O show estava no meio e ótimo. A cerveja fez efeito. Não tinha como adiar. Toca enfrentar 200 metros até o banheiro, químico - porque fazem show em lugar que não tem banheiro para adultos? Por que eu ainda vou nesses shows pra tanta gente?
Eram quatro banheiros, três para homem, um para mulher. Andava rápido. Escolhi a fila menor, mesmo sabendo que a do lado sempre anda mais rápido. Tinha dois caras lá na frente, e imediatamente na minha frente estavam três amigos conversando. Homossexuais, elegantes, naquela indefinível fase entre os 28 e os 45, quando gay administra bem a idade e heteros engordam e encarecam.
Logo duas meninas viram a trinca, se aproximaram animadas, turma se encontrando, beijinhos etc. Mulheres jovens, bonitas, fashionettes, pouco abaixo de trinta. Papo animado. A fila atrás de mim aumentando. O primeiro dos três amigos entrou no banheiro. Saiu. Depois o segundo. Saiu, se juntou ao primeiro, continuaram tricotando com as garotas, o terceiro entrou. E ficou. E ficou. A fila atrás de mim encompridando.
O show passando. O cara atrás de mim soltou: "tem que matar esses caras que vem cheirar em banheiro químico." Porque, claro, o zé lá não estava para as atividades normais de um banheiro.
O desgraçado finalmente abriu a porta, se juntou aos amigos, e os três zarparam rápido, dando tchauzinho pras duas garotas. A modelete mais lindinha simplesmente me cortou e entrou no banheiro. Na minha frente e de todos que estavam na fila. Rosnado geral. Não é que ela tenha demorado tanto. É que eu já estava furioso de perder um pedação do show por causa do cheirador lá. E porque ela tinha furado a fila. E porque ela era mulher - a fila das mulheres estava bem ali ao lado, e não tinha nenhum homem nela.
A garota tinha aproveitado os amigos pra passar na minha frente. Saiu toda pululante e a outra amiga entrou no banheiro. Passei um pito: "você foi extremamente deselegante. Furar fila é coisa de gente mal-educada e grossa. Pense nisso na próxima vez." Ela retrucou, abespinhada por levar bronca pública, "mas eles são meus amigos".
O cara atrás de mim mandou beníssimo: "problema seu se você tem amigo grosso igual a você, que fica cheirando no banheiro público e estragando o show de todo mundo." Ela acusou o golpe, a amiga saiu, e as duas se escafederam de fininho.
O banheiro fedia esgoto. Fiquei até com um pouco de dó da menina de ter que fazer seu xixizinho ali. Mas na hora lembrei de um velho amigo, que dizia que certas garotas acham que seu xixi é guaraná e seu cocô, pudim de leite condensado. É bonitinha? Beleza passa, benzinho, grossura e burrice ficam.
Para quem ser chique é tudo, "deselegante" bate fundo. A moçoila deve ter achado que eu é que fui deselegante de lhe puxar a orelha. Fiquei pensando que se ela fosse homem, não teria tido coragem de furar a fila. E se a trinca de amigos dela fossem hetero, muito menos. Pelo menos bati onde achei que ia doer - e até que fui elegante, vá.
Xingamento pra desopilar o fígado de verdade tem que vir das entranhas, sem censura, cuspido. Você nem reparou nos quilos a mais do peão no carro ao lado, mas se ele te cortar perigosamente, imediatamente vira um gordo safado. Se for mulher, é Dona Maria. Ou criolo do cacete. Japa cegueta. É feio? É pra ser feio mesmo.
Não se trata nem do desgraçado ouvir, mas de você botar para fora. E se não é bonito ofensas étnicas ou pegar no pé das minorias, horroroso é aprontar no trânsito, ou furar fila na frente de tantos necessitados e apertados.
Perdi três músicas longas. Ainda furioso reencontrei meus amigos. "Pô, achamos que você tinha morrido no banheiro."
Minha explicação veio absolutamente deselegante, alívio imediato: "é que tinha um viado cheirador filha da puta que ficou embaçando, e ainda botou duas amigas piranhas pra furar a fila".
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