Publicado em 24/05/2016 às 19:06

A Lei Rouanet tem que acabar. Mas não à bala

bolsonaro alberto fraga A Lei Rouanet tem que acabar. Mas não à bala
É repulsiva a iniciativa do deputado do DEM, Alberto Fraga, de pedir uma CPI da Lei Rouanet. O deputado da bancada da bala, chapinha de Bolsonaro, diz que já tem 202 assinaturas de deputados, mais que o suficiente para protocolar o pedido. Deve ter sujeira a ser descoberta, nesses anos todos de leis de incentivo? Claro. Mas não é nada perto da sujeira que está à vista de todos.
Quem é Fraga? É ex-tenente da PM. Nas eleições de 2014 arrecadou 1,5 milhão de reais para sua campanha, sendo um milhão de reais da UTC Engenharia, que está no centro da Operação Lava Jato. Sua principal bandeira é a redução da maioridade penal. É réu no STF por corrupção, acusado de exigir propina para assinar contrato, quando era secretário de Transportes do Distrito Federal. O nome de Fraga está em outros inquéritos no STF, envolvendo peculato, falsidade ideológica e crimes contra o sistema nacional de armas. Neste último, ele foi condenado pelo Tribunal de Justiça do DF a quatro anos de prisão em regime aberto, pelo crime de porte ilegal de arma de fogo e de munições de uso restrito. Este é o paladino da moralidade que pretende enfrentar a corrupção na cultura brasileira.
Claro que a Rouanet tem que acabar. Mas não à bala. Fraga não entende outro método que não a violência. É muito representativo do momento autoritário que o Brasil atravessa. Momento que, pelo andar da carruagem, não vai muito longe.
Existem duas maneiras úteis de o dinheiro público financiar a cultura. É sustentando o supernovo, ou levando o superpopular à população. O investimento dos governos deve ir diretamente para sustentar a produção de arte mais impopular, herética, experimental e estapafúrdia. A que não tem nenhuma viabilidade comercial. Ou, alternativamente, pra pagar show grátis de artista famosão na praça/praia, pro povo se divertir. A função do produto cultural é entreter e já não é pouca coisa. A função da arte é totalmente outra. É ser indomável, iluminadora, transformadora.
Tudo o que está entre o supernovo e o superpopular deveria ser julgado caso a caso. Portanto, não pode ser transformado em política pública. Não em um país tão permeável às ações entre amigos. Mudanças nas leis de incentivo ou na política de patrocínios da Petrobras e toda a cultura do país capotam. A maioria dos brasileiros não pode pagar R$ 200 por um show ou R$ 50 por um livro. Deveríamos todos poder votar com o bolso. O projeto do vale-cultura era bom. Não deu em muita coisa. Cinema: a regra da "retomada" são produções de R$ 5 milhões que não recuperam um décimo dos recursos captados via leis de incentivo.
Teatro: a maior parte dos patrocínios vai para montagens de terceira com atores de novela -hits da Broadway etc. Música: idem, com requintes como o ministro da Cultura se beneficiar de renúncia fiscal - o próprio Gilberto Gil levou em 2009 R$ 445 mil do nosso dinheiro.
É excesso de zelo eleger astros sertanejos ou festivais de rock goianos exemplo de lambança. Qual o problema de cada um correr atrás do seu? Não é a história deste país, todos se achegando para perto do cofre? "Se Gil pode, por que não eu?", se pergunta a nova cena artística brasileira, o que prova que ela só é nova na idade de seus participantes. O que interessa é grana grossa, governo, empresa grande. Da tropicália ao mangue beat a hoje, todo mundo adere tão rápido quanto possível. Vale pra cinema, literatura, o que você quiser. É essa a razão da grita dos artistas contra o final do Ministério da Cultura. E nenhuma outra.
A Lei Rouanet deveria sim ser jogada na lata de lixo da história. Não porque financia turnês da Claudia Leitte, Roberto Carlos ou outros que não precisam de dinheiro público. Alguém prova que o novo disco do Caetano Veloso é culturalmente mais importante do que o do MC Bin Laden? A Rouanet deve ir pro vinagre porque transfere ao governo federal e a diretores de marketing de grandes empresas todo o poder sobre o que será financiado na cultura brasileira, o que é a principal razão porque nossa cultura é hoje esse deserto de idéias, essa coisa invertebrada e bundona.
Agora: fazer CPI disso, nesse momento, é tentar dar troco truculento ao setor da cultura, que se opõe em massa a Temer, e faz bastante barulho. O interino precisa se acostumar a levar bordoada e parar com choradeira de "pressão psicológica". As pesquisas antes de assumir eram claríssimas sobre sua impopularidade, comparável à de Dilma. Imagine agora, quando tenta aprovar um pacote de medidas contra direitos dos mais pobres, sem propor nada para taxar os privilégios dos ricos. Imagine agora, que o interino povoou seu governo com corruptos aos montes. Imagine agora, após o episódio Jucá, quando toda a imprensa internacional condena como "conspiração" o movimento que o levou ao poder.
Temer virou objeto de chacota. Tem passado novas vergonhas a cada novo dia de seu mandato. De produção própria, de seus auxiliares e de sua base, como este Fraga. Fechou e reabriu o Ministério da Cultura. Agora adiciona essa coleção de constrangimentos a pecha de perseguidor de artistas (Temer, que tem pretensões de poeta!).
A Lei Rouanet precisa acabar. Mas o governo Temer já está acabando - a cada dia que passa.

Publicado em 16/05/2016 às 17:54

Não chore por Darwyn Cooke

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Um câncer agressivo levou Darwyn Cooke aos 53 anos. Soubemos de sua doença na sexta, morreu no sábado. Perda dolorida. Cooke estava deixando para trás suas obsessões, que homenageou magnificamente. Desbravava novas fronteiras. Não veremos o seu melhor.
O legado que deixa é um monumento a décadas que não viveu: o pós-Guerra, de 45 a 62, "os últimos anos cool". Se passa nesta época a mais bonita carta de amor que alguém já endereçou à DC Comics e ao programa espacial americano, "The New Frontier" (e compre a edição Absolute, de luxo; vale cada cent). Seus outros trabalhos famosos na DC passeavam pela mesma estética. Histórias de Batman; "Antes de Watchmen"; sua reinvenção (e a definitiva) da Mulher-Gato ao lado de Ed Brubaker. Seu nome está nos créditos do desenho que apresentou Batman à geração 90, e determina a estética televisiva "dark deco" do herói até hoje: "Batman, A Série Animada".
Também é este o mundo estiloso e perigoso de The Spirit. Cooke assinou a melhor versão do personagem clássico desde a original de Will Eisner, terna e tensa; e promoveu seu primeiro encontro com Batman. Virou o cara que era sempre lembrado para trabalhos que exigiam ternura pelo passado, o mestre da Era de Prata.

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Em entrevistas, revelou o tratamento que recebeu das duas grandes editoras. A Marvel encomendou a ele um projeto grande, para fazer versões de seus heróis para leitores de todas as idades. Cooke entregou um plano ambicioso e detalhado. A Marvel passou suas anotações para outros criadores e nunca lhe deu satisfação. Prometeu jamais trabalhar para a Marvel de novo. A DC jamais o chamou para assumir um personagem da editora; pelo menos lá teve chance de mostrar outras facetas, e trabalhar com parceiros à sua altura.
Seu talento fazia essas limitações editoriais invisíveis para o leitor. Mas a maestria no estilo retrô tornou-se uma prisão. A ruptura com as travas corporativas ainda foi de época. Os anos 60 são o ambiente de suas adaptações nervosas, noir-sépia, dos livros de Donald Westlake estrelados pelo ladrão profissional Parker. Adaptações, mas autorais, porque literatura policial era a grande paixão de Cooke. Já prefiguravam uma nova fase na sua arte. Numa pausa para respiro no projeto Parker, após quatro livros, lançou uma série original, que desenhava sobre roteiro de Gilbert Hernandez. The Twilight Children é diferente de tudo que fez antes: realismo mágico. Preparava para logo o lançamento de uma criação pessoal, Revengeance, comédia negra passada em 1986, baseada nas suas estrepolias em Toronto aos vinte e poucos anos.
A mais impressionante evidência de sua versatilidade é o livro Graphic Ink: The DC Comics Art of Darwyn Cooke. Traz histórias curtas, capas e ilustrações realizadas por ele para a DC. A diversidade dá vertigem. Cooke faz cartum e cinema, comédia e drama; terror, ficção científica e romance; art deco, grafismo e midcentury modern; Neal Adams, linha clara, Hanna-Barbera, Eisner, Moebius, Toth e muito mais; sempre sendo Darwyn Cooke. É escritor, cartunista, ilustrador, diretor de arte. Faz do velho, novo; encanta e entristece; dá terror e tesão.
Sua morte me chateou muito mais que a de David Bowie. Levei dois dias para perceber a razão. O obra de Bowie que importa está lá atrás, nos nove álbuns primorosos que lançou nos anos 70. Cooke deixa um legado precioso, mas o melhor de seu trabalho, maduro e livre de amarras, estava por vir. Celebremos o muito que fez em sua curta vida; não choremos por Darwyn, que viverá enquanto viverem os quadrinhos, mas pelo que perdemos.

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Publicado em 13/05/2016 às 08:35

Os encontros secretos de Michel Temer com o governo dos EUA

de vice a presidente temer assume por ate 180 dias ARh4P0 1024x639 Os encontros secretos de Michel Temer com o governo dos EUA
Vieram à tona hoje dois documentos que precisam ser lidos. Estão em inglês. Porque são relatórios elaborados em inglês. Seus autores são funcionários do governo americano. Relatam conversas reservadas entre Michel Temer e o governo dos EUA. Foram divulgados hoje pela organização Wikileaks. Pela sua importância, em breve deve haver uma tradução confiável. Pela sua importância, segue abaixo a íntegra dos dois, no original.
Os documentos são de 2006. Temer teve outros encontros secretos com o governo americano depois disso? Não sabemos. Ainda. O que há de ilegal no líder do PMDB, futuro vice-presidente, hoje presidente interino, ter conversas secretas com o governo americano sobre os bastidores da política brasileira? Nada.
Mas vale ler mesmo assim.

RELATÓRIO 1

PMDB LEADER PONDERS PARTY'S ELECTORAL OPTIONS
Date:2006 January 11

1. (U) Sensitive but Unclassified - protect accordingly.

2. (SBU) Summary: Federal Deputy Michel Temer, national
president of the Brazilian Democratic Movement Party (PMDB),
believes that public disillusion with President Lula and the
Workers' Party (PT) provides an opportunity for the PMDB to
field its own candidate in the 2006 presidential election.
However, party divisions and the lack of a compelling choice
as a candidate could force the PMDB into an alliance with
Lula's PT or the opposition PSDB. If Lula's polling numbers
do not improve before the PMDB primaries in March, Temer
said his party might nominate its own candidate. This would
still allow the party to forge an alliance with the PT or
PSDB in a runoff, assuming that the PMDB candidate fails to
make the second round. Given its centrist orientation, the
PMDB may hold the balance of votes between the two opposing
forces. It is also likely to remain a force at the local
and state level. Temer believes it has a chance to win as
many as 14 gubernatorial races. End Summary.

3. (SBU) Michel Temer, a Federal deputy from Sao Paulo who
served as president of the Chamber of Deputies from 1997
through 2000, met January 9 with CG and poloffs to discuss
the current political situation. Lula's election, he said,
had raised great hope among the Brazilian people, but his
performance in office has been disappointing. Temer
criticized Lula's narrow vision and his excessive focus on
social safety net programs that don't promote growth or
economic development. The PT had campaigned on one program
and, once in office, had done the opposite of what it
promised, which Temer characterized as electoral fraud.
Worse, some PT leaders had stolen state money, not for
personal gain, but to expand the party's power, and had thus
fomented a great deal of popular disillusion.

4. (SBU) This reality, Temer continued, opens an
opportunity for the PMDB. The party currently holds nine
statehouses and has the second-highest number of federal
deputies (after the PT), along with a great many mayoralties
and city council and state legislative seats. Polls show
that voters are tired of both the PT and the main opposition
party, the Brazilian Social Democratic Party (PSDB). For
example, a recent poll showed former governor (and PMDB
state chairman) Orestes Quercia leading in the race for Sao
Paulo state governor.

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Divisions Dog the Party
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5. (SBU) Asked why the PMDB remains so divided, Temer said
the reasons were both historical and related to the nature
of Brazilian political parties. The PMDB grew out of the
Brazilian Democratic Movement (MDB) under the military
dictatorship, which operated as an umbrella group for
legitimate opposition to the military dictatorship. After
the restoration of democracy, some members left the PMDB to
form new parties (such as the PT and PSDB), but many of
those who remained now act as power brokers at the local and
regional level. Thus the PMDB has no real unifying national
identity but rather an umbrella organization for regional
"caciques" or bosses. Temer noted that the PMDB is not the
only divided party. Although there are 28 political parties
in Brazil, most of them do not represent an ideology or a
particular line of political thinking that would support a
national vision.

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SAO PAULO 00000030 002 OF 003

PMDB Primaries Set for March
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6. (SBU) Temer confirmed press reports that he is seeking
to move the March 5 primary date to a date later in the
month. (Note: March 31 is the deadline for executives and
Ministers to resign their offices if they plan to run for
public office. End Note.) There will be some 20,000
electors, he said, including all PMDB members who hold
electoral office (federal and state deputies, governors,
mayors, vice-governors and -mayors, and other elected
municipal officials) as well as delegates chosen at state
conventions.

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Lula's Numbers Will Drive PMDB Strategy
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7. (SBU) If, between now and the primary, the Lula
government's standing in the polls improves, it is still
possible the PMDB will seek an electoral alliance with Lula
and the PT, Temer said. If not, the PMDB will run its own
candidate. So far, Rio de Janeiro ex-governor Anthony
Garotinho has been working the hardest, reaching out to the
whole country in search of support. But there is resistance
to him from within the PMDB, in part due to his populist
image, in part because there appears to be a ceiling to his
support. Germano Rigotto, governor of Rio Grande do Sul
(reftels) is a possible candidate, though he is still not
well known outside the south. Nelson Jobim, a judge on the
Supreme Federal Tribunal (STF) who has announced his
intention to step down, is another possibility; however, he
can't campaign until he leaves the Tribunal, and he may not
have time to attract the support necessary to win the
primary.

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PMDB's Fallback - PT or PSDB in Second Round
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8. (SBU) Temer was confident that despite its current
division, the PMDB will unite for the election, whether in
support of its own candidate or in alliance with another
party. If it runs a candidate who fails to make it to the
second round, the party will seek to negotiate an alliance
with one of the two finalists. He noted that the PMDB had
supported the government of PSDB former president Fernando
Henrique Cardoso, and said there should be a "re-fusion" of
the two parties into a permanent grand alliance. The PMDB
would have no problem with either Sao Paulo Mayor Jose Serra
or Sao Paulo state governor Geraldo Alckmin, who are
competing for the PSDB nomination. In 2002, the PMDB
supported Serra against Lula.

9. (SBU) Asked about the party's program, Temer indicated
that the PMDB favors policies to support economic growth.
It has no objection to the Free Trade Area of the Americas
(FTAA). It would prefer to see Mercosul strengthened so as
to negotiate FTAA as a bloc, but the trend appears to be
moving the other way.

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Comment: PMDB As Power Broker?
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10. (SBU) For now, the PMDB is keeping its options open.
Though Temer didn't mention it, the party's leadership is
waiting to see whether the "verticalizacao" rule will remain
in force for the 2006 elections. This rule, decreed by a
2002 decision of the Supreme Electoral Tribunal (TSE),
dictates that electoral alliances at the national level must
be replicated in races for governors and federal deputies.
The Senate passed a measure repealing the rule, and the
lower chamber is expected to vote on it shortly, with
prospects uncertain. There is also a legal challenge to the
rule pending which the TSE will likely take up in February.
The PMDB wants to know the rules of the game before deciding
on possible alliances, since most observers believe that a

SAO PAULO 00000030 003 OF 003

PMDB presidential candidate would not fare well under the
current system of "verticalizacao." Temer appeared open to
the possibility of an alliance with either the PT or the
PSDB, or to a stand-alone PMDB candidate. Given its
centrist orientation, the PMDB may hold the balance of votes
between Lula's PT and the opposition PSDB, and thus bears
watching closely in the months ahead. End Comment.

11. (U) Biographic Note: Michel Miguel Elias Temer Lulia
has served as federal deputy from Sao Paulo since 1987,
except for a two-year period (1993-94) when he was Secretary
for Public Security in the Sao Paulo state government. He
studied at the University of Sao Paulo and earned a
Doctorate in Law from the Catholic University of Sao Paulo.
From 1984 through 1986 he was the state's Prosecutor
General. He served as the PMDB's leader in the Camara de
Deputados 1995-97 and as President of the Camara 1997-2000.
He was national president of the PMDB 2001-03 and 2004-
present.

12. (U) This cable was cleared/coordinated with Embassy
Brasilia.

McMullen

RELATÓRIO 2

PMDB CHIEF AFFIRMS PARTY'S POSITION AS POWER BROKER BUT BALKS AT PREDICTING PRESIDENTIAL RACE
Date:2006 June 21

C) SAO PAULO 623; (D) BRASILIA 1136;
(E) SAO PAULO 573 AND PREVIOUS; (F) SAO PAULO 30

SENSITIVE BUT UNCLASSIFIED - PLEASE PROTECT ACCORDINGLY

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SUMMARY
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1. (SBU) Michel Temer, President of the Brazilian Democratic
Movement Party (PMDB), believes President Lula has done a masterful
job of disassociating himself from the political corruption scandals
that have crushed some of his closest advisers. He also has
effectively expanded social programs to earn the loyalty and support
of Brazil's lower-middle and lower classes. At the same time,
Lula's opponent, Sao Paulo ex-Governor Geraldo Alckmin, suffers from
a lack of charisma and a failure to have left a visible mark in five
years at the helm of Brazil's largest state. Nevertheless, Temer
declines to predict what will happen in this race, except to say it
will go to a second round, in which "anything can happen." He
confirmed that his own party will not run a candidate for president
and will not ally with either Lula's Workers Party (PT) or the
opposition Brazilian Social Democracy Party (PSDB), at least not
before the second round. However, the PMDB will win the governors'
races in at least ten and possibly as many as fifteen states, and
will again have the largest bloc in both the Senate and the Chamber
of Deputies, so that "whoever wins the presidential election will
have to come to us to get anything done." END SUMMARY.

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LULA'S SLEIGHT OF HAND
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2. (SBU) In a June 19 meeting with Consul General (CG) and Poloff,
Michel Temer, Federal Deputy from Sao Paulo, offered his assessment
of the balance of forces for the presidential election. Though
anything can still happen -- he has seen candidates overcome much
greater disadvantages than Alckmin currently faces, and win -- it is
clear that President Lula is in a strong position. Temer
dispassionately analyzed how Lula had seen his Chief of Staff and
the entire leadership of his party disgraced, and prominent
Congressional members of his party dragged through scandal, and had
emerged personally more or less untouched. This was partly because
other political parties -- Temer mentioned the PSDB and the Liberal
Front Party (PFL) but not his own PMDB, though his comment could
just as easily apply to them -- had, at different times, been
involved in affairs akin to the PT's infamous "mensalao" bribery
scheme, and were thus not eager to expose the PT's misdeeds to the
fullest.

3. (U) It was also because Lula had such a strong bond with the
people, the so-called C, D, and E classes - i.e., the lower-middle
and lower classes. Many in these strata, in Temer's view, believe
that Fernando Henrique Cardoso (FHC) had robbed the poor and given
to the rich, while Lula robs the rich and gives to the poor. Lula
has expanded the "Bolsa Familia" program from 6.5 million families
in 2004 to 8.7 million in 2005 to 11 million families this year, or
(assuming two children per family) roughly 44 million Brazilians.
This, combined with the increase in the minimum wage, the rise of
the Real against the US dollar, and the fall in the price of certain
basic food staples, make the poor much better off. Paradoxically,
many of the rich, especially bankers and other major financial
players, have also benefited from Lula's policies.

4. (SBU) It is the middle class that has suffered from both an
increasing tax burden and the loss of professional-level jobs. In
truth, Temer continued, it is difficult to be optimistic about
Brazil's economic future. The fact of 11 million families eligible
for Bolsa Familia handouts implies a minimum of 44 million people in
abject misery in Brazil. He described a recent event he had
attended sponsored by the Institute for Industrial Development
Studies (IEDI), where Minister of Development, Commerce, and
Industry Luiz Fernando Furlan delivered an upbeat speech. When
challenged by a member of the audience with a few hard questions and
statistics, Furlan, who has himself been at times a tough critic of
the GoB's economic policies, was at pains to respond. Brazil faces
serious challenges in fostering growth, stimulating productivity,
attracting investment, improving infrastructure, and reducing
inequality; however, Lula's sleight of hand has made many voters all
but unaware of these growing problems.

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ALCKMIN'S LACK OF CHARISMA
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5. (SBU) Meanwhile, Alckmin is simply stuck. Temer believes that
since inheriting the governorship from Mario Covas in 2001, Alckmin
has provided honest, decent, competent government to Sao Paulo.
However, in a country that relishes superlatives, he did not
champion any great works, and his accomplishments are not visible.
Alckmin is not personally aggressive or charismatic and is not given
to showmanship, so he didn't leave a distinctive mark on the state.
By way of comparison, Orestes Quercia (ref C), Governor of Sao Paulo
from 1987 to 1990, was a controversial (many say corrupt) figure,
but he definitely left his mark on the state in the many streets and
highways and prisons and hospitals he built. (COMMENT: The same
might be said of colorful, and reportedly equally corrupt, former
Mayor and Governor Paulo Maluf. END COMMENT.) Former President
Cardoso was another example of a politician who had charisma. But
let's wait and see what happens, Temer suggested. Wait until after
the World Cup, which could impact on the voters in a variety of
different and not easily predictable ways, depending on the result.
Wait until the government-subsidized television advertising begins.
It will be "a great war" on the airwaves, and it opens up
innumerable possibilities for the underdog.

6. (U) Temer, a former Sao Paulo state Secretary for Public
Security, was not certain whether Alckmin would suffer as a result
of the recent violence on the streets and in the prisons of Sao
Paulo (ref E) perpetrated by the criminal gang First Capital Command
(PCC). Some of his public criticism of his successor, Governor
Claudio Lembo, had been unfortunate and not good for his image. But
only time will tell how this situation plays out.

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LULA'S TURN TO THE LEFT?
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7. (SBU) CG asked what a second Lula term would look like, assuming
he is re-elected. Unlike some of our interlocutors, Temer believes
Lula may take a more radical (i.e., populist) approach during a
second term. The recent incident in which radicals from the
Movement for the Liberation of the Landless (MLST) stormed the
Chamber of Deputies (ref D) and committed acts of vandalism was a
harbinger of things to come. The group's leader, a member of the
PT's Executive Committee, had on many occasions over the years been
seen at Lula's side. The PT had suspended him, but had taken no
further action and did not appear particularly upset over the
episode, Temer noted.

8. (SBU) Lula, in Temer's view, was a trade unionist who had done
well for himself, who, once re-elected, might finally begin to heed
his friends on the left. Very possibly he would let himself be led
away from the orthodox macro-economic policies that have dominated
his first term. (COMMENT: Some other observers have also pointed to
the GOB's expansion of social spending in recent months as an
indication that Lula is drifting left. Thus far, however, this
spending seems in line with the pump-priming measures of most
incumbents seeking re-election. While Temer sees Lula's campaign
pitting "rich versus poor" as a sign of things to come in a second
term, many analysts who have followed Lula's career characterize him
as a "cultural conservative" who is unlikely to succumb to the
radical leftist/populist temptation. A more worrisome, and more
likely, scenario is a second-term Lula government that lacks the
policy direction, political will, and working majority in Congress
required to push through essential economic and political reforms.
END COMMENT.)

9. (SBU) Turning to his own party's fortunes, Temer confirmed
reports that the PMDB will not run its own candidate for President,
and will not enter into a formal alliance with either the PSDB or
the PT. Any of these options at the national level, he explained,
would damage the party's chances in some of the states because the
"verticalization" rule remains in effect during the 2006 elections.
The recent ruling by the Superior Electoral Tribunal (TSE), which
would have tightened even further the rules governing party
alliances (ref B), was probably correct, Temer averred, even though
it would have been disastrous for the PMDB. If you're going to
require parties to replicate their national alliances at the state
level, it makes perfect sense to go a step further and say that
parties that don't run or formally support presidential candidates
may not ally at the state level with parties that do. Nevertheless,
as the head of a party whose lifeblood is coalition-building at the
state level, Temer was relieved when the TSE reversed itself within
48 hours, and he looked forward to the 2010 elections when the
Constitutional amendment abolishing the "verticalization" rule
altogether would enter into force.

10. (SBU) If the presidential election goes into a second round, as
Temer is sure it will, the PMDB may at that point throw its support
to one side or the other. The PMDB remains split almost evenly
between the pro- and anti-Lula groups. The former seeks alliances
with the PT and hopes for several Ministries in Lula's second
administration. Temer, who is anti-Lula, was highly critical of the
pro-Lula faction and commented wryly over some of the party's
internal contradictions and divisions. Renan Calheiros, President
of the Senate, is the leader of the PMDB's pro-Lula faction; yet, in
his home state of Alagoas (northeast), the PMDB will support the
PSDB's gubernatorial candidate, Senator Teotonio Vilela. Another
pro-Lula leader is Senator (and former President) Jose Sarney, but
his daughter, PFL Senator Roseana Sarney, will be running for
Governor of Maranhao (also in the northeast) with PMDB support
against a PT candidate. Temer outlined the situation state by
state, ending with Sao Paulo. The PSDB, he noted, badly wants an
alliance with the PMDB, but they want to choose the PMDB candidate
to be Jose Serra's running mate. This issue will be resolved within
the week, since the PMDB holds its state convention on June 24. The
party will not hold a national convention June 29 as originally
planned, since all its issues at the national level were resolved at
a preliminary June 11 caucus.

11. (SBU) Temer, who himself had strongly favored fielding a PMDB
presidential candidate (ref F), noted that by relinquishing this
ambition, the PMDB stands to win the governors' races in ten or
perhaps even fifteen states, and will again have the largest blocs
in both the Senate and the Chamber of Deputies. Thus, whichever
party wins the Presidency will inevitably have to seek an alliance
with the PMDB in order to govern. Temer spoke caustically of the
Lula administration's miserly rewards for its allies in the PMDB.
They give the job of Minister to a PMDB loyalist, but no real
control over the Ministry; thus, he can't accomplish anything. In
contrast, Temer believes that in return for joining a governing
alliance, the party should be given control over a sector of the
economy, agriculture, say, or health, and full responsibility for
operating that sector, and should receive full credit or blame for
the successes and failures in that sector. (COMMENT: Left unsaid,
of course, is that the sort of control Temer envisions would also
give the PMDB, and other allied parties, the opportunity to advance
their political patronage goals at the taxpayers' expense. The
PMDB, which is Brazil's largest political party, is already
well-known as a vehicle for patronage. END COMMENT.)

12. (SBU) Temer was more charitable in his assessment of Alckmin's
campaign and his performance as Governor than Alckmin's own PSDB
colleague, Andrea Matarazzo (ref A). Nevertheless, Temer's critique
hits home: Alckmin may perform in the coming months, but so far he
simply has not connected at any level with the electorate. Lula's
job performance, on the other hand, may be open to question, but his
ability to communicate with and relate to the average Brazilian is
unsurpassed. Temer is correct that whichever candidate wins will
need to turn to the PMDB for support in governing. The real problem
is that the PMDB has no ideology or policy framework that it could
bring to the task of formulating and implementing a coherent
national political agenda. Despite the party's illustrious history
as the guiding force that led Brazil from military dictatorship to
democracy, the PMDB, which now holds the balance of political power,
has devolved into a loose coalition of opportunistic regional
"caciques" who for the most part - and there are exceptions - seek
political power for its own sake. Such a party is hardly suited to
the task of providing political direction, which would be
particularly important in a post-election alliance with Lula's
rudderless PT. END COMMENT.

13. (U) This cable was coordinated/cleared with Embassy Brasilia.

MCMULLEN

Links para a publicação original no Wikileaks:

https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO30_a.html

https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO689_a.html

Publicado em 05/05/2016 às 18:49

Cunha cassado: tudo deve mudar para que tudo fique como está

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Foi muito importante afastar Cunha. Por quê? Porque era um símbolo. E para evitar qualquer chance dele se tornar presidente da república, o que aconteceria em caso de impedimento de Dilma e Temer. A hipótese não era absurda não. E aliás ficou muito mais provável hoje. A posição de Temer é mais frágil a cada dia que passa.
Hoje foram muitas notícias negativas para o vice que quer ser presidente. Temer foi condenado pelo TRE de São Paulo e virou ficha-suja, inelegível por oito anos. O ministro Teori Zavascki citou um pagamento de R$ 5 milhões a "Michel" na liminar que determinou o afastamento de Cunha, uma transcrição de conversa entre Cunha e o executivo Léo Pinheiro, da construtora OAS. O substituto de Cunha na presidência da Câmara, e seu aliado fiel, Waldir Maranhão, tem nas mãos botar para votar (ou não) o processo de impeachment de Temer. Maranhão tem problemas bem sérios com a justiça, e parece bem permeável a pressões. O TSE decidiu incluir informações da Operação Lava-Jato nas ações que pedem a cassação da chapa que elegeu Dilma e Temer.
E para completar, Temer perdeu seu grande aliado no esforço para impedir Dilma. E pode até ver ele transformado em um inimigo, nos próximos dias. Mesmo afastado, Cunha continua poderoso, influente, rico e, claro, sabe de muita coisa.
Dilma não tem condições de terminar o seu mandato? Temer vai pelo mesmo caminho, tão impopular quanto ela e sob suspeição da imprensa internacional. É boa notícia que Cunha saia da linha sucessória. Infelizmente Renan Calheiros o substitui. Tem tanto estofo para a presidência quanto Cunha.
É mais uma evidência que o Brasil não precisa trocar as pessoas, mas o próprio sistema como elas chegam lá.
Não adianta a gente se livrar de um bandido e deixar a porta aberta para outro tomar seu lugar. Não haverá política com P maiúsculo sem reforma política; não haverá reforma política sem uma Constituinte Exclusiva para modernizar nossas leis; não haverá Constituinte sem eleições gerais e limpas.
Enfrentar essa tarefa é difícil e necessário. Caso contrário o Brasil continuará refém da máxima do príncipe de Falconeri, nobre italiano decadente que protagoniza O Leopardo, de Lampedusa: "Tudo deve mudar para que tudo fique como está."

Publicado em 26/04/2016 às 15:53

Por que você precisa defender Bolsonaro

com bolsonaro 19 pedidos de impeachment contra dilma Por que você precisa defender Bolsonaro
Ele é um troglodita. Ele defende a tortura. Ele é machista. Ele tem preconceitos com as minorias. Ele é... Donald Trump. Que está pertinho de ser candidato a presidente dos Estados Unidos. Trump causa horror em muitos, dentro e fora de seu país. Para muitos, seu discurso é uma barbaridade indefensável. Para outros é a única solução para a América. Será presidente? Veremos.
O que não se vê nos Estados Unidos é uma tentativa de calar Trump. Os americanos, mesmo os que têm asco dele, dão de barato que ele tem todo direito de dizer o que bem entender. No Brasil estamos bem longe da compreensão americana do que é liberdade de expressão.
Há petições correndo para que Jair Bolsonaro perca seu mandato, por ter dedicado seu voto pró-impeachment ao governo militar, ao coronel Brilhante Ustra, chefe da tortura. A OAB acionou a Câmara para tirá-lo do Congresso. Dizem que tortura é um crime hediondo, e portanto apologia à tortura é um crime hediondo. Isso é um absurdo. Defender uma posição é completamente diferente de usar violência contra alguém.
As palavras exatas de Bolsonaro foram: “Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff.” Bolsonaro defende seu mandato da maneira mais pusilânime possível. A nota do deputado:

"Em nenhum momento foi feita homenagem a qualquer torturador, considerando a inexistência de sentença condenatória atestando que o Coronel Ustra tenha praticado crime de tortura.
O que existe são apenas acusações de pessoas que não devem ser levadas em consideração, pelo fato de terem interesse em receber indenizações por motivação política. O Coronel Ustra foi um bravo que lutou para evitar que o Brasil fosse comunizado e se transformasse numa imensa Cuba. Estranha também que a OAB não tenha a mesma preocupação com os parlamentares que homenagearam Marighella, Lamarca, Prestes e outros criminosos."
O argumento é que como Ustra jamais foi condenado pela Justiça, é "inocente". Mesmo após dezenas de testemunhas apontarem o coronel como um sádico que chegou a torturar crianças e grávidas. É o argumento frouxo de um canalha, que é o que Bolsonaro é.
Mas os canalhas também têm direito à liberdade de expressão. Mesmo os deputados. Mesmo os perigosos.
É patético que Bolsonaro seja perseguido por exercer sua liberdade de expressão, enquanto gente que teve participação direta na ditadura está tranquila por aí. O bandido que torturou Dilma Rousseff vive tranquilamente no Guarujá e nunca passou um dia na cadeia, nem enfrentar abaixo-assinados ou perseguição. Harry Shibata, legista do Doi-Codi, é meu vizinho de bairro. E, claro, tortura acontece todo dia em alguma delegacia do país.
E vamos responsabilizar não só os executores, mas também os mandantes? O caso mais estarrecedor é o de Delfim Netto, que assinou o AI-5, foi ministro dos militares várias vezes, e fazia a ponte com o empresariado paulista, para o financiamento da tortura na Operação Bandeirantes. Hoje é conselheiro de Temer, depois de fazer o mesmo papel com Lula e FHC, colunista de jornal, "consultor" acusado de continuar ganhando uma dinheirama da corrupção etc.
Bolsonaro tem todo direito de dedicar seu voto a quem quiser. Tem direito de defender que a tortura deveria ser legalizada no Brasil. As declarações de Bolsonaro te causam horror? Mais uma razão para defendê-lo. A liberdade de expressão que importa é a de quem te causa horror. Porque é o certo. E por interesse próprio: o que você diz também pode causar horror a alguém.
Se você ama a liberdade, precisa defender o mandato de Jair Bolsonaro, e seu direito de dizer o que bem entender.

Publicado em 25/04/2016 às 18:54

Leia esse livro: Words and Music, de Paul Morley

words Leia esse livro: Words and Music, de Paul Morley
Indescritível é pouco para Words and Music. O subtítulo é "Uma história do Pop no formato de uma cidade." É uma história da música pop, sim, mas também memória, literatura, provocação, viagem psicodélica. É sobre a conexão do pop com a música clássica e a experimental e com a vida e com tudo. E o eixo de tudo é um videoclipe de Kylie Minogue, "I Just Can´t Get You Out of My Head."
Morley faz parte dessa história e não só como jornalista musical de mão cheia (recebi como referência de boas entrevistas musicais o livro Ask: The Chatter of Pop, das mãos do meu chefe, José Augusto Lemos, ao começar a trabalhar na revista Bizz, 1990. Está comigo até hoje). Foi co-fundador com Trevor Horn do selo ZTT. Foi uma das cabeças por trás do Art of Noise, do Propaganda e, uau, do Frankie Goes To Hollywood.
Leia Words and Music.
A trilha sonora de Words and Music está aqui.

Publicado em 25/04/2016 às 17:14

Nem Dilma, nem Temer, nem eleições: uma proposta imodesta para os jovens do Brasil

Dilma Temer 1024x634 Nem Dilma, nem Temer, nem eleições: uma proposta imodesta para os jovens do Brasil
Nem Dilma nem Temer. É o que o Brasil quer para o Brasil. É o resultado que todas as pesquisas confirmam. Na mais nova, do Ibope, 62% dos brasileiros dizem que querem Dilma e Temer fora do governo e realização de novas eleições para presidente e vice. Só 25% acham que seria uma boa Dilma ficar, e isso só se ela conseguir fazer um acordo com a oposição. E só 8% defendem que Temer assuma a presidência.
Este resultado prova a maturidade do brasileiro. Reconhece que Dilma fez uma péssima gestão e Temer foi seu parceiro próximo nisso, durante todo o tempo. Que Temer conspira para chegar à presidência e Dilma para nela se manter, ambos usando todo o arsenal da pior política. Que se Temer tem Cunha, Dilma tem Renan, símbolos do que há de mais corrupto no Congresso. Que Dilma e Temer deram pedaladas fiscais. Que Dilma e Temer se beneficiaram de doações de empreiteiras para sua campanha, e pelo que tudo indica boa parte foi Caixa 2. Que tanto PT quanto PMDB são partidos manchados pela corrupção. Que o governo Dilma está fraquíssimo e um governo Temer já nasceria tão frágil quanto. Reconhece, enfim, que Dilma e Temer são mais parecidos do que diferentes.
A vontade popular é clara: novas eleições. Não dá para discutir até o terceiro milênio as questões práticas e legais envolvidas nisso. O tempo urge. Um lado argumenta que Dilma foi eleita e tirar ela de lá sem provar crime é golpe. Outro lado diz que não é golpe porque todas as regras da Constituição para o impeachment estão sendo seguidas. O brasileiro não está com paciência para ouvir os argumentos de juristas pró e a favor.
Acorda, Brasília: o bicho está pegando já. A economia derrete. O desemprego explode. Os ganhos dos anos FHC e Lula estão em retrocesso violento."Golpe" é se agarrar ao juridiquês a esta altura do campeonato. Seja por parte de Dilma ou de Temer. O povo quer mudança. Não confia nem em Dilma, nem em Temer para fazer o que é preciso. "Todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido." Vamos lembrar dessa frase?
Há quem entenda que esta rejeição a Dilma e Temer e à classe política em geral abre espaço para a eleição de um oportunista para a presidência. Pode ser. Pode ser o contrário: sinal de inteligência do eleitor, que já compreendeu que não basta mudar as pessoas. É preciso fazer mais. Mas o quê? Isso muita gente não sabe.
O que precisamos é de um Plebiscito Constituinte. O nome já dá preguiça, mas tenha um pouco de paciência antes de formar sua opinião. O Plebiscito é quando o eleitor decide se quer uma coisa ou não quer. Uma Constituinte é quando o eleitor elege uma assembleia de representantes para modificar as regras fundamentais do País. Redefinir os princípios e as instituições. Reconversar como deve funcionar o governo, o Legislativo e o Judiciário. As decisões desses representantes viram a nova Constituição do país. Um Plebiscito Constituinte é um Plebiscito para decidir se o Brasil deve ter ou não uma nova Assembleia Constituinte.
O Plebiscito também deve decidir quais as regras para a eleição de nossos representantes para a Assembleia Constituinte. Por exemplo: se podem se candidatar somente pessoas que tenham ficha limpa ou qualquer um. Se só podem se candidatar pessoas filiadas a partidos, ou qualquer um. E por aí vai.
Uma Assembléia Constituinte tem muito poder. Poder, por exemplo, para fazer uma Reforma Política. Que garanta que de fato os brasileiros estejam representados de maneira proporcional no Legislativo. Que cada um dos poderes tenha sua autonomia e seus limites institucionais. E principalmente que ajude a blindar o Brasil, para que não hajam tantas brechas para má gestão, incompetência e corrupção.
A campanha pelo Plebiscito Constituinte foi proposta por 507 organizações sociais em 2013, no embalo das manifestações daquele ano. Assinavam a proposta alguns partidos, inclusive, veja só, o PT. Em junho de 2013, quando o bicho estava pegando nas ruas, Dilma Rousseff incluiu sua própria versão da proposta dentro do que chamou de "Cinco Pactos Nacionais". A presidente disse: "Quero propor um debate sobre a convocação de um plebiscito popular, que autorize o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita". A proposta de Dilma, atenção, era uma Constituinte somente para fazer a Reforma Política e mais nada. Foi rechaçada. Dilma poderia mesmo assim ter mandado uma Proposta de Emenda Constitucional para o Congresso. Deixou o assunto para lá. Quem sabe está se arrependendo agora?
Marina Silva vem propondo eleições diretas já. Luciana Genro quer mais: “que as eleições municipais de 2016 se transformem em eleições gerais para renovar todos os parlamentos e o Poder Executivo. Eleições sem financiamento privado, conforme decidido pelo STF, e com direitos iguais para todos os candidatos." As propostas das duas ex-candidatas à presidência têm a mesma falha fundamental. Mudar as pessoas sem mudar as regras é enxugar gelo.
Aqui está uma proposta imodesta: nas eleições em outubro, vamos incluir o Plebiscito sobre a criação de uma Assembléia Constituinte. Esta é sobre o nosso futuro. E agora, uma proposta modesta, que é para dar conta do nosso presente: também vamos em outubro escolher novos Presidente e vice e renovar em 100% o Congresso. Isso além do que já estava previsto: prefeito, vereador, deputado estadual. Seria uma boa limpa. Mas não só na sujeira atual, e sim no próprio ambiente que permite que a podridão viceje.
Um detalhe importante: a última vez que tivemos uma Assembleia Constituinte no Brasil foi em 1988, quase trinta anos atrás. Uma parte gigantesca dos brasileiros nem era nascida, outros criancinhas. O mundo mudou demais de 1988 para cá. Está mais que na hora de atualizar o Brasil, da juventude brasileira ter uma Constituinte adaptada aos novos tempos, que seja a sua cara.
Muitas supostas autoridades - comentaristas, jornalistas, especialistas - descartarão de cara esta proposta. Dirão que não está previsto sei lá onde, não vai ter apoio, não tem chance de ser aprovada, é molecagem, não é proposta prática e, o beijo da morte, que é "utópica". Estão todos errados. Como disse o dramaturgo George Bernard Shaw: "o homem razoável adapta-se ao mundo; o não-razoável persiste em tentar adaptar o mundo a si próprio. Portanto, todo progresso depende de homens não-razoáveis."
No mundo da economia e da tecnologia se fala muito de "Disrupção". Significa a criação de uma coisa radicalmente nova, seja uma idéia, uma tecnologia ou um modelo de negócio, que transforma radicalmente o cenário. A disrupção destrói valor, gera valor, torna os modelos anteriores obsoletos e enterra rapidamente seus antagonistas. Uma das maiores teóricas da disrupção, a professora canadense Frances Fox Piven, diz que se aplica também para a política: "os grandes momentos de mudança na história dos EUA vieram em momentos de contestação massiva do que estava estabelecido." Movimentos sociais de base, de massa, teriam esse poder único de transformar demandas supostamente pouco realistas em exigências que não podem mais ser ignoradas.
É a tese central do novo livro This is an Uprising: How Nonviolent Revolt is Shaping the 21st Century (Isso é uma Insurreição: Como a Revolta Não-Violenta Está Moldando o Século 21), de Mark Engler e Paul Engler. O livro acaba de ser lançado. Está dando o que falar, ainda mais com a situação nos Estados Unidos (Trump causando de um lado, o socialista Sanders encantando do outro, e Hillary espremida entre os dois). Naomi Klein, para citar um ícone anti-establishment, diz que o livro é "apaixonante, ambicioso e indispensável".
Os Engler escrevem: "mudanças sociais raramente são tão incrementais ou previsíveis quanto muitos `especialistas` sugerem. Há ocasiões em que uma explosão de resistência parece abrir um novo mundo de possibilidades, criando oportunitades imprevistas de transformação." Os autores citam especificamente o Movimento dos Direitos Civis e Martin Luther King; campanhas de desobediência civil que tiveram resultado contra regimes autoritários na Sérvia, Filipínas, Chile, Polônia e Tunísia, começando por Gandhi na Índia; e o casamento gay, que em 15 anos foi de política impensável nos EUA a um quase consenso na política americana. Mark e Paul aprofundam a questão discutindo o que é preciso para enfrentar as mudanças climáticas e concluem que o incrementalismo não dará conta do desafio: "nunca antes a humanidade dependeu tanto para sua sobrevivência de um movimento social que aposte no que não é prático."
Os movimentos populares de resistência podem causar uma grande disrupção, e mudar para melhor as sociedades. No Brasil, em 2016, não há outra opção. Tá na mão do povão. Porque a elite do país já fez sua escolha. É Jair Bolsonaro. Entre os brasileiros que têm renda familiar mensal superior a dez salários mínimos (o que é só 5% da população, mas o grupo mais influente, inclusive na hora de financiar as campanhas), Bolsonaro lidera a corrida presidencial. Em um dos cenários chega a ter 23% das preferências, e Lula ficaria em segundo lugar, com 13%. Já os pobres mais pobres do Brasil, os eleitores que ganham até dois salários mínimos, Bolsonaro tem só 4% dos votos. A pesquisa é do Datafolha.
Se há uma bandeira que pode unir a maioria de nós, é essa: que o povo decida se quer mudar as regras. Que o povo eleja seus representantes para fazer as novas regras. Que a vontade popular seja soberana. No Brasil, em que a maior parte da população é muito jovem, significa que a vontade do jovem será soberana. Você apóia?
Seria a criação de um novo compromisso entre os brasileiros, em um Brasil que se distancia da ditadura e enfrenta os desafios da democracia. Seria precioso, hoje que estamos unidos como nunca estivemos pelas mídias digitais, e desunidos como nunca estivemos para benefício dos mesmos de sempre.
É fácil? Quase nada que vale a pena de verdade é fácil. Também não é essa dificuldade toda. Não é cenário de ficção-científica nem requer milagre do gênio da lâmpada. É só nos organizarmos para pressionar por uma eleição e um Plebiscito. Já fizemos coisas bem mais complicadas.
E se esta imodesta proposta contém um certo perfume de utopia, qual o problema? Nenhum e muito pelo contrário. Lembremos Eduardo Galeano, intelectual falível, militante manco, que deveria ser leitura obrigatória para quem não viveu o século 20, para os jovens que têm nas mãos a chance e responsabilidade de mudar o Brasil, o mundo: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Publicado em 12/04/2016 às 14:47

O último presente de David Bowie

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É bonito o adeus definitivo de David Bowie ao mundo dos videoclipes, que ajudou a inventar, como fez com tantas outras coisas na cultura popular. Sem seu rosto, tem sua cara. O vídeo foi dirigido por Jonathan Barnbrook, artista que criou o design do disco de despedida de Bowie, Blackstar.
A canção é "I Can´t Give Everything Away", a mais simples, talvez a mais bonita do álbum. Só agora, vendo o vídeo, percebi que soa como o disco mais feliz de Bowie, Black Tie White Noise.
É um álbum meio esquecido na discografia de Bowie, porque rica demais. Co-produzido com Nile Rodgers, reafirma a ligação do artista com a música negra, mas dispensa propositalmente o apelo pop irresistível da parceria anterior da dupla, Let´s Dance. É contido e pessoal. Um pouco eletrônico, um pouco rock, um pouco jazz, até instrumental. Foi o reencontro de David com seu instrumento inicial, o saxofone. Voltava à cena elegante, tranquilo. Tudo que o rock não queria ouvir em 1993.
Black Tie White Noise foi gravado no embalo do casamento com Iman, que logo lhe daria uma filha e o acompanhou até a morte. Em retrospecto, foi o momento que reestabeleceu Bowie como um artista que, vida segura, seguiria arriscando na sua arte. Acertando e errando, o que fez até o último dia, até o último vídeo, em que o acerto está na seleção, em vida, de Jonathan Barnbrook. Além de artista gráfico, ele é tipógrafo, criador de fontes. Quem mais acertado para fazer um "lyric video", um clipe focado na letra da canção?
Bowie nos surpreende até depois da morte com um último presente. I can´t give everything away, canta na despedida. Tudo é muita coisa. Bowie nos deu o que queríamos.

Publicado em 07/04/2016 às 15:40

Alckmin, manter Nalini secretário é falta de educação com a gente

JOSE RENATO NALINI 1024x666 Alckmin, manter Nalini secretário é falta de educação com a gente
Para quem sonha ser presidente, Geraldo Alckmin podia caprichar mais quando se trata de Educação. Afinal, o maior chavão da política brasileira é dizer que "educação é a solução". O governador de São Paulo tem desde sempre péssima relação com o professorado, do primário à universidade. Com os alunos nem se fala. Mas tudo que é ruim sempre pode piorar. É o que aconteceu agora.
Ano passado Alckmin cometeu uma barbeiragem daquelas ao tentar impôr uma reorganização das escolas paulistas sem ouvir professores nem alunos, que peitaram o governo e barraram a mudança. Ficou tão feio que o secretário da educação caiu. Foi substituído pelo desembargador José Renato Nalini. Ele tem uma característica muito interessante para um secretário da educação: acha que a educação pública não é dever público. Para ser coerente, deveria pedir demissão imediata do cargo.
Nalini escreveu e publicou no site da Secretaria de Educação um texto surreal. Demonstra absoluta, chocante desconexão com o mundo da educação, e aliás com o mundo em geral. Publico na íntegra abaixo.
Mas antes pinço um trechinho:

"Muito ajuda o Estado que não atrapalha. Que permite o desenvolvimento pleno da iniciativa privada. Apenas controlando excessos, garantindo igualdade de oportunidades e só respondendo por missões elementares e básicas. Segurança e Justiça, como emblemáticas. Tudo o mais, deveria ser providenciado pelos particulares."

Inclusive educação, claro. Que autoridade moral tem Nalini para comandar a educação pública no estado mais rico do país, depois dessa?
Para completar, uma boa sobre Nalini. Um ano atrás, antes de ser secretário, ele deu uma entrevista para o Jornal da Cultura em que defendia que o auxílio-moradia para juízes.
Nalini, então presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, declarou:

“Hoje, aparentemente o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de Imposto de Renda, ele tem que pagar plano de saúde, ele tem que comprar terno, não dá para ir toda hora a Miami comprar terno, que cada dia da semana ele tem que usar um terno diferente, ele tem que usar uma camisa razoável, um sapato decente, ele tem que ter um carro.

Espera-se que a Justiça, que personifica uma expressão da soberania, tem que estar apresentável. E há muito tempo não há o reajuste do subsídio. Então o auxílio-moradia foi um disfarce para aumentar um pouquinho. E até para fazer com que o juiz fique um pouquinho mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome de pânico, tanto AVC etc

Então a população tem que entender isso. No momento que a população perceber o quanto o juiz trabalha, eles vão ver que não é a remuneração do juiz que vai fazer falta. Se a Justiça funcionar, vale a pena pagar bem o juiz.”

Nalini é a favor de um Estado mínimo para os outros - inclusive as crianças e jovens paulistas, pelos quais deveria zelar como secretário de Educação. Mas por outro lado quer um estado generoso para o judiciário. Ele diz que o Estado "já não sabe como honrar suas ambiciosas promessas de tornar todos ricos e felizes". Mas defende que o Estado garanta a fortuna e felicidade dele mesmo e seus colegas.
Que Naldini seja desembargador, e tenha sido presidente do tribunal de justiça, já é preocupante. Que Alckmin faça dele seu secretário sugere que o governador não está nem aí com os milhões de estudantes de São Paulo. Governador, troca de novo de secretário, por favor. Manter Naldini é falta de educação com a gente.

Abaixo, o texto de Nalini.

A sociedade órfã

Uma das explicações para a situação de anomia que a sociedade humana enfrenta em nossos dias é a de que ela se tornou órfã. Com efeito. A fragmentação da família, a perda de importância da figura paterna – e também a materna – a irrelevância da Igreja e da Escola em múltiplos ambientes, gera um convívio amorfo. Predomina o egoísmo, o consumismo, o êxtase momentâneo por sensações baratas, a ilusão do sexo, a volúpia da velocidade, o desencanto e o niilismo.

Uma sociedade órfã vai se socorrer de instâncias que substituam a tíbia parentalidade. O Estado assume esse papel de provedor e se assenhoreia de incumbências que não seriam dele. Afinal, Estado é instrumento de coordenação do convívio, assegurador das condições essenciais a que indivíduos e grupos intermediários possam atender à sua vocação. Muito ajuda o Estado que não atrapalha. Que permite o desenvolvimento pleno da iniciativa privada. Apenas controlando excessos, garantindo igualdade de oportunidades e só respondendo por missões elementares e básicas. Segurança e Justiça, como emblemáticas. Tudo o mais, deveria ser providenciado pelos particulares.

Lamentavelmente, não é isso o que ocorre. Da feição “gendarme”, na concepção do “laissez faire, laissez passer”, de mero observador, o Estado moderno assumiu a fisionomia do “welfare state”. Ou seja: considerou-se responsável por inúmeras outras tarefas, formatando exteriorizações múltiplas para vencê-las, auto-atribuindo-se de tamanhos encargos, que deles não deu mais conta.

A população se acostumou a reivindicar. Tudo aquilo que antigamente era fruto do trabalho, do esforço, do sacrifício e do empenho, passou à categoria de “direito”. E de “direito fundamental”, ou seja, aquele que não pode ser negado e que deve ser usufruído por todas as pessoas.

A proliferação de direitos fundamentais causou a trivialização do conceito de direito e, com esse nome, começaram a ser exigíveis desejos, aspirações, anseios, vontades mimadas e até utopias. Tudo a ser propiciado por um Estado que se tornou onipotente, onisciente, onipresente e perdeu a característica de instrumento, para se converter em finalidade.

Todas as reivindicações encontram eco no Estado-babá, cuja outra face é o Estado-polvo, tentacular, interventor e intervencionista. Para seu sustento, agrava a arrecadação, penaliza o contribuinte, inventa tributos e é inflexível ao cobrá-los.

Vive-se a paranoia de um Estado a cada dia maior. Inflado, inchado, inflamado e ineficiente. Sob suas formas tradicionais – Executivo, Legislativo e Judiciário. Todas elas alvo fácil das exigências, cabidas e descabidas, de uma legião ávida por assistência integral. Desde o pré-natal à sepultura, tudo tem de ser oferecido pelo Estado. E assim se acumulam demandas junto ao Governo, junto ao Parlamento, junto ao sistema Justiça.

O Brasil é um caso emblemático. Passa ao restante do globo a sensação de que todos litigam contra todos. São mais de 106 milhões de processos em curso. Mais da metade deles não precisaria estar na Justiça. Mas é preciso atender também ao mercado jurídico, ainda promissor e ainda aliciante de milhões de jovens que se iludem, mas que poderão enfrentar dificuldades irremovíveis num futuro próximo.

No dia em que a população perceber que ela não precisa ser órfã e que a receita para um Brasil melhor está no resgate dos valores esgarçados: no reforço da família, da escola, da Igreja e do convívio fraterno. Não no viés facilitado de acreditar que a orfandade será corrigida por um Estado que está capenga e perplexo, pois já não sabe como honrar suas ambiciosas promessas de tornar todos ricos e felizes.

Publicado em 06/04/2016 às 16:07

Jim Harrison: uma vida degustada

jim banguela 682x1024 Jim Harrison: uma vida degustada

A América nunca aplaudiu Jim Harrison, talvez o mais classicamente americano dos escritores contemporâneos. Morreu há uma semana sem grande choro da crítica e público. Não passou batido. Mas pelo que ele foi, foi pouco.
Duas explicações: Harrison era versátil e extemporâneo. Escreveu poesia, novela, conto, romance, ensaio, coluna de revista e roteiro pra cinema. Tanta polivalência pega mal nos círculos críticos. Coroa, 78 anos na hora da morte, fazia concessão zero para os gostos da moda, multiculturalismo, protagonismo de minorias etc.
Mais: Harrison  exalava testosterona e glutonice, tesão de viver. Sem caricatura e sem medo. Quanto mais perto da natureza selvagem melhor, mas degustando o melhor da civilização - alta literatura, alta gastronomia. A roça foi o ambiente onde nasceu, sempre viveu, e cenário favorito para seus textos. Mas era cidadão do mundo. Sabia ser brucutu, sabia ser delicado. Viveu com voracidade.
"A morte nos rouba tudo, menos nossas histórias", escreveu. As dele são uma melhor que a outra; os obituários nos lembram de um tempo, um tipo de homem que não existe mais. Só uma: Jim virou roteirista de cinema só porque Jack Nicholson lhe emprestou trinta mil dólares para viver de brisa, com a condição que escrevesse três livros que pudessem virar filmes. Pariu "Legends of The Fall" e "Revenge" em três semanas. Ambos dois viraram filmes, ambos ruins, "Lendas da Paixão" e "Vingança". O terceiro permaneceu livro. Seu primeiro romance também virou filme, esse com Nicholson, Wolf, também fraco, apesar do pedigree do protagonista e do diretor, Mike Nichols.
Sei um monte de causos legais sobre Harrison e quase nada sobre sua obra. Poesia, o que Jim mais curtia escrever, está acima das minhas sensibilidades. Livros dele li só um romance, Dalva, e uma coleção de novelas, Tulip, recomendados. Por quê? Porque a vida vai passando e a gente se distrai. Novos deveres e prazeres vão nos ocupando.
Minha perda. Seu inglês era um banquete.  Trecho intraduzível de Julip:

“I did not want to live out my life in the strenuous effort to hold a ghost world together. It was plain as the stars that time herself moved in grand tidal sweeps rather than the tick-tocks we suffocate within, and that I must reshape myself to fully inhabit the earth rather than dawdle in the sump of my foibles.”

Com sua morte descobri que escreveu recentemente livros com perfume policial. Não deu para resistir. Comprei ontem dois livros de Harrison, um recente, The Great Leader. E já comecei a reler, depois de um quarto de século, suas crônicas gastronômicas, agora reunidas em livro, The Raw and The Cooked: Adventures of a Roving Gourmand.
São por elas que não resisti a escrever sobre sua morte: por gratidão. Como comentei com o amigo que me enviou o bonito obituário do New York Times, "pensei em escrever algo mas li pouquíssimo, não que isso tenha me impedido no passado...". Também jornalista, e muito melhor que eu, o camarada concordou: "disso a gente entende bem!"
Ele e eu descobrimos Harrison de uma maneira que a história enterrou: lendo revista. Jim assinou por anos a coluna mensal The Raw and the Cooked, o Cru e o Cozido, na Esquire, no início dos anos 90, período de renascimento da revista, o último. Durou pouco e marcou muito. Jim lambia os beiços ao escrever sobre comida e bebida. Gostava de cozinhar tanto quanto de comer. Gordura de ganso, vinho borgonha. Devo a ele minha inspiração para começar a pilotar o fogão. A Jim e ao Frugal Gourmet, Jeff Smith, que na época tinha um popularíssimo programa de TV, e terminou seus dias enfrentando acusações de pedofilia...
Parece que foi ontem. "Beware, O wanderer, the road is walking too”, escreveu Harrison.  "Os dias estão marcados contra o que nós pensamos que somos", completou. Jim gostava de escrever novelas, histórias com duração entre o conto e o romance. Também gosto do formato cada vez mais. Gordura só é bom pra cozinhar. Hoje, quanto mais enxutas, mais saboreio minhas leituras.
Como diz o trecho acima de Julip, o tempo passa em grandes ondas, não no tic-tac cotidiano que nos sufoca. Aprendamos com Harrison a degustar cada segundo - na arte, no amor, na mesa, na vida.

Publicado em 31/03/2016 às 17:56

As chances de Temer

temer abr 1024x717 As chances de Temer

Apostei com um amigo que Temer não será presidente. Vale um jantar caprichado, quem perder paga. Não é torcida. Como 80% dos brasileiros, não aprovo o governo Dilma. Não se trata de ser a favor ou contra o impeachment. Cada brasileiro que decida como se posicionar. Mas aprendi faz tempo que jornalista não deve brigar com a notícia. Lição que também tem me servido bem como empreendedor e executivo.

As notícias nos informam o seguinte: é difícilimo Temer ser presidente. Sobram razões.

Tem a questão dos números. Para levar Temer à presidência, são necessários 342 votos a favor, de um total de 512 votos. O governo precisa de 172 votos para barra o impeachment. Abstenções e abstinências contam como votos contra o impeachment. Os partidos fiéis ao governo somam 216 votos. Os partidos de oposição, 220. Os partidos independentes, 76 votos. A oposição tem que conseguir 122 votos além dos que já têm. Mesmo considerando mudanças de última hora, traições etc., é bem difícil.

Ainda mais considerando que em outubro temos eleição para prefeito, vereador, deputado. Dilma continua a dona da caneta e da chave do cofre. Vai liberar verba para quem apoiá-la.

Temer é vice de Dilma há seis anos. E não vice decorativo: presidente do maior partido da base aliada do governo. Por essa razão, muitos antigovernistas ferrenhos não gostam de Temer. Uma parte enorme do PMDB também é anti-Temer. O partido é rachado desde sempre.

Aos outros caciques do PSDB não interessa apoiar Temer.  Alckmin e Aécio querem ser presidentes. FHC foi um dos fundadores do PSDB justamente para se distanciar do grupo de que Temer fazia parte no PMDB, comandado por Orestes Quércia. Marina Silva também não tem nada a ganhar com Temer presidente.

A grande ameaça contra o governo, dizia-se, era a saída do PMDB. Bem, o PMDB saiu do governo e o governo está aí.  O PMDB aiu à sua maneira, ficando.  Vai manter alguns ministérios e muitos cargos. Dilma vai manter esses votos contra o impeachment. A mudança abre espaço para outros partidos médios se aliarem ao governo.

Bom lembrar que Temer pode ser colhido pela Lava-Jato. É também investigado no STF sob suspeita de participar de um esquema de cobrança de propina no porto de Santos, em São Paulo. E pode ser cassado pelo TSE pelo uso de caixa 2, assim como Dilma. Lembrando: se Temer assume, seu vice será Cunha. O establishment brasileiro vai se arriscar a ter Cunha como presidente do Brasil? Difícil imaginar.

Vamos combinar que é muito comum campanha no Brasil usar  Caixa 2. Mas as outras campanhas não estão sendo investigadas, a de Dilma e Temer está. Nos próximos dias, no máximo semanas, chegarão ao TSE as delações premiadas de onze altos executivos da construtora Andrade Gutierrez. Um dos temas é o uso de Caixa 2 para financiar a chapa Dilma-Temer em 2014.

Se o TSE julga isso rápido, antes do impeachment ser votado, Temer tende a já ser carta fora do baralho. Se o impeachment passa e Temer vira presidente, e só aí o TSE julga a questão, Temer poderia então perder seu mandato.

Existe então o temor de que Temer, caso viesse a assumir, fosse um presidente fraco. Com risco de cair. Que teria que governar com uma coalisão tão fisiológica quanto a atual. E lidar com uma crise econômica complicada.

E teria chegado lá através de uma comissão de impeachment em que a maioria dos integrantes têm problemas com a justiça. Sendo que os presidentes da Câmara e do Senado, que vão gerir esse procedimento, têm problemas complicados com a justiça. Pode todo mundo se provar inocente no final, mas enquanto isso, seria muito fácil para a oposição e a opinião pública, nacional e internacional, questionar a autoridade moral de Temer.

Quanto às famosas pedaladas fiscais de Dilma, Temer fez a mesma coisa. Entre 2014 e 2015, Temer assinou três decretos não numerados de crédito suplementar para diversos órgãos do Poder Executivo, estados e municípios. Liberou R$ 8 bilhões sem o consentimento do Congresso, que é exigido por lei. Se pedalada é razão para tirar Dilma, é razão para tirar Temer.

Muita gente que detesta Dilma e Lula já deixou bem claro que não aceita manobras para tirar a presidente do cargo sem provar crime. Juristas e advogados do Brasil estão divididos. As classes intelectual, acadêmica, artística estão em peso contra. Os sindicatos estão em peso contra. Sem falar nos movimentos sociais tradicionalmente alinhados com a esquerda. Gente com muito poder de fazer barulho.

Mais um fator a ser considerado. Se Temer assume,  o PMDB vira situação, o PSDB vira coadjuvante, e o maior partido da oposição passa a ser o PT. Que vai gritar aos céus que houve golpe. E terá Lula à toda, em franca campanha para a presidência em 2018... esse cenário interessa exatamente para quem? Quem é super a favor do vice ser o próximo presidente? Digamos que dois terços dos peemedebistas, mais a direção da Fiesp e a fatia do PSDB que segue José Serra.

Mais uma razão porque um governo Temer é improvável, agora geopolítica. A imprensa internacional, The Economist, Washington Post e companhia, vozes do establishment, clamam pela renúncia de Dilma. Mas pontuam que se ela insiste em ficar, só pode ser tirada em um processo de absoluta transparência. O Brasil é muito importante no mundo, e na América Latina, para que um golpe de estado aqui seja aceitável pela comunidade internacional. Estamos em 2016, não 1964.

Mesmo com tudo isso, a situação seria completamente diferente se a massa dos brasileiros estivesse nas ruas gritando pela saída de Dilma e posse de Temer. Não está.

Uma nova pesquisa do instituto Data Popular, especialista na classe C, é muito reveladora. Os números:

- 80% dos brasileiros avaliam o governo como ruim ou péssimo

- desses, mais da metade avalia o governo como ruim justamente porque ele não ampliou o Fies e o ProUni, não aumentou o salário mínimo, aumentou tarifas, enfim, Dilma não cumpriu as promessas de campanha (o que deve ser verdade também para boa parte das classes D e E).

- perguntados "que pessoa é capaz de tirar o país da crise", 89% dos brasileiros disseram que não sabem responder.

Em português claro: não há clamor popular por Temer. Nem por qualquer outro nome.

Quais são as hipóteses mais prováveis para o futuro imediato do Brasil? Dilma terminar seu mandato. Ou a chapa Dilma-Temer ter seu mandato cassado pelo TSE. Se isso acontece em 2016, teremos eleições diretas depois de 90 dias. Se acontece em 2017, o próximo presidente será eleito de maneira indireta pelo Congresso.

Arriscar qual desses cenários é o mais provável seria chute. O futuro é imprevisível - como fomos lembrados na última eleição, com a queda de avião que matou Eduardo Campos. Pode até ser que Temer acabe virando presidente.

Mas tudo citado acima não é opinião. São evidências, muitas. Não é futurismo. É o que o presente nos diz: as chances estão contra Temer.

Publicado em 30/03/2016 às 15:39

Negar atendimento a um bebê porque a mãe é do PT é imbecil e imoral

ariane e seu filho francisco Negar atendimento a um bebê porque a mãe é do PT é imbecil e imoral

Ariane e seu filho Francisco

Francisco tem um ano. Sua mãe, Ariane, leva o menino todo mês à pediatra, Doutora Maria Dolores. Consultas de rotina, para acompanhar o desenvolvimento do menino. Levava. A médica se recusa a continuar atendendo Francisco. A razão é a posição política dos pais da criança.

A mensagem que Maria Dolores mandou para Ariane foi a seguinte:

"Bom dia Ariane. Estou neste instante declinando em caratér irrevogável, da condição de Pediatra de Francisco. Tu e teu esposo fazem parte do Partido dos Trabalhadores (ele do Psol) e depois de todos os acontecimentos da semana e culminando com o de ontem, onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e a cores, para todos verem (representante maior do teu partido), eu estou sem a mínima condição de ser Pediatra do teu filho. Poderia inventar desculpas, te atender de mau humor, mas prefiro a HONESTIDADE que sempre pautou minha vida particular e pessoal.

Se quiser posso fazer um breve relatório do prontuário dele para tu levar a outro pediatra.

Gostaria que não insistisse em marcar marcar consultas mais.

Estou profundamente abalada, decepcionada e não posso de forma nenhuma passar por cima dos meus principios. Porto Alegre tem muitos pediatras bons. Estarás bem acompanhada

Espero que compreendas."

Ariane é suplente de vereadora pelo PT, em Porto Alegre. Mesmo que Francisco fosse filho de psicopatas assassinos, a posição de Maria Dolores é um absurdo. O que tem a criança a ver com os pais? O moleque é petista? Amigo do Lula?

E aliás, e se fosse?  Seja a consulta de rotina ou emergência, tem um médico o direito de discriminar quem vai atender? Pela cor, idade ou gênero do paciente? Pelo partido que vota ou time que torce? Maria Dolores nem disponibilizou o prontuário de Francisco para os pais, para que eles possam levar a outro médico.

Isso tudo é uma infâmia.

Mas tudo sempre pode piorar. E frequentemente piora.

Ariane denunciou Maria Dolores ao Conselho Regional de Medicina, o órgão dos próprios médicos que julga casos relativos à ética. Se valerem alguma coisa, cassam o diploma dessa mulher.

Quem saiu em defesa dela? Acredite: o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Paulo de Argollo Mendes. Em entrevista ao jornal Diário Gaúcho, declarou: "Ela tem a nossa admiração".

Como é que é?

Para Mendes, a postura da médica foi "absolutamente ética...  Se tem alguma coisa que te incomoda e que tu achas que vai prejudicar a tua relação com o teu paciente, se tu não vais se sentir confortável, se não vai ser prazeroso para ti atender aquela pessoa, tu deves dizer para ela francamente: olha, prefiro que tu procures um colega."

Se você não se sente confortável com um paciente porque ele é corintiano, vesgo, paraibano ou tucano, a postura ética é se negar a atender? Isso lá é coisa que o presidente de um sindicato que representa os médicos possa dizer? E manter a função? E manter o diploma?

Você, caro leitor antipetista, pode perfeitamente detestar Lula e torcer pelo impeachment de Dilma. É seu direito democrático. Agora imagine por um segundo que a história fosse o contrário: uma médica petista se recusando a atender uma criança, porque o bebê é filho de um eleitor do PSDB. E o presidente do sindicato aplaudisse. É absurdo ou não é?

Democracia é conflito abrandado por regras de civilidade, comuns a todos. Quando você se recusa a aceitar o outro porque ele é diferente de você, não está exercendo seu "direito". Está negando o direito do outro. Essa é a prática das ditaduras, do nazismo, do stalinismo.  Quando vindo de um médico - que se nega a atender um bebê! - é ainda mais repulsivo.

Essa história sintetiza exatamente o que há de mais errado sobre a situação que vivemos. Anos de discurso cada vez mais agressivo - dos dois lados - criaram um clima de "se você não está com a gente, está contra a gente", que justifica cada vez mais preconceito, ignorância, violência. Outro dia bateram num cachorro na rua porque estava com uma bandana vermelha...

Escrevi aqui semana passada que ganhe quem ganhar a queda de braço que hoje paralisa o país, vencedores e derrotados terão que conviver no dia, mês, anos seguintes.  O final era assim:

"Entendo que a juventude tenha fantasias revolucionárias em que nos livramos de "tudo que isso que está aí", seja "o que está aí" o que for. Mas adultos não têm esse direito. Você pode fantasiar com um Brasil sem o PT. Ou um Brasil sem ninguém para se opôr ao PT. Pode fantasiar com uma solução imediata e definitiva para o Brasil. Ou até com uma explosão, um momento mágico que nos faça começar do zero.
É só fantasia. O Brasil será o que fizermos dele - com o povo que temos, a elite que temos, os políticos e policiais e professores e juízes que temos. Essas pessoas estarão conosco por muitos e muitos anos. O Brasil do futuro terá Sarney, Collor, Lula, FHC, Dilma etc; seus filhos, netos, apadrinhados. Teremos que fazer um país melhor com a presença de "tudo isso que está aí".

Faltou dizer que não dá para fazer um país melhor para a geração do Francisco aceitando a postura imoral, imbecil de gente como Maria Dolores e Paulo de Argollo Mendes.  O caminho para o Brasil que merecemos exige o exercício diário da tolerância. Mas nunca, jamais com os intolerantes.

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em 29/03/2016 às 17:54

O modernismo militante e o triunfo místico, material de Mondrian

 O modernismo militante e o triunfo místico, material de Mondrian

Piet Mondriaan pratica Yoga, 1909

A pulsão revolucionária do modernismo foi castrada pelo capitalismo e pelo stalinismo. É uma das premissas provocantes do livro Militant Modernism. Reúne quatro ensaios do inglês Owen Hatherley. Revisitam momentos marcantes da arte moderna. Detalha como seu ímpeto transformador foi pervertido por uma narrativa e prática essencialmente reacionárias - nos espectros opostos da política do século 20.
Hatherley escreve sobre Brecht e Reich e brutalismo e construtivismo como se fosse 1982 e ele assinasse uma crítica sobre o show doidaço de alguma banda estreante em um daqueles semanários musicais que formaram minha geração, NME, Melody Maker. O cara convence, que é o que queremos de um crítico-herói do rock: que me seduza e me leve pra cama; que messianicamente me faça atravessar para o outro lado.
Trechos exigem paciência. Arquitetura britânica do pós-guerra te interessa? Mas o livro vale cada linha e chuta portas. Owen não só propõe uma nova visão e uma re-visão do modernismo, como advoga a relevância da atitude modernista para o século 21. E com uma perspectiva de esquerda de verdade - visionária, não-rancorosa e completamente livre de picuinhas autovitimizantes. Um furacão de ar fresco. Livro de 2008. Owen está no Twitter. Siga ele lá.
Hatherley não me deixou em paz na exposição sobre Piet Mondrian e sua turma, o movimento De Stijl. É a maior que o Brasil já viu sobre o artista. Veio prontinha da Holanda. As peças ocupam criativamente o espaço encantador do Centro Cultural Banco do Brasil. Aqui quadros, ali móveis, linha do tempo em um corredor, plaquinhas pra todo lado, um móbile no vão do CCBB, brinquedos interativos pras crianças no térreo. Corre que ainda dá tempo, vai até o dia 4 de abril.

É hagiográfica, como todas essas exposições, Frida, Dali - aquela babação de ovo com "o gênio". Mondrian está nesse mesmo time, dos criadores que viraram marca, "brand", nome de uma palavra só, para colocar em tudo que é badulaque licenciado.
As linhas e cores primárias de Mondrian estão em copo, chaveiro, lancheira, roupa e até hotel. Em brinquedos e videoclipe de Kate Perry. Rendem fortunas em licenciamento. Têm significado. Não está à mostra, nem na mostra.

katy perry this is how we do 05 o424xq 1024x576 O modernismo militante e o triunfo místico, material de Mondrian

O pincel de Piet Mondriaan era guiado pela fé. Como Kandinsky e Malevitch, sua doutrina era a secreta: a teosofia. Rudolph Steiner, também seguidor de Madame Blavatsky, descreveu a teosofia como filosofia, e não religião. Era ambos. Uma ambiciosa tentativa de superar o cisma entre fé e ciência, leste e oeste, o progressismo da era industrial com o conhecimento (superstição?) dos antigos. Para os teosóficos, a evolução se dá através de sucessivas encarnações; uma ordem cósmica perfeita rege nosso avanço; é possível capturar essa harmonia perfeita aqui e agora, se nos subordinarmos a estas regras universais.
A meta pessoal e artística de Mondrian era ser um canal do eterno para o terreno. Uma conexão espiritual com o eterno, além dos sentidos e da história - e, artista maduro, da representação reconhecível do mundo. É uma procura e uma fuga, e boa época para fugir; a arte de Mondrian passou por duas guerras mundiais como se não fosse com ele.
A espessura de suas linhas negras tem um sentido. O abandono de uma paleta variada pelas cores primárias tem um sentido. A recusa de traços diagonais tem um sentido. Tudo é sentido espiritual na simplicidade aparentemente infantil, industrial de Mondrian, como fartamente documentado pela crítica de arte. Mais importante: o próprio artista explicitou as regras que dominariam sua produção em textos teóricos, onde explica o Neoplasticismo (e o Neoplatonismo!).
Aqueles quadradinhos coloridos - juro - são a representação do espírito humano em evolução, dentro de uma ordem cósmica, perfeita, imutável. Como o comunismo de Stálin e, aliás, o supercapitalismo financeiro do século 21, inimigos então e agora de tudo que é imperfeito, falível, humano.
Mondrian era um fundamentalista. Seus últimos anos sugerem um afrouxamento - jazz, círculos, alegria. O estrago já estava feito. As certezas de Mondrian deixaram uma herança autoritária. A forma virou fôrma. Até que qualquer pintor figurativo fosse automaticamente considerado menor e despachado pelos críticos e marchands para a lata de lixo da história da arte, com o apoio e financiamento do Departamento de Estado americano, que achava bem melhor arte abstrata do que arte de protesto. As alegres caixinhas coloridas, decoração para qualquer quinquilharia na lojinha do CCBB, escondem uma herança estéril: a arte que diz respeito a artistas.
Caminhando de lá para o metrô Sé, eu matutava sobre a falta que essa contextualização faz na exposição do CCBB. Sobre o que pensaria Mondrian dessa ausência. E que faria o pintor da ubiquidade, do sucesso material de sua obra no século 21? Do buffet self-service que é a vida espiritual de nosso tempo, que faz a Teosofia parecer sólido porto seguro?
A paisagem desoladora me impôs Hatherley. O centro de São Paulo que não é mais centro de nada, um projeto de cidade que não deu certo, obras-primas parede a parede com prédios queimados, abandonados. E do outro lado da cidade, todo o Capital da capital na Berrini, em cofres-forte de concreto e vidro. Arquitetura inumana, material e espiritual, que domina com suas certezas imutáveis o mundo, de Nova York a Moscou a Pequim.
E o humanismo? Sobrevive na dúvida, eterna.

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"Evolução", tríptico de Mondrian inspirado por seus estudos Teosóficos, pintado entre 1910 e 1911

Publicado em 17/03/2016 às 16:21

Mudança é só fantasia. A realidade é Maluf julgando corrupção…

lula haddad maluf alianca 1 1024x729 Mudança é só fantasia. A realidade é Maluf julgando corrupção...
Você deseja que Lula e Dilma sumam da face da Terra. Os fãs de Lula e Dilma desejam que Sérgio Moro e todos esses juízes e policiais federais vão para o raio que os parta. O governo deseja governar sem oposição para incomodar. A oposição quer chegar ao poder para governar sem o PT na área para atrapalhar. Todos desejamos que o Brasil se livre de vez dos corruptos e dos corruptores, volte a crescer e todo mundo viva feliz para sempre. Trabalhando como europeus, gastando como americanos, e de preferência sem estragar o meio ambiente.
Mas confundir desejo com realidade é uma fantasia infantil. Bebês pensam que o mundo que os cerca é só uma extensão deles mesmos. Criancinhas têm certeza que todos à sua volta estão ali para os servir. Adolescentes têm certezas sobre tudo, pressa infinita, paciência zero.
Quem já é adulto deveria saber que não é assim que as sociedades funcionam.
Aconteça o que acontecer, daqui a dois, cinco, dez, vinte anos estaremos lidando com muitos desses personagens e muitos desses problemas. Você não vai se livrar de Lula, Moro, Dilma, Alckmin, Bolsonaro, Jean Wylys etc. Tirando morte, eles vão permanecendo. Boa parte dos protagonistas da política brasileira em 2016 já estavam na cena nos anos 70; outros, como Sarney, Fernando Henrique, Serra e José Dirceu, são remanescentes dos anos 60.
Também é o caso de Paulo Maluf, que acaba de ser indicado por seu partido, o PP, para integrar a comissão que vai julgar o impeachment. Maluf é procurado em todos os países decentes do planeta. É um acinte que um corrupto do seu porte esteja lá julgando a corrupção dos outros? Mas ué, ele é amigo de todos. Apoio não se nega, dizem os candidatos, então lá estava Maluf passando a mão na cabeça de Haddad, nosso prefeito "moderno". Maluf que falava bem de Lula, Maluf que agora lança Alckmin candidato a presidente.
Idem Collor, que sofreu impeachment. Nos livramos dele. Depois de uns anos, voltou, e queridísismo dos seus antigos inimigos. Idem tantos que já foram julgados e condenados, ou foram só julgados e condenados pela opinião pública. Idem os filhos, netos, bisnetos que vão herdando fortunas e carreiras políticas. E mesma coisa com os grandes empresários, banqueiros, fazendeiros, barões da imprensa.
Tenho meio século de idade e nenhuma ilusão sobre soluções mágicas. Entendo que a juventude tenha fantasias revolucionárias em que nos livramos de "tudo que isso que está aí", seja "o que está aí" o que for. Mas adultos não têm esse direito.
Você pode fantasiar com um Brasil sem o PT. Ou um Brasil sem ninguém para se opôr ao PT. Pode fantasiar com uma solução imediata e definitiva para o Brasil. Ou até com uma explosão, um momento mágico que nos faça começar do zero.
É só fantasia. O Brasil será o que fizermos dele - com o povo que temos, a elite que temos, os políticos e policiais e professores e juízes que temos. Essas pessoas estarão conosco por muitos e muitos anos. O Brasil do futuro terá Sarney, Collor, Lula, FHC, Dilma etc; seus filhos, netos, apadrinhados. Teremos que fazer um país melhor com a presença de "tudo isso que está aí". O primeiro passo para mudar a realidade é aceitá-la. Lide com isso.

Publicado em 16/03/2016 às 15:22

Temos que endurecer com Lula

Lula ag Estado1 1024x698 Temos que endurecer com Lula
Ao virar ministro Lula ganha foro privilegiado para se defender das acusações da Lava-Jato. E pode até conseguir que sua mulher e filho também tenham. José Dirceu conseguiu, no processo do mensalão. Mas com isso Lula também tem uma grande perda. O de ser um brasileiro igualzinho a você, nos direitos e deveres; somente um cidadão particular.
Influente que fosse, até ontem Lula era um ex-presidente. Tinha que responder pelo seu passado no poder. Agora terá cargo público importantíssimo e influentíssimo. É mais que um ministro; será de fato um primeiro-ministro; talvez estejamos assistindo ao início do seu terceiro mandato de fato. Que, como o próprio já anunciou, será seguido de uma candidatura a presidência em 2018. E outra em 2022? Lula quer se eternizar no poder? É o que parece.
Agora que está de volta ao Palácio do Planalto, Lula tem que responder não só por seu passado. Mas por cada minuto do seu dia. Porque agora é o gestor do nosso dinheiro, do nosso futuro. Porque tudo leva a crer que pretende continuar lá por muito tempo. Sendo ministro, é nosso funcionário, pago com nossos impostos. Daqui para frente tem que merecer escrutínio permanente, marcação minuto a minuto. Cada ato seu tem que ser julgado pelos brasileiros com rigor redobrado. Pensando nos efeitos de suas ações hoje e no que elas podem representar no futuro.
Agora alguns vão questionar legalmente se Lula pode ou não ocupar esse ministério. A justiça decidirá. Lula fica? Lula vai? Economia derrete ou melhora? Façamos nossas apostas amanhã. Hoje o ponto principal é outro. Vamos falar do que é certo e do que é errado. Vamos falar de como deve ser a nossa postura, a de todos os brasileiros, com relação a Lula.
Ninguém sob investigação criminal deveria ocupar cargo público. Seja de que partido for. Muitos ocupam, em administrações de todos os partidos, no executivo e legistlativo. Até gente que já foi condenada. O caso de Paulo Maluf é o mais escandaloso, mas um entre muitos. Lula não faz nada diferente do que tantos outros. É explicação, mas não é desculpa. Não é porque é normal, ou legal, que é moral. Sim, o Brasil aceita essas lambanças. Lula é só mais um caso. Mas não é um caso qualquer: é Lula. E sendo Lula, e estando de fato voltando ao centro do poder, e lá pretendendo permanecer, exige nossa vigilância cerrada. Mesmo que você seja fã dele, é preciso endurecer com Lula.

Publicado em 14/03/2016 às 16:25

Moro não é nosso Trump. É o novo Collor

moro1 1024x601 Moro não é nosso Trump. É o novo Collor
Os protestos do dia 13 só tiveram um vencedor claro: o juiz Sérgio Moro. Porque representa a Justiça? Não, porque é o herói dos justiceiros. Os que mais aplaudem o juiz são os que menos têm paciência para os trâmites da lei, a demora das instituições, o rame-rame das votações pelo impeachment. Gritaram "Fora Dilma" e "Lula na Cadeia", porque, sabe, "já está provado" que eles cometeram esse e aquele crime. Bem, não, ainda não...
Os manifestantes bradam por soluções rápidas e definitivas, o exato contrário do que a democracia advoga e Moro promete. Ninguém sério acusa o juiz de lambança. Mas as últimas duas semanas foram de quebra-quebra entre os que ganham e os que perdem com a Lava-Jato. A suposta imparcialidade de muitos policiais, juízes e promotores foi para as cucuias. A postura pseudo republicana de Dilma e Lula também. Agora é briga de torcida. Há de esquentar mais.
Melhor amornarmos os ânimos. O país não ganha nada canonizando ou demonizando Moro. Suas fanzocas acríticas são tão equivocadas quanto lulistas cegos que o tiram de canalha oportunista. Não quer dizer que não tenha um futuro como político. Sérgio seria inumano se não estivesse pensando nisso.
Mas comparações entre Moro e Trump são forçação de barra. Moro é um preparado juiz paranaense com as simpatias habituais dos magistrados. Trump é um bilionário mitômano que se reinventou como populista de direita. Candidato a cargo público, Moro trocaria o papel de estilingue pelo de vidraça. Rifaria a aplaudida independência pela dependência financeira dos patrocinadores habituais de campanhas eleitorais. Para seus fãs, que fizeram esse domingo uma gigantesca manifestação política contra a política (!), ser candidato a qualquer coisa é automaticamente suspeito.
As massas que protestaram são o exato contrário de "massas". São só muita gente. Não têm nada que as una organicamente, fora o ódio "contra tudo que está aí". A pesquisa do Datafolha na Paulista detalha: classe média alta, maioria acima dos quarenta anos, brancos em maioria esmagadora, claro. São o exato perfil de quem votou nas últimas eleições em Aécio, não por ele, mas por ser o candidato contra o PT. Este domingo foi o terceiro turno para o antipetismo radical.
Os cenários futuros mais prováveis, com ou sem Dilma, indicam a permanência no poder do saladão fisiológico habitual. É cenário de horror para quem quer corte seco com o passado, para quem saiu às ruas no dia 13. Sejam os muitos inteligentes e bem-intencionados, sejam os mais raivosos e ruidosos, que carregavam cartazes exigindo intervenção militar. Ou, mais suaves, aplaudiam Moro e PF + MP - polícia federal e ministério público.
A classe média em qualquer lugar do mundo sonha, como a nossa, com "Ordem e Progresso". Com alguns dando as ordens, e a sociedade obedecendo; quem desobedecer, polícia neles. E com todos progredindo, o que significa mais dinheiro no bolso, ano após anos. E quem atrapalhar, cana.
Isso nada tem a ver com as bagunças da liberdade e as sujeiras da democracia. É uma fantasia. Tão fantástica quando forçar o México a construir um muro que separe o país dos EUA. Faz cada vez mais sucesso pelo mundo afora, o que explica em grande parte Trump, mas também Bernie Sanders. Com a desigualdade crescendo sem parar, os super ricos perderam sua base de apoio tradicional, a classe média. Que rejeita o establishment, sem ter nada de seu para pôr no lugar.
Quando a própria atividade política é automaticamente razão para suspeita, o único político aceitável é o que suspeita dos políticos. Como Trump e Sanders. Ou como na Espanha o Podemos e o Ciudadanos. É claro que quando eles chegam lá, mostram que não eram tão apolíticos assim... como, aliás, fez Lula.
Alimentar essas fantasias assépticas da classe média requer "um novo tipo de político", que é contra os políticos (acredite quem quiser). É oportunidade perfeita para o campo ultraconservador brasileiro, umbilicalmente ligado a Wall Street. Quem saiu às ruas ontem ou bateu palmas pela TV é potencial eleitor do próximo ungido da nossa elite. Há quem tema Bolsonaro. É um bufão. Caiado teria mais o perfil, mas já coroa, com longo currículo. Passou do ponto. Melhor quem nunca tenha ocupado cargo público. Alguns tentaram colar Joaquim Barbosa, da última vez.
Logo começarão a aparecer potenciais candidatos aos principais cargos da nação e, claro, à presidência. Se fosse hoje, Moro teria muitos votos. Sabe-se lá quando teremos nova eleição e o que Moro será até lá. Mas orna, né? Moro para presidente, tanto faz o partido. Você votava nele?
Como nos EUA, onde bilionários mudaram completamente o cenário político, a ponto da vaga republicana estar sendo disputada entre Trump e o ultradireitista Ted Cruz, candidatos no Brasil com esse perfil antipolítica podem não ganhar. Mas no mínimo puxam o debate político para a brasa de seus patronos. Tem financiador no Brasil para candidatos desse perfil? Ô se tem. Mesmo depois da Lava-Jato.
Não duvide que entre os candidatos a presidente do Brasil teremos um "puro". Que não seja Moro, vai rescender a Moro. Pai de família, jovem e bem-sucedido, incorruptível, batalhador, um inimigo dos políticos, um... caçador de marajás? Quem tem mais de quarenta já viu esse filme. Mas os mais jovens não viram. E os mais jovens são a grande maioria dos eleitores.
Collor quase deu certo. Faltou na hora H a adesão dos tucanos, defendida por Fernando Henrique e barrada por Mário Covas. Quase que escapa do impeachment. Mas Collor funcionou para barrar a eleição de Lula em 1989 e "modernizou", "abriu" o país. Nos dias de hoje há quem diga que perto do PT, Collor era a honestidade em pessoa.
Moro não é Collor, e 2016 não é 1992. Só lembro que Collor também foi pintado como salvador da pátria, e seus fãs tinham o exato perfil dos manifestantes deste domingo. Nunca é demais repetir que a história se repete - como farsa.

Publicado em 10/03/2016 às 17:13

Só tem uma boa razão para você protestar no dia 13: se você é rico (ou banqueiro)

vai fica1 Só tem uma boa razão para você protestar no dia 13: se você é rico (ou banqueiro)
Lula na cadeia? Lula fora da cadeia? Cunha, Dilma, Aécio? Vamos falar de coisa séria: dinheiro. Vamos falar de quarenta e oito bilhões de reais. É quanto lucraram em 2015 o Bradesco, Itaú e Santander. Foi R$ 20,6 bi para o Itaú, R$ 19,9 bi e R$ 6,6 para o Santander. Considerando que 2015 foi ano de crise brava, você poderia imaginar que o lucro dos bancos ia cair. Em vez disso, subiu. Bradesco teve lucro 16,4% maior que em 2014; Itaú, 15,6% maior; Santander, 13,2% maior.
E em 2016? A crise econômica apertou. Será que os bancos vão conseguir ter lucros gigantescos novamente? Com a palavra, os próprios bancos, conforme reportagem de Felipe Marques e Vinícius Pinheiro no Valor Econômico. O Itaú indicou a analistas que seu lucro pode cair em torno de 15% ao ano (seria de um pouco mais de R$ 17 bilhões). O Credit Suisse avalia que o Bradesco deve ter uma queda similar, de 14% (também ficaria em torno de R$ 17 bilhões). Já o presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial, garante que o Santander terá lucros maiores esse ano no país. Se essas previsões se confirmarem, os bancos terão lucros gigantescos, no meio da maior recessão da nossa história em décadas. Mas serão lucros menores que em 2015.
Isso, se nada mudar.
Mas os bancos brasileiros, os bancos internacionais, e quem tem muito dinheiro pra investir, seja brasileiro ou estrangeiro, torcem para que uma coisa mude. Uma coisa só. E mude o mais rápido possível.
E essa coisa é a taxa de juros.
Para os especialistas, a queda projetada no lucro dos bancos em 2016 está ligada a três elementos. A diminuição do crédito, o aumento da inadimplência, e a taxa de juros. O crédito vai continuar caindo. Os calotes vão continuar aumentando. O país está em uma recessão brava e não levanta tão cedo. É inevitável que os bancos emprestem ainda menos para empresas e para pessoas físicas. E natural que fazer uma provisão maior dos seus recursos para se protegerem da inadimplência.
Sobra uma única coisa que pode fazer os lucros dos bancos serem muito maiores do que está projetado para 2016. Basta uma canetada. Basta o Banco Central do Brasil subir a taxa de juros. Hoje a taxa básica, a Selic, está em 14,25%. É altíssima para padrões internacionais. É cretiníssima, considerando-se que o país está em recessão, e que a inflação que temos não tem nada a ver com demanda. É resultado direto da desvalorização do real, da instabilidade política e do tarifaço promovido pelo próprio governo ano passado. O PIB está despencando e mesmo assim nossa taxa de juros está nas alturas.
Mas não está alta o suficiente para fazer o lucro dos bancos voltar ao patamar de 2015. E, mais preocupante ainda para os banqueiros, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, já sinalizou que a taxa vai ficar estável, nesse patamar. Ou até, quem sabe, apareça oportunidade para baixá-la.
Donde a pressão dia e noite para que o Banco Central suba os juros. Nos programas de TV, nos artigos dos especialistas, nas análises dos experts internacionais. Donde a pressão sobre Tombini e Nelson Barbosa, fiadores dessa política, e Dilma, chefa dos dois. Dilma que já tentou baixar o patamar dos juros brasileiros anos atrás, na canetada, e levou lambada de tudo que foi lado.
O que acontece se o juro baixar? Diminui o lucro dos bancos. Diminui o lucro de quem tem muito dinheiro investido nos bancos. Não é que eles não vão lucrar. Vão lucrar e muito. Mas não nos patamares indecentes que lucram hoje.
Pela razão que seja, Dilma resiste a subir ainda mais os juros. Então engrossa a cada dia a campanha para o Brasil trocar Dilma por um presidente mais "alinhado com o mercado". Que faça "os ajustes que o Brasil precisa". Que corte na previdência, nas aposentadorias, no valor do salário mínimo. Que nos garanta boas notas das agências de rating. E, claro, que aumente os juros - porque é isso que o Brasil precisa para "restaurar a credibilidade"...
O roteiro da mudança é claríssimo. É fazer exatamente o que está sendo feito na Argentina. O presidente recém-eleito, Maurício Macri, criou uma equipe econômica que é uma perfeita filial de Wall Street. A Bloomberg, que é a voz jornalística mais influente no mercado financeiro global, publicou uma reportagem com o seguinte título: "JPMorgan and Deutsche Bank Boys Are Running the New Argentina" ("os caras do JPMorgan e Deutsche Bank estão dirigindo a Nova Argentina"). É isso. O novo ministro das finanças, Alfonso Prat-Gay. é veterano do JPMorgan. Escolheu como seus braços direitos, para fazer a gestão da dívida do país, outros dois ex-JPMorgan, Luis Caputo e Santiago Bausili. Caputo chegou a ser diretor geral do Deutsche Bank na Argentina. O secretário executivo do Ministério, Mario Quintana, criou o fundo de investimentos Pegasus Venture Capital. E por aí vai. É tudo gente que veio do Goldman Sachs, Barclays, Morgan Stanley. Os postos chave do novo governo argentino estão todos ocupados por financistas, executivos, economistas de banco. Não é à toa que os credores da Argentina estão chamando essa turma de "a melhor equipe econômica da região."
A política econômica atual do Brasil é desastrosa para o país. É necessário e urgente mudá-la. Isso sim seria uma ótima razão para protestos de milhões. Mas os que estão à frente do movimento para tirar Dilma do Planalto têm um projeto ainda mais danoso que o dela (por difícil de imaginar que seja). O protesto deste dia 13 tem como objetivo final tirar Dilma e colocar em seu lugar - bem, quem? E para fazer exatamente o quê? Isso os líderes dos protestos não dizem. Ficam em brados vagos, combater a corrupção etc.
Não falam porque não ganham nada assumindo que o plano para o Brasil é o "Plano Argentina". É ocupar o governo brasileiro com banqueiros. Priorizar os ganhos financeiros e não quem trabalha, produz ou empreende. Piorar a rede de proteção social dos pobres, piorar os serviços, privatizar a qualquer custo e preço. Cortar na carne de quem já está pele e osso. E encher ainda mais os cofres de quem já tem muito, no Brasil e no exterior. Se você pensa que a vida está difícil sob Dilma, não sabe o que te espera.
Isso lá é razão para defender Dilma? Mas de jeito nenhum. Não se trata de defender ou atacar um lado. Se trata de colocar em pauta o que realmente interessa, e o que está acima dos partidos e das pessoas: vamos construir um país mais justo, mais produtivo, mais educado e menos corrupto? Como fazemos isso? Brigando pelo que é importante, não "contra tudo que está aí".
Se você é rico e vai lucrar ainda mais se Dilma for trocado por algum fantoche de Wall Street, ué, vá para as ruas defender seu interesse. Se você é um dos 99,9% dos brasileiros que não vivem de juros, pense duas vezes.

Publicado em 04/03/2016 às 17:29

Lula está na mira, mas o alvo é Dilma

lula 2 1024x682 Lula está na mira, mas o alvo é Dilma
Lula e Dilma estão no banco dos réus. De lá jamais sairão. Uma eventual condenação abrirá a porta para novas acusações. Mas nem precisa. Mesmo se inocentados, permanecerão sob fogo cerrado. A missão de longo prazo é impedir Lula de voltar a concorrer para presidente. A missão imediata é impedir Dilma o quanto antes. O show de hoje, e de todo dia, é para atingir esse objetivo. Show que não tem data para acabar.
Agora bateram mais forte que nunca em Lula, e mais dolorido, em sua família. Ele promete bater de volta. Como todo poderoso e famoso, tem convicção que é um escolhido, e agora certeza que é perseguido. Diz que irá aos quatro cantos do país. Convoca petistas, sindicatos, sem-terra. Falou como falava nos palanques. Deve ter eletrizado os simpatizantes. As manifestações pró e contra Lula e Dilma vêm aí. Arrisca aparecer um mártir. O Brasil vai mal? As coisas sempre podem piorar - e frequentemente pioram.
As investigações são detalhe. Não se trata de provar crime. Se trata de criar um clima político que leve à cassação de Dilma e, sonho dourado, cadeia para ela e Lula. Por enquanto não existe prova de nada contra Dilma, pessoalmente. Mônica Bergamo, na Folha, noticia que a construtora Andrade Gutierrez pode dar à Lava Jato informações sobre pagamentos feitos à campanha de Dilma em 2014, via caixa dois. Se isso acontecer, pode chegar a justificativa necessária para o impeachment da presidente.
Dilma é peso pena que qualquer vento leva. Por mérito pessoal, jamais seria presidente. Lula ganhou quatro eleições para presidente, duas para si, duas para Dilma. Por isso, e pela sua desastrosa gestão da economia do país, é que ela é uma presidente tão fraca.
Lula foi o maior líder de massas que esse país já viu. Foi eleito para priorizar as necessidades dos pobres que o elegeram. Priorizou os grandes - grandes indústrias, grandes bancos, grandes grupos educacionais, grandes fazendeiros, grandes obras, grandes ganhos para quem tinha grandes fortunas. Não ignorou completamente os necessitados, raridade na nossa história. É sua única redenção e justificativa para seu grande capital eleitoral. Esses passinhos que deu na direção de uma melhor distribuição de renda já são pecado mortal para os poucos que têm muito. A profundidade do preconceito de classe no Brasil é poço sem fundo.
Corrupção é mato na história política do país. O papo que o PT "institucionalizou" é só isso, papo. A oposição grita contra Dilma e Lula. Como se o Congresso, presidido por Renan e Cunha, em que a maioria responde a processos, tivesse moral para clamar pela ética. Como se o PSDB não tivesse rencas de acusações a responder. Mas são sempre dois pesos, duas medidas. Lula e companhia têm muito a explicar. Alckmin, Aécio, Serra etc. também. Cadê os paladinos da justiça para encrencar com o PSDB? Fernando Henrique Cardoso corrompeu deputados para garantir a aprovação da emenda da reeleição, que o beneficiou. A Polícia Federal nem investigou... vão bater na porta dele no dia de São Nunca.
Otimistas entendem que o Brasil sairá melhor da Lava-Jato do que entrou - e que se for para começar a limpa pelo PT, que assim seja. Mas investigar de um lado só não é justiça, é perseguição política. Sim, será um país melhor com políticos corruptos na cadeia. Mas não se forem todos de um partido só. Não precisa muito para ampliar o escopo da Lava-Jato. Basta perguntar aos empresários corruptores, envolvidos na Lava-Jato quanto dinheiro deram para o PSDB e outros partidos da oposição, quanto pagaram por palestras, que benefícios suspeitos financiaram. Fácil e difícil assim.
A quem beneficiaria estender a investigação de corrupção ao PSDB, PPS, Democratas, Solidariedade etc.? Não ao "mercado", e como se sabe, quem dita as regras do jogo é quem tem dinheiro. Por que a bolsa sobe e o mercado financeiro celebra quando há cheiro de impeachment de Dilma? Porque o PSDB é ainda mais pró-bancos que o PT, claro.
É diferença sutil, mas há diferença. O PT governou com as elites, mas sua base é o povão. O PSDB é a própria expressão eleitoral da elite, a de verdade e a que aspira a ser. Ambos são partidos de centro, por isso arquiinimigos. Não têm ninguém com expressão eleitoral à esquerda deste centro. Á direita temos conservadores de todos os matizes.
Dilma é o alvo. Mas os tucanos têm receituário parecido com o de Dilma para tratar nossos problemas. Trocar o governo atual por uma outra coalizão fisiológica, só que com o PSDB à frente (e um PT furioso na oposição) seria trocar seis por meia dúzia. Com um agravante. As oposições defendem ainda mais benefícios para os ricos e ainda menos benefícios para os pobres. Os antipetistas querem "ajuste", que em português claro é menos dinheiro para educação, saúde, aposentadorias. Querem menos impostos (principalmente para os ricos) e juros sempre, sempre mais altos. Implementadas, as políticas defendidas pela oposição são garantia de acirramento da nossa desigualdade, que atrasa o país e é causa fundamental dessa penúria em que vivemos - material, intelectual, eleitoral. O tratamento arrisca matar o paciente.
Não que a saída de Dilma, e Lula fora do páreo, seja garantia de ascenção dos tucanos ao poder. No caso de convocação de novas eleições, pode acontecer qualquer coisa. O fastio do eleitor com os políticos está aí, em todas as pesquisas. Podemos eleger um populista de direita, um Trump à brasileira. Podemos eleger qualquer coisa.
Dilma pode sobreviver, mesmo com uma condenação de Lula, se não houver nenhuma prova contra ela? Sim. FHC terminou seu mandato, com o PT batendo forte, muitas acusações de corrupção, e pedidos de impeachment. Para ficar em um caso similar, outro "poste", Celso Pitta, que Paulo Maluf elegeu em São Paulo, também governou até o final. Podemos ter sim mais três anos de Dilma no poder, crise econômica se aprofundando, crise política pegando fogo. Considerando o estado do Brasil, a pergunta é: para quê?

Publicado em 01/03/2016 às 13:21

A lei é cretina, mas é a lei

 A lei é cretina, mas é a lei

Diego Dzodan, vice-presidente do Facebook

O vice-presidente do Facebook chegou ao Brasil e foi preso pela Polícia Federal. O pedido de prisão preventiva de Diego Jorge Dzodanpartiu de um juiz da comarca de Lagarto, em Sergipe. A razão é “descumprimento de ordens judiciais”. De fato foram dadas ordens. De fato elas não foram cumpridas.

A justiça solicitou endereços físicos de suspeitos de tráfico, para serem usadas em uma investigação de crime organizado. Eles trocavam mensagens pelo Facebook e pelo Whatsapp.

Segundo a própria Polícia Federal, o executivo foi procurado três vezes nos últimos meses. Sem resposta do Facebook, o juiz estipulou multa diária de R$ 50 mil. Ela não foi cumprida por trinta dias. Depois a multa aumentou para um milhão de reais por dia. E nada de resposta do Facebook. E agora o executivo foi pra cadeia.

Dá vergonha? Dá. Mas é um absurdo que ilumina outros dois absurdos. Façamos do constrangimento um chamado à ação.

O poder judiciário brasileiro está cada vez mais espaçoso. As sociedades abominam o vácuo. O poder executivo abandonou o protagonismo. O legislativo escandaliza pelo toma-lá-dá-cá e se perde em picuinhas partidárias. Então juízes, promotores, delegados estão se concedendo cada vez mais poder. Um país civilizado requer leis decentes e Justiça que as garanta, mas uma nação não é delegacia, tribunal ou cadeia.

Então a primeira coisa que essa prisão de Diego inspira é a questionar essa militância do judiciário. Que frequentemente desliza para militância partidária e gana de aparecer. Vamos celebrar que nossa Justiça é melhor que nos anos que passaram, mas vamos reconhecer que falta muito para ser a instituição de que o Brasil precisa. Será que não estamos precisando de uma boa reforma no Judiciário, de Sergipe ao Supremo?

Segundo: um país precisa de leis decentes, que a Justiça garanta, e todo mundo cumpra igualmente. Não é o caso do Facebook, que é dono do WhatsApp. O aplicativo é vital na vida de mais de cem milhões de brasileiros. E mesmo assim o Whatsapp não existe como empresa no Brasil. Assim, quando há um questionamento judicial envolvendo o WhatsApp, quem é responsabilizado é o Facebook. Está certo? Está certíssimo.

Não é a primeira vez que coisa desse tipo acontece. O primeiro caso marcante foi a prisão do presidente do Google, Fábio Coelho, em 2012, por causa de ordem judicial - um juiz de Mato Grosso do Sul mandou o Google tirar do ar vídeos postados no YouTube contra um candidato a prefeito. O Google disse que não podia tirar, porque a responsabilidade sobre o conteúdo é de quem postou. Deu problema, ficou por isso mesmo.

Em dezembro de 2015, a Justiça mandou suspender o WhatsApp. A base do bloqueio é a lei do Marco Civil da Internet, que exige que serviços ofertados no país respeitem a legislação brasileira. O bloqueio ficou só 12 horas fora do ar. Pela lei, o WhatsApp deveria estar bloqueado até agora. De novo: deu problema, ficou por isso mesmo.

As empresas que atuam no Brasil têm obrigações iguais perante a justiça, sejam brasileiras ou estrangeiras. Não tem o menor cabimento a padaria da esquina ser obrigada a ter CNPJ e o WhatsApp, gigantesco, não. Os gigantes da internet frequentemente agem como donos do mundo. Mas do ponto de vista jurídico não existe "mundo", o que existem são países. Quer fazer negócio aqui, obedeça a lei daqui. Pague impostos aqui. Cumpra as regras daqui. No momento a Apple se recusa a obedecer uma ordem judicial nos EUA. É valentia e arrogância. Nenhum cidadão está acima da lei, e nenhuma empresa, pequena ou grande. A empresa que conteste o quanto puder nos tribunais; em última instância, quem decide o que é justo tem que ser a nação, não o CEO.

Claro que não é justo ou inteligente um juiz lá nas quebradas mandar bloquear o WhatsApp ou prender quem lhe dá na telha. Também não é ilegal. Se a lei é cretina, e o juiz sem noção, bem, é o preço de fazer negócios no Brasil (ou nos EUA, ou Angola, ou no Planeta Terra). Preço alto, como sabemos todos.

Quem sabe o Facebook se toca, toma a iniciativa de regularizar a situação do WhatsApp no Brasil, e inspira outras empresas globais a fazer o mesmo? O que vale para empresinhas tupiniquins tem que valer para empresonas estrangeiras.

Publicado em 24/02/2016 às 15:09

A primeira vez com os Rolling Stones ninguém esquece

stones 1024x576 A primeira vez com os Rolling Stones ninguém esquece
Da primeira vez que vi os Rolling Stones, comecei meu texto pelo título: "Qual o problema de Mick rebolar até os 51 anos?". Foi em 1995. Eu tinha trinta anos.
Esse ano quem faz 51 anos sou eu, e rebolarei no show dos Stones em São Paulo, garanto. É minha última vez e a primeira vez do meu filho. O moleque tem 12 anos. Quem sabe se terá chance de ver outra vez os Stones? Pelo pique dos velhinhos, aposto - torço - para que sim. Time is on our side.
Ainda que eles sejam a maior banda cover do mundo, são também a maior banda do mundo, ponto - e sempre serão.
O texto segue abaixo...

É fácil ver seu primeiro show dos Stones e decretar: "Eles ainda são a maior banda de todos os tempos" etc. É mais fácil ainda relegar os velhinhos ao papel de banda cover mais cara do mundo.
É fácil porque ambas as alternativas são verdadeiras. Especialmente a segunda, se você assistir "Voodoo Lounge" duas noites seguidas.
Não se engane: tudo que parece ser espontâneo, "visceral" e rock'n'roll no show é na verdade planejado até os minimíssimos detalhes (com um pequeno desvio-padrão: sábado não teve "Rocks Off" e "Midnight Rambler", teve "You Can't Always Get What You Want" e tal). Na manhã seguinte, não dá para ignorar o aspecto cabaré da coisa toda.
Nem sempre foi assim. Durante uns dez anos, os Stones realmente foram a maior banda de rock do mundo –a banda que duas gerações de pais mais detestaram.
Bem que eu queria ter visto os Stones naquela época, qualquer show entre o Marquee, Altamont e a turnê de 75. Deve ter sido realmente emocionante ver uma bandinha de blues inglesa e desajeitada se tornar um perigo para a sociedade.
Os idiotas objetivos nunca entenderam essa moral toda dos Stones. Claro que eles nunca foram muito mais que uma excelente banda de bar. Mas a questão não é musical.
Como resumiu um amigo, os Stones eram os maiores porque eram os maiores encrenqueiros. Bandidagem, satanismo, militância, drogas, promiscuidade, viadagem – tudo que antes dos Stones queimava a fita de qualquer um, depois dos Stones se tornou obrigatório para todo candidato a rockstar.
Hoje eles estão calminhos e vivendo do passado. Pode muito bem ser que o conceito de Rolling Stones 95 seja uma aberração. Num mundo ideal, o avião teria caído com Jagger e cia. dentro em algum dia de 1969. Assim poderíamos idolatrar nossos heróis em paz, sem o constrangimento de assistir ao aparecimento das rugas e das carecas.
Ou talvez sejam mais honestos dinossauros tipo Pink Floyd, que assumem compartilhar da senilidade do seu público.
Mas se o que nossa sociedade propõe é a adolescência eterna, qual é o problema de rebolar até os 51 anos? Mick Jagger nunca cantou "hope I die before I get old". Se a única oportunidade que o Brasil teve de ver os Stones foi agora, paciência. Nem sempre a gente consegue o que quer.
No final das contas, o que interessa sobre essa história de envelhecer é como você gastou o seu tempo. Várias bandas foram muito mais sedutoras que os Stones e nos levaram para a cama. Profetas menos diletantes que Mick Jagger nos convenceram que não havia futuro e o negócio era sair quebrando tudo. Gente sombria nos iniciou no ocultismo, gente bêbada propôs que cair pela sarjeta era a única saída, gente cínica defendeu que ficar rico era a melhor vingança.
Mas ninguém fez tudo isso, ao mesmo tempo, e tão bem. Só os Rolling Stones, a maior banda de rock de todos os tempos.

(E em 2012, quando eles lançaram sua última música inédita, Doom and Gloom, que tocam na turnê sul-americana, escrevi novamente sobre eles...)

Os Rolling Stones estão de volta. Nunca nos deixaram de fato. Nunca nos deixarão. É pantomima pelo menos desde Tattoo You, trinta anos atrás. É circo melhor que o de Soleil. Tem música nova no pedaço, Doom and Gloom. É um ganchinho pra nos enganar, pra nos levar a comprar a nova coletânea caça-níquel da banda, comemorando os cinquenta (!?) anos dos Stones. A música é Rolling Stones identificável a quilômetros, genérica, mas desce quente como bourbon.
O vídeo tem Noomi Rapace, a hacker da trilogia Millenium, a mocinha que enfrentou o Alien, sexy e esperta, em graus variáveis de grotesqueria e nudez. Nem precisava. A letra é melhor do que 99% do que você ouviu esse ano. É tópica. A expressão Doom and Gloom significa algo como Só Desgraça. Quando alguém só fala coisa deprimente, bodeante, baixo astral, os gringos dizem que a pessoa está full of Doom and Gloom.
Jagger comenta 2012: guerra aqui, depressão acolá, hiperconsumismo, apocalipse ambiental à espreita. Leva a sério a dor, que é real, mas não resiste ao sarcasmo - você não vai levar aquilo pelo que pagou, cara; hey, baby, dane-se isso tudo, vem dançar comigo. Também não resisto: é só rock'n'roll, mas eu gosto.

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