Publicado em 23/08/2016 às 15:08

Goulart de Andrade e a TV 80: anarquia no ar

goulart 1024x576 Goulart de Andrade e a TV 80: anarquia no ar
A TV no início dos anos 80 era uma anarquia. Ou parecia. Os loucos tinham tomado o hospício: Goulart de Andrade, Fausto Silva, Paulo César Pereio, a turma do Olhar Eletrônico. Humor colegial, amor pela rua. Cenários toscos, gente comum, câmera na mão - a vida como ela nunca tinha sido na sala dos brasileiros.
Sotaque paulistaníssimo. Até nos programas de auditório, todos gravados na cidade, inclusive Chacrinha, que nunca foi tão doido quanto na Bandeirantes. No Rio dominava o padrão global, na própria e na Manchete, que buscava ser mais Hans Donner que o próprio. Todos os outros canais nacionais tinham sede em São Paulo - Record, Bandeirantes, TVS. Os canais locais de São Paulo, Cultura e Gazeta, fundações, orçamentos baixos, eram mais permeáveis às maluquices da garotada saída (ou ainda) na universidade. Boa parte está hoje por aí - o mais visível Marcelo Tas, que virou personalidade; o mais prestigiado Fernando Meirelles, fazendo cerimônia de Jogos Olímpicos, dirigindo filmes premiados.
A Globo dava suas cacetadas, principalmente nas séries, Plantão de Polícia, Malu Mulher e tal. Mas a ação, a gente sabia, estava nos outros canais, depois do horário nobre. Nunca assisti tanta TV quanto entre 1983 e 85. Recém-mudado pra São Paulo, morando sozinho, notívago, a TV era companhia até o hino nacional, duas da manhã, quando acabavam as transmissões.
Eu assistia tudo. Até esportes, que detesto. Via toda terça o "Clube dos Esportistas". Era um programa surreal com Sílvio Luís, Flávio Prado e Ronnie Hein sentados num sofá, recebendo boleiros (que eu não sabia quem eram, porque não assistia futebol). Sempre com um convidado musical, artistas nível Clube do Bolinha, Lilian Gonçalves. Destaque para a garçonete anã, Ferreirinha.
Goulart de Andrade era o mais ousado de todos. Ia onde ninguém ia, ao outro lado da meia-noite. Era observador, era malandro, era voyeur. Mas dava voz para os personagens, voz que eles não tinham (e não têm) nos jornais nacionais ou policiais. Goulart veio da velha TV, dos anos 50, mas soube se atualizar e se cercar de gente nova, que dava o sangue pelo Comando da Madrugada. Empresário, integrava merchandising descarado em seus programas. Foi pioneiro também nisso. Nada dá mais dinheiro hoje na mídia digital que merchan, ou, como se diz hoje, "branded content" e "native ads".
O que tem hoje de parecido? Talvez a "Vice". Mas vá direto ao original. Goulart publicou muito do que fez no seu canal do YouTube (vou lá agora ver se está a cirurgia peniana do Jamelão!). Pra se inspirar, confira essa lista com dez matérias inesquecíveis de Goulart...
O pouco que sobrou da anarquia televisiva daquele período morreu com a MTV Brasil, onde gente como João Gordo, Hermes & Renato e alguns doidos nos bastidores fizeram bonito. Agora a TV é infinitamente mais rica que trinta anos atrás, mas sempre muito bem produzida, planejada, segmentada, marketada. O espaço do risco e da surpresa é a internet, mas você jamais diria isso olhando os canais mais populares do YouTube. O vídeo na internet é cada vez mais dominado pelas personalidades, pela edição, pela busca desesperada de audiência. Tá cheio de coisa doida, e boa, mas que trabalho garimpar. Nos anos 80 a loucura estava ali no seu nariz, nas beiradas do mainstream.
Minha sensação na época é que depois de anos de TV comportadinha, nos anos da ditadura, com a abertura política tivemos uma explosão de criatividade como nunca antes. Ou eu era muito jovem e tudo parecia muito novo, surpreendente, horizonte infinito?
Essa turma, Goulart à frente, botou abaixo aos pontapés as barreiras aceitável na televisão, e portanto no Brasil. Nosso, meu, agradecimento eterno.

Publicado em 17/08/2016 às 16:19

Quando duas coisas incríveis se chocam: Caco, o Sapo canta Talking Heads

Um clássico de uma das bandas mais inteligentes e esquisitas de todos os tempos.
Um clássico da infância de muita gente... Caco, o Sapo, hoje mais conhecido como Kermit. Tão inteligente e esquisito quanto David Byrne!

Publicado em 17/08/2016 às 16:03

Acredite: Pokémon Go vai mudar completamente o mundo (e a sua vida)

pokeworld Acredite: Pokémon Go vai mudar completamente o mundo (e a sua vida)
Cena 1: o despertador toca. Márcia levanta e imediatamente coloca seu Óculos AR-VR. Vê o rosto de sua mãe flutuando no quarto; sinal que ela ligou. Um pouco para trás dela flutuam os logotipos das redes sociais favoritas de Márcia. Com um aceno da mão, roda para baixo os feeds. Fala as palavras “café” e “chuveiro”, para o Óculos ativar a cafeteira e já ligar a água na temperatura ideal. Antes de levantar, acaricia seus três pets, que estão no pé da cama: um gato com os olhos bicolores de David Bowie, um filhote de Panda e o Pikachu. Todos virtuais. AR: Realidade Aumentada. VR: Realidade Virtual.

Cena 2: Márcia caminha na direção do metrô. A vizinha Sônia a cumprimenta pela nova bolsa Chanel virtual. Márcia tem 4789 bolsas virtuais, usa uma nova a cada dia. Esta custou R$ 2,99 e foi baixada durante a noite pelo Óculos; Márcia tem uma assinatura de todos os lançamentos de bolsas virtuais das principais marcas internacionais. A bolsa física é sempre a mesma, superleve, super resistente, super prática.

Para combinar com a cor da nova bolsa, Márcia usa uma Skin customizada. Ajustou o tom da sua pele. O corte de cabelo está mais curto, e o casaco combina perfeitamente – tudo virtual. Como todas as suas Skins, esta também corrige algumas imperfeições do corpo material de Márcia: pés de galinha, marcas de acne, uns quilinhos a mais na cintura. Pensa que precisa malhar mais. Hoje à noite vai baixar uma nova praia virtual, para dar mais vontade de fazer ioga. Bali?

Cena 3: nos três quarteirões até o Metrô, Márcia interage com 78 avatares. Das lojas no caminho (com brindes virtuais, bônus e cash-backs em caso de compra). De marcas com que já tem cadastro, oferecendo e-commerce instantâneo e personalizado, muitos usando celebridades (sua YouTuber favorita, o Pequeno Príncipe, o Dalai Lama). Marcas de consumo mas também ONGs, partidos políticos, causas pedindo seu apoio. O logotipo flutuante do cartão de crédito avisa que seus pontos acumulados já dão direito a mais uma viagem virtual de uma tarde. Ela pode escolher entre diversos locais reais ou imaginários, com direito a acompanhante (ela seleciona Tatooine e Cauã Raymond, paixão da sua adolescência).

Márcia prioriza o que é mais urgente. O avatar do seu chefe em Shenzhen está na esquina cobrando seu relatório sobre a mais nova atualização de software. Márcia trabalha para uma empresa que produz Ambientes Virtuais Educacionais para bebês recém-nascidos. São cada vez mais raros.

Finalmente Márcia chega ao Metrô. Está cheio, mas não muito. Quase ninguém mais tem carro; carros têm AR-VR instalados, mas a interação AR-VR é muito menor – qual é a graça? Se necessário um carro, basta comprar algumas horas de uso e eletricidade para rodar. Claro que a maioria das pessoas não se reúne fisicamente para trabalhar.

Márcia escolheu semana passada ver o Metrô como o museu Hermitage, de São Petersburgo, mas já está enjoando de tanto gigantismo. Com um aceno de mão abre um menu no ar e aponta: “Capela Sistina”. Agora sim. Olhando os detalhes do Juízo Final de Michelangelo, ela pergunta: quanto tempo demorou para pintar isso? Harry Potter, seu assistente pessoal virtual (personalizado e gratuito, cortesia da Wikipedia) responde: quatro anos, de 1508 a 1512.

Na escada rolante estão trolls, fadas, super-heróis, roqueiros falecidos, aliens, animais falantes, celebridades do passado e presente, e pessoas “comuns” –todas usando skins, algumas mais sofisticadas, outras mais simples. O “Plebiscito da Semana” insiste que seu voto é importante para alocar eficientemente os recursos públicos não-virtuais, e portanto limitados. A administração pública é uma combinação de Inteligência Artificial e Crowdsourcing. Márcia vota em eliminar de vez a perfuração em plataformas submarinas; o mundo já tem problemas demais com o clima para queimar mais petróleo.

Mais ofertas de produtos e serviços, a maioria digitais, alguns poucos físicos, aparecem sem parar. Uma se sobrepondo à outra, todas em 3D, interativas. Já andam falando que o novo update grátis do Óculos vai ter olfato virtual, imagine só.

Nossa heroína suspira. Diz “Pause” e “Liga pra minha mãe”. Que atende na hora. Faz cara de “por quê demorou tanto pra me retornar?”, o olhar de reprovação que Márcia reconhece como típico de sua mãe – mesmo que sua mãe esteja no momento usando um skin que a faz parecer com Dory, a peixinha do desenho animado.

As tecnologias de AR-VR, Realidade Aumentada e Realidade Virtual, e a infraestrutura que utilizam (Computação em Nuvem, a Inteligência Artificial, Geolocalização, Logística Avançada, Tecnologia Financeira) vão mudar completamente a maneira como trabalhamos, vivemos, compramos e vendemos. Pokémon Go é um belo início. E é só o início. Agora a revolução AR-VR está nos smartphones. Logo (ainda em 2016) estarão nos primeiros Óculos. Depois, algum dia, em implantes cerebrais... e depois sabe-se lá.

AR-VR vai destruir o mundo de 2016. A educação, a ciência, a arquitetura, o namoro, a mídia, o marketing, o consumo, a política; seu trabalho, meu amigo, sua carreira, minha amiga – tudo será profundamente modificado. Fortunas serão criadas e destruídas. Quem sabe tudo que você aprendeu até agora vai valer muito pouco. Quem sabe você vai surfar essa onda e ganhar muito dinheiro.

Já começou. Baixe Pokémon Go agora. Comece a brincar, porque a revolução não será brincadeira. Jogue, compreenda, estude Pokémon Go. Bote a imaginação para funcionar. É o melhor investimento que você pode fazer no seu futuro profissional (principalmente porque a maioria das pessoas que lerem esse texto não levarão este meu conselho a sério).

E enquanto você se prepara para esse futuro tão próximo, o presente é ganhar dinheiro com Pokémon Go aqui e agora. Hoje de manhã, a dois quarteirões da minha casa, uma loja de produtos naturais oferecia desconto para quem entrasse lá para capturar Pokémon. E você, como está usando Pokémon Go para faturar já?

Assunto para meu próximo texto. E não estranhe se eu voltar muitas vezes a este tema. Eu manjo dos monstrinhos. Trabalho com Pokémon desde 1998, quando, fundador da Editora Conrad, lancei a revista Nintendo World e depois a Pokémon Club (que foi o maior sucesso editorial do ano 2000, aliás...)

E se você já está usando Pokémon Go para fazer marketing, vender, agradar seus clientes – mande para mim! Sei de muitos casos no exterior, mas ainda poucos no Brasil. Quando forem em quantidade suficiente, listarei em um novo post.

É engraçado que depois de todos estes anos eu esteja de volta ao mundo de Pokémon (na verdade, nunca saí dele; tenho longa história no universo dos games, e dos novos negócios; lê aí no meu perfil). Mas não me surpreende.

Os games são o laboratório de teste das inovações que depois explodirão em todo o mercado. Estarei sempre de olho no futuro, então estarei sempre de olho nos games, sempre brincando, sempre jogando. Como diz a música tema do desenho Pokémon: “I know it´s my destiny”!

Publicado em 10/08/2016 às 15:57

A Rio 2016 é racista

rafa ouro A Rio 2016 é racista
Racismo não é que os negros brasileiros têm menos saneamento. Menos casa própria. Menos acesso à saúde, hospital, creche. Nem que são menos alfabetizados, que vivem menos, que vivem pior que os brancos. Racismo não é que os negros são minoria nas universidades, nas redações, no shopping, nos restaurantes. Ou minoria nas novelas, nos telejornais, no público que frequenta os programas de auditório.
Não estão nos palcos dos teatros, são poucos nas paradas de sucesso. Não apresentam talk shows. Há pouquíssimos negros nas gerências e direções das empresas. E no comando da Polícia Militar, Civil, Federal. Não há negros entre os bilionários brasileiros. E não se vê negros nos ministérios, nas secretarias, autarquias, ou nos altos cargos do judiciário.
Mas nada disso é racismo. Não gera indignação. Não é tema pra campanha de candidato nenhum. Não repercute nas redes sociais. Isso é normal. É o dia a dia. Não, racismo é quando eu escrevo a seguinte frase: "Medalha de ouro para uma negra favelada ajuda as negras faveladas em exatamente nada."
Por esse comentário no Twitter, inspirado pela vitória de Rafaela Silva no judô, fui chamado de racista por várias pessoas. Outras também me "xingaram" de gay, homem, branco etc. Muito comum a crítica de que não posso escrever sobre mulheres negras porque não sou mulher nem negra, o que é além de surreal.
Mas nem todo mundo entendeu assim.
Ana Luisa, leitora atenta, escreveu no Facebook sobre o assunto: "aquele post de racista não tem nada. Ao contrário. É uma crítica a um poder público omisso, que quase nada faz para quem é pobre e negro, e a uma sociedade preconceituosa e hipócrita que relega aos próprios negros o conselho de seguir o exemplo de esforço pessoal de uma moça negra que é destaque hoje. Mas é exceção entre uma massa de negras que não tiveram sua condição melhorada por ninguém. E nem ganharam o respeito da classe média anos atrás, lá com aquela medalha de ouro da judoca Edinanci (cujo nome, aliás, caiu no ostracismo). Incrível o tanto de gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, o seu post."
Toda essa gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, não pesa tanto pra mim quanto uma única pessoa ter compreendido tão bem minha intenção quanto Ana Luisa.
Costumo dizer que o Brasil é um problema de interpretação de texto. Também costumo dizer que é inútil tentar entender os outros, e mais ainda tentar mudar os outros. Não dá para mudar a opinião de quem concluiu por esta frase que sou racista. Nem vou tentar. Então sou racista. E não sou racista. Entendeu? Assim é o novo mundo da comunicação.
Esse problema de deficiência de compreensão (ou mesmo de indignação simplista e automática) se tornou uma patologia. Dois exemplos pessoais. Estou respondendo a um processo que pede uma indenização financeira bem grande, por um texto que publiquei aqui no blog. Perdi em primeira instância, estamos recorrendo. A decisão do juiz é baseada no que dei a entender, não no que efetivamente escrevi. É um problema da legislação brasileira, que é dúbia, porque interpretação é sempre subjetiva.
Outro exemplo, mais engraçado, de ontem. Fiz também no Twitter uma piada infantil, daquelas tipo revista Recreio: "O que esse Phelps faz de tão importante? Nada." Pois não é que tem gente me xingando, achando que é uma crítica ao nadador americano? Quando até uma bobagem dessas ofende, está claro que qualquer coisa (mas qualquer coisa mesmo) pode gerar repercussão negativa. Como qualquer coisa pode querer dizer o seu contrário, decidi por um título bem explícito e escandaloso para este texto: "A Rio 2016 é racista".
Sutileza tem hora. Veja: o caminho natural para quem escreve profissionalmente, neste ambiente, é a autocensura e a autopromoção. Ou, caminho contrário e desafiador, apostar na inteligência de poucos. Ser mais mais ambíguo, denso, ambicioso. E muito, muito seletivo. É uma alternativa que me seduz - para daqui a pouco.
Para hoje, sobra ser tão agressivo quanto Rafaela Silva. De fato a medalha de ouro para ela não ajuda em nada as negras faveladas, ou, se você preferir, as afrodescendentes moradoras de comunidades. O que mudará a vida dos milhões de Rafaelas que não chegaram e nunca chegarão a nenhum pódio é dinheiro.
Investir R$ 38 bilhões dos nossos impostos nos Jogos Olímpicos, e não em melhorar a vida dos brasileiros mais pobres - a maioria negros, a maioria favelados - é uma das maiores injustiças já cometidas nesse país. E isso sim é que é racismo.

Publicado em 05/08/2016 às 18:49

Anitta é perfeita pra abertura da Rio 2016

anitta Anitta é perfeita pra abertura da Rio 2016Não podiam ter escolhido artista melhor que Anitta para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Anitta, ex-MC Anitta, nascida Larissa, é a exata imagem que o mundo faz do Brasil: uma bunda mestiça, alegre, amadora. E é puro Rio 2016: oferecida, simpática, provinciana, cirurgia plástica etc. MUITO melhor que Gil e Caetano, que também vão se apresentar na abertura...
É caipirice de brasileiro achar que Anitta não devia estar lá. Os gringos não botam Beyoncé no show de intervalo do SuperBowl? Todas as grandes cantoras internacionais posam de stripper, rebolam com o mínimo de roupa e tal, cantando como são poderosas e empoderadas. Anitta faz isso melhor que todas elas, claro, porque brasileira, com aquele molejo e simpatia que só nosso DNA misturadão permite.
Duro seria se o Brasil resolvesse fingir o que não é na cerimônia de abertura. Foi o que aconteceu no fechamento da Olimpíada de Londres, quando Marisa Monte (!) representou o Brasil. Marisa é insípida e insegura; canta samba como se quisesse impressionar críticos novaiorquinos; carisma abaixo de zero.
E objetivamente Anitta é a artista mais popular do Brasil. É do funk, é do samba, é famosa, é gostosa. Ninguém faz mais sucesso que ela. Merece estar lá. Você pode achar que como cantora ela tem pouca voz; que as letras não dizem nada, que a música é rudimentar; e por aí vai. Tudo verdade e nada disso importa. Anitta é crua, é quente, é nossa, é campeã.

Publicado em 02/08/2016 às 15:32

Se toca, Dilma – ninguém quer mais saber de você

lm dilmarousseff pimentel hartung20151117 3 1024x680 Se toca, Dilma   ninguém quer mais saber de você
Retorno de férias, três semanas longe do Brasil. Passei maravilhosamente bem sem nosso triste noticiário, o enrolol da política, a desconversa na economia, a preguiça nas artes. Desembarco aqui e surpresa: perdida entre chamadas sobre os Jogos Olímpicos, Dilma Rousseff diz que vai propor plebiscito sobre novas eleições para presidente. Quem? Como? Ué, o tempo parou?
Era a exata conversa de Dilma antes de eu viajar. Ué, quer propôr, propõe aí. Grava um vídeo chamando eleições. Escreve uma cartinha. Chama uma entrevista coletiva. Não dá tanto trabalho. Basta querer. Mas Dilma não quer. Dilma não sabe mais o que quer. Imagino que deve fantasiar voltar a 2014 e cumprir as promessas que fez para se reeleger, em vez de trair seus eleitores.
Lá se vai um trimestre que Temer assumiu. Longe do poder, Dilma teve toda oportunidade, e tinha excelentes razões, para propor o que muita gente propunha: novas eleições para presidente. Quando foi afastada, com altíssimo índice de rejeição contra si própria mas também contra Michel Temer, a proposta de novas eleições poderia ter grande apoio popular (e dificilmente passaria no Congresso. E daí? Política não é só pra fazer a mixaria que é fácil fazer...).
Agora ela vem com esse papo de novo? Pra quê? Pra nada. Dilma poderia ter entrado pra história como alguém que pisou na bola, mas na hora H soube enfrentar o momento histórico mostrar desprendimento - grandeza, porque não? Os pequenos também são grandes às vezes. Em vez disso segue nessa toada tediosa, se apequenando cada vez mais. Junto com o partido que um dia foi a grande esperança dos pobres do Brasil e virou essa coisa nanica.
Agora o país quer saber de olimpíada, depois tem eleição, e depois tem o verão, e com ele algum alívio, se não no bolso, pelo menos no espírito. E toca andar pra frente. Não é preciso ser fã de Temer (o que quase nenhum brasileiro é) para reconhecer que o tempo de Dilma se foi. Está na cara. O próprio PT, a própria CUT já enterraram a ex-presidente. Só ela não se toca. Segue por aí, se arrastando como um zumbi, faminta de atenção e, quem sabe, redenção. Não terá.

Publicado em 28/06/2016 às 15:38

Patricia Abravanel está certa. O misticismo é inimigo do progresso

Patrícia Abravanel divulgação 1024x670 Patricia Abravanel está certa. O misticismo é inimigo do progresso
Patrícia Abravanel apanha dos ignorantes. É patético. Está correta ao falar do misticismo. Quanto maior a influência da religião em uma sociedade, mais ignorante e injusta. Onde ela errou: em relacionar o trabalho com a riqueza. O sucesso maior ou menor de cada país é resultado de um conjunto de fatores, dos quais o trabalho é apenas um. Sugiro a Patrícia a leitura do biólogo Jared Diamond e seu livro "Armas, Germes e Aço".
Mas não é por isso que está sendo condenada, e sim por citar a África como exemplo negativo. Essa condenação não resiste a um sopro de realidade. É movimento reflexo de zumbis politicamente corretos. Não tem nada de racismo no que ela falou.
O que Patrícia disse:
"Em países muito místicos (...), muitas vezes o povo deixa de trabalhar porque fica tão místico que deixa de fazer as coisas certas para poder chegar num objetivo. Em países mais racionais, que têm uma fé em Deus, mas acredita no esforço, no suor, no trabalho, no você se portar, ter um casamento e ter que cuidar dele, esses países vão mais pra frente. Então, um exemplo: a África é muito mística, e a gente vê as consequências, e os Estados Unidos é mais racional, protestante, onde acredita no suor. Então, eu acho que a gente tem que avaliar nossa crença através dos frutos que elas nos trazem".
Agora, o que dizem as pesquisas?
Existem muitas que dizem todas a mesma coisa. Escolho uma especialmente sólida e convincente. O instituto Gallup fez em 2009 uma pesquisa mundial, com o objetivo de identificar os países mais e menos religiosos do mundo. Os pesquisadores perguntaram: "a religião é uma parte importante da sua vida diária?". Os resultados estão abaixo.

Os países mais religiosos do mundo:

Egito
Bangladesh
Sri Lanka
Indonésia
Congo
Sierra Leone
Malawi
Senegal
Djibouti
Marrocos
Emirados Árabes
(a maior parte está na África e é islâmico)

Os menos religiosos:

Estônia
Suécia
Dinamarca
Noruega
República Tcheca
Azerbaijão
Hong Kong
Japão
França
Mongólia
Bielorússia
(A maior parte está na Europa)

Na mesma pesquisa, o Gallup identificou os estados mais e menos religiosos dos Estados Unidos.

Os Estados menos religiosos:

Vermont
New Hampshire
Maine
Massachussets
Alaska
Washington
Oregon
Rhode Island
Nevada
Connecticut

Os mais religiosos:

Mississipi
Alabama
Carolina do Sul
Tennessee
Louisiana
Arkansas
Georgia
Carolina do Norte
Oklahoma
Kentucky
Texas

Os estados mais religiosos dos EUA são os mais pobres, e a religião dominante é a cristão.
Veja: não importa se o país é muçulmano ou cristão. A questão não é de fé. Sobreponha estas listas sobre pesquisas equivalentes sobre nível educacional. A relação é lugar comum. Onde as pessoas são mais educadas, a religião é menos importante. Isso também significa que os países menos religiosos são os com melhor padrão de vida para suas populações. Porque neles prevalece a diversidade, o respeito, o planejamento. Por quê? De novo, sugiro a leitura de Jared Diamond; não é meu assunto aqui.

Onde as pessoas têm menos acesso à educação, à informação, à liberdade de expressão, as religiões são mais importantes para as pessoas, e por consequência a fé tem mais influência dentro de cada sociedade. É o que Patricia chamou genericamente de "misticismo".

Naturalmente, não vivemos no vácuo. Pessoas e grupos com crenças diferentes vão disputar espaços simbólicos, religiosos e políticos. Faz parte da vida e do jogo. Liberdade é a liberdade de acreditar no que você quiser, mesmo que me cause repugnância. Mas esta disputa só é positiva em uma sociedade que não acredita em nada, salvo na defesa da liberdade e do progresso de todos, por igual. Intolerante somente com os intolerantes, com o máximo respeito pela vida e pelas diferenças.
É possível e desejável a convivência harmônica entre cristãos, muçulmanos e judeus; budistas, umbandistas e ateus. Como entre brancos, negros e amarelos, LGBT e héteros, todos os comportamentos, caras, crenças. Mas não é viável sob domínio de uma das religiões, ou raças, ou um grupinho. Só em uma sociedade civil e civilizada, e portanto, não dominada pelo misticismo. Ordenada por leis criadas por todos, que sirvam para todos, e que prevejam direitos e deveres iguais para todos. E só em uma sociedade educada.
A religião estará sempre entre nós, inclusive os fundamentalistas. Vamos acostumar com essa idéia. Mas quanto mais educação e melhor divididas as riquezas, cada vez as religiões terão menos poder na sociedade - é o que as estatísticas demonstram. Foi isso que Patrícia disse, à sua maneira atrapalhada. E é bom acostumar com essa idéia também.

Publicado em 27/06/2016 às 17:29

As bancas de revista são importantes. Nesta terça-feira, é hora da gente defendê-las

IMG 4330  1024x682 As bancas de revista são importantes. Nesta terça feira, é hora da gente defendê las
Devo muito aos jornaleiros. Minha mãe me ensinou a ler. Mas quem me ensinou a gostar de ler foi a banca. Me parecia um lugar mágico, muito mais que uma biblioteca, porque sempre renovada, sempre em mutação, sempre quente. Eu gostava do seriado do Batman e do mundo mágico de Walt Disney, então comecei a ler Batman e os gibis dos patos. E o Manual do Escoteiro Mirim. E mais quadrinhos, e mais revistas, e livros bons e baratos.
Isso foi nos anos 70. De lá para cá a banca virou uma coisa bem diferente, e nossas necessidades de informação, conteúdo, mágica são atendidas de maneira muito mais diversa. O papel é só uma parte da informação que acessamos.
As bancas são também um centro importante de fomento cultural. A cena nacional de quadrinhos seria completamente diferente se nos anos 80 um grupo de artistas, jornalistas e fãs de HQ não tivessem passado a frequentar a banca Tiragem Limitada - que daria origem à loja Comix. Outras bancas reúnem outros grupos, até hoje.
E as bancas, claro, são um centro de convivência. O jornaleiro da esquina é parte da comunidade. Presta serviço a quem vive no pedaço, a quem está de passagem, presta informação, bate papo. O jornaleiro vive de entender sua rua, seu bairro, seu leitor.
Por isso tudo é que é importante que a banca sobreviva. Mas para sobreviver, a banca tem que mudar. E tem que mudar, inclusive, a sua fonte de receitas. Só revista, nos dias de hoje, não sustenta uma banca. Aí é que as bancas começam a ter um mix diversificado de produtos, conforme a necessidade do seu mercado. Mas isso não é o suficiente. Por isso é que nos últimos dez anos, o número de bancas em São Paulo caiu de sete mil para 3500 bancas. Claro que tem as bancas melhores e as piores. Mas hoje, juntando a mudança no comportamento do leitor e a atual crise econômica, mesmo as melhores estão em apuros.
Devo tudo como profissional e empresário à banca. Fiz e faço revista e livro para jovem, inclusive criança bem pequena. Te garanto que as bancas continuam sendo centros importantes de difusão de informação e de opinião. E que elas seguem alimentando o amor à leitura. Tenho interesse prático que as bancas sobrevivam, porque sou jornalista e editor (além de curioso profissional e fuçador da internet...). Veja bem, não morro de fome se todas as bancas fecharem amanhã. Mas já rodei o mundo e sei que cidade civilizada é cidade com banca boa na rua.
E por isso tudo é que é muito importante a aprovação do Projeto de Lei 236/2016, também conhecido como "Banca SP". Ele será votado nesta terça-feira. Foi aprovado na primeira votação, esta é a segunda.
Permitirá que as bancas paulistanas possam veicular publicidade em quatro espaços: um anúncio em cada lateral e dois na parte de trás da banda. Hoje já é assim, mas só pode ter publicidade de produto editorial. Com a lei a banca passa a poder ter publicidade de outros segmentos, como é hoje com os pontos de ônibus e relógios.
A palavra chave aí é "poder". Não quer dizer que todas as bancas farão isso. A adesão será totalmente voluntária. Por isso o argumento de que esse projeto de lei vai contra a Lei da Cidade Limpa é furado. A maioria das bancas hoje já tem cartazes anunciando revista e livros. Uma parte das bancas, provavelmente as que estão em localização mais privilegiada, com visibilidade maior, passarão a ter, em vez de cartazes de revista, cartazes anunciando automóvel, suco, tênis ou o que fôr.
O jornaleiro é um um pequeno empresário. Como em qualquer segmento, existem os mais empreendedores e os menos. Essa lei pode beneficiar muitos pequenos negócios. Fazer isso de maneira descentralizada. Ela exige contrapartidas. O jornaleiro que aderir terá que fazer melhorias na sua banca, que vai desde trocar a estrutura metálica até colocar e cuidar de bancos e banheiro público. Melhor para a cidade. E veja só: uma parte desta receita extra irá como imposto para a própria prefeitura, e não para um caixa comum, mas justamente para o Fundo Municipal de Mobiliário Urbano e Paisagem Urbana.
Urbanistas importantes dizem que o projeto Banca SP é bom e moderno. Mas interesses poderosos estão querendo solapar esse projeto. Por interesse econômico das grandes empresas que hoje controlam a publicidade nos pontos de ônibus o relógios. Ou são colunistas que fizeram parte da administração Kassab, e aí é um interesse eleitoreiro, que simplesmente vai contra tudo que o atual prefeito faz ou propõe.
Não se trata de gostar ou não de Kassab ou Haddad. Não vamos politizar uma questão que é de todos. Idéia é boa é boa, não importa de onde venha. É mesquinhez fazer de São Paulo uma cidade mais burra. Nossas ruas são mais civilizadas com as bancas; nossas crianças aprendem a gostar de ler nas bancas; o jornaleiro presta um serviço importante pra gente. Vamos proteger isso e apoiar o Banca SP.

Publicado em 25/06/2016 às 09:49

O que falta pro Temer dançar na Lava-Jato? Moro aceitar essa delação premiada

cms image 000493386 1024x601 O que falta pro Temer dançar na Lava Jato? Moro aceitar essa delação premiada
Reportagem de hoje da Revista Época não deixa dúvida. O destino do presidente interino está nas mãos de Sérgio Moro. Se Moro aceitar essa delação premiada de José Antunes Sobrinho (acima), um dos donos da Engevix, Temer dança. Antunes diz com todas as letras que pagou propina ao mais notório operador de Temer, João Baptista Lima Sobrinho.

Se Moro não aceitar a proposta de delação de Antunes, enterra sua própria credibilidade - e a da da Lava-Jato. Leia. E prepare-se para fortes emoções nos dias que virão.

Publicado em 23/06/2016 às 15:36

A merenda, as panelas e a pizza

RR estudantes secundaristas em frente a ALESP contra mafia da merenda 29032016004 1 1024x678 A merenda, as panelas e a pizza
É muito bom que o nosso judiciário investigue políticos e empresários corruptos. É excelente que os culpados vão pra cadeia. É imoral, ilegal e inevitável que uma parte muito podre da nossa política continue intocável. É o PSDB paulista. Não importa quantas acusações contra os tucanos, quantas evidências, quantas provas irrefutáveis, saem sempre inocentados de tudo.
Foi assim nas privatizações da era Fernando Henrique, comandados por Sérgio Motta. Foi assim no caso da máfia dos Trens, que se arrasta desde 1997. Caixa dois? Pouca gente lembra do escândalo de Furnas, que já em 2006 sugeria que R$ 5,5 milhões de caixa dois teriam ido para as campanhas de Aécio, Alckmin e Serra. Dá pra ficar lembrando de casos envolvendo políticos do PSDB até amanhã.
Naturalmente não é privilégio dos paulistas: pelo Brasil agora tem muita sujeira envolvendo o PSDB. Minas aparece com destaque, graças ao "mensalão mineiro". O único tucano de alta plumagem que jamais rodou é o ex-governador Eduardo Azeredo. Está provadíssimo que roubou e roubou muito. Foi condenado em primeira instância em 16 de dezembro de 2015, a 20 anos e dez meses de prisão, em regime inicialmente fechado, pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. Mas recorreu à segunda instância e está em liberdade. Enquanto isso, qualquer zé mané citado por delator da Lava-Jato vai direto pra cadeia.
A mais nova palhaçada com a população é a CPI da Máfia da Merenda. É difícil imaginar coisa mais nojenta do que roubar comida de criança pobre, mas é exatamente isso que aconteceu. A investigação envolve assessores diretos, da total confiança de Geraldo Alckmin, incluindo seu chefe de gabinete da Casa Civil, seu braço direito, Luiz Roberto dos Santos; e o presidente da Assembléia Legislativa, seu principal aliado na casa, Fernando Capez. Ontem foi instalada a CPI. Adivinhe: dos nove integrantes, oito são da base de Alckmin, e somente um da oposição. Mais uma vez Alckmin se sai bem em uma operação abafa. Mais uma vez, acusações contra os tucanos vão acabar em pizza.
O Ministério Público é muito valente, mas nunca para enfrentar o PSDB. Os juízes são muito rigorosos, mas nunca para enquadrar o PSDB. Os eleitores de Aécio saíram às ruas somente para derrubar Dilma, não para enfrentar o crime organizado nos palácios ocupados pelo PSDB. Contra a corrupção do PT, muitas pessoas bateram panelas. Contra a corrupção do PSDB, o silêncio destes cúmplices é ensurdecedor.

Publicado em 21/06/2016 às 17:14

O Uber do Uber

2015 03 19T020530Z 1 LYNXMPEB2I026 RTROPTP 4 UBER GERMANY e1435609443779 O Uber do Uber
O Uber causa muita polêmica. A única coisa que não gera discussão sobre o Uber é o seu sucesso com os consumidores e com os investidores. O Uber virou até uma maneira de se dizer "empresa nova que entra em um mercado e vira ele de cabeça pra baixo". No jargão da internet, é "Disrupção": uma tecnologia, ou modelo de negócio, que já nasce destruindo a maneira antiga de fazer as coisas.
Então hoje se fala no Uber dos Serviços Domésticos, o Uber das reservas para restaurante, o Uber dos passeadores de cachorro etc. etc.
Só que pouca gente se tocou que já existe o Uber do Uber. Está no nariz de todo mundo. Não no Brasil, mas em muitos países. É uma coisa que torna o Uber absolutamente inútil.
Chama-se... transporte público de qualidade. Mais especificamente: metrô.
Se você for amanhã para Nova York, Tóquio, Paris e várias outras metrópoles, vai perceber que pode ir a qualquer lugar da cidade em pouco tempo, gastando pouquíssimo. E para fora da cidade também. Porque essas cidades têm muitas estações de metrô, todas interligadas. E essas redes são ligadas a ferrovias que atravessam o país, e aliás se conectam com outros países. Dá para ir de uma ponta a outra da Europa só usando transporte público e gastando uma mixaria.
Porque um parisiense usaria o Uber? Para ficar empacado no trânsito, e gastar muito mais do que a passagem de metrô? Só numa situação de emergência. Ou voltando da balada de madrugada, porque nem todas as estações de metrô funcionam a noite toda. Mas para emergências e bebedeiras já existe táxi, né?
Fora que essas cidades (e muitas cidades médias) têm, além do metrô, ônibus limpos, confiáveis e baratos. E é por isso que em muitas das maiores cidades do mundo há décadas boa parte da população não tem carro. Carro pra quê? Transporte público te leva a qualquer lugar, é conveniente e barato. É uma coisa tão boa e eficiente que várias cidades já estão fornecendo transporte público gratuito! Algumas cidades, para todos os passageiros. Outras só em algumas linhas, ou para alguns grupos (por exemplo, estudantes ou idosos).
Tem um outro detalhe. Que cada vez será menos um detalhe, e mais uma prioridade. Menos carro na rua, além de menos trânsito, significa menos poluição no ar. O que é bom para a nossa saúde e para a saúde do planeta. Um modelo de negócio baseado em transporte de uma pessoa, via automóvel queimando gasolina, não faz nenhum sentido no século 21, com as mudanças climáticas à toda.
Onde o Uber poderia fazer sentido? Onde o transporte público é pouco e ruim, onde táxi é caríssimo, onde não há regras trabalhistas como as do primeiro mundo para defender os taxistas. Ou seja, nos países pouco desenvolvidos. Como o Brasil. Mas para 90% dos brasileiros, o Uber é muito caro (e carro é o grande sonho de consumo). Os outros 10% já têm carro e não abrem mão dele...
E brasileiro é brasileiro, claro. Esses dias saí de uma reunião com uma pessoa, ele chamou um Uber, fui junto. Ele ficou no seu escritório, eu ainda estava longe de casa. Falei pro motorista do Uber: eu não tenho o aplicativo, você me leva mesmo assim? Ele falou: claro!
Rodamos mais uns 15 minutos. Perguntei quanto foi? Ele disse que não era nada. Eu falei nada disso, você trabalhou, tenho que te pagar, pô. Ele disse que seria uns oito reais. Dei dez e falei para ficar com o troco. Ele ganhou mais do que se fizesse a corrida via Uber. Eu paguei menos do que se usasse o Uber. O cara me deu um cartãozinho com o telefone e disse: doutor, eu faço corrida particular, precisando é só ligar... O Uber, essa maravilha da tecnologia, não resiste a um telefonema.
Vai ver que é por isso que o Uber dá um prejuízo enorme, no mundo inteiro. Literalmente, bilhões de dólares de prejuízo. Quem fecha a conta? Grandes investidores, que acreditam que um dia o Uber vai dar lucro. Pode ser. Já vi grandes apostas da internet darem em nada, já vi darem em muita coisa. O tempo dirá. Só tenho uma certeza: o futuro é transporte coletivo de qualidade, barato ou gratuito, e não-poluente. E em alguns lugares isso já é o presente. Isso sim é que é inovação. E fazer isso no Brasil é que será a verdadeira disrupção.

Publicado em 17/06/2016 às 15:29

Como fazer um ajuste fiscal quebrando ovos

Omelete 16 Como fazer um ajuste fiscal quebrando ovos
Presta atenção nesses números:

- a renda média do brasileiro que trabalha para o setor privado é de R$ 1,1 mil. O salário mínimo é R$ 880,00. A maioria esmagadora não declara imposto de renda
- 27,3 milhões de brasileiros declararam imposto de renda em 2014
- destes, 1% teve rendimento tributável acima de R$ 26,3 mil por mês
- este 1% correspondem a 0,15% da população.

Esses 0,15% dos brasileiros são a elite. Claro que essa elite também contém, dentro dela, classes A, B, C, D e E.
A classe E da Elite são os que ganham nessa faixa, por perto dos R$ 30 mil por mês. Tenho certeza que não se sentem milionários de jeito nenhum. Mas são extremamente privilegiados, perto do conjunto da população.
A classe A da Elite é uma fatia microscópica da população, que é dona de uma fatia gorda das nossas riquezas. Inclui esses super ricos famosos que estão sempre nas manchetes, nas reportagens de política e economia, e cada vez mais nas reportagens policiais. Entre as classes A e E da Elite está a elite do nosso funcionalismo público. Como muitos que tiveram reajustes salariais este mês, aprovados pelo governo e pelo Congresso Nacional.
O que vem sendo feito nos últimos anos, e o que continua em pauta para os próximos, é indecente e inútil. Qualquer iniciativa de ajuste fiscal no Brasil tem que começar necessariamente pela classe A da Elite. E descer em cascata. Quando o 0,1% mais rico do país tiver feito sacrifícios, podemos exigir do 1% seguinte, e assim em diante. É premissa inegociável que os brasileiros mais pobres serão poupados até o limite do nosso esforço e imaginação. Qualquer proposta diferente disso tem que ser rejeitada de cara. É impossível fazer um omelete sem quebrar ovos - e privilégios.

Publicado em 14/06/2016 às 17:34

Porque gosto da música do Justin Bieber

justing bieber sorry skrillex blood lyrics 30 1024x512 Porque gosto da música do Justin Bieber
Razão é a coisa mais superestimada do mundo. Somos um feixe de instintos, hormônios, memórias. Nos move muito mais a química que as intenções. A gente age antes de refletir, e gosta do que gosta, não do que imagina que deveria gostar. Donde que gosto da nova música do Justin Bieber. Que não é mais nova, é "Sorry", toca sem parar há meses, e durante meses me incomodou e intrigou.
Eu no trânsito vira e mexe ouço rádio. De rock véio, de pop novo, e cada vez mais de música clássica, sinal certo de maturidade chegando, ai caramba. Primeira vez que ouvi "Sorry" foi no rádio. Não sabia de quem era. E gostei não gostando. Quer dizer, fiz minha análise crítica instantânea. Só mais um hit dance-de-FM pré-fabricado por algum megaprodutor, refrão em três notas, letra "macho vulnerável" arfante, puxando o saco das fãs
Depois descobri que era Bieber, e piorou, porque o moleque é um entojo desde garoto-prodígio do YouTube. E de lá para cá virou rebelde de butique, milionário maconheirinho musculoso e mala.
Então porque sempre que tocava eu ouvia até o fim? Porque subia o volume? A porcaria da música ficou me seduzindo e atazanando meses. Como uma mulher que te dá bola e te dispensa. Judia de mim!
Até que esses dias caiu a ficha e, uau, que maravilha é compreender. Que prazer. Que alívio. Eu gosto dessa música do Justin Bieber porque me lembra aqueles hits antigões de Axé. Do primeiro Axé, lá no meio dos anos 80. Luiz Caldas. Sarajane! "A Rodinha" dá quase pra decalcar em cima de "Sorry". Até "O Canto da Cidade", que enterrou a primeira fase do Axé, já 92.
Fui lá ler sobre "Sorry" e descubro os termos "Tropical House" e "Dancehall Pop". Que é definido como uma mistura de house com ritmos jamaicanos, swingados, veranis. Tá, mas o caminho acho que é outro. "Sorry" é produzido por Skrillex, produtor de mão cheia e popstar ele mesmo; que é parceiro de Diplo, idem; Diplo que rodou o Brasil e conhece isso aqui muito bem. Diplo afanou o funk carioca bonito. Desconfio que botou seus conhecimentos de música baiana na roda, aliás na rodinha, pra Skrillex, e aí está "Sorry". E se nós brasileiros não temos a moral de exportar nossa música pro mundo, ué, alguém vai faturar com isso. Certo ele, pop é roubo.
Se me perguntarem se curto Bieber, ou Axé, racionalmente a resposta é não. Mas contra a memória afetiva não há o que fazer. Gosto de "Sorry", sim, porque por baixo da superprodução estéril, premeditada, algo ali me ativa as papilas gustativas, me faz sentir cheiro de pimenta e suor. É pop baiano dos meus vinte e poucos anos. Amor antigo - de outros carnavais. E não vou pedir desculpas por isso, sorry...

Publicado em 14/06/2016 às 13:42

Cumprimento do direito de resposta de Gilberto Gil e Preta Gil

“Foi com surpresa e indignação que Gilberto Gil e Preta Gil tomaram ciência do artigo intitulado “Quem Pagará Pelo Casamento de Preta Gil? Procure Saber...”, de autoria de André Forastieri, publicado na internet pelo portal R7.

Dentre ofensas pessoais e profissionais abusivas e gratuitas, o artigo, apoiado em suposições pessoais do autor, induziu o leitor a acreditar que Gilberto Gil teria custeado o casamento de sua filha com a verba destinada à produção teatral “Gilberto Gil, o Musical”, que fora obtida unicamente por influência de seu cargo como ministro no Governo Lula e pela “amizade” com o atual Ministro da Cultura.

Nada mais irresponsável e equivocado. Houvesse o jornalista cumprido seu papel de apurar, saberia que a produção do espetáculo “Gilberto Gil, o Musical” bem como a autoria do projeto perante o Ministério da Cultura não são de empresa vinculada a qualquer membro da família Gil. E mesmo que fossem, não haveria qualquer fundamento para tal acusação grave e irresponsável do jornalista.

Desnecessário tecer comentários acerca do legado cultural de Gilberto Gil. O artista tem 50 anos de carreira, 54 discos gravados e 8 “Grammy Awards”. Foi vereador; aceitou o convite da Presidência da República para o cargo maior da Cultura no Brasil e seu Ministério jamais esteve envolvido em escândalos ou acusações de desvios de verba. O artigo do Sr. Forastieri é fruto da mais pura irresponsabilidade jornalística.

Preta Gil, por sua vez, trabalha desde os seus 18 anos: lançou quatro CDs, dois DVDs, gravou 2 novelas, apresentou 2 programas de TV e faz um número incontável de apresentações. Sua popularidade, angariada com esforço e investimentos próprios, é inegável. Nos últimos anos, seu bloco reuniu cerca 4 milhões de pessoas no carnaval carioca. Paralelamente à vida artística, Preta mantém atividades empresariais ligadas à produção e ao licenciamento de produtos que levam sua marca, gerando inúmeros empregos diretos e indiretos. E tem o direito de dispor de seus recursos como melhor entender.

A lamentável conduta do jornalista fere não só a dignidade pessoal de Gil e Preta, como também ignora o próprio código de ética da profissão, pelo qual “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade do relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação". O autor e o portal faltaram com o compromisso da verdade, inerente ao exercício do direito de informação.

O direito de informar não pode ser desvirtuado de seu propósito para acobertar manifestações ofensivas, inverídicas ou pejorativas. É em virtude do relevante papel do jornalismo na sociedade que a TV e o rádio são mantidos como concessões públicas que devem atender ao interesse público e zelar pelas garantias individuais. A internet, como veículo informativo, deve também atender a esta função, zelando pela verdade e pelos direitos e garantias individuais.

Gilberto Gil, que defendeu a liberdade digital como Ministro da Cultura, e Preta Gil vêm, por meio desta resposta, lembrar ao jornalista que esta liberdade encontra limites no direito do próximo. Escrever e publicar inverdades para ganhar milhares de "likes" e seguidores, à custa da difamação alheia, isto sim, é uma forma de desvio. Desvio de seu compromisso ético e moral com a verdade.

Vivemos todos dias difíceis, de violência e intolerância em nossa sociedade; e induzir o leitor a acreditar em uma teoria estapafúrdia e odiosa não colabora em nada para o desenvolvimento das relações humanas. Há que se pensar no próximo, há que se medir palavras e, principalmente, manter compromisso com a realidade dos fatos.”

Publicado em 09/06/2016 às 15:39

A Mogi-Bertioga é o Brasil

Molde52 596x340 A Mogi Bertioga é o Brasil
Já peguei a rodovia Mogi-Bertioga centenas de vezes. A estrada é a mesma desde quando comecei a frequentar a região, nos anos 80. É perigosa. Faltam guard-rails, sinalização, iluminação. Neblina, chuva e deslizamentos são comuns. Devia ter sido duplicada há muito tempo. Segue imutável. Paisagem linda, perigo permanente. Toda hora tem acidente. Esse foi mais um - o mais horrível, o mais inevitável.
O litoral norte de São Paulo é maravilhoso. Une serra, mata e mar. Cada praia é uma praia diferente. É um território dividido. De um lado da estrada, bonitas casas e ótima infraestrutura para quem viaja para curtir o final de semana. Do lado de lá, favela. O crescimento na região é mais que desordenado: é caótico. Casas pipocam do nada, invadem a floresta, infraestrutura zero.
A imigração é contínua: brasileiros que vêm de regiões pobres em busca de oportunidades, muitos da Bahia. Vivem de prestar serviços aos turistas. Dinheiro bom só no verão. Raridade esgoto, luz, escola, posto de saúde. Faltam oportunidades para os jovens estudarem e fazerem faculdade. Por isso estes viajavam, por isso morreram. Por descaso do poder público com os filhos dos imigrantes, dos pobres, dos negros.
Nada de novo. Muitos outros jovens brasileiros morrerão à toa, à míngua. O litoral norte é igualzinho toda periferia metropolitana deste país. Mas lá microcosmo no microscópio, miséria à vista dos abonados. Como eu. Não sou hipócrita de me iludar que pertenço à comunidade. Um fosso intransponível me separa dos moradores do litoral. Mas eles me ofereceram pontes, e tenho a sorte de conviver com muitos. A notícia do acidente me gelou o sangue. Liguei lá. Atendeu a mãe de uma menina que vi crescer. Ela disse: "hoje ninguém dormiu. Hoje parece que o tempo parou."

Publicado em 01/06/2016 às 09:26

A menina que foi estuprada engravidou – mas não pode abortar

o FTIMA PELAES facebook 1024x512 A menina que foi estuprada engravidou   mas não pode abortar
Esta semana o Brasil inteiro discute o caso da adolescente que foi sofreu estupro coletivo no Rio de Janeiro. Tirando bolsões de ignorância e preconceito, sempre os mais estridentes nas redes sociais, o sentimento coletivo é de choque, tristeza e alguma resignação. O que ninguém discutiu foi a possibilidade da menina ter engravidado de um dos estupradores.
Dezesseis anos, violentada por dezenas de garotos? Probabilidade enorme de gravidez. Ela engravidou? Não sabemos. Muitas mulheres estupradas engravidam. Se meninas adolescentes, maior a probabilidade, claro. Vamos torcer que não seja o caso dela. Se estiver grávida, sem problemas, porque a lei brasileira dá conta desses casos.
O Brasil já rejeitou o argumento de que interromper gravidez é "tirar uma vida". Surpresa: o aborto já é permitido no país. Hoje, só em dois casos (infelizmente; o aborto precisa ser legalizado). Quando a gravidez coloca em risco a vida da mulher. E quando a gravidez é resultado de um estupro. Mesmo que os fetos sejam perfeitamente viáveis, veja bem. É direito legal da mulher interromper a gravidez. A lei aceita, por enquanto só nesses dois casos, e a mulher não está cometendo nenhum crime.
Mais que isso: nesses casos, o Estado tem o dever de fornecer o auxílio necessário para amparar as mulheres que optarem por abortar. Na cidade de São Paulo, por exemplo, são oferecidos os seguintes serviços para as mulheres que tenham sido estupradas e decidam pelo aborto:
- Atendimento médico
- Contracepção de emergência para casos de estupro, em até 72 horas do ocorrido
- Coleta de material para identificação do agressor por meio de exame de DNA
- Acompanhamento clínico, psicológico e social durante e depois da interrupção da gravidez (ou, se for o caso, durante o pré-natal)
- Exames laboratoriais para diagnósticos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).
Isso é a lei. Há quem queira mudá-la. Para pior. Como a nova Secretária Nacional de Políticas Para as Mulheres, Fátima Pelaes. Na terça-feira, partipou de seu primeiro ato público no cargo, sentada ao lado de Michel Temer. Fátima é socióloga e foi deputada federal por quatro vezes, pelo PMDB do Amapá. Fez parte do governo Dilma. Ficou até abril deste ano no cargo de diretora administrativa da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia). A nova secretária é contra o aborto em qualquer situação. Mesmo em caso de estupro. Já afirmou que luta para mudar a lei nesse sentido.
Detalhe assustador: ela mesma é fruto de um estupro. Em 2010, Fátima revelou em um discurso à Câmara que que sua mãe engravidou depois de ser estuprada. Sua mãe foi estuprada na cadeia, quando estava cumprindo pena. Ela não conhece a identidade do pai.
Fátima já foi a favor do aborto, mas mudou de opinião ao converter-se. Ela faz parte da Assembléia de Deus. Como muitos cristãos fervorosos, evangélicos e católicos, Fátima é radicalmente contra o aborto. O que ela disse na Câmara, em 2010:
"Hoje estou aqui podendo dizer e defender que a vida começa na hora da concepção sim. Se há tempos atrás tivesse feito isso (aborto) não estaria aqui hoje. A gente tem que pensar que dá-se um jeito, consegue sobreviver. Não é fácil, mas é possível. Só eu sei a dor...
Eu já estive também em alguns momentos nesta comissão defendendo o direito ao aborto, dizendo que toda mulher tem direito, que a vida não começa na concepção. Mas eu precisava ser trabalhada, ser curada, eu não conseguia falar disso… Hoje eu posso.
Temos que pensar que direito nós mulheres temos de tirar uma vida. Nós temos aqui, como seres humanos, de trabalhar pela vida."
Em entrevista para um site religioso, Fátima diz que entre 1991 e 2002, "como ainda não conhecia Jesus Cristo, defendi bandeiras de lutas contrárias aos valores bíblicos, como a defesa do aborto, por entender, naquela época, que a mulher era 'dona' de seu corpo". Na mesma entrevista, Fátima Pelaes declarou ter colocado seu mandato à disposição de Deus. "Firmei um compromisso de glorificar o nome do Senhor naquela Casa de Leis.".
Fátima tem todo direito à sua fé e opiniões. Mas o argumento de que "toda vida é sagrada" não tem nexo. "Sagrado" é um termo sem significado jurídico. Pessoas diferentes entendem que coisas diferentes são "sagradas". O pecado de um é virtude para outro. Fé pode ser um impeditivo para uma mulher decidir pelo aborto; se ela preferir seguir com a gravidez, porque é o que sua religião prega, tem todo direito de fazer isso. O que importa em uma sociedade diversa, democrática, não-teocrática, é a lei. E as leis devem servir ao conjunto da sociedade, não à fé de quem ocupa momentaneamente aquele cargo.
E falando em lei, tem uma outra razão porque Fátima Pelaes não deveria ter sido indicada para cargo público, nem por Dilma, nem por Temer. Seu nome está envolvido em um escândalo de corrupção, como tantos no governo anterior e neste. Foi denunciada por desvios de dinheiro público do Ministério do Turismo, em 2011. Em depoimento à Polícia Federal, uma sócia da Conectur (uma empresa fantasma) afirmou que Fátima, na época deputada, embolsou recursos de emendas. O objetivo seria financiar sua campanha à reeleição.
Fátima nega ter passado a mão na nossa grana. Quem sabe é inocente. Mas deveria ser requisito básico para ocupar cargo público nenhuma suspeição de crime. No Brasil temos a regra contrária: todo político é inocente até que seja julgado culpado pelo Supremo Tribunal Federal e não haja possibilidade de recurso...
Quanto a Michel Temer, bem, o que dizer? Os fatos estão aí escancarados. Mas no Brasil de 2016 - em que só 35% dos estupros são notificados; no Rio de Janeiro, em que só 6% dos acusados por estupro vão a julgamento; na semana em que uma garota é estuprada por 33 bandidos - Temer indicar para Secretária das Mulheres alguém que é contra o aborto até em caso de estupro, é mais que um escárnio. É mais que passar recibo de machista. É uma violência contra as mulheres.
A esperança é que nesse governo cai um ministro por semana. Quem sabe essa aí também cai já? Depende, como sempre, e exclusivamente, de nós.
(P.S.: algumas horas depois de sua escolha para a Secretaria repercutir pessimamente, Fátima recuou e publicou a seguinte nota oficial: "Sempre trabalhei de forma democrática para defender a ampliação dos direitos das mulheres. Em respeito à minha história de vida, o meu posicionamento sobre a descriminalização do aborto não vai afetar o debate de qualquer questão a frente da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres. A mulher vítima de estupro, que optar pela interrupção da gravidez, deve ter total apoio do Estado, direito hoje já garantido por lei. Trabalharei, incansavelmente, para combater qualquer tipo de violência contra a mulher.")

Publicado em 24/05/2016 às 19:06

A Lei Rouanet tem que acabar. Mas não à bala

bolsonaro alberto fraga A Lei Rouanet tem que acabar. Mas não à bala
É repulsiva a iniciativa do deputado do DEM, Alberto Fraga, de pedir uma CPI da Lei Rouanet. O deputado da bancada da bala, chapinha de Bolsonaro, diz que já tem 202 assinaturas de deputados, mais que o suficiente para protocolar o pedido. Deve ter sujeira a ser descoberta, nesses anos todos de leis de incentivo? Claro. Mas não é nada perto da sujeira que está à vista de todos.
Quem é Fraga? É ex-tenente da PM. Nas eleições de 2014 arrecadou 1,5 milhão de reais para sua campanha, sendo um milhão de reais da UTC Engenharia, que está no centro da Operação Lava Jato. Sua principal bandeira é a redução da maioridade penal. É réu no STF por corrupção, acusado de exigir propina para assinar contrato, quando era secretário de Transportes do Distrito Federal. O nome de Fraga está em outros inquéritos no STF, envolvendo peculato, falsidade ideológica e crimes contra o sistema nacional de armas. Neste último, ele foi condenado pelo Tribunal de Justiça do DF a quatro anos de prisão em regime aberto, pelo crime de porte ilegal de arma de fogo e de munições de uso restrito. Este é o paladino da moralidade que pretende enfrentar a corrupção na cultura brasileira.
Claro que a Rouanet tem que acabar. Mas não à bala. Fraga não entende outro método que não a violência. É muito representativo do momento autoritário que o Brasil atravessa. Momento que, pelo andar da carruagem, não vai muito longe.
Existem duas maneiras úteis de o dinheiro público financiar a cultura. É sustentando o supernovo, ou levando o superpopular à população. O investimento dos governos deve ir diretamente para sustentar a produção de arte mais impopular, herética, experimental e estapafúrdia. A que não tem nenhuma viabilidade comercial. Ou, alternativamente, pra pagar show grátis de artista famosão na praça/praia, pro povo se divertir. A função do produto cultural é entreter e já não é pouca coisa. A função da arte é totalmente outra. É ser indomável, iluminadora, transformadora.
Tudo o que está entre o supernovo e o superpopular deveria ser julgado caso a caso. Portanto, não pode ser transformado em política pública. Não em um país tão permeável às ações entre amigos. Mudanças nas leis de incentivo ou na política de patrocínios da Petrobras e toda a cultura do país capotam. A maioria dos brasileiros não pode pagar R$ 200 por um show ou R$ 50 por um livro. Deveríamos todos poder votar com o bolso. O projeto do vale-cultura era bom. Não deu em muita coisa. Cinema: a regra da "retomada" são produções de R$ 5 milhões que não recuperam um décimo dos recursos captados via leis de incentivo.
Teatro: a maior parte dos patrocínios vai para montagens de terceira com atores de novela -hits da Broadway etc. Música: idem, com requintes como o ministro da Cultura se beneficiar de renúncia fiscal - o próprio Gilberto Gil levou em 2009 R$ 445 mil do nosso dinheiro.
É excesso de zelo eleger astros sertanejos ou festivais de rock goianos exemplo de lambança. Qual o problema de cada um correr atrás do seu? Não é a história deste país, todos se achegando para perto do cofre? "Se Gil pode, por que não eu?", se pergunta a nova cena artística brasileira, o que prova que ela só é nova na idade de seus participantes. O que interessa é grana grossa, governo, empresa grande. Da tropicália ao mangue beat a hoje, todo mundo adere tão rápido quanto possível. Vale pra cinema, literatura, o que você quiser. É essa a razão da grita dos artistas contra o final do Ministério da Cultura. E nenhuma outra.
A Lei Rouanet deveria sim ser jogada na lata de lixo da história. Não porque financia turnês da Claudia Leitte, Roberto Carlos ou outros que não precisam de dinheiro público. Alguém prova que o novo disco do Caetano Veloso é culturalmente mais importante do que o do MC Bin Laden? A Rouanet deve ir pro vinagre porque transfere ao governo federal e a diretores de marketing de grandes empresas todo o poder sobre o que será financiado na cultura brasileira, o que é a principal razão porque nossa cultura é hoje esse deserto de idéias, essa coisa invertebrada e bundona.
Agora: fazer CPI disso, nesse momento, é tentar dar troco truculento ao setor da cultura, que se opõe em massa a Temer, e faz bastante barulho. O interino precisa se acostumar a levar bordoada e parar com choradeira de "pressão psicológica". As pesquisas antes de assumir eram claríssimas sobre sua impopularidade, comparável à de Dilma. Imagine agora, quando tenta aprovar um pacote de medidas contra direitos dos mais pobres, sem propor nada para taxar os privilégios dos ricos. Imagine agora, que o interino povoou seu governo com corruptos aos montes. Imagine agora, após o episódio Jucá, quando toda a imprensa internacional condena como "conspiração" o movimento que o levou ao poder.
Temer virou objeto de chacota. Tem passado novas vergonhas a cada novo dia de seu mandato. De produção própria, de seus auxiliares e de sua base, como este Fraga. Fechou e reabriu o Ministério da Cultura. Agora adiciona essa coleção de constrangimentos a pecha de perseguidor de artistas (Temer, que tem pretensões de poeta!).
A Lei Rouanet precisa acabar. Mas o governo Temer já está acabando - a cada dia que passa.

Publicado em 16/05/2016 às 17:54

Não chore por Darwyn Cooke

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Um câncer agressivo levou Darwyn Cooke aos 53 anos. Soubemos de sua doença na sexta, morreu no sábado. Perda dolorida. Cooke estava deixando para trás suas obsessões, que homenageou magnificamente. Desbravava novas fronteiras. Não veremos o seu melhor.
O legado que deixa é um monumento a décadas que não viveu: o pós-Guerra, de 45 a 62, "os últimos anos cool". Se passa nesta época a mais bonita carta de amor que alguém já endereçou à DC Comics e ao programa espacial americano, "The New Frontier" (e compre a edição Absolute, de luxo; vale cada cent). Seus outros trabalhos famosos na DC passeavam pela mesma estética. Histórias de Batman; "Antes de Watchmen"; sua reinvenção (e a definitiva) da Mulher-Gato ao lado de Ed Brubaker. Seu nome está nos créditos do desenho que apresentou Batman à geração 90, e determina a estética televisiva "dark deco" do herói até hoje: "Batman, A Série Animada".
Também é este o mundo estiloso e perigoso de The Spirit. Cooke assinou a melhor versão do personagem clássico desde a original de Will Eisner, terna e tensa; e promoveu seu primeiro encontro com Batman. Virou o cara que era sempre lembrado para trabalhos que exigiam ternura pelo passado, o mestre da Era de Prata.

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Em entrevistas, revelou o tratamento que recebeu das duas grandes editoras. A Marvel encomendou a ele um projeto grande, para fazer versões de seus heróis para leitores de todas as idades. Cooke entregou um plano ambicioso e detalhado. A Marvel passou suas anotações para outros criadores e nunca lhe deu satisfação. Prometeu jamais trabalhar para a Marvel de novo. A DC jamais o chamou para assumir um personagem da editora; pelo menos lá teve chance de mostrar outras facetas, e trabalhar com parceiros à sua altura.
Seu talento fazia essas limitações editoriais invisíveis para o leitor. Mas a maestria no estilo retrô tornou-se uma prisão. A ruptura com as travas corporativas ainda foi de época. Os anos 60 são o ambiente de suas adaptações nervosas, noir-sépia, dos livros de Donald Westlake estrelados pelo ladrão profissional Parker. Adaptações, mas autorais, porque literatura policial era a grande paixão de Cooke. Já prefiguravam uma nova fase na sua arte. Numa pausa para respiro no projeto Parker, após quatro livros, lançou uma série original, que desenhava sobre roteiro de Gilbert Hernandez. The Twilight Children é diferente de tudo que fez antes: realismo mágico. Preparava para logo o lançamento de uma criação pessoal, Revengeance, comédia negra passada em 1986, baseada nas suas estrepolias em Toronto aos vinte e poucos anos.
A mais impressionante evidência de sua versatilidade é o livro Graphic Ink: The DC Comics Art of Darwyn Cooke. Traz histórias curtas, capas e ilustrações realizadas por ele para a DC. A diversidade dá vertigem. Cooke faz cartum e cinema, comédia e drama; terror, ficção científica e romance; art deco, grafismo e midcentury modern; Neal Adams, linha clara, Hanna-Barbera, Eisner, Moebius, Toth e muito mais; sempre sendo Darwyn Cooke. É escritor, cartunista, ilustrador, diretor de arte. Faz do velho, novo; encanta e entristece; dá terror e tesão.
Sua morte me chateou muito mais que a de David Bowie. Levei dois dias para perceber a razão. O obra de Bowie que importa está lá atrás, nos nove álbuns primorosos que lançou nos anos 70. Cooke deixa um legado precioso, mas o melhor de seu trabalho, maduro e livre de amarras, estava por vir. Celebremos o muito que fez em sua curta vida; não choremos por Darwyn, que viverá enquanto viverem os quadrinhos, mas pelo que perdemos.

jonah 775x1024 Não chore por Darwyn Cooke

Publicado em 13/05/2016 às 08:35

Os encontros secretos de Michel Temer com o governo dos EUA

de vice a presidente temer assume por ate 180 dias ARh4P0 1024x639 Os encontros secretos de Michel Temer com o governo dos EUA
Vieram à tona hoje dois documentos que precisam ser lidos. Estão em inglês. Porque são relatórios elaborados em inglês. Seus autores são funcionários do governo americano. Relatam conversas reservadas entre Michel Temer e o governo dos EUA. Foram divulgados hoje pela organização Wikileaks. Pela sua importância, em breve deve haver uma tradução confiável. Pela sua importância, segue abaixo a íntegra dos dois, no original.
Os documentos são de 2006. Temer teve outros encontros secretos com o governo americano depois disso? Não sabemos. Ainda. O que há de ilegal no líder do PMDB, futuro vice-presidente, hoje presidente interino, ter conversas secretas com o governo americano sobre os bastidores da política brasileira? Nada.
Mas vale ler mesmo assim.

RELATÓRIO 1

PMDB LEADER PONDERS PARTY'S ELECTORAL OPTIONS
Date:2006 January 11

1. (U) Sensitive but Unclassified - protect accordingly.

2. (SBU) Summary: Federal Deputy Michel Temer, national
president of the Brazilian Democratic Movement Party (PMDB),
believes that public disillusion with President Lula and the
Workers' Party (PT) provides an opportunity for the PMDB to
field its own candidate in the 2006 presidential election.
However, party divisions and the lack of a compelling choice
as a candidate could force the PMDB into an alliance with
Lula's PT or the opposition PSDB. If Lula's polling numbers
do not improve before the PMDB primaries in March, Temer
said his party might nominate its own candidate. This would
still allow the party to forge an alliance with the PT or
PSDB in a runoff, assuming that the PMDB candidate fails to
make the second round. Given its centrist orientation, the
PMDB may hold the balance of votes between the two opposing
forces. It is also likely to remain a force at the local
and state level. Temer believes it has a chance to win as
many as 14 gubernatorial races. End Summary.

3. (SBU) Michel Temer, a Federal deputy from Sao Paulo who
served as president of the Chamber of Deputies from 1997
through 2000, met January 9 with CG and poloffs to discuss
the current political situation. Lula's election, he said,
had raised great hope among the Brazilian people, but his
performance in office has been disappointing. Temer
criticized Lula's narrow vision and his excessive focus on
social safety net programs that don't promote growth or
economic development. The PT had campaigned on one program
and, once in office, had done the opposite of what it
promised, which Temer characterized as electoral fraud.
Worse, some PT leaders had stolen state money, not for
personal gain, but to expand the party's power, and had thus
fomented a great deal of popular disillusion.

4. (SBU) This reality, Temer continued, opens an
opportunity for the PMDB. The party currently holds nine
statehouses and has the second-highest number of federal
deputies (after the PT), along with a great many mayoralties
and city council and state legislative seats. Polls show
that voters are tired of both the PT and the main opposition
party, the Brazilian Social Democratic Party (PSDB). For
example, a recent poll showed former governor (and PMDB
state chairman) Orestes Quercia leading in the race for Sao
Paulo state governor.

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Divisions Dog the Party
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5. (SBU) Asked why the PMDB remains so divided, Temer said
the reasons were both historical and related to the nature
of Brazilian political parties. The PMDB grew out of the
Brazilian Democratic Movement (MDB) under the military
dictatorship, which operated as an umbrella group for
legitimate opposition to the military dictatorship. After
the restoration of democracy, some members left the PMDB to
form new parties (such as the PT and PSDB), but many of
those who remained now act as power brokers at the local and
regional level. Thus the PMDB has no real unifying national
identity but rather an umbrella organization for regional
"caciques" or bosses. Temer noted that the PMDB is not the
only divided party. Although there are 28 political parties
in Brazil, most of them do not represent an ideology or a
particular line of political thinking that would support a
national vision.

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SAO PAULO 00000030 002 OF 003

PMDB Primaries Set for March
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6. (SBU) Temer confirmed press reports that he is seeking
to move the March 5 primary date to a date later in the
month. (Note: March 31 is the deadline for executives and
Ministers to resign their offices if they plan to run for
public office. End Note.) There will be some 20,000
electors, he said, including all PMDB members who hold
electoral office (federal and state deputies, governors,
mayors, vice-governors and -mayors, and other elected
municipal officials) as well as delegates chosen at state
conventions.

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Lula's Numbers Will Drive PMDB Strategy
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7. (SBU) If, between now and the primary, the Lula
government's standing in the polls improves, it is still
possible the PMDB will seek an electoral alliance with Lula
and the PT, Temer said. If not, the PMDB will run its own
candidate. So far, Rio de Janeiro ex-governor Anthony
Garotinho has been working the hardest, reaching out to the
whole country in search of support. But there is resistance
to him from within the PMDB, in part due to his populist
image, in part because there appears to be a ceiling to his
support. Germano Rigotto, governor of Rio Grande do Sul
(reftels) is a possible candidate, though he is still not
well known outside the south. Nelson Jobim, a judge on the
Supreme Federal Tribunal (STF) who has announced his
intention to step down, is another possibility; however, he
can't campaign until he leaves the Tribunal, and he may not
have time to attract the support necessary to win the
primary.

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PMDB's Fallback - PT or PSDB in Second Round
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8. (SBU) Temer was confident that despite its current
division, the PMDB will unite for the election, whether in
support of its own candidate or in alliance with another
party. If it runs a candidate who fails to make it to the
second round, the party will seek to negotiate an alliance
with one of the two finalists. He noted that the PMDB had
supported the government of PSDB former president Fernando
Henrique Cardoso, and said there should be a "re-fusion" of
the two parties into a permanent grand alliance. The PMDB
would have no problem with either Sao Paulo Mayor Jose Serra
or Sao Paulo state governor Geraldo Alckmin, who are
competing for the PSDB nomination. In 2002, the PMDB
supported Serra against Lula.

9. (SBU) Asked about the party's program, Temer indicated
that the PMDB favors policies to support economic growth.
It has no objection to the Free Trade Area of the Americas
(FTAA). It would prefer to see Mercosul strengthened so as
to negotiate FTAA as a bloc, but the trend appears to be
moving the other way.

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Comment: PMDB As Power Broker?
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10. (SBU) For now, the PMDB is keeping its options open.
Though Temer didn't mention it, the party's leadership is
waiting to see whether the "verticalizacao" rule will remain
in force for the 2006 elections. This rule, decreed by a
2002 decision of the Supreme Electoral Tribunal (TSE),
dictates that electoral alliances at the national level must
be replicated in races for governors and federal deputies.
The Senate passed a measure repealing the rule, and the
lower chamber is expected to vote on it shortly, with
prospects uncertain. There is also a legal challenge to the
rule pending which the TSE will likely take up in February.
The PMDB wants to know the rules of the game before deciding
on possible alliances, since most observers believe that a

SAO PAULO 00000030 003 OF 003

PMDB presidential candidate would not fare well under the
current system of "verticalizacao." Temer appeared open to
the possibility of an alliance with either the PT or the
PSDB, or to a stand-alone PMDB candidate. Given its
centrist orientation, the PMDB may hold the balance of votes
between Lula's PT and the opposition PSDB, and thus bears
watching closely in the months ahead. End Comment.

11. (U) Biographic Note: Michel Miguel Elias Temer Lulia
has served as federal deputy from Sao Paulo since 1987,
except for a two-year period (1993-94) when he was Secretary
for Public Security in the Sao Paulo state government. He
studied at the University of Sao Paulo and earned a
Doctorate in Law from the Catholic University of Sao Paulo.
From 1984 through 1986 he was the state's Prosecutor
General. He served as the PMDB's leader in the Camara de
Deputados 1995-97 and as President of the Camara 1997-2000.
He was national president of the PMDB 2001-03 and 2004-
present.

12. (U) This cable was cleared/coordinated with Embassy
Brasilia.

McMullen

RELATÓRIO 2

PMDB CHIEF AFFIRMS PARTY'S POSITION AS POWER BROKER BUT BALKS AT PREDICTING PRESIDENTIAL RACE
Date:2006 June 21

C) SAO PAULO 623; (D) BRASILIA 1136;
(E) SAO PAULO 573 AND PREVIOUS; (F) SAO PAULO 30

SENSITIVE BUT UNCLASSIFIED - PLEASE PROTECT ACCORDINGLY

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SUMMARY
-------

1. (SBU) Michel Temer, President of the Brazilian Democratic
Movement Party (PMDB), believes President Lula has done a masterful
job of disassociating himself from the political corruption scandals
that have crushed some of his closest advisers. He also has
effectively expanded social programs to earn the loyalty and support
of Brazil's lower-middle and lower classes. At the same time,
Lula's opponent, Sao Paulo ex-Governor Geraldo Alckmin, suffers from
a lack of charisma and a failure to have left a visible mark in five
years at the helm of Brazil's largest state. Nevertheless, Temer
declines to predict what will happen in this race, except to say it
will go to a second round, in which "anything can happen." He
confirmed that his own party will not run a candidate for president
and will not ally with either Lula's Workers Party (PT) or the
opposition Brazilian Social Democracy Party (PSDB), at least not
before the second round. However, the PMDB will win the governors'
races in at least ten and possibly as many as fifteen states, and
will again have the largest bloc in both the Senate and the Chamber
of Deputies, so that "whoever wins the presidential election will
have to come to us to get anything done." END SUMMARY.

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LULA'S SLEIGHT OF HAND
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2. (SBU) In a June 19 meeting with Consul General (CG) and Poloff,
Michel Temer, Federal Deputy from Sao Paulo, offered his assessment
of the balance of forces for the presidential election. Though
anything can still happen -- he has seen candidates overcome much
greater disadvantages than Alckmin currently faces, and win -- it is
clear that President Lula is in a strong position. Temer
dispassionately analyzed how Lula had seen his Chief of Staff and
the entire leadership of his party disgraced, and prominent
Congressional members of his party dragged through scandal, and had
emerged personally more or less untouched. This was partly because
other political parties -- Temer mentioned the PSDB and the Liberal
Front Party (PFL) but not his own PMDB, though his comment could
just as easily apply to them -- had, at different times, been
involved in affairs akin to the PT's infamous "mensalao" bribery
scheme, and were thus not eager to expose the PT's misdeeds to the
fullest.

3. (U) It was also because Lula had such a strong bond with the
people, the so-called C, D, and E classes - i.e., the lower-middle
and lower classes. Many in these strata, in Temer's view, believe
that Fernando Henrique Cardoso (FHC) had robbed the poor and given
to the rich, while Lula robs the rich and gives to the poor. Lula
has expanded the "Bolsa Familia" program from 6.5 million families
in 2004 to 8.7 million in 2005 to 11 million families this year, or
(assuming two children per family) roughly 44 million Brazilians.
This, combined with the increase in the minimum wage, the rise of
the Real against the US dollar, and the fall in the price of certain
basic food staples, make the poor much better off. Paradoxically,
many of the rich, especially bankers and other major financial
players, have also benefited from Lula's policies.

4. (SBU) It is the middle class that has suffered from both an
increasing tax burden and the loss of professional-level jobs. In
truth, Temer continued, it is difficult to be optimistic about
Brazil's economic future. The fact of 11 million families eligible
for Bolsa Familia handouts implies a minimum of 44 million people in
abject misery in Brazil. He described a recent event he had
attended sponsored by the Institute for Industrial Development
Studies (IEDI), where Minister of Development, Commerce, and
Industry Luiz Fernando Furlan delivered an upbeat speech. When
challenged by a member of the audience with a few hard questions and
statistics, Furlan, who has himself been at times a tough critic of
the GoB's economic policies, was at pains to respond. Brazil faces
serious challenges in fostering growth, stimulating productivity,
attracting investment, improving infrastructure, and reducing
inequality; however, Lula's sleight of hand has made many voters all
but unaware of these growing problems.

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ALCKMIN'S LACK OF CHARISMA
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5. (SBU) Meanwhile, Alckmin is simply stuck. Temer believes that
since inheriting the governorship from Mario Covas in 2001, Alckmin
has provided honest, decent, competent government to Sao Paulo.
However, in a country that relishes superlatives, he did not
champion any great works, and his accomplishments are not visible.
Alckmin is not personally aggressive or charismatic and is not given
to showmanship, so he didn't leave a distinctive mark on the state.
By way of comparison, Orestes Quercia (ref C), Governor of Sao Paulo
from 1987 to 1990, was a controversial (many say corrupt) figure,
but he definitely left his mark on the state in the many streets and
highways and prisons and hospitals he built. (COMMENT: The same
might be said of colorful, and reportedly equally corrupt, former
Mayor and Governor Paulo Maluf. END COMMENT.) Former President
Cardoso was another example of a politician who had charisma. But
let's wait and see what happens, Temer suggested. Wait until after
the World Cup, which could impact on the voters in a variety of
different and not easily predictable ways, depending on the result.
Wait until the government-subsidized television advertising begins.
It will be "a great war" on the airwaves, and it opens up
innumerable possibilities for the underdog.

6. (U) Temer, a former Sao Paulo state Secretary for Public
Security, was not certain whether Alckmin would suffer as a result
of the recent violence on the streets and in the prisons of Sao
Paulo (ref E) perpetrated by the criminal gang First Capital Command
(PCC). Some of his public criticism of his successor, Governor
Claudio Lembo, had been unfortunate and not good for his image. But
only time will tell how this situation plays out.

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LULA'S TURN TO THE LEFT?
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7. (SBU) CG asked what a second Lula term would look like, assuming
he is re-elected. Unlike some of our interlocutors, Temer believes
Lula may take a more radical (i.e., populist) approach during a
second term. The recent incident in which radicals from the
Movement for the Liberation of the Landless (MLST) stormed the
Chamber of Deputies (ref D) and committed acts of vandalism was a
harbinger of things to come. The group's leader, a member of the
PT's Executive Committee, had on many occasions over the years been
seen at Lula's side. The PT had suspended him, but had taken no
further action and did not appear particularly upset over the
episode, Temer noted.

8. (SBU) Lula, in Temer's view, was a trade unionist who had done
well for himself, who, once re-elected, might finally begin to heed
his friends on the left. Very possibly he would let himself be led
away from the orthodox macro-economic policies that have dominated
his first term. (COMMENT: Some other observers have also pointed to
the GOB's expansion of social spending in recent months as an
indication that Lula is drifting left. Thus far, however, this
spending seems in line with the pump-priming measures of most
incumbents seeking re-election. While Temer sees Lula's campaign
pitting "rich versus poor" as a sign of things to come in a second
term, many analysts who have followed Lula's career characterize him
as a "cultural conservative" who is unlikely to succumb to the
radical leftist/populist temptation. A more worrisome, and more
likely, scenario is a second-term Lula government that lacks the
policy direction, political will, and working majority in Congress
required to push through essential economic and political reforms.
END COMMENT.)

9. (SBU) Turning to his own party's fortunes, Temer confirmed
reports that the PMDB will not run its own candidate for President,
and will not enter into a formal alliance with either the PSDB or
the PT. Any of these options at the national level, he explained,
would damage the party's chances in some of the states because the
"verticalization" rule remains in effect during the 2006 elections.
The recent ruling by the Superior Electoral Tribunal (TSE), which
would have tightened even further the rules governing party
alliances (ref B), was probably correct, Temer averred, even though
it would have been disastrous for the PMDB. If you're going to
require parties to replicate their national alliances at the state
level, it makes perfect sense to go a step further and say that
parties that don't run or formally support presidential candidates
may not ally at the state level with parties that do. Nevertheless,
as the head of a party whose lifeblood is coalition-building at the
state level, Temer was relieved when the TSE reversed itself within
48 hours, and he looked forward to the 2010 elections when the
Constitutional amendment abolishing the "verticalization" rule
altogether would enter into force.

10. (SBU) If the presidential election goes into a second round, as
Temer is sure it will, the PMDB may at that point throw its support
to one side or the other. The PMDB remains split almost evenly
between the pro- and anti-Lula groups. The former seeks alliances
with the PT and hopes for several Ministries in Lula's second
administration. Temer, who is anti-Lula, was highly critical of the
pro-Lula faction and commented wryly over some of the party's
internal contradictions and divisions. Renan Calheiros, President
of the Senate, is the leader of the PMDB's pro-Lula faction; yet, in
his home state of Alagoas (northeast), the PMDB will support the
PSDB's gubernatorial candidate, Senator Teotonio Vilela. Another
pro-Lula leader is Senator (and former President) Jose Sarney, but
his daughter, PFL Senator Roseana Sarney, will be running for
Governor of Maranhao (also in the northeast) with PMDB support
against a PT candidate. Temer outlined the situation state by
state, ending with Sao Paulo. The PSDB, he noted, badly wants an
alliance with the PMDB, but they want to choose the PMDB candidate
to be Jose Serra's running mate. This issue will be resolved within
the week, since the PMDB holds its state convention on June 24. The
party will not hold a national convention June 29 as originally
planned, since all its issues at the national level were resolved at
a preliminary June 11 caucus.

11. (SBU) Temer, who himself had strongly favored fielding a PMDB
presidential candidate (ref F), noted that by relinquishing this
ambition, the PMDB stands to win the governors' races in ten or
perhaps even fifteen states, and will again have the largest blocs
in both the Senate and the Chamber of Deputies. Thus, whichever
party wins the Presidency will inevitably have to seek an alliance
with the PMDB in order to govern. Temer spoke caustically of the
Lula administration's miserly rewards for its allies in the PMDB.
They give the job of Minister to a PMDB loyalist, but no real
control over the Ministry; thus, he can't accomplish anything. In
contrast, Temer believes that in return for joining a governing
alliance, the party should be given control over a sector of the
economy, agriculture, say, or health, and full responsibility for
operating that sector, and should receive full credit or blame for
the successes and failures in that sector. (COMMENT: Left unsaid,
of course, is that the sort of control Temer envisions would also
give the PMDB, and other allied parties, the opportunity to advance
their political patronage goals at the taxpayers' expense. The
PMDB, which is Brazil's largest political party, is already
well-known as a vehicle for patronage. END COMMENT.)

12. (SBU) Temer was more charitable in his assessment of Alckmin's
campaign and his performance as Governor than Alckmin's own PSDB
colleague, Andrea Matarazzo (ref A). Nevertheless, Temer's critique
hits home: Alckmin may perform in the coming months, but so far he
simply has not connected at any level with the electorate. Lula's
job performance, on the other hand, may be open to question, but his
ability to communicate with and relate to the average Brazilian is
unsurpassed. Temer is correct that whichever candidate wins will
need to turn to the PMDB for support in governing. The real problem
is that the PMDB has no ideology or policy framework that it could
bring to the task of formulating and implementing a coherent
national political agenda. Despite the party's illustrious history
as the guiding force that led Brazil from military dictatorship to
democracy, the PMDB, which now holds the balance of political power,
has devolved into a loose coalition of opportunistic regional
"caciques" who for the most part - and there are exceptions - seek
political power for its own sake. Such a party is hardly suited to
the task of providing political direction, which would be
particularly important in a post-election alliance with Lula's
rudderless PT. END COMMENT.

13. (U) This cable was coordinated/cleared with Embassy Brasilia.

MCMULLEN

Links para a publicação original no Wikileaks:

https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO30_a.html

https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO689_a.html

Publicado em 05/05/2016 às 18:49

Cunha cassado: tudo deve mudar para que tudo fique como está

20160420075507318561a Cunha cassado: tudo deve mudar para que tudo fique como está
Foi muito importante afastar Cunha. Por quê? Porque era um símbolo. E para evitar qualquer chance dele se tornar presidente da república, o que aconteceria em caso de impedimento de Dilma e Temer. A hipótese não era absurda não. E aliás ficou muito mais provável hoje. A posição de Temer é mais frágil a cada dia que passa.
Hoje foram muitas notícias negativas para o vice que quer ser presidente. Temer foi condenado pelo TRE de São Paulo e virou ficha-suja, inelegível por oito anos. O ministro Teori Zavascki citou um pagamento de R$ 5 milhões a "Michel" na liminar que determinou o afastamento de Cunha, uma transcrição de conversa entre Cunha e o executivo Léo Pinheiro, da construtora OAS. O substituto de Cunha na presidência da Câmara, e seu aliado fiel, Waldir Maranhão, tem nas mãos botar para votar (ou não) o processo de impeachment de Temer. Maranhão tem problemas bem sérios com a justiça, e parece bem permeável a pressões. O TSE decidiu incluir informações da Operação Lava-Jato nas ações que pedem a cassação da chapa que elegeu Dilma e Temer.
E para completar, Temer perdeu seu grande aliado no esforço para impedir Dilma. E pode até ver ele transformado em um inimigo, nos próximos dias. Mesmo afastado, Cunha continua poderoso, influente, rico e, claro, sabe de muita coisa.
Dilma não tem condições de terminar o seu mandato? Temer vai pelo mesmo caminho, tão impopular quanto ela e sob suspeição da imprensa internacional. É boa notícia que Cunha saia da linha sucessória. Infelizmente Renan Calheiros o substitui. Tem tanto estofo para a presidência quanto Cunha.
É mais uma evidência que o Brasil não precisa trocar as pessoas, mas o próprio sistema como elas chegam lá.
Não adianta a gente se livrar de um bandido e deixar a porta aberta para outro tomar seu lugar. Não haverá política com P maiúsculo sem reforma política; não haverá reforma política sem uma Constituinte Exclusiva para modernizar nossas leis; não haverá Constituinte sem eleições gerais e limpas.
Enfrentar essa tarefa é difícil e necessário. Caso contrário o Brasil continuará refém da máxima do príncipe de Falconeri, nobre italiano decadente que protagoniza O Leopardo, de Lampedusa: "Tudo deve mudar para que tudo fique como está."

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