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Publicado em 28/08/2014 às 00:05

A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

beyoncé A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

Maior clichê dizer que a TV anda mais legal que o cinema. Meia verdade. Tá cheio de série ruim, tem filme bom saindo pelo ladrão. É uma comparação desequilibrada. Normalmente se compara o melhor da produção americana para TV paga com os blockbusters mais apelativos de Hollywood, esses filmões de verão 4D, Imax etc. pra vender os megacombos do colesterol.

Prefiro comparar a TV com a... música. A TV que faz sucesso e ganha prêmio, com a música que faz sucesso e ganha prêmio. Prefiro não, aconteceu essa semana. Calhou de termos o Video Music Awards e o Emmy com um dia de diferença. E semelhança zero.

O VMA elegeu vídeo do ano um da Miley Cyrus. Ela pode até ser a cantora que mais chamou atenção nos últimos doze meses. Mas a música, Wrecking Ball, revisita o repertório do Roxette de vinte anos atrás, tipo "It Must Have Been Love". E o vídeo é pedestre. Não fosse a primeira aparição da ex-Hannah Montana transmutada em messalina de mentirinha, passaria batido.

Outros vencedores? Katy Perry, Ariana Grande, 5Th Harmony, Beyoncé... umas bonitinhas em uns clipezinhos fofos, algodão doce pra ouvidos acríticos. A lista completa está aqui.

Vamos comparar com o Emmy? O grande vencedor foi Breaking Bad, série hardcore sobre um professor que vira traficante da pesada, inteligente e violenta. Outros vencedores: séries como Fargo, Veep, True Detective, American Horror Story. Roteiros sólidos, boas interpretações, olho na audiência, mas alguma disposição de correr riscos. O melhor programa de variedades foi o imbatível The Colbert Report. E sobraram três prêmios para Sherlock, que é um ótimo exemplo de como fazer uma série divertida  para todas as idades (a partir dos 10 anos de idade, vá lá). Cito fácil uns dez filmes deste ano bem melhores que tudo isso junto, mas a lista do Emmy não faz feio de jeito nenhum.

Breaking Bad cast SAG 2014 jpg A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

O que essas séries têm em comum? Pressupõem um mínimo de QI por nossa parte. O que toda essa música tem em comum? Parte da premissa que não temos gosto, memória, repertório. Que não adianta dizer nada, porque ninguém está ouvindo, ninguém está prestando atenção, ninguém vai entender. O contrário é verdadeiro. E mais verdadeiro ainda entre a garotada adolescente, que passa o dia todo fuçando e compartilhando e produzindo seu próprio conteúdo na internet.

Mas para o que resta da indústria da música, e o que resta da mídia de massa pra jovem, nada disso importa ou existe. Os executivos estão mais preocupados com a nova foto de Rihanna no Instagram do que com o fato que a garotada está criando seus próprios ídolos no Twitch e no YouTube. Engraçado que ali ao lado no controle remoto, num Cartoon Network da vida, há espaço para coisas como Hora de Aventura, que pega de criança a adulto com aventuras surreais, assustadoras, ternas - porque se arrisca.

hora de aventura A insignificante MTV, a insípida Beyoncé, e a decisão de não ter nada a dizer

Mas se o rock morreu, o pop não morre - está congelado no tempo. Daí a perfeita lógica do VMA fazer uma homenagem especial a Beyoncé, entertainer eficiente e insípida, santa padroeira de todas essas meninas sem roupa e sem nada a dizer. Certo que o Emmy premia o melhor da TV, a votação é diferente, o corte é diferente do da MTV. Mas o VMA não foi sempre isso, porque a MTV não foi sempre isso, porque a própria música pop não foi sempre isso. VMA, MTV e música se renderam à insignificância, a um gueto cada vez menor e menor, que finge ser cada vez maior e maior.

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Publicado em 27/08/2014 às 10:16

Grandes empresários votam em Marina no segundo turno

marina1 Grandes empresários votam em Marina no segundo turno

Como o debate na TV afetará as intenções de voto do eleitor? Demora alguns dias para sabermos. Mas antes do debate, o grande capital brasileiro foi às urnas, na segunda-feira (25). E já escolheu o sucessor de Dilma.

Foi na cerimônia de entrega do anuário Valor 1000, realizada todos os anos pelo jornal Valor Econômico. A festa reuniu o PIB nacional nesta segunda-feira. Neste ano, foram quase 800 empresários. Destes, 284 responderam a uma enquete e opinaram, numa cédula, como votariam para presidente.

Primeira pergunta: Em quem você vai votar para presidente da República? Resultado: 192 votos para Aécio Neves, 41 para Dilma, 36 para Marina.

Segunda pergunta: Em caso de segundo turno entre Dilma e Marina, em quem vota? 124 votos para Marina e 40 para Dilma.

Outro cenário, Aécio versus Dilma no segundo turno: 65,5% dos votos para Aécio, 16,9% para Dilma.

Finalmente, o mais improvável, um segundo turno entre Aécio e Marina. O tucano ganharia de lavada, com 53,5% dos votos, e Marina com só 9,5% — e 37% dos empresários preferiram nem opinar nessa.

Numa pesquisa em outro evento promovido pelo Valor, em maior, o resultado era um pouco diferente. Aécio tinha 72 votos, Eduardo Campos 17, e Dilma só 3 votos. Na época, expliquei por que isso não era necessariamente um problema, e talvez fosse uma boa coisa. Pelo menos, um cenário melhor do que nos outros países dos Brics.

Tudo isso para dizer o seguinte: o candidato ideal do grande capital é Aécio, sem dúvida nenhuma. Reforçou sua posição, anunciando no debate que se vencer, o ministro da Fazenda será Armínio Fraga.

Mas no cenário que temos hoje (sem Aécio no segundo turno, como a pesquisa do Ibope sugere), Marina terá o apoio das maiores empresas do Brasil.

Ué, mas Marina não era considerada ambientalista radical, antibusiness etc.? Bem, seu principal conselheiro econômico, Eduardo Gianetti, vem dando entrevistas afirmando que o programa de Marina está totalmente alinhado com o do PSDB, no que diz respeito ao mundo dos negócios e finanças. E sua principal conselheira política é Neca Setúbal, acionista do Itaú.

Empresário é bicho pragmático. O negócio dos negócios é fazer sua empresa crescer, tomar mercado, ganhar dinheiro, seja quem esteja no poder. Se ajeita com quem quer que ganhe. Mas as preferências dos grandes empresários estão bem claras. Enxergam a política econômica de Aécio e Marina como iguais, ou pelo menos muito semelhantes.

Resta ao eleitor decidir: O que é bom para as grandes empresas, é bom para mim também?

Publicado em 22/08/2014 às 19:49

Marina Silva, Neca Setubal, e a resposta que vale R$ 240 milhões

neca setubal Marina Silva, Neca Setubal, e a resposta que vale R$ 240 milhões

Cutuquei Neca Setubal, coordenadora do programa de governo de Marina Silva, num texto aqui no blog. Repercussão louca. 350 mil leitores, 38 mil compartilhamentos no Facebook. A área de comentários pegou fogo. Muita gente apoiando, muita gente questionando, muita gente não entendendo direito.

Dei muita sorte. Dois dias depois do meu texto, Fernando Rodrigues, um de nossos melhores colunistas políticos, fez uma longa entrevista com Neca Setubal para a Folha e UOL. Recomendo que você leia, seja ou não eleitor de Marina.

Fernando tinha lido meu texto, viu a polêmica que causava, e perguntou sobre meu tema central: considerando que o Itaú, de que Neca é sócia, deve R$ 18,7 bilhões à Receita Federal, e diz que não deve e não vai pagar, não há um conflito de interesses?

Ela, digamos, respondeu. E a resposta dele exige comentários. Eles estão abaixo.

Publicado em 20/08/2014 às 11:29

Antes de votar em Marina, você precisa conhecer Neca – e fazer a pergunta de R$ 18 bilhões

marina Antes de votar em Marina, você precisa conhecer Neca   e fazer a pergunta de R$ 18 bilhões

Você precisa conhecer Neca. Ela é a coordenadora do programa de governo de Marina Silva, pela Rede Sustentabilidade, ao lado de Mauricio Rands, do PSB. O documento será divulgado na semana que vem, 250 páginas consensadas por Marina e Eduardo Campos. Educadora, com longo histórico de obras sociais, Neca conheceu Marina em 2007. É uma das idealizadoras e principais captadoras de recursos da Rede Sustentabilidade.

Sua importância na campanha e no partido de Marina Silva já seria boa razão para o eleitor conhecê-la melhor. Ainda mais após a morte de Eduardo Campos. Mas há uma razão bem maior. Neca é o apelido que Maria Alice Setúbal carrega da infância. Ela é acionista da holding Itausa. Você pode conferir a participação dela neste documento do Bovespa. Ela tem 1,29% do capital total. Parece pouco, mas o valor de mercado da Itausa no dia de ontem era R$ 61,4 bilhões. A participação de Maria Alice vale algo perto de R$ 792 milhões.

A Itausa controla o banco Itaú Unibanco, o banco de investimentos Itaú BBA, e as empresas Duratex (de painéis de madeira e também metais sanitários, da marca Deca), a Itautec (hardware e software) e a Elekeiroz (gás). Neca herdou sua participação do pai, Olavo Setúbal, empresário e político. Foi prefeito de São Paulo, indicado por Paulo Egydio Martins, e ministro das relações exteriores do governo Sarney. Olavo morreu em 2008. O Itaú doou um milhão de reais para a campanha de Marina Silva em 2010 (leia mais aqui).

Em agosto de 2013 - portanto, no governo Dilma Rousseff - a Receita Federal autuou o Itaú Unibanco. Segundo a Receita, o Itaú deve uma fortuna em impostos. Seriam R$ 18,7 bilhões, relativos à fusão do Itaú com o Unibanco, em 2008. O Itaú deveria ter recolhido R$ 11,8 bilhões em Imposto de Renda e R$ 6,8 bilhões em Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. A Receita somou multa e juros.

R$ 18 bilhões é muito dinheiro. É difícil imaginar que a Receita tirou um valor desse tamanho do nada. É difícil imaginar uma empresa pagando uma multa que seja um terço disso. Mas embora o economista-chefe do Itaú esteja hoje no jornal dizendo que o Brasil viveu um primeiro semestre de "estagnação", o Itaú Unibanco lucrou R$ 4,9 bilhões no segundo trimestre de 2014, uma alta de 36,7%. No primeiro semestre, o lucro líquido atingiu R$ 9,318 bilhões, um aumento de 32,1% em relação ao primeiro semestre de 2013. O Unibanco vai muitíssimo bem. E gera, sim, lucro para pagar os impostos e multa devidos - ainda que em prestações.

A autuação da Receita foi confirmada em 30 de janeiro de 2014 pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento. O Itaú informou que iria recorrer desta decisão junto ao Conselho Administrativo de Recursos fiscais. Na época da autuação, e novamente em janeiro, o Itaú informou que considerava  "remota" a hipótese de ter de pagar os impostos devidos e a multa. Mandei um email hoje para a área de comunicação do Itaú Unibanco perguntando se o banco está questionando legalmente a autuação, e pedindo detalhes da situação. A resposta foi: "Não vamos comentar."

O programa de governo de Marina Silva, que leva a assinatura de Maria Alice Setúbal, merece uma leitura muito atenta, à luz de sua participação acionária no Itaú. Um ano atrás, em entrevista ao Valor, Neca Setúbal foi perguntada se participaria de um eventual governo de Marina. Sua resposta: "Supondo que Marina ganhe, eu estarei junto, mas não sei como. Talvez eu preferisse não estar em um cargo formal, mas em algo que eu tivesse um pouco mais de flexibilidade."

Formal ou informal, é muito forte a relação entre Neca e Marina. Uma presidenta não tem poder para simplesmente anular uma autuação da Receita. Mas tem influência. E quem tem influência sobre a presidenta, tem muito poder também. Neca Setúbal já nasceu com muito poder econômico, que continua exercendo. Agora, pode ter muito poder político. É um caso de conflito de interesses? Essa é a pergunta que vale R$ 18,7 bilhões de reais.

Publicado em 18/08/2014 às 17:44

Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

1407853964037 wps 3 Justin Timberlake takes t Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

Tudo que é mais estúpido, superficial e inócuo na cultura americana, a brasileirada sempre corre para imitar. Tanta coisa boa nos Estados Unidos, sempre macaqueamos o que há de mais idiota.

Agora é o desafio do balde de gelo na cabeça, o Ice Bucket Challenge. No Brasil, gente como Ana Maria Braga, Luciano Huck, Ivete Sangalo, Neymar, Carolina Dieckmann e outros luminares da cultura nacional já aderiram. Nos Estados Unidos virou mais que fenômeno pop. É quase obrigação de quem é famoso. De cantores (Justin Timberlake, Justin Bieber) a empresários (Mark Zuckerberg, Jeff Bezos) a atletas (Cristiano Ronaldo, os New York Mets). E outros zilhões de famosos e anônimos que querem aparecer, e postam na internet vídeos fazendo a mesma bobagem.

263934 1280x720 Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

Do que se trata? Em vídeo, você aceita o desafio, e desafia outras três pessoas a fazerem igual, nas próximas 24 horas. Bota gelo em um balde com água. Se na hora H der para trás, doa cem dólares para uma instituição de caridade. Se for em frente e se encharcar todo, doa só dez dólares.

Ver os vídeos dá desgosto com a espécie humana. É o máximo de narcisismo posando de desprendimento.  Claro que tem gente que se molha e doa os cem. Claro que tem gente que doa mais. Claro que o fato dos famosos se filmarem é uma maneira de gerar visibilidade para a campanha. E claríssimo que é uma maneira dos famosos se promoverem, e posarem de caridosos e preocupados com quem sofre.

De fato sofre bastante quem tem ALS (Amyotrophic Lateral Sclerosis, ou Esclerose Lateral Amiotrófica). É uma doença degenerativa horrível. Meio parecida com a doença de Parkinson, que muita gente que tem um velhinho na família conhece bem. A pessoa perde o controle sobre os  músculos, tem dificuldade pra falar, engolir, respirar. É conhecida como doença de Lou Gehrig, por causa do legendário jogador de beisebol que morreu disso.

Se sabe que a maioria (93%) dos afetados são caucasianos, gente branca. O que causa a ALS? Ninguém sabe. Mas segundo a própria Associação que criou a campanha do balde de gelo, veteranos americanos de guerra têm o dobro de chance de ter ALS que um civil. Guerra causa ALS? Vai saber.

O que sabemos com certeza é que na longa lista de doenças que precisam de recursos para pesquisa, a ALS não é prioridade. Seria muitíssimo mais útil gastar o mesmo dinheiro para doar mosquiteiros para a África, ou melhorar o saneamento no Rio de Janeiro. Porque o número de pessoas afetadas pela ALS é minúsculo. Entre a população caucasiana, mais afetada, varia de 1.2 a 4 casos por cem mil pessoas.

Nos EUA existem 30 mil pessoas diagnosticadas com ALS, de um total de quase 320 milhões de americanos. É um pingo d´água no oceano. Por comparação, no mundo  morrem 1.5 milhão de pessoas de HIV/Aids e outros 1.5 milhão, de diarreia. Onde? Onde não tem saneamento, remédio, comida. E água. Já tem gente pegando no pé dos patetas que entraram na campanha do balde de gelo. Olha a cara do menininho perguntando: "Quer dizer que você desperdiça água para evitar doar dinheiro para caridade?"

forasta ok Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

 

A coisa certa a fazer é enfrentar todas as doenças, onde quer que elas estejam, caso afetem muita gente ou meia dúzia. Não é com campanhas cretinas. Poderíamos começar zerando os impostos sobre remédios, e mudando as leis de patentes, que tal? Ou gastando menos com armas e mais com saneamento básico? Não, isso é tudo utopia. Realidade é desperdiçar um balde de água gelada no cucuruto.

Longe de mim fazer pouco de quem sofre com ALS ou de suas famílias. Mas tá cheio de gente sofrendo no mundo - de doença e bomba na cabeça, quase sempre fabricadas nos Estados Unidos, aliás. Vamos bolar uma outra coisa divertida pra ajudar quem tem Ebola, e outra para as criancinhas bombardeadas no Oriente Médio? Transformar desgraça alheia em  diversão de internet é idiota e imoral.

Os gringos, que têm um termo bacaninha para cada coisa, chamam isso  de "slacktivism", que traduzo mal e porcamente para "ativismo de vagabundo". É quando a pessoa gasta o mínimo de esforço, neurônios ou dinheiro para "ajudar" o próximo, com resultados igualmente mínimos, mas gerando grande satisfação pessoal e status social, "veja como sou caridoso e bacana."  Sempre existiu, mas a internet turbinou. Por falar em slacktivism, essa campanha da WWF é a mais complacente e contraproducente que conheço.

Esses famosos da campanha do balde estão na mesma categoria desses indignados de Facebook. Gente que vive gritando contra essa e aquela injustiça e incorreção política. Mas não se mexem para mudar absolutamente nada. No máximo, fingem. E frequentemente lucram com o mundo como ele é, ignorante e vulnerável.

Já vejo você falando "pô, para de ser tão mal humorado, é só uma brincadeira, não faz mal a ninguém e ainda gera uns recursos pra pesquisar essa doença." Bem, entre essa obsessão pela autopromoção camuflada de solidariedade e não fazer absolutamente nada, prefiro a honestidade da imobilidade.

Mas se você quer mesmo meter a mão no vespeiro e buscar soluções políticas de longo prazo, te convido a ler isso aqui. Tem um gráfico que você não vai esquecer. 

E se você quer mesmo ajudar quem está mais precisa, nesse exato momento - pelo mundo afora e no Brasil também - nem precisa jogar um balde de gelo na cabeça. Puxe o cartão de crédito e DOE JÁ. Te desafio.

MSF4 Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

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Publicado em 18/08/2014 às 00:30

Eu não leio livro escrito por mulher

jane austen Eu não leio livro escrito por mulher

Jane Austen: nunca li e nunca lerei

Fiquei besta quando percebi. Arrumava as estantes de casa e pela primeira vez enxerguei o que devia estar na cara. Eu não leio livro escrito por mulher. Dos zilhões de livros de casa, uns 99,5% foram escritos por homens. O que é que há de errado comigo? E, pensando bem, tem algo de errado comigo?
Encasquetado, me ocorreu a pergunta óbvia: eu sempre fui assim, ou é recente? Resposta: eu sempre fui assim. Os livros da minha infância e adolescência que continuam comigo, muitos, são quase todos obras de homens. Certo que troquei muitos em sebo, na faculdade, do que me arrependo muito, inclusive todas as minhas Agatha Christie. Mas o que sobrou da época é só macho. Em ficção científica, é Joan D. Vinge aqui,  R.A. McAvoy e Ursula K. LeGuin acolá. Entre tantos livros policiais, Patricia Highsmith. Vamos ver a estante com ficção americana: Mary McCarthy, Lilian Hellman, Carson McCullers, Harper Lee. Recente e muito bom, o  livro de autoajuda disfarçado de biografia de Montaigne, de Sarah Bakewell, How to Live. Em quadrinhos, quase nada.  Autoras brasileiras, menos ainda. Clara Averbuck, Márcia Denser, Lilian Moritz Schwarz, um querido de Leyla Perrone-Moisés, Vinte Luas. Mais esse, mais aquele. Um pinga-pinga de autoras num oceano de machos.
Por que não leio livros escritos por mulher? Não sei. Nunca pensei nisso. Talvez mulheres não sejam tão atuantes nos meus gêneros favoritos? Mas em qualquer gênero tem muita autora boa (imagino,  não sei, porque não leio). Escolho livro pelo sexo do autor? Imagina, nem entra na equação. Compro livro pelo autor, pelo tema, pelo cheiro. Esse Vinte Luas me botou para ler sobre a era das navegações, li uns vinte livros por causa dele. Preconceito? Nenhum. Dou de barato que mulher tem os mesmos direitos que homem, inclusive sexuais (e o mesmo desafio de defende-los, claro). E tenho zilhas de livros escritos por gays. Quanto se trata de prazeres literários, sou polimorfo perverso.
Qualquer livreiro vai te contar: a maioria das pessoas que entram em livrarias, e compram livros, são mulheres. No Brasil e em qualquer lugar do mundo. Regra geral, a lista de best-sellers é a lista dos livros que estão sendo mais lidos por mulher naquela semana. Mais ainda em ficção, que não-ficção sempre tem também aquelas auto-ajuda pra homem, livro de carreira, gestão, como ficar rico etc.
Donde que muito livro é escrito especificamente para agradar leitoras. E muitos desses são escritos por mulher, naturalmente. Existe isso de leitor homem e leitora mulher? Bem, sim. Tem livro que é pra ser lido por qualquer um, qualquer dos 16 sexos, conforme dizia um velho amigo. E tem livro, e filme, e música que tem alvo certo. 50 Tons de Cinza pode até ter leitor homem, mas foi feito para mulher. Mesma coisa A Culpa é das Estrelas, ou A Menina que Roubava Livros, pra ficar em três que estão na lista dos mais vendidos esta semana. Vamos para os Estados Unidos? A lista de best-sellers do New York Times dessa semana tem cinco autoras no Top 5, dominação total. Claro que não vou ler esses livros. Eles foram especificamente não-feitos para mim.

Arrisco uma outra teoria para a ausência de mulher entre meus autores favoritos. Não leio literatura contemporânea, dessas que vendem pouco e ganham prêmios literários, gênero em que as minas arrasam. Leio pouca ficção. Sempre do século 20 ou antes, períodos em que pouca mulher escrevia, ou escrevia sobre assunto exclusivo de mulher, porque era a isto que tinham acesso, socialmente. OK, sei que Jane Austen não é só isso. Mas na boa, é muito mulherzinha pra  mim. Tentei ler, parei e não tentarei de novo.

Pode ser que isso seja comum. Que eu esteja dentro da norma. Que a maioria dos homens que leem leiam principalmente outros homens, e igual com mulher. Nunca ouvi falar de nada parecido, mas não me parece absurdo. De qualquer forma, fazer ou não parte da maioria  não é prova de nada. Nem explicação de porque eu sou assim. Jornalista, simplesmente reporto o fato: não leio livro escrito por mulher.

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Publicado em 16/08/2014 às 00:30

Quanto mais muda, mais continua a mesma coisa: Arnaldo Jabor, 1997

Arnaldo VALERIA GONCALVEZ eSTADAO CONTEUDO Quanto mais muda, mais continua a mesma coisa: Arnaldo Jabor, 1997

Uma das tundas mais satisfatórias que dei em alguém. Escrevi para a revista Caros Amigos. Não adiantou nada. Jabor foi ficando cada vez mais famoso e rico e popular, inclusive como autor, e cada vez mais conservador, o que é de desanimar até um otimista persistente como eu. Pelo menos desopilou o fígado.

JABOR ALÉM DOS LIMITES

Que alguém leve a sério o que essa gente diz me envergonha, entristece e irrita

Regra nº 28 para viver melhor: evite coisas que você sabe que vão te irritar. Tento seguir. Não leio, por exemplo, Arnaldo Jabor.

Pessoalmente, o sujeito é simpaticão. Tem aquele jeitão à vontade Rio anos 60. Fomos apresentados na redação da Folha, quando eu trabalhava no Folhateen, 1991. Ainda não era personalidade de tevê, só diretor de cinema e uma das apostas da Folha para substituir Paulo Francis.

Jabor leu um texto meu sobre o dr. Hunter S. Thompson, jornalista gonzo e cowboy fora-da-lei. Diz que parece uma figura interessante, está indo para Los Angeles e queria aproveitar para entrevistar o cara. Explico: Hunter mora num rancho isolado perto de Aspen, longinho de L.A.; dá entrevistas em anos bissextos, quase só para velhos companheiros de birita e detonação – é mais fácil uma exclusiva com o papa.

Jabor insiste. Sugiro contato com a editora americana ou a Rolling Stone, onde HST sempre escreveu. Não sei se ele tentou o contato. Sei que a entrevista não saiu.

Pego esta semana uma nova revista de literatura chamada Cult e, adivinha, lá está Jabor citando como grandes influências (depois de Eça de Queirós, João Cabral de Melo Neto, Nélson Rodrigues e americanos tipo Faulkner e Steinbeck) “alguns autores menores, como Norman Mailer… e Hunter Thompson, um dos autores do new journalism”.

Tem de ser muito cabotino para chamar Mailer de autor menor e muito cara-de-pau para citar Hunter Thompson assim como quem não quer nada. Você acreditaria que Jabor leu Thompson desde que fomos apresentados? Você acredita que o Brasil é o país do futuro?

Na mesma entrevista, Arnaldo Jabor explica: “Apesar das loucuras dele, o Francis foi um jornalista muito importante… Francis escreveu um artigo de autocrítica fundamental sobre o fracasso do pensamento delirante da chamada esquerda brasileira. Ele criou uma loucura dentro desse pensamento que depois o Glauber aprofunda em Terra em Transe e que o Caetano aprofunda com o tropicalismo”.

Escuta aqui, cinema não aprofunda artigo de ninguém, e Caetano Veloso só aprofunda meu constrangimento de viver neste país. O Francis morreu enfrentando um processo de 100 milhões de dólares do mesmo governo que o Jabor vive defendendo.
Mais, o Francis apoiou o FHC para presidente e meses depois estava malhando o governo dele. Jabor, como Gilberto Gil, Sônia Braga e outra gente do mesmo calibre, leva esse negócio de comer na mesa dos poderosos a sério: foram até jantar com Clinton e o Totoso, não?

E os press-releases do consenso tucano-classe-média que Jabor divulga na Globo? Com a palavra, o diretor da mais longa propaganda de vodca da história, Eu Sei que Vou te Amar: “É estranho que até hoje ninguém tenha falado na imprensa sobre o que estou fazendo no Jornal Nacional. É uma forma de arte conceitual e ninguém se tocou disso”.

Pretensão sem limites, oportunismo disfarçado de modernidade, subintelectuais ditando as regras. É o tom da vida pública no Brasil 97. Que alguém leve a sério o que essa gente diz me envergonha, entristece e irrita.

Pior, me sinto meio trouxa de gastar espaço com assunto tão inútil.

Porque sei que neste planeta e neste país existe vida inteligente. Gente de verdade com sangue nas veias, gente que precisa ser conhecida, que merece muito mais ocupar estas linhas.

Mas certas coisas indigestas precisam ser vomitadas. E isso, você sabe, é uma daquelas que só se fazem entre caros amigos.

(Caros Amigos, 1997)

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Publicado em 14/08/2014 às 18:43

O supernovo e o superpopular: os R$ 4 milhões para Luan Santana, a Lei Rouanet, o Vale-Cultura, e a diferença entre dinheiro público e privado

1fev2014 luan santana no festival de verao de salvador 1391305168915 1920x1080 O supernovo e o superpopular: os R$ 4 milhões para Luan Santana, a Lei Rouanet, o Vale Cultura, e a diferença entre dinheiro público e privado

Existem duas maneiras úteis de o dinheiro público se envolver com arte: sustentando o supernovo e levando o superpopular aos pobres. É bom uso do Tesouro Nacional apoiar a produção e a circulação de tudo o que é criação intransigente e inédita. Seja nova ou antiga, brasileira ou não. Contanto que o orçamento seja baixo e que não haja hipótese de patrocínio corporativo.

A maioria dos brasileiros não pode pagar R$ 200 por um show ou R$ 50 por um livro. Deveríamos todos poder votar com o bolso. O projeto do vale-cultura merece críticas, mas seria melhor do que nada, que é o que temos hoje.

Tudo o que está entre o supernovo e o superpopular deveria ser julgado caso a caso. Portanto, não pode ser transformado em política pública. Não em um país tão permeável às ações entre amigos.

Mudanças nas leis de incentivo ou na política de patrocínios da Petrobras e toda a cultura do país capotam. Cinema: a regra da "retomada" são produções de R$ 5 milhões que não recuperam um décimo dos recursos captados via leis de incentivo.

Teatro: a maior parte dos patrocínios vai para montagens de terceira com atores de novela -hits da Broadway etc. Música: idem, com requintes como o ministro da Cultura se beneficiar de renúncia fiscal -Gilberto Gil levou em 2009 R$ 445 mil do nosso dinheiro.

É excesso de zelo, portanto, eleger festivais goianos exemplo de lambança. Qual o problema de jovens músicos correrem atrás do seu? Não é a história deste país, todos se achegando para perto do cofre? Perto do rio de dinheiro público que escoa sem fim para megabancos e megafusões, apoiar roqueiros interioranos é um pinguinho no oceano.

"Se Gil pode, por que não eu?", se pergunta a nova cena musical brasileira, o que prova que ela só é nova na idade de seus participantes.
Moeda alternativa, distribuição digital, cooperativas. Sim, quem quer viver de música tem de dar seus pulinhos. Mas o que interessa é grana grossa, governo, empresa grande. Da tropicália ao mangue beat a hoje, todo mundo adere tão rápido quanto possível. Doidão, sim, anarquia, já, mas só louco rasga dinheiro.
A vida, é fato, anda dura. Irving Azoff, empresário de Eagles, Guns N'Roses e hoje CEO da LiveNation, diz que só 6% da receita dos grandes artistas americanos vêm de música gravada. O resto é show, merchandising, patrocínio. Imagine no Brasil.

Arte provocativa já foi criada por gente com contas a pagar. Compromisso zero com o mercado gerou muito lixo para engrupir crítico/acadêmico. Arte não tem regras, mas vida de artista tem. A função da arte não é dar o que o povo quer -é revelar o que ele quer.
Já o artista quer ser bem amado e bem pago. Quem se importa de onde vem a grana?

(escrevi esse texto em 2010, para a Folha, sobre o título "Artista quer ser bem amado e bem pago". Lembrei por causa de uma mini-polêmica com a aprovação de R$ 4,1 milhões na Lei Rouanet, para Luan Santana captar essa grana para uma turnê. Ué, se todos podem, porque ele não? Porque é sertanejo. O certo era acabar com a Lei Rouanet, pra ontem. De 2010 para cá pouco mudou, fora a aprovação do Vale Cultura, que não é grande coisa mas é um passo na direção certa. Abaixo, trecho de um texto deste blog, de 2009, defendendo o Vale Cultura...)

O projeto de Lei cria um Vale-Cultura no valor de R$ 50,00 mensais para quem recebe até cinco salários mínimos. Uns 14 milhões de trabalhadores serão beneficiados. O que você não gastar em um mês, acumula para o mês seguinte.

Será um cartão magnético. É uma mistura de Bolsa Família com Vale Refeição. A grana terá que ser gasta necessariamente na compra de produtos ou eventos culturais - cinema, teatro, shows, livros, CDs, DVDs etc.

Tem lá vários detalhes que podem e devem ser debatidos e melhorados. Mas o princípio é excelente.

Vivemos no capitalismo e aqui a missão do dinheiro privado é se multiplicar. A missão do dinheiro público é beneficiar o público. Quase nada é tão benéfico quanto dinheiro no bolso.

Naturalmente, vai ter crítico descendo o malho. Esse povão burro, vai gastar tudo em CD do Victor & Leo, show de forró e livro do Augusto Cury.

Que seja. Qual o problema? Alguém vai me provar que o novo disco do Caetano Veloso é culturalmente mais importante do que o da banda Calypso?

caetano Fernando Young O supernovo e o superpopular: os R$ 4 milhões para Luan Santana, a Lei Rouanet, o Vale Cultura, e a diferença entre dinheiro público e privado

A função do produto cultural não é educar, engrandecer, iluminar. Se fizer tudo isso, ótimo, mas o valor do produto cultural está em entreter. E já não é pouca coisa.

É claro que o contato com a cultura areja o espírito e o pensamento. Fundamental, visto que os impérios do futuro são os impérios da mente - opa, tirei o dia para tirar a poeira do meu livro de citações de Churchill.

Eu acho muito melhor dar o dinheiro direto na mão do peão lá que esse monte de leis de incentivo que só incentivam a produção comercial direcionada à classe média alta. Que  tem dinheiro próprio para ver os shows ruins que quiser.

Os números do Ministério da Cultura e do IBGE são assustadores. Li no jornal Metro de hoje:

- 86% dos brasileiros não vão ao cinema
- 1,8 é a média de livros lidos por ano
- 73% dos livros estão nas mãos de 16% da população
- 90% dos municípios do país não têm pelo menos um destes itens: cinema, teatro, museu ou espaços culturais multiuso.

Qualquer coisa que ajude a mudar isso tem meu apoio. Na esfera da cultura, dinheiro público deve ir:

a) diretamente para sustentar a produção de arte mais impopular, herética, experimental e estapafúrdia

b) para o bolso de quem mais precisa.

E fim.

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Publicado em 13/08/2014 às 13:52

Com a morte de Eduardo Campos, PSB tem dez dias para indicar Marina Silva ou outro nome para concorrer à presidência

 Com a morte de Eduardo Campos, PSB tem dez dias para indicar Marina Silva ou outro nome para concorrer à presidência

Uma morte como a de Eduardo Campos é imprevisível. A legislação prevê o que fazer. As regras são claras. Estão na lei 7773, de oito de junho de 1989. Seguem abaixo:

“§ 3º. Em casos de morte, renúncia ou indeferimento de registro de candidato, o Partido ou Coligação deverá providenciar a sua substituição no prazo de até 10 (dez) dias, por decisão da maioria absoluta do órgão executivo de direção nacional do Partido a que pertenceu o substituído.

§ 4º. Se o Partido ou Colegiado, no prazo do parágrafo anterior, não fizer a substituição de candidato a Vice-Presidente, o candidato a Presidente poderá fazê-lo em 48 (quarenta e oito) horas, indicando membro filiado, no prazo legal, ao mesmo Partido Político do substituído.”

A candidata óbvia  é Marina Silva. Tem votos. Tem mais votos que Campos jamais teve. É da Rede; basta indicar como vice um nome forte do PSB.

Só não será candidata por politicagens internas do PSB, que podem não querer rifar o partido para a Rede. Lembrando que o PSB está em alguns estados do país com o PT, em outros com o PSDB.

É impossível agora medir o impacto emocional que a morte de Campos terá sobre o eleitor. Ele ainda era nome pouco conhecido. Pode ser esquecido em dias. Ou pode virar um símbolo do novo, abatido ainda jovem, comover a nação, e impulsionar uma candidatura do PSB, ainda mais se for Marina.

É ilusão de ótica. Campos não tinha nada de novidade. Era político de carreira, e herdeiro político escolhido pelo avô, Miguel Arraes. Fez uma gestão muito ruim em Pernambuco. Confira os principais índices do Estado em sua gestão.

Seja qual for seu candidato, ou sua visão sobre Campos, é triste um homem jovem morrer assim, deixando cinco filhos. Mas o Brasil é maior do que qualquer pessoa. É função da imprensa analisar o que vem pela frente.

Sua morte muda completamente o cenário eleitoral. O lançamento de um novo candidato pelo PSB, possivelmente Marina Silva, zera todas as apostas.

Publicado em 13/08/2014 às 11:01

A mulher que era Lauren Bacall

lauren A mulher que era Lauren Bacall

Slim Hawks, 26 anos, foi a mulher mais esperta, chique e desejada da era de ouro de Hollywood. A competição era acirrada. Pouca gente conhece Slim. Todo mundo está lembrando dela hoje.

Nasceu Nancy Gross em uma cidadezinha da California, de onde saiu para conquistar tudo. O maior agente literário, o melhor diretor de cinema, e finalmente um lorde inglês, que a transformou em lady, Lady Keith. A gata loira da praia se transmutou em uma das mulheres que criaram seu tempo.

Raridade na época - em qualquer época - Slim era uma mulher que os homens desejavam, cuja companhia os homens apreciavam. Pela beleza e charme, pela inteligência, pelo humor letal. Bebia, fumava, jogava, se impunha. Também decorava casas, era anfitriã modelo e ícone fashion. Uma mulher durona que sabia ser uma garota doce. Inverossímil. Se fosse personagem de filme, ninguém acreditaria.

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Slim, Hawks e um amigo

Estava casada há dois anos com Howard Hawks, vinte anos mais velho, quando viu na capa da revista Harper's Bazaar uma garota interessante. Mostrou a foto para Hawks.

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Ele a chamou para Hollywood, quem sabe tem potencial para ser atriz? Betty, 19, era sete anos mais nova que Slim. Judia remediada, filha de romenos, voz esganiçada, alguma experiência como modelo, e muita sorte, na loteria genética e na vida.

Betty colou em Slim, que lhe ensinou tudo e mais um pouco. Instruída por Slim e por Hawks e sua equipe, Betty aprendeu a se vestir como Slim; a se portar como Slim, olhar e fumar e sentar como ela, falar com uma voz segura e masculina como ela, e - assobiar como Slim. Você sabe como assobiar, certo?

Betty encarnou Slim em sua estréia no cinema, de cara como protagonista, em To Have and Have Not, Uma Aventura na Martinica. O seu nome, pouco glamuroso, foi trocado para Lauren. O nome de seu personagem era... Slim.

essa A mulher que era Lauren Bacall

Slim e Betty

Contracenou com um astro 24 anos mais velho, se apaixonaram, se casaram. Betty e Bogie, Lauren Bacall e Humphrey Bogart, foram felizes até que a morte os separou, 14 anos depois.

Slim se foi em 1990, câncer de pulmão, depois de "uma vida rica e imperfeita", subtítulo de sua autobiografia. No meio do caminho conheceu todo mundo, dispensou Clark Gable, caçou com Hemingway. Foi imortalizada por Truman Capote em seu último livro, "Answered Prayers". Morreu socialite e símbolo de estilo. "Deus me abençoou com muita coisa", escreveu, "e o que ele não me deu eu fui lá e agarrei."

Betty teve sua própria vida, uma vida também rica, como poucos de nós podemos sonhar ter. Certamente também imperfeita, como nenhum de nós escapa. Quem era, de verdade? Não sabemos. Morreu ontem, e quando pensamos nela, sentimos saudade de Slim - a mulher que era Lauren Bacall.

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Untitled 1 691x1024 A mulher que era Lauren Bacall

Publicado em 12/08/2014 às 10:50

Robin Williams e a importância do dia de hoje

Robin Williams Model Robin Williams e a importância do dia de hoje

“Talvez ele fosse até adorável. Mas em alguma altura do campeonato percebemos que não sabia o que estava fazendo. Na América gostamos de mitificar as pessoas quando elas morrem.” Palavras de Robin Williams sobre Ronald Reagan. Me saltaram aos olhos entre tantas homenagens ao ator. É de uma entrevista de anos atrás para o jornal Guardian. Encaixa perfeitamente em Robin.

Contei agorinha para meu filho de dez anos sobre seu suicídio, explicando antes exatamente o que é depressão - não frescura, mas uma doença de verdade, cruel e tratável. Para identificar Robin, expliquei: “é o cara que faz o presidente Teddy Roosevelt em Uma Noite do Museu”, Tomás viu os dois filmes da série bilhões de vezes, acabamos de ver o trailer do terceiro esta semana. Caiu o queixo. É como todos nos sentimos, boquiabertos. Gostamos de gente engraçada, que imaginamos boa gente, sem conflitos, sem problemas.

Eu já não gostava de Robin tinha muito tempo. Difícil não ter afeto por Robin, como por Steve Martin e Eddie Murphy, para ficar em três caras selvagens e loucos que estrearam quase juntos. Eram muito engraçados, eram ícones alternativos, eram capa da Rolling Stone. E viraram uns malas sem alça. John Belushi, contemporâneo e companheiro de balada de Robin, só escapou porque morreu jovem.

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É a maldição dos comediantes em Hollywood, maldição autoinfligida. Ninguém obriga ninguém a limitar seus papéis a comediazinhas açucaradas para toda a família. É só mais fácil e lucrativo trocam a provocação por participação nos lucros. Adeus acidez, olá sentimentos puros e inspiradores. Dói, porque eles não foram sempre bolhas mercenários. Quem sabe me reconheço nas concessões. Todo mundo trai sua juventude?

Os melhores momentos de Robin foram em seus antigos shows de stand-up, acelerados, letais. Você pode ver, está tudo pela internet afora. Nos últimos só ríamos com ele nos talk shows da vida. Não era ensaiado. André Barcinski relembra o quanto riu em uma entrevista coletiva com Robin. Perguntado porque os americanos não assistiam mais filmes europeus, Robin fez os jornalistas gargalharem imitando um americano caipira assistindo “A Bela da Tarde” - totalmente na improvisação.

Nos filmes Robin parecia sempre cheirado. Frequentemente estava. Passou boa parte da vida viciado em cocaína e álcool. Conquistou a sobriedade já coroa. Perdeu a graça e importância. Tchau pó, olá sonífero. Os filmes que Robin faria nos próximos anos não farão falta nenhuma. Mas a maioria de nós não fará falta nenhuma para o mundo se morrermos hoje, a não ser para amigos e parentes, se dermos sorte. Quantos deixarão memórias tão incríveis, pra tanta gente, quanto Robin Williams?

Há muito tempo vi seus filmes. Quais devo mostrar para Tomás? Ele já viu Alladin e Jumanji e Hook. Mas não viu Bom dia Vietnã e Popeye e O Pescador de Ilusões. Puxa, será que ele sabe que Robin batizou a filha como Zelda em homenagem ao game da Nintendo? Ele tem que ver esse vídeo. Robin vive...

E Sociedade dos Poetas Mortos? Meio chororô. Mas toda criança, e adulto, tem que ver. “Carpe Diem!”. Só por imprimir essas duas palavras na mente de tanta gente, Robin já merece nossa gratidão. É sempre um bom conselho, o professor Robin ensinando para uma classe de garotos: “Aproveitem ao máximo o seu dia. Façam algo extraordinário. Vocês podem não acreditar, mas um dia todo mundo nesta sala estará morto.” O que vou fazer de incrível hoje? E você?

Amanhã sabe-se lá. Amanhã você volta a beber, ou decide se enforcar, ou se apaixona, ou se conforma em picar cartão e pagar as contas. Na mesma entrevista para a repórter Decca Aitkenhead, no Guardian, Robin lembra quando voltou a beber, depois de muitos anos sóbrio. Ele estava filmando em uma cidadezinha do Alaska, e “estava sozinho e com medo, trabalhando muito, e pensei puxa, quem sabe um trago vai ajudar. E aí eu bebi e me senti feliz e maravilhoso, e aí voltou a ser um problema, e voltei a me isolar e a ter medo. Medo de tudo. E você pensa que a bebida vai aliviar o medo, mas não alivia.” E o repórter pergunta, você tinha medo do quê? “De tudo.”

Agora você não precisa mais ter medo, Robin.

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Publicado em 11/08/2014 às 00:30

Meu último texto sobre o U2, meu primeiro sobre a Internet

Junho de 93, e a capa da Bizz caiu a dias do fechamento. Jargão de editor de revista – o que você tinha planejado pra capa, por qualquer razão, tinha dado errado, e você era obrigado a inventar uma solução do dia pra noite. Nem lembro o que era.

Salvação: meu chefe José Augusto Lemos negocia com a gravadora do U2 uma audição do novo disco. Toca eu para o Rio no dia seguinte, bate-volta. Numa sala fechada na BMG ouvi sozinho Zooropa, duas vezes, anotando feito louco e copiando todas as informações do encarte, e voltei para São Paulo.

Saiu este texto abaixo, parido em duas tardes, capa da penúltima Bizz que editei. Na verdade são três textos, o principal, um sobre a nova turnê, e uma resenha do disco. Foi inspirado por Neal Stephenson, autor de SnowCrash, e pela leitura religiosa da revista Wired, minha bíblia na época. Usa o U2 para falar do que me interessava naquele momento e prefigura os próximos passos do autor - a saber, pedir demissão para começar minha própria revista, editora, negócio, vida adulta.

Não lembro de onde tirei tanta informação. Relendo, concluo que dá pra ler até hoje, 21 anos depois, e considerando que eu tinha 27, até que me orgulho do resultado. E Zooropa continua sendo meu disco favorito do U2, meio o que eu esperava que David Bowie fizesse naquela altura do campeonato, e não fez.

Curioso: neste texto em que a internet é a principal personagem, nenhuma vez aparece a palavra internet. Nem web, claro. A web ainda não tinha sido criada...

digitalizar00011 Meu último texto sobre o U2, meu primeiro sobre a Internet

Além da imaginação

Bono travestido? O U2, grande bastião do “rock visceral”, produzindo hits para discotecas? Uma banda católica, posando ao lado de modelos seminuas? O U2 está passando por uma mutação surpreendente - mas agora Bono & Cia.

Radicalizaram definitivamente seu trabalho, com um disco ousadíssimo. André Forastieri tenta entender o que se passa com esse mundo muito estranho e sua maior banda de rock.

  • CONFIRMADO 9/05
  • NOVO DISCO DO U2 ZOOROPA LANÇAMENTO MUNDIAL: 6/07
  • PRIMEIRO SINGLE/CLIP “NUMB” /LANÇAMENTO MUNDIAL: 26/07
  • NOVO DISCO DE REMIXES PARA PISTA EM OUTUBRO
  • CONFIRMADA RENOVAÇÃO COM A GRAVADORA ISLAND
  • CONTRATO CALCULADO EM MAIS DE CEM MILHÕES DE DÓLARES
  • O NEGOCIO MAIS CARO DA HISTÓRIA DA MUSICA INCLUI COMPRA DE DEZ POR CENTO DA ISLAND PELO U2
  • BANDA FAZ SUA TURNÊ EUROPEIA ATÉ 30/07
  • A IMPRENSA ANUNCIA A SAÍDA DO BAIXISTA ADAM CLAYTON DO GRUPO

Estamos no amanhecer de um novo mundo - onde estaremos todos conectados via fibra ótica, brigando e se amando e aprendendo e votando e transmutando a maneira como nossos cérebros funcionam e principalmente, antes de mais nada, comprando (o shopping-orgasmo, além dos nossos mais desvairados sonhos, agora ao alcance de seu controle remoto). Enquanto isso, milhões apodrecerão de fome e Aids e mediocridade e analfabetismo tecnológico. Velhos conflitos, novos problemas, soluções efêmeras - cada vez mais rápido e mais na sua cara.

Um grupo de rock formado por quatro irlandeses está firmemente convencido de que cabe a eles compor a nova trilha sonora, catalisar os beats pelos quais todo o planeta dançará. Mais que isso, eles querem articular esse universo fragmentado de mudanças contínuas de maneira artística e militante.

Criar pontes de compreensão e comunicação. Estar ali, na fronteira do futuro. Surfar na Terceira Onda. O disco Achtung Baby e sua simultânea Zoo TV Tour já tentavam estabelecer as novas regras do novíssimo jogo. Que não basta fazer música - é preciso participar! - já era um dado fundamental no histórico do U2 (é bom lembrar The Commitments: a Irlanda está para a Europa como os negros blueseiros para a América W.A.S.P.). Mas agora Bono Vox, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton redefiniram seu conceito de militância. O que está mudando o mundo, diz muita gente e eles acreditaram, não é votar nos partidos de esquerda (left is right) nem militar nos sindicatos (aparelhos obsoletos) nem fuzilar nossos governantes (primeiro porque eles serão substituídos por gente tão bunda quanto e segundo porque só estão fazendo seu trabalho: administrar aos trancos e barrancos as ruínas da sociedade industrial).

Não, o que está mudando o mundo é - um, dois, três - a tecnologia. Todo mundo sabe: na virada do milênio, o que passa na televisão passa por realidade. A popularização do controle remoto tem mais peso político que os conchavos dos engravatados - e a explosão da interatividade fará de cada consumidor parte de uma rede global de conhecimento, informação, atuação e consumo.

O indício mais óbvio deste novo mundo está nas nossas caras: a MTV (uma vitrine empastelante criada única e exclusivamente para vender discos!) se tornou um instrumento político fundamental. Por que você acha que Clinton se elegeu? É outro jogo, com outras regras e o divertido é que o próximo estágio do capitalismo tem suas regras na música e na cultura pop. O U2 sacou que este mundo novo é tão filho dos investimentos em tecnologia, que o Pentágono bancou nos anos 80, quanto do LSD. Tão ligado ao marketing de guerra quanto ao espírito empreendedor da cultura punk.

Economistas hardcore, samurais corporativos, futurólogos governamentais - todos concordam numa coisa: estamos passando de uma sociedade industrial para uma sociedade informacional, em que o principal capital será o conhecimento. O setor estratégico da economia mundial, dizem os experts, passa agora a ser uma interface entre telecomunicações, informática e entretenimento. Tanto que criar uma “auto-estrada informacional” virou prioridade do governo americano.

Que esse futuro já está às nossas portas é consenso. Não tão divulgadas são as consequências nefastas que essa mudança radical trará. A recessão não vai acabar. Quem ficar fora deste processo evolutivo/tecnológico estará destinado ao desemprego crônico. Os pobres continuarão ficando cada vez mais pobres, os ricos cada vez mais ricos. As rivalidades nacionais/ tribais continuarão esquentando - a coisa vai do neonazismo incendiando turcos na Alemanha unificada ao separatismo brasileiro. O que, mais uma vez, mexe com o âmago do conceito U2 - a bronca, a militância, a luta contra a injustiça (é careta? Pode ser, mas também é fundamental). Como dizia Norman Mailer nos anos 60, “vem uma tempestade de merda por aí”.

Você pode ver isso como os últimos espasmos da civilização, ou como as dores de parto de um mundo novo e interessante. Descobrir de que lado deste muro você está é a grande questão político/cultural da nossa era. Com tudo isso rolando, é apropriado que o pop - um dos pais desse mundo de ficção científica - tente articular essa visão moderna (e modernosa) dos anos vindouros em termos pop. Muita gente se meteu na mesma praia antes - mais obviamente grupos de tecno, gente que faz som para rave, industriais e eletrônicos em geral. Agora, até Billy Idol está lançando um disco de base tecno chamado Cyberpunk.

Mas foi Achtung Baby e a Zoo TV Tour que levantaram essa bola futurista em termos de massa. Afinal, o U2 ainda é “a maior banda de rock do mundo” (se é a melhor ou a que vende mais não vem ao caso, mas que é a maior, ninguém discutirá). Daí o swing oriental de “Misterious Ways”, remixado para as pistas (duas fronteiras da nova era interligadas: a visão multiculturalista e os garotos chapados de designer drugs dançando a noite toda). Daí as táticas situacionistas, o apoio ao Greenpeace (a política do amanhã está nas organizações informais, flexíveis, não-governamentais). Daí a auto-referência, o senso de humor, o terno dourado.

Daí a banda vestida de mulher em revistas de moda (e na capa desta revista), a embaralhação de signos tradicionais do superstar, e daí a monstruosa blitz de mídia em 91/92 (e agora 93, da qual fazemos orgulhosamente parte - é bom de vez em quando estar do lado que vai ganhar). E daí Zooropa disco e a tour - o mais ambicioso disco do U2 a mais ambiciosa tour da história.

zoo Meu último texto sobre o U2, meu primeiro sobre a Internet

Sem fronteiras

Em 91/92, era a Zoo TV Tour. Zooropa 93 é uma versão muito revista e muito melhorada. São trinta datas, começando 9 de maio em Roterdã e acabando 31 de julho em Estocolmo. Os menores shows são para 30 mil; os maiores, para 70 mil. Se todos os shows lotarem, U2 terá sido visto por quase dois milhões de pessoas durante três meses. Para pagar os custos de cada show, é necessário que pelo menos 85% dos ingressos tenham sido vendidos. Ao mesmo tempo, o U2 não aceitou nenhum patrocínio corporativo, com exceção de um acordo de cobertura especial com a MTV Internacional.

Para compensar a ausência de patrocinadores, a tour oferece um dilúvio de merchandising de todos os tipos - bonés, camisetas, fivelas para cinto, adesivos e até uma nota falsa de ECU (o novo dinheiro da Europa unificada). Entre os que estão abrindo para o U2 em shows diversos estão grupos tão variados quanto Velvet Underground, Belly, Einstürzende Neubaten, Stereo MCs e o DJ Paul Oakenfold. Os telões da Zooropa 93 foram especialmente desenvolvidos para a banda pela Philips, pioneira na área de TVs de alta definição. A empresa controla a PolyGram e através dela a Island. U2 aceitou dez por cento da propriedade da Island, sua gravadora, em troca de royalties atrasados. U2 e Philips são, portanto, sócios.

A programação de vídeo de cada show varia. Ela vem de três fontes: um grupo americano que trabalha com sampleagem e colagem de vídeo, o Emergency Broadcast Network; o produtor/diretor/músico Kevin Godley, da dupla Godley & Creme, ex-10 cc; e de filmagens feitas com e pela platéia durante cada show. Bono controla parcialmente o que está nos telões, via controle remoto. O show inclui todos os grandes hits do U2, Achtung Baby e Zooropa praticamente inteiros, uma versão de “Satellite Of Love” de Lou Reed, mais músicas compostas pelo grupo para outros artistas, inclusive “Prodigal Son” (que foi gravada pela banda mas não entrou no novo disco, mas estará só no do cantor de soul americano Al Green, que Bono considera a maior influência sobre seu estilo de cantar) e “The Wanderer” (que está em Zooropa, na voz do cantor country e um dos inventores do rock´n´roll, Johnny Cash. A música foi composta especialmente para Cash). Os shows sempre abrem com “Zooropa”, e geralmente terminam com “Are You Lonesome Tonight”, o velho clássico de Elvis.

É na última parte do show que Bono aparece como “MacPhisto” (uma piada: Mefisto, o demônio tentador, que faz qualquer negócio em troca de uma alma - só que irlandês). Usa terno dourado brilhante, sapatos plataforma, maquiagem pesada e chifres vermelhos. É neste alter ego cafona, uma paródia/auto-referência, que Bono interpreta alguns dos maiores sucessos da banda - inclusive a mais famosa balada do U2, “With Or Without You”. Sobre o personagem, Bono disse: “não sei de onde ele vem, nem sei para onde ele está me levando. É excitante e amedrontador ao mesmo tempo”. É mais um dos muitos jogos de cena de Bono, que escandalizaram/ deliciaram os fãs do U2 nos últimos tempos. Entre os mais chamativos estiveram posar vestido de mulher (você já viu); rebolar, apalpar e encoxar bailarinas durante os shows desta turnê; aparecer bêbado carregando uma garrafa de conhaque em entrevistas coletivas e fazer editoriais de moda para a Vogue ao lado da modelo Christy Turlington, seminua.

Apesar das baixarias no decorrer da turnê, o grupo encontrou alguns de seus heróis literários. William Burroughs - padrasto do movimento beat e uma lenda americana - participou de um show de TV com a banda. Salman Rushdie, até hoje sob ameaça de morte por parte dos xiitas iranianos por causa do livro Os Versos Satânicos, se encontrou com eles num fórum sobre censura em Dublin. Charles Bukowski, afiliado distante dos beatniks e bêbado escroto de marca maior, assistiu ao show em Los Angeles. Gunther Grass, autor de O Tambor e um dos intelectuais mais respeitados da Alemanha esteve com o grupo em Berlim.

No futuro próximo o U2 pode mudar de cara. Correm boatos de que Adam Clayton pode deixar a banda (ele é o único não-crístão da banda e está noivo da modelo Naomi Campbell). O futuro imediato da banda? Bono fará um dueto com Frank Sinatra para seu próximo disco, produzido por Quincy Jones. Willie Nelson e Al Green gravarão faixas especialmente compostas para eles por Bono. Em outubro sai outro lançamento, com cinco faixas deste disco remixadas para pista - quais, ainda não foi anunciado. E o mais interessante: o U2 está produzindo em acordo com a gigante dos videogames Sega um CD-Rom - não um jogo, mas um produto interativo que une música, vídeo, texto. Mais um passo na direção certa.

u2zooropa Meu último texto sobre o U2, meu primeiro sobre a Internet

Apocalipse experimental

E depois que Zooropa 93 acabar Bono já anunciou que esta turnê só acaba definitivamente depois que a banda tiver tocado nos cinco continentes. Resta portanto os países do Pacífico - que provavelmente receberão uma versão um pouco diferente da excursão ainda este ano - e América Latina. Tanto os fãs de “Sunday Bloody Sunday” quanto os de “The Fly” vão estranhar. A nova parceria do U2 com Brian Eno - produtor que fez o estouro da banda de The Unforgettable Fire para frente - vai mais longe do que qualquer supergrupo já foi.

Zooropa, o disco, é a cara de Zooropa 93, a tour - uma superprodução que embaralha completamente o que se espera do U2 com o que o grupo espera de si mesmo. Antes de mais nada, porque é um disco conceitual. A ambição explícita é retratar um mundo que vive na fronteira da revolução eletrônica - e como isso afeta o cotidiano das pessoas comuns deste planeta. Como viver num mundo em constante transformação afeta os sonhos, as aspirações políticas, as angústias pessoais e as expectativas espirituais do cara aí na esquina. E ambição demais para um mero disco. Muita gente boa já gastou milhares de páginas tentando articular essa visão, inclusive o escritor William Gibson, o mais importante criador da ficção científica cyberpunk e segundo Bono o grande inspirador de Zooropa.

As gravações foram realizadas em intervalos desta turnê européia. Quando o grupo tinha uns dias livres, voltava rápido para o estúdio, em Dublin. Esse método de composição e gravação se refletiu no feeling final do disco. E um trabalho muito europeu, dos temas das letras aos timbres usados. O resultado final remete imediatamente à virada dos anos 70 para os 80: o David Bowie berlinense de Low, Lodger, Heroes: o refinamento do Roxy Music; as experimentações de base pop do Japan. E alguma coisa difícil de definir, talvez a angústia, do Joy Division.

Claro que Zooropa não é um xerox amarelado dessa fase do rock. O disco soa moderníssimo: Flood e Brian Eno cuidaram disso. Flood foi o engenheiro de som. E um dos mais importantes produtores de música eletrônica do mundo. É colaborador local” do selo Mute, onde produziu (e/ou remixou) quase todo mundo que é alguém no tecnopop britânico. Seu associado mais famoso e o Depeche Mode.

Brian Eno vai um pouco mais longe. Eno é um dos grande experimentadores da história da música. Começou no Roxy Music, no início dos 70. Trabalhou muito com Robert Fripp, outro grande experimentador, inclusive na ´trilogia Berlim” de David Bowie. E um dos pioneiros da música ambient - que hoje se infiltra até no maior domínio do ritmo, a dance music. Fez o influente disco de world music ambiental (na época, o rótulo era etnopop) My Life In The Bush Of Ghosts, com David Byrne. Recentemente voltou ao pop com John Cale, no disco Wrong Ways Up. Continua sendo vanguarda - seja lá o que isso quer dizer.

No meio dessa história toda, Eno achou tempo para produzir o disco que estourou o U2 mundialmente - The Unforgettable Fire - e ainda o seguinte. The Joshua Tree, que sedimentou definitivamente o status da banda. Zooropa não tem nada a ver com esses discos. Demorou, mas finalmente o U2 (visceral, obcecado por ritmos americanos, tocando rock de arena com refrões poderosos) e Brian Eno (dandy, esteta, sutil, mago de estúdio) sincronizaram seus interesses. O resultado deste encontro é modular, monotônico, hipnótico. Refrões são desimportantes. Quase nenhuma música permite se cantar junto, muito menos assobiar. Ao todo, são dez faixas. A primeira é a música-tema “Zooropa”. Imagine ouvir “Until The End Of lhe World” numa estação de rádio que não está bem sintonizada e dá para imaginar. A música estabelece o clima do disco todo. É épica mas contida: não tem um pingo de paixão. Quando a guitarra fala alto, não é uma explosão: é estática calculada. Se a bateria martela não é para ninguém dançar, e sim para sugerir os passos sincronizados de nazistas marchando. A letra é um amontoado de slogans publicitários.

Depois desse inferno sombrio, “Babyface” parece um alívio. Parece uma baladinha eletrônica feita por David Bowie. Só que o romance é com uma criança. “Devagarzinho… deixa eu desamarrar sua renda… abre a porta… deixa eu desarrumar minha mala… você está vindo a mim (gozando sobre mim), direto do espaço sideral.”

Uma banda famosa por ser católica cantar as delícias da pedofilia já seria estranho o suficiente. Bem mais estranha é a faixa seguinte, “Numb´, ter sido escolhida como primeiro single/clip. “Numb” não tem refrão, não tem explosão, não tem atitude. A voz de Bono está irreconhecível. A letra se limita a dizer “não”. É “não faça/não se mexa! não pense/não ouça a banda/não viaje de trem/não sussurre etc. etc. As palavras são repetidas baixinho, como um mantra que veio do espaço; a base é circular; tudo que não é a voz ou a base é textura, estática, intervenção.

“Lemon” tem mais cara de hit. Repetitiva como todo o resto do disco - aliás a ideia de repetição e reciclagem é um dos temas fundamentais de Zooropa -,funciona como canção de amor, como trilha para raves e homenagem atravessada a Prince e aos new romantics. Sintetizadores e um majestoso arranjo de cordas são cortesias de Brian Eno. “Stay (Faraway, So Close!) tem aquela melancolia lenta de quem está na estrada. Diz “tão longe, tão perto/para frente com a estática e o rádio, com a TV via satélite/você pode ir a qualquer lugar/Miami, Nova Orleans, Londres, Belfast e Berlim”.

É a coisa mais parecida com o U2 de antigamente no disco, talvez porque não tenha a participação de Brian Eno. Mas “Daddys Gonna Pay For Your Crashed Car” também não tem Eno e é uma das músicas mais ousadas de Zooropa. É o U2 se reinventando como uma parceria imaginária do My Life With The Thrill Kill Kult com Stereo MCs e Tackhead. Contém um sample de fanfarra, tirado do disco As Canções Favoritas De Lenin, e outro de “The City Sleeps”, música do duo industrial texano MC900 Ft Jesus. Tem cara de sucesso de pista. O tema, disse Bono numa entrevista, é ´heroína e dependências de todos os tipos”.

“Some Days Are Better Than The Others” se parece bastante com “The Fly”, só que numa versão estilhaçada. Recoloca a questão básica presente em Zooropa, e do mundo que este disco quer representar. Como uma coisa tão melódica, tão grandiosa, tão tipicamente U2/anos 80 pode soar tão alienígena? A pergunta não tem resposta, só reforço: “The First Time”, uma canção de amor daquelas de tocar ao violão, acabou virando um tema ambiental que presta homenagem atravessada a Lou Reed (”Kill Your Sons”) com timbres de cold wave e Brian Eno ao piano.

O fim se aproxima com “Dirty Day”, homenagem ao escritor Charles Bukowski. A letra, como o homenageado, romantiza a vida na sarjeta apresentando-a da maneira mais realista possível. Formalmente, esta é a última música do disco - e ele fecha repetindo as características principais que atravessam o trabalho todo.

Resta para o final o grande momento de Zooropa. “The Wanderer” foi composta quando Bono soube que Johnny Cash estava em Dublin. Cash é um dos sobreviventes da era dourada do rock´n´roll, os anos 50. Era um dos integrantes do “quarteto de um milhão de dólares”, ao lado de Jerry Lee Lewis, Carl Perkins e Elvis Presley. Como cabia às suas raízes caipiras, se virou para o country - country de macho, nômade, falando de coisas como dor de cotovelo, solidão, trabalho, falta de grana, falta de amor.

É o próprio Johnny Cash que canta “The Wanderer”. E tristonho sem ser meloso, desiludido sem perder a vergonha na cara. Uma típica canção de cowboy para o fim do milênio. Periga ser o momento mais emocionante de Zooropa e Bono nem está presente. Melhor assim, sem maiores frescuras. A união de Johnny Cash e Brian Eno fecha da melhor maneira possível o que já é um dos melhores discos do ano.

(Bizz, 93)

40332 1321804822 size3 Meu último texto sobre o U2, meu primeiro sobre a Internet

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Publicado em 07/08/2014 às 00:05

São Paulo sem água, parte 1: a culpa não é da Sabesp

água São Paulo sem água, parte 1: a culpa não é da Sabesp

“Alguém já parou para pensar que, se o Governo do Estado de São Paulo tivesse tratado seriamente as previsões de colapso do Sistema Cantareira feitas desde 2001, talvez não estivéssemos vivendo o dilema de submeter 6,5 milhões de pessoas a um racionamento de água?”

A frase acima é de 2004. É resultado de uma busca na internet. Escrevi “Cantareira” e “2004”. Porque escolhi esse ano? Só pra ver onde estávamos há dez anos. Estávamos mal. Agora estamos pior. A cidade cresceu. Nosso governo continua pequeno.

São Paulo vive a pior crise de abastecimento de sua história. Não é obra da natureza. A demanda de água do estado cresceu muito. Pouquíssimo foi feito para nos preparar, seja em termos de captação e gestão da água, seja em termos de legislação e educação dos paulistas.

O foco das críticas tem sido a Sabesp. O foco está errado. A Sabesp é uma empresa de capital misto, controlada pelo governo do estado de São Paulo, que controla 51%. O estado poderia usar seu poder na empresa para beneficiar a população. É o caso da Petrobras: o governo federal decidiu segurar o preço da gasolina, para segurar a inflação, e conseguiu (gerando prejuízos para a empresa e seus acionistas, e levando pau de todo lado).

Em São Paulo, a Sabesp foi focada no lucro. Bem, está funcionando. Vem tendo uma belíssima margem de lucro. Em 2013, foi R$ 1,92 bilhão, sobre uma receita de R$ 11,31 bilhões. Diversos especialistas dizem que o racionamento deveria ter começado em dezembro. Ora, o negócio da Sabesp é vender água - porque a gente iria esperar que eles propusessem vender menos água? Esse tipo de decisão não cabe à empresa que presta serviços ao estado. Mesmo que esta empresa seja controlada pelo próprio estado. É uma decisão de governo, porque afeta diretamente toda a população, com repercussões dramáticas para a população e para a atividade econômica em geral.

Há muitos anos os experts em recursos hídricos alertam para o risco do estado ficar sem água. Nosso governo prefere ignorar. Alckmin continua fazendo que não é com ele. A eleição vem aí. Em vez de assumir sua responsabilidade e enfrentar o problema de frente, é mais fácil colocar a culpa pela seca em São Pedro e torcer para os eleitores caírem. Aqui no R7, a cobertura é cotidiana, e já merece página dedicada somente ao tema.

Não chegamos ainda no fundo do poço. Porque a previsão para a próxima estação de chuvas é de pouca chuva. Essa reportagem do Climatempo é bem esclarecedora. A média de chuvas entre período e março no sistema Cantareira é de 1.250 milímetros. Isso faz com que de um ano para o outro, ele recupere uns 30% do seu volume total. Se nesse próximo verão acontecesse isso, íamos recuperar o tal volume morto, que é uns 18% do volume total, e mais 12%. Ou seja, São Paulo iria começar a estação de seca de 2015 com pouca água. Mas a previsão é que este ano o volume de chuvas ficará abaixo do normal. Nem os 30% vamos conseguir repor. A seca vai até 2016 – pelo menos.

 

 

Como chegamos nesse estado de coisas? Vai além do descaso administrativo e da estratégia eleitoreira.  Segundo reportagem na edição de ontem da Folha de S. Paulo,  o Tribunal de Contas do Estado considerou irregular a licitação de uma obra realizada pela Sabesp justamente para aumentar a capacidade do sistema Guarapiranga, terceiro maior fornecedor de água para a região metropolitana. A obra permitiria que a Guarapiranga passasse a fornecer água para moradores que hoje são abastecidos pela Cantareira. O conselheiro do Tribunal, Renato Martins Costa, afirma que a Sabesp fez tantas exigências restritivas, “que acabaram por contaminar a licitação.”

Por isso, das 62 empresas interessadas, só quatro entraram no pregão. A vencedora foi a empresa Centroprojekt do Brasil, filial de uma empresa da República Tcheca. O resultado saiu em julho de 2013.

A licitação promovida pela Sabesp, então, foi “contaminada”. A obra vai parar? Alguém será punido? Não, o parecer do TCE não barra a obra. Só multa os dois funcionários da Sabesp responsáveis pela licitação... em R$ 4028,00 cada um. É, multa total de oito mil reais e uns trocos.

Se a licitação foi contaminada, quem pode parar tudo e investigar? O controlador, o governo do estado. A Folha apurou que as membranas para filtrar a água e torna-la potável foram compradas no exterior e ainda nem foram entregues no Brasil, muito menos instaladas. Mas a Sabesp afirma que o trabalho será entregue até outubro...

Isso acontece no estado mais rico do país. Imagine se fosse nos estados mais pobres!  Bem, nem precisamos imaginar. Os estados mais pobres do Brasil vão de fato passar por seca muito pior, e ela vai vai durar décadas a fio. Está em todas as previsões dos climatologistas. O pior impacto do aquecimento global será no sertão nordestino, já tão castigado por pouca chuva e muito coronel.

Mas o Brasil todo será afetado. Segundo o instituto CPTEC/INPEC, nos próximos cem anos a temperatura média na Amazônica poderia subir oito graus centígrados, causando uma queda de 20% no volume de chuva. A Unicamp fez um estudo analisando o risco climático para cinco tipos de safra: café, arroz, feijão, milho e soja. No pior cenário, até o final do século 21 a produção total destas safras poderia cair em até 50%.

Desafios desta dimensão estão fora da alçada de empresas, seja a Sabesp ou qualquer outra. É coisa para política do mais alto nível, política com P maiúsculo. Tem que ser parte do pensamento estratégico do país. Você viu algum candidato a presidente tocando nesses assuntos? Claro que não. Pra que falar de problemas, ainda mais problemas seríssimos? Melhor povoar discursos e programas de TV com soluções mágicas.

Se tivéssemos agido 20 anos atrás, 10 anos atrás, seis meses atrás, São Paulo não estaria sem água. Agora, o racionamento já está acontecendo. Resta olhar para o presente, de olho no futuro, cobrar forte quem tem que ser cobrado, e botar a imaginação para funcionar.

Cem anos parecem muito. Impressão errada. Decidi escrever sobre esse assunto (e voltarei a ele) quando assisti uma reportagem sobre a Cantareira na companhia de uma senhora de 93 anos. O tempo passa rápido. Pena que o eleitor aprende tão devagar.

 

Publicado em 31/07/2014 às 00:05

Guardiões da Galáxia: o maior filme sem–vergonha da história

guardians of the galaxy movie Guardiões da Galáxia: o maior filme sem–vergonha da história

Eles parecem perigosos, mas não acredite nisso

Guardiões da Galáxia é um dos maiores lançamentos da história do cinema. Estreia em 42 países ao mesmo tempo. Nos EUA são 4800 salas, das quais 3200 em 3D. Destas, 350 são no formato Imax. É um obscuro grupo de super-heróis, com a diferença que suas aventuras se passam no espaço. Mas é da Marvel. E a Marvel é da Disney. O plano é criar uma nova franquia, ao estilo dos Vingadores. Será? Não faço ideia se o grande público vai curtir. Mas os molequinhos vão. E seus pais que cresceram assistindo besteiras parecidas, também.

Como eu. Meu primeiro videocassete foi resultado de uma aposta. Com meu pai. Entrei na USP aos 17 anos e ganhei. Ele não acreditava que eu conseguiria. Pagou satisfeito. Era mais que meu sonho de consumo. Era um sonho, ponto: poder ver qualquer filme a qualquer hora. Foi a era de ouro da pirataria. Os donos de locadoras traziam tudo gravado dos EUA. Contratavam qualquer um pra fazer as legendas. Resultados surreais: Clint Eastwood em um filme falava de seus colegas “Forensics” e “O´Micide”.

Os videocassetes serviam para a gente ver os grandes filmes que ainda não tinham chegado no Brasil, as obras-primas do passado, produções underground – e muita, mas muita porcaria. Talvez seja a palavra errada. Mas aconteceu uma explosão no número de filmes produzidos anualmente nos EUA. É que como na época que os drive-ins foram populares, décadas antes, o sucesso dos videocassetes gerava anualmente centenas de produções pensadas para serem distribuídas diretamente em vídeo. Sem passar pelos cinemas. Ou passando rapidinho, só pra chamar atenção, e buscando 90% de sua receita nas locadoras.

Então tinha que ser apelativo. Não tinha grandes astros ou orçamentos. A produção era na raça e o objetivo escancarado era faturar, e dane-se a arte. Então era um maremoto de policiais violentos, e terror sanguinolento, e comédias teen picantes, e muita ficção científica, sub-Mad Max, sub-Alien, sub-Star Wars. Às vezes, tudo junto. Nossa, que vontade de rever a filmografia completa da Empire Pictures – “From Beyond”, “Trancers”, “Eliminators”, “Robot Jox”.

Os críticos da minha geração,  pelo menos os criados nessa dieta de louco, estão comparando Guardiões da Galáxia com um “clássico” da época, Piratas do Gelo, pelo jeitão sarrista. Vi, claro, vi tudo, e Robert Urich era estrelão de TV na época, SWAT e Vegas. Claro que eu iria ver. Mas, sinceridade, tinha deletado total. Puxei a ficha agora na Wikipedia, há que ver de novo. Tem Angelica Huston e Ron Perlman. O visual é demais, estilo bandoleiros cósmicos nos embalos de sábado à noite.

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Fever night fever

Eu saí da cabine de Guardiões lembrando de Mercenários das Galáxias, Battle Beyond The Stars, de 1980, que vi umas três vezes. Misturava Guerra Nas Estrelas com Os Sete Samurais. A descrição faz parecer melhor que é. O mocinho era Richard Thomas, John-boy na série Os Waltons. Liderava um time de anti-heróis, que se estranhavam e terminavam se unindo contra um ditador cósmico. Elenco delícia total: George Peppard (O Esquadrão Classe A), John Saxon (Operação Dragão), Robert Vaughn (O Homem da U.N.C.L.E). E a coelhona da Playboy Sybyl Danning como uma Valquíria espacial!

É uma nota de rodapé no currículo de Roger Corman, gênio da picaretagem que fez 200 filmes independentes em Hollywood, nunca perdeu dinheiro, e deu a primeira chance pra gente como Martin Scorsese, Francis Coppola e James Cameron. É o cara que todo mundo que produzia filmes direto para vídeo queria ser quando crescesse. Que Corman e seus discípulos inspirem uma produção da Marvel de 180 milhões de dólares diz muito sobre o estado do cinema em 2014...

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Boa noite, John-boy

Os efeitos especiais  melhoraram bem de 1980 para cá. Então as encarnações cinematográficas dos Guardiões fazem justiça a suas versões nos quadrinhos. O time de Starlord, Gamora, Drax, Groot e Rocket Racoon foi criado em 2008 pela dupla de escritores Dan Abnett e Andy Lanning.

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A primeira aparição de Peter Quill, o Starlord

Gamora e Drax são criação original do doidão Jim Starlin, que viu o filme e aprovou. Starlord foi idéia de Steve Englehart, que também inspirou o recente Capitão América: O Soldado Invernal, o melhor filme produzido pela Marvel, por incrível que pareça, e defendi a tese uns meses atrás.

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Bill Mantlo e os Micronautas, por John Byrne

Quanto a Rocket Racoon, é criação de Bill Mantlo, que precisa muito da sua ajuda, amigo leitor. Colabore para tornar a vida de Steve mais confortável neste exato minuto

Eu fiz isso, ganhei o dia, e contei a história.

Cinema sempre foi linha de montagem. Na época de Corman, e da explosão do videocassete, também. Mas estamos em 2014, e defendo que os criadores devem receber por suas criações, e receber os devidos créditos. Nem um nem outro costumam acontecer. Nesse caso, seria algo como: "Os Guardiões da Galáxia são criação de Stan Lee, Jack Kirby, Arnold Drake, Gene Colan, Jim Starlin, Steve Englehart, Bill Mantlo, Jim Valentino, Dan Abnett, Andy Lanning e Paul Pelletier." Isso pra incluir só os obrigatórios. E deste time deveriam fazer parte também o diretor James Gunn, e Nicole Perlman, com quem assina o roteiro.

Gunn é o típico cara que iniciaria sua carreira com Roger Corman. Não deu tempo: Gunn, 42 anos, é jovem demais para isso. Então começou no cinema carregando pianos para um discípulo de Corman, Floyd Kaufman, da Troma, produtora especializada em filmes de terror trash. Gunn adora essas paradas superpop e baixaria. Escreveu filmes do Scubidu cheios de monstros bizarros. E bolou um videogame sobre uma cheerleader que massacra zumbis com sua motoserra.

Lollipop chainsaw achievements guide Guardiões da Galáxia: o maior filme sem–vergonha da história

Sexo e motosserra sempre vende

Essa é sua grande contribuição: o espírito de moleque. Tchau para o tom dramático das últimas fornadas de superproduções. Certo que Gunn faz menção a esse ou aquele pedacinho do universo Marvel, para orgasmo dos fanzocos na platéia. Certo que o filme tem grandes explosões e tiroteios e quebra-paus. E certo que o protagonista, Chris Pratt, segue a linha posta-de-carne-tirando-sarro-de-si-mesmo que é o padrão desta geração (Channing Tatum, Aaron Taylor Johnson etc.).

Mas no meio de tantas apostas no certo, impressiona o risco assumido. Seja no design, homenagem às capas de revistas de ficção científica da época, tipo OMNI. Na trilha sonora pop-rock setentista, central na história. E principalmente no tom do roteiro. Captura perfeitamente o espírito de porco desses pré-adolescentes que passam o dia na internet, compartilhando memes e trollando os incautos. Alguns momentos são absurdamente abilolados. Quando chegamos ao enfrentamento final entre Starlord e o bandidão Ronan, é duro acreditar que uma corporação multinacional aprovou um desfecho tão biruta.

Gunn faz elegantemente (!) a ponte entre a geração que cresceu curtindo os Piratas de Gelo e os Mercenários da Galáxia, como ele mesmo (e eu e meus amigos) e os meninos de hoje. Garotos criados e curtidos nos games online, nas redes sociais, no Youtube e no Imax 3D. Se aquela época foi boa, hoje é melhor, porque a oferta de filmes e séries e caretice e maluquice é infinita, e porque gente como Gunn tem chance de zoar geral. Guardiões da Galáxia, veja bem, não é um grande filme. Pelo contrário. É um filme sem vergonha de pensar pequeno. De ser apelativo, boboca e mercenário, como tantos feitos direto para videocassete, três décadas atrás. Só que em vez de ser barato, custou 180 milhões de dólares. E este é o seu charme.

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Publicado em 28/07/2014 às 16:14

Desempenho em Pernambuco desqualifica candidatura de Eduardo Campos à presidência

 Desempenho em Pernambuco desqualifica candidatura de Eduardo Campos à presidência

Pernambuco piorou sob Eduardo Campos. Não há porque imaginar que faria melhor, governando o Brasil. É sua performance que deve ser avaliada, e não sua juventude ou "novas idéias". Não cabem debates vazios sobre Marina Silva, e sua suposta santidade ou suposto fundamentalismo. Marina pode e deve ser avaliada - inclusive por associar sua força política a um gestor tão medíocre. Mas é o currículo de Campos que precisa ser esquadrinhado agora.

 

Eduardo tem 48 anos. É formado em economia. Nunca trabalhou na iniciativa privada. Com 21 anos, em 1986, foi ungido chefe de gabinete de seu avô, Miguel Arraes. Em 1990, 25 anos, se elegeu deputado. De lá para cá só fez política. Governa o estado desde 2007. Conquistou o eleitorado como herdeiro político de Arraes, três vezes governador de Pernambuco; Eduardo foi secretário da fazenda, em uma das gestões. Vem sendo apresentado como candidato moderno e independente, próximo de empresários e ambientalistas, de tucanos e petistas. Não quer ser do contra. Diz que é capaz de "fazer melhor".

 

Se é mesmo, porque não fez em Pernambuco? O discurso de Campos não resiste a uma brisa de realidade. A reportagem de Murilo Camarotto, do Valor, é um tufão. Camarotto fez um levantamento detalhado dos dois últimos censos da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad), e cruzou com dados dos ministérios da Saúde e Educação. Ouviu especialistas em Pernambuco. Escreveu uma reportagem de uma página. O texto é de jornal, sóbrio. As conclusões são arrasadoras para a candidatura de Campos.

 

A maior parte dos indicadores sociais de Pernambuco não subiu na gestão Campos. Diversos caíram. O estado caiu no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Ficou estagnado em expectativa de vida. Dos 23 estados brasileiros, Pernambuco está em 17º no Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Subiu somente um degrau desde 2005, um ano antes da eleição de Campos. No ensino médio se manteve em 17º, no período. O estado é o 8º com mais analfabetos. É o 16º em acesso a abastecimento de água, 19º em consultas médicas por habitante, e por aí vai.

 

A desculpa que é estado nordestino e pobre não justifica. Pernambuco teve performance pior que vários estados nordestinos. E foi dos estados que mais recebeu verba federal - recebeu mais de 2 mil obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.

 

A reportagem de Camarotto aponta melhora em alguns poucos indicadores. Mas revela um fato surpreendente. Explica porque o PIB pernambucano cresceu tanto (5,1% ao ano entre 2006 e 2012) e sua população continua com uma vida tão difícil. A professora da Universidade Federal de Pernambuco, Tatiane de Menezes, se baseia no chamado Índice Sintético de Pobreza Multidimensional para dar seu veredito sobre o governador. O índice agrega dados de acesso ao conhecimento e ao trabalho, disponibilidade de recrusos, desenvolvimento infantil, vulnerabilidade e condições habitacionais.

 

No Nordeste, Pernambuco foi o segundo estado que  menos baixou este indicador entre 200 e 2010. Sua posição no ranking da pobreza "multidimensional" inclusive subiu, de oitavo para sexto lugar. Segundo a economista, o crescimento do PIB se deu através de uma industrialização forçada, que atrai fábricas dando muitos benefícios fiscais e recursos do estado. "O PIB fica acima da média nacional", diz Tatiane, "mas vai para poucos empresários." E as melhores vagas, segundo ela, vão para trabalhadores que vêm do Sul e Sudeste. São fatia cada vez maior da população economicamente ativa de Pernambuco. Os pernambucanos não têm qualificação para estas vagas, justamente as melhor remuneradas.

 

Importante dizer que a violência caiu. Caiu 5,5% ao ano entre 2008 e 2013. Pernambuco foi dos poucos estados que conseguiu reduzir a violência no período. E com isso tudo, ainda é o segundo estado mais violento, com 38 assassinatos para cada cem mil habitantes, ficando apenas atrás de Alagoas.

 

A performance de Eduardo Campos faz as gestões pedestres de Aécio Neves e Dilma Rousseff parecerem brilhantes. Minas e Brasil avançaram muito mais que Pernambuco. Aliás, a maioria dos vizinhos de Pernambuco no nordeste também avançaram muito mais. Campos conquistou a avaliação de governador mais bem avaliado do Brasil à custa de factóides e relações públicas, que não resistem à análise fria dos dados.

 

O trabalho de Murilo, correspondente do Valor em Recife, é nova prova de que ainda há espaço - e necessidade - para o bom e velho jornalismo, investigativo e analítico. E demonstra que o Brasil não tem terceira via nas eleições de 2014. Por enquanto.

 

A íntegra da reportagem está aqui. É necessário se cadastrar. Vale a pena.

 

 

 

Publicado em 25/07/2014 às 12:27

Israel x Palestina: uma disputa entre fanáticos (e algumas ideias de como derrotá-los)

dt.common.streams.StreamServer Israel x Palestina: uma disputa entre fanáticos (e algumas ideias de como derrotá los)

Bebê ferido pelo bombardeio israelense na faixa de Gaza

 

O conflito entre Israel e Palestina não é um conflito entre o bem e o mal. É uma briga imobiliária. Uma disputa por território. Um choque entre dois direitos. Os Palestinos estão na  Palestina, porque são de lá. Os israelenses judeus estão lá porque não há outro país no mundo que o povo judeu possa chamar de lar.

Ser a favor da paz não é necessariamente ser a favor da Palestina, e muito menos da liderança palestina. E nem de Israel. O que os dois lados precisam é de chegar a um acordo, um compromisso. O oposto de um acordo não é idealismo, mas devoção, fanatismo e morte.

Este é um conflito entre vítimas. Vítimas do mesmo opressor, a Europa, que colonizou, explorou e humilhou o mundo árabe. É a mesma Europa que perseguiu os judeus por séculos, e finalmente cometeu contra eles um ato de genocídio sem precedentes. Os dois lados olham um para o outro e vêem seu antigo opressor.

Metade da população de Israel são pessoas que foram expulsas de países árabes e islâmicos. Israel é um grande campo de refugiados judeus.

Boas cercas fazem bons vizinhos. O passo crucial a ser dado é uma solução que crie dois países separados. O que é necessário é um divórcio justo entre Israel e a Palestina. Mas divórcios nunca são alegres, mesmo quando são separações justas. Eles dóem, e esse vai doer mais ainda. Porque os dois lados vão continuar morando no mesmo apartamento. Ninguém vai se mudar. E ainda vão ter que combinar as regras de uso do banheiro e da cozinha.

Vai demorar pra isso acontecer? Vai, mas menos tempo que os povos europeus levaram para parar de guerrear entre si. Não dá pra subestimar a miopia e estupidez da liderança política dos dois lados. Mas isso vai acontecer. Porque tanto os judeus de Israel, como os árabes palestinos, estão muito à frente de seus líderes.

Se você quer ajudar, não tem que escolher entre ser pro-Israel ou pro-Palestina. Você tem que ser a favor da paz. Porque essa é uma batalha entre os fanáticos, que acreditam que o fim justifica os meios, e o resto de nós, que acreditam que a vida é um fim, não um meio. Não tem nada a ver com os valores do Islã, ou a  mentalidade dos árabes, como alguns racistas defendem. É apenas a velha batalha entre fanatismo e pluralismo, entre fanatismo e pluralismo, entre fanatismo e tolerância.

O fanatismo é mais antigo que o Islã, a Cristandade ou o Judaísmo. Anterior a qualquer governo, sistema político, ideologia ou fé. É um componente sempre presente da natureza humana ; um gen malévolo, digamos.

O fanatismo está em quase todo lugar. Em formas mais silenciosas e civilizadas, está presente em nossa volta, dentro de todos nós. Até em amigos anti-fumantes e vegetarianos. Até em pacifistas que não aceitam o mínimo desvio da sua estratégia para conseguir a paz. A semente do fanatismo nasce da certeza absoluta, acima da negociação ou dos compromissos. Claro que há níveis diferentes deste mal. Um militante ambientalista pode ser radical, mas vai causar muito menos dano do que um terrorista.

Um elemento da natureza do fanático é que lhe falta imaginação. Injetar um pouco de imaginação nas pessoas ajuda. É uma vacina, ainda que limitada. Aprender a encontrar satisfação na diversidade também colabora. E senso de humor é outra boa cura. O fanático pode até ser sarcástico, mas nunca ri de si mesmo.

Temos que resistir à essência do fanatismo, que é o desejo de forçar as outras pessoas a mudar. O fanático é um grande altruísta. Está mais interessado em você do que nele mesmo. Se você já sentiu a inclinação de melhorar seu vizinho, consertar seu marido, ou planejar todos os detalhes da vida dos seus filhos, em vez de deixá-los ser o que são, sabe como é isso. O fanatismo é mais contagioso que qualquer vírus.

Precisamos criar a habilidade de existir em situações abertas, indefinidas, sem uma solução perfeita. Não é defender o relativismo moral, só nos forçarmos a imaginarmos o outro, como exercício cotidiano. Viva e deixe viver, como dizia minha sábia avó.

Não existe o falado choque entre civilizações. A síndrome do século 21 é o choque entre os fanáticos de todas as cores - e o restante de nós.

Amos Oz Israel x Palestina: uma disputa entre fanáticos (e algumas ideias de como derrotá los)

_________________________________

 

 

Este texto é inteiramente composto de frases retiradas, e traduzidas toscamente, de um livrinho precioso. É How To Cure a Fanatic, reunindo palestras e uma entrevista de Amos Oz, escritor judeu israelense, veterano de guerra, e militante pela paz. O livro foi publicado no Brasil como "Contra o Fanatismo".

Perto das quase 200 mil pessoas mortas na Síria, o que está acontecendo na Faixa de Gaza é mixaria. Os EUA causaram 600 mil mortes ao invadir o Iraque, das quais quase 90% eram civis. Não foi no passado distante, foi já no século 21, obra de George Bush, continuada por Barack Obama. Quem é mais vilão, quem matou 200 mil ou 600 mil? São igualmente criminosos.

O conflito na Palestina é talvez o maior símbolo do desafio que Amos Oz descreve. Como muitos da minha formação e geração, cresci com raiva de Israel, e torcendo pela Palestina. Evoluí para torcer pela paz.  A liderança do Hamas é tão criminosa quando o governo de Israel, que só matou mais porque tem mais armas. Se o Hamas tivesse uma bomba atômica, jogava em Tel Aviv amanhã. Nem uns nem outros pagarão por seus crimes, como Bush não pagou.

O livro de Oz é de 2002.  Em 2010, ele escreveu: "O Hamas é uma idéia desesperada e fanática, que nasceu da desolação e frustração de muitos palestinos. Nenhuma idéia jamais foi vencida pela força. para derrotar uma idéia, você tem que oferecer uma idéia melhor, mais atraente, e aceitável. Israel deve assinar um acordo de paz".

Publicado em 22/07/2014 às 19:28

Os homens que quiserem usar saia, fiquem à vontade. Mas não com o meu dinheiro

10341853 759295600767355 6997691906874142091 n 400x600 Os homens que quiserem usar saia, fiquem à vontade. Mas não com o meu dinheiro

“Estar no mundo exercendo a sua singularidade única e inédita”. Isso é ser homem no Século 21, segundo Paulinho Moska. O músico que cantava as aventuras de uma anã paraguaia 25 anos atrás é o nome mais “famoso” envolvido na campanha “Homens, Libertem-se”. Ele e o ator Marcos Breda. Libertar do quê? Da obscuridade?

A criadora da campanha é uma mulher, a atriz Maíra Lana. Uma busca na internet revelou a moça fazendo cover de Janis Joplin e participando de programas de calouros. Os outros do grupo são igualmente célebres. Algumas figuras públicas não participam diretamente, mas apoiam a campanha: Nelson Motta, o deputado Marcelo Freixo e as escritoras Mary del Priore e Marcia Tiburi. E o cartunista Laerte, que sabe tudo de usar saia.

O objetivo declarado de Maíra é captar R$ 400 mil reais em recursos. É o valor que o grupo já tem aprovado na Lei Rouanet. Não resisto a nomear algum dos grupos que prometem fazer “uma campanha com uma enorme variedade de ações artísticas em torno do tema da opressão masculina”: A Bem Soada, Cia Córtex, Eta Aquarídea, Laboratório Madalenas, Nós Marílias, Omkara, Saia de Saia, Cãoletivo da Vagabundança...

Cada grupo, explica o site, “criará uma ação performativa que culminará numa queima simbólica de elementos simbólicos da construção social do homem (homenagem ao símbolo mais popular do movimento feminista, quando queimaram os opressivos sutiãs). Os homens ainda terão a possibilidade de trazer suas calças ao evento, trocando-as por saias estampadas com o manifesto da campanha. As calças serão doadas posteriormente a instituições que atendem pessoas carentes”.

Claro que para isso o grupo quer captar mais recursos públicos, explica Maíra Lana.  Quanto? Vamos chutar uns R$ 400 mil por cidade, quase cinco milhões de reais, tá bom? Depois vem o quê, o DVD, a turnê e a minissérie? Tendo dindin, não duvido da capacidade de criação da trupe teatral.

O site desafia a imaginação. O analfabetismo empolado parece pegadinha. Convido o leitor a uma visita, para ver com seus próprios olhos. Atiço postando aqui o vídeo da campanha. Tem clipes de Dragon Ball Z, briga em estádio e Bolsonaro defendendo surra em meninos gays.  Tem antropóloga explicando que homem tem dificuldade em “tematizar a subjetividade”, psicanalista zona sul falando molinho, e até uma explosão atômica!

A campanha repercute modestamente na imprensa. Na Folha, que tirou um sarro fino, e no Globo, que reportou tudo a sério, com direito a esta declaração de Paulinho Moska: “Eu era magrelo, usava pulseirinhas hippie e me identificava com Caetano, Gil e Bowie, que eram andróginos. Passei a ser chamado de bicha e viado de forma agressiva. Sofri até me ver livre da representação masculina clássica.”

O que os mancebos reivindicam? O manifesto lista demandas como:

- posso ser sensível
- posso broxar
- posso ser cabeleireiro, decorador, artista ou bailarino
- posso não gostar de futebol
- posso me maravilhar diante da beleza de uma flor
- posso ser frágil, ter medo, chorar e gritar
- posso falir
- nunca mais quero ouvir a frase "seja homem"
- posso usar saia
- posso fazer exame de próstata
- posso ser levado a sério sem ter que usar uma gravata
- posso trocar fraldas, dar mamadeira e ficar em casa cuidando das crianças
- quero poder ser eu mesmo, masculino, feminino, louco, são, frágil, forte, tudo e nada disso

É papo de grupinho de teatro bicho-grilo temperado com reivindicações do século 19. A exceção é "homem pode usar saia", o que já se fazia no tempo das cavernas. A novidade na história masculina é a calça, que só passou a fazer sucesso mesmo depois do zíper. Razões práticas. Homem prefere fazer xixi de pé.
Se o objetivo da turma era provocar os caretas, o arquiteto Flávio de Carvalho fez melhor em 1956, andando de saia pelas ruas de São Paulo. Maíra e seus machos de saiote estão quase 60 anos atrasados. Mas sempre é boa época para embolsar uma graninha, sabe como é.
1165028370 Os homens que quiserem usar saia, fiquem à vontade. Mas não com o meu dinheiro

Quem quiser se arriscar a passar ridículo tem sempre minha bênção e torcida. Mas sem usar nosso dinheiro.  A Lei Rouanet permite que qualquer um bem conectado emplaque seu projeto no Ministério da Cultura, e depois capte recursos de empresas para seus projetos. É  grana cujo destino justo é o tesouro nacional. Nada garante que seria bem usada, mas pelo menos o cidadão teria a chance de fiscalizar.

Direito de captar não significa dinheiro em caixa. Mas nesses casos que envolvem subcelebridades cariocas com arzinho hipster-de-havaianas, sempre aparece um diretor de marketing amigo pra pingar uma grana. Frequentemente de estatais. Os projetos mais escabrosos, tipo esse e o famoso blog da Bethania-Hermano-Andrucha, sempre nascem no Rio, quartel general de algumas das maiores empresas públicas do Brasil. Nenhuma coincidência.

Convido os criadores do “Homem Libertem-se” a se inspirarem no próprio lema. Homens (e Maíra!), que tal se libertar da dependência de verbas públicas para contestar o establishment? Se quiser usar saia, usa aí, cara. Mas tira a mão da minha grana.

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Publicado em 05/07/2014 às 10:44

Neymar merece estar fora da Copa

neymar2 Neymar merece estar fora da Copa

O Brasil entrou para bater. Nosso time cometeu 31 faltas. Foi a tática de Felipe Scolari para barrar o futebol da Colômbia, superior ao nosso, e principalmente o talento de James Rodrigue, que andou jogando melhor que Neymar. A seleção brasileira foi truculenta. Os resultados estão aí. Vamos chorar o machucado de Neymar, mais um santinho à brasileira? Nada feito.

Está tudo no roteiro habitual de Felipão. Ainda mais depois das críticas gerais sobre jogadores chorões. Era hora de provar macheza. Felipão sempre foi assim. É ganhar a qualquer custo, inclusive na porrada. Depois, quando alguém se machuca, é ridículo reclamar. Esta comoção com o machucado de Neymar é patética. Aliás, se fosse a vértebra de Fred, a maioria estaria comemorando.

O próprio Felipão passa recibo de brucutu ao comentar a entrada de Zuñiga em Neymar. Disse que não acredita que foi intencional, "ele só veio e parou a jogada". Futebol é assim mesmo, paramos a jogada aos pontapés e ponto final.  É assim mesmo porque o juiz liberou, claro. E porque a truculência beneficiou o Brasil, dono da casa e tal...

felipao Neymar merece estar fora da Copa

O espanhol Carlos Velasco só puxou um cartão amarelo depois de 41 faltas, o jogo já na reta pra acabar. Liberou geral a pancadaria. Nossos bravos brasileiros se revezaram dando porrada em James. Júlio César, "herói" da penúltima partida, merecia fácil um cartão vermelho pela tunda que deu em Bacca.

 

Dá um certo prazer sádico que o Brasil vá encarar o restante dessa Copa sem Neymar. Ele foi ungido a cara do nosso futebol, o garoto propaganda da brasilidade. É um símbolo da nossa dependência de jeitinho, ginga e emoção. Pensar para quê? Vamos lá jogar! Bem, se nossa seleção dependia de um único geninho, entramos para perder.

Perder a Copa já na próxima partida talvez fosse um bom basta nesta cultura de planejar e gerir mal, de corrupção e ignorância, de vitória a qualquer custo, na porrada e no "jeitinho". Será um Brasil melhor quando não dependermos de jogadas milagrosas, padrinhos, geninhos. Quando o país não pensar em termos de goleada, eu só ganho muito se você perder bastante. Menos charmoso, menos "mágico", talvez, mas melhor.

Merecemos ganhar da Colômbia? Ganhamos, a qualquer preço. Merecemos ficar sem Neymar, e aliás Neymar merece estar fora da Copa? Claro. Tenho dó do cara? Como de qualquer garoto em um hospital agora, nem mais, nem menos. Mas ele sabia o que estava fazendo, ganha muito bem para isso, e nosso time fez o que fez de propósito.

Foi a partida com recorde de faltas neste mundial. Foram 54 no total - mas batemos 30% mais que os colombianos. Por mais que a Fifa facilite para o Brasil ganhar, que foi o que vimos ontem, algumas leis da natureza continuam se aplicando. Para cada ação, existe uma reação. Ou, em futebolês: bateu, levou.

Publicado em 04/07/2014 às 00:05

A PM está sem comando, fora de controle (e agora, sob vigilância)

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O Brasil não tem problema maior que a violência. A polícia militar não é parte da solução. É um ente autônomo. Responde a ninguém. Se presta às necessidades da política conforme lhe interessa. Entende que a democracia deve estar submetida à hierarquia. Responde aos desafios da liberdade com os métodos da autoridade.

Quem manda na polícia militar? Na teoria, o governador de cada estado. Na prática, depende. Os comandos das PMs seguem ou solapam líderes eleitos conforme eles permitem que as coisas continuem como são. Quando uma mão lava a outra, tudo certo. Caso contrário a polícia militar toca sua vida e ignora os pitacos dos políticos.

Em São Paulo, PM e PSDB mais que alinhados, são aliados. Esses dias a PM se prestou a três serviços sujos para nosso governo. A PM reprimiu ato de professores, atirou gás lacrimogêneo em torcedores na Vila Madalena, e baixou o porrete em manifestantes na praça Roosevelt. Geraldo Alckmin, soltando a PM pra bater primeiro e perguntar depois, joga para sua plateia, dando de durão com os “baderneiros” e atiçando os instintos mais covardes do eleitorado.

Não se trata de questão partidária. A polícia faz o que quer em estados governados por qualquer partido. O próprio PT, o que fez no governo federal para mudar nossas polícias ou prisões? Nada. José Eduardo Cardozo é nosso ministro da justiça. A coisa mais memorável sobre ele foi sua declaração de que as prisões brasileiras são “medievais”, como se não fossem de sua alçada (escrevi sobre o caso, anos atrás).

A polícia tem suas preferências políticas, claro. Seus candidatos concorrem por partidos mais conservadores. Agora cada canto do Brasil tem sua “bancada da bala”.. Pelo país afora, se comenta de delegacias “captando” recursos para financiar campanhas – difícil de provar, fácil de imaginar. Imagine se a PM vai apoiar um eventual governo de Lindbergh Farias no Rio de Janeiro, Lindbergh que apresentou projeto de lei propondo o fim da polícia militar (a única atitude remotamente corajosa em seu currículo).

É idiota criminalizar o policial que está na rua. É um peão que atua sem treinamento, equipamento, recompensa. Nem expectativa de punição ou recompensa, se errar ou acertar. Portanto não apura, não investiga, não prende.

Se você defende que a polícia tem direito de matar qualquer suspeito, sem investigação nem julgamento, é um canalha e um idiota. Mas mesmo que permitíssemos isso, você continuaria sem argumentos para defender a performance da nossa polícia.

A maioria dos criminosos brasileiros é folgada porque sabe que jamais será punida. Estima-se que o índice de elucidação de crimes no Brasil varie entre 5% e 8%. O Brasil investiu ano passado R$ 61 bilhões em segurança. Para quê? Para ser o país campeão absoluto de assassinatos no planeta, 56.337 mil em um ano (a maioria negros, pobres, entre 15 e 24 anos).

A polícia brasileira mata cinco pessoas por dia (oficialmente). Mesmo que matasse cinquenta, e todos fossem criminosos perigosos, não faria cócegas no nosso problema de segurança. São Paulo, com o maior contingente da PM, teve aumento de 42% em roubos no mês de maio. É uma piada macabra.

Quem mata é o soldado, massa de manobra e bucha de canhão. Faz o que esperam que ele faça, com graus variados de consciência, da dedicação ao esculacho. Também vivem à beira do abismo. Também estão sendo assassinados.

Procurar solução para o crime matando ladrão de galinha é equivalente a procurar solução para a polícia crucificando o soldado. Não é por aí. A pergunta é a de sempre: quem se beneficia? Quem ganha com um Brasil violento, com uma população ignorante guardada por uma polícia ineficaz e truculenta? Como sair desse lodaçal, interromper o ciclo interminável de violência e impunidade?

Ganhamos uma chance de encontrar respostas. É a Ponte.org, um coletivo de jornalistas dedicados ao tema da Segurança Pública. O time reúne alguns dos melhores repórteres da área, todos com extensa passagem pela grande imprensa, que cobre o assunto menos e menos. É um espetacular cala-boca nos pseudoradicais de Facebook, ninjas e companhia, sempre batendo no jornalismo nacional, nunca levantando a bunda da frente do computador.

A Ponte reúne uma turma jovem e talentosa com um time muito experiente, como a amiga Laura Capriglione, com longa passagem pela Folha. Bruno Paes Manso, que mantém seu blog no Estadão. André Caramante, que peitou grupos de extermínio e pagou por isso (em breve estreando como repórter aqui no R7.com). E vários outros profissionais de primeira, atuando em parceria com a respeitada Agência Pública.

hideki meet A PM está sem comando, fora de controle (e agora, sob vigilância)

Hoje mesmo, Tatiana Merlino deu um belo furo, entrevistando o ativista preso no dia 23 de junho, na Praça Roosevelt. Fábio se define como nerd, mas também como “defensor dos direitos humanos e da democracia”. Um cara igualzinho a... você? Estuda jornalismo na ECA, depois de ter entrado na Poli. É funcionário concursado da USP. O secretário de segurança do Estado diz que é black bloc. Ele está na cadeia, em Tremembé, a 147 quilômetros de São Paulo. Leia a entrevista dele. E entre na campanha para que ele seja libertado.

Conheci anteontem William Cardoso, ex-Estadão e Agora.  Ele publicou no site da Ponte uma entrevista impressionante com o deputado Major Olímpio. O título diz tudo: “os jovens policiais estão desesperados.” Esse ano já são 58 PMs mortos em São Paulo, só quatro em serviço. Dia seguinte fez outra que já é obrigatória: “A Guerra Silenciosa na Zona Leste de São Paulo”. Ele afirma:

“Na linha de fogo ou acuada, o fato é que a PM bateu recorde de violência entre janeiro e abril deste ano. Segundo dados publicados pela própria corporação no Diário Oficial, 206 pessoas foram mortas no Estado de São Paulo por policiais militares em serviço no primeiro quadrimestre, maior número dos últimos 11 anos para o período. Em março, foram 63 mortos, o terceiro mês mais violento desde 2004 (atrás somente de maio de 2006, marcado pelos ataques do Primeiro Comando da Capital, e de novembro de 2012, auge da crise que terminou com a queda do então secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto).”

Bati um papo com William. Educativo e assustador. Eu jamais teria a coragem e desprendimento de ir onde esses jornalistas vão, de enfrentar as barras que enfrentam. Perguntei, “vale a pena? Você acredita que essa situação vai mudar?” A resposta veio confiante: “olha, nem penso em mudança radical. São muitos interesses em que tudo continue como está. Mas nosso trabalho aqui  não é dar tiro de canhão, é na base da mira telescópica”. Pequenas mudanças, pequenas vitórias, novos territórios conquistados.

A Ponte não tem fins lucrativos. Presta este serviço de graça, para quem quiser ler. Leia, por favor. Divulgue. Compartilhe nas redes sociais. Perguntei para Laura, isso é ONG, é o quê? Ela explicou, “não é nada, não somos empresa nem coisa nenhuma. Estamos fazendo isso porque todos os jornais que cobriam segurança pública diminuíram a cobertura e mandaram embora os melhores repórteres. Não querem saber da periferia”.

Os profissionais da Ponte dependem de você e eu repercutirmos seu trabalho, esse ato diário de bravura e entrega. Piegas? Com certeza os colegas me zoariam por usar essas palavras, “ninguém aqui é  herói”. Nem precisa. São bons jornalistas. É mais que suficiente.

Acesse agora: WWW.PONTE.ORG.

 

 

 

 

 

Publicado em 01/07/2014 às 17:31

Fábio Massari e Malcolm McLaren: quando dois caras únicos se encontram

CAPA Fábio Massari Fábio Massari e Malcolm McLaren: quando dois caras únicos se encontram

Conheci Mr. Massari, puxa, lá pra 1989? Trilhamos caminhos diferentes, com raros e significativos encontros no meio do caminho. Seja na Bizz, editando um longo entrevistão de Fábio com Frank Zappa. Depois, quando ele foi colunista da revista que ajudei a fundar, a General. Quando publicamos seu primeiro livro, sobre a cena roqueira da Islândia. Em shows aqui e acolá, eventuais cervejas, um outro banquete com outros amigos garageiros.

Camaradagem e simpatias à parte, sempre admirei Massari – não pelo famoso enciclopedismo, a curiosidade obsessiva, ou a saudada despretensão, embora todas sejam características do cara. É porque ele tem esse jeito de fazer as coisas que é  só dele, se lixando para o movimento óbvio e o faturamento certo. Mas sem nariz empinado ou pose de radical: sempre na maior naturalidade, na maior generosidade.

Esse primeiro livro da coleção Mondo Massari conta (em quadrinhos!) seu encontro com outra dessas figuras ímpares: Malcolm McLaren. Veja o vídeo, compre o livro.  O mundo fica mais interessante com gente como Malcolm - e Massari - na área.

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