretor automático, mas verifique as grafias. Você pode usar palavras que não usaria normalmente numa conversa com sua mãe. Mas só uma vez por texto.

Leia muito. Quem não tem tempo para ler não tem tempo para aprender a escrever. Leia gente que sabe escrever, independente do tema abordado. Quando eu era garoto o melhor texto era o de Paulo Francis, imbatível. Aprenda inglês. The Economist é a referência mundial em clareza sobre qualquer assunto.

A formuleta acima funciona. Use e pare de sofrer. Você também pode ignorá-la e escrever bem. Só precisa ser muito inteligente e experiente e talentoso... não, falando sério: antes de se arriscar em textos compridos e complexos, domine o texto curto e direto. É preciso aprender a andar antes de aprender a correr.

Finalmente: se você não se diverte quando escreve, o leitor percebe. Escreva com prazer!

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Publicado em 19/10/2016 às 15:48

Cunha se deu bem. E o Brasil, otário, se deu mal

cunhadoido23 11 Cunha se deu bem. E o Brasil, otário, se deu mal
Cunha foi preso. É ladrão de galinha. Quis voar alto demais. Caiu rápido. Sua trajetória pode servir para a gente melhorar nosso país em duas coisas muito importantes. É duvidoso que isso aconteça.
A acusação mais clara e letal contra Cunha é ganhar propina nos esquemas da Petrobras e mandar para o exterior, para a Suíça. Quanto? Ninguém sabe. Falam de R$ 52 milhões na Suíça. Para quem chegou a presidente da Câmara, é dinheiro de pinga. Deve ter muito mais dinheiro em outros lugares.
Até porque só amador ainda tem dinheiro na Suíça. Os super ricos do mundo sabem faz tempo que é melhor colocar seu dinheiro desviado em outros paraísos fiscais. Segundo a organização não-governamental Global Financial Integrity (GFI), entre 2004 e 2013 os milionários brasileiros mandaram para o exterior ilegalmente uma média de U$ 22,6 bilhões por ano. Em português claro: setecentos e setenta bilhões de reais. Todo esse dinheiro foi para paraísos fiscais. Por quê? Porque era dinheiro ganho limpo no Brasil? Não, porque era dinheiro sujo. Os ricos brasileiros pagam pouquíssimo imposto. As grandes empresas brasileiras pagam pouquíssimo imposto. No Brasil o Caixa 2 é sempre a primeira opção, nunca a segunda.
A Suíça é um destino cada vez menos popular para recursos do crime, da corrupção, do narcotráfico, ou simplesmente dinheiro de Caixa 2, escamoteado por ricaços. Quem diz é o próprio Banco Central da Suíça. Segundo eles, no ano 2000, os correntistas brasileiras chegaram a ter US 6,2 bilhões depositados em bancos suíços. Em 2015, tinham "só" US 4,3 bilhões. Continua sendo muito dinheiro, mas é uma queda enorme. A razão é porque a Suíça vem sendo pressionada para aumentar a transparência financeira. Outros países seguem sem pressão nenhuma e viraram os destinos prioritários do dinheiro sujo do planeta.
A prisão de Cunha poderia ser um bom começo para o Brasil entrar a fundo na questão dessa dinheirama nossa que está no exterior. Afinal, é dinheiro que foi mandado ilegalmente para o exterior, sem pagar imposto, e deveria estar aqui sendo útil para a população. Esse dinheiro que o GFI identificou, R$ 770 bilhões, para pagar 28 anos de Bolsa Família, que em 2016 é um investimento de R$ 27 bilhões por ano. Ou, alternativamente, fazer uma revolução na nossa saúde, educação, segurança. Mexer com esse vespeiro é coisa que está bem longe da pauta da Justiça. Da Receita. E da Lava-Jato. Seria arrumar uma treta com a elite da elite, os 0,1% que de fato dão as cartas no Brasil.
A segunda maneira de fazer da prisão de Cunha algo importante é ser extremamente, brutalmente rigoroso com ele com os que o cercam. Apertar, apertar, apertar. Para forçar ele a abrir o bico sobre os grandes esquemas de corrupção, de todos os partidos. E para forçar ele a nos contar o que sabe sobre a movimentação que derrubou Dilma Rousseff. Sem a participação de Cunha, Temer jamais teria ascendido à presidência. É evidente que ele sabe de todas as negociações, todas as movimentações, todos os acordos que levaram ao impeachment. Mas se Cunha conta 10% do que sabe sobre a corrupção, ou 10% dos bastidores do impeachment, não fica pedra sobre pedra.
Essa seria a hora dos brasileiros, tanto os que foram a favor como os que foram contra o impeachment, se unirem com um objetivo maior. Que é fazer a prisão de Cunha representar uma grande mudança no nosso país. Sonhar é grátis... Infelizmente, e o brasileiro comum na rua sabe disso, a real é que Cunha tem 99% de chance de se dar bem.
O mais provável é que Eduardo Cunha fale pouco, entregue gente sem importância, pague algum dinheiro, pegue alguma cadeia. E só. Vamos continuar pagando de otários dos poderosos. Sem impacto no dinheiro sujo que os super ricos desviam para o exterior, sem impacto na corrupção instucionalizada, sem impacto no sistema político do Brasil, a prisão de Cunha será só um show de mídia, com cheiro de acordão. Uma história cheia de som e fúria, significando nada.

http://r7.com/ggnu

Publicado em 07/10/2016 às 16:08

O perigo que se esconde por trás da PEC 241

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O Brasil gasta muito mais do que arrecada. Por isso nosso país está sempre endividado. Para fechar a conta, o governo tem que tomar dinheiro emprestado, pagando juros gigantes. Aí a dívida só aumenta. E por causa disso falta dinheiro para investir no que é fundamental. E como os juros são altos, as empresas também não investem, e o desemprego só aumenta. É um círculo vicioso, de que o Brasil precisa escapar.
Fácil concordar com isso tudo. E fácil concordar que a solução é uma lei que proíba o governo de gastar demais. Essa é a premissa da Proposta de Emenda Constitucional 241, a PEC 241. É o grande projeto do governo no momento. Muita gente respeitável garante que se ela não for aprovada, o país quebra. É o que o ministro da fazenda, Henrique Meirelles, falou na TV. Temer não está poupando esforços para aprovar a PEC. E ela tem de fato grande chance de ser aprovada.
O que exatamente diz a PEC 241? Que nos próximos 20 anos, até 2036, o governo do Brasil só poderá gastar exatamente o que gasta hoje. O único ajuste permitido será o da inflação anual. É isso que vai ser votado, e provavelmente aprovado, pelo Congresso.
Só tem um probleminha. Que vai virar um problemão.
O Brasil é um dos países que menos investe em saúde. O gasto do poder público em saúde por habitante é mais ou menos R$ 1400 por ano - dá menos de quatro reais por dia. Nos EUA é o equivalente a R$ 15 mil. Na Noruega, o país com melhor padrão de saúde do planeta, o governo investe R$ 28 mil por ano, por cidadão. Abaixo do Brasil, só os países mais miseráveis da África.
E o Brasil é um dos países que menos investe em educação. O gasto anual do poder público com educação é de aproximadamente R$ 10 mil por aluno do ensino básico. Quanto é nos países mais desenvolvidos? Três vezes mais. Por isso é que eles são desenvolvidos... e a gente não.
Ou seja: se a gente aprovar a PEC 241, e continuar investindo essa mesma miséria, o Brasil não vai pra frente. Aliás, vamos piorar muito.
Porque a população continua crescendo. Hoje somos 206 milhões de brasileiros. Em 2036 seremos quase 240 milhões de pessoas. Mais gente dividindo o mesmo investimento em saúde e educação. Então, na prática, o investimento por pessoa vai cair.
Vai piorar porque a população do Brasil está envelhecendo. E quanto mais velho, maior o custo com saúde.
Vai piorar porque a tendência global para as próximas décadas é de criação de empregos muito menor. Os empregos tradicionais estão cada vez mais sendo substituídos pelas máquinas e computadores. No Brasil, situação ainda mais grave, porque temos milhões de jovens com uma educação tão ruim que literalmente não servem para nada. Hoje o Brasil já é campeão de "nem-nem", jovens de 15 a 24 anos que largaram de estudar, e não trabalham, porque não têm qualificação nenhuma...
Então teremos uma porcentagem muito maior de brasileiros que não terão condição de pagar seguro saúde, nem escola particular, o que vai sobrecarregar ainda mais os sistemas públicos. E inevitavelmente as cadeias.
Não vamos nem citar outras questões prementes do país. Por exemplo, o fato de termos apenas metade das casas do país ligadas à rede de esgoto. A situação caótica dos transportes, a situação assustadora da violência. Não vamos nem citar os desafios cada vez mais presentes na área de meio-ambiente, de poluição, de mudança climática...
Vamos ficar só em saúde e educação. É muito claro, os números não mentem. O Brasil precisará investir muito, muito mais nas próximas décadas, para diminuir o descalabro atual. E não investir menos, que é o que a PEC 241 propõe.
Mas se é assim, porque essa campanha tão forte a favor da PEC 241? E porque ela tem grande chance de ser aprovada?
Porque para o Brasil fechar as contas, ou se arrocha os pobres, que é o que a PEC 241 propõe. Ou se cobra impostos dos ricos. Que é o que os outros países fazem.
No Brasil, pobre paga muito imposto, cobrado de maneira indireta em cada produto que compra. Classe Média paga muito imposto, muito imposto de renda, e ainda se aperta para bancar do bolso seguro saúde e escola particular. Tanto pobres quanto classe média pagam também um mundo de juros, embutidos em tudo que consumimos
E os ricos pagam pouquíssimo imposto. Tanto na pessoa física, como na jurídica. No Brasil os ricos pagam pouquíssimo imposto sobre suas propriedades, suas fazendas, seus investimentos financeiros. Pagam pouquíssimo imposto sobre as heranças que deixam. Muito, mas muito menos que nos outros países.
E as grandes empresas também pagam pouquíssimo imposto. Existem mil maneiras de escapar, se você tem recursos suficientes. Fora que as grandes empresas no Brasil se financiam como? Pegando dinheiro emprestado do BNDES, ou seja, dinheiro público, a juros bem suaves.
Os ricos brasileiros têm uma vantagem dupla. Eles pagam pouquíssimo imposto. E têm os maiores rendimentos financeiros do planeta Terra, sem risco nenhum. Como? Justamente emprestando dinheiro para o próprio governo...
É importantíssimo para os ricos brasileiros que a PEC 241 seja aprovada. Para que a conta desse ajuste seja pago pela classe média e pelos pobres, e não por eles, os grandes empresários, grandes banqueiros, grandes fazendeiros. Que é, claro, o grupo que tem mais poder. E mais poder tem para eleger políticos e influenciar a opinião pública. Em qualquer época, em qualquer governo, de qualquer partido.
O resultado da aprovação da PEC 241 será aumentar a transferência dos recursos de 99% da população para os bolsos de 1% de milionários. Espremer ainda mais o povo, para que os super ricos ganhem ainda mais, e sigam pagando pouquíssimo imposto. Esse é o perigo que corremos: condenar nosso país, nosso povo a um atraso infinitamente maior que o atual.
O Brasil precisa fechar as contas, sim. Mas temos que fazer como fazem os países que se desenvolvem. Precisamos investir na educação, na saúde, na segurança, na infraestrutura. Para isso é preciso dinheiro. E para isso é preciso taxar com justiça todas as faixas da população. Proteger ao máximo os mais necessitados. Cobrar moderadamente a classe média. E taxar com vontade os milionários.
Isso faz sentido em outros países. Faria sentido no Brasil. E mais que isso: faria justiça. O que não faz nem sentido, nem justiça, é a PEC 241.

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