Por enquanto temos uns quatro mil imigrantes haitianos no Brasil. Mixaria. Mas já é número suficiente para tocar o alerta em alguns quartéis. Olha a invasão dos negão! Daqui a pouco isso aqui tá cheio de vudu. A fronteira do Brasil é indefensável. Vamos ter que investir para murar a nação!
A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República está elaborando um projeto de política nacional de migração. A ideia é ser seletivo. Atrair cérebros e estabelecer limites bem rígidos pra quem chega fugindo da pobreza. O governo anunciou restrição à entrada de haitianos - serão somente cem vistos de trabalho por mês.
É piada. De janeiro a setembro do ano passado, o Ministério do Trabalho concedeu 51.353 autorizações de trabalho a estrangeiros, a maioria portugueses. Foi um aumento de 32% com relação ao ano anterior. E também segundo o governo, até agora entraram no país quatro mil haitianos, e a maioria já teve a situação regularizada. Mas os haitianos são pobres e pretos. Fossem lusos, ou adolescentes norueguesas ou surfistas australianos, estaríamos de boa.
De fato o Brasil não precisa de imigrantes haitianos. Há de haver os mais qualificados entre os que estão vindo, mas o grosso dos haitianos é bem pobre, e eles estão vindo ao Brasil para fazer trabalho de pobre - 45% dos haitianos são analfabetos. Já temos bastante pobre fabricado aqui mesmo, disposto a trabalho de peão, fazer o quê. Nosso Nordeste agora cresce a ritmo chinês, mas se a China que é a China faz tempo ainda tem meio bilhão de miseráveis, não vai ser aqui que vai faltar gente com pouca educação, vendendo o braço.
Também é fato de que nosso país é grande e vazio. Poderíamos transferir o total de dez milhões de haitianos para cá, que eles seriam absorvidos numa boa entre 200 milhões de brasileiros. E imigrantes imigram por que precisam - é lá justo fecharmos as portas para os sofridos haitianos?
Bem, justiça por justiça, o Brasil não tem um pingo de responsabilidade por esse desgracê de cinco séculos no Haiti.
Para começar, não há haitianos originários do Haiti. A população é 80% negra e 20% mulata. Seus antepassados foram levados lá para trabalhar pela Espanha. Os moradores originais, índios Tainó, começaram a ser exterminados logo depois da chegada de Cristóvão Colombo, 1492. A história do Haiti é história de escravos. Os sobrenomes são pela segunda colonização da Ilha, por piratas franceses.
Os haitianos conquistaram a independência relativamente cedo, em 1804. É uma história bonita de luta, e a liberdade foi paga com sangue. Mas a independência de uma ilhota entre a Europa e os Estados Unidos é sempre relativa. O século 19 foi de sabotagem agressiva ao Haiti, embargos, invasões etc.
Os americanos ocuparam o Haiti diretamente na primeira metade do século 20. O regime dos Duvalier, que controlou o Haiti de 1946 a 86 e sangrou o país à inanição, foi integralmente bancado pelos EUA.
Ditadura total, e os detalhes de como tratavam qualquer oposição é material para pesadelos. O Haiti nunca mais conseguiu andar com as próprias pernas, com golpes e contragolpes, e a população em miséria subsaariana.
Dois anos atrás, 12 de janeiro de 2010, um terremoto de proporções bíblicas reafirmou aos haitianos a insensibilidade da natureza a qualquer ilusão de justiça terrena. Morreram mais de 300 mil dos quase dez milhões de habitantes. A capital, Porto Príncipe, foi 80% ao chão. Um milhão de haitianos perderam as casas. O país, que era o mais pobre das Américas, foi à lona de vez.
Entram em cena a ONU e os países mais ricos da Terra. Quem prometeu ajuda para o Haiti? Quem entregou o que prometeu?
O jornal inglês Guardian fez o levantamento. Os países que prometeram as maiores somas para reconstrução, Venezuela e Estados Unidos (juntos, mais de US$ 1,8 bilhão), desembolsaram só 24% (US$ 223 milhões) e 30% (US$ 278 mi). Dos valores prometidos para projetos de agricultura - o povo lá passa fome - foram desembolsados somente US$ 125 milhões dos US$ 311 milhões prometidos. Para projetos ligados a saúde, US$ 108 milhões de US$ 315 milhões prometidos. Só apareceu de verdade grana para socorro imediato de emergência, como dizem os gringos: 86% dos US$ 2,5 bi prometidos.
E essa dinheirama foi para quem, para a população? Bem, 1% foi para o governo do Haiti; 34% para organizações de ajuda ligadas aos governos dos países doadores e 25% para ONGs. Uma bela parte da grana de ajuda para o Haiti está indo para empresas e ONGs dos próprios países que estão doando a grana. Business as usual.
O Brasil não fez tão feio quanto os Estados Unidos em termos de ajuda para reconstrução. Desembolsamos mais de dois terços do que prometemos, US$ 113,5 milhões dos US$ 163,6 milhões prometidos.
Fora os militares brasileiros que despachamos para lá. Na prática é dinheiro de cachaça. O Haiti não precisa do Brasil. Precisa de justiça.
Por parte de quem o injustiçou.
Por mim, teríamos colaborado com zero. Não matamos os índios que moravam lá antes do Colombo, não importamos africanos para as plantações, não ganhamos um centavo em meio milênio de ocupação do Haiti, e principalmente não tivemos nada a ver com a sabotagem da república haitiana, promovida pelas potências colonialistas europeias no século 19 e pelos Estados Unidos no século 20. Mas já que prometemos uma grana, devemos cumprir a promessa, e envergonhar americanos e europeus a botar a mão no bolso com vontade. Fazer caridade com palavras é fácil.
Se for para abrir a porteira, mais justo abrirmos para os paraguaios - afinal, o Brasil tem muita culpa no cartório pelo pobre estado do vizinho de Mercosul. E que tal abrirmos as portas da esperança para os tantos brasileiros que vivem levando porta fechada na cara?
A situação no Haiti é problema do Haiti, mas responsabilidade histórica da Europa, nos antigamentes, e dos Estados Unidos, até outro dia mesmo. Quem fez a sujeira que limpe. O Brasil tem seus próprios haitianos, made in Brasil.

Os americanos ocuparam o Haiti diretamente na primeira metade do século 20. O regime dos Duvalier, que controlou o Haiti de 1946 a 86 e sangrou o país à inanição, foi integralmente bancado pelos EUA. Ditadura total, e os detalhes de como tratavam qualquer oposição é material para pesadelos. O Haiti nunca mais conseguiu andar com as próprias pernas, com golpes e contragolpes, e a população em miséria subsaariana.
Dois anos atrás, 12 de janeiro de 2010, um terremoto de proporções bíblicas reafirmou aos haitianos a insensibilidade da natureza a qualquer ilusão de justiça terrena. Morreram mais de 300 mil dos quase dez milhões de habitantes. A capital, Porto Príncipe, foi 80% ao chão. Um milhão de haitianos perderam as casas. O país, que era o mais pobre das Américas, foi à lona de vez.
Entram em cena a ONU e os países mais ricos da Terra. Quem prometeu ajuda para o Haiti? Quem entregou o que prometeu?
O jornal inglês Guardian fez o levantamento. Os países que prometeram as maiores somas para reconstrução, Venezuela e Estados Unidos (juntos, mais de US$ 1,8 bilhão), desembolsaram só 24% (US$ 223 milhões) e 30% (US$ 278 mi). Dos valores prometidos para projetos de agricultura - o povo lá passa fome - foram desembolsados somente US$ 125 milhões dos US$ 311 milhões prometidos. Para projetos ligados a saúde, US$ 108 milhões de US$ 315 milhões prometidos. Só apareceu de verdade grana para socorro imediato de emergência, como dizem os gringos: 86% dos US$ 2,5 bi prometidos.
E essa dinheirama foi para quem, para a população? Bem, 1% foi para o governo do Haiti; 34% para organizações de ajuda ligadas aos governos dos países doadores e 25% para ONGs. Uma bela parte da grana de ajuda para o Haiti está indo para empresas e ONGs dos próprios países que estão doando a grana. Business as usual.
O Brasil não fez tão feio quanto os Estados Unidos em termos de ajuda para reconstrução. Desembolsamos mais de dois terços do que prometemos, US$ 113,5 milhões dos US$ 163,6 milhões prometidos. Se me perguntar, deveríamos ter colaborado com zero. Não matamos os índios que moravam lá antes do Colombo, não importamos africanos para as plantações, não ganhamos um centavo em meio milênio de ocupação do Haiti, e principalmente não tivemos nada a ver com a sabotagem da república haitiana, promovida pelas potências colonialistas europeias no século 19 e pelos Estados Unidos no século 20. A situação no Haiti é problema do Haiti, e responsabilidade histórica da Europa, nos antigamentes, e dos Estados Unidos, até outro dia mesmo. Quem fez a sujeira que limpe. O Brasil tem seus próprios haitianos.
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