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Publicado em 31/07/2014 às 00:05

Guardiões da Galáxia: o maior filme sem–vergonha da história

guardians of the galaxy movie Guardiões da Galáxia: o maior filme sem–vergonha da história

Eles parecem perigosos, mas não acredite nisso

Guardiões da Galáxia é um dos maiores lançamentos da história do cinema. Estreia em 42 países ao mesmo tempo. Nos EUA são 4800 salas, das quais 3200 em 3D. Destas, 350 são no formato Imax. É um obscuro grupo de super-heróis, com a diferença que suas aventuras se passam no espaço. Mas é da Marvel. E a Marvel é da Disney. O plano é criar uma nova franquia, ao estilo dos Vingadores. Será? Não faço ideia se o grande público vai curtir. Mas os molequinhos vão. E seus pais que cresceram assistindo besteiras parecidas, também.

Como eu. Meu primeiro videocassete foi resultado de uma aposta. Com meu pai. Entrei na USP aos 17 anos e ganhei. Ele não acreditava que eu conseguiria. Pagou satisfeito. Era mais que meu sonho de consumo. Era um sonho, ponto: poder ver qualquer filme a qualquer hora. Foi a era de ouro da pirataria. Os donos de locadoras traziam tudo gravado dos EUA. Contratavam qualquer um pra fazer as legendas. Resultados surreais: Clint Eastwood em um filme falava de seus colegas “Forensics” e “O´Micide”.

Os videocassetes serviam para a gente ver os grandes filmes que ainda não tinham chegado no Brasil, as obras-primas do passado, produções underground – e muita, mas muita porcaria. Talvez seja a palavra errada. Mas aconteceu uma explosão no número de filmes produzidos anualmente nos EUA. É que como na época que os drive-ins foram populares, décadas antes, o sucesso dos videocassetes gerava anualmente centenas de produções pensadas para serem distribuídas diretamente em vídeo. Sem passar pelos cinemas. Ou passando rapidinho, só pra chamar atenção, e buscando 90% de sua receita nas locadoras.

Então tinha que ser apelativo. Não tinha grandes astros ou orçamentos. A produção era na raça e o objetivo escancarado era faturar, e dane-se a arte. Então era um maremoto de policiais violentos, e terror sanguinolento, e comédias teen picantes, e muita ficção científica, sub-Mad Max, sub-Alien, sub-Star Wars. Às vezes, tudo junto. Nossa, que vontade de rever a filmografia completa da Empire Pictures – “From Beyond”, “Trancers”, “Eliminators”, “Robot Jox”.

Os críticos da minha geração,  pelo menos os criados nessa dieta de louco, estão comparando Guardiões da Galáxia com um “clássico” da época, Piratas do Gelo, pelo jeitão sarrista. Vi, claro, vi tudo, e Robert Urich era estrelão de TV na época, SWAT e Vegas. Claro que eu iria ver. Mas, sinceridade, tinha deletado total. Puxei a ficha agora na Wikipedia, há que ver de novo. Tem Angelica Huston e Ron Perlman. O visual é demais, estilo bandoleiros cósmicos nos embalos de sábado à noite.

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Fever night fever

Eu saí da cabine de Guardiões lembrando de Mercenários das Galáxias, Battle Beyond The Stars, de 1980, que vi umas três vezes. Misturava Guerra Nas Estrelas com Os Sete Samurais. A descrição faz parecer melhor que é. O mocinho era Richard Thomas, John-boy na série Os Waltons. Liderava um time de anti-heróis, que se estranhavam e terminavam se unindo contra um ditador cósmico. Elenco delícia total: George Peppard (O Esquadrão Classe A), John Saxon (Operação Dragão), Robert Vaughn (O Homem da U.N.C.L.E). E a coelhona da Playboy Sybyl Danning como uma Valquíria espacial!

É uma nota de rodapé no currículo de Roger Corman, gênio da picaretagem que fez 200 filmes independentes em Hollywood, nunca perdeu dinheiro, e deu a primeira chance pra gente como Martin Scorsese, Francis Coppola e James Cameron. É o cara que todo mundo que produzia filmes direto para vídeo queria ser quando crescesse. Que Corman e seus discípulos inspirem uma produção da Marvel de 180 milhões de dólares diz muito sobre o estado do cinema em 2014...

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Boa noite, John-boy

Os efeitos especiais  melhoraram bem de 1980 para cá. Então as encarnações cinematográficas dos Guardiões fazem justiça a suas versões nos quadrinhos. O time de Starlord, Gamora, Drax, Groot e Rocket Racoon foi criado em 2008 pela dupla de escritores Dan Abnett e Andy Lanning.

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A primeira aparição de Peter Quill, o Starlord

Gamora e Drax são criação original do doidão Jim Starlin, que viu o filme e aprovou. Starlord foi idéia de Steve Englehart, que também inspirou o recente Capitão América: O Soldado Invernal, o melhor filme produzido pela Marvel, por incrível que pareça, e defendi a tese uns meses atrás.

bill manto Guardiões da Galáxia: o maior filme sem–vergonha da história

Bill Mantlo e os Micronautas, por John Byrne

Quanto a Rocket Racoon, é criação de Bill Mantlo, que precisa muito da sua ajuda, amigo leitor. Colabore para tornar a vida de Steve mais confortável neste exato minuto

Eu fiz isso, ganhei o dia, e contei a história.

Cinema sempre foi linha de montagem. Na época de Corman, e da explosão do videocassete, também. Mas estamos em 2014, e defendo que os criadores devem receber por suas criações, e receber os devidos créditos. Nem um nem outro costumam acontecer. Nesse caso, seria algo como: "Os Guardiões da Galáxia são criação de Stan Lee, Jack Kirby, Arnold Drake, Gene Colan, Jim Starlin, Steve Englehart, Bill Mantlo, Jim Valentino, Dan Abnett, Andy Lanning e Paul Pelletier." Isso pra incluir só os obrigatórios. E deste time deveriam fazer parte também o diretor James Gunn, e Nicole Perlman, com quem assina o roteiro.

Gunn é o típico cara que iniciaria sua carreira com Roger Corman. Não deu tempo: Gunn, 42 anos, é jovem demais para isso. Então começou no cinema carregando pianos para um discípulo de Corman, Floyd Kaufman, da Troma, produtora especializada em filmes de terror trash. Gunn adora essas paradas superpop e baixaria. Escreveu filmes do Scubidu cheios de monstros bizarros. E bolou um videogame sobre uma cheerleader que massacra zumbis com sua motoserra.

Lollipop chainsaw achievements guide Guardiões da Galáxia: o maior filme sem–vergonha da história

Sexo e motosserra sempre vende

Essa é sua grande contribuição: o espírito de moleque. Tchau para o tom dramático das últimas fornadas de superproduções. Certo que Gunn faz menção a esse ou aquele pedacinho do universo Marvel, para orgasmo dos fanzocos na platéia. Certo que o filme tem grandes explosões e tiroteios e quebra-paus. E certo que o protagonista, Chris Pratt, segue a linha posta-de-carne-tirando-sarro-de-si-mesmo que é o padrão desta geração (Channing Tatum, Aaron Taylor Johnson etc.).

Mas no meio de tantas apostas no certo, impressiona o risco assumido. Seja no design, homenagem às capas de revistas de ficção científica da época, tipo OMNI. Na trilha sonora pop-rock setentista, central na história. E principalmente no tom do roteiro. Captura perfeitamente o espírito de porco desses pré-adolescentes que passam o dia na internet, compartilhando memes e trollando os incautos. Alguns momentos são absurdamente abilolados. Quando chegamos ao enfrentamento final entre Starlord e o bandidão Ronan, é duro acreditar que uma corporação multinacional aprovou um desfecho tão biruta.

Gunn faz elegantemente (!) a ponte entre a geração que cresceu curtindo os Piratas de Gelo e os Mercenários da Galáxia, como ele mesmo (e eu e meus amigos) e os meninos de hoje. Garotos criados e curtidos nos games online, nas redes sociais, no Youtube e no Imax 3D. Se aquela época foi boa, hoje é melhor, porque a oferta de filmes e séries e caretice e maluquice é infinita, e porque gente como Gunn tem chance de zoar geral. Guardiões da Galáxia, veja bem, não é um grande filme. Pelo contrário. É um filme sem vergonha de pensar pequeno. De ser apelativo, boboca e mercenário, como tantos feitos direto para videocassete, três décadas atrás. Só que em vez de ser barato, custou 180 milhões de dólares. E este é o seu charme.

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E agora, vamos encomendar nossos Guardiões de Lego?

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Publicado em 28/07/2014 às 16:14

Desempenho em Pernambuco desqualifica candidatura de Eduardo Campos à presidência

 Desempenho em Pernambuco desqualifica candidatura de Eduardo Campos à presidência

Pernambuco piorou sob Eduardo Campos. Não há porque imaginar que faria melhor, governando o Brasil. É sua performance que deve ser avaliada, e não sua juventude ou "novas idéias". Não cabem debates vazios sobre Marina Silva, e sua suposta santidade ou suposto fundamentalismo. Marina pode e deve ser avaliada - inclusive por associar sua força política a um gestor tão medíocre. Mas é o currículo de Campos que precisa ser esquadrinhado agora.

 

Eduardo tem 48 anos. É formado em economia. Nunca trabalhou na iniciativa privada. Com 21 anos, em 1986, foi ungido chefe de gabinete de seu avô, Miguel Arraes. Em 1990, 25 anos, se elegeu deputado. De lá para cá só fez política. Governa o estado desde 2007. Conquistou o eleitorado como herdeiro político de Arraes, três vezes governador de Pernambuco; Eduardo foi secretário da fazenda, em uma das gestões. Vem sendo apresentado como candidato moderno e independente, próximo de empresários e ambientalistas, de tucanos e petistas. Não quer ser do contra. Diz que é capaz de "fazer melhor".

 

Se é mesmo, porque não fez em Pernambuco? O discurso de Campos não resiste a uma brisa de realidade. A reportagem de Murilo Camarotto, do Valor, é um tufão. Camarotto fez um levantamento detalhado dos dois últimos censos da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad), e cruzou com dados dos ministérios da Saúde e Educação. Ouviu especialistas em Pernambuco. Escreveu uma reportagem de uma página. O texto é de jornal, sóbrio. As conclusões são arrasadoras para a candidatura de Campos.

 

A maior parte dos indicadores sociais de Pernambuco não subiu na gestão Campos. Diversos caíram. O estado caiu no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Ficou estagnado em expectativa de vida. Dos 23 estados brasileiros, Pernambuco está em 17º no Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Subiu somente um degrau desde 2005, um ano antes da eleição de Campos. No ensino médio se manteve em 17º, no período. O estado é o 8º com mais analfabetos. É o 16º em acesso a abastecimento de água, 19º em consultas médicas por habitante, e por aí vai.

 

A desculpa que é estado nordestino e pobre não justifica. Pernambuco teve performance pior que vários estados nordestinos. E foi dos estados que mais recebeu verba federal - recebeu mais de 2 mil obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.

 

A reportagem de Camarotto aponta melhora em alguns poucos indicadores. Mas revela um fato surpreendente. Explica porque o PIB pernambucano cresceu tanto (5,1% ao ano entre 2006 e 2012) e sua população continua com uma vida tão difícil. A professora da Universidade Federal de Pernambuco, Tatiane de Menezes, se baseia no chamado Índice Sintético de Pobreza Multidimensional para dar seu veredito sobre o governador. O índice agrega dados de acesso ao conhecimento e ao trabalho, disponibilidade de recrusos, desenvolvimento infantil, vulnerabilidade e condições habitacionais.

 

No Nordeste, Pernambuco foi o segundo estado que  menos baixou este indicador entre 200 e 2010. Sua posição no ranking da pobreza "multidimensional" inclusive subiu, de oitavo para sexto lugar. Segundo a economista, o crescimento do PIB se deu através de uma industrialização forçada, que atrai fábricas dando muitos benefícios fiscais e recursos do estado. "O PIB fica acima da média nacional", diz Tatiane, "mas vai para poucos empresários." E as melhores vagas, segundo ela, vão para trabalhadores que vêm do Sul e Sudeste. São fatia cada vez maior da população economicamente ativa de Pernambuco. Os pernambucanos não têm qualificação para estas vagas, justamente as melhor remuneradas.

 

Importante dizer que a violência caiu. Caiu 5,5% ao ano entre 2008 e 2013. Pernambuco foi dos poucos estados que conseguiu reduzir a violência no período. E com isso tudo, ainda é o segundo estado mais violento, com 38 assassinatos para cada cem mil habitantes, ficando apenas atrás de Alagoas.

 

A performance de Eduardo Campos faz as gestões pedestres de Aécio Neves e Dilma Rousseff parecerem brilhantes. Minas e Brasil avançaram muito mais que Pernambuco. Aliás, a maioria dos vizinhos de Pernambuco no nordeste também avançaram muito mais. Campos conquistou a avaliação de governador mais bem avaliado do Brasil à custa de factóides e relações públicas, que não resistem à análise fria dos dados.

 

O trabalho de Murilo, correspondente do Valor em Recife, é nova prova de que ainda há espaço - e necessidade - para o bom e velho jornalismo, investigativo e analítico. E demonstra que o Brasil não tem terceira via nas eleições de 2014. Por enquanto.

 

A íntegra da reportagem está aqui. É necessário se cadastrar. Vale a pena.

 

 

 

Publicado em 25/07/2014 às 12:27

Israel x Palestina: uma disputa entre fanáticos (e algumas ideias de como derrotá-los)

dt.common.streams.StreamServer Israel x Palestina: uma disputa entre fanáticos (e algumas ideias de como derrotá los)

Bebê ferido pelo bombardeio israelense na faixa de Gaza

 

O conflito entre Israel e Palestina não é um conflito entre o bem e o mal. É uma briga imobiliária. Uma disputa por território. Um choque entre dois direitos. Os Palestinos estão na  Palestina, porque são de lá. Os israelenses judeus estão lá porque não há outro país no mundo que o povo judeu possa chamar de lar.

Ser a favor da paz não é necessariamente ser a favor da Palestina, e muito menos da liderança palestina. E nem de Israel. O que os dois lados precisam é de chegar a um acordo, um compromisso. O oposto de um acordo não é idealismo, mas devoção, fanatismo e morte.

Este é um conflito entre vítimas. Vítimas do mesmo opressor, a Europa, que colonizou, explorou e humilhou o mundo árabe. É a mesma Europa que perseguiu os judeus por séculos, e finalmente cometeu contra eles um ato de genocídio sem precedentes. Os dois lados olham um para o outro e vêem seu antigo opressor.

Metade da população de Israel são pessoas que foram expulsas de países árabes e islâmicos. Israel é um grande campo de refugiados judeus.

Boas cercas fazem bons vizinhos. O passo crucial a ser dado é uma solução que crie dois países separados. O que é necessário é um divórcio justo entre Israel e a Palestina. Mas divórcios nunca são alegres, mesmo quando são separações justas. Eles dóem, e esse vai doer mais ainda. Porque os dois lados vão continuar morando no mesmo apartamento. Ninguém vai se mudar. E ainda vão ter que combinar as regras de uso do banheiro e da cozinha.

Vai demorar pra isso acontecer? Vai, mas menos tempo que os povos europeus levaram para parar de guerrear entre si. Não dá pra subestimar a miopia e estupidez da liderança política dos dois lados. Mas isso vai acontecer. Porque tanto os judeus de Israel, como os árabes palestinos, estão muito à frente de seus líderes.

Se você quer ajudar, não tem que escolher entre ser pro-Israel ou pro-Palestina. Você tem que ser a favor da paz. Porque essa é uma batalha entre os fanáticos, que acreditam que o fim justifica os meios, e o resto de nós, que acreditam que a vida é um fim, não um meio. Não tem nada a ver com os valores do Islã, ou a  mentalidade dos árabes, como alguns racistas defendem. É apenas a velha batalha entre fanatismo e pluralismo, entre fanatismo e pluralismo, entre fanatismo e tolerância.

O fanatismo é mais antigo que o Islã, a Cristandade ou o Judaísmo. Anterior a qualquer governo, sistema político, ideologia ou fé. É um componente sempre presente da natureza humana ; um gen malévolo, digamos.

O fanatismo está em quase todo lugar. Em formas mais silenciosas e civilizadas, está presente em nossa volta, dentro de todos nós. Até em amigos anti-fumantes e vegetarianos. Até em pacifistas que não aceitam o mínimo desvio da sua estratégia para conseguir a paz. A semente do fanatismo nasce da certeza absoluta, acima da negociação ou dos compromissos. Claro que há níveis diferentes deste mal. Um militante ambientalista pode ser radical, mas vai causar muito menos dano do que um terrorista.

Um elemento da natureza do fanático é que lhe falta imaginação. Injetar um pouco de imaginação nas pessoas ajuda. É uma vacina, ainda que limitada. Aprender a encontrar satisfação na diversidade também colabora. E senso de humor é outra boa cura. O fanático pode até ser sarcástico, mas nunca ri de si mesmo.

Temos que resistir à essência do fanatismo, que é o desejo de forçar as outras pessoas a mudar. O fanático é um grande altruísta. Está mais interessado em você do que nele mesmo. Se você já sentiu a inclinação de melhorar seu vizinho, consertar seu marido, ou planejar todos os detalhes da vida dos seus filhos, em vez de deixá-los ser o que são, sabe como é isso. O fanatismo é mais contagioso que qualquer vírus.

Precisamos criar a habilidade de existir em situações abertas, indefinidas, sem uma solução perfeita. Não é defender o relativismo moral, só nos forçarmos a imaginarmos o outro, como exercício cotidiano. Viva e deixe viver, como dizia minha sábia avó.

Não existe o falado choque entre civilizações. A síndrome do século 21 é o choque entre os fanáticos de todas as cores - e o restante de nós.

Amos Oz Israel x Palestina: uma disputa entre fanáticos (e algumas ideias de como derrotá los)

_________________________________

 

 

Este texto é inteiramente composto de frases retiradas, e traduzidas toscamente, de um livrinho precioso. É How To Cure a Fanatic, reunindo palestras e uma entrevista de Amos Oz, escritor judeu israelense, veterano de guerra, e militante pela paz. O livro foi publicado no Brasil como "Contra o Fanatismo".

Perto das quase 200 mil pessoas mortas na Síria, o que está acontecendo na Faixa de Gaza é mixaria. Os EUA causaram 600 mil mortes ao invadir o Iraque, das quais quase 90% eram civis. Não foi no passado distante, foi já no século 21, obra de George Bush, continuada por Barack Obama. Quem é mais vilão, quem matou 200 mil ou 600 mil? São igualmente criminosos.

O conflito na Palestina é talvez o maior símbolo do desafio que Amos Oz descreve. Como muitos da minha formação e geração, cresci com raiva de Israel, e torcendo pela Palestina. Evoluí para torcer pela paz.  A liderança do Hamas é tão criminosa quando o governo de Israel, que só matou mais porque tem mais armas. Se o Hamas tivesse uma bomba atômica, jogava em Tel Aviv amanhã. Nem uns nem outros pagarão por seus crimes, como Bush não pagou.

O livro de Oz é de 2002.  Em 2010, ele escreveu: "O Hamas é uma idéia desesperada e fanática, que nasceu da desolação e frustração de muitos palestinos. Nenhuma idéia jamais foi vencida pela força. para derrotar uma idéia, você tem que oferecer uma idéia melhor, mais atraente, e aceitável. Israel deve assinar um acordo de paz".

Publicado em 22/07/2014 às 19:28

Os homens que quiserem usar saia, fiquem à vontade. Mas não com o meu dinheiro

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“Estar no mundo exercendo a sua singularidade única e inédita”. Isso é ser homem no Século 21, segundo Paulinho Moska. O músico que cantava as aventuras de uma anã paraguaia 25 anos atrás é o nome mais “famoso” envolvido na campanha “Homens, Libertem-se”. Ele e o ator Marcos Breda. Libertar do quê? Da obscuridade?

A criadora da campanha é uma mulher, a atriz Maíra Lana. Uma busca na internet revelou a moça fazendo cover de Janis Joplin e participando de programas de calouros. Os outros do grupo são igualmente célebres. Algumas figuras públicas não participam diretamente, mas apoiam a campanha: Nelson Motta, o deputado Marcelo Freixo e as escritoras Mary del Priore e Marcia Tiburi. E o cartunista Laerte, que sabe tudo de usar saia.

O objetivo declarado de Maíra é captar R$ 400 mil reais em recursos. É o valor que o grupo já tem aprovado na Lei Rouanet. Não resisto a nomear algum dos grupos que prometem fazer “uma campanha com uma enorme variedade de ações artísticas em torno do tema da opressão masculina”: A Bem Soada, Cia Córtex, Eta Aquarídea, Laboratório Madalenas, Nós Marílias, Omkara, Saia de Saia, Cãoletivo da Vagabundança...

Cada grupo, explica o site, “criará uma ação performativa que culminará numa queima simbólica de elementos simbólicos da construção social do homem (homenagem ao símbolo mais popular do movimento feminista, quando queimaram os opressivos sutiãs). Os homens ainda terão a possibilidade de trazer suas calças ao evento, trocando-as por saias estampadas com o manifesto da campanha. As calças serão doadas posteriormente a instituições que atendem pessoas carentes”.

Claro que para isso o grupo quer captar mais recursos públicos, explica Maíra Lana.  Quanto? Vamos chutar uns R$ 400 mil por cidade, quase cinco milhões de reais, tá bom? Depois vem o quê, o DVD, a turnê e a minissérie? Tendo dindin, não duvido da capacidade de criação da trupe teatral.

O site desafia a imaginação. O analfabetismo empolado parece pegadinha. Convido o leitor a uma visita, para ver com seus próprios olhos. Atiço postando aqui o vídeo da campanha. Tem clipes de Dragon Ball Z, briga em estádio e Bolsonaro defendendo surra em meninos gays.  Tem antropóloga explicando que homem tem dificuldade em “tematizar a subjetividade”, psicanalista zona sul falando molinho, e até uma explosão atômica!

A campanha repercute modestamente na imprensa. Na Folha, que tirou um sarro fino, e no Globo, que reportou tudo a sério, com direito a esta declaração de Paulinho Moska: “Eu era magrelo, usava pulseirinhas hippie e me identificava com Caetano, Gil e Bowie, que eram andróginos. Passei a ser chamado de bicha e viado de forma agressiva. Sofri até me ver livre da representação masculina clássica.”

O que os mancebos reivindicam? O manifesto lista demandas como:

- posso ser sensível
- posso broxar
- posso ser cabeleireiro, decorador, artista ou bailarino
- posso não gostar de futebol
- posso me maravilhar diante da beleza de uma flor
- posso ser frágil, ter medo, chorar e gritar
- posso falir
- nunca mais quero ouvir a frase "seja homem"
- posso usar saia
- posso fazer exame de próstata
- posso ser levado a sério sem ter que usar uma gravata
- posso trocar fraldas, dar mamadeira e ficar em casa cuidando das crianças
- quero poder ser eu mesmo, masculino, feminino, louco, são, frágil, forte, tudo e nada disso

É papo de grupinho de teatro bicho-grilo temperado com reivindicações do século 19. A exceção é "homem pode usar saia", o que já se fazia no tempo das cavernas. A novidade na história masculina é a calça, que só passou a fazer sucesso mesmo depois do zíper. Razões práticas. Homem prefere fazer xixi de pé.
Se o objetivo da turma era provocar os caretas, o arquiteto Flávio de Carvalho fez melhor em 1956, andando de saia pelas ruas de São Paulo. Maíra e seus machos de saiote estão quase 60 anos atrasados. Mas sempre é boa época para embolsar uma graninha, sabe como é.
1165028370 Os homens que quiserem usar saia, fiquem à vontade. Mas não com o meu dinheiro

Quem quiser se arriscar a passar ridículo tem sempre minha bênção e torcida. Mas sem usar nosso dinheiro.  A Lei Rouanet permite que qualquer um bem conectado emplaque seu projeto no Ministério da Cultura, e depois capte recursos de empresas para seus projetos. É  grana cujo destino justo é o tesouro nacional. Nada garante que seria bem usada, mas pelo menos o cidadão teria a chance de fiscalizar.

Direito de captar não significa dinheiro em caixa. Mas nesses casos que envolvem subcelebridades cariocas com arzinho hipster-de-havaianas, sempre aparece um diretor de marketing amigo pra pingar uma grana. Frequentemente de estatais. Os projetos mais escabrosos, tipo esse e o famoso blog da Bethania-Hermano-Andrucha, sempre nascem no Rio, quartel general de algumas das maiores empresas públicas do Brasil. Nenhuma coincidência.

Convido os criadores do “Homem Libertem-se” a se inspirarem no próprio lema. Homens (e Maíra!), que tal se libertar da dependência de verbas públicas para contestar o establishment? Se quiser usar saia, usa aí, cara. Mas tira a mão da minha grana.

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Publicado em 05/07/2014 às 10:44

Neymar merece estar fora da Copa

neymar2 Neymar merece estar fora da Copa

O Brasil entrou para bater. Nosso time cometeu 31 faltas. Foi a tática de Felipe Scolari para barrar o futebol da Colômbia, superior ao nosso, e principalmente o talento de James Rodrigue, que andou jogando melhor que Neymar. A seleção brasileira foi truculenta. Os resultados estão aí. Vamos chorar o machucado de Neymar, mais um santinho à brasileira? Nada feito.

Está tudo no roteiro habitual de Felipão. Ainda mais depois das críticas gerais sobre jogadores chorões. Era hora de provar macheza. Felipão sempre foi assim. É ganhar a qualquer custo, inclusive na porrada. Depois, quando alguém se machuca, é ridículo reclamar. Esta comoção com o machucado de Neymar é patética. Aliás, se fosse a vértebra de Fred, a maioria estaria comemorando.

O próprio Felipão passa recibo de brucutu ao comentar a entrada de Zuñiga em Neymar. Disse que não acredita que foi intencional, "ele só veio e parou a jogada". Futebol é assim mesmo, paramos a jogada aos pontapés e ponto final.  É assim mesmo porque o juiz liberou, claro. E porque a truculência beneficiou o Brasil, dono da casa e tal...

felipao Neymar merece estar fora da Copa

O espanhol Carlos Velasco só puxou um cartão amarelo depois de 41 faltas, o jogo já na reta pra acabar. Liberou geral a pancadaria. Nossos bravos brasileiros se revezaram dando porrada em James. Júlio César, "herói" da penúltima partida, merecia fácil um cartão vermelho pela tunda que deu em Bacca.

 

Dá um certo prazer sádico que o Brasil vá encarar o restante dessa Copa sem Neymar. Ele foi ungido a cara do nosso futebol, o garoto propaganda da brasilidade. É um símbolo da nossa dependência de jeitinho, ginga e emoção. Pensar para quê? Vamos lá jogar! Bem, se nossa seleção dependia de um único geninho, entramos para perder.

Perder a Copa já na próxima partida talvez fosse um bom basta nesta cultura de planejar e gerir mal, de corrupção e ignorância, de vitória a qualquer custo, na porrada e no "jeitinho". Será um Brasil melhor quando não dependermos de jogadas milagrosas, padrinhos, geninhos. Quando o país não pensar em termos de goleada, eu só ganho muito se você perder bastante. Menos charmoso, menos "mágico", talvez, mas melhor.

Merecemos ganhar da Colômbia? Ganhamos, a qualquer preço. Merecemos ficar sem Neymar, e aliás Neymar merece estar fora da Copa? Claro. Tenho dó do cara? Como de qualquer garoto em um hospital agora, nem mais, nem menos. Mas ele sabia o que estava fazendo, ganha muito bem para isso, e nosso time fez o que fez de propósito.

Foi a partida com recorde de faltas neste mundial. Foram 54 no total - mas batemos 30% mais que os colombianos. Por mais que a Fifa facilite para o Brasil ganhar, que foi o que vimos ontem, algumas leis da natureza continuam se aplicando. Para cada ação, existe uma reação. Ou, em futebolês: bateu, levou.

Publicado em 04/07/2014 às 00:05

A PM está sem comando, fora de controle (e agora, sob vigilância)

BrCexsDIIAAALrD.jpg large A PM está sem comando, fora de controle (e agora, sob vigilância)

O Brasil não tem problema maior que a violência. A polícia militar não é parte da solução. É um ente autônomo. Responde a ninguém. Se presta às necessidades da política conforme lhe interessa. Entende que a democracia deve estar submetida à hierarquia. Responde aos desafios da liberdade com os métodos da autoridade.

Quem manda na polícia militar? Na teoria, o governador de cada estado. Na prática, depende. Os comandos das PMs seguem ou solapam líderes eleitos conforme eles permitem que as coisas continuem como são. Quando uma mão lava a outra, tudo certo. Caso contrário a polícia militar toca sua vida e ignora os pitacos dos políticos.

Em São Paulo, PM e PSDB mais que alinhados, são aliados. Esses dias a PM se prestou a três serviços sujos para nosso governo. A PM reprimiu ato de professores, atirou gás lacrimogêneo em torcedores na Vila Madalena, e baixou o porrete em manifestantes na praça Roosevelt. Geraldo Alckmin, soltando a PM pra bater primeiro e perguntar depois, joga para sua plateia, dando de durão com os “baderneiros” e atiçando os instintos mais covardes do eleitorado.

Não se trata de questão partidária. A polícia faz o que quer em estados governados por qualquer partido. O próprio PT, o que fez no governo federal para mudar nossas polícias ou prisões? Nada. José Eduardo Cardozo é nosso ministro da justiça. A coisa mais memorável sobre ele foi sua declaração de que as prisões brasileiras são “medievais”, como se não fossem de sua alçada (escrevi sobre o caso, anos atrás).

A polícia tem suas preferências políticas, claro. Seus candidatos concorrem por partidos mais conservadores. Agora cada canto do Brasil tem sua “bancada da bala”.. Pelo país afora, se comenta de delegacias “captando” recursos para financiar campanhas – difícil de provar, fácil de imaginar. Imagine se a PM vai apoiar um eventual governo de Lindbergh Farias no Rio de Janeiro, Lindbergh que apresentou projeto de lei propondo o fim da polícia militar (a única atitude remotamente corajosa em seu currículo).

É idiota criminalizar o policial que está na rua. É um peão que atua sem treinamento, equipamento, recompensa. Nem expectativa de punição ou recompensa, se errar ou acertar. Portanto não apura, não investiga, não prende.

Se você defende que a polícia tem direito de matar qualquer suspeito, sem investigação nem julgamento, é um canalha e um idiota. Mas mesmo que permitíssemos isso, você continuaria sem argumentos para defender a performance da nossa polícia.

A maioria dos criminosos brasileiros é folgada porque sabe que jamais será punida. Estima-se que o índice de elucidação de crimes no Brasil varie entre 5% e 8%. O Brasil investiu ano passado R$ 61 bilhões em segurança. Para quê? Para ser o país campeão absoluto de assassinatos no planeta, 56.337 mil em um ano (a maioria negros, pobres, entre 15 e 24 anos).

A polícia brasileira mata cinco pessoas por dia (oficialmente). Mesmo que matasse cinquenta, e todos fossem criminosos perigosos, não faria cócegas no nosso problema de segurança. São Paulo, com o maior contingente da PM, teve aumento de 42% em roubos no mês de maio. É uma piada macabra.

Quem mata é o soldado, massa de manobra e bucha de canhão. Faz o que esperam que ele faça, com graus variados de consciência, da dedicação ao esculacho. Também vivem à beira do abismo. Também estão sendo assassinados.

Procurar solução para o crime matando ladrão de galinha é equivalente a procurar solução para a polícia crucificando o soldado. Não é por aí. A pergunta é a de sempre: quem se beneficia? Quem ganha com um Brasil violento, com uma população ignorante guardada por uma polícia ineficaz e truculenta? Como sair desse lodaçal, interromper o ciclo interminável de violência e impunidade?

Ganhamos uma chance de encontrar respostas. É a Ponte.org, um coletivo de jornalistas dedicados ao tema da Segurança Pública. O time reúne alguns dos melhores repórteres da área, todos com extensa passagem pela grande imprensa, que cobre o assunto menos e menos. É um espetacular cala-boca nos pseudoradicais de Facebook, ninjas e companhia, sempre batendo no jornalismo nacional, nunca levantando a bunda da frente do computador.

A Ponte reúne uma turma jovem e talentosa com um time muito experiente, como a amiga Laura Capriglione, com longa passagem pela Folha. Bruno Paes Manso, que mantém seu blog no Estadão. André Caramante, que peitou grupos de extermínio e pagou por isso (em breve estreando como repórter aqui no R7.com). E vários outros profissionais de primeira, atuando em parceria com a respeitada Agência Pública.

hideki meet A PM está sem comando, fora de controle (e agora, sob vigilância)

Hoje mesmo, Tatiana Merlino deu um belo furo, entrevistando o ativista preso no dia 23 de junho, na Praça Roosevelt. Fábio se define como nerd, mas também como “defensor dos direitos humanos e da democracia”. Um cara igualzinho a... você? Estuda jornalismo na ECA, depois de ter entrado na Poli. É funcionário concursado da USP. O secretário de segurança do Estado diz que é black bloc. Ele está na cadeia, em Tremembé, a 147 quilômetros de São Paulo. Leia a entrevista dele. E entre na campanha para que ele seja libertado.

Conheci anteontem William Cardoso, ex-Estadão e Agora.  Ele publicou no site da Ponte uma entrevista impressionante com o deputado Major Olímpio. O título diz tudo: “os jovens policiais estão desesperados.” Esse ano já são 58 PMs mortos em São Paulo, só quatro em serviço. Dia seguinte fez outra que já é obrigatória: “A Guerra Silenciosa na Zona Leste de São Paulo”. Ele afirma:

“Na linha de fogo ou acuada, o fato é que a PM bateu recorde de violência entre janeiro e abril deste ano. Segundo dados publicados pela própria corporação no Diário Oficial, 206 pessoas foram mortas no Estado de São Paulo por policiais militares em serviço no primeiro quadrimestre, maior número dos últimos 11 anos para o período. Em março, foram 63 mortos, o terceiro mês mais violento desde 2004 (atrás somente de maio de 2006, marcado pelos ataques do Primeiro Comando da Capital, e de novembro de 2012, auge da crise que terminou com a queda do então secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto).”

Bati um papo com William. Educativo e assustador. Eu jamais teria a coragem e desprendimento de ir onde esses jornalistas vão, de enfrentar as barras que enfrentam. Perguntei, “vale a pena? Você acredita que essa situação vai mudar?” A resposta veio confiante: “olha, nem penso em mudança radical. São muitos interesses em que tudo continue como está. Mas nosso trabalho aqui  não é dar tiro de canhão, é na base da mira telescópica”. Pequenas mudanças, pequenas vitórias, novos territórios conquistados.

A Ponte não tem fins lucrativos. Presta este serviço de graça, para quem quiser ler. Leia, por favor. Divulgue. Compartilhe nas redes sociais. Perguntei para Laura, isso é ONG, é o quê? Ela explicou, “não é nada, não somos empresa nem coisa nenhuma. Estamos fazendo isso porque todos os jornais que cobriam segurança pública diminuíram a cobertura e mandaram embora os melhores repórteres. Não querem saber da periferia”.

Os profissionais da Ponte dependem de você e eu repercutirmos seu trabalho, esse ato diário de bravura e entrega. Piegas? Com certeza os colegas me zoariam por usar essas palavras, “ninguém aqui é  herói”. Nem precisa. São bons jornalistas. É mais que suficiente.

Acesse agora: WWW.PONTE.ORG.

 

 

 

 

 

Publicado em 01/07/2014 às 17:31

Fábio Massari e Malcolm McLaren: quando dois caras únicos se encontram

CAPA Fábio Massari Fábio Massari e Malcolm McLaren: quando dois caras únicos se encontram

Conheci Mr. Massari, puxa, lá pra 1989? Trilhamos caminhos diferentes, com raros e significativos encontros no meio do caminho. Seja na Bizz, editando um longo entrevistão de Fábio com Frank Zappa. Depois, quando ele foi colunista da revista que ajudei a fundar, a General. Quando publicamos seu primeiro livro, sobre a cena roqueira da Islândia. Em shows aqui e acolá, eventuais cervejas, um outro banquete com outros amigos garageiros.

Camaradagem e simpatias à parte, sempre admirei Massari – não pelo famoso enciclopedismo, a curiosidade obsessiva, ou a saudada despretensão, embora todas sejam características do cara. É porque ele tem esse jeito de fazer as coisas que é  só dele, se lixando para o movimento óbvio e o faturamento certo. Mas sem nariz empinado ou pose de radical: sempre na maior naturalidade, na maior generosidade.

Esse primeiro livro da coleção Mondo Massari conta (em quadrinhos!) seu encontro com outra dessas figuras ímpares: Malcolm McLaren. Veja o vídeo, compre o livro.  O mundo fica mais interessante com gente como Malcolm - e Massari - na área.

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Publicado em 25/06/2014 às 16:21

Aprendendo a ser jornalista na Praça da Sé (com tempo livre, bucho cheio, Paulo Francis e George Orwell)

DSC03909 Aprendendo a ser jornalista na Praça da Sé (com tempo livre, bucho cheio, Paulo Francis e George Orwell)

Sexta de manhã no Poupatempo da Praça da Sé, uma semana atrás. Perdi faz dois meses minha carteira, cartões, grana, foto do filho, RG e carteira de motorista. A bobeada me valeu duas visitas ao centro de São Paulo, ambas - surpresa! - prazerosas.

Na primeira levei Tomás e juntos fizemos as identidades. Vai pra cá, pega uma fila, pega outra, toca piano - tudo fica mais leve e todo mundo fica mais simpático quando tem um moleque de cinco anos com você. Foi bem rápido. E ainda sobrou tempo para um turismo básico pelas redondezas. O moleque foi conhecer a Praça e a Sé. Eu não lembrava de nada, então foi como a primeira vez para mim.

Foi a primeira igreja em que ele entrou na vida. Achou bem interessante. Eu que já entrei em um monte não me impressionei tanto. Me perguntou o que o guerreiro medieval que ilustra uma parede em um mosaico esquisito, com barba de Rei Arthur e espada na mão, tem a ver com São Paulo, a cidade. Eu não soube responder.

Na segunda visita, uma semana atrás, fui sozinho e portanto preparado para uma empacada radical. Levei agenda, revista e livro. Um homem prevenido vale por dois e não se entedia fácil. Foi providencial. A visitinha durou três horas.

Não tenho um A para reclamar dos funcionários do Poupatempo. O povo é rápido e eficiente. O processo é que é surreal. Para que preciso ir até lá para tirar a segunda via da carteira de motorista, considerando que não é preciso assinar nada nem tirar a impressão digital? Deveria ser possível fazer por carta. Até porque foi por Fedex que eu recebi ontem a minha nova. Graças à Valderez, que compartilha com minha mãe nome e gentileza.

Mas sabe que a demora acabou sendo boa?

Porque no tempo que passei lá, estava offline total. Então, consegui ler uma coisa que eu precisava ler, por razões de trabalho, e estava empurrando com a barriga. Foi útil. E porque quando acabou a peregrinação, decidi que estava merecendo um agradinho e acabei garimpando um agradão.

Na saída estava um sol gostoso de inverno, céu azul e brisa estimulante. Fui dar uma banda pela Rua do Carmo. É um prédio mais bonito que o outro - o da Escola Fazendária devia ser tombado, se já não é - e uma loja mais maluca que a outra - uma portinha só vende essências, outra só tem folhinhas e calendários…

A praça na frente da Igreja do Carmo estava cheia de barraquinhas. Tinha roupa, sapato, bibelôs estrambóticos, um peruano desafinando uns boleros, DVD pirata e badulaques evangélicos. Minha favorita se dedica a apontadores feitos de metal, em formas diversas - Torre Eiffel, Ópera de Sidney, veículos variados. Comprei um em formato de avião-radar Awac para dar de presente para o meu filho.

Desesperado de fome e a dois metrôs de distância do meu trabalho, chequei as opções mais rápidas em volta da Sé. Foi a primeira vez que entrei em um Giraffas. Comi um Tri Giraffão, cheese salada, batata frita e Coca Zero, treze reais, 1118 calorias segundo avisa o próprio  Giraffas, num aviso pregado na parede.

Demorou um pouco mais do que fast food normal - “é que é feito tudo na hora”, explicou a moreninha de aparelho. E por isso é mais gostoso, entoa o slogan da rede. É mesmo. Melhor que um Big Mac, que não como faz uns vinte anos e nunca mais comerei.

O Giraffas surpreende pela convivência pacífica entre fast food gringa e slow food brazuca. Porque, você sabe, um almoção brasileiro é demorado pra fazer e demorado pra digerir. As mocinhas vão educadamente enchendo as bandejas, essa tem filé de frango, arroz e feijão; essa hamburguer; essa bife; aquela nuggets.

Me deu idéia para uma rede de fast food diferente, chamada Padaria’s. Que seria como uma típica padaria paulistana. Onde você pode comer comida a quilo no almoço, mas também esfiha, pizza, cheese salada, pão com manteiga etc. Se algum empreendedor milionário quiser investir, mande meus royalties.

PauloFrancisJovem Aprendendo a ser jornalista na Praça da Sé (com tempo livre, bucho cheio, Paulo Francis e George Orwell)

Paulo Francis: retrato do jornalista quando jovem

 

Empanturrado com meu Tri Giraffão, fui atrás do meu agradinho. Livros, que mais? O sebo virando a esquina era pequerrucho. Encontrei edições originais de dois livros obrigatórios de Paulo Francis, O Afeto que se Encerra e Nu e Cru. O primeiro é de memórias e chave na minha vida. O segundo, uma coletânea de artigos preciosos. Comprei para dar de presente para uma jornalista amiga e jovem. Se fosse milionário, dava os dois para cada calouro de jornalismo do país.

Perguntei pro moço que espanava um livros velhos, tem livro em inglês aqui? Tem, subindo a escada. Cheio de batata frita e com hora para trabalhar, relutei uns segundinhos, mas encarei.

Era só uma estante. Livro sobre Ilhas do Pacífico, livros técnicos, Morris West. Lá embaixo, a surpresa: The Economist Style Guide, letras prateadas sobre a capa preta e dura.

O livro é uma versão expandida do manual que os profissionais da The Economist usavam em 1986. Minha versão é a atualizada, de 1993. Você pode e deve discordar do conservadorismo polido advogado pela revista. Mas não há nada parecido no planeta em termos de análise concisa e coloquial, semana após semana, desde priscas eras - 1843.

Não estrago o prazer de quem decidir comprar, entregando o ouro sobre os verbetes. Só digo que além de utilíssimo para quem queira escrever bem em inglês ou qualquer língua, é uma delícia de ler.

Deve ser porque eles seguem o conselho do autor de 1984, que citam de cara na introdução. Vão me perdoar a tradução tosca:

“As Seis Regras para escrever bem de George Orwell:

1. Nunca use uma metáfora ou qualquer figura de linguagem que você não está  habituado a ver impressa.

2. Nunca use uma palavra longa se a curta resolve.

3. Se for possível cortar uma palavra, corte sempre.

4. Nunca use o passivo se pode usar o ativo.

5. Nunca use uma frase estrangeira, palavra científica ou jargão se você conseguir imaginar um equivalente coloquial.

6. Quebre qualquer uma dessas regras se a alternativa for escrever algo pavoroso.”

O Economist Style Guide emenda a dica de Henry Hazlitt, lenda do jornalismo  americano: “escrever de maneira genuína é escrever como qualquer um fala - qualquer um que tenha perfeito comando das palavras, e que discurse com facilidade, força e perspicácia, abandonando qualquer floreio pedante”.

Alguma disposição de sair às ruas, alguma capacidade de observação, algum respeito pelas lições de quem fez antes e melhor - o que mais você precisa para se intitular jornalista?

 

(Publiquei essa croniqueta em setembro de 2009 no meu antigo blog. Hoje é aniversário do nascimento de George Orwell. Lembrei que nunca tinha republicada aqui no R7, e que tem gente que não conhece as regras dele para escrever decentemente, e portanto aqui está... e mantenho as outras recomendações: Francis, Economist, e vamo pra rua, que a vida tá lá fora!)

george orwell nsa Aprendendo a ser jornalista na Praça da Sé (com tempo livre, bucho cheio, Paulo Francis e George Orwell)

 

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Publicado em 25/06/2014 às 00:00

Quando Michael Jackson era nosso príncipe

michael jackson jacket corbis 460 85 Quando Michael Jackson era nosso príncipe

Michael Jackson tinha 24 anos quando gravou "Love Have Never Felt So Good". Era 1983. Demorou três décadas para podermos ouvir essa delícia. É um grande hit, e a única canção que merece ser hit no disco "Xscape". Mas lá  tem uma produção modernosa, e participação do insosso Justin Timberlake, a cópia da cópia da cópia de Michael.

Xscape cobre as piores décadas da carreira de Michael, sua transformação de um artista criativo e contagiante, em um vampiro vazio. Vale ouvir o original. Feliz, solar, com o frescor de um namoro novo. E Michael achou que não era grande coisa...

"Love Have Never Felt So Good" não é obra à altura do gênio de Jackson, certo. Mas nos obriga a imaginar um mundo em que Thriller não fez tanto sucesso assim. Nada que pirasse de vez o garoto com décadas de palco, e uma iniciante carreira solo. Quem sabe ele superasse uma infância insana. Talvez superasse  a contradição entre ser homossexual e testemunha de  jeová, entre buscar a liberdade criar e exigir o sucesso a qualquer preço. Um mundo lindo em que Michael Jackson estaria por aí, coroa, mulato, fazendo linda música. Era um príncipe, e que bom se nunca tivesse se tornado rei. Eu estava por aí em 1983, e lembro bem: Michael never felt so good.

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Publicado em 13/06/2014 às 19:01

Welcome gringos!

foto 1 Welcome gringos!

Eu detesto esportes em geral. Mas tenho uma grande dívida com o futebol brasileiro. E agora é a hora de pagar. Em cerveja!

Publicado em 10/06/2014 às 20:25

Rodolfo: abra mão das suas músicas, ou assuma seu passado com os Raimundos. As duas coisas ao mesmo tempo não dá

Rodolfo Rodolfo: abra mão das suas músicas, ou assuma seu passado com os Raimundos. As duas coisas ao mesmo tempo não dá

Cada um vive como bem entender e acredita no que preferir. Há que conviver com quem pensa outra coisa, sente, vive outra coisa. Há que procurar proveito nas diferenças. Porque as diferenças existem e existirão. Agora, há que ter coerência.

Rodolfo Abrantes foi meu letrista favorito. Nos anos em que esteve à frente dos Raimundos, não tinha para ninguém. Depois que se converteu,  suas letras não me dizem nada. Nenhum problema com música de louvação. Se você dispensa de cara todo o cancioneiro pop religioso, está jogando fora uma parte fundamental da música negra americana, pra começar. Sem falar de algumas das minhas canções favoritas de Johnny Cash. Rodolfo, não tem jeito: ouço ele agora, comparo com o humor e energia dos Raimundos, e me dá tristeza.

Agora ele dá entrevista à revista Trip dizendo que está "100% arrependido" das letras. Mas continua embolsando os royalties gerados por elas. Cada vez que toca uma música dos Raimundos no rádio, ou que os Raimundos tocam uma canção escrita por Rodolfo, ele recebe uma graninha.

Ele explica: "Arrependimento quer dizer: eu reconheço que eu estava errado e não faço mais isso. Jesus falava para as pessoas: vá e não peque mais. O que você fazia, não faça mais agora. Se você comparar minha vida hoje com a vida que eu tinha você vai saber do que eu me arrependi." A íntegra da entrevista está aqui.

Isso  não explica nada. Como era de se esperar, seus ex-companheiros reagiram. Digão pregou fogo no Facebook:

— Que pena que a base de sua vida seja a hipocrisia... 100% arrependido" mas usufruindo 100% da sua parte dos direitos autorais e que não é uma "merreca" que ele gosta de falar para os desinformados...

Digão está certo e Rodolfo está agindo errado. Deveria abrir mão dessa grana, em benefício do restante da banda. Ou uma outra hipótese: doar a receita integral para alguma instituição. Desgraçado precisando de ajuda nesse país é o que não falta.

Se Rodolfo realmente renega as letras que escreveu nos Raimundos, deveria também renegar a receita que elas geram. Me recuso a admitir que Rodolfo seja um sepulcro caiado. Mas a maneira como está agindo é hipócrita. Indigna da retidão religiosa que professa hoje. E, o que me importa mais, indigna do seu passado com uma das bandas mais legais - e honestas - que esse país já viu.

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Publicado em 10/06/2014 às 19:04

Xula: a revista mais chucra e engraçada do Brasil

122116 7111442 Capa XULA  Xula: a revista mais chucra e engraçada do Brasil

Não tenho adjetivos espaventosos suficiente para elogiar Xula. É uma revista em quadrinhos editada por Luciana Foraciepe e assinada por quatro jovens quadrinistas brasileiros: Ricardo Coimbra, Calote, Bruno di Chico e Bruno Maron.  Literalmente chorei de rir. É de passar mal.

A revista foi feita de maneira totalmente independente, e só está à venda pela internet. Assista meu vídeo, e depois entre nesse link, passe seu cartão e compre duas: uma pra você e outra para seu amigo mais espírito de porco. São 104 páginas, e não consigo imaginar uso melhor para trinta reais.

Faça isso já. Que a conta tem que fechar, para Luciana fazer a número 2, e depois a 3, e se der pra ter Xula mensalmente em todas as bancas do Brasil, é um salto na nossa qualidade de vida, de crítica, de riso desbragado.

Compre Xula aqui:

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Publicado em 06/06/2014 às 19:38

A Misandria de Malévola

maleficent by alina carrie d7cvb7n A Misandria de Malévola

Todo homem é um bruto traiçoeiro ou um idiota banana. Toda mulher é inocente, e se age mal, é por que um homem a levou a isso. Essa é a mensagem de Malévola. A nova versão da Bela Adormecida parece politicamente correta. É o contrário. O termo técnico é misandria.

O conceito está no dicionário há mais de meio século, mas ainda não faz parte do vocabulário de ninguém. Trabalho com palavras e também não conhecia. Trata-se do ódio ou desprezo ao sexo masculino. Como misoginia é o ódio contra o sexo feminino.

Se não conhecia o termo, fiz minha parte para popularizar o conceito. Publicamos na editora Conrad o livro da feminista radical Valerie Solanas, SCUM Manifesto. Um trecho: “o macho é completamente egocêntrico, aprisionado dentro de si mesmo, incapaz de empatia ou de se identificar com outros, incapaz de amor, amizade, afeto ou ternura. É uma unidade completamente isolada, incapaz de conexão com o outro. Suas atitudes são inteiramente viscerais, não cerebrais. Sua inteligência é só uma ferramenta a serviço de seus impulsos e necessidades. Ele é incapaz de paixão ou interação mentais. Não se relaciona com  nada que não seja suas sensações físicas. É uma massa amorfa, semi-morta, incapaz de dar ou receber prazer ou felicidade.”

O livro é boa provocação. Quase meio século após sua publicação, tem gente tratando Solanas como profeta, e o manifesto como se fosse as tábuas da lei. Quem sabe inspira Linda Woolverton. A roteirista de Malévola é móveis e utensílios na Disney. Assinou O Rei Leão, A Bela e a Fera, a versão recente de Alice no País das Maravilhas. Woolverton também adaptou para o teatro o romance O Vampiro Lestat, de Anne Rice. Malévola não faria feio ao lado dos dândis inumanos de Rice. Que, aliás, escreveu sob pseudônimo uma trilogia reimaginando A Bela Adormecida como uma epopéia sadomasoquista.

O filme nos apresenta a uma fada benfazeja. Tem poderes de fada, tem asas que a levam pelos céus. É uma menininha órfã, que vive em uma terra encantada com outros seres mágicos, em perfeita harmonia. O reino ao lado é habitado por humanos. Homens violentos, gananciosos. Seu rei cobiça conquistar o reino das fadas e tomar suas riquezas.

Um menino humano, Stefan, entra no reino da fadinha, Malévola. Ficam amigos, mas logo têm que se separar. Crescem sem se ver. O rei continua tentando invadir o reino mágico, mas nossa fadinha virou uma fadona poderosa e não deixa. Enfim o rei, à beira da morte, oferece: quem matar sua arqui-inimiga será seu herdeiro.

Stefan procura Malévola. Reencontro romântico, passam a noite juntos. Ele não tem coragem de matar a fada. Corta fora suas asas. Simbolicamente, é um estupro. Traída, Malévola busca vingança. Transforma seu país feliz em um império sombrio.  Anos depois, o que você já imagina: Malévola coloca um feitiço na filha recém-nascida do rei. Antes de Aurora completar 16 anos, vai picar seu dedo em uma agulha. Cairá num sono profundo, do qual só um beijo de verdadeiro amor poderá libertá-la. Malévola não acredita em amor verdadeiro. Hora de entrar em ação o príncipe, certo? Mas este príncipe é um efebo bobalhão. E agora?

Se você ainda não assistiu e pretende, pare por aqui. Se já viu, te pergunto: só eu que fiquei torcendo por um improvável beijo lésbico entre Malévola e Aurora? Não fosse uma superprodução Disney pra toda a família, seria a conclusão lógica de sua obsessão com a menina, que de maternal não tem nada.

518232980 Maleficent Clip Princess Aurora Mistakenly Thinks The Mistress A Misandria de Malévola

Angelina Jolie está ótima; certo que o papel é moleza. Também produtora do filme, capricha nos olhares concupiscentes. Está lá para quem quer ver: uma rainha dominadora, de couro negro, “adotando” uma princesinha púbere, para protegê-la do malvado mundo dos homens. E quando é Malévola que está em perigo, Aurora resgata suas asas, fazendo dela novamente uma mulher completa, “intocada” pelo homem, e portanto plena e poderosa. E agora, tá na hora do príncipe? Ele não serve para nada. Não é só que as mulheres podem se virar sem homens; homens são supérfluos, quando não perigosos.

Impossível imaginar um filme em 2014 em que todas as mulheres fossem seres inferiores, brutos e traiçoeiros; ou gays; ou negros. Preconceito e opressão, gritariam os injustiçados. Sou homem e não reclamo não. Podem bater que a gente aguenta. Claro que é simplismo e ignorância determinar que todos os homens são assim, todas as mulheres são assado. Cada pessoa é uma pessoa. Mas o mundo, afinal, ainda é um lugar onde os homens tem muito mais privilégios que as mulheres.

E cada um conte a história que quiser. Claro que dizer “é só uma história” é só estratagema de quem as conta. O significado está em todo lugar. As histórias nos encantam e moldam. Contos de fadas têm poder. É para isso que os inventamos. Eu via o filme e matutava: que mensagem, que visão dos homens, vão levar para casa e para a vida as menininhas ao meu lado comendo pipoca?

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Publicado em 05/06/2014 às 17:02

A quem beneficia o caos na Copa?

6ykxibl2n6 5wgwm8tkl9 file1 A quem beneficia o caos na Copa?

Fizemos hoje aqui no R7 uma enquete perguntando: você acha que o governo deveria ter autorizado a catraca livre para evitar a greve? Neste momento, tarde de quinta-feira, 85% das pessoas responderam sim.

Mas Geraldo Alckmin decretou que não. Então a cidade de São Paulo está toda zoada, a uma semana do primeiro jogo da Copa. A própria estação do Itaquerão foi depredada por um grupo de usuários. Repercussão nacional, internacional. Encrenca sem data para acabar.

A proposta de Alckmin é 8,2% de reajuste, relativo aos últimos doze meses. Os metroviários querem 16,5 %, mas já sinalizaram que fecham acordo por 10%. O governador bateu o pé. Diz que o motivo é “esfarrapado”. Que o sindicato quer “o caos e a bagunça”. Entrou com pedido para que o Tribunal Regional de Trabalho considere a greve “abusiva”.

Seu motivo para endurecer é bem claro. É ano eleitoral e Alckmin busca a reeleição, e eleição de Aécio Neves. E os motivos dos metroviários para a greve? A data do dissídio da categoria é primeiro de maio. O piso dos metroviários é R$ 1.325, 55. São 9.475 pessoas, das quais dois terços diretamente envolvidos nas operações. É um valor desproporcional à importância do metrô para os paulistanos, para o funcionamento da cidade e sua economia.

Mas o que importa é criar a convicção de que o Brasil não está preparado para a Copa. Que vai dar tudo errado. E quando a Copa começar de fato, quanto mais problemas, menos votos no PT. Esse é o cálculo. Política é a arte de conquistar e manter o poder . Por qualquer meio necessário, e de preferência pelos meios menos arriscados e mais lucrativos.

Lula inventou a Copa no Brasil. Objetivos políticos, como cada respiração de todo político. Circo pro povão, marketing internacional, bons negócios para as construtoras. Brasil ia de vento em popa, Cristo Redentor decolando na capa da Economist. Levamos, e as Olimpíadas do Rio de 2016, de lambuja.

Bom negócio? Péssimo, claro. Dinheirama jogada fora nos estádios, e do que foi prometido de obras de interesse público, quase nada foi feito. Onze dos aeroportos ainda tem obras inacabadas. É inacreditável, e totalmente previsível. André Barcinski listou as principais lorotas governamentais sobre a Copa. A mais cara de pau, a gente já sabia: “tudo será bancado pela iniciativa privada”. De, adivinha, Lula, em 2007.

Copa combina duas coisas que desprezo: esporte e nacionalismo. A Copa do Mundo é o momento maior da patriotada publicitária, todos-juntos-vamos, somos um só, como canta e não entoa aquela gente chata no tema do campeonato. Mas resistir é fútil e sempre me rendo. Vou assistir os principais jogos, como de costume, e parece divertido que a cidade vai estar cheia de gringos . A turistada está convidada para tomar umas nos botecos perto de casa. Já vi jogo do Brasil em vários cantos do mundo. Última vez na Austrália, copa de 2002, num pub em Sidney, contra a Inglaterra. Os australianos torciam para o Brasil, tratavam os ingleses de “limey bastards” pra baixo. Éramos os únicos brasileiros no bar, viramos “mates” instantâneos. Me sinto na obrigação de retribuir a hospitalidade.

É esquisito esse movimento “já que a Copa está aí, vamos ignorar tudo de errado que aconteceu e celebrar”, que inclusive inclui antigos críticos da Copa, recém-aderidos às hostes governistas. Também é besta esse papo de  “não vai ter Copa”. É natural que quem quer protestar, ou buscar seus interesses, aproveite os holofotes da Copa. A vida não tem dois times, um ganha e outro perde. Isso é no futebol. E nas eleições.

Se a Copa rolar suave, quem tem mais a ganhar é quem inventou essa história. Quem bancou, quem preparou o país para o torneio: Lula, Dilma, o PT, a base aliada. Se as cidades pararem, se os problemas empilharem, se assassinarem um turista, enfim, se der merda, quem fatura é a oposição.

O discurso já está pronto. Já até saiu da boca de Ronaldo, apoiador de Aécio: o governo não preparou o país, é uma vergonha de tanta incompetência, a Fifa nunca mais fará nada aqui. Num mundo ideal para os tucanos, tudo de ruim acontecerá nas próximas semanas. Se os protestos pegarem fogo, é boa oportunidade para acusar Dilma de leniente com os movimentos sociais, e os prefeitos aliados, Haddad e Paes, de moles com os black blocs.

Se Brasil forr desqualificado logo no começo, melhor ainda para a oposição. A única chance que eles têm de tirar a vitória de Dilma é com um grande fato novo, que renda imagens impactantes, e seja bom combustível para a campanha eleitoral na tevê.

As melhores profecias são as autorrealizáveis. Os metroviários paulistanos propuseram liberar as catracas. Alckmin endureceu. Posa de durão e garante que a greve aconteça. A população paga o pato. As imagens do povão quebrando a estação Corinthians-Itaquera rodam o mundo. Manchete deste minuto: ‘subway strike cause chaos a week from World Cup Kick-Off.”

É uma aposta eleitoral no “quanto pior, melhor.” A bola ainda não começou a rolar. Mas o jogo pesado já começou.

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Publicado em 03/06/2014 às 18:05

O que falta a Fernanda Torres, oito mil assassinatos depois de DG: não é Buda

Fernanda Torres Foto Bob Wolfenson Divulgação O que falta a Fernanda Torres, oito mil assassinatos depois de DG: não é Buda

Lembra de DG? Não? Foi antes do menino morto pela madrasta, da moça linchada porque disseram que ela fazia magia negra, da manicure enterrada viva. Antes da chacina nossa de cada dia, ontem, hoje, sempre.

Foi há uns oito mil assassinatos atrás que uma bala perfurou as costas de Douglas Rafael da Silva Pereira, DG, no dia 22 de abril. O Brasil teve em 2013 passado uns 60 mil assassinatos, entre os “oficiais” e os que nem foram registrados. Está mantendo a média em 2014. Um décimo dos assassinatos do planeta acontecem no Brasil.

É duro lembrar de tanto morto. Ou ligar para mais um. Mas DG não era só mais um. Porque era dançarino em programa de TV. Sua morte rendeu protesto nas ruas do Rio. E o programa Esquenta, onde dançava, teve uma edição dedicada a ele, com presença e depoimento de globais. Carolina Dieckmann, Mariana Ximenes, Faustão, Luciano Huck, Preta Gil, por aí vai. E Fernanda Torres.

Agora DG volta ao noticiário. A perícia concluiu que a cena do crime não estava intacta. Alguém mexeu para dificultar as investigações. É mais um indício que a própria polícia está envolvida na morte de DG. Parece que uma moto de DG tinha sido roubada, e depois encontrada nas mãos da própria polícia de uma dessas Unidades Pacificadoras.

A mãe dele, técnica em enfermagem, viu o corpo e concluiu que seu Douglas foi torturado. Tinha escoriações no rosto, joelhos, cotovelos, punhos e tórax, segundo o próprio laudo do IML. Pode haver algo mais triste para uma mãe que constatar a tortura de seu filho?
Mas o que falta à polícia brasileira é… Buda.

mae douglas dancarino O que falta a Fernanda Torres, oito mil assassinatos depois de DG: não é Buda                                                                              Maria de Fátima mostra foto do filho morto, com a filha e a ex-esposa

Sério: alguém escreveu isso. Foi Fernanda Torres, quando usou o bailarino como tema para um artigo em sua coluna na Folha.

Falta ao policial brasileiro treinamento, equipamento e salário compatível com o risco. Falta educação, respeito ao próximo, limites. Se fizer seu trabalho direito, e sobreviver, se aposenta pobre. Se aprontar, não terá julgamento justo ou punição igual a de um civil qualquer. Falta, enfim, tudo.

Mas Fernanda Torres termina seu artigo dizendo que o que falta à polícia é "Buda". Foi demais para mim. A frase me inspirou a vomitar um dos textos mais brutais que já escrevi, atacando Fernanda.

Mas concluí que não tinha sentido bater em Fernanda "na física". Está completamente abaixo do meu radar. É a atriz de comédia de TV que  não vejo e colunista que não leio. Li a primeira página de seu livro de pé, na livraria, e já foi demais.

O bom senso me fez segurar para publicar no dia seguinte. Vantagens dos cabelos brancos. A raiva passou, ou a maior parte. Raridade. Publico aqui no blog tudo que escrevo, de bate-pronto. Isso foi há semanas. A nova evidência sobre o assassinato de DG me força a voltar ao tema.

O artigo de Fernanda começa elogiando a democracia social carioca. "A natureza do Rio é democrática, e a praia, - limite forçoso das urges -, o lugar onde as diferenças se anulam." Exemplifica citando o convívio amigável entre a amiga atriz, Andréa Beltrão, e Maria de Fátima, moradora do morro do Cantagalo. As duas são colegas de natação no Posto 6. Andréa é colega de Fernanda no seriado Tapas e Beijos. Maria de Fátima é a mãe de DG.

Fernanda está lendo o mangá "Buda", de Ozamu Tezuka, para seu filho pequeno. O livro explica bem o sistema de castas da sociedade indiana. "Buda vem questionar a ordem suprema, ao ensinar que todos os seres são semelhantes diante da morte e do sofrimento." Fernanda diz que a coragem e a capacidade de articulação de Maria de Fátima "rompem o sistema de castas que impera no Brasil".

Apesar disso tudo, Maria de Fátima está errada, nos educa Fernanda. A mãe de DG declarou que as UPPs são uma farsa, e que a população tem mais medo da polícia que dos bandidos. Fernanda retruca: as UPPs tem que ser defendidas! Porque são "o único plano concreto de reintegração de áreas esquecidas pelo poder público surgido desde que eu me conheço por gente… a estratégia de ocupação recém-implantada deve ser levada adiante."

A atriz defende a ocupação das favelas pela PM, enquanto diz que "a percepção de que um preto pobre é inferior a um branco rico nasceu com a escravidão e contaminou todo o tecido social. Um regimento armado deste ideal deve ser combatido."

Ou seja, o Rio é democrático mas dividido em castas. Maria de Fátima está certa de atacar as UPPs, mas elas são fundamentais. A PM deve ser combatida, mas a ocupação da favela pela PM deve ser defendida.

Difícil de entender tanta contradição. Quem sabe o Buda ilumine nossa compreensão de Fernanda Torres?

Conheço bem o mangá de Tezuka, gênio com G maiúsculo. Meu nome está no expediente. Um primo, amigo de um monge budista, nos recomendou uma década atrás. Publicamos a coleção completa pela Conrad, 14 volumes. Se Fernanda leu até o final, conhece o final melancólico que Tezuka impõe a Buda - derrotado, traído, sua tribo exterminada. O pai do mangá cantou a bola. A Índia continua sendo o país mais injusto do mundo, 2400 anos após Sidarta atingir o Nirvana.

Não que falte Buda à Índia . Deve ser a única coisa que não falta por lá, tirando gente. Um terço dos pobres do mundo vivem na Índia; dois quintos da população vivem abaixo da linha de pobreza. Os que vivem pior são os de castas mais baixas. Sim, o sistema de castas segue firme e forte, milênios após Sidarta atingir o Nirvana. Fernanda deve saber.

Nos últimos tempos, ouvimos falar muito da Índia por causa de casos de violência contra a mulher e estupros coletivos (notícia de hoje: um menino foi estuprado por oito homens em Nova Delhi).

O governo indiano promete combater os estupros construindo banheiros. No país, 600 milhões de pessoas defecam ao ar livre. É a melhor oportunidade para os muitos estupros - quando as mulheres vão ao matinho fazer suas necessidades. Estupro lá só é crime quando da sua casta pra cima. As dalits, intocáveis, podem ser abusadas, e são.

buddha2 O que falta a Fernanda Torres, oito mil assassinatos depois de DG: não é Buda
A Índia está muitíssimo longe de ser uma sociedade justa. O primeiro passo para mudar a Índia é reconhecer isso. Parar de idealizar seu povo. Parar de fetichizar a espiritualidade da Índia. Parar de aplaudir a resistência dos indianos miseráveis, de celebrar o sorriso banguela dos indianos analfabetos. Reconhecer quem se beneficia da manutenção da Índia neste estado. E agir de acordo.

No Brasil, a receita é a mesma. O que falta a Fernanda Torres é a coragem moral para encarar isso. Essa turminha quer ser elite e povão ao mesmo tempo. Ter segurança privada no condomínio e frequentar o pagodinho da "comunidade". Amazônica intocada e iPhone 5. Conexão Cantagalo-New York. Cybercapitalismo bancado pelo tesouro nacional.

É uma no cravo e outra na ferradura. Total solidariedade com os que sofrem, total subserviência aos que infligem o sofrimento. É a melhor maneira de manter as coisas exatamente como estão, mantendo privilégios e pose de protesto. É a falta de caráter habitual da elite brasileira, embalada em discurso de modernidade e multiculturalismo, lição que aprenderam bem com os tropicalistas.

É um primor de desconversa o discurso lacrimoso de Regina Casé sobre DG, no Esquenta. Consegue protestar contra a violência, sem protestar contra ninguém. “Temos que parar tudo e tomar consciência do tamanho da barbárie… a gente conseguiu parar e tomar consciência para que alguma coisa mude! Para que tragédias como essa não continuem acontecendo com milhares de jovens das periferias”.

Nem um pio contra a PM. As UPPs. O governador. O prefeito. O tráfico. As milícias. Nada contra ninguém. Nada sobre o eterno mal uso do dinheiro público, que vem de impostos que todos pagamos, os pobres muito mais que os ricos. Que sempre tem outras prioridades que não os meninos que crescerão para serem DGs, para serem PMs, para serem assassinados. Os números gritam: 93% dos assassinados no Brasil são homens; 74%, pretos e pardos; mais da metade, jovens. Mas vamos garantir o dinheiro da Lei Rouanet e da Petrobras pro novo projetinho dos famosos, a peça cabeça, o show do pagodeiro, o blog da Bethânia.

O que nos falta não é Buda. Nem à polícia, nem ao resto do Brasil. O que falta é peito para brigar. Postura de enfrentamento que deveria começar por quem "faz cultura", sem rapapés para os poderosos, e sem masturbação da miséria. Mas tomar posição pode custar amigos, patrocínios, padrinhos, boiadas, bocadas. Melhor deixar como está, né?

A morte de DG, segundo Regina e Fernanda, é um crime sem culpados. Choram revoltadas: neste Brasil, somos todos vítimas! Não somos não. Uns brasileiros cometem os crimes. Alguns reagem. E outros são cúmplices.

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Publicado em 28/05/2014 às 14:29

Roberto Carlos, o Rei da Mentira: pequena biografia de um ditador pequeno

foto 12 Roberto Carlos, o Rei da Mentira: pequena biografia de um ditador pequeno

Cumprimento Paola Correa pelo artigo com Paulo César de Araújo. A colega de R7 fez a entrevista mais completa com o biógrafo de Roberto Carlos. Detalha o que o cantor aprontou em 2008 para tirar de circulação a biografia que Paulo escreveu, Roberto Carlos Em Detalhes. E explica como Roberto agora pode tirar das livrarias seu novo livro, O Réu e o Rei, que conta os bastidores da elaboração de Em Detalhes, e o processo que Araújo enfrentou.

É mais nojento do que a gente sabia.  Paulo César revela como os advogados de Roberto Carlos adulteraram o conteúdo de passagens do livro no processo, para que o juiz aceitasse o argumento de que a obra feria a “honra e respeitabilidade” do cantor. Revela que o juiz foi totalmente parcial, sempre favorável a Roberto, e ameaçou fechar a editora. Que a editora decidiu retirar o livro de circulação. E nessa Araújo ficou sem advogado. Leia a entrevista. Mas antes prepare o estômago.

A primeira parte, sobre Roberto Carlos Em Detalhes, aqui:

A segunda parte, sobre o novo livro, aqui:

Comento com Paola que repercutiu. Vi a entrevista citada em vários lugares na internet. E provoco: você ainda foi boazinha. Paola questiona, o que você teria feito diferente? Digo que iria com os dois pés no peito de Roberto. Mas isso sou eu. E talvez um blog fosse o lugar mais apropriado para dar o cacete que ele merece. Protestos dos colegas de R7: ah, mas ele é o Rei! Ele é demais! Adoro Roberto Carlos!

Pois eu detesto Roberto Carlos. É o Rei da Mentira. Um censorzinho patético. Só aceita uma verdade, a sua, e usa sua fortuna e fama para calar quem lhe apetece. Nem precisa ser uma crítica a Roberto. É o caso de Paulo César, fã confesso do cantor, que simplesmente se propôs a contar sua história, nada mais.

A leniência dos jovens colegas com os arroubos autoritários de Roberto me força a mão. Porque é um momento importante na discussão sobre a liberdade de expressão no Brasil. O Réu e o Rei chega em ótima hora. A Câmara aprovou há duas semanas um projeto de lei que libera a publicação de biografias não autorizadas. Derruba a necessidade de licença prévia para obras sobre figuras públicas, seja um artista ou um político. Mas o texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, um risco.

Risco maior: o Supremo Tribunal Federal é que decidirá se é constitucional a publicação de uma obra sem a autorização dos biografados. Os juízes vão bater o martelo: preservar a intimidade de uma pessoa pública pode é mais importante que a liberdade de expressão e de informação? A única resposta aceitável é um grande “NÃO”. Mas considerando o histórico de bobagens que o Supremo decidiu, melhor fazer tudo para botar esse tema nos pratos mais limpos que pudermos.

A biografia de Roberto Carlos escrita por Paulo César de Araújo precisa ser liberada. E outras devem ser escritas. A minha resumo aqui: Roberto Carlos é um inimigo da verdade. Mentira por omissão também é mentira. Nunca abriu o jogo sobre o acidente que tirou sua perna. É o deficiente físico mais famoso do Brasil. Até hoje esconde o que não deveria ser vergonha pra ninguém. Está no seu direito, mas não cumpre seu dever. Poderia ter feito muito pela causa dos deficientes. Calou.

Desde que ficou famoso, esconde tudo que pode sua vida pessoal, seus casos, seu dinheiro. Como a biografia de Paulo César revelaria, se você pudesse lê-la, o que Roberto impede na marra. Enrola até sobre o que come, se o dinheiro for bom. Trocou décadas de pseudo vegetarianismo por um bife sangrento - que não colocou na boca.

A veia autoritária de Roberto Carlos é antiga. Ele estourou no início da ditadura militar, que jamais questionou. Quando a situação política fechou de vez, escondeu-se em romantismo açucarado e hinos carolas. Roberto Carlos não enfrenta, não critica, não contesta, e não entende porque alguém faria isso. Um brasileiro igualzinho a muitos. Talvez igual à maioria de nós. E aí reside nosso problema. Quinhentos anos de quase ininterrupta escravidão deram nisso. O brasileiro não sabe o que é liberdade, muito menos como lidar com ela, e menos ainda porque é importante defendê-la.

E isso inclui nossos artistas. Ninguém teria mais obrigação de defender a liberdade. Alguns dos mais famosos fazem o exato contrário, e Roberto Carlos de maneira acintosa. Se fosse simplesmente um banana (e é), eu não tinha nojo dele. Só que o artista mais amado do Brasil faz questão de sempre apoiar a censura, o silêncio e a mentira, atitude ditatorial que apequena sua obra.

Em 1986, o então presidente José Sarney proibiu a exibição do filme Je Vous Salue, Marie. O filme de Jean-Luc Godard era uma parábola sobre Maria, mãe de Jesus (bem chato, por sinal). Sarney vetar o filme combina perfeitamente com seu currículo de puxa-saco da ditadura. Pois Roberto Carlos apoiou a censura. Mandou até um telegrama repulsivo para Sarney: “Cumprimento Vossa Excelência por impedir a exibição do filme Je Vous Saue Marie, que não é obra de arte ou expressão cultural que mereça a liberdade de atingir a tradição religiosa de nosso povo e o sentimento cristão da humanidade. Deus abençoe vossa Excelência. Roberto Carlos Braga”.

Era obsessão compulsiva? Não, ele continua se arrogando o direito de decidir que obras de arte merecem existir. Em 2013, era a face mais visível entre os artistas que criaram o Procure Saber, entidade que buscava proibir as biografias não-autorizadas. Depois rompeu com o Procure Saber, em uma entrevista ao Fantástico. Se declarou mais ou menos, vamos ver, dependendo do caso, a analisar, da maneira mais ambígua possível, a favor da liberdade para as biografias.

Caetano, pusilânime, criticou Roberto, e depois esmolou desculpas: “mesmo que ele nunca mais queira me ver, continuarei amando quem fez Fera Ferida e Esse Cara Sou Eu”.  Isso, pouco depois de Roberto entrar com uma ação contra a publicação de um livro sobre a moda na Jovem Guarda, tese de mestrado (!) de Maíra Zimmermann. E agora ele bota os advogados atrás de Araújo de novo, por causa de O Réu e o Rei. É de vomitar.

Mas Roberto Carlos não é o cantor mais amado do Brasil? É. Não compôs e cantou grandes canções? Claro. E você não gosta de Roberto Carlos? Não. Adoro muitas de suas músicas, trilha sonora da minha infância. Vomito Roberto Carlos, o ser humano. Popularidade e talento não são desculpa para ele se portar como um pequeno ditador, ditando o que podemos ler ou não. A obra é a obra, seu criador é seu criador.

É essa clareza que precisamos ter. Nós, brasileiros que temos carinho pelas canções de Roberto Carlos. E principalmente nós, os jornalistas. Nossa missão é enxergar suas canções pelo que são, sem permitir que nossa história com elas turve nosso olhar crítico. E, jamais, jamais permitir que nosso afeto pela obra disfarce a verdade sobre o ser humano, sobre Roberto Carlos, o rei da mentira.

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Publicado em 22/05/2014 às 16:06

O X da Questão: os X-Men e a revolução do futuro

x men days of future past wide O X da Questão: os X Men e a revolução do futuro

X-Men é uma metáfora sobre o preconceito. Os mutantes representam toda minoria incompreendida, e por isso temida e oprimida. Charles Xavier é pela mudança pacífica, negociada. Um Martin Luther King, defendendo a negociação entre perseguidos e perseguidores. Magneto é Malcolm X, revolucionário. Defende os seus por qualquer meio necessário.

É a interpretação mais famosa das aventuras dos mutantes. É simplista. Múltiplos autores criam histórias dos heróis desde 1963. Emprestaram sensibilidades diversas, em períodos históricos completamente diversos, aos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby. Criaram outros X-Men, novos e diferentes. Chris Claremont, um inglês hippie, e John Byrne, um caretão canadense, criaram as histórias mais importantes. Inspiraram os filmes, e também este novo.

Foi sob Claremont e Byrne que os X-Men se tornaram o gibi mais popular do planeta, e Wolverine, Tempestade, Cíclope, Noturno, Vampira e companhia viraram marcas registradas. Jean Grey é a Gwen Stacy da minha geração, a namorada que nosso herói não podia perder, a perda que jamais iria sobrepujar.

Eu, aos 14, tinha uma quedinha por Kitty Pryde, 13. Fiquei besta aos 15 ao abrir Uncanny X-Men número 141 e conhecer Kate, sua versão adulta e sofrida, marcada pela perseguição e a perda. Era a primeira página de Days of Future Past, a saga que mostrou que a luta dos X-Men teria final infeliz. Um futuro distópico, inumano. Com humanos oprimidos e mutantes lado a lado em campos de concentração, marcados e abatidos como gado.

Neste futuro o arqui-inimigo Magneto se faz aliado. Claremont, liberal, fez de Erik Lensherr um sobrevivente do holocausto nazista. Um homem com uma causa, e radical de estofo, não um vilão genérico. Demarcou os lados da batalha entre mutantes reformistas e revolucionários. Mas Dias de Um Futuro Esquecido é sobre outro embate ideológico.

days of future past O X da Questão: os X Men e a revolução do futuro

Reforma ou revolução valia discussão nos anos 70. Soa obsoleta em 2014, salvo para as fronteiras do capitalismo. Nem tanto, como gritam as periferias do mundo e das nossas cidades. Mas o século 21 impõe novos enfrentamentos. Vivemos no futuro de Lee e Claremont, dos X-Men, no meu próprio futuro. É um tempo de maravilhas. A marca principal de nossa época é a discrepância crescente entre o avanço e o atraso.

Dá vertigem a velocidade das mudanças nos costumes, na conexão, na tecnologia. São, para todos efeitos, revolução, como admitiu a contragosto o marxista Eric Hobsbawn. Por isso choca mais o contraste com um mundo ainda sem água e luz, sem direitos mínimos ou representação, iletrado, ilógico.

A Terra é um paraíso e um inferno. Transforma-se e resiste a mínimas tentativas de transformação. Até nas nossas sociedades mais avançadas confundimos liberdade de ter e de ser. E na era da comunicação instantânea, continuamos a eleger e delegar poder a representantes a cada quatro anos, como no século 18.

A distância não para de aumentar. Vivemos, como nunca na história, uma batalha entre o futuro e o passado. É o mito fundador dos mutantes, em 1963, recuperado e resumido por Grant Morrison quando escreveu o gibi no século 21: "os X-Men são a juventude enfrentando os adultos".

Tá na cara. O quartel general dos X-Men é uma escola. O time original era puro drama de colegiais: um playboy, um crânio, um molecão, um CDF inseguro, e a menina maravilhosa pela qual todos estão apaixonados. Anjo, Fera, Homem de Gelo, Cíclope e Jean Grey foram reunidos por um veterano da segunda guerra mundial, e portanto com mais que o dobro da idade deles, Charles Xavier. A missão deles é aperfeiçoar os poderes recém-recebidos e usá-los para combater mutantes criminosos, proteger a humanidade, e construir um futuro em que mutantes e humanos convivam em paz.

Os poderes mutantes só afloram na adolescência. Entendeu? Os X-Men são tesão. Jovens, atirados, de todos os países, cores, origens. São sexo à flor da pele, hormônios jorrando, músculos e barba e peitos crescendo, instinto tribal e individuação, confusão e certeza nos volumes máximos. Missão e urgência de mudar o mundo e mudar agora. Porque o mundo é seu, o futuro é seu, e não de seus pais ou avós.

Como no recente Capitão América, e em Godzilla, no novo filme dos X-Men o establishment é desprezível, e tratado aos pontapés. Líderes são protoditadores venais – Magneto ameaça matar Richard Nixon, presidente corrupto, brutal.  A Shield não é sua amiguinha, é o inimigo. A estratégia militar para matar o monstro o fará mais forte. É isso que está sendo ensinado aos jovens, em 3D multimilionário. Surpresa nenhuma que a rapaziada acredite. E aja de acordo. Os próximos anos prometem.

foto 11 O X da Questão: os X Men e a revolução do futuro

Neste combate cinematográfico entre o futuro e o passado, alguns sinais estão trocados. Wolverine é sempre puro instinto animal, moleque marrento. Xavier, o adulto cheio de certezas.  A premissa do filme é que os humanos, assustados com os mutantes, criaram robôs superpoderosos para combatê-los, e estas máquinas sentinelas tomaram o poder no planeta, exterminando quase todos os mutantes.

Wolverine viaja no tempo. Volta do futuro amadurecido. Tem que mudar o passado para que esse futuro de horror nunca esqueça. Para isso, precisa botar juízo e esperança na cabeça vazia do jovem Charles Xavier, riquinho, amargo, viciado em drogas. Logan, o eterno outsider, precisa ensinar Charles o que é um líder. O planeta nunca teve tantos jovens quanto em 2014. Nunca terá tantos velhos quanto em 2050. Grande mudança, grande oportunidade.

Numa cena chave, Wolverine e o professor Xavier do futuro se comunicam com o jovem Xavier. É a experiência aconselhando a juventude. Experiência de quem lutou, perdeu e sobrevive para lutar mais uma vez, a última vez. O que eles dizem é: mantenha a esperança. O futuro é seu, e depende das decisões e ações de hoje. A batalha pela alma de Raven, Mística, é a batalha pela alma do futuro.

O que faz um líder? Perguntei na entrevista coletiva para Patrick Stewart. Não se vive Charles Xavier impunemente. Nem o capitão Jean-Luc Picard, comandante da Enterprise, nativo do século 24. Stewart é ator inglês, formação de teatro, Shakespeare etc. Imaginei que tivesse refletido um pouquinho sobre a natureza da liderança. Nunca esquecerei sua resposta: é a capacidade de se colocar no lugar do outro. O maior dos poderes, quem diria, é a empatia. Disse mais. O vídeo está aqui.

O filme termina com uma mensagem de otimismo que ultrapassa o limite da utopia. Não só o futuro é nosso para moldar, mas até os erros do passado podem, devem ser deletados. Cada ação é uma nova chance. Equilíbrio impossível entre experiência de coroa e arroubo juvenil? Pois é para isso que existem super-heróis, para nos convencer do impossível. Por isso este é o filme dos X-Men mais verdadeiro. O filme dos X-Men necessário para aqui e agora.

Filosofia demais para uma matinê? A sabedoria está onde você a encontra e a ideologia está em todo lugar. Vejo o filme não como o conjunto de seus muitos acertos e variados deslizes cinematográficos. Li X-Men ininterruptamente entre 1979 e 2004. Conheço os mutantes como as rugas na minha cara.

Entendo este filme como a imposição de uma escolha. Entre um futuro multiétnico, multipolar, multigeracional. Anárquico, porque sem a hegemonia de autoridades inquestionáveis, moral, religiosa, econômica, militar. Heterogêneo, e portanto fundamentado na tolerância e colaboração entre desiguais, e portanto reformista, e estabelecido sobre regras claras e consensadas. Mas muito mais homogêneo na distribuição de oportunidades - e portanto revolucionário na quebra de privilégios. Um futuro com muito de caos e imperfeição, mas um futuro de esperança e tolerância.

A alternativa é um futuro passado, pretérito, esquecido.

Escolher nosso caminho - este é o X da questão.

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Publicado em 21/05/2014 às 17:27

Aprendendo a ser líder (e pai) com os X-Men

x men days of future mcavoy patrick stewart 636 370 Aprendendo a ser líder (e pai) com os X Men

Filho, os atores que fazem o jovem e o velho professor Xavier no novo filme dos X-Men vem para o Brasil. Quer me ajudar a fazer a entrevista? Quero, disse Tomás, 10 anos. Mas é ao vivo. Temos que ir lá na coletiva. E você vai ter que pesquisar, ler  o gibi que inspirou o filme, bolar suas próprias perguntas, e fazer pra eles - em inglês!

O menino engoliu em seco. Mas uma semana depois estava lá comigo, para sua primeira coletiva, e internacional, e com os X-Men, pra completar. Não é grande leitor de gibi, mas leu o Days of Future Past que baixei da Amazon no tablet, viu os trailers, me perguntou umas coisas, e bolou suas perguntas.

Eu não vou em coletiva. Coletiva é a anti-notícia. Se todo mundo sabe de tudo ao mesmo tempo, cadê o jornalismo? Mas coletiva também é farra, ainda mais em um caso desses. E eu tenho um longo histórico com os X-Men... e contei a história anos atrás.

Hora H, estávamos lá pra ver o filme (sobre o qual escrevo amanhã!) e depois a postos para a coletiva. No sorteio da ordem das perguntas, ficamos em segundo. Justo em segundo! É, Tomás, tá ótimo, assim temos garantia que vamos fazer nossas perguntas, não arrisca ninguém fazer nossas perguntas antes...  e não somos o primeiro!

Ator britânico sabe ler,  falar, pensar. Mas Patrick Stewart e James McAvoy foram além do cumprimento do dever. Patrick falou muito de futebol, esbanjou simpatia, e queria eu chegar aos 74 anos nessa forma. Ainda relembrou sua única visita anterior ao Brasil, 1962, na companhia de Vivien Leigh, quando se apresentou no municipal. E James, garotão, chamou meu filho de "dude", tipo e aí, carinha?

Longe de mim estimular meu filho a ser jornalista. Ele será o que quiser, e aprenderá a respeitar e valorizar as diferenças, a lição mais importante de todas essas décadas de aventuras mutantes. Mas decidi que era importante ele perder aula e ir na coletiva comigo, porque uma parte fundamental de ser pai tem sido expor Tomás a experiências, responsabilidades e diversões diferentes. É um aprendizado sem fim, aprender a tratar seu filho como uma pessoa, não um brinquedinho, uma marionete, uma projeção de mim mesmo. Claro que todo pai às vezes fantasia ter os poderes mentais de Charles Xavier: controlar a vida dos filhos telepaticamente, em vez de argumentar, convencer, explicar porquês...

Valeu. Ver os X-Men, meu gibi favorito e obscuro de  1979, se tornar esse fenômeno mundial, já tem sido uma experiência surreal. Perguntar para Stewart, Xavier e Picard, o que faz um bom líder, foi educativo. E ter meu filho me acompanhando na coletiva e fazendo uma boa pergunta, que mereceu uma boa resposta de James McAvoy: não tem preço. Em vídeo, com legendas, com carinho.

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Publicado em 18/05/2014 às 05:00

As 4 coisas da internet que não vivo sem

Cada dia aparece um aplicativo novo criativo e sensacional. Cada segundo alguém posta algo imperdível internet afora. Beleza, mas o que eu preciso mesmo é que alguém crie coisas que me ajudem a organizar essa bagaça toda!

Alguém criou. Estes são quatro coisas que fazem toda a diferença na minha vida digital, tanto do ponto de vista profissional como pessoal. Use, abuse, e depois me conte se foi bom pra você...

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Publicado em 15/05/2014 às 12:40

Porque lançar e como comprar um livro (com Neil Gaiman e um cara de 17 anos)

neil gaiman lantern 0 Porque lançar e como comprar um livro (com Neil Gaiman e um cara de 17 anos)

 

Hoje é a noite de autógrafos do meu primeiro livro. Já está nas principais livrarias do Brasil tem alguns dias, vende online e tal. Várias pessoas me perguntam: já tem a versão digital, para ler no tablet? Nada contra. Eu mesmo leio, principalmente quadrinhos. Mas a resposta é não. E não haverá tão cedo.

Uns 90% do conteúdo do meu livro já está disponível na web, a maior parte no meu blog. É uma antologia, uma reunião de artigos escritos em mais de vinte anos, mais alguns inéditos, costurados por um fio conceitual: como o rock deixou de ser o sangue nas veias da cultura popular global, e se tornou essa coisa impotente, decorativa, desimportante.

O Dia Em Que o Rock Morreu foi pensado para ser um livro, e um livro direto e reto. Como o ideal platônico do rock: três acordes, três minutos, ataque, entrega, emoção. Pensei o livro da capa à epígrafe aos capítulos ao papel do miolo. Fiquei satisfeito com o resultado. Inicialmente pedi ao editor da Arquipélago, Tito Montenegro, para fazermos versões digitais. Mudei de opinião. Não ficaria igualmente satisfeito com uma versão eletrônica. Não é conservadorismo, é constatação.

Ué, mas não é o mesmo conteúdo? Não. Conteúdo não é só o que as palavras querem dizer, é como você interage com elas, o peso, o cheiro, o visual, a experiência toda. Inclusive a experiência de sair de casa e ir à livraria buscar o livro que você quer. Ou até trombar com um livro que você nem sabia que existe, se encantar com ele, e levá-lo para casa. E depois comentar o livro. E comprar o livro para dar uma pessoa querida. Ou emprestar o livro para um amigo que pede. Ou jamais emprestar pra ninguém, e ter um prazerzinho cada vez que você vê a espinha do livro na estante.

O papel tem poder. O Capital No Século 21, catatau de 700 páginas do economista francês Thomas Piketty, é o livro mais discutido pelos poderosos, intelectuais e economistas do planeta. Pode mudar políticas, e certamente já mudou o debate sobre a desigualdade no mundo e nas sociedades ricas. Existisse apenas em versão digital, desconfio que seria menos discutido, e certamente menos lido. A presença física de um tijolo desse no criado mudo desafia à leitura.

E a livraria tem poder. Talvez não para as novas gerações. Para mim sempre foram lugares mágicos. Em 1983, quando mudei para São Paulo, passava horas na Livraria Paulista do Conjunto Nacional. Fuçando, lendo em pé, fazendo amizade com os vendedores, que eram bem mais que isso, e até comprando uns livrinhos de vez em quando.

Essa semana, André Barcinski escreveu com paixão sobre seu compromisso com livrarias independentes. Se você ama livros, tem que ler. E se tem planos de ir à Califórnia, André recomenda algumas livrarias preciosas em San Francisco. Conheço uma, a Borderlands, especializada em fantasia, horror e ficção científica. Só ela já vale a viagem.

No futuro próximo é muito possível que o livro de papel não exista, ou seja artefato de luxo. Mais uma razão para eu fazer o meu agora, ou quem sabe os meus, nos próximos anos. E também é muito possível que o livro digital do futuro próximo seja muito diferente do de hoje, e mais atraente.

O problema é que se você coloca vídeo, áudio, animações e tal em um livro, a tendência é que ele se torne menos hipnótico. Interação e imersão não caminham sempre juntas, como sabem os designers de videogames, cujo maior desafio continua sendo fazer um jogo que leve as pessoas a sentir e refletir.

Mas não é simples a vida do leitor neste ano de 2014. Descobri esta semana a existência de um livro chamado Faça Grande Arte. É o texto de um discurso inspirador feito por Neil Gaiman para os formandos do curso de artes na Universidade da Filadélfia. Já vi o vídeo com Neil encantando a garotada. Mas nunca li o texto. Tenho grande simpatia por Neil, contemporâneo, trabalhador, gente como a gente. Fora que o livro tem design do craque Chip Kidd. Decido comprar o livro.

 

MGA Mistakes square Porque lançar e como comprar um livro (com Neil Gaiman e um cara de 17 anos)

 

Agora, vamos tomar uma decisão? A edição americana, e naturalmente prefiro ler no original, custa R$ 123,00 e vai demorar até 40 dias para chegar. Capa dura, claro… mas que caro, e que demora!

A edição digital custa R$ 20,00 e chega em minutos. Mas não curtirei tanto. O design caprichado perde quase toda a graça. Não dá para compartilhar o livro com outras pessoas. E não dá para colocar na estante ao lado de todos os meus livros e gibis de Neil Gaiman.

Também posso optar pela edição em português que acaba de chegar às livrarias. Custa R$ 24,90 (por 80 páginas!), mas é em português. E claro que posso ler a íntegra do texto na internet sem pagar nada. Está à uma busca de distância.

Excesso de opções às vezes paralisa. Mas melhor essa riqueza de alternativas que só uma opção, um preço, um formato. Mesmo que eu tenha decidido exatamente por isso, agora que fiz meu próprio livro…como reza minha assinatura no Twitter: faça o que eu digo, não faça o que eu faço.

A opção mais tentadora é gastar mais, esperar mais, e curtir mais. Mas não aceito pagar R$ 123,00 pelo livro de Neil, mesmo que lindão.  Talvez compre a edição brazuca hoje à noite, quando estarei de novo na Livraria Cultura. Teria um significado especial.

Porque a mensagem do discurso e livro de Neil é: aconteça o que acontecer, Faça Boa Arte. Eu não chamaria o que faço de arte, de jeito nenhum. Mas posso substituir para algo como "se a coisa estiver boa ou se a coisa estiver ruim, ESCREVA". E o subtítulo é "Fantastic Mistakes". Neil ordena: cometa erros fantásticos. Bem, há décadas venho cometendo erros estúpidos. Vou me esforçar para que eles passem a ser erros espetaculares.

Talvez fazer meu livro só em papel seja um erro estúpido, mas do it yourself também significa faça para você mesmo, faça da maneira que te dá tesão. Algum dia, meu livrinho terá versões digitais, certamente mais baratas que os R$ 29,00 que custa hoje. Mas eu não farei uma dedicatória eletrônica para você.

Isso, só em papel, e só hoje. O André que tinha 17 anos em 1983 ficaria bem besta, e bem orgulhoso, de ver sua versão 2014 autografando na Cultura do Conjunto Nacional… a gente nunca tem a vida que sonha. Mas tem dia que é melhor do que você jamais sonhou.

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