alckmin 20100915 g Contra o impeachment de Geraldo Alckmin
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Recebi um convite para endossar o abaixo-assinado pelo impeachment do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. O documento cita os casos Nossa Caixa e Alstom, ambos com perfume de falcatrua grossa; a mão pesada na USP e na Cracolândia; a desocupação da fazenda Pinheirinho, que fede aos céus; e por aí vai.

Eu teria mais uma bela lista de reclamações a fazer da administração do meu estado (e bairro, e cidade, e país, mas vamos focar). A principal é a militarização da administração pública da cidade de São Paulo, um retrocesso e tanto (leia post aqui).

Outro ponto importante: o Brasil não tem caminho para o futuro que não passe por São Paulo, estado mais rico e moderno do país, nossa conexão com o século 21. A visão desinformada e autoritária do eixo tucanato-malufismo que administra São Paulo é obstáculo a ser posto abaixo com urgência (leia o post aqui).

Mas vamos ser realistas: é difícilimo derrubar Alckmin com abaixo-assinado. Ele tem apoio de quem tem bala, porque se provou de confiança dos home. E mesmo que fosse viável desalojar o governador, desaconselho. Porque se devolvemos Geraldo para a sacristia, assume seu vice, Guilherme Afif Domingos, hoje candidato a prefeito pelo PSD de Gilberto Kassab. A empresa de Afif, a Indiana Seguros, foi acusada em 2010 de favorecimento: levou contratos de mais de dez milhões de reais da prefeitura de Kassab, então seu colega de partido no DEM. Afif trabalhou muitos anos com Maluf e Pitta. Deve ter aprendido alguma coisa.

Boa desculpa para impedirmos Afif? Talvez seja. Mas neste caso assume o presidente da Assembléia Legislativa. É o advogado, ex-ministro da agricultura do governo FHC e representante do agronegócio Barros Munhoz, do PSDB. Ele é réu em 21 processos, e já foi condenado por improbidade administrativa. Se fazes questão, a ficha completa está aqui.

barros munhoz2 Contra o impeachment de Geraldo Alckmin
Temos então duas alternativas, as duas ruins. Uma é tentar botar essa gente para fora via eleitoral, primeiro na Cidade e depois no Estado, com altíssimo risco de substituirmos seis por meia dúzia. Afinal, o principal candidato da oposição para prefeitura de São Paulo é o ex-ministro Fernando Haddad, responsável nos últimos anos por esta beleza de educação pública que temos no Brasil. Haddad vem cortejando Gabriel Chalita (escritor católico conservador, ex-secretário de educação de Alckmin), do PMDB, e o próprio Kassab, 80% de rejeição em São Paulo, que acenou com a possibilidade de indicar um vice para Haddad. Para o estado, daqui a dois anos, o ungido de Lula para concorrer ao cargo atual de Alckmin parece ser Aloysio Mercadante, imagino que em aliança com a pior escória da política paulista, dentro da política de apoio-não-se~rejeita que garantiu Lula e Dilma.

Não se emocionou? Nem eu. Adoraria empichar Alckmin, Kassab e uns 99% dos ocupantes de cargos públicos no Brasil. Só a bala, e estou velho pra pregar a revolução armada, não sei atirar etc. Por essas e outras que não voto há anos, manterei a posição em 2012, e fico com a segunda alternativa, também ruim. Que é bater em todo mundo. Todos esses caras merecem apanhar, alguns mais que outros; mais que obrigação, é um prazer.

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no cell phone sign Por que nunca atendo o celular

"Bora beber na vespera do feri? Liguei, mas celula ta desligado, claaaaaro!"

Puxão de orelhas merecido. Mais um de muitos, passados e futuros. Só fui ler dia seguinte, no email. Raridade, que em feriado jamais checo email.

Perdi boa chance de tomar uns tragos com amigo velho. Pena: depois de uma certa idade não se faz mais amigos velhos. Bem, é o preço da paz de espírito. Pago com gosto.

Os amigos e colegas já sabem: a chance de meu celular estar desligado é igual à de estar ligado. A chance de eu retornar uma mensagem deixada no celular é ínfima. Quer garantia de me achar, é por email, e mesmo assim até umas nove da noite. Saí do trabalho, só amanhã. Cada um com suas técnicas de gerenciamento do tempo. Eu com a minha: sumi.

Por que isso, porque não quero ir beber com os amigos ou fofocar com desconhecidos no Facebook? Não, é por causa do trabalho, que é muito, para um vagabundo convicto, se não prático, como eu.

Muita gente sofre, estressada, ansiedade a mil com os tantos estímulos da tal vida contemporânea, com a internet, as redes sociais e tal. Tanto as exigências do trabalho, como as da diversão. Eu não. Também não criei uma fórmula mágica que funciona para todos. Simplesmente desligo os aparelhos e tento dar conta da função toda. Quando saio do trabalho, é como se desligassem a internet do planeta. Atendo o número fixo de casa, que pouquíssima gente tem. Não tenho tablet, Flickr, Tumblr, não posto foto, não baixo nada. Quero menos input, não mais.

Quase ninguém pode se dar ao luxo de fazer como eu. Para começar, quem trabalha para empresas grandes tem que estar disponível o tempo todo, ou fazer de conta que está. Aí aumenta a pressão para "descansar" nas horas livres. Por isso, teóricos andam defendendo que o luxo máximo no século 21 é tirar férias off the grid - fora da megamatriz de tecnologia de informação e comunicação que nos cerca. Tem livro sobre isso, hotel que oferece isso, consultor vendendo esse peixe pra corporações.

Fácil falar. Tenho um amigo jornalista que foi passar uma semana numa pousada divina de frente para o mar na Praia do Forte e não conseguiu dormir uma noite, por causa do sossego e silêncio. Se você é daqueles que não acredita que está vivo se não postar no mesmo minuto sua experiência no Foursquare, no Flickr, Tumblr e não sei o quê, passar uma semana em um hotel off the grid vai ser causa de angústia, e não motivo de felicidade.

Embora eu tenha virado especialista em escapar das distrações e obrigações virtuais, na verdade ainda lido com elas bem melhor do que com as reais. Hoje de manhã, em casa, tive que lidar com eletricista, Eletropaulo, o funcionário do seguro que veio botar uma lona no forro que está vazando, a gerente do banco, meu filho que está nos últimos dias de férias, a mãe do amigo onde ele foi passar o dia, os livros dele que não estarão entregues no primeiro dia de aula, burocras variadas, oito emails escritos ou respondidos e 32 outros lidos, olhei Twitter, Facebook, li umas várias coisas e ainda escrevi isso aqui e mais um pouco. Tudo isso antes do almoço e antes de começar minha jornada oficial de trabalho. Ufa!

Pelo menos nessa função toda descobri um sistema de gerenciamento de tempo que parece perfeito para mim. Coisa de um carcamano pazzo. Te conto amanhã. Hoje acabou o tempo!

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Por enquanto temos uns quatro mil imigrantes haitianos no Brasil. Mixaria. Mas já é número suficiente para tocar o alerta em alguns quartéis. Olha a invasão dos negão! Daqui a pouco isso aqui tá cheio de vudu. A fronteira do Brasil é indefensável. Vamos ter que investir para murar a nação!

A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República está elaborando um projeto de política nacional de migração. A ideia é ser seletivo. Atrair cérebros e estabelecer limites bem rígidos pra quem chega fugindo da pobreza. O governo anunciou restrição à entrada de haitianos - serão somente cem vistos de trabalho por mês.

É piada. De janeiro a setembro do ano passado, o Ministério do Trabalho concedeu 51.353 autorizações de trabalho a estrangeiros, a maioria portugueses. Foi um aumento de 32% com relação ao ano anterior. E também segundo o governo, até agora entraram no país quatro mil haitianos, e a maioria já teve a situação regularizada. Mas os haitianos são pobres e pretos. Fossem lusos, ou adolescentes norueguesas ou surfistas australianos, estaríamos de boa.

De fato o Brasil não precisa de imigrantes haitianos. Há de haver os mais qualificados entre os que estão vindo, mas o grosso dos haitianos é bem pobre, e eles estão vindo ao Brasil para fazer trabalho de pobre - 45% dos haitianos são analfabetos. Já temos bastante pobre fabricado aqui mesmo, disposto a trabalho de peão, fazer o quê. Nosso Nordeste agora cresce a ritmo chinês, mas se a China que é a China faz tempo ainda tem meio bilhão de miseráveis, não vai ser aqui que vai faltar gente com pouca educação, vendendo o braço.

Também é fato de que nosso país é grande e vazio. Poderíamos transferir o total de dez milhões de haitianos para cá, que eles seriam absorvidos numa boa entre 200 milhões de brasileiros. E imigrantes imigram por que precisam - é lá justo fecharmos as portas para os sofridos haitianos?
Bem, justiça por justiça,  o Brasil não tem um pingo de responsabilidade por esse desgracê de cinco séculos no Haiti.

Para começar, não há haitianos originários do Haiti. A população é 80% negra e 20% mulata. Seus antepassados foram levados lá para trabalhar pela Espanha. Os moradores originais, índios Tainó, começaram a ser exterminados logo depois da chegada de Cristóvão Colombo, 1492. A história do Haiti é história de escravos. Os sobrenomes são pela segunda colonização da Ilha, por piratas franceses.

Os haitianos conquistaram a independência relativamente cedo, em 1804. É uma história bonita de luta, e a liberdade foi paga com sangue. Mas a independência de uma ilhota entre a Europa e os Estados Unidos é sempre relativa. O século 19 foi de sabotagem agressiva ao Haiti, embargos, invasões etc.

Os americanos ocuparam o Haiti diretamente na primeira metade do século 20. O regime dos Duvalier, que controlou o Haiti de 1946 a 86 e sangrou o país à inanição, foi integralmente bancado pelos EUA.

Ditadura total, e os detalhes de como tratavam qualquer oposição é material para pesadelos. O Haiti nunca mais conseguiu andar com as próprias pernas, com golpes e contragolpes, e a população em miséria subsaariana.

Dois anos atrás, 12 de janeiro de 2010, um terremoto de proporções bíblicas reafirmou aos haitianos a insensibilidade da natureza a qualquer ilusão de justiça terrena. Morreram mais de 300 mil dos quase dez milhões de habitantes. A capital, Porto Príncipe, foi 80% ao chão. Um milhão de haitianos perderam as casas. O país, que era o mais pobre das Américas, foi à lona de vez.

Entram em cena a ONU e os países mais ricos da Terra. Quem prometeu ajuda para o Haiti? Quem entregou o que prometeu?

O jornal inglês Guardian fez o levantamento. Os países que prometeram as maiores somas para reconstrução, Venezuela e Estados Unidos (juntos, mais de US$ 1,8 bilhão), desembolsaram só 24% (US$ 223 milhões) e 30% (US$ 278 mi). Dos valores prometidos para projetos de agricultura - o povo lá passa fome - foram desembolsados somente US$ 125 milhões dos US$ 311 milhões prometidos. Para projetos ligados a saúde, US$ 108 milhões de US$ 315 milhões prometidos. Só apareceu de verdade grana para socorro imediato de emergência, como dizem os gringos: 86% dos US$ 2,5 bi prometidos.

E essa dinheirama foi para quem, para a população? Bem, 1% foi para o governo do Haiti; 34% para organizações de ajuda ligadas aos governos dos países doadores e 25% para ONGs. Uma bela parte da grana de ajuda para o Haiti está indo para empresas e ONGs dos próprios países que estão doando a grana. Business as usual.

O Brasil não fez tão feio quanto os Estados Unidos em termos de ajuda para reconstrução. Desembolsamos mais de dois terços do que prometemos, US$ 113,5 milhões dos US$ 163,6 milhões prometidos.

Fora os militares brasileiros que despachamos para lá. Na prática é dinheiro de cachaça. O Haiti não precisa do Brasil. Precisa de justiça.

Por parte de quem o injustiçou.

Por mim, teríamos colaborado com zero. Não matamos os índios que moravam lá antes do Colombo, não importamos africanos para as plantações, não ganhamos um centavo em meio milênio de ocupação do Haiti, e principalmente não tivemos nada a ver com a sabotagem da república haitiana, promovida pelas potências colonialistas europeias no século 19 e pelos Estados Unidos no século 20. Mas já que prometemos uma grana, devemos cumprir a promessa, e envergonhar americanos e europeus a botar a mão no bolso com vontade. Fazer caridade com palavras é fácil.

Se for para abrir a porteira, mais justo abrirmos para os paraguaios - afinal, o Brasil tem muita culpa no cartório pelo pobre estado do vizinho de Mercosul. E que tal abrirmos as portas da esperança para os tantos brasileiros que vivem levando porta fechada na cara?

A situação no Haiti é problema do Haiti, mas responsabilidade histórica da Europa, nos antigamentes, e dos Estados Unidos, até outro dia mesmo. Quem fez a sujeira que limpe. O Brasil tem seus próprios haitianos, made in Brasil.

haitianos imigrantes O Brasil não precisa de imigrantes haitianos, e o Haiti não precisa do Brasil

Os americanos ocuparam o Haiti diretamente na primeira metade do século 20. O regime dos Duvalier, que controlou o Haiti de 1946 a 86 e sangrou o país à inanição, foi integralmente bancado pelos EUA. Ditadura total, e os detalhes de como tratavam qualquer oposição é material para pesadelos. O Haiti nunca mais conseguiu andar com as próprias pernas, com golpes e contragolpes, e a população em miséria subsaariana.

Dois anos atrás, 12 de janeiro de 2010, um terremoto de proporções bíblicas reafirmou aos haitianos a insensibilidade da natureza a qualquer ilusão de justiça terrena. Morreram mais de 300 mil dos quase dez milhões de habitantes. A capital, Porto Príncipe, foi 80% ao chão. Um milhão de haitianos perderam as casas. O país, que era o mais pobre das Américas, foi à lona de vez.

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O jornal inglês Guardian fez o levantamento. Os países que prometeram as maiores somas para reconstrução, Venezuela e Estados Unidos (juntos, mais de US$ 1,8 bilhão), desembolsaram só 24% (US$ 223 milhões) e 30% (US$ 278 mi). Dos valores prometidos para projetos de agricultura - o povo lá passa fome - foram desembolsados somente US$ 125 milhões dos US$ 311 milhões prometidos. Para projetos ligados a saúde, US$ 108 milhões de US$ 315 milhões prometidos. Só apareceu de verdade grana para socorro imediato de emergência, como dizem os gringos: 86% dos US$ 2,5 bi prometidos.

E essa dinheirama foi para quem, para a população? Bem, 1% foi para o governo do Haiti; 34% para organizações de ajuda ligadas aos governos dos países doadores e 25% para ONGs. Uma bela parte da grana de ajuda para o Haiti está indo para empresas e ONGs dos próprios países que estão doando a grana. Business as usual.

O Brasil não fez tão feio quanto os Estados Unidos em termos de ajuda para reconstrução. Desembolsamos mais de dois terços do que prometemos, US$ 113,5 milhões dos US$ 163,6 milhões prometidos. Se me perguntar, deveríamos ter colaborado com zero. Não matamos os índios que moravam lá antes do Colombo, não importamos africanos para as plantações, não ganhamos um centavo em meio milênio de ocupação do Haiti, e principalmente não tivemos nada a ver com a sabotagem da república haitiana, promovida pelas potências colonialistas europeias no século 19 e pelos Estados Unidos no século 20. A situação no Haiti é problema do Haiti, e responsabilidade histórica da Europa, nos antigamentes, e dos Estados Unidos, até outro dia mesmo. Quem fez a sujeira que limpe. O Brasil tem seus próprios haitianos.

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2011 The Adventures of Tintin Wallpapers Movie 1920x1440 A traição de Tintim

Traduttori, traditori, tradução é traição, me explicou Ezra Pound, que entendia dos dois, e não esqueci. Está no ABC da Literatura? Onde? Descobri anos depois que a pepita não era de sua lavra, mas tradicional epitáfio italiano às nossas pobres tentativas de nos fazer entender em outras línguas e linguagens. Nós carcas manjamos dessa parada; a velha bota já foi terra de gente de todo canto, núbios, vikings, sumérios,  persas, celtas, conquistadores e conquistados. Tutti buona gente... E ainda assim persiste a pergunta preguiçosa: mas é fiel ao original? Como se fosse essa a fogueira que o crítico deve atravessar quando julga uma adaptação. E agora somos todos críticos, dando nossos pitacos na internet sobre esse livro, aquele político, a roupa da moça da novela e a pertinência da construção de hidrelétricas na Amazônia, não é?

tintin A traição de Tintim

Tintim traz a assinatura bilionária do diretor Steven Spielberg e do produtor Peter Jackson, este famoso pela ortodoxia na adaptação de O Senhor dos Anéis. O novo filme leva à telona pela primeira vez outro objeto de culto, a idolatrada série de 24 álbuns em quadrinhos que fez a alegria de três gerações. Camisa pesa: é o mais famoso título da HQ em língua francesa.

O roteiro do filme mistura trechos e personagens de vários dos álbuns clássicos do personagem. Visualmente, não tem patavina a ver com o traço de seu roteirista e desenhista, o belga Hergé. Tintim é marco fundador
da ligne claire, a linha de nanquim sem volume, homogênea, elegante, estilo extremamente influente no quadrinho franco-belga e em todo lugar.

O filme é animação por computador, baseada na captura de movimentos de atores em carne e osso, e com versão em 3D. Já passou dos trezentos milhões de dólares de bilheteria e vai longe. Ignorantes relembram de má-fé o conservadorismo do belga George Remi, o homem por trás do pseudônimo Hergé. Destacam seu preconceito com pardos e terceiro-mundistas, seu eurocentrismo, sua fraqueza frente ao fascismo.

Hergé nasceu em 1907 e criou Tintim em 29. Era homem de sua época, e tão imperfeito quanto nós - surpresa! Queriam o quê, que fosse multiculturalista, politicamente correto, e inserisse um romance gay entre nosso herói e o Capitão Haddock? Cresçam.

tumblr l6q0u1KGUr1qziw2po1 400 A traição de Tintim

Fãs fiéis de Tintim pelo mundo afora também esperneiam - como estes porcos capitalistas anglófonos puderam trair tão cruelmente minhas queridas memórias da infância? Se és desses, o único retruque possível é, de novo: cresça. Seus álbuns empoeirados continuam lá no teu armário, camarada, exatamente da maneira como você se lembra, se é que ainda os têm. A boa tradução tem o desafio de ser fiel ao espírito do original, não à forma ou as minúcias; cada novo intérprete adiciona ou subtrai ao original; dinheiro manda; é assim que é.

A constatação é lugar comum para quem cresceu lendo também outro tipo de herói de gibi, o americano, em que cada novo desenhista ou roteirista deixa sua própria marca no Flash, Homem-Aranha e companhia uniformizada.O Batman de Bill Finger é tão Batman quanto o de Denny O´Neil e Neal Adams, ou o de Grant Morrison e Frank Quitely; o da série cômica dos 60 tão válido quanto a grotesqueria de Tim Burton ou o tech-noir de Christopher Nolan. Não gostou de nenhum, faça seu próprio Batman; e se a dona dos direitos não deixar, muda ele de nome e faz mesmo assim. Meu filme favorito do Batman chama-se O Corvo.

Tintim, bem, eu adoraria ver os talentos de Peter Jackson e Steven Spielberg enfrentando o problema criativo de traduzir a linha clara para o cinema. Não encararam, covardões. Verei mesmo assim, com meu filho de oito anos. E forçarei ele a atravessar pelo menos um episódio do desenho de Tintim, que volta ao ar diariamente no canal Futura. Quem sabe essas versões estimulam o moleque a enfrentar o gibi? Bem que me daria um prazerzinho ver o garoto atrás daquelas capas duras, mergulhado nos infinitos detalhes das incríveis, ultrapassadas e colonialistas aventuras de Tintim. O problema é que mostrei uma vez um álbum de Tintim para o moleque e ele não deu a menor bola. Gibi 2D de cinquenta anos atrás não tem bala para enfrentar Mario na terra do 3D; cada época tem seus Disneys, Kirbys e Hergés, e hoje a maioria deles trabalha na indústria dos videogames, não na dos quadrinhos.
Todos os romances são sequências, diz Michael Chabon; influência é êxtase.

Vi ontem O Espião que Sabia Demais. É uma adaptação solene do celebrado romance de espionagem. Interpretações sólidas, roteiro tosco à gastura. Mas passa com louvor pelo desafio de ser fiel à morna melancolia de John Le Carré. Agora toca rever a versão anterior, Alec Guinness, 1979; e dar uma folheada na minha edição do Círculo do Livro, o final era bem diferente, não? E onde está minha biografia de Kim Philby, líder dos Cambridge Five, inspiração real do traidor ficcional de O Espião Que Sabia Demais? Infinitas traduções, infinitas traições.

tin A traição de Tintim

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Arlindo Chinaglia Em 2012, você vai pagar mais que nunca para bancar os partidos políticos do Brasil

Arlindo Chinaglia/ABr

Em 2012, os partidos políticos receberão uma verba recorde do governo federal. Serão R$ 324,7 milhões de dinheiro dos brasileiros para os cofres dos partidos.

São cem milhões a mais do que o governo havia proposto para o fundo, que foi criado para financiar campanhas políticas com recursos públicos.

O partido que vai receber mais dinheiro é o PT, da presidente Dilma Rousseff. Com esse aumento da verba, o total que vai para o Partido dos Trabalhadores chegará a R$ 53,9 milhões.

O PMDB, do vice Michel Temer, vem logo depois com R$ 41,6 milhões. O PSDB, R$ 37,7 milhões. O DEM, R$ 24 milhões.

Quem aprovou o aumento da verba? Nossos parlamentares, durante a tramitação do orçamento de 2012, no finzinho do ano passado.

O relator do Orçamento foi o deputado federal Arlindo Chinaglia, do PT. O cálculo é baseado no número de eleitores do país.

A divisão da maior parte da grana é feita de acordo com a proporção de votos para cada partido obtida na Câmara dos Deputados; uma fatia pequena é dividida em partes iguais.

Para que os partidos podem usar essa dinheirama? Para "alistamento e campanhas eleitorais", para a manutenção das sedes dos partidos, para bancar serviços que eles prestam aos filiados, para propaganda, para financiar campanhas. Também pode ser usado para pagar dívidas de campanhas anteriores.

Achei que você gostaria de saber.

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...dar crack para os viciados.

Do bom. Sem porcaria no meio.

Melhor ainda: cocaína.

E comida farta.

E atendimento médico.

E suporte psicológico.

E entretenimento e roupa e xampu.

E apoio espiritual, para quem pedir.

E tratamento, para quem quiser.

E ajuda para o viciado reconectar com sua família.

Em um ambiente seguro e confortável. Fora da Rua.

Acabou-se a Cracolândia.

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emili 920x1024 Minha cantora favorita (da semana)

Emeli Sandé. Escocesa, mulata, 24 anos. Compositora de sucesso, para cantoras que fazem sucesso entre os britânicos como Cheryl Cole, Susan Boyle e Leona Lewis. Virou ela mesmo cantora, e das boas.

Passeia à vontade entre o acústico e o eletrônico, o hip hop nervoso e o baladão de torcer as tripas, o autoral e o comercial. Suas canções vem pingando há algum tempo.

Em dezembro, foi nomeada como escolha dos críticos do prêmio Brit Awards.

O primeiro álbum, Our Version of Events, sai agora, em fevereiro. Todas as canções trazem o nome de Sandé nos créditos. Uma vez na vida, críticos e público parecem estar sintonizados; Emeli é de verdade.

Emeli Sandé - Heaven - Ao vivo no Jools Holland] por perolasblogs no Videolog.tv.

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Tenho a maior simpatia por Robert Anton Wilson, e pouca autoridade para lhe fazer a homenagem que merece nos cinco anos de sua morte. Robert, RAW, foi figura ímpar e influente, e merece elogio à altura.

Ícone da imaginação, nunca temeu rir de si mesmo ou de qualquer outro. Tem admiradores por todo lado, e do meu lado aqui também.

É o colega da Tambor, Filipe Siqueira, que me chamou atenção para a efeméride, e para a comemoração com uma Semana Robert Anton Wilson no site www.boingboing.com.

Se você já é fã, não perca. E passo a palavra pra Filipe, que é mais íntimo do mundo louco e são de RAW do que eu.

RAW Robert Anton Wilson

"O Universo é um borrão gigante de Rorschach"

A frase é de Alan Watts, um escritor doidão responsável por popularizar a filosofia zen nos EUA, mas serve perfeitamente para sintetizar todo o pensamento de Robert Anton Wilson, que via o mundo como uma divertida e caótica obra de arte incompreensível.

Em sua busca por diversão e conhecimento, RAW conseguiu unir de forma única psicologia, anarquia, religião, magia e física quântica, num coquetel que, apesar de derreter o cérebro de qualquer cidadão, faz pensar - e muito.

Boa parte de suas pesquisas ele iniciou por conta própria, numa pequena propriedade afastada das cidades, onde experimentou mescalina pela primeira vez e teve visões de elementais verdes. É o tipo de experiências que místicos como Aleister Crowley e George Gurdjieff classificariam como "auto-iniciação".

Pouco tempo depois, seus três filhos - com idades entre 5 e 15 anos - viram seres similares e óvnis nas redondezas da propriedade, o que disparou em Robert uma série de insights fundamentais para a jornada mental descrita em diversas de suas obras - principalmente em sua autobiografia: O Gatilho Cósmico.

O resultado é um livro que mistura pesquisas sobre os segredos dos Illuminati, com experiências com drogas psicodélicas, expansão da consciência, xamanismo e contato com extraterrestres da estrela de Sírius.

Depois de receber uma proposta irrecusável, ele volta para a vida urbana e inicia seu trabalho como editor da Playboy, que mudaria sua vida completamente. Na revista de Heffner, ele teria contato com tipos obscuros ao ser escalado para cuidar do fórum da revista. Teorias da conspiração bizarras, esquizofrenia aguda e religiões impensáveis eram rotinas nas cartas recebidas por ele e seu amigo de redação Robert Shea.

As correspondências mais loucas e absurdas foram selecionadas pela dupla para a composição de uma obra-prima: Illluminatus! Trilogy, um catatau em três volumes que sintetiza todo o zeitgeist contracultural fantástico do século passado.

No dia da estreia de uma adaptação teatral da trilogia, patrocinada pela coroa britânica, RAW entendeu a camada realista por trás da obra: Jim Jones, fundador do Templo dos Povos, comanda um suicídio coletivo que ceifa a vida de 918 seguidores dele, num ritual similar (e absurdo, imaginava RAW) ao descrito por Illuminatus! em um de seus capítulos.

Mas se as obras ficcionais de RAW - Illuminatus! seria sucedida por outra trilogia chamada Schrödinger's Cat, focada na interpretação de Wilson da Física Quântica - o tornaram uma figura central entre os romancistas americanos, foi com seus trabalhos de não-ficção e acadêmicos que ele se tornou peça única entre as grandes cabeças da história recente.

Em sua obra fundamental, Prometeus Rising, RAW desmonta sua própria cabeça e suas teorias acerca de seu campo acadêmico: a Psicologia. Os que não sacaram as ideias ali presentes, puderam ainda ler uma espécie de manual do iniciante a psicologia avançada, chamado Psicologia Quântica e escrito por Robert anos depois.

São nesses dois livros que o leitor tem acesso a teoria dos Oito Circuitos Cerebrais, que diz que somos prisioneiros de nossos instintos herdados dos répteis e mamíferos. Cabe a cada um utilizar os circuitos cerebrais mais desenvolvidos e ajudar na evolução mundial.

Suas amizades ajudavam. O cara era amigo de boa parte das mentes mais loucas e aceleradas da década de 1960. O psicólogo Timothy Leary - de quem herdou a Teoria dos Oito Circuitos Cerebrais -, Alan Watts - que o ensinou sobre o Zen Budismo -, o escritor William Burroughs - que viralizou pra ele o enigma do número 23, após relatar uma série de coincidências pra lá de assustadoras -, o físico Jack Sarfatti, além de Kerry Thornley - um dos fundadores da religião Discordianista e companheiro de quarto de Lee Harvey Oswald, acusado do assassinato de Kennedy (conspiração pouca é bobagem!).

Quando não era amigo pessoal, mantinha contato, caso de cientistas igualmente fundamentais para a Psicologia, como o tcheco Stanislav Grof e o americano John C. Lilly. Além disso, era influenciado por totens filosóficos e científicos do passado - Nietzsche, Alfred Korzybski, responsável pela criação da Semântica Geral, o escritor James Joyce, o físico Niels Bohr e o escritor de realismo fantástico Charles Fort.

forasta 2 Robert Anton Wilson

Após balançar o cenário das religiões se tornando Papa do Discordianismo - bom, qualquer um que aceita Éris como Deusa vira papa, mas isso é outro assunto - e influenciando metade dos malucos com inclinações budistas dos EUA, RAW mirou seus olhos para o crescente fundamentalismo científico ao escrever A Nova Inquisição, obra com um jeitão mais acadêmico, porém recheada do bom humor subversivo típico de Wilson.

O livro mistura um apanhado de fatos e notícias insólitas num estilo que ia fazer Charles Fort sorrir - chuvas de sapos e um pé-grande são só um aperitivo -, somado a um levantamento histórico de grupos científicos nada amistosos a chegada ideias novas.

De lá saíram relatos como a perseguição sistemática ao psiquiatra e psicanalista austríaco-americano Wilhelm Reich, que culminou com uma fogueira que destruiu todo o seu trabalho - Reich morreria de ataque cardíaco após passar oito meses encarcerado. RAW veria o mesmo acontecer ao amigo Timothy Leary, perseguido pelo mundo pelo governo americano por suas pesquisas com psicodélicos.

"Substâncias psicodélicas fazem parte da primeira proibição registrada. Lembra-se do Jardim do Éden e a Árvore da Ciência do Bem e do Mal?!", disse Leary sobre o motivo de sua perseguição.

Da Psicologia - especialmente a Análise Transacional, método criado no fim da década de 1950 por Eric Berne - saiu sua principal visão de mundo: nosso sistema cognitivo é artista, ele interpreta (nem sempre corretamente) o mundo ao nosso redor, e não os mostra de forma única.

É uma forma humanista de repetir o que disse Niels Bohr: "Até um termômetro influencia na temperatura da água que ele mede". Desse princípio básico, ele destroçou todos os argumentos a favor da existência de uma Verdade Absoluta, seja ela Deus, a Evolução ou mesmo as próprias teorias dele.

Ao final de cada capítulo de seus livros de psicologia, exercícios e hacks cerebrais que dão o mapa da mina para sair da caixa do pensamento coletivo. O que resta após essa desconstrução impiedosa é sua insistência de que devemos pensar por nós mesmos. Sempre.

"A certeza absoluta é o primeiro indício de morte cerebral", afirma ele na abertura de Psicologia Quântica, uma cutucada na mente dos que gostam de pisar em cima das ideias dos outros.

Em entrevista a revista maconheira High Times, RAW explicou que seu modo de pensar consiste basicamente de "nunca olhar para qualquer modelo ou mapa do universo com crença de 100% ou negação de 100%.

Seguindo Korzybski, eu coloco as coisas em probabilidades, não em certezas… Minha única originalidade reside em aplicar esta atitude zetética fora do âmbito da mais complexa das ciências complexas, a Física, em ciências menos complexas e então nas não-ciências como a Política, Ideologia, vereditos do júri e, é claro, na teoria da conspiração".

Esse relativismo intelectual levou muitos a classificarem a obra dele de mera "bagunça mental", uma forma simplória de destruir o que existe de verdadeiro sem por nada no lugar. Mas qualquer um que classifica a obra dele dessa forma não chegou ao cerne do pensamento de Wilson.

Na introdução de O Gatilho Cósmico ele deixa claro que uma crença serve unicamente como um gatilho para estados mentais superiores, ou como uma forma de "escapar da loucura". Basta que saibamos que uma crença não passa disso: uma crença.

A linguagem também recebeu atenção especial de seus trabalhos, fruto da influência de Alfred Korzybski, que definiu como a linguagem molda nossa forma de pensar. Para exemplificar e separar a linguagem do "mundo exterior", Korzybski criou a expressão "O mapa não é o território", um mantra repetido atualmente sem cessar em qualquer turma de Programação Neurolinguística ou de Psicologia.

O que está na cabeça é um "mapa mental", um "túnel-realidade" que serve como uma programação para interagirmos com o ambiente com sucesso. "Quem é o mestre que faz a grama verde?", questiona um enigma zen budista - nossos cérebros, dirão os mais espertos.

forasta 3 ok Robert Anton Wilson

Uma versão hardcore dessa ‘ditadura da linguagem’ foi criada por Grant Morrison em Os Invisíveis, quando King Mob (um avatar do próprio Morrison) está sendo torturado por seus inimigos com uma droga chamada Chave 17. Basta uma palavra escrita no papel pelo torturador para Mob ver aquilo como real. Se ele lia 'dedos dilacerados' em uma folha, ele veria seus próprios dedos caindo aos pedaços.

Morrison, assim como RAW, vê a forma como as pessoas encaram a linguagem como um veneno reducionista, que diminui as possibilidades de amplificar a mente delas. Libertar-se dessas amarras internas e sociais é a principal missão dos subversivos, o que naturalmente traz consequências.

"A Desobediência foi a Virtude original do homem", disse, citando Oscar Wilde, ao mesmo tempo em que reconhece que o conflito entre pensamentos opostos é a chave para a evolução. "Já viu a harmonia dos insetos? E depois pense em como eles não evoluem nada há milênios", completa.

Mesmo com esse realismo racional, RAW era otimista e confiava que o trabalho dele e de seus amigos e comparsas seriam a chave para uma evolução do pensamento e nas relações humanas. Bom, não chegou ao ponto de mudar o mundo, mas transformou diversas mentes por aí, que transformam mais mentes a cada dia. A minha foi uma delas.

Lembro que uns amigos metidos a místicos compraram exemplares do Livro de São Cipriano. Eu resolvi entrar na onda de aprender magia e ser mais moderno e anarquista - comprei todos os livros que achei do tal de Robert Anton Wilson, que tinha escrito um texto que li sobre as técnicas de sigilos mágicos de Austin Osman Spare, usados pelos integrantes de Os Invisíveis.

Eu não virei mago depois de ler os quatro livros que comprei dele, mas com certeza minha cuca saiu transformada da experiência. Mesmo achando o mundo ainda mais confuso do que antes, agora creio que estou no caminho certo da libertação mental - um processo interminável, mas extremamente divertido e desafiador.

Hoje o mundo carece de mentes brilhantes como as dele, capazes de misturar assuntos tão díspares como sociedades secretas, magia do caos (RAW era integrante dos Iluminados de Thanateros, uma ordem de Magia do Caos, a qual também pertence Grant Morrison), cultura cyberpunk (ele também colaborou com a revista Mondo 2000, obrigatória para todos que viveram a ascensão da cultura digital), parapsicologia, realismo fantátisco, física e mais um monte de coisas que só os cérebros mais acordados manjam minimamente bem.

RAW copy ok Robert Anton Wilson

Como nada relacionado à RAW é simples, enquanto conversava com o Forasta sobre o andamento desse texto, descubro que um colega nosso da Tambor, o Marcelo Soares, é o Reverendo Mikhail, primeiro tradutor do Principia Discórdia, a Bíblia Discordianista cuja única regra é quebrar todas as regras.

RAW morreu em 11 de janeiro de 2007, de complicações pós-poliomielite. Para voltar ao mundo, RAW só depende da ciência: a cabeça dele foi separada do corpo e congelada - Timothy Leary está na mesma situação -, na esperança de um dia algum cientista igualmente insano criar uma forma de fazer backup de todas as informações contidas no cérebro dele.

De qualquer forma, o mundo já foi violentamente impactado pela passagem de Robert Anton Wilson. Insanos como ele fazem falta.

Filipe Siqueira

* Leia o Principia Discordia, a Bíblia do Discordianismo aqui.

Robert Anton Wilson explica Física Quântica

Robert Anton Wilson explica Física Quântica por perolasblogs no Videolog.tv.

Linguagem Razão e Realidade

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Nova Friburgo forasta As enchentes já encheram

Nova Friburgo, região serrana do Rio, janeiro de 2011: 426 mortos.

Nova Friburgo, janeiro de 2012:

- as obras de contenção de encostas prometidas um ano atrás não foram feitas

- o rio Bengala, que cruza a cidade, está assoreado e cheio de mato e lixo nas margens

- não foi nem iniciada a construção de moradias para quem perdeu a casa

- ainda há muitas casas sobre barrancos ou à beira do Rio

- imóveis condenados pela Defesa Civil continuam habitados

- a listagem dos alojamentos de emergência ainda não foi divulgada.

O desprezo pela vida é tradição do governo brasileiro. É assim e sempre foi. O coroné chega lá, decide que somos todos escravos, e se morrer um põe outro pra puxar o arado. São 33 mortos "pelas enchentes" no país até agora. Mas a situação no Rio é ímpar, porque a região serrana do Rio de Janeiro teve mais de 900 mortes um ano atrás, em Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis, e boa parte classe média, não só os favelados e pardos de praxe.

Hoje, o governo federal acenou com R$ 482 milhões de ajuda, depois do estrago feito. É fácil anunciar um montão de dinheiro de ajuda e passear de helicóptero sobre área alagada. Difícil é fazer a grana sair, e ser usada direito. Difícil é fazer obra de contenção, arrumar casa pra quem mora na pirambeira e tal. Trabalhar cansa.

É assim no Rio e em todo canto do país. É assim principalmente em Brasília. São 251 áreas propensas a sofrer algum tipo de desastre natural, segundo mapeamento do Serviço Geológico do Brasil, divulgado em dezembro. Só 23 receberam verbas do programa Prevenção e Preparação para Desastres, coordenado pelo Ministério da Integração Nacional. Recife foi a cidade que recebeu mais grana do programa, R$ 25,1 milhões. Na sequência vêm Salvador, com R$ 3,8 milhões, e outras cidades com menos e menos dinheiro.

Fernando Bezerra As enchentes já encheram

O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra (foto), do PSB, é candidato à Prefeitura de Recife. Faz campanha com dinheiro público, priorizando sua cidade e deixando muitos outros pontos mais perigosos sem verba. Tem, em português claro, mortes nas costas. A ministra do planejamento, Miriam Belchior, justificou: "estão confundindo mudança de paradigma com bairrismo”.

Não estamos não, ministra. Sabemos exatamente a principal causa das enchentes no país, ladroeira e lambança por parte das autoridades. Esta ladainha já encheu o saco. Bezerra merece o desterro e ponto. Dilma Rousseff defende novamente um picareta na sua equipe, até o fim, e unicamente por razões políticas. Escolheu pessimamente seus braços direitos. Boa parte já caiu por aprontar, mas todo mundo passa bem, obrigado.

Dilma não é a primeira e nem a pior. Bezerra é só mais um. Quando ele cair, dona presidenta vai por outro igual no lugar - ou não? Este país mudou para melhor em muitas coisas desde que eu nasci, mas em algumas fundamentais continua a mesma porcaria. Dilma promete reforma ministerial para este mês. Que comece revisando seus próprios critérios.

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Melhores do ano? Assunto para algumas semanas atrás, não?

Mas me peguei numa conversa estéril sobre rock, e o que o rock significa, e o que deve significar, e para quem; sobre garotos pegando guitarras em 2011, e para quê, e dinossauros buscando manter a relevância, e por que isso tudo passa tão longe da vida da maioria dos brasileiros, jovens ou não, e por que é tão presente para uns poucos, e por que não presto mais atenção na música do momento, e por que quero que meu filho conheça essa paixão tão importante para mim.

Para mim o rock viveu em quatro vídeos, em 2011. Estrelando um DJ angeleno e espinhento, 23 anos, que bota sangue na música eletrônica; um quarteto casca-grossa que me faz regredir instantaneamente aos 14 anos; e cinquentões classudos, faturando com a irresistível futilidade de tentar envelhecer bem a qualquer custo; e cinquentões cafonas, que cantam o heroísmo e fazem um menino de oito anos berrar e tocar guitarra no ar.

Skrillex, Rock'n'Roll

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