Publicado em 20/07/2017 às 18:15

Um conselho para João Dória (e uma encomenda para os paulistanos)

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É comum e forçada a comparação entre João Dória e Donald Trump. Mas é inegável que pelo menos uma coisa o prefeito e o presidente têm em comum. É a dificuldade de ouvir críticas. E com isso, de reconhecer erros e pedir desculpas.

A deficiência no diálogo é um problema para qualquer pessoa. Mais ainda em gestores. E infinitamente mais em gestores públicos, que são representantes da vontade popular, e lá estão única e exclusivamente como funcionários da população. Como Trump, Dória fala pelos cotovelos. Está o tempo todo nas redes sociais, e gerando ganchos para aparecer na imprensa. Sua equipe de mídia social esquadrinha a internet 24 horas por dia, à procura de citações positivas, para alavancá-las, e negativas, para rebatê-las.

Normal? Até certo ponto. Político tem que vender seu peixe mesmo. Que político quer dar destaque para o que está indo mal na cidade que administra? Mas a marcação cerrada da administração Dória contra críticas vai além do habitual. Inclusive do habitual no estado de São Paulo, onde os jornalistas já estão bem acostumados com a postura de Geraldo Alckmin, cuja estratégia de comunicação é nunca se explicar e nunca pedir desculpas.

Pode ser uma questão de formação profissional. Dória é publicitário das antigas. Vê a mídia como um espaço para relações públicas, não questionamento. Em todos os seus anos como entrevistador, nunca fez uma pergunta que colocasse o entrevistado em uma situação difícil. Seu negócio é networking, é relações públicas. Natural que veja esta fase na prefeitura como continuação do trabalho que sempre fez. E quem sabe sua longa experiência como facilitador de relacionamentos possa render bons resultados para São Paulo.

Mas o marketing mudou e Dória parece que não percebe. Mesmo usando todo o arsenal da internet, e tendo uma ótima equipe de mídia social, a impressão é que o prefeito parou no tempo. Ainda vê a comunicação como via de mão única, em que o anunciante determina ao consumidor como, o quê, quando e por quanto ele deve comprar. Qualquer publicitário afinado com o espírito da nossa época sabe que não é assim que se faz comunicação efetiva no século 21.

Dois casos atuais explicitam o problema do prefeito. Primeiro, a história dos moradores de rua que teriam sido alvo de jatos de água, nesse frio desgraçado. Na verdade a água não foi neles, foi nos cobertores. Evidentemente, não foi Dória que mandou fazer isso. E vale lembrar que na gestão Haddad aconteceu algo similar, quando a Guarda Civil retirou cobertores de moradores de rua em pleno inverno.

Mas de fato equipes de zeladoria da prefeitura, e a Guarda Civil Metropolitana, estão recolhendo cobertores, colchões e objetos pessoais de gente que mora na rua. É a conclusão de diversas reportagens, e denunciada pelo próprio padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua.

Como Dória deveria ter reagido? Bastaria dizer: "De fato isso aconteceu. Peço desculpas aos moradores de rua. Isso é um absurdo. Já avisei todas as Sub-Prefeituras e a Guarda Civil que não pode voltar a acontecer e que se algum funcionário nosso fizer isso, será punido severamente."

Como Dória reagiu? Disse que foi "um descuido". E disse também o seguinte:

"A informação foi difundida de maneira equivocada. As equipes de limpeza fazem a limpeza todas as manhãs: varrição e limpeza de pisos. Jamais algum profissional foi orientado a jogar jatos d'água em moradores. É uma mentira. E ninguém checa a informação, que jornalismo é esse? Não houve e nem haverá jatos d'água... Alguns cobertores foram molhados. Inclusive, hoje distribuímos novos cobertores para essas pessoas. Gaste pelo menos dois minutos para checar se a informação é verdadeira."

O prefeito pisou na bola. As reportagens não são obra de moleques. São matérias de veículos como CBN e Folha de S. Paulo. É um caso em que Dória lembra, de fato, Trump, atacando a imprensa por divulgar "fake news". A repercussão, como se pode imaginar, está sendo péssima para o prefeito.

Um outro caso: uma viatura da Guarda Civil Metropolitana atropelou uma menina de nove anos na rua Helvétia, na região da Luz. A Helvétia era o epicentro da Cracolândia, que agora se localiza na esquina da rua Cleveland com a Praça Júlio Prestes - não acabou, claro, só mudou de lugar.

A menina mora por ali. Brincava na rua com uma irmã e um amigo. Teve uma fratura na tíbia da perna direita e lesões no pé esquerdo, joelho e cotovelo. Passou por cirurgia e vai passar por mais uma. Ela não tem previsão de alta. A reportagem do nosso Peu Araújo, aqui do R7, conta em detalhes o caso. Entrevistou a mãe da menina. Ela conta que é comum viaturas passarem em alta velocidade naquela esquina. A reportagem do R7 verificou que na nova Cracolândia também há risco de acidentes. Tem centenas de pessoas ocupando a praça e parte da rua e não tem semáforos.

O repórter mandou uma série de perguntas para a prefeitura sobre o acidente com a menina (por exemplo, o Samu não foi acionado), o risco de acidentes, se houve outros atropelamentos, que providências serão tomadas para evitar casos assim.

A resposta da prefeitura foi a seguinte: "A Guarda Civil Metropolitana lamenta o ocorrido e informa que a criança foi imediatamente socorrida pelos integrantes da viatura para o hospital da Santa Casa. No hospital foi constatada fratura no pé esquerdo, a menina ficou em observação, acompanhada pela mãe. A ocorrência foi conduzida ao 2° DP."

De novo: comunicação que não comunica. Ignora questões e questionamentos. Fala, fala, e parece que não ouve, ou não quer ouvir.

Dória tem fãs ardorosos e detratores automáticos. Passada a eleição, a maioria não é uma coisa nem outra. Os paulistanos são muito pragmáticos. Queremos ver resultados. Só louco quer ver o fracasso da gestão Dória. Todos torcemos que esse prefeito faça a melhor gestão de todos os tempos. E o prefeito que o substituir, idem, seja quem fôr, do partido que fôr. Todos sonhamos com uma cidade muito melhor.

Mas para nosso prefeito fazer uma boa gestão, precisamos também nós fazer a nossa parte. Minha encomenda para os paulistanos: está na hora da gente cobrar Dória. Já são seis meses na prefeitura. Está na hora dele provar que é o que dizia ser, durante a campanha, um bom gestor. E já passou da hora dele se tocar: a primeira obrigação de um gestor é aprender a falar menos e ouvir mais.

http://r7.com/i8UF

Publicado em 19/07/2017 às 16:45

Protesto tem que incomodar. E o Brasil precisa aprender isso

docentes se irian a huelga  nq3Hlda JPG 976x0 Protesto tem que incomodar. E o Brasil precisa aprender isso

Macchu Picchu é um dos lugares mais fascinantes da Terra. É o principal destino turístico do Peru. Essa é a época que mais enche, porque não chove, visibilidade perfeita. Vem um monte de turistas, principalmente dos EUA e Europa. Chega a seis mil pessoas por dia. Justamente por isso é que os professores da região decidiram fazer agora um grande protesto por salários melhores - bloqueando o acesso a Macchu Picchu.

O sindicato dos professores do estado de Cusco fez greve durante os dias 12 e 13 de junho. Querem o mesmo que os professores do Brasil: mais dinheiro. O piso lá é uma miséria, como aqui. O movimento começou no início do mês. O governo explicou que não tem dinheiro no orçamento agora, as desculpas habituais.

Pois os professores foram lá e bloquearam a trilha de trem que leva a Macchu Picchu, e que é a única maneira de chegar lá. Botaram paus e pedras nos trilhos. Com isso, muitos turistas que tinham visita programada para esses dois dias perderam a viagem. Do Brasil, e também de lugares muito mais distantes. Imagine a frustração, voar da Alemanha ao Peru e não conseguir visitar Macchu Picchu.

Bem, certamente é menor que a frustração de ensinar todo dia a nova geração de peruanos, ganhar mal e ouvir desculpa dos políticos, ano após anos. E a população do Peru entende isso. Inclusive os guias turísticos. E inclusive os policiais.

Veja só: a polícia teve uma reação inesperada. Não sentou a borracha nos manifestantes, nem tacou gás lacrimogêneo neles, mesmo quando o sindicato ocupou toda a Plaza de Armas, o lugar mais turístico de Cusco. Um policial resumiu muito bem a posição dos peruanos: "todos sabemos que os professores precisam ganhar mais, e todos temos filhos nas escolas." O que a polícia fez? Os professores bloqueavam os trilhos, os policiais iam lá e limpavam. E assim foi durante dois dias.

O Peru é um dos berços da civilização humana. Um dos primeiros lugares onde se desenvolveu uma sociedade sofisticada, organizada, com agricultura, arquitetura, cultura próprias, há uns oito mil anos atrás. Foi lá, no México, Crescente Fértil, Índia, China e só. Os peruanos seguem mais civilizados que os brasileiros, de várias maneiras, mesmo com toda a pobreza e desigualdade do país. Por exemplo, não há violência. Nem do crime, nem do estado contra seus cidadãos (OK, de vez em quando há. Mas não nesse caso dos professores).

Eles entendem que protestar é direito de todos. E que protesto é para incomodar mesmo, para atrapalhar o andamento da vida normal, para dar prejuízo. Protesto que não incomoda não é protesto, porque não pressiona, não repercute, não faz a sociedade prestar atenção, a imprensa debater, o governo se mexer.

Foi enchendo o saco que nossos antepassados conquistaram o voto, salário mínimo, escola pública gratuita, e todas as conquistas que hoje damos de barato. Podes crer que muita gente naquela época reclamava, "lá vem aquela mulherada de novo atrapalhando o trânsito para conseguir o direito ao voto!".

Mas os professores peruanos conseguiram seu objetivo, atrapalhando a vida dos turistas? Ainda não. O governo tá enrolando, promete uns aumentos para o final do ano. O sindicato segue mobilizado. Os médicos da rede pública entraram em greve em apoio aos professores. E agora os mineiros também declararam greve sem data para acabar, mas contra o pacote de reformas trabalhistas que o governo pretende impôr, e que a população do Peru rejeita. Lembrou de algum país?

Enquanto isso no Brasil ainda continuamos com o discurso de que protesto é coisa de vagabundo. Que interromper as vias é coisa de criminoso, que manifestação é anarquia e por aí vai. Outro dia estavam chamando de vândalos uns manifestantes que quebraram umas vidraças no Rio de Janeiro. Ora, perto do vandalismo que foi cometido pelos governantes do Rio contra a população... são dois erros, sei, e não fazem um acerto, sei, mas não vamos comparar a violência cometida por Sérgio Cabral e cia. contra o Rio, com uns vidros espatifados.

Hoje mesmo uns estudantes que protestavam contra o aumento no preço do transporte para eles, aqui em São Paulo, entraram no sarrafo. Uma mulher foi hospitalizada com cacetada na cabeça. Manifestantes e um jornalista se machucaram. A maior parte da imprensa noticiou como "confusão". Não tem confusão nenhuma, tem é agressão do poder público contra a população.

Que tem todo o direito de protestar. Inclusive tem o direito de protestar contra a retirada de seus direitos. Porque, como sabemos, direito não é uma coisa que se concede, não é um presente. É uma coisa que se conquista, e que a gente precisa defender para não perder. Por isso é que protesto tem que incomodar. Coisa que qualquer país civilizado sabe e dá de barato. Inclusive nosso vizinho Peru. E que o Brasil ainda tem que aprender.

http://r7.com/wdHk

Publicado em 18/07/2017 às 17:04

O morto-vivo que inventou os zumbis

george1 O morto vivo que inventou os zumbis

Se o mundo fosse justo, George Romero teria morrido bilionário. Ele criou um monstro — nos dois sentidos. Inventou o conceito do morto que volta à vida faminto por carne humana, o que hoje chamamos de zumbi. E o zumbi se tornou um negócio monstruoso, em incontáveis outros filmes, games, séries, em merchandising e no inconsciente coletivo global.
O que Romero ganhou com todo esse fenômeno zumbi, com Walking Dead, Resident Evil, bonecos e salgadinhos zumbis? Nada. “George Romero” é sinônimo de zumbi, mas ele não tinha copyright sobre o monstro que criou. Não demonstrava amargura com isso, nem com sua prisão criativa no gênero terror. Desde seu primeiro filme,  George Romero deixou claro: ele sabia muito bem que o mundo não é justo.

“Night of the Living Dead”, o original de 1968, segue cultuado e assustador, fotografia preto-e-branco, tom documental, terror sem explicação ou misericórdia.  Romero continuou quase 50 anos nessa toada. Seu nome garantia financiamento de qualquer filme de terror, e melhor ainda se fosse de zumbi. Seus mortos-vivos renderam filmes incríveis. Ele bateu na onda patriótica dos anos Reagan-Rambo em Day of the Dead. E zoou com a crescente desigualdade da América sob Bush, em Land of the Dead.

Sua filmografia se sustenta mesmo quando não há um zumbi por perto. Sempre trabalhando com baixos orçamentos, Romero sempre surpreendeu. “Crazies” é sobre uma epidemia de insanidade. “Martin” é um garoto frágil que na verdade é um vampiro — ou talvez pense que é. “Knightriders”, uma versão da Távola Redonda sobre motos (!). Seu projeto mais leve e comercial foi em parceria com Stephen King. “Creepshow” era uma homenagem aos gibis de terror da EC Comics. Foi o primeiro filme dele que vi - e revi, e revi, e reveria hoje com prazer.

Seus filmes de zumbi chocam com o horror e educam com o humor. Mas nunca aliviam, nunca deslizam para a paródia. Romero é violento na sangreira e no comentário social. “Dawn of the Dead”, seu melhor filme, é a crítica de costumes mais explícita. O olhar agudo de Romero captura em 1978 as origens da sociedade super consumista, super comportada dos nossos dias. Seus zumbis circulam por um shopping, olham as vitrines, conferem os preços. Como se estivessem vivos. Como nós. Morre o homem, vive George Romero - o homem que não só inventou os zumbis, mas fez deles humanos.

http://r7.com/Uwtj

Publicado em 17/07/2017 às 10:50

Crime e recompensa: o legado de Martin Landau

Crimes Featured Crime e recompensa: o legado de Martin Landau
Judah é um homem bom. Oftalmologista respeitado, pai de família, pilar da comunidade judaica de Nova York. Tem pela primeira vez na vida um caso, com uma aeromoça quarentona. Ela ameaça expôr a relação. Desesperado, ele explica a situação para seu irmão trambiqueiro, que promete dar um jeito na situação. Judah concorda. A amante é assassinada. Um abismo se abre sob Judah, um homem bom com sangue nas mãos: confessar o crime ou seguir com a vida, como se nada tivesse acontecido?
Só pela cena final entre Martin Landau e Woody Allen é obrigatório assistir Crimes e Pecados, o papel definitivo de Landau, que acaba de nos deixar. A tradução é ruim. Pecado é pior que crime. O original é Crimes and Misdemeanors, palavra sem equivalente em português, uma infração, um pecadilho.
Título de acordo com o tratamento ambíguo, como a vida é e a arte deve ser. Allen, que nos entediou em sua fase russa-escandinava quando resolveu ser diretor "sério", nunca foi tão sério. Costura o drama de Judah com uma trama paralela, em que faz seu papel habitual, "Woody Allen", exasperado com frustrações, enredado em paixonites, embatucado com o sentido da vida.
Voltaria ao tema Dostoievski-light, crime e talvez castigo, no hitchcockiano Match Point. É a mesma trama e mais explicitamente sobre guerra de classes, porque na Inglaterra, e mais jovem e sexy, Jonathan Rhys-Davies e Scarlett Johansson.
"Se você quer um final feliz, vá assistir um filme de Hollywood", provocava Judah, em um filme de 1989 que inclui um produtor de TV mercenário e um documentarista cego. No século 21 só há final feliz e uma interpretação do como a de Landau é missão quase impossível. Requer material que exija não só do ator, mas do espectador.
O entretenimento de hoje é patrulhado em todas as reentrâncias e comportado em qualquer plataforma. Espetaculoso na telona, algorítmico na telinha. Qualquer desvio do bem-pensante prontamente digerível é anátema.
Landau em Crimes e Pecados é empatia pura, humaníssimo, forte e fraco como eu e você. Surpresa: era em ator sensível o impassível canastrão que minha geração conheceu em Espaço: 1999.
Martin Landau foi da primeira geração do Actors Studio. Estudou com Lee Strasberg e Elia Kazan, foi colega de James Dean e Steve McQueen. Foram quase quarenta anos para ganhar o papel que o fará imortal. A recompensa por uma vida de trabalho demorou, mas chegou.
Allen, maior criador vivo do cinema americano, segue vilificado por pecadilhos que a opinião pública conservadora insiste que são crimes, mesmo que nunca tenham sido provados. A recompensa por sua vida de trabalhos brilhantes é o estigma de pecador.
Mas sua obra será vista e revista pelas gerações que nos seguirão. O ganhador do Oscar e a série que todos comentam neste final de semana, não. Enquanto houver inteligência e sensibilidade no planeta, enfrentaremos o dilema de Judah, admirável monstro moral, que o talento de Landau impõe: e se fosse eu?

http://r7.com/y4zS

Publicado em 14/06/2017 às 15:42

A economia não está melhorando coisa nenhuma. A crise vai durar muito tempo

Crise Brasil 730x471 A economia não está melhorando coisa nenhuma. A crise vai durar muito tempo

Os dados não deixam nenhuma dúvida: a recessão vai continuar por muito tempo

Existem muitos indicadores que medem o desempenho da economia brasileira. Cada um tem seu valor. PIB, vendas no varejo, confiança do consumidor, exportações, déficit e superavit... e por aí vai. Subiu a venda de carros? Caiu o endividamento? Aumentou a poupança? A safra é recorde? Tudo tem sua importância para entender onde estamos e para onde vamos. Mas como sempre digo, "tudo" é muita coisa.
De todos os indicadores econômicos, elegi um como o mais importante para prever o futuro da nossa economia. É a Arrecadação de Impostos. Quanto o governo federal está arrecadando. Porque isso nos informa, de uma vez só, sobre muitas coisas. Como estão as vendas das empresas. Como está o consumo. Qual será a capacidade futura do governo pagar suas contas, pagar suas dívidas, e - se sobrar alguma coisa - investir no país.

Há muitos anos uso esse indicador como o mais preciso para fazer meu planejamento financeiro, como pessoa física e jurídica. Não é bola de cristal. É pé no chão. Até porque esses indicadores setoriais só mostram uma faceta da realidade. No momento as vendas subiram um pouco e o endividamento caiu um pouco. Por quê? Efeito da liberação do FGTS. Que acaba daqui a pouco. São dados que dizem pouco, em termos de tendência para o segundo semestre e o ano que vem.

Como estamos em uma recessão, esse indicador é ainda mais importante. É matematicamente impossível sair de uma recessão sem investimento. Mas as pessoas estão sem dinheiro e com receio. As empresas estão na retranca; ou mal das pernas, ou, as poucas que têm recursos, deixando eles nos bancos em vez de arriscar. O investidor estrangeiro não vai botar dinheiro aqui que não seja de curto prazo.

Temos uma incógnita gigante, que é o que nos espera de 2018 para frente - podemos eleger um radical da austeridade, ou um aventureiro, ou um Congresso ainda pior que esse, sabe-se lá. E, claro, a cada dia aparece uma nova denúncia enfraquecendo nosso executivo, legislativo, e aliás judiciário.

Ou seja: se as pessoas, as empresas, os estrangeiros não estão investindo. Restaria o governo investir. Mas ele terá capacidade para isso? Afinal, em uma recessão, cai a arrecadação do governo. E é exatamente esse o indicador que mais importa para mim.

Reportagem de hoje no jornal Valor Econômico informa que houve queda da arrecadação federal em maio de 2017, comparando com maio de 2016. Mais: "houve queda quase generalizada dos tributos, particularmente aqueles relacionados com a atividade econômica." Mais: os dados de maio reforçam a trajetória negativa da arrecadação. Nos primeiros quatro meses de 2017, a arrecadação ficou R$ 19,6 bilhões abaixo do esperado. Vale lembrar que nesse início de ano entrou o dinheiro do Imposto de Renda. O Valor usou dados oficiais, do Siafi, o sistema eletrônico que registra todas as despesas e receitas da União. O artigo completo está aqui.

Esse dado nos informa o seguinte: não só o governo não vai conseguir investir em 2017 para revertar nossa recessão, como tem grande chance do governo nem conseguir cumprir a meta fiscal de 2017. Porque, obviamente, não há nenhuma razão concreta para acreditarmos que a arrecadação vai crescer nos próximos meses.

E depois disso? Bem, o governo Temer aprovou ano passado a PEC do Teto dos Gastos, que estabelece um teto para os gastos públicos. Determina que a União só poderá gastar o que mesmo que no ano anterior, acrescido da inflação do período. Essa lei limita severamente a capacidade do governo brasileiro atuar para estimular a economia. Ficamos ao sabor dos ventos, da disposição das empresas se arriscarem, da iniciativa de estrangeiros investirem aqui. Talvez o próximo presidente e Congresso mudem essa lei. Talvez por algo pior ainda...

O futuro após a eleição de 2018 é nebuloso. Daqui até lá, é previsível. A recessão estará conosco até onde os olhos conseguem ver.

http://r7.com/6jbU

Publicado em 05/06/2017 às 17:45

De Paris a Pernambuco, o problema é o mesmo (e a solução está com você)

rivania menina mochila 2 750x410 De Paris a Pernambuco, o problema é o mesmo (e a solução está com você)

Cenas como essa vão acontecer cada vez mais. Mas você pode evitar isso - começando hoje

Dezoito cidades brasileiras estão em estado de emergência por causa de seca e enchente - simultaneamente. São em Pernambuco e Alagoas. Os moradores não têm água nas torneiras, mas suas casas estão alagadas. O Brasil se emocionou com Rivania, a menininha resgatada com seus livros. O futuro estará repleto de Rivanias - mas você pode começar a resgatar essas crianças hoje, já.
Aquecimento global não significa que o mundo vai ficando mais quentinho por igual. Significa que com a temperatura média do globo subindo, nosso cotidiano é mais seco e mais úmido, mais quente e mais frio, mais furacões e tormentas - variações violentas.
Por isso é que em vez de "Aquecimento Global", hoje os cientistas dizem "Mudança Climática". Pena que a gente ouça pouco essas palavras.Toda hora tem desastres "naturais" sendo reportados, sem serem associados à Mudança Climática. Que não é algum dia, é o nosso presente sob o domínio do Capitalismo Fóssil. E é no nosso futuro, da maneiras previsíveis e imprevisíveis.
Segundo um estudo financiado pelo Banco Mundial, o que podemos esperar na América Latina se o aquecimento global chegar a 4 graus, daqui a 83 anos, em 2100:
- Muitas áreas enfretarão secas extremas, inclusive a bacia do Rio Amazonas
- Seca também nos Andes, porque todos os glaciares da região terão derretido
- Furacões de categoria quatro e cinco, os mais devastadores, serão comuns
- 77 milhões de latino-americanos não terão água potável para beber
- queda dramática na produtividade das principais safras e na indústria pesqueira
- Aumento do nível do mar de 1m40, inundando cidades litorâneas como Rio de Janeiro
Isso dá para prever. Mas como prever o impacto social de milhões de imigrantes fugindo da Catástrofe Climática, do Nordeste, dos Andes e do Litoral, e buscando a sobrevivência nas zonas mais temperadas e altas? É o que nos espera.
Não há debate "científico" a respeito porque não há o que debater. Não há controvérsia, não existem duas visões. O que existem são evidências imensas, irrefutáveis, de que o aquecimento global é causado por atividades humanas. O "outro lado" é propaganda pura, bancada pela indústria do petróleo e seus asseclas, cujo objetivo é gerar em você e eu dúvidas sobre a origem das Mudanças Climáticas e a gravidade da situação.
Acredite na força conjunta das declarações oficiais de mais de 140 das mais respeitadas organizações de pesquisa do planeta, focadas em saúde, geociência, biologia, química, física, agricultura e engenharia. Esse resumo é atualizado periodicamente; este o mais recente, de Janeiro de 2017. Todas afirmam que o Mudança Climática é causada pela atividade humana, é perigosíssimo, e convocam à ação.

http://scienceblogs.com/significantfigures/index.php/2017/01/07/statements-on-climate-change-from-major-scientific-academies-societies-and-associations-january-2017-update/

Esse assunto rende, rende, rende. E tem uma característica peculiar. De um lado, parece um desafio tão grande que desanima. De outro, frequentemente é reduzido a uma mudança de comportamento de consumo individual. Basta você mudar seus hábitos e está feita "a sua parte".
É verdade que somos todos viciados em carbono. Move nossos carros e ônibus, gera eletricidade para nossas casas e indústrias, e naturalmente o transporte de produtos por mar e ar é feito queimando combustível fóssil. Sua camiseta, seu celular e o que você almoçou hoje, tudo tem um rastro de carbono. Mas se cada um de nós tomarmos banhos curtos, usarmos sacolinhas recicláveis, comermos menos carne, usarmos bicicleta etc. e os governos e empresas não fizeram as partes deles, vamos pro beleléu exatamente do mesmo jeito.
Existem governos - nacionais, estaduais, municipais - que enfrentam com mais energia a Mudança Climática. Outros, menos. É uma questão de interesse eleitoral e principalmente de dinheiro. Quem tem petróleo quer continuar vendendo. No caso dos EUA é mais grave. O país ocupa militarmente o globo. Suas Forças Armadas são movidas a petróleo, e garantem o fornecimento de petróleo para os EUA, que o queima para produzir eletricidade. As Forças Armadas americanas têm fornecedores (de tudo) espalhados por todos os Estados do país, o que garante o apoio do empresariado e políticos locais. Falando nisso, o maior comprador de armas made in USA é a Arábia Saudita.
Donald Trump renegou o Acordo de Paris, pelo qual o mundo todo se compromete a conter emissões para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus. Obama, antes, já tinha negociado para que o Acordo de Paris não tivesse nenhum valor legal, não gerasse responsabilidades nem sanções para os países. Não quer dizer que não tenha sua utilidade, mesmo que seja só simbólica. Mas é só um pedaço de papel, e papel aceita tudo. O consenso na comunidade científica é que não dá mais pra cumprir essa meta, e aliás já é garantido que vamos ultrapassar os 2 graus de aquecimento nas próximas décadas.
É importante dizer que não é "a humanidade" que está causando a Mudança Climática. É um tipo muito específico de organização econômica e social, que privilegia os lucros estratosféricos de uma casta global de super-ricos intocáveis. Que premia o extrativismo predatório privado, e o setor público que arque com as consequências. As evidências estão em todo lugar. Ouviu alguém tossindo hoje? Nossas cidades são poluídas por monóxido de carbono. O lucro é de quem vende o carro e a gasolina. O custo da doença é seu e do SUS.
O Capitalismo Fóssil é muito poderoso, mas não é todo-poderoso. A humanidade já venceu desafios gigantescos e vencerá este. O primeiro passo é conseguir imaginar um mundo diferente do atual. Duzentos anos atrás, ninguém conseguia imaginar um mundo sem monarquias e sem escravidão. Cem anos atrás, direitos como salário mínimo, educação pública, voto da mulher etc. eram utopias.
Só imaginando um mundo melhor, mais limpo, justo e equânime, poderemos derrotar seus inimigos. Mas imaginação precisa de estímulos. A Mudança Climática faz parte do nosso cotidiano, mesmo que a gente não queira. Devemos querer, devemos fazer força para que ela faça parte do nosso cotidiano. Todo dia você deve lembrar que vivemos sob a ameaça da Mudança Climática, todo dia você deve perceber que muita gente está se mexendo para enfrentar isso. A cada dia em algum lugar alguém está celebrando uma vitória.
A maneira mais fácil de fazer isso é seguindo nas redes sociais os principais agentes desta mudança. São cientistas, jornalistas especializados em Meio-Ambiente, ativistas. Não adianta procurar anjos; somos todos humanos. Mas é fundamental procurar pessoas e organizações que têm compromisso com o rigor científico e não têm rabo preso. Um exemplo: o Greenpeace não é perfeito. Mas jamais dá espaço para ciência fajuta, e não aceita dinheiro de governos nem de empresas, o que garante sua independência.
Essa exposição diária irrita e inspira, entristece e estimula, provoca e esclarece. Quando você menos perceber, você estará muito bem informado sobre os desafios do Meio-Ambiente. E não vai conseguir ficar quieto, nem parado. Vai sentir necessidade de compartilhar suas descobertas com os outros, sua família, seus amigos. Vai sentir necessidade de agir. Uma ação pessoal, uma ação Política - com P maiúsculo.
Então, dê o primeiro passo. Nesse segundo. Comece com uma coisinha pequena. Clique nesses links abaixo comece a seguir já. E, por favor, compartilhe esse texto com gente que se importa com o planeta - o planeta de hoje, e o dos nossos filhos e netos.

OBSERVATÓRIO DO CLIMA
O Observatório do Clima reúne 35 das principais organizações ambientalistas, entre elas Conservação Internacional, Instituto Socioambiental, SOS Mata Atlântica e WWF.
Twitter: @obsclima
Facebook: https://www.facebook.com/ObservatorioClima

REVISTA PÁGINA 22 (do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV)

http://pagina22.com.br/

Twitter: @pagina_22
Facebook: https://www.facebook.com/pagina22/

Em inglês, siga o 350.org (a maior coalisão global de entidades enfrentando a indústria do combustível fóssil) e o IPCC (é o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática - a maior autoridade internacional sobre o tema).

350. org

Twitter: https://twitter.com/350

https://www.facebook.com/350.org

IPCC
Twitter: @IPCC_CH

https://www.facebook.com/IPCC/

E já que está com a mão na massa, que tal doar R$ 40 por mês para o Greenpeace? Faz bem pro planeta e pra consciência. E é uma maneira de você já dar o segundo passo - além de investir seu tempo pra se informar, investe também um dinheirinho. Porque o outro lado está cheio da grana, e o nosso também precisa...

http://www.greenpeace.org/brasil/pt/

Um mundo melhor não só é possível, como a humanidade tem feito ele ser possível desde sempre, século após século. E faremos o mesmo no Século 21.

http://r7.com/BIpL

Publicado em 25/05/2017 às 18:21

Quando a Justiça enoja: três anos de cadeia por furtar ovos de páscoa e um quilo de frango

Presas com bebes a8a21219 Quando a Justiça enoja: três anos de cadeia por furtar ovos de páscoa e um quilo de frango

Presas na Penitenciária feminina de Pirajuí, onde cumpre pena de três anos uma mãe com bebê - por roubar ovos de páscoa e um quilo de frango

O bebê é pequenininho, menos de um mês. Nasceu na cadeia e lá vive com sua mãe. A cela tem capacidade para doze pessoas, mas está ocupada por 18 lactantes. A mãe cumpre pena por furtar ovos de páscoa e um quilo de peito de frango. Foi condenada a três anos, dois meses e dois dias por esse crime.
A defensoria pública de São Paulo pediu um habeas corpus na última sexta-feira. Acionou o Supremo Tribunal de Justiça para pedir a anulação do crime, por ser insignificante; a readequação da pena; ou a prisão domiciliar, garantida pela leis às mães responsáveis por filhos menores de 12 anos.
O argumento é que a sentença é desproporcional à tentativa de furto e que a mulher é mãe de mais três crianças, de 13, 10 e 3 anos de idade. Além do bebê, que será separado da mãe quando completar seis meses. As quatro crianças crescerão longe da mãe, se ela seguir cumprindo pena na Penitenciária Feminina de Pirajuí, no interior de São Paulo.
O ministro do STJ, Nefi Cordeiro, negou o pedido da Defensoria e manteve a pena da mãe em regime fechado. Determinou que ela deva cumprir toda a pena na prisão por causa de “circunstâncias judiciais gravosas”. Disse “não vislumbrar a presença dos requisitos autorizativos de medida urgente.”
Quem é Nefi Cordeiro? Curitibano, oficial da PM, formado pela Federal do Paraná. Tem duas medalhas concedidas pelas Forças Armadas, a do Pacificador e Ordem do Mérito Militar. Foi nomeado para o STJ por Dilma Rousseff.
Nefi Cordeiro determinou em julho de 2016 a soltura de Carlinhos Cachoeira, Fernando Cavendish (da Construtora Delta), e de Adir Assad e Cláudio Abreu. Presos na Operação Saqueador, eles são acusados de integrar um esquema que lavou R$ 370 milhões de reais de dinheiro público.
Nefi Cordeiro confirmou em 2015 uma condenação por tráfico de duas gramas de maconha – isso mesmo, duas. É o menor caso de condenação por tráfico já registrado. A pena foi de quatro anos e onze meses. O tráfico aconteceu 15 anos antes, em 2000, em Cataguases, Minas Gerais.
Nefi Cordeiro concedeu habeas corpus a quatro PMs cariocas que fuzilaram com 63 balas um carro com cinco jovens inocentes, matando Roberto, de 16 anos, no caso que ficou conhecido como Chacina de Costa Barros. No dia 7 de julho de 2016, a família disse que após o habeas corpus, a mãe de Roberto, a cabelereira Joselita, morreu “de tristeza”.
É lugar comum dizer que o Brasil precisa de reformas. Mas reformas são leis, e leis dependem de aplicação, e isso é feito por seres humanos, juízes. No Brasil, muitos juízes aplicam as leis como bem entendem. É a velha piada que advogados contam: “de cabeça de juiz e bunda de nenê, nunca se sabe o que vai sair.”
Nunca se sabe, mas todos sabemos que a justiça brasileira frequentemente tarda e falha, e tarda e falha especialmente quando o acusado tem dinheiro. A estrutura de senzala do Brasil está tão integrada à nossa sociedade que ninguém estranha que haja prisão de luxo para quem tem diploma universitário, e de lixo para quem não teve dinheiro para estudar. Como ninguém estranha o elevador de serviço, a diferença da cor de pele entre ricos e pobres, 60 mil assassinatos anuais, ou o fato de metade dos brasileiros não terem esgoto em casa.
Nunca houve justiça no Brasil e não haverá tão cedo. Como nunca houve democracia e não haverá tão cedo. Temos pouca experiência com uma e outra. Esse é o fardo histórico que todo brasileiro tem que carregar, bestas de carga, deitados eternamente em berço esplêndido.
Mas Justiça é um tema cada vez mais central na vida de todos nós. Porque a natureza da sociedade abomina o vácuo. Então o Judiciário vem preenchendo – correta e incorretamente, com moderação e com messianismo - o vazio deixado pelo Executivo e Legislativo, que há tempos abdicaram de nos representar. E seguem ignorando solenemente desejos e necessidades da maioria, e enchendo os bolsos numa lambança sem fim, como nos informa todo dia o noticiário.
Mas membros do executivo e legislativo podem perder o emprego. Juízes não. É mais fácil arrancar uma presidente eleita por 53 milhões de votos do seu cargo que demitir um juiz do supremo tribunal de justiça.
Talvez antes de qualquer outra reforma, o Brasil precise de uma reforma profunda no Judiciário. Que o torne ágil e transparente, potente e permeável à fiscalização da sociedade.
Que dê alguma credibilidade a um poder que mantém na cadeia uma mãe miserável que furtou frango e ovo de páscoa, mas concede a prisão domiciliar a Adriana Ancelmo, esposa e comparsa do ex-governador, casal que fez fortuna com a miséria dos mais miseráveis cariocas - exatamente a gente que, no limite, furta comida.
Não se trata de “cortar as asas” do Judiciário, sonho da curriola de políticos e empresários que se organiza para fugir de investigações e delações. Se trata de tratar de maneira mais equânime os ladrões da esquina e os ladrõezões de terno e gravata.
Essa semana a polícia paulistana prendeu com grande balbúrdia traficantezinhos na Cracolândia. Também esta semana, o Supremo Tribunal Federal condenou Paulo Maluf a sete anos de prisão por lavagem de dinheiro que ocorreu no seu mandato de prefeito, entre 1993 e 1996. Finalmente Maluf vai pra cadeia? Não, ainda há espaço para recurso, mais de trinta anos depois do roubo cometido...
O juiz é um funcionário público como qualquer outro. Eles têm que ser tratados de acordo. Trabalham para nós. Têm que responder para nós. E, se for o caso, serem corrigidos, ou até punidos por nós. Nossa Justiça, e ausência dela, e revisão profunda do que significa justiça no Brasil, é pauta urgente e bem mais importante do que quem vai sentar no Palácio do Planalto nos próximos meses.
Mas alguns casos, algumas pessoas, talvez estejam além da capacidade da sociedade brasileira de corrigir seu rumo. A decisão de Nefi Cordeiro que mantém uma mãe de quatro filhos na cadeia, por furtar frango e ovo de páscoa, é incompreensível para nós. Está em outro domínio. O do inimaginável, do inumano, além da imoralidade, além da redenção.

http://r7.com/fdIf

Publicado em 17/05/2017 às 20:25

Temer: entre a renúncia e o impeachment

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Temer foi cúmplice para comprar o silêncio de Cunha na cadeia. Este é o resumo da notícia-bomba, a mais explosiva em todos esses anos perigosos. Existe um vídeo disso, afirmam os donos da JBS em delação premiada. O Brasil ainda não viu. Contra uma imagem dessas, não há desmentido ou explicação possível.
Tem mais. Temer indicou um político, o deputado Rodrigo Loures (PMDB-PR) para resolver problemas da holding que controla a JBS. Loures foi filmado recebendo uma mala de R$ 500 mil pago pela JBS. O dinheiro foi rastreado pela Polícia Federal.
Isso é o que sabemos sobre o presidente. Por enquanto. Muito mais pode aparecer nessa delação, que deixa a da Odebrecht no chinelo, e já foi homologada pelo ministro Edson Fachin no Supremo Tribunal Federal.
Aécio Neves também foi filmado, pedindo R$ 2 milhôes para a JBS. A Polícia Federal realizou sete operações no total, filmando as entregas das malas de dinheiro, e rastreando o dinheiro. É um furo espetacular, histórico do jornal O Globo.
O que acontece agora?
Temer pode negar, negar, negar e continuar na presidência, totalmente enfraquecido e sob investigação e fogo cerrado. Mas será fortíssimo o clamor pela sua renúncia. Ou impeachment, como já pedem deputados e as redes sociais. Na prática, o governo Temer acabou hoje. Não terá força para mais nada. A renúncia será menos prejudicial para o Brasil que outro longo, doloroso processo de impeachment.
Renúncia ou impeachment, a regra é clara. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, assume temporariamente e convoca eleições indiretas. Quem vota é o Congresso, deputados e senadores.
Mas numa situação tão incendiária, é possível que a pressão pelas Diretas Já seja irresistível. A batalha pelo futuro do Brasil continua.

http://r7.com/VoOA

Publicado em 04/05/2017 às 16:41

Dória instaura a censura prévia, Freixo enfrenta o tribunal do Facebook

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Notícia de hoje de manhã no Facebook: ex-mulher acusa Marcelo Freixo de machismo. Comentários mil fazendo a caveira do político carioca. "Notícia" ou fake news, intriga da oposição? Dois cliques me levaram ao post de Priscilla Soares, publicado e depois apagado.
Uma busca com as palavras "Freixo" e "Machismo" levaram a resultados espantosos. Os sites jornalísticos simplesmente relataram o acontecido, inclusive os que se opõem politicamente a Freixo, como Veja. Mas são, somos, minoria.
A massa dos artigos que encontrei na busca eram de blogs e sites obscuros e comparavam Freixo a seu opositor na eleição para prefeito do Rio em 2016, Pedro Paulo Carvalho. O candidato do PMDB admitiu ter espancado a ex-mulher duas vezes. A primeira em 2008, quando deu dois socos no rosto da ex-mulher, na frente da filha de dois anos. A segunda em 2010, quando ela pediu a separação, após descobrir sinais de que ele a tinha traído.
O tom geral dos posts em blogs era "está vendo, o Freixo foi desmascarado, o esquerdista é hipócrita, falava do Pedro Paulo mas é machista".
Muitos posts desses geraram compartilhamentos no Facebook. Igualmente frequentes na rede social eram comentários de simpatizantes da "esquerda", de Freixo, feministas etc. lamentando o machismo de Freixo.
O que não vi em nenhum lugar: alguém questionando o depoimento de Priscilla Soares. O que ela disse pode ser verdade. Pode não ser. Como tudo na vida, e na internet, é diz que diz até que se apresentem provas. E é evidente que mesmo que se comprovem atitudes machistas de Freixo com a ex-mulher, comparar isso com um cara que espancou a esposa duas vezes é uma falsa equivalência e uma excrecência. Mas quem se importa com fatos? Queimemos a vítima do dia no tribunal do Facebook.
Enquanto isso, em São Paulo, o prefeito João Dória contratou um escritório de advocacia para mandar intimações extrajudiciais a usuários de redes sociais que publiquem críticas, postagens consideradas "ofensivas": injúria, difamação e incitação à violência. Notificações que podem ser usadas depois para embasarem processos contra os internautas.
A repórter do Buzzfeed, Tatiana Farah, relata que os honorários são pagos por Doria, não pela prefeitura. Segundo um dos advogados responsáveis, Guilherme Ruiz, o escritório não faz monitoramento das redes sociais, apenas recebe as informações que são repassadas por "simpatizantes do Doria".
Pode ser. Mas Dória tem uma equipe talentosa responsável pelo seu marketing digital, tanto pela monitoração das redes, como pela produção e disseminação de conteúdo, engajamento dos usuários, business intelligence e tudo mais. São jovens extremamente preparados, espalhados pelas diversas secretarias e trabalhando em conjunto. Pra quê? Para fazer propaganda pró-Dória. Imagino que também gastem algum tempo identificando citações negativas ao trabalho de Dória e das secretarias, até para contra-atacar.
É o que toda empresa faz para impactar a opinião pública, nos dias de hoje. Dória sabe que as pessoas se informam pelo diz-que-diz das redes sociais frequentemente compram gato por lebre. Está aí o sucesso de Donald Trump para comprovar que as fake news funcionam. O problema é quando o prefeito da maior cidade do Brasil, e candidato a presidente da república, passa a usar seus recursos, e quem sabe recursos públicos, para perseguir judicialmente seus críticos.
O perigo é enorme. Porque a lei brasileira, quando se trata de liberdade de expressão, é ambígua, pra dizer o mínimo. O que é injúria, difamação, atentado à honra etc. depende da cabeça de cada juiz. Recentemente fui condenado numa ação do gênero, e o texto do juiz afirmava que causei prejuízo não pelo que escrevi, mas pelo que o réu, eu, "deu a entender". O processo está em recurso.
E há o perigo de simplesmente se instalar uma censura prévia. Que, na prática, é o que está acontecendo.
Segundo o próprio Ruiz, o primeiro passo do escritório é notificar o dono do perfil na rede social e pedir a retirada do post. "A maioria retira o post com a mensagem ofensiva", disse Ruiz à Tatiana, para quem contou que já obteve na Justiça a quebra de sigilo de autores de uma postagem. Ora, quem quer ser processado por Dória, milionário e prefeito de São Paulo? Qualquer pessoa racional vai preferir deletar o post do que correr o risco.
Como tenho meus momentos de irracionalidade, ao ler a matéria no Buzzfeed, imediatamente postei a seguinte frase no Twitter e Facebook: "Se você acha Dória é um cretino autoritário, compartihe essa mensagem, por favor. Aviso que serás notificado!". Junto ia o link da matéria de Tatiana.
Dória na verdade não tem nada de cretino, é bem esperto. Mas sua atitude nesse caso é não só de um cretino, mas de cretino autoritário que coloca seu marketing pessoal acima da liberdade dos cidadãos. Critique o que quiser Lula, Dilma Temer etc., nenhum deles teve uma atitude parecida com a de Dória.
Freixo deve ter ouvido muitas vezes "vai pra Cuba". Mas nesse caso do post da ex-mulher não notificou ninguém, não botou advogado atrás de quem o comparou com Pedro Paulo. Simplesmente postou um vídeo no próprio Facebook, entre o civilizado e o clichê explícito. Muito ao gosto do seu eleitor, dizendo que na sociedade patriarcal todo homem é machista etc. O caso serve de alerta para quem está todo santo dia nas redes sociais comentando o escândalo do dia: Facebook tem muitas utilidades, e uma delas não é acessar informação confiável.
Quem se porta como um Castro ou um Maduro é João Dória, que posa de sorridente liberal mão-na-massa, mas vem explicitando sua vocação truculenta. Talvez de olho em 2018, para conquistar o eleitor de Jair Bolsonaro?
Até o momento meu post provocando Dória tem 1100 Retweets e 934 Likes. Que alegria a companhia de tantos outros animais tão irracionais quanto eu. Como Dória está pagando do seu bolso o escritório de advocacia, espero dar um belo prejuízo para ele. Bater tem que ser sempre onde mais dói, no caso no ego e no bolso. Aguardamos todos as notificações e aviso que não retiro, nem modifico...

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Publicado em 03/05/2017 às 17:54

O governo quer liberar a venda de terras para estrangeiros e acabar com os direitos do trabalhador rural. Quem ganha com isso?

DSCF5335 1024x682 O governo quer liberar a venda de terras para estrangeiros e acabar com os direitos do trabalhador rural. Quem ganha com isso?

Dois novos projetos de lei pretendem mudar radicalmente o Brasil rural. Vão prejudicar a produção agropecuária e a segurança alimentar do país. Facilitarão a roubalheira dos nossos políticos e a lavagem de dinheiro. Pior: transferem para mãos estrangeiras e desconhecidas o destino do Brasil rural, e dos trabalhadores brasileiros do campo.

O projeto de reforma trabalhista para o campo é muito mais violento que o aprovado para os trabalhadores das cidades. A proposta permitirá que os fazendeiros deixem de pagar salário em dinheiro. A remuneração, ou pelo menos parte dela, poderá ser "de qualquer espécie". Por exemplo, moradia (desconto de 20% do salário) e alimentação (25%). Quem mora e trabalha em fazenda pode ser forçado a abrir mão do salário, porque já mora e come lá.
A proposta pretende aumentar a jornada diária para até 12 horas. Permite a venda integral das férias dos empregados que moram no local de trabalho. Substitui o repouso semanal por um período contínuo com até dezoito dias de trabalho seguido. A CLT deixa de valer para o trabalhador rural e ponto final.
A segurança do trabalhador diminuirá, porque o projeto revoga a norma do Ministério do Trabalho sobre as regras de segurança e saúde no campo. Por exemplo, acaba a obrigação de que a empresa tenha equipamentos de primeiros socorros no local. Os Ministérios do Trabalho e da Saúde serão excluídos da definição de regras sobre agrotóxicos.
Trabalho sem salário, sem descanso, sem férias, é escravidão. É crime. Pois é esse crime que querem transformar em lei. O autor do projeto é justamente o presidente da banca ruralista, o deputado Nilson Leitão, do PSDB do Mato Grosso. Representa os interesses dos grandes proprietários de terra. Quem são eles? Mais sobre esse assunto daqui a pouco.
O governo de Michel Temer já tem pronto um projeto de lei que libera a venda de terras no Brasil para empresas estrangeiras. E os novos donos gringos poderão tratar seus empregados como bem entenderem, se for aprovada essa reforma trabalhista rural.
O projeto de lei que está sendo gestado na Casa Civil prevê alguns limites para a venda de propriedades rurais para estrangeiros. Na real não limitam coisa nenhuma. Por exemplo, proíbe que o estrangeiro, seja pessoa física ou empresa, seja dono de mais do que 25% de um município. É evidente que basta o sujeito abrir uma outra empresa, ou seu irmão ou um laranja qualquer, e pode comprar uma cidade inteira.
Outra pseudo-limitação é a proibição de compra de nossas terras por Fundos Soberanos, ONGs como sede no exterior e extatais estrangeiras, além de fundações mantidas por outros países. Outra limitação de faz-de-conta. Os fundos soberanos são fundos controlados integralmente pelos países, dinheiro do Estado, reservas internacionais. Mas esses fundos soberanos sempre investem em  fundos privados. E esses teriam direito de comprar nossas terras. Exatamente igual com ONGs, fundações e estatais.
Com esta nova lei, os atuais donos de grandes propriedades no Brasil poderiam simplesmente vender suas terras para empresas estrangeiras, sabe-se lá de onde, de onde veio o dinheiro dos sócios etc. E esses estrangeiros passarão naturalmente a ter grande poder de influência econômica e, claro, política.
Daqui a pouco vai ter estatal chinesa, sheik das arábias e laranja de traficante internacional apitando aqui dentro, elegendo congressista, mandando prender e soltar. Serão os patrões dos trabalhadores brasileiros do campo. Serão com esses estrangeiros que o trabalhador do campo terá que negociar seu salário, suas férias, seus "direitos".
Agora a pergunta de sempre: quem ganhará com essas novas leis?
Um dos livros mais esclarecedores sobre como o Brasil funciona é "Partido da Terra: Como os Políticos Conquistam o Território Brasileiro", de 2013. É resultado de uma pesquisa imensa, realizada durante três anos por Alceu Luís Castilho, vencedor de alguns dos mais importantes prêmios do jornalismo nacional.
Castilho analisou perto de 13 mil declarações de imposto de renda, entregues por políticos brasileiros ao Tribunal Superior Eleitoral. Concluiu que 2 milhões de hectares estão na mão de políticos com mandatos municipais, estaduais e federais (um hectare é equivalente a dez mil metros quadrados).
Mas o total nas mãos dos políticos pode chegar aos 4 milhões de hectares, porque os dados que eles passaram ao TSE só informam o valor dos terrenos, sem informar sua área total. E, naturalmente, pode ter muito mais terra na mão de laranjas, parentes, empresas fantasma etc. Os partidos que lideram o ranking são PMDB, PSDB e PR. O livro informa que os Senadores proprietários de terras têm, em média, 973 hectares cada um. Essas duas novas leis foram, portanto, criadas por latifundiários, para atender o interesse dos latifundiários. Entre eles, boa parte dos nossos políticos.
Vale lembrar que existe uma ótima razão para tanto interesse da nossa classe política pela pecuária. É muito fácil inventar o nascimento de cabeças de gado e sua venda; subdimensionar e superfaturar; atribuir valores milionários a reprodutores e ao sêmen, vender por preços milionários em leilões. Com isso, fica bem fácil arrumar uma origem "legal" a recursos provenientes de propina, sobras de campanha, Caixa 2. Tanto nas investigações de corrupção envolvendo a Petrobras, como na Lava-Jato, sobram exemplos de "pecuaristas" metidos em desvios gigantescos de dinheiro público. Para lembrar de dois nomes: Marcos Valério e Renan Calheiros. E sobram casos de políticos fazendeiros metidos em grilagem, falcatruas, até grupos de extermínio.
Em uma entrevista ao Estadão, o  juiz federal Odilon de Olveira disse que lavar dinheiro com rebanhos e fazendas é "facílimo". Oliveira é uma das maiores autoridades do país no combate à lavagem de dinheiro. Atua em Campo Grande e explica que em regiões com vocação pecuária é comum falsificarem a documentação das propriedades e inventarem gado  e plantações onde não existe nada. O nome é bonitinho: "vaca de papel". Também existe a "soja de papel". O fazendeiro declara que tem tantas cabeças de gado, faz a inscrição no órgão competente, compra um talonário de notas fiscais, simula a venda, paga o imposto relativo ao faturamento, e está lavadinho o dinheiro.
Faltou dizer que usar fazendas para lavar dinheiro é especialmente convidativo por uma questão fiscal. O setor agropecuário paga menos imposto que o industrial ou o setor de serviços. Só 20% da receita originária de atividades rurais está sujeita ao pagamento de imposto de renda. Segundo um tributarista ouvido na mesma reportagem do Estadão, "há casos em que toda a transação é fictícia, com documentos obtidos a partir de furtos, falsificação ou da conivência de frigoríficos".

Não se trata de criminalizar a agropecuária. Um país deste tamanho precisa produzir alimentos para seu próprio povo e para exportação. Pode e deve fazer isso buscando a alta produtividade e respeitando o meio-ambiente, remunerando decentemente tanto os trabalhadores do campo como o empresário que investe, seja fazendeiro pequeno ou grande.

Só que estamos fazendo tudo ao contrário, e cada vez tem mais terra na mão de menos pessoas, e mais terra improdutiva. Os pequenos proprietários são responsáveis pela maior parte da produção e do emprego no campo. Mas dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) informam que, entre 2010 e 2014, seis milhões de hectares foram para as mãos dos grandes proprietários — quase três vezes o estado de Sergipe. O total de grandes propriedades privadas saltou de 238 milhões para 244 milhões de hectares. São  130 mil grandes imóveis rurais,1% do total, concentrando 47,23% de toda a área cadastrada no Incra. Os 3,75 milhões de minifúndios (propriedades mínimas de terra) somados, equivalem a 10,2% da área total registrada.

Um estudo do CNPq / USP, o Atlas da Terra, revela um número impressionante: temos 176 milhões de hectares improdutivos. Um monte de terra que poderia produzir muito, e produz pouquíssimo ou nada. Por quê? Porque para muita gente, basta ter a terra para lavar dinheiro que vêm de outras fontes.

É este o cenário em que o governo pretende liberar a venda de terra para estrangeiros, praticamente sem limites, e diminuir radicalmente os direitos dos trabalhadores do campo. É neste contexto que dá para compreender a escolha para o Ministério da Justiça de Osmar Serraglio, representante dos ruralistas. E que começamos a vislumbrar o que está por trás da Operação Carne Fraca. Uma investigação profunda sobre o que o Brasil rural esconde renderia não uma, mas umas dez Lava-Jatos.
O governo de Michel Temer vem fazendo mudanças radicais nas leis brasileiras. São mudanças que não faziam parte do programa de governo da chapa Dilma-Temer. Tem sido elaboradas às pressas e aprovadas na correria, sempre na base de negociações com os congressistas. Atendem uma elite de super ricos e ninguém mais. Por isso não contam com o apoio da população, que em todas as pesquisas rejeitam as "reformas", apesar de maciças campanhas de marketing do governo e dos formadores de opinião.
Nem governo nem Congresso têm mandato moral, justificativa técnica ou apoio popular para vender o Brasil para estrangeiros, muito menos para atirar os trabalhadores do campo na semi-escravidão.

http://r7.com/0oRU

Publicado em 10/04/2017 às 15:59

Temer libera empréstimos para governos estrangeiros comprarem armas

 Temer libera empréstimos para governos estrangeiros comprarem armas
No governo do PT houve uma grande grita contra os empréstimos concedidos pelo Brasil a Cuba e outros países. Afinal, com tantas demandas sociais não atendidas no Brasil, porque emprestar o dinheiro dos nossos impostos para o estrangeiro? Seria muito melhor investir aqui mesmo, para enfrentar os tantos problemas que o Brasil enfrenta.

Independente de qualquer questão ideológica, o questionamento fazia todo sentido. O Tribunal de Contas da União publicou uma auditoria sobre o assunto em janeiro de 2016. Tratava de empréstimos concedidos pelo BNDES para construção de rodovias, portos e outras obras, entre 2006 e 2014. Os países mais beneficiados foram:
Angola (R$ 14 bilhões)
Venezuela (R$ 11 bilhões)
Argentina (R4 8 bilhões)
República Dominicana (R$ 8 bilhões)
Cuba (R$ 3 bilhões)
O argumento dos governos petistas era que esses empréstimos eram bons para o Brasil, porque serviam para financiar a compra de produtos fabricados aqui, e serviços prestados por empresas brasileiras. Isso é verdade. Também é verdade que esses recursos poderiam ter uso muito melhor. E hoje sabemos que as empresas beneficiadas estavam pagando por fora pelo privilégio - e seus executivos estão delatando tudo na Lava-Jato.

Agora, imagine que Lula tivesse usado o BNDES para financiar a venda de armas para Cuba e Venezuela.

É exatamente o que está fazendo Michel Temer. O BNDES acaba de anunciar a criação de uma nova linha de crédito para países estrangeiros. Para construir obras nesses países? Não, para eles comprarem armas fabricadas no Brasil. Por empresas brasileiras ou não.
O BNDES poderá financiar até 100% do valor total do projeto e conceder empréstimos com prazos longos, de até 25 anos. Segundo a presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos Marques, haverá "flexibilização de mecanismos de garantias " e "equalização maior" das taxas de juros. Ou seja: é empréstimo de pai para filho.
Quanto o Brasil vai emprestar de nosso dinheiro para governos estrangeiros comprarem bombas, canhões, tanques e aviões de guerra? Segundo Maria Silvia, "não temos restrição de orçamento." Uma estimativa inicial é que o Brasil possa atingir R$ 35 bilhões de empréstimos. Incrível, considerando que o próprio governo sempre nos garante que o Brasil está quebrado, que o povo tem que fazer sacrifício, abrir mão de direitos trabalhistas, aposentadoria etc.
Novamente fica claro que o Brasil não está quebrado coisa nenhuma. A realidade é que o governo espreme o povão para proteger alguns setores. Os multimilionários, que pagam menos imposto do que em qualquer país. Os bancos. As grandes empresas.

E nossa "indústria de defesa". Que se fosse tão competitiva, não precisaria usar o dinheiro do Tesouro Nacional para convencer governos estrangeiros a comprar as nossas armas. Mas tem seus fãs no governo, e relação de simbiose com nossas Forças Armadas.

Aliás, que governos estrangeiros o BNDES pretende financiar? Alguns vizinhos, como Paraguai e Argentina. Mas o principal mercado é a mundo árabe, a África e Ásia. Muitos desses países têm democracia duvidosa. Alguns são muito mais autoritários que Cuba e Venezuela, que causaram tanto escândalo na Era Lula. Alguns potenciais "parceiros" querem as armas é para declarar guerra ao seu próprio povo. Em todo lugar existem governantes impopulares, que impõem medidas cruéis à sua população, e lidam com truculência com qualquer oposição.

Para ficar aqui por perto, o Paraguai quer comprar nosso tanques Guarani, fabricados em Minas Gerais por uma empresa italiana. Pra ir à guerra com o Uruguai ou a Argentina? Mais provável que seja pra reprimir a população paraguai, que está cansada dos desmandos de seu governo. Aliás o Brasil, que era importador de gás lacrimogêneo, agora já produz aqui. Podemos vender também.

É verdade que a Indústria Bélica gira muito dinheiro por aqui. Estima-se que seja um negócio de R$ 200 bilhões por ano, ou 3.7% do nosso PIB. Emprega 30 mil pessoas. O principal cliente, claro, é o Estado Brasileiro.  Quanto à exportação, vai crescer com o apoio do BNDES... já temos tradição, a gente já exporta bombas de fragmentação que estão sendo usadas contra a população civil no Iêmen!

É imoral ter lucro com a morte dos outros. É imoral fazer de todos nós, brasileiros, financiadores disso. É imoral aplicar em armas os nossos impostos, com tanto desemprego e miséria no nosso país. Temer tira recursos do Brasil para financiar a guerra em outros países. É mais uma violência de um regime que se esfacela, e que cada vez mais se apóia nas Forças Armadas. Mas agora, a violência não é só contra nós, brasileiros - mas contra inocentes em outros cantos do mundo.

Leia o artigo anterior sobre a Militarização do Regime Temer: como o governo está privilegiando os militares e as Forças Armadas.

http://r7.com/rCum

Publicado em 06/04/2017 às 17:49

O fantasma do Fantasma Da Máquina

 O fantasma do Fantasma Da Máquina

Ghost In the Shell foi o primeiro filme de animação para adultos. Ou pelo menos nos parecia assim quando apareceu, para nós que nos achávamos muito adultos, discutindo assuntos de adultos. Talvez Ghost In The Shell tenha sido mesmo é o primeiro anime que rendeu animadas discussões filosóficas em mesas de bar. Até o título rendia: Ghost? Mas é um fantasma ou é uma alma? Virtual ou real, simulacro ou consciência? Do que exatamente esse desenho está falando?
Responsabilidade de Masamune Shirow, que fez um mangá diferente do que existia na épóca, apelativo mas ambíguo, inspirado por Arthur Koestler, Blade Runner e Neuromancer. Do diretor do desenho, Mamoru Oshii, fã de cinema europeu e de Tarkovski, que imprimiu um ritmo deliberadamente pausado, antinatural, ao que poderia ter sido só uma maçaroca de cenas de tiroteio e porrada. De Kenji Kawai, que compôs a trilha sonora espectral, coro e tambores Kodo, inesquecível.
E responsabilidade nossa, que finalmente estávamos preparados para Ghost In The Shell. Para um desenho animado que nos tratasse como o que éramos, adultos. Mas adultos que conviviam harmoniosamente com nossa infância e adolescência. Famintos por um banquete que exigisse mais do nosso paladar, com sabores mais sutis, desafiadores. Mas um banquete, que nos fartasse.
Então Ghost In The Shell, entre hipnótico e monótono, a maior obra audiovisual do cyberpunk. Cyberpunk que era o mundo das idéias de então: a chegada da revolução digital às ruas e às nossas almas, ao business e à guerra, além das fronteiras, para o bem e para o mal.
Como chamávamos então, pela sigla: GITS. Balas voando e Baudrillard, Philip K. Dick e Mecha, política, pop e espiritualidade. A presciência do século 21, do impacto que a nascente internet teria, a intuição das discussões de gênero e identidade e classe e geopolítica que viriam. E Major, uma protagonista feminina capaz, complicada, fria e quente, quente como só um cérebro humano em um corpo artifical poderia ser.
Depois vieram continuações e videogames e merchandising e cópias descaradas e homenagens honestas e Matrix. Que os irmãos Wachowski venderam para o produtor Joel Silver mostrando Ghost In The Shell e garantindo: "vamos fazer isso aqui só que com atores de verdade". E Major se tornou a inspiração de mil heroínas e um milhão de cosplays. E veio este filme. Este anacronismo fidelíssimo ao espírito do original. Até na frieza, até na aparente superficialidade, e absurdamente no impacto visual. Apesar do peso do blockbuster que tenta canhestramente ser, do roteiro pipocando de familiares frases de efeito.
É um documento de outra era, filtrado via Imax e 3D para uma massa de jovens que não viveu os anos 80 / 90. Cyberpunk hoje é a paisagem onde vivemos, invisível para a audiência do Século 21.
Uma alegria assistir o novo filme naquele cinemão, com meu filho fã de anime. Vaga sensação de perda horas depois, como de um membro que não está mais lá. Lembrando da minha primeira sessão de Ghost In The Shell naquela TV pequena, naquele apartamento pequeno, naquele VHS que até hoje está em algum lugar da minha casa, fantasma que estará sempre comigo.

http://r7.com/xEkK

Publicado em 31/03/2017 às 14:23

A militarização do regime Temer

Marcelo Camargo ABr Michel Temer 1024x592 A militarização do regime Temer
O VBTP-MR Guarani é um veículo blindado anfíbio de combate, reconhecimento e transporte. Seu design modular permite a incorporação de diferentes sensores, sistemas de comunicação e armas, inclusive um canhão de 105 mm e morteiros pesados. Parece um tanque, mas não é. É mais leve e usa pneus.
O Guarani foi desenvolvido pela Iveco, uma divisão da Fiat. É produzido em Sete Lagoas, Minas Gerais. O contrato para produção do Guarani foi assinado em 2009. Prevê a produção de 2044 unidades em um período de vinte anos. Até hoje foram encomendadas 1798 unidades. Destas encomendas, 1580 aconteceram no governo de Michel Temer.
O primeiro protótipo do Guarani foi apresentado pela primeira vez em 2011. Justamente para Michel Temer, então presidente em exercício, na Latin America Aero & Defence (LAAD), maior feira militar da América Latina.
Em 2012, foi a vez de Temer elogiar os drones desenvolvidos pela empresa israelense Elbit. É a maior empresa privada da área militar de Israel. O então vice-presidente disse que os drones produziam “um resultado extraordinário” no controle das fronteiras brasileiras. Logo, em 2013, na época da Copa das Confederações, a Elbit recebeu R$ 102,6 milhões do governo. Drones foram usados a partir dessa época para monitorar manifestações de rua.
Em 2014 a Elbit anunciou o fornecimento de uma nova linha de drones para a FAB, o Hermes 900, que tem autonomia de vôo de 36 horas e alcança raio de 300 quilômetros em relação à sua base no solo.
Segundo o site Intercept, a subsidiária brasileira da Elbit até hoje já recebeu R$ 456 milhões das Forças Armadas do Brasil. Agora vai além. Neste dia 5 de março, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) aprovou a venda dos negócios de comunicação militar da Mectron Engenharia para a Elbit. A Mectron é a empresa da área de defesa da Odebrecht, que está na maior crise de sua história graças ao seu envolvimento com corrupção e às investigações da Lava-Jato.
A Elbit vende bem no Brasil, mas não consegue vender para diversos outros países, como França, Noruega e Suécia. Desde 2008 a Elbit é vinculada a “crimes de guerra e crimes contra a humanidade”, segundo a ONU. A empresa foi condenada por dezenas de organizações ligadas aos direitos humanos. Um dos principais casos foi em 2008, quando ataques usando drones Hermes 450 levaram à morte de centenas de civis no território Palestino.
Com a compra da Mectron, a Elbit herdará todos os contratos assinados pela Odebrecht com as nossas Forças Armadas. Só um, de sistemas de comunicação entre caças e torres de comando, é de R$ 193 milhões.
Esses são só dois casos, pra não ficar listando projetos das três Forças, submarinos convencionais e nucleares, caças, bases navais e companhia. Em 2016, o Brasil gastou US$ 24.6 bilhões com nossas Forças Armadas. Representa 1,4% do PIB. São quase 320 mil militares, o décimo-sexto maior exército do mundo. Faz do Brasil o décimo primeiro país com maiores gastos militares do planeta. A previsão é de que, somados os restos a pagar de 2016, o Orçamento dos militares cresça 36% em 2017.
Considerando que o Brasil nunca foi invadido por ninguém, tem boas relações com o planeta todo, e excelentes relações com o restante da América Latina, a pergunta é: para quê? Para proteger nossas fronteiras? Missão impossível. São quase 17 mil quilômetros de fronteiras com dez países, a oeste, e mais de 7 mil quilômetros de litoral. Os EUA, com tanto esforço e investimento, não conseguem fechar nem sua pequena fronteira com o México.
Nossas fronteiras são abertas. Tanto que o Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, e maior distribuidor de cocaína para a Europa. E tanto que no Brasil viceja o contrabando, inclusive de armas.
Outros fatos: os Guaranis não são veículos apropriados para combate na selva amazônica, naturalmente. Nem são os drones da Elbit a melhor maneira de guardar nossas fronteiras, seja no sertão ou no litoral.
O que vemos de ação militar em 2017 é o uso de tropas em situações extremas como a greve da PM no Espírito Santo; no Rio, Amazonas, Rio Grande do Norte. O que vemos é monitoramento de manifestações.
O que vemos é o aumento dos gastos militares num momento em que se reduz, ou se propõe reduzir, gastos fundamentais com saúde, educação, aposentadorias. Quando o desemprego bate recordes sucessivos, sem alívio à vista.
Temer acenou às Forças Armadas desde sua posse; fez do lema positivista "Ordem e Progresso", caro aos militares e à ditadura militar, o slogan de sua administração. Quando ainda era interino, em julho e agosto de 2016, sancionou reajustes para as Forças Armadas. Foi o único setor que teve reajustes, fora o Banco Central e o Judiciário. Só essa medida teve impacto de R$ 50 bilhões nas contas públicas. Temer não incluiu os militares da sua proposta de reforma da Previdência. As novas regras para aposentadoria dessa categoria vai ficar para algum dia no futuro, se vierem novas regras. A legislação para as Forças Armadas pode valer, em cascata, para a Polícia Militar e os Bombeiros em todos os Estados.
Temer não tem força em nenhum setor da sociedade brasileira, salvo talvez o 0,001% de milionários que aceitam sua presidência tampando o nariz, ávidos por "reformas" que aumentem suas fortunas. Segundo a pesquisa mais recente, 90% da população rejeitam seu governo. E isso, com toda a propaganda a favor, paga ou disfarçada. Sem isso, sua aprovação seria ainda mais ínfima. Sua aposta para angariar a simpatia dos militares é transparente.
Parece exagerado gastar tanto com as Forças Armadas, no meio dessa crise enorme? É ainda mais espantoso saber que Temer vai usar recursos públicos para financiar governos estrangeiros.
Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, afirmou que o governo vai passar a financiar a venda de armas para o exterior. O plano, segundo Jungmann, é que o BNDES crie uma linha de empréstimos "governo a governo. A linha financiaria o país que compra o produto."
Um caso concreto citado por Jungmann é o do Paraguai, que tem interesse em comprar caças Super Tucano, produzidos pela Embraer. O BNDES emprestaria dinheiro para o governo paraguaio comprar os caças. Como garantia, o secretário de produtos da Defesa, Flávio Basílio, diz que o Paraguai poderia oferecer "Itaipu".
O Ministério da Defesa de Temer vai mais longe: quer determinar estratégias econômicas para o Brasil. Segundo o Valor, o Ministério vai criar uma política nacional que centralizaria as negociações e compensações comerciais em torno de transferência de tecnologia, tanto de fora do Brasil para dentro, como daqui para fora.
O próprio Jungmann diz: "nós queremos que as compensações sejam orientadas para os projetos estratégicos das Forças.... terá que ser voltado para o que nós considerarmos a prioridade. O Ministério da Defesa vai definir isso, ouvindo a base industrial de Defesa e as Forças Armadas".
Essa política deve envolver outras áreas, segundo a mesma reportagem. Por exemplo, quando o Brasil discutir compensações na área agrícola, deve integrar nessa discussão o comércio de armamentos produzidos aqui. Esta mudança colocará as Forças Armadas no centro decisório do comércio internacional do Brasil.
O Brasil poupa os militares da reforma da Previdência. Aumenta seus salários. Mantém 320 mil militares empregados, sem guerra a lutar, num país com 13,5 milhões de desempregados. Investe mais e mais em armas que não tem função, quando falta remédio no hospital e merenda na escola. Vai financiar governos estrangeiros para que comprem armas fabricadas no Brasil. E pretende subordinar as negociações comerciais do país às prioridades das Forças Armadas.
É a militarização do governo Temer. Que já não podemos chamar de governo. E já devemos chamar de regime.

http://r7.com/v0ot

Publicado em 27/03/2017 às 16:01

Por que o Brasil precisa do jornalismo do SBT, RedeTV e RecordTV

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William Bonner não é Boechat, que não é Boris Casoy, que não é Carlos Nascimento ou Paulo Henrique Amorim. Mariana Godoy não é Fernando Mitre nem Kennedy Alencar. Marcelo Resende não é Datena, Silvio Luiz não é Ivan Moré ou Neto, Fernanda Gentil não é Mylena Ciribelli.
Por trás dos nomes conhecidos, uma realidade: o jornalismo praticado pelas emissoras brasileiras de TV não é homogêneo, nem monolítico. Canais diferentes têm diferentes equipes, pontos de vista, abordagens, ênfases. Mesmo em temas em que as coberturas parecem se igualar - por exemplo, em uma tragédia como a do Chapecoense - há diferenças sutis. Talvez invisíveis aos olhos do espectador distraído, mas claras para os profissionais. Faça a experiência. Pegue uma noite e assista os principais programas jornalísticos das diferentes emissoras. Vai ter muita coisa igual. Mas vai ter muita coisa diferente também.
Diversidade é riqueza. Quanto mais pontos de vista jornalísticos sobre o mesmo tema, mais chance do espectador sair bem informado. Quando mais debate, mais vozes dissonantes, mais conhecimento.
Só por isso, o cidadão comum de 2017 é muito melhor informado que seus pais. Cresci nos anos 70 em Piracicaba, no interior do estado de São Paulo. Chegavam lá cinco canais de televisão, Globo, Tupi, Record, Bandeirantes e Cultura. Cada uma tinha meia hora de jornalismo na hora do almoço e mais meia hora à noite e só. Meu pai assinava um jornal da cidade, a Folha de S. Paulo e a revista Manchete. E era isso que eu tinha para me inspirar a virar jornalista, imagine só.
Hoje é essa riqueza digital infinita, todo mundo produzindo conteúdo na internet, e esse cardápio de opções só vai aumentar. Ótimo. Mas a maioria dos brasileiros segue recebendo a maior parte das notícias pela TV. Temos 70 milhões de compatriotas ainda fora da internet. Os grandes furos continuam sendo dados por grandes repórteres, seja na TV, em jornais ou revistas. A diversidade na apuração, produção e apresentação das reportagens, na opinião dos colunistas, na seleção das pautas, no próprio horário dos programas - tudo contribui para uma experiência mais rica do espectador, e uma formação melhor do cidadão.
As tevês abertas são concessões públicas. É obrigação delas servir o público, e não só fornecer entretenimento para as massas. É o que os americanos chamam de "Public Trust". Vamos concordar que lá, como aqui, as emissoras sempre têm espaço para fazer melhor nessa área. Vamos também concordar que é melhor um país com um jornalismo imperfeito do que um país sem jornalismo. E que um país com variedade no jornalismo é melhor que um país com um monopólio, seja privado ou estatal.
É antiga a discussão sobre as operadoras de TV por assinatura remunerarem decentemente as emissoras que lhes fornecem conteúdo. Esquentou agora, com a disputa entre as operadoras Net, Claro, Oi, Sky, Embratel e e Vivo, e as emissoras RecordTV, SBT e RedeTV. Os canais querem que as operadoras paguem para transmitir seus sinais digitais. Parece justo. Afinal, as operadoras cobram um bom dinheiro do assinante. Mas as operadoras argumentam que a crise está feia e querem o conteúdo de graça. Mesmo que já paguem um dinheiro bom para outras emissoras, tanto nacionais como estrangeiras. Ameaçam cortar o sinal desses canais, e já começaram pelo Distrito Federal.
Sou parte interessada. Trabalho no R7, unidade digital da RecordTV. Atuo em novos negócios, inteligência de mercado, ali na intersecção entre conteúdo e comercial. A polêmica me toca, nos toca de perto. Mas eu já era parte interessada dessa história muito antes de trabalhar aqui. Porque antes de tudo isso eu era jornalista, e continuo pensando como jornalista.
Uma sociedade existe a partir da mediação entre diferentes forças. Da busca por uma distribuição justa de direitos e deveres. Da construção cotidiana de uma relação equânime entre o cidadão, o Capital, o Estado. É impossível criar uma sociedade minimamente justa sem o acesso amplo à informação. Que precisa ter o máximo de independência e pluralidade.
Como jornalista, acredito que o jornalismo tem uma função primordial e sei muito bem que ele precisa de investimentos para existir. Entendo as críticas de muitos à nossa imprensa, e não vamos fingir que ela não tem defeitos. Mas "a mídia" não é o inimigo. Isso é um generalização boba e perigosa. Nosso jornalismo tem muito a melhorar, dentro e fora da TV. Precisa ser visto com olhar crítico, sempre. Mas antes de mais nada, precisa chegar às casas brasileiras.
A questão não é meramente comercial. Não se resume a uma disputa de negócios. Juntas, RecordTV, SBT e RedeTV transmitem 56,4% de todo o jornalismo na TV aberta. São quase 30 horas diárias de programação jornalística. A postura das operadoras limita o acesso do cidadão a esta programação. Não é assim que o jornalismo brasileiro vai se tornar o jornalismo forte, crítico e plural de que o país tanto precisa.

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Publicado em 22/03/2017 às 17:41

Porque eu adoro os Power Rangers (e uma boa notícia pra você que também adora!)

mighty morphin power rangers cast wallpaper 1 Porque eu adoro os Power Rangers (e uma boa notícia pra você que também adora!)

Eles estão de volta! E junto vem uma surpresa e tanto para os fãs brasileiros...

Demorou 22 anos para eu entender porque gosto tanto dos Power Rangers. Foi anteontem. Eu já tinha duas boas razões para ser fã do time de super-heróis, uma interesseira, outra afetiva. Mas agora a coisa clicou.
A razão muito prática porque eu comecei a curtir os Power Rangers foi financeira. Quando a gente começou a revista Herói, lá em dezembro de 1994, sabíamos que os Power Rangers eram um grande sucesso nos EUA e estava para estrear nas manhãs da Globo. A Herói era uma revista de jornalismo para moleque, cobria desenho animado, gibi, videogame, filmes recheados de efeitos especiais, nostalgia e tudo que desse na nossa telha. Foi o maior fenômeno editorial de 1995 e seguiu firme e forte até 2003, quando a molecada trocou as revistas pela internet. De vez em quando a Herói dá as caras em edições especiais e tal (mais sobre isso daqui a pouco).
Então vira e mexe a Herói dava capas sobre os Power Rangers, e sempre vendeu bem. Só perdia para Cavaleiros do Zodíaco (também aí era covardia). E por isso eu assisti bastante daquela primeira fase. E curti de verdade, além de curtir o dindin entrando no bolso. Cresci com Ultraman e os Vingadores do Espaço. Robô gigante lutando com monstro usando roupa de borracha é comigo mesmo.
Curtia também o descaramento dos produtores, que simplesmente compravam as séries japonesas e editavam toscamente com cenas rodadas com atores americanos. A diferença das imagens era gritante, mas a molecada nem aí. Estavam apaixonados pelas naves em formato de dinossauro, os Zords, que se juntavam para formar o MegaZord, o SuperMegazord e o Ultramegatroglozord (inventei esse).
Quando tive meu próprio moleque apresentei os Power Rangers para ele, e logo Tomás também estava viciadinho da silva. Todo dia, dez horas da noite, era seção Power Rangers no canal Jetix. Ele tinha uns quatro, cinco anos. Assistimos juntos Dino Trovão, Ninja Storm, Wild Force e SPD (uma vez o garoto não parava de chorar em um aeroporto, entediado e faminto, e subornei ele com um Ranger Sombra). Fiquei chateado quando mudaram o horário, e mais ainda quando o menino cresceu e começou a se interessar por outras coisas. Bem, seguimos assistindo outras coisas juntos.
Então tenho essa memória terna de ficar jogado no sofá com meu filho, curtindo monstros malucos e kung fu pastelão. Outro dia trombamos Power Rangers na TV e de repente estávamos assistindo o episódio inteiro. Explicação do adolescente: "pai, Power Rangers é nostalgia total."
Agora o garoto está quase do meu tamanho, mas obviamente vamos juntos assistir o filme dos Power Rangers no cinema. Não íamos perder uma dessa de jeito nenhum. E foi planejando nosso cineminha que finalmente, depois de 22 anos, caiu a ficha: eu adoro os Power Rangers porque eles me lembram o... Batman.
O Batman da minha infância, da abilolada série dos anos 60. Que era engraçado, esperto, rápido, pop. E era uma coisa que podia ser curtida em dois níveis completamente diferentes. Como aventura emocionante pela criançada. E como uma gozação com os chavões do gênero pelos adultos. Tudo junto, misturado, liquidificado, turbinado.
E os Power Rangers são exatamente assim. E pra celebrar essa baita superprodução no cinema, está de volta a... HERÓI! E como sempre dissemos que ela era uma revista mutante, agora a mutação é uma edição de colecionador. Um livro, mas com energia e pegada da revista: 68 páginas coloridésimas com todas as equipes de Power Rangers de todos os tempos, dos Mighty Morphin ao novo filme.
É o primeiro volume de nossa nova coleção de bookzines. Mas como a Herói sempre foi meio japonesa, fomos buscar no Japão o nome que eles dão para esse formato misto, meio revista, meio livro. Eles chamam de "Mook" (Magazine + Book). Começamos bem, pelo jeito - foi postar a capa no Facebook e já ganhamos um like de Billy Yost, o Ranger azul original!
Então aí está, e você pode comprar já pela internet, ou daqui duas semanas nas bancas. Recomendo que você compre já pela internet... porque vem com um bônus exclusivésimo. Um fac-simile da Herói número 10, de 1995, a primeira que teve capa dos Power Rangers!
HERÓI MOOK: A SAGA DOS POWER RANGERS. Porque a Herói é imortal! E porque eu adoro os Power Rangers - e finalmente sei o porquê. Go! Go!

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Vai ter marmanjo lacrimejando quando pegar essas belezinhas nas mãos...

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Publicado em 10/03/2017 às 16:55

A “reforma” da Previdência é ineficiente, imoral e inútil

07 06 previdencia quebrada14788850071 1024x682 A reforma da Previdência é ineficiente, imoral e inútil
O governo diz que o déficit da Previdência este ano será R$ 149,7 bilhões de reais. É mentira. É uma ficção contábil que tem dois objetivos: garantir aos bancos e especuladores o pagamento dos juros mais altos do planeta, e privatizar a previdência no Brasil. Não tem nada a ver com viabilizar a aposentadoria dos brasileiros no futuro. Nem com “fechar as contas”. Não se trata de ser a favor ou contra Temer, não tem nada a ver com Dilma, não é questão partidária. É questão de matemática. De justiça. E de levarmos a sério o futuro do país.
Primeiro: não há porque a Previdência “fechar as contas”. É como dizer "a conta da escola pública não fecha". Ou "a conta de aplicar vacina em bebês não fecha". Não é para fechar, muito menos para “dar lucro”. A vida das pessoas não é um negócio. Aposentadoria não é um custo. É um reinvestimento do imposto na própria sociedade que pagou o imposto. Investimento no bem-estar dos brasileiros, que deve ser prioritário, acima de qualquer outro. Com impacto direto na saúde, na educação, na segurança.
Segundo: a "reforma" é ineficiente. Se o governo quiser de fato botar as contas do país no azul, precisa é pagar menos juros e aumentar a arrecadação. O Brasil pagará mais de R$ 500 bilhões de juros esse ano! Derrubar os juros deveria ser a prioridade zero deste e qualquer outro governo, mas sempre encontram uma razão para que eles continuem nas alturas. Quem sabe é porque nossos governos sempre terceirizam a administração da economia para funcionários dos bancos, Meirelles, Ilan, Levy etc. Afinal, são os próprios bancos os maiores credores do governo, e são os bancos que ficarão com a maior parte desses R$ 500 bilhões.
Quanto a aumentar a arrecadação, ajudaria bem acabar com tanta desoneração e tanta sonegação, inclusive os sonegadores da previdência. Ajudaria cobrar o que as empresas devem para o governo. E aproximar dos padrões internacionais o imposto de renda e o imposto de herança, e, como se faz em todo o mundo, taxar os dividendos que as empresas pagam a seus acionistas. Nossa elite é a menos taxada do planeta.
Terceiro: o brasileiro normal, os 99% de nós que pouco apitamos, paga imposto pra caramba. Quanto mais pobre, mais paga, proporcionalmente, porque tudo que a gente compra embute imposto, do feijão ao remédio à eletricidade, todos os produtos e todos os serviços. Essa grana deveria ser reinvestida na própria população, e não em pagar juros e outras tantas bandalheiras. É imoral Meirelles e companhia dizer que não há dinheiro pra nossos velhos, quando existe dinheiro para construir estádios bilionários (que hoje estão apodrecendo), enriquecer empreiteiros corruptores e toda aquela lista de sujeiras que estamos cansados de saber.
Quarto: se aprovada essa lei, todo mundo que tiver o mínimo de condição vai para a previdência privada. O que o governo vai exigir pra gente se aposentar vai ser muito difícil de cumprir, e em troco de uma porcaria de dinheiro na velhice. A economista Denise Gentil, da URFJ, levantou um número impressionante: entre janeiro e outubro de 2016, os bancos venderam 21% a mais de planos nos fundos privados. Isso só por causa da perspectiva de aprovação dessa nova lei. Aprovada, vai gerar um lucro gigante para os bancos.
Finalmente, é inútil qualquer mudança na Previdência que não leve em consideração as projeções para o mercado de trabalho nas próximas décadas. Essa proposta do governo vai na exata direção contrária do que há de mais moderno em termos de política social: a Renda Mínima. Ou, como se fala em inglês, Universal Basic Income, UBI. Trata-se de simplificar a burocracia e dar dinheiro diretamente para os cidadãos. Em vez de um monte de programas para combater a pobreza, um chequinho todo mês.
É a discussão do momento nos círculos mais informados, da direita, da esquerda, do libertário Vale do Silício à vanguarda futurista-socialista da Europa. Está sendo testada, de diversas maneiras, em diversos lugares do mundo. Em vez do governo pegar o imposto que o povo paga, e emprestar a juro amigo para os empresários "gerarem emprego", a Renda Mínima ataca o problema direto na veia. Do berço ao túmulo. Uma graninha garantida que garante sua sobrevivência, e não muito mais que isso. Quer algum luxo, tem que trabalhar.
A Terra vai ganhar dois bilhões de pessoas nas próximas três décadas. Com a tecnologia destruindo empregos no ritmo atual, há quem diga que metade –metade! – dos empregos que existem hoje não existirão em 2050. Simplesmente não vai ter gente suficiente na força de trabalho para bancar os aposentados.
Isso não precisa ser um problema, e precisa ser uma solução. Se computadores e máquinas fazem o trabalho, melhor pra gente – SE, e esse se é a chave, esse ganho de produtividade for dividido de maneira equânime entre todos nós, e não concentrado nos bolsos dos donos do capital. Eles não vão abrir mão de lucros cada vez maiores, claro. Se dependesse dos donos do dinheiro e do poder, não teria sido nem abolida a escravidão, muito menos existiria voto, salário mínimo etc. e tal.
É utopia? Bem, o Brasil vai pagar esse ano mais de R$ 500 bilhões em juros. Se em vez disso, a gente pegasse essa grana e dividisse igualmente por 205 milhões de brasileiros, cada um levaria R$ 2440 por ano, uns duzentos reais por mês. Parece pouco? É mais que o Bolsa Família, que comprovadamente tirou milhões de pessoas da miséria.
Vamos olhar de outra maneira. O salário médio do brasileiro é menos de dois mil reais. O salário mínimo é R$ 937. E de cada três aposentados, dois ganham isso, o mínimo, R$ 937. Então o impacto de um programa de Renda Mínima como esse seria gigantesco. E seria para todos os brasileiros, inclusive crianças. Em uma família de quatro pessoas, somaria quase dez mil reais por ano!
Estamos muito longe de tomarmos para nós os recursos públicos, que são nossos por direito? O sábio lá dizia que toda jornada começa com um primeiro passo. “Direito” não é uma coisa que possa ser dada. Direito é sempre conquistado, tomado, arrancado na marra. E é seu enquanto você conseguir defende-lo. Os brasileiros têm pouquíssimos direitos, e o governo de Michel Temer quer tirar esse pouco que temos. Resistir e derrotar a proposta de Temer é só o primeiro passo. Avançar para um novo modelo, de Renda Mínima, é o passo seguinte e necessário.
(Saiba mais sobre os programas internacionais de Renda Básica Universal neste bom artigo da BBC. E para se manter atualizado sobre o assunto, o melhor site, em inglês, é www.basicincome.org).

http://r7.com/00dm

Publicado em 22/02/2017 às 17:47

A liberação do FGTS é um presente bilionário para os bancos

FGTS 1 1024x629 A liberação do FGTS é um presente bilionário para os bancos
A partir de março, 33 milhões de brasileiros vão botar a mão em R$ 43,6 bilhões, com a liberação das contas inativas do FGTS. É um presente bilionário do governo para os bancos. E é só uma faceta de uma conspiração grande e poderosa - contra você.
Quem chamou atenção para o destino desse dinheiro foi o Roberto Melo, em um texto que escreveu para seu blog Isso Não Me Comove. Beto não cai em esparrela. Jornalista das antigas e amigo idem, cravou: "criaram um aqueduto direto entre o fundo de garantia dos trabalhadores e as burras dos bancos. Disfarçaram isso de socorro aos trabalhadores... contando com o habitual auxílio do governo e a sempre solerte colaboração da mídia, vieram com essa: vamos "liberar" o fundo de garantia para o trabalhador usar "como quiser". Ou seja, em vez de usar em caso de demissão ou para comprar sua casa própria, ele pode usar esse dinheiro para... entregar aos bancos!"
Como?
É isso mesmo. Os números comprovam. São todos públicos. Basta procurar. E ligar os pontos.
Primeiro, a pesquisa do Google Consumer Research. Ouviram 1344 pessoas. Perguntaram no que elas vão usar o dinheiro que vão tirar do seu FGTS:
- 42% vão pagar dívidas
- 10% vão quitar algum financiamento
- 20% vão investir
- 10% para pagar estudos
- 13% para fazer compras
Ou seja, mais da metade vai usar para pagar dívida. Só 13% desse dinheiro vai para o consumo. Como a maioria das contas têm pouco dinheiro - abaixo de R$ 3 mil - a projeção é que muito desse dinheiro irá para compras pequenas, supermercado etc. Será um pequeno e temporário alívio para o varejo. As vendas do varejo no Brasil caíram 6,2% em 2016 com relação a 2015, sendo que em 2015, já tinha caído 4,3% com relação a 2014. Recessão brava, sem alívio à vista.
A pesquisa do Google tem outro dado interessante: 53% pretendem usar o saldo assim que ele estiver disponível. Não vai dar nem tempo da grana esquentar no seu bolso. Pingou na conta, já vai pra pagar dívida, limpar o nome, pra poder fazer novas dívidas. Ou, se você estiver entre os 20% que pretendem investir, pra poupança. Seja como for, o destino final dessa grana é nos bancos.
Segundo, qual o tipo de dívida mais comum? Cartão de crédito. Em São Paulo, representava 71,4% das dívidas dos consumidores, em janeiro de 2017, segundo a Federação de Comércio do Estado de São Paulo. Depois vem financiamento de carro, carnês, crédito pessoal, financiamento de casa, cheque especial e crédito consignado.
Ou seja: estamos falando de juros. O brasileiro que não tem dinheiro e precisa de crédito vive e morre pagando juros. Os juros mais altos do planeta. Que comem uma parcela altíssima da nossa renda. E mais alta ainda, proporcionalmente, quanto menor a renda do cidadão. Quem compra à vista paga juro embutido. Quem compra em muitas prestações acaba pagando três, quatro vezes por sua geladeira, seu celular, a conta do supermercado. Quem fica devendo muitas vezes não sai nunca mais. Temos os juros de cartão de crédito mais insanamente altos do planeta. Em 2016, chegou a 459% ao ano.
O pobre brasileiro paga mais juros que o rico. Como paga mais impostos que o rico. Uma pesquisa de setembro de 2016 afirmava que do total das famílias brasileiras, 21% têm mais da metade (!) de sua renda comprometida com o pagamento de dívidas. Quem? Justamente os brasileiros mais pobres. O que sobra não dá pra nada, claro.
O número final, mais doloroso. Segundo o próprio governo, 87% das contas inativas têm dinheiro abaixo de um salário mínimo, R$ 880,00. É essa gente pobre que vai usar seu FGTS para pagar dívidas.
Falando em juros, não são só as pessoas físicas que sofrem com eles. As empresas também, principalmente as micro, pequenas e médias, que não têm acesso aos ricos cofres dos governos, como essas construtoras todas da Lava-Jato. Não é por outra razão que 2016 teve recorde de pedidos de recuperações judiciais.
E depois que tirarmos o dinheiro do FGTS para dar para os bancos, o que o futuro nos aguarda? As empresas não estão contratando. Os Estados estão cortando salários e aposentadorias do funcionalismo. As privatizações que vêm por aí exigirão demissões, para "sanear" as estatais antes delas serem vendidas. As reformas previdenciária e trabalhista que o governo Temer pretende aprovar em 2017 tirarão direitos, e bilhões de reais dos bolsos do trabalhador, na ativa ou aposentado.
Mais demissões virão. E depois mais demissões ainda. Sem falar na PEC do Teto dos Gastos, aprovada em dezembro, que vai cortar na carne e osso os gastos públicos. O enviado especial da ONU para Pobreza Extrema e Direitos Humanos, Philip Alston disse o seguinte sobre a PEC do Teto: "Vai atingir com mais impacto os brasileiros mais pobres e vulneráveis, aumentando os níveis de desigualdade em uma sociedade já muito desigual".
Por quê o Brasil tem juros tão altos? Para remumerar magnificamente quem tem muito dinheiro para aplicar. É por manter os juros nas alturas, e por nenhuma outra razão, que o governo de Michel Temer mantém o apoio da nossa elite. A recessão grassa? A corrupção continua? As manobras para abafar a Lava-Jato estão na cara? Quem se importa, se meus investimentos continuam bombando?
Isso é no Brasil. Mas o Brasil faz parte do mundo. E no mundo tem três coisas importantes acontecendo. As mudanças climáticas causarão cada vez mais megadesastres, megaimigrações, megaproblemas. A automação e tecnologia causarão cada vez mais destruição nos mercados de trabalho. E as populações dos países crescerão cada vez mais. A Terra hoje tem 7,3 bilhões de pessoas. Segundo a ONU, chegará a 9,7 bilhões em 2050. Preste atenção: em português claro, nos próximos 33 anos o planeta vai ganhar mais duas Chinas. E em 2100, que está mais longe, a previsão é que chegaremos a 11,2 bilhões de pessoas.
Esses três vetores - Clima, Automação e População - exigem inovação, sensibilidade, organização social, coragem política. Mas as elites planetárias reagem a este desafio inédito de duas maneiras. Os conservadores, com medo, enfiando a cabeça no chão como avestruzes: vamos levantar o muro do condomínio e da América, vamos nos proteger dos miseráveis que querem o que é nosso. Os liberais, com marketing, garantindo que os mercados e a tecnologia tudo resolverão, basta seguirmos no business as usual.
Conservadores e liberais, no final do dia, trabalham de olho no curto prazo. O dia de hoje, o lucro do próximo trimestre, a eleição do ano que vem. Porque trabalham para o grande Capital, Wall Street, a City, o sistema financeiro internacional. No Brasil, Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa, bancos de investimento etc. Parece simplista, mas não é não. É só simples. Quando o mundo parecer complicado, pergunte: quem se beneficia? E siga o dinheiro.
E assim voltamos ao FGTS. A preocupação número um de quem tem muito dinheiro é que ele esteja protegido e crescendo. A recessão dos últimos anos, e o impacto da Lava-Jato, gerou muita inadimplência nas empresas e nos consumidores, que não conseguiram mais pagar suas dívidas bancárias. Donde que muitos bancos médios estão bem mal. E os dois maiores privados, Itaú e Bradesco, tiveram bons lucros nos últimos anos, mas abaixo do patamar habitual.
Liberando o FGTS, o governo Temer injetará bilhões e bilhões de reais nos caixas dos bancos. Essa grana vai passar rapidamente pelo bolso do brasileiro pobre, mas depois irá para os bolsos dos banqueiros (e investidores super ricos em geral, o que inclui muitos dos nossos governantes). Não custa lembrar que Ilan Goldfajn, atual presidente do Banco Central, foi trazido para o governo diretamente do Itaú, onde era Economista-Chefe.
Vivemos no capitalismo e precisamos de bancos sólidos. É exatamente o contrário do que temos. Nas últimas décadas, começando com a desregulamentação da era Reagan-Thatcher, os bancos deixaram de ter como objetivo emprestar dinheiro para atividades produtivas. Virou tudo um cassino, com lances cada vez maiores e mais arriscados. Castelos de cartas, que desabam ciclicamente. Quando a casa cai, o custo do resgate é sempre pago por dinheiro público, o que exige novas rodadas de aperto no povão, que é quem paga a conta.
Por trás de uma operação tão trivial quanto liberar as contas inativas do FGTS está um novo lance de um jogo bem maior. É mais uma espoliação do trabalho dos mais pobres, em benefício do capitalismo financeiro improdutivo, irresponsável, imoral. É um golpe - mais um.

http://r7.com/dEUa

Publicado em 13/02/2017 às 15:35

Avaliação de Doria tem maioria de “péssimo”,”ruim” e “regular”

O prefeito de São Paulo começou mal. Com um mês de mandato, a maioria dos paulistanos não vê de maneira positiva a gestão Doria. É o que diz a nova pesquisa Datafolha.

 Avaliação de Doria tem maioria de péssimo,ruim e regular

João Doria versão gari (Foto: Brazil Photo Press/Folhapress)

Segundo o levantamento, para 13% dos os paulistanos, a gestão é ruim ou péssima e para 33% é regular. É um total de 46%. Outros 44% dizem que é boa ou que é ótima. Dez por cento não opinaram.

Entre os mais pobres, com renda familiar até dois salários mínimos, Doria tem reprovação maior. Só 35 dos paulistanos mais pobres aprovam o prefeito. Já entre a elite, quem ganha mais de dez salários mínimos, Dória tem aprovação de 66%.

Todas essas informações, e outras, estão em uma matéria da Folha que tem o seguinte título: "Maioria aprova programas de Dória, e só 13% reprovam início da gestão". Ele está correto. O meu também.

A íntegra da matéria da Folha está aqui.

Doria foi eleito em primeiro turno há três meses com 53,29% dos votos válidos. Tem o apoio dos governos estadual e federal e simpatia da imprensa. Está gerando factoides todos os dias, posando de gari, cortando grama, em cadeiras de rodas etc, tudo que for possível para aparecer positivamente na mídia. Vem até sendo citado como forte candidato a governador em 2018. Talvez até algum dia presidente da República!

E mesmo assim tem uma minoria aprovando Dória. Um terço, 33%, dá de ombros, gestão "regular". É uma performance decepcionante. E ainda nem deu tempo de acontecer o desgaste do tempo, das expectativas frustradas, que vai minando toda gestão. O que acontece?

Uma análise possível: a vitória acachapante de Dória não foi a vitória acachapante de Dória. Foi a derrota acachapante de Haddad, que fez uma administração medíocre, e do PT, há anos enxovalhado sem dó pela mídia e Lava-Jato (e fez bastante por merecer).

A maioria não votou para Dória. Votou contra Haddad e o PT. Dória mantém a admiração de muitos eleitores, e mais ainda dos mais abonados. Mas a maioria dos paulistanos não está lá muito impressionada.

O tempo dirá se Dória vai aprender que uma empresa e uma cidade são coisas bem diferentes. Que os paulistanos não são consumidores, nem acionistas. Somos cidadãos. E seremos mais cidadãos ainda quando deixarmos de ler só os títulos das matérias, e sair compartilhando qualquer coisa nas redes sociais. Se vale a pena ler, vale a pena ler com atenção, analisar e pensar por si próprio.

E vale a pena lembrar sempre da lição do economista Roberto Campos, que dizia: "Os números são como o biquíni. Sevem para esconder o essencial."

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Publicado em 08/02/2017 às 10:07

O Espírito Santo de hoje é o Brasil de amanhã

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O Espírito Santo fez o dever de casa. O governador Paulo Hartung saneou o Estado. Equilibrou as contas públicas. É exemplo a ser seguido pelos outros Estados. No ano passado esse era o discurso dos jornalistas, dos economistas, dos experts. Silenciaram nos últimos dias. Silenciaram também 87 pessoas, assassinadas desde a última sexta-feira.

A violência no Espírito Santo está diretamente ligada aos planos de austeridade impostos pelo governo estadual nos últimos anos. Como o crescimento da violência no Brasil - e do desemprego e do desespero - está diretamente ligada aos planos de austeridade impostos pelo governo federal desde 2014. Quando os arrochos nacional e local se somam, as vítimas se multiplicam.

O que os 10.300 policiais militares do Espírito Santo querem? É a PM com o mais baixo piso salarial do país, R$ 2460,00. A média do Brasil é R$ 3980,00. Eles não têm aumento há sete anos, e há três anos o governo estadual nem repõe as perdas da inflação. Os PMs também reivindicam a renovação da frota de veículos, a melhora das condições do hospital da polícia, e a compra de coletes à prova de bala, que estariam em falta.

É fácil de argumentar que não devia existir Polícia Militar, só civil. Mas vamos deixar isso para lá no momento, e reconhecer que o que os PMs do Espírito Santo pedem não é muito. É muito pouco: salário mais próximo da média nacional e condições mínimas para fazer seu trabalho, que é bem perigoso.

Em vez de negociar com a polícia militar, o governador pediu ao governo tropas do exército. Chegaram lá e tomaram tiros dos bandidos. Vitória segue paralisada, comércio e escolas fechadas, ônibus não circulam. Os turistas fogem das praias capixabas. Os corpos se acumulam no departamento médico legal, que não dá conta de tanta morte. A Polícia Civil está avaliando se adere à greve. E as esposas dos PMs seguem protestando nas portas dos quartéis.

Qual a proposta concreta do governo do Espírito Santo para a PM? Nenhuma. A questão é que se o governador cede aos PMs, terá que ceder aos policiais civis. E depois ao resto do funcionalismo.

O governador Paulo Hartung, do PMDB, começou essa política de arrocho já em 2015. Mesmo tendo os custos com funcionalismo bem abaixo do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal. Naturalmente não faltou dinheiro para outras atividades do governo - desonerações a grandes empresas, obras eleitoreiras etc. Foi louvado, e até considerado um bom candidato à presidência da República.

Tem outra questão. Se o governo começa a ceder às demandas dos funcionários do Estado, daqui a pouco vai ter que ceder às demandas da população que é atendida pelo Estado. Do povão em geral, que precisa de giz na sala de aula e merenda no intervalo, vaga e leito no hospital, paz para ir e voltar do trabalho, e outras coisas simples assim. E isso é exatamente o que os administradores do país, dos estados e das cidades se recusam a nos dar. Não que nada disso seria "dado", porque que a gente já paga bem caro por isso tudo.

Nos últimos tempos ouvimos muito o argumento de que "o Brasil está quebrado" - o país, os estados, as cidades - o que exigiria medidas duras. "Herança Maldita" que exige cortar na carne, no osso. Nos salários, aposentadorias, direitos.

Na verdade, a conta é outra. O Brasil não está quebrado. O que o Brasil não pode mais se permitir é ter 99% dos brasileiros pagando muitos impostos, e o 1% dos brasileiros mais ricos pagando quase nada de impostos. Nossos milionários pagam pouco imposto de renda como pessoa física, pagam pouco imposto de herança, e como pessoa jurídica pagam também pouquíssimo imposto. Além disso as grandes empresas têm toda espécie de benefícios do Tesouro Nacional. Empréstimos de pai para filho do BNDES e BB, dívidas perdoadas, "desonerações" etc.

Ontem o Espírito Santo já contava 75 assassinatos, depois de três dias de greve da PM. Ontem o Itaú, o maior banco do Brasil, publicou o seu balanço. No ano de 2016, com a maior recessão que o país já viveu, o Itaú lucrou R$ 22 bilhões. Se esse lucro fosse taxado em 50%, ainda assim seria um belíssimo lucro. O que dá para fazer com R$ 11 bilhões? Escola, estrada, esgoto.

Esse é só um de muitos exemplos possíveis. Se o Brasil não der um presente bilionário às empresas de telecomunicações, como quer o governo, também teremos um bom dinheiro para pagar policiais, professores, enfermeiras. É a Lei Geral das Telecomunicações, que está para ser aprovada, e transfere para Oi e outras teles um valor tão grande, que nem se sabe exatamente quanto é. O governo diz que é R$ 17 bilhões, o Tribunal de Contas da União diz que é R$ 105 bilhões...

E por aí vai.

Ainda podemos botar na conta o tanto que se desvia na corrupção, que sabemos não é pouco. E o que se sonega, que sabemos que é muito. Segundo a Procuradoria da Fazenda Nacional, a sonegação de impostos no Brasil pode chegar a R$ 500 bilhões por ano. Para você comparar: o Bolsa-Família custa R$ 27 bilhões por ano.

A próxima vítima será o Rio de Janeiro. O estado está para assinar um acordo com o governo federal que inclui um pacotão de arrocho para cima dos funcionários públicos do estado, inclusive policiais. Uma das exigências do governo é a privatização da Cedae, a companhia estadual de águas e esgotos, o que será feita por Pezão, vice de Sérgio Cabral...

As políticas de "austeridade" no mundo todo deram errado e estão dando muito errado aqui também. Em 2017 o Brasil não vai crescer nada. O que o poder público nos oferece são serviços públicos cada vez piores, chegando à insanidade de termos 87 mortos em quatro dias no Espírito Santo.

Na prática, os brasileiros pobres e da classe média sustentam as benesses dos brasileiros super ricos, a mamata dos sonegadores e a sujeira da corrupção. Então falta dinheiro para cobrir as necessidades básicas da população. Se a gente parar de sustentar os ricos, o Brasil equilibra as contas rápido.
E se além disso os ricos passarem a pagar a sua parte, o Brasil rapidamente vai ser tornar... rico.

Vamos encarar a realidade: tem dinheiro de sobra para o Brasil ser um país melhor para todos. Esta é a única pauta que importa, a pauta que precisamos impôr a cada dia, e também a cada nova eleição. Basta cobrar mais imposto de quem pode pagar mais, o que nunca aconteceu. Bater forte na sonegação e nos sonegadores, o que nunca aconteceu. E bater forte na corrupção e nos corruptores, o que começou a acontecer - mas só começou e agora, pelo jeito, parou.
Na prática, o que está sendo feito pelos nossos governantes, e apoiado pelos economistas, colunistas, especialistas, é o contrário do que precisa ser feito. O Espírito Santo de hoje é o Brasil de amanhã. E a próxima vítima é você.

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Publicado em 31/01/2017 às 19:20

Teori, Eike, Temer, Carmem Lúcia: a hora de virar a mesa

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Sabemos hoje o mesmo que sabíamos no dia que Teori Zavascki morreu. O avião caiu. O juiz e os outros morreram. Foi a chuva, falha mecânica, barbeiragem do piloto? A Aeronáutica divulgou laudo dizendo que os dados extraídos do gravador "não apontam qualquer anormalidade nos sistemas da aeronave." Foi assassinato? São dezenas, talvez centenas de pessoas que se beneficiaram da morte dele. Estão sendo investigados?
Não sabemos. Já mudamos de assunto. Agora é Eike Batista. A careca. A cela. O que ele almoça e janta. A reação dos filhos. Luma nas redes sociais. A prisão de Eike vem no momento perfeito para nos fazer esquecer Teori. Tirar o foco dos "acordos" da União com o Rio, que força arrocho no funcionalismo e privatização (e outros Estados estão na fila). Distrai da reeleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. Do acordo no Senado, com Eunício de Oliveira, o tesoureiro do PMDB, na presidência, e Renan como líder do governo.
Para não falar das "reformas" que nos aguardam, da Previdência para começar. Da ajuda bilionário às teles, da Operação Oi... a lista vai longe.
Distrai, principalmente, de Carmem Lúcia Antunes Rocha, presidente do Supremo Tribunal Federal, sempre elogiadíssima, reservada, discreta, técnica, teve até Caetano Veloso cantando para ela quando foi empossada...
Carmem Lúcia homologou as 77 delações premiadas da Odebrecht. Mantém sigilo sobre todas. O procurador geral da República, Rodrigo Janot, não pediu a suspenção do sigilo. Por quê? Não explica. Nem ela.
O sigilo vai até quando? É difícil e fácil responder. Em casos anteriores Janot pediu a Teori que fosse suspenso o sigilo. No caso de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, foram só vinte dias. No caso do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, foram 166 dias.
Agora são 77 delações, só da Odebrecht. Podem demorar vinte dias, 166 dias, mais, menos. Podem ficar pro dia de São Nunca. A delação de Otávio Azevedo, ex-executivo da construtora Andrade Gutierrez, foi homologada em 6 de abril de 2016. Até agora seu conteúdo é secreto.
E é facílimo responder. O sigilo vai durar o tempo necessário para que vazamentos seletivos abatam os inimigos políticos do governo. Até que acordos sejam feitos para que os poderosos citados nas delações negociem saídas. Até que a missão do atual governo seja cumprida.
Atenção: o governo não é o Planalto. O governo é o amálgama de interesses entre o Executivo, Legislativo e Judiciário. O que os une é a submissão ao grande Capital e a compreensão que a maioria dos brasileiros não tem noção do que acontece no Brasil, nem imaginação para sonhar com outro país, e muito menos energia para construi-lo. O que move o Brasil é a inércia.
Foi nessa prostração, na falta de proteína do nosso povo, que apostaram os governos que se seguiram à ditadura, do PSDB e do PT. Os únicos partidos de verdade do país, porque orgânicos, representantes de grupos sociais de verdade. Governaram com o pior da política brasileira. Enricaram os ricos, deram umas esmolas para os pobres, garantiram sua parte. Lambuzaram-se. É o habitual em política, aqui e em qualquer lugar - aqui com mais ganância e descaramento, talvez.
Quando a economia global virou, o cobertor encurtou. Alguém ia ter que pagar a conta. Temos uma elite ultra-privilegiada: não paga impostos, nem na jurídica, nem na física; nem imposto de herança. Tem os maiores rendimentos do planeta Terra, bastando manter seu dinheiro no banco, emprestado ao governo, que é seu empregado. Assim se empurrou a conta para a classe média, os pobres e os miseráveis. É o que Dilma fez. É o que Temer faz, de maneira ainda mais cruel e inconsequente, começando pela PEC do Teto, chamada pela ONU de "o mais radical pacote de austeridade do planeta".
O impeachment teve outras três funções importantes. A primeira foi exterminar o PT, o que foi feito (com a devida colaboração do próprio PT, que desperdiçou seu capital simbólico e seu mandato histórico). Falta retirar os direitos políticos de Lula, o que inevitavelmente virá ainda em 2017.
A segunda missão da conspiração era, com a desculpa de que o país e os estados estão "quebrados", forçar privatizações a toque de caixa. A preço amigo, para empresas amigas, e naturalmente com as devidas comissões enchendo os devidos bolsos. É o que está acontecendo. E o terceiro objetivo era minimizar os estragos da Lava Jato.
É evidente que os políticos no Executivo e no Legislativo não tinham como fazer tudo isso sem a colaboração do Judiciário. Mas a História é dinâmica, seus atores são múltiplos, e quanto mais complexa a sociedade, maior a probabilidade dos melhores planos darem com os burros n´água.
O Brasil não seguiu o roteiro previsto. Nem na economia e na política, que seguem afundando, nem na Justiça. A Lava-Jato é um pequeno e patético passo na direção de um Brasil mais transparente; a turma de Moro, messiânica e parcial; mas bem melhor que nada. E ver na cadeia Marcelo Odebrecht, Eike, Cunha etc. deve tirar o sono de muitos bacanas.
Que bacanas? Não sabemos. É sigilo...
Das 77 delações, conhecemos os nomes citados em apenas uma delação. Alguns famosos: Aécio, Pallocci, Romário, Skaf, Renan, Mantega, Geddel, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Kátia Abreu, Eunício Oliveira, Rodrigo Maia. Entre os que ocupam cargo no governo: Antônio Imbassahy (novo secretário de governo de Temer), Bruno Araújo (Ministro das Cidades) , Kassab, Moreira Franco... e Temer. Faltam 76 delações. Imagine o que vem - ou viria - por aí.
Além de manter sob sigilo as delações, Carmem Lúcia faz suspense sobre o método que usará para selecionar o novo relator da Lava-Jato. A maioria aposta que ela vai optar pelo sorteio. E é muito provável que somente entre os integrantes da Segunda Turma do STF: Gilmar Mendes, Toffoli, Lewandoski e Celso de Mello. Nenhum especialmente fã da Lava Jato, para dizer o mínimo. Mesmo que fosse entre os dez integrantes do plenário, a perspectiva é nada animadora - ainda mais considerando esse sigilo sem fim e sem lógica.
A cereja no bolo: nesta quarta-feira, no mesmo dia que Carmem Lúcia determina como será a escolha do relator, também está na sua mesa uma ação que pode... transformá-la em Presidente da República.
É a ação da Rede Sustentabilidade, que questiona se um réu no STF pode ocupar a linha de sucessão da presidência. O julgamento foi inciado no dia 3 de novembro. O relator, Marco Aurélio Mello, e outros cinco ministros votaram pela impossibildade de haver réus na linha sucessória. Réus como... Rodrigo Maia e Eunício de Oliveira. Se o STF seguir nessa linha, em caso de afastamento de Temer, quem assumiria a presidência seria a presidente do STF, a própria Carmem Lúcia. É um caso chocante conflito de interesses, mas a gente não se choca com mais nada.
O que faria Teori se estivesse vivo? Jamais saberemos. Felizmente para um grande número de poderosos, ele está morto.
O conluio Executivo-Legislativo-Judiciário botou suas cartas na mesa. Ao que parece, a jogada é empurrar com a barriga a Lava-Jato, aprovar as "reformas" que der, privatizar tudo voando e chegar até 2018 fora da cadeia e com os bolsos cheios. Se a situação fugir do controle, e Temer perder o mandato, improvável, assume - veja só - Carmem Lúcia.
Com ela ou com Temer, em 2018 tem eleição e em 2019 teremos outro governo. Que será o mesmo governo. Porque será o mesmo STF e os mesmos políticos, obedecendo aos interesses dos mesmos poderosos. E segue a farsa...
São cartas marcadas. Difícil virar o jogo. Talvez o melhor seja virar a mesa.

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