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Publicado em 17/04/2014 às 17:15

Bangladesh é aqui, parte 3: um ano depois, um chamado à ação

screen shot 20140416 at 15.42.56 0 Bangladesh é aqui, parte 3: um ano depois, um chamado à ação

1129 mortos. 2515 feridos. Acidente? Não. O que aconteceu em Bangladesh no dia 24 de abril de 2013 foi premeditado. Estava previsto. E acontecerá novamente.

Esta é a conclusão inevitável de quem assiste The Shirt On Your Back, a reportagem interativa desenvolvida pelo jornal britânico Guardian, às vésperas do aniversário de um ano do colapso do edifício-fábrica em Dhaka. Mas quem assistir não chega a uma conclusão fria, e sim a uma certeza dolorida. É sobre economia – com lágrimas e sangue de verdade. Um final que gela a espinha . E nos leva transporta às últimas páginas do Germinal, o romance-denúncia que inspirou tanta gente, lá atrás. Mudamos tanto, mudamos tão pouco.

Um ano atrás, o desastre em Dhaka me levou a escrever dois textos para este blog. Este trecho do primeiro resume a questão:

“Muito do que é produzido no Brasil, é produzido em troca de salários infames, em condições infames. Do Oiapoque ao Chuí, na roça, e na cidade, inclusive na sua. Nós todos bancamos esse estado de coisas. No Brasil, em Bangladesh e em todo lugar. Porque queremos produtos baratos. As empresas, que têm concorrentes, acionistas e obrigação de dar o maior lucro possível, procuram os custos mais baratos possíveis. Não é roupa, é tudo.

A gente vive comprando produtos que contêm um custo social doloroso. Nem ficamos sabendo. É embutido secretamente. As empresas não vão sair por aí fazendo propaganda na televisão. Imagine o comercial: esta blusinha fashion foi feita por uma adolescente que trabalha 14 horas por dia sem direitos nem segurança na Indonésia! Ou: esse café delicioso foi colhido por velhinhos famélicos na Etiópia! Ou: prepare-se para o futuro na universidade que paga uma porcaria a seus professores!

É injusto. É infame. É inaceitável que você e eu tenhamos a mínima responsabilidade que seja por gente estar sendo explorada em outro canto do mundo, ou aqui mesmo no Brasil.”

Para deixar bem claro o que significa “explorado”: os operários que fabricam roupas em Bangladesh ganham pouco mais de cem reais por mês. Não têm direito a nada. E trabalham em lugares extremamente insalubres e perigosos.

O segundo texto tenta responder: o que podemos, o que devemos fazer? Só encontra mais perguntas, muitas, difíceis, e necessárias.

Recoloco ambos em circulação agora, um ano depois, movido pela reportagem do Guardian. Ela conta nossa época, contando a história de uma pessoa. Humaniza a desumanidade. É para isso que existe jornalismo, e jornalismo interativo. Para informar, mas também emocionar, questionar, e chamar à ação. Leia. Assista. E aja.

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Publicado em 15/04/2014 às 15:55

Manifesto a favor da publicidade para crianças (e contra a publicidade para bancos)

Entrando031 Manifesto a favor da publicidade para crianças (e contra a publicidade para bancos)

Tem gente querendo proibir a publicidade para a molecada. Tem gente aplaudindo. É o Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente). Sua resolução número 163 proíbe a propaganda e a publicidade direcionadas a crianças e adolescentes.

O órgão é composto por entidades da sociedade civil e ministérios do governo federal. A resolução diz que “a prática do direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica à criança com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço” é abusiva e, portanto, ilegal.

Para o Conanda, a medida tem força de lei. A partir de sua vigência, fica proibida o direcionamento ao público infantil e adolescente de anúncios impressos, na TV e rádio, embalagens, promoções, merchandisings, ações em shows e apresentações e nos pontos de venda. Entra nos mínimos detalhes do que considera abusivo:

-       linguagem infantil, efeitos especiais e excessos de cores;

-       trilhas sonoras de músicas infantis ou cantadas por vozes de criança;

-       representação de criança;

-       pessoas ou celebridades com apelo ao público infantil;

-       personagens ou apresentadores infantis;

-       desenho animado ou de animação;

-       bonecos ou similares;

-       promoção com distribuição de prêmios ou de brindes colecionáveis ou com apelos ao público infantil;

-       promoção com competições ou jogos com apelo ao público infantil.

O Conanda decreta assim que a publicidade infantil fere o que está previsto na Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código de Defesa do Consumidor. As organizações que reúnem órgãos de imprensa e agências de publicidade, naturalmente, são contra. Defendem que a resolução não tem força de lei coisíssima nenhuma. Que só o Congresso pode legislar sobre o assunto. Imbróglio armado.

Aconteça o que acontecer, já é uma grande vitória do Instituto Alana. Essa organização faz pressão para proibir a publicidade infantil há anos. Até financiou documentários sobre o tema, como “Criança, a Alma do Negócio”, visto por mais de um milhão de pessoas na internet; e “Muito Além do Peso”, sobre obesidade. Voltamos ao Alana daqui a pouco. Muita gente boa aplaude a resolução 163. Vários cretinos a criticam. Vou meter a colher – você lê, e decide se sou cretino ou gente boa.

É perfeitamente razoável que as sociedades regulamentem a comunicação, como regulamentam outras coisas. Mas cresci, e todas as gerações após a minha, assistindo desenhos animados, lendo gibi, e portanto expostos a anúncios em conteúdo para crianças. Não viramos uma horda de zumbis. A molecada de hoje é bem mais esperta que eu fui e sabe muito melhor separar o joio do trigo. Joio e trigo que, aliás, cada vez mais estão na internet, no YouTube, que já substitui a TV para boa parte da garotada.

Segundo: decretar o fim da publicidade infantil significa decretar o fim da programação infantil, do conteúdo para crianças. Eu adoraria fazer um site para crianças, e comecei a pensar nisso quando meu filho ainda estava na barriga da mãe. Nunca consegui. Por quê? Porque tem pouca publicidade. De onde vem a grana para pagar os custos?

Abrir mão da receita de publicidade e patrocínio é abrir mão de veicular conteúdo infantil. E até de produzi-lo. Se decretamos a proibição, damos adeus aos poucos sites infantis que existem, às revistas pra criança, ao Cartoon Network - e à Galinha Pintadinha, Patati Patatá e companhia. São marcas que sobrevivem de seus muitos produtos licenciados, que vendem porque anunciam.

O maior produtor de conteúdo infantil do país, Maurício de Souza, entrou no debate. Foi muito criticado por ter postado uma foto de uma menina, defendendo o direito de ver televisão. Maurício defende seus interesses comerciais? Sem produtos licenciados da Turma da Mônica, e anúncios destes produtos, a  Maurício de Souza Produções se torna inviável. Qual a vantagem para a criança brasileira?

Sim, sou parte interessada. Já lancei pilhas de revistas para criança e adolescente, Herói, Super Menina, Smack!, mangás, Pokémon. Ainda hoje supervisiono, à distância, o conteúdo de games da Tambor. A maior parte dos grandes games hoje são dedicados ao público jovem adulto. Mas, muitos títulos são para todas as idades, e portanto seriam afetados por uma lei contra a publicidade infantil. É o caso da maioria dos jogos da Nintendo. O que as criancinhas brasileiras ganharão com o fechamento da revista Nintendo World, no mercado desde 1998, alguém pode me explicar?

Vamos olhar por outro ângulo. Se realmente é o caso de proibir a publicidade de alguns segmentos, vamos começar pelos que realmente causam grandes danos à população. Alguns sugeririam automóveis, traquitanas eletrônicas, ou remédios milagrosos para emagrecer.

Eu indico o setor bancário. Os bancos vendem sonhos dourados, consumo sem fim, você pode alcançar seu sonho e nós ajudamos. O anúncios sempre tem criancinhas e vovós felizes, gramadão, carro novo, casa nova, vida nova. Na prática, escravizam seus clientes, cobrando juros criminosos, e mais um monte de anuidades e taxas que ninguém entende ou pode questionar. O resultado, no Brasil e em todo lugar: milhões de pessoas endividadas, mesmo já tendo pago o principal várias vezes. Vivem para trabalhar, em vez de trabalhar para viver. De vez em quando, estoura mais uma bolha, imobiliária, da bolsa, do crédito. Os bancos continuam faturando firme, com apoio governamental, e bônus gordos nos bolsos de seus executivos.

O varejo, claro, é o grande cúmplice disso. Tudo agora é em dez vezes "sem juros", né? Como se os juros não estivessem embutidos. Então ficou muito mais fácil comprar, e muito mais fácil dever. Não é à toa que muitos dos maiores fabricantes têm seus próprios bancos ou sistemas de financiamento.

Logo Manifesto a favor da publicidade para crianças (e contra a publicidade para bancos)

Uma proposta modesta, então: vamos acabar com a publicidade de serviços financeiros. Vamos substituir por informação clara e direta, que explique de maneira transparente as consequências de cada compra, de cada empréstimo. Topa entrar nessa, Instituto Alana?

Hmm, desconfio que não. Porque a fundadora do Alana é Ana Lucia de Mattos Barretto Villela, 40 anos, maior acionista individual do Banco Itaú, ao lado do irmão, Alfredo. Ana Lucia participa dos comitês da holding Itaúsa. O Instituto Alana tem 150 funcionários e um fundo patrimonial de R$ 300 milhões. É um excelente exemplar desta nova espécie, o milionário ongueiro.

São ricos “do bem”, que tocam seus negócios  “business as usual”, mas também pingam uma grana para bancar projetos sociais. Geralmente um revolucionário projeto ambiental-educacional na favelinha ali perto. Ana Lucia, discípula de Paulo Freire, ótimo, disse essa semana ao Valor que não é contra o capitalismo, “nem dá pra ser, né?”. Dá pra ser contra sim – principalmente se quem vai levar o prejuízo são os outros, e não o Itaú.

Ana Lucia,, como muitos desses benevolentes influentes, também usa sua grana para influenciar a opinião pública. Contratam boas assessorias de imprensa, asseguram boas relações com jornalistas, patrocinam eventos prestigiados, financiam estudos, pesquisas, documentários. São eles próprios mini grupos de comunicação. Dispensam receita publicitária, claro, porque já ricos.

Há muito o que criticar em nossa mídia. As concessões de TV para políticos, o poder de uns poucos grandes grupos, a bonificação de volume que concentra o investimento publicitário na mão dos mesmos, a compra de revistas e livros por governantes amigos, e por aí vai. Regulamentação de verdade seria fundamental (e é improvável). Mas essa resolução do Conanda para a publicidade infantil não conserta nada, e ainda piora. Por todas as razões acima, e mais uma. Porque trata nós, pais, adultos, como se fôssemos bebês, que precisam ser protegidos, controlados.

E você, meu amigo, minha amiga, pai ou mãe, que achou bacana a proibição da publicidade infantil: se toca. Não é seu filho que faz as compras do mês, pega o carro para ir ao shopping, ou paga a conta da lanchonete fast food. É você. Assuma sua responsabilidade. Basta usar com mais frequência e firmeza a palavrinha mágica: NÃO.

Publicado em 11/04/2014 às 17:51

O segundo Capitão América, o primeiro Império Secreto e os dois Steves

captain america the winter soldier is a disappointingly dumb movie O segundo Capitão América, o primeiro Império Secreto e os dois Steves

Vigilância global. Espionagem digital. Uso militar de drones. Assassinatos políticos em território estrangeiro. Esses são os temas da maior bilheteria do planeta esta semana. É o novo filme do Capitão América. Quarenta anos atrás, o personagem estava morto. Ressuscita em boa forma. Na hora certa.

A Marvel sempre foi sobre rejeição e rebelião. Seus primeiros personagens foram Namor e o Tocha Humana, monstros incompreendidos, perseguidos pela sociedade, como depois os X-Men. Thor se rebelava contra a  insensibilidade do pai, Odin. O Demolidor era um órfão cego. O Hulk é pura explosão do id contra qualquer princípio de civilização. E Peter Parker, é o eterno perdedor, o Charlie Brown da Marvel (e me ensinou a desconfiar da imprensa, na figura de J. Jonah Jameson).

O único que não tinha problemas era o Capitão América. Era o Super Homem da Marvel, e como esse, perfeito demais para ser interessante. A virada dos 60 para os 70, com todas as mudanças sociais nos Estados Unidos e no mundo, decretou a obsolescência do herói.

Como o gibi dele não estava vendendo nada, os editores da Marvel resolveram apelar. Botaram os roteiros na mão de um garoto, com mandato de arriscar. Receberam mais que a encomenda.

Era Steve Englehart, 25 anos. Se safou de servir no Vietnã alegando " objeção de consciência", mesmo argumento usado por religiosos. Steve era contra a guerra, o governo, a hipocrisia. Fumava maconha todo dia, tomava ácido aos fins de semana. Queria ser escritor. Escrevia gibis.

alter ego fanzine O segundo Capitão América, o primeiro Império Secreto e os dois Steves

Botou o personagem na América de 1972. Enfrentando conflitos raciais, pobreza, drogas, radicais armados, manipulação política. Em seis meses, este segundo Capitão América, um personagem totalmente renovado, estrelava a revista mais vendida da Marvel. Era tópica, jornalística - por baixo da ação hardcore e fantasias coloridas, claro. De lá para cá, o personagem variou entre esses dois polos. Na maior parte do tempo foi o bonzinho anódino. De vez em quando mostra a verdadeira face, nas mãos de gente como os escritores Mark Waid e Ed Brubaker, outras grandes inspirações de O Soldado Invernal. Que é a primeira aparição cinematográfica que faz justiça ao herói. O primeiro filme, boa matinê, foi um exercício de nostalgia; sua participação nos Vingadores foi quase de coadjuvante.

O arco de histórias de Englehart mais celebrado inspira o filme de 2014. Foi a saga do Império Secreto. Li em edição da Bloch, formatinho, uns anos depois.  Trata do plano maquiavélico de um grupo infiltrado no governo americano para tomar o poder. Steve Rogers e seu parceiro, o super-herói negro Falcão, investigam e descobrem que o grande líder da conspiração é... o próprio presidente dos Estados Unidos, que, desmascarado, se mata na frente do Capitão América.

Nixon 1 O segundo Capitão América, o primeiro Império Secreto e os dois Steves

Watergate estava nas manchetes dos jornais. O  "Império Secreto" era o establishment político-industrial-militar, e seu líder era uma evidentemente o presidente Richard Nixon. Era outra época. Mas o tema reverbera hoje, e lota salas de cinema do planeta afora.

Quatro décadas depois, os EUA são de fato um império. Com mais poder que qualquer outro na história. Sem rival, e nem terá. Porque invadiu e ocupa nossos corações, mentes e retinas.O supercapitalismo financeiro made in USA controla os mercados globais e os organismos internacionais. Nos vigiam, com a colaboração das empresas que mais amamos. E eliminam a oposição via inanição - ou à bala mesmo, na calada da noite. Lembra de Obama assistindo a morte de Osama?

O novo filme é estrelado pelo segundo Capitão América. É radical, entre os combates acrobáticos e explosões 3D. Os diretores, os irmãos Russo, assumem a influência de thrillers políticos dos anos 70. A presença de Robert Redford é um achado. Redford emprestou seu charme e boa pinta a personagens liberais, anti-establishment, em clássicos do gênero e período, como Três Dias do Condor e Todos os Homens do Presidente. Que ele interprete agora o vilão é um comentário ácido sobre 2014. Os liberais de ontem são os brucutus  de hoje.  Não é governo democrata dos EUA que nos espiona, e opera para defender os interesses americanos a qualquer custo?

captain america winter soldier robert redford samuel l jackson O segundo Capitão América, o primeiro Império Secreto e os dois Steves

Englehart  finalizou a saga do Império Secreto com um Steve Rogers enojado abandonando a identidade de Capitão América. Saiu pela América, easy rider, à procura de uma razão para viver, e não só para lutar. Com o tempo, compreendeu que não devia obediência cega ao comandante-em-chefe, ao establishment. Passou a simbolizar não a América, mas o sonho americano -  o ideal de liberdade e justiça para todos.

Quem dera a América, o país, seguisse os exemplos dos dois Steves, Rogers e Englehart. Quem dera liberdade e justiça para todos fosse para todos mesmo, dentro e fora da América.

Mas o sucesso deste filme é razão para alento. Quando as luzes se acendem, ficam duas mensagens importantes. No século 21, nem um império secreto está a salvo de indivíduos com coragem moral, empoderados pela tecnologia digital. E mais importante: saímos com a convicção que os problemas da liberdade só podem ser resolvidos com mais liberdade, nunca com menos. Ter consciência disso faz de todos nós companheiros do Capitão América, sentinelas da liberdade. É uma boa luta para lutar.

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Publicado em 08/04/2014 às 16:11

A feminista que traçou cinco caras (e ensinou o que é feminismo para as radicais de araque)

Quase nove da noite na redação do R7, começa o zumzum: viu o caso de estupro do Mackenzie? A polícia está lá na escola. Cinco alunos estupraram uma menina. Parece que jogadores de rúgbi. São uns animais! O Mackenzie sempre teve esses trogloditas. Lembra do Comando de Caça aos Comunistas? Hei, aqui estão as fotos, um grupo feminista postou a denúncia. Quer ver? Quero.

Os acusados parecem bem felizes. Fazem caretas pra câmera e sinal de positivo. A foto é em close, de peito pra cima, todos os peitos nus, quatro homens. A segunda foto é de uma mulher nua, cabelo escuro, corpo jovem e bonito. Está deitada de bruços em uma cama desarrumada. A bunda róse, em primeiro plano, exibe marcas vermelhas de mãos.

É a semana em que o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) publicou uma pesquisa afirmando que 65% do povo brasileiro acha justificável o estupro, caso a mulher esteja usando roupas provocativas. Uns dias depois, baixou de 65% para 26% - o que transforma o Brasil instaneamente da bunker machista a paraíso liberal. A barbeiragem causou da demissão de um diretor do IPEA.

Antes, deu margem a mais uma cansativa catilinária  sobre como nosso país é um lixo, como o brasileiro é um monstro etc. Foi mais um show de indignação dos guardiões da flama politicamente correta, sempre alertas para qualquer desvio da ortodoxia da autovitimização. Cartazes pipocando no Facebook, "Eu não mereço ser estuprada". Quando esse caso do "estupro do Mackenzie" apareceu, foi lenha na fogueira.

Um dia depois veio a surpresa, de calar a boca e cair o queixo. Os repórteres Kleber Tomaz e Amanda Previdelli, do G1, entrevistaram a moça. Ela tem 19 anos. Está fazendo intercâmbio fora do Brasil. Não quis se identificar, claro. Mas falou bastante. E falou bonito:

“Não aconteceu estupro. Foi consentido sim. Eu gostaria que fosse investigado quem foi que vazou a foto, porque me constrangeu."

"A minha opinião pessoal é que foi devido a essa campanha do Ipea, 'Não mereço ser estuprada’. Esta pesquisa é pura manipulação política, para desviar a atenção do foco de outras coisas que estão acontecendo no país. Acho que as pessoas estão presumindo que qualquer coisa é estupro".

Ela disse que foi procurada por um grupo feminista, que se mostrou preocupado com as fotos e levantou a possibilidade de abuso. "Descobriram meu e-mail pessoal, presumiram um monte de coisa, falaram que iam expulsar os meninos da faculdade, e eu não sabia o que estava acontecendo".

"Falei com elas que foi extremamente machista elas presumirem que aquele tipo de foto era estupro. Normalmente o feminismo consiste em que a mulher possa fazer o que ela quer".

Segundo o delegado que investiga o caso, a garota explicou que tinha um relacionamento com um dos rapazes. Foi ela mesma que sugeriu ao namorado experimentar sexo grupal. Não foi estupro, foi uma orgia. E pelos sorrisos dos rapazes na foto, bem divertida.

No depoimento, ela também disse que permitiu as fotos, mas não sua divulgação. Agora a investigação está limitada à questão da divulgação das fotos, "crime contra a honra e dignidade", coisa que nunca dá em nada.

As declarações da moça, logo depois do anúncio da erro grosseiro na pesquisa do IPEA, foram um balde de água fria na fogueira da inquisição feminista-de-araque.

Toda penetração é estupro, diziam algumas pseudo-feministas dos anos 70, nos Estados Unidos. Susan Brownmiller garantia: "estupro é nada menos que um processo consciente de intimidação, pelo qual todos os homens mantêm todas as mulheres intimidadas."

É esse tempo de trevas que alguns grupelhos brasileiros querem ressuscitar, em pleno 2014. Felizmente, estão restritos a boquejar inocuamente no Facebook. Felizmente, existem garotas de 19 anos que entendem o verdadeiro significado da palavra "feminismo".

Uma colega de R7, jornalista jovem e inteligente, deu a sentença: "essa mulher é louca". Pois eu acho a mocinha admirável na sua articulação e determinação. Sei, Forasta, mas vai ser hipócrita lá longe, se fosse sua filha você não estava dizendo isso, né?

A única maneira de responder isso honestamente é invertendo os papéis. Digamos que a história fosse de um cara de 19 anos, que transou com cinco mulheres ao mesmo tempo. Alguém estaria chamando ele de louco? Não, estaria todo mundo batendo palmas pro garanhão, o moleque deve ser o bicho na cama…

Dizer que estupro é coisa de monstro é violentar a razão. É crime com causas claras, estatisticamente identificadas e facilmente combatíveis, se a sociedade assim decide. As razões que se repetem em todas as pesquisas sobre estupro, nos quatro cantos do planeta: miséria, violência, cultura patriarcal.

Meninos que crescem sem nada, levando porrada, e aprendendo que mulher é inferior ao homem, entendem que a força é ótima (talvez única) maneira de conquistar o que querem, inclusive sexo. Sociedades mais igualitárias, pacíficas e tolerantes têm muito menos estupros que suas contrárias. Simples e complicado assim.

Justiça é distribuir direitos e deveres para todas as pessoas de maneira equânime. É mais um ideal do que uma realidade, sei. Mas implica o direito de cada um fazer o que bem entender com seu corpo. Seja homem ou mulher.

Palmas pra moça que transou como quis e peitou a patrulha pseudo-feminista. Tô contigo, minha filha e não és louca não. Agora, talvez seja maluca de deixar tirarem foto - pô, é a regra número um do mundo digital, nunca deixe alguém tirar sua foto sem roupa! Onde tavas com a cabeça, menina?

 

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Publicado em 07/04/2014 às 11:11

Lollapalooza 2014: o rock morreu – e seu futuro é selvagem

Rock é provocação. Não precisa ser mais nada. Festivais são karaokês coletivos, parques temáticos. Entretenimento com catraca, crachá, patrocinadores corporativos e esquema especial da CET na porta. É a Disney de jeans e camiseta preta.

Vi boa parte do Lollapalooza pela TV no sábado. Fui no domingo. Adorei ver Pixies pela primeira vez, e mais ainda New Order pela quarta. Mas não tem nada a ver com rock. É uma celebração. Estamos lá para cantar e pular junto, e pra juntos sentir falta dessa e daquela. No setor repertório, o New Order não tem concorrentes. Poderia trocar o set list toda noite, uma semana seguida.

No setor performance, é aquela coisa desenxabida de sempre. O New Order não te provoca e nem faz de conta que está lá para isso. A falta de jeito de palco de Barney Summer é refrescante; idem Gillian Gilbert, que estreou tiazinha e agora tá vózinha. Sem problemas, tudo certo, emocionante ouvir "Your Silent Face".

new order Lollapalooza 2014: o rock morreu   e seu futuro é selvagem

E que constrangedor ler no telão "Forever Joy Division", no bis. Nostalgia de quando o New Order tinha vergonha na cara e direção de arte de Peter Saville. Sabe quem é? Muita gente sabe, desconfio. O rock morreu, mas vive - em uma bolha de plástico, hermeticamente separado do século 21.

É hobby de experts, como o jazz contemporâneo, o circuito das artes plásticas, ou os gibis de super-heróis. São micronichos dominadas por discussões apaixonadas entre esnobes bem informados, que ignoram e abominam os não-iniciados. Nerds no Brasil, Geeks nos EUA, Otaku no Japão: obsessivos ultra-informados sobre suas paixões, que organizam em universos ficcionais fascinantes e intransponíveis.

Sintoma certo de obsolescência. Seita é cultura, cultura não pode ser só seita. O rock é supérfluo e os roqueiros, bem, a gente somos inútil. O rock está fora do veio principal da cultura mundial, porque não é mais necessário.

E o que era toda aquela gente que pagou grana e mico pela maratona Lollapalooza? O que era eu voltando no decente (e provavelmente superfaturado) trem da CPTM pra casa, as pernas acusando o golpe? Ué, não é porque é desimportante que não é bom passatempo.

Esse foi o primeiro festival que eu fui na vida que dava para comer razoavelmente. Bebi chopp gelado sem horas de fila (com um pouco de estratégia, claro, e pagando nove reais). Dava até para encarar um xixi sem fedor - urinóis ao ar livre, porque ninguém pensou nisso antes?

Rock agora é Disney, mas a Disney não vive cheia? Diversão para toda a família. Vi várias crianças no Lollapalooza. Pela primeira vez pensei em levar meu filho a uma parada dessas. Tem 10 anos. Já vejo o moleque emprestando meu celular para jogar uns gamezinhos no meio da muvuca.

Esses megafestivais servem para outra coisa também. Trazem artistas que jamais sustentariam um show próprio. Gente que é iniciante ou impopular, e não tiraria pagantes de casa, ou só a tal meia dúzia de iniciados.

É o caso do quarteto Savages. O primeiro disco da banda tem quase um ano. Nunca ouvi. Jamais sairia de casa para vê-las. Assisti meia hora, por causa da propaganda do amigo André Barcinski em seu blog, vizinho aqui no R7. Conversão instantânea. Banda londrina, cantora francesa. São quatro moças andróginas que se vestem de preto e guincham como não se faz há muito tempo, essas netas de Siouxsie Sioux, filhotas de Justine Frischmann.

savage Lollapalooza 2014: o rock morreu   e seu futuro é selvagem

"Não deixe os filhos da puta te derrubarem", determina a cantora Jhenny Beth, dois anos de carreira, absurdo domínio de palco. O português é delicado como seus scarpins rosa-shocking. Segue "Fuckers", impossível equilíbrio entre silêncio e distorção. A guitarrista Gemma Thompson não faria feio no Gang of Four. É punk. É arte.

O Savages encanta, porque incomoda. No circo do Lollapalooza, brilha intensamente. Rock "de verdade", porque provocativo, abrasivo, vital. Não nos oferece nada de novo. O Savages sim é "Forever Joy Division".

Ilustra onde o rock veio parar, a tumba - e para onde vai. Jorge Luiz Borges, explicando a poesia japonesa, comenta que, no Oriente, o belo é mais valorizado que o novo. Inovar, diz ele, é para os poetas japoneses exibicionismo, sinal de vaidade. Importante é buscar o permanente, não o diferente. É o que sobra ao rock: nos tocar além e fora da história, menos relevante, talvez ainda precioso. Além da morte nos espera um momento selvagem, suspenso no tempo…

 

 

Publicado em 04/04/2014 às 10:48

Anunciando meu primeiro livro: O Dia Em Que o Rock Morreu (estrelando Kurt Cobain e outros garotos podres)

O dia em que o rock morreu 2 Anunciando meu primeiro livro: O Dia Em Que o Rock Morreu (estrelando Kurt Cobain e outros garotos podres)

Em algumas semanas, chega às livrarias um livrinho sobre a morte. A morte de ícones, e também do último messias do rock. Mas também a morte da revista de rock, da capa de disco, da MTV, e do próprio crítico de rock. E também não escapa o rock brasileiro - natimorto?

É um livro para pregar o último prego no caixão de um mundo que se foi. Para enterrar meu passado - e celebrá-lo.

O Dia Em Que O Rock Morreu é um livrinho meio punk, quick and nasty, reunindo textos que escrevi durante décadas, em muitos lugares diferentes, e mais alguns inéditos. Capa, contracapa e orelhas acima.

Estou feliz de finalmente publicar meu primeiro livro. Sai pela Arquipélago Editorial, que só publica jornalistas, e publicou o último do Ricardo Alexandre, "Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar". Foi escrevendo a introdução do livro do Ricardo que me veio a idéia; foi percebendo que se aproximavam os vinte anos da morte de Kurt Cobain que me impus um prazo.

Ricardo, obrigado mano, me apresentou ao editor Tito Montenegro, que também vem das redações, e sacou que esse livro pedia urgência e ataque. A Arquipélago também publica Eliane Brum, Humberto Werneck, Serginho Xavier, Marcelo Ferla, Paulo Moreira Leite, Christian Carvalho Cruz, Ivan Marsiglia... boa companhia.

Sempre disse que jamais escreveria um livro. Finalmente percebi que já escrevi vários desde meu primeiro texto publicado, em setembro de 1988.

Um dia farei um livrão-antologia de 600 páginas, "meu legado", fi-lo porque qui-lo. Mas neste momento estou mais interessado em livros que vibrem em três acordes. Esse é o primeiro. Outros virão. O rock morreu. Mas eu estou bem vivo.

 

 

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Publicado em 03/04/2014 às 18:26

Gaby Amarantos abre o coração – e dá pra ver o dinheiro lá dentro

photo Gaby Amarantos abre o coração   e dá pra ver o dinheiro lá dentro
Gaby Ostentação é autocomplacente, autoreferente, pseudopopular, marketeira, obcecada com a imagem, crivada de preconceito de classe, e principalmente boçal.

Claro que tinha que ser apresentada ao público pela primeira vez no episódio final de Big Brother Brasil. E apropriadíssimo que a música só alcance todo o potencial de sua escrotidão no videoclipe.

Gaby prometia mais. Deu nisso - virou "famosa", uma Preta Gil cover, modelo plástica-e-photoshop. Anda aparecendo muito na TV. Tem música na novela das sete. Vem aí o novo disco, produzido longe do Pará e do tecnobrega, com a missão de tocar na rádio. A "música de trabalho" é Todo Mundo, produzida pelo mesmo Mário Caldato dos Beastie Boys e de Marcelo D2. "É sobre a nossa felicidade em receber a Copa em casa e sobre o otimismo de que tudo dará certo", explica Gaby, sem ironia visível.

Artisticamente, o álbum nasce supérfluo. O vídeo de Gaby Ostentação é mais que suficiente. Reúne um bando de famosos dublando Gaby e afetando gracinhas e dancinhas. Gente como Luciano Huck, Daniela Mercury, Marcelo Adnet, Marcelo Serrado, Fábio Porchat, Valeska Popozuda, Sérgio Mallandro, Anitta, Dani Calabresa e por aí vai.

A letra passa pito no funk ostentação. Gaby está acima dessas questões materiais, agora que não é mais feia e tá na moda. Diz:

Sou rica
Tô ostentando alegria
Gostosa
Do tipo Maravilhosa
Me escuta
sente a pressão
A felicidade não se compra com cartão

O que aprendemos hoje, amiguinhos? Que "o dinheiro não traz a felicidade". Falou completar o bordão como aquele velho comercial de Benson & Hedges, "manda buscar". Porque o vídeo é um bando de ricos e famosos pregando à periferia. Gente que tem muito, cantando a maravilha da vida simples para quem não tem nada.

Gaby Amarantos só aparece no final, silenciosa, carregando cartazes com as mensagens:

Ostente felicidade
Ostente respeito
Ostente paz
Ostente humildade

O vídeo foi lançado no dia da mentira. Acaba com Gaby dizendo "claro que eu não virei funkeira, né galera… a gente reuniu todos esses famosos para falar que a gente pode ostentar muita coisa além do dinheiro, que tá aqui no coração!"

Ostentar muita coisa, além do dinheiro. Dinheiro que tá aqui no coração… Entendeu? Arte não é o que o artista mostra, é o que eu enxergo. Gaby abre o coração, e a gente vê direitinho a grana lá dentro.

Miranda, produtor do primeiro disco de Gaby, e o cara que fez a música do Pará acontecer nacionalmente, lamentou publicamente, postando no Facebook:

"Para a artista talentosíssima que é, que lançou um disco tão inovador e respeitado por todos mesmo que pouco ouvido pelo povo - e pode ser esse o motivo - retroagir para uma música tão fuleira, brega no sentido mais errado da palavra, ainda se valendo de uma quase crítica (oportunista?) a um dos generos mais autênticos do país, irmão gêmeo de sua Xirley… ainda por cima embevecida de personalidades globais! Resta-me perguntar: cade você, Gaby? Que nunca mais apareceu aqui… (citando o mestre Odair José)."

Miranda, amigão, grande coração, segue torcendo por Gaby, e explícitou isso em um segundo post. Eu não. Nem ela precisa da nossa torcida. Tem novos amigos e boa antena. Captou e ostenta com galhardia o ethos da cena cultural carioca. Impressionante como os poucos críticos desta velha máfia não são capazes de capturá-la com tanta precisão quanto Gaby.

Gaby Ostentação navega no veio principal da cultura que compensa. Rebola no bloco dos tropicalistas ministros, e de seu cordão de puxa-sacos na academia e mídia. É o bonde do elogio da ignorância, da fetichização da favela. Trata-se de passar a mão na cabeça dos escravos, para que eles jamais usem levantá-la. É tudo por dinheiro, sempre, sem fim, e quanto mais vier do tesouro nacional, melhor. Porque do público pagante, sabemos, não vem.
Gaby está prontinha para substituir Regina Casé no Esquenta. E o pior é que certamente consideraria isso um elogio.

Gaby Amarantos - Gaby Ostentação por thevideos no Videolog.tv.

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Publicado em 02/04/2014 às 00:05

1964: Quando os americanos invadiram o Brasil


Jango2 1964: Quando os americanos invadiram o Brasil

Este aniversário de 50 anos do golpe militar tirou a poeira de muitas velhas mentiras, e ainda botou em circulação algumas novas. A mais repulsiva: quem resistiu à ditadura tem tanta culpa no cartório quanto o regime militar - ou talvez até mais!

Essa gente que arruma desculpas para o regime militar e seus apoiadores não merece menção, que dirá retruque. Mas tem mentira que não dá pra deixar passar. O golpe militar de 1964 teve o apoio de 99% dos poderosos do país, mas foi estimulado, financiado, e apoiado militarmente pelos americanos. Os EUA fizeram de tudo pra derrubar o presidente e colocar um ditador no lugar. Não é lenda. Você pode ouvir as vozes dos presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson dizendo exatamente isso. Estão no documentário "O Dia que Durou 21 Anos".

A exibição desse filme deveria ser currículo obrigatório em todas as escolas do Brasil, junto com a leitura da reportagem de capa da revista Super Interessante deste mês. O tema de ambos é o mesmo: o envolvimento, indiscutível e imperdoável, dos EUA no golpe brasileiro.

Está tudo lá. O dinheiro que o governo americano dava para os governadores golpistas. O financiamento de propaganda anti-Jango. Os relatórios mentirosos do embaixador Lincoln Gordon. O relacionamento do adido militar Vernon Walters com os militares brasileiros, desde a segunda guerra. O dinheirão que os americanos botaram no país depois que os militares assumiram o poder.

E está lá a resposta definitiva para uma questão que assombrou a esquerda brasileira durante décadas: porque João Goulart não resistiu ao golpe? Porque o governo americano, que sabia do golpe de antemão, tinha enviado uma frota, que estava na costa brasileira. Se os militares brasileiros precisassem de apoio, os americanos desembarcariam. Não precisaram, Castello Branco agradeceu, yankees voltaram pra casa.

Foi a presença de tropas americanas que deu segurança aos militares golpistas.

E foi a informação de que os EUA apoiavam o golpe, e reconheceriam como seu substituto legal qualquer um que assumisse, que fez com que Jango desistisse de qualquer resistência. Foi às onze horas do dia primeiro de abril de 1964. A "comemoração" dos 50 anos da gloriosa aconteceu no dia errado...

Desde aquele dia da mentira, temos ouvido muitas outras. Pelo menos uma não precisamos mais ouvir. É que o golpe tem origem 100% brasileira. Os Estados Unidos bancaram e apoiaram golpes nos quatro cantos do planeta, durante todo o século 20.

Nos anos 60, auge da paranóia nuclear, terceiro mundo explodindo, os EUA converteram a maior parte da América Latina e Ásia em ditaduras sanguinárias. O Brasil foi só mais uma. O papo é que não se podia permitir uma Cuba do tamanho do Brasil. Como se Jango, fazendeiro e milionário, tivesse vocação pra guerrilheiro...

Porque os americanos fizeram isso? Porque é isso que impérios fazem. E é isso que os americanos continuam fazendo, quando interessa. Obama estava essa semana mesmo visitando a Arábia Saudita, uma teocracia fechadíssima.

Como seria, hoje, o Brasil se o golpe não tivesse acontecido? Não interessa. Isso é ficção científica, retrofuturismo. O que importa é a verdade. A ditadura não foi uma reação desproporcionada, mas inevitável, às provocações de esquerdistas doidivanas. Foi um desastre humano e institucional. E foi planejado e executado dentro de uma política global de destruição da democracia, patrocinada pelos Estados Unidos. E quem fala o contrário - feliz primeiro de abril.

Publicado em 26/03/2014 às 10:30

A realidade virtual faz o Marco Civil nascer obsoleto

oculos A realidade virtual faz o Marco Civil nascer obsoleto

 Garota testa o Oculus Rift

Se você tem certeza sobre alguma coisa no mundo digital, tenha certeza que está errado. A única coisa inteligente a dizer sobre internet é a clássica sentença de William Goldman sobre Hollywood: "Nobody knows anything".

O Brasil aprovou o Marco Civil da Internet. Ótimo. O Marco Civil é imperfeito, como tudo no mundo da política e dos homens. É um passo na direção certa, e de astronauta: um passinho que é um grande salto. O interesse das grandes empresas de telecomunicação, e seus representantes no Congresso, foi derrotado. O interesse das grandes empresas de internet e mídia venceu. Agora toca ficar de olho em umas e outras. Ganha o brasileiro, como consumidor e cidadão.

O principal defeito do Marco Civil é que ele facilita a censura, jogando a decisão sobre o que pode ser publicado ou não na internet para "Juizados Especiais". Esperemos que isso seja modificado na primeira revisão. Que virá logo. Porque o Marco Civil já nasce defasado. Vai requerer revisões contínuas. As leis que regulamentam o trabalho não vêm mudando desde o final da escravidão? Pois cem anos no mundo real passam em cinco no mundo digital. E, como sabemos, não basta ter lei — há que fazê-las valer, o mais difícil.

A velocidade da mudança fica espetacularmente evidente hoje. Justamente no dia em que o Brasil aprova o Marco Civil, o Facebook anuncia a compra da Oculus VR. Quem? É uma empresa com um ano e meio de idade. Seu primeiro produto, que ainda nem foi lançado oficialmente, é o Oculus Rift, óculos de realidade virtual para jogar videogames. A Oculus VR já queimou uns US$ 160 milhões em investimento. O Rift tem 75 mil encomendas. Quem testou, curtiu. Quem testou, testou na E3, maior feira de games do mundo; é assunto velho pra gamer; eu já li uns trinta artigos sobre o Rift desde 2012.

Que tem games, e realidade virtual, a ver com rede social? Tudo. Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, explica: "A realidade virtual é uma forte candidata a ser a grande próxima plataforma social e de comunicação. Imagine assistir a um jogo da primeira fileira, ou estudar em uma classe com alunos e professores do mundo inteiro, ou fazer uma consulta com um médico simplesmente colocando seus óculos de realidade virtual, na sua casa. Da mesma maneira que a internet móvel é o presente, realidade virtual é o futuro.".

O discurso de Mark é para o grande público, que está por fora. O Oculus VR não é o futuro, é o presente — tanto que o Facebook pagou US$ 2,3 bilhões por ele. O que vem depois? Não sei, mas sei aonde procurar. Mais uma vez, pela milionésima vez, como a tela touch, o avatar, a rede social, o tablet e o controle de voz, o futuro vem do mundo dos games. Mas cansei de repetir isso no Brasil. Ninguém quer entender ou investir em games ou gamificação. Nenhuma empresa de tecnologia ou comunicação do nosso País quer enxergar isso.

E muito menos nossos políticos, claro. O Marco Civil, que é não mais que decente, quase não é aprovado. E já nasce incapaz de absorver a realidade virtual, que é a pauta do dia. Na verdade, tem uma única coisa que dá pra saber sobre o universo digital: a maioria de nós tenta entendê-lo olhando para o passado, não para o presente, e muito menos para frente. Mantenho os olhos fixos no horizonte, atento no jogo, lá onde a visão embaça, onde a certeza dissolve — como um relógio de Dali.

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Publicado em 20/03/2014 às 15:21

Laís Souza está tetraplégica, alguém tem que pagar por isso, e não é você

lais souza 1394735599266 1920x1080 Laís Souza está tetraplégica, alguém tem que pagar por isso, e não é você
Esporte machuca. Alguns matam ou aleijam. É o caso do esqui. Michael Schumacher vegeta em Grenoble. Os defensores do tal "espírito esportivo" não contam isso para os jovens praticantes. Muito pelo contrário: o papo é sempre de superar, ir além dos limites, e todo aquele bla-bla-bla pra vender tênis e energético.

Nossa esquiadora Laís Souza está tetraplégica. Lesionou a terceira vértebra. Não mexe pernas nem braços. Treinava para participar dos jogos olímpicos de inverno quando caiu. O seguro pagou a operação e o tratamento. Mas não vai pagar mais nada. Porque o seguro de vida ou invalidez contratado pelo Comitê Olímpico Brasileiro, e pela Confederação Brasileira de Desportos na Neve, só cobre acidentes que aconteçam durante as competições, e não durante o treinamento.

Muita gente se recusa a aceitar o que aconteceu com Laís. A imprensa dá voltas sem fim para falar do caso. Compreensível. É uma jovem simpática e batalhadora. O pai é metalúrgico, a mãe trabalha em uma loja de sapatos. Mas reportagens falando da "rápida recuperação" de Laís, que ela já tem sensações nesse ou aquele pedaço do corpo, são um desserviço. Li um artigo que começa dizendo que ela já "come sozinha". Dá a impressão que ela leva o garfo à boca. Nada disso. Só quer dizer que ela já se alimenta pela boca, e não via sonda gástrica.

Esse discurso atrapalha Laís mais que ajuda. Pior ainda as pautas sobre tratamentos experimentais milagrosos. A realidade é: Laís não vai ser curada. Jamais voltará a andar ou mexer os braços. Viverá uma vida dificílima e limitadíssima, completamente dependente dos outros. Se daqui a 30 anos um gênio criar um tratamento capaz de reverter sua lesão, ótimo, mas não está no horizonte da ciência.

O que ajudará Laís é dinheiro, muito dinheiro. Agora o Comitê Olímpico Brasileiro  iniciou uma campanha pedindo auxílio financeiro para o futuro de Laís. Famosos apoiam, Luciano Huck, Rubinho etc. (divulgando, não sabemos se doando). O objetivo, explica a nota do COB, é "ajudá-la a se autofinanciar…. desde contratar um professor de inglês, como custear parte de uma bolsa de estudo em uma Universidade no Brasil, conseguir um coaching para prepará-la para dar palestras sobre suas experiências, até criar uma fundação ou instituto para a Laís. Da mesma forma, a campanha visa a compra de equipamentos para a mobilidade e o conforto da Laís, itens não previstos na cobertura dos seguros contratados pelo COB."

Em português claro: não vai ter grana do COB ou do poder público para as cadeiras de roda de Laís. Para as sondas, equipamentos, remédios, enfermeiros e acompanhantes. A previsão é ela continuar no hospital em Miami por mais uns três meses. Depois, se vire. Tem ideia quanto custa ser tetraplégico? Vou chutar baixo uns R$ 15 mil por mês, R$ 180 mil por ano. Laís tem 25 anos. Sua próxima década vai custar uns dois R$ 2 milhões de reais.

O  Comitê Olímpico está transferindo a responsabilidade para nós. O Brasil investe bilhões em estádios para Copa, e outros tantos bilhões para a Olimpíada do Rio em 2016, e deixa uma moça tetraplégica dependendo de vaquinhas na internet…

O COB tem obrigação de assumir Laís. Os patrocinadores do COB, como Bradesco, Nike, Correios, Skol e outros, têm obrigação de assumir Laís.  Os políticos do Brasil, que usam esses megaeventos esportivos para estimular o ufanismo babaca (e pingar uma grana para os empresários amigos), têm obrigação de assumir Laís. Alguém vendeu as maravilhas do esporte para Laís, alguém estimulou seu sonho olímpico. São esses que devem se responsabilizar por sua paralisia. Não você ou eu.

Mas enquanto eles não fazem nada, se você pode fazer algo por Laís, faça:

Bradesco
Agência: 0548-7
Conta corrente: 0110490-0
Laís da Silva Souza

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Publicado em 19/03/2014 às 15:40

A Globo pode censurar a concorrência, mas não deve

bbb A Globo pode censurar a concorrência, mas não deve

A Justiça do Rio de Janeiro proibiu portais concorrentes da Globo de cobrir o Big Brother Brasil. São o UOL e o Terra. Dá ganho de causa à Globo e a Endemol, empresa que é dona do formato Big Brother, que licencia para os canais pelo mundo afora. O argumento é que os portais estão faturando com propriedade alheia. Fazem cobertura extensa e permanente do programa, que é 24 horas por dia. Vendem publicidade ao lado da cobertura.

A liminar diz que os portais devem se abster da “exploração comercial e utilização indevida de imagens, marcas, textos, elementos e/ou de trechos dos programas BBB, bem como de quaisquer outras marcas e elementos sob a exclusiva titularidade da TV Globo e da Endemol nos portais http://uol.com.br e htpp://televisao.uol.com.br/bbb ou qualquer outro portal da empresa autora''. O descumprimento da decisão implica em multa diária de R$ 100.000,00.

A vitória não é surpresa. A justiça do Rio sempre dá ganho de causa para a Globo e globais. O que não tem justificativa é a Globo tentar censurar concorrentes diretos. É exatamente disso que se trata, censura, e da brava. UOL e Terra agora não podem publicar mais nada de BBB. O UOL até tirou do ar a cobertura dos catorze anos passados. O colunista de TV do portal, Maurício Stycer, avisa que não vai mais comentar o programa. O UOL informa que vai tentar reverter a decisão da justiça carioca, com recurso.

É fato que os portais usam o BBB para aumentar sua audiência e faturar. Reality shows atraem muita audiência na internet, BBB, A Fazenda, The Voice e outros. É da natureza dos realities. Como também dos seriados - o que vai acontecer depois? Por isso que séries como Breaking Bad, Game of Thrones e True Detective rendem tanto na internet (e comédias não dão tanto assunto, embora quase sempre tenham mais espectadores que esses seriados cultuados).

É do DNA da mídia faturar falando de propriedade alheia. Para ficar em um exemplo óbvio: existem revistas de diversas editoras (e não da editora Globo) que falam exclusivamente de novelas. Têm sempre novelas da Globo na capa. Existem há anos, e a Globo não processou. O argumento é que é uma "cobertura jornalística". E é mesmo. Pô, mas toda semana a revista põe a novela da Globo na capa! E toda semana vende. Portanto é de interesse do público, o que é a exata definição de "interesse jornalístico". A Globo vai atrás de dois grandes concorrentes diretos na internet, que é onde está a ação. Não tem nada a ver com o certo ou o justo. Tem a ver com grana.

E considere a alternativa. Se aceitamos que o pedido da Globo tem cabimento, a sequência lógica é a Globo (e a Fifa) proibirem outros veículos de cobrir a Copa. Depois a Fórmula Um. E o Oscar e o Rock In Rio. E o desfile das escolas de Samba. E campeonatos de futebol. E tudo mais que a Globo pagou para exibir. Depois ninguém mais poderá comentar a novela, o Jornal Nacional, e o Faustão, toda programação produzida pela própria Globo.
Pelo discurso, a Globo parece dizer que tudo bem, se os portais concorrentes cobrirem BBB, mas sem "explorar". Mas a maior empresa de comunicação do país não tem, ou não deveria ter, o direito de determinar como as suas concorrentes cobrem isso ou aquilo.
O problema é que a decisão da justiça prova que, na prática, a Globo pode exercer poder de censura. Mas não deve. Alguém ali nas altas esferas tem de botar a mão na consciência, e se tocar. Os jornalistas têm que fazer o devido barulho. E as associações que reúnem as empresas de jornalismo têm obrigação de se pronunciar contra o caso. A Globo faz parte de todas - ANER, ANJ, Abert. Diferente da Endemol, a Globo não é só uma empresa muito forte em entretenimento. Tem muita tradição e investimento em jornalismo. Tem o maior canal de TV, um grande e tradicional jornal, a segunda maior editora de revistas, um grande portal, um grande site noticioso, rádios, um canal de TV só de notícias.

Tem, portanto, grandes responsabilidades. E a primeira delas é lutar pela liberdade de informar - e não contra.

 

 

Publicado em 17/03/2014 às 14:09

A Criméia tem o direito de decidir seu futuro

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Festa em Simferopol, capital da Criméia, depois do plebiscito que decidiu pela separação da Ucrânia

Este domingo, os moradores da região da Criméia votaram por se separar da Ucrânia. O sim teve 96,6%, e 83% dos eleitores votaram. Na sequência o Parlamento regional declarou independência, e entrou com um pedido para fazer parte da Federação russa. Os poderosos do lado de cá do mundo decretaram que o plebiscito é ilegal. Obama disse que o resultado da votação "jamais será reconhecido". A União Europeia decretou sanções. Fala-se da volta da Guerra Fria. A imprensa faz a caveira de Putin, homem forte da Rússia.

A única questão que deveria importar agora é: o plebiscito foi limpo, ou houve fraude que mudaria os resultados? Como não havia observadores internacionais imparciais, cada lado diz o que quer. O ideal seria realizar um novo plebiscito, transparente, daqui a seis meses, e com um acordo prévio de que o resultado será respeitado por todas as partes. Mas a história não se faz assim, de maneira calma e impoluta. Tudo indica que sim, houve fraude, e não, nada que mudasse os resultados na Criméia. A maioria de seus cidadãos quer ser uma das repúblicas da Federação russa, e disseram isso bem alto.

Entender o que acontece na Ucrânia como um simples duelo entre Ocidente e Oriente, Mundo Livre e Totalitarismo, é  comprar a versão que nos mandam comprar. É tão preguiçoso quanto um russo acreditar na imprensa de Moscou, que garante que o novo governo da Ucrânia é fascista e assassino. A imprensa internacional vem revelando os bilionários que financiam os diversos lados da disputa, e que não têm outra ideologia fora ampliar seus impérios. Essa é uma panorâmica do canal americano CNBC.

E o novo governo da Ucrânia está colocando como governadores de províncias os bilionários que financiam justamente os novos governantes do país. Esta é uma reportagem da TV russa, em inglês.

"Ampliar meu império" é a missão de gente como Barack Obama e Vladimir Putin. No ocidente, a imprensa é automaticamente anti-Putin, mesmo os canais americanos anti-Obama. Mas Putin, com seus inúmeros defeitos, foi eleito (aliás, como Victor Yanukovich, presidente derrubado na Ucrânia). E Putin vem sendo reeleito. A Rússia é uma democracia claudicante, porque muito jovem, como muitas outras, como o Brasil. Quem financiou e apoiou os maiores golpes contra a democracia nos últimos, sei lá, cinquenta anos? Incluindo o Brasil? Os Estados Unidos. Os governos do Ocidente são muito lenientes com governantes bem mais autoritários que Putin. Que, antipático, apoia Assad na Síria, enquanto Obama, tão simpático, financia as piores teocracias do planeta. Política internacional não tem nada a ver com superioridade moral.

Lição instantânea de história: a Criméia não tem relação orgânica com a Ucrânia. A Criméia é um pedaço do mundo abençoado e amaldiçoado por sua geografia: uma península importante para o controle comercial e militar do Mar Negro. Um pedacinho de terra que já foi ocupado por um monte de povos diferentes, durante séculos. Desde 1783 pela Rússia, antes império, depois União Soviética. É quase um quarto de milênio. Stalin zoou ainda mais a confusão etnolinguística do pedaço, com deportações, massacres e faxina étnica. Só depois da segunda guerra, depois de expulsar de lá os nazistas invasores, a URSS decretou que a Criméia passaria a fazer parte da Ucrânia. Foi em 1954. O homem forte da URSS era Nikita Kruschev, que por acaso era... ucraniano.

Hoje o país tem população 58% russa, 24% ucraniana, e mais 12% de tártaros - destes, a maioria é de muçulmanos. Boa parte dos tártaros e ucranianos boicotaram o plebiscito, aliás. Quantas pessoas moram na Criméia? Pouco mais de dois milhões. É tipo um sexto da cidade de São Paulo. Se você acha que os EUA vão entrar em treta séria com a URSS por causa desse tiquinho de terra e gente, vai sonhando... mas não interessa o futuro. Interessa fazer o certo no presente. Defender a manutenção do ruim porque o que virá depois é conservadorismo invertebrado.

Até porque a Criméia não é o único lugar em 2014 em que os plebiscitos podem mudar o futuro. No dia 18 de setembro deste ano, os escoceses decidirão pelo voto se continuarão a fazer parte do Reino Unido ou não. A Escócia foi invadida pelos ingleses já no século 13. A versão Hollywood é Coração Valente, lembra, Mel Gibson com a cara pintada de azul? Desde 1603 a Escócia passou a fazer parte do reino, sempre em posição subalterna.

Na Escócia também se debate muito a separação. Como sempre há interesses e grupos que ganharão com a separação, e outros que perderão. O que ninguém discute, nem lá e nem em lugar nenhum do planeta, é o direito dos escoceses a decidir seu próprio destino. E veja só: os escoceses têm muito mais a ver culturalmente com a Inglaterra do que a Criméia com o restante da Ucrânia.

Vamos para climas mais aprazíveis? O governo regional da Catalunha pretende fazer um plebiscito lá, no dia 9 de novembro deste ano. As perguntas são: "você quer que a Catalunha se torne um país? E neste caso, deseja que seja um país independente?". O governo espanhol pretende barrar juridicamente a realização do plebiscito. Mas os catalãos têm língua e cultura próprias, espírito independente, grana para viver bem separados da Espanha. Lembram bem de quando Madri mandou bombardear Barcelona, na Guerra Civil espanhola. Faz oitenta anos.

Vamos revisitar a questão da superioridade moral? O Império Britânico arrancou o sangue de infindáveis milhões nos quatro cantos do planeta; o que a Espanha fez com os povos nativos da América não têm perdão, fora o que fez com os próprios espanhóis, e principalmente espanhóis judeus e muçulmanos. Franco era o ditador lá até outro dia...

Por esse caminho não se chega a lugar nenhum. Certo que não é prático que cada microrregião do mundo se torne uma república independente. Mas é muitíssimo saudável que microrregiões com identidade própria tenham tanto poder de decidir seus destinos quanto possível.

Uma governança global mais equânime só poderá ser fundamentada em liberdade crescente para os indivíduos, e consequentemente para repúblicas, províncias, cidades-estado.  A Criméia tem o direito de ser independente da Ucrânia, e ser dependente da Rússia, se é isso que seu povo decide? Sim. Sua decisão vale tanto quanto as futuras decisões dos escoceses sobre o Reino Unido, e dos catalães sobre a Espanha. A nós cabe respeitar a liberdade destes povos decidirem. E não cair na conversa nem de um império, nem de outro.

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Publicado em 13/03/2014 às 12:58

Pesquisa comprova: as brasileiras são muito machistas (você também, linda!)

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Atenção: as mulheres do Brasil se organizam contra cantadas e assobios nas ruas! Hm, não. Só é problema sério para uma fatia infinitesimal das brasileiras. Um grupelho minúsculo, que se mobiliza contra o fiu-fiu. A atenção que recebe da imprensa é desproporcional, o que faz sentido, pelo despropósito. Jornalismo não é cachorro morde homem, é homem - ou mulher - morde cachorro.

As mocinhas de classe-média que têm chiliques por ouvir "princesa!" ou "ô lá em casa!" de frentistas e motoboys sugerem mais preconceito de classe, que qualquer outra coisa. Sua indignação tem muito a ver com o conhecido fenômeno do merecismo.

É uma espécie de auto-hipnose, em que pessoas se convencem de que merecem tratamento diferente por serem únicas, especiais, diferentes dos outros, sejam elas, ou o grupo de que fazem parte. A reportagem da Folha sobre a campanha "Chega de Fiu-Fiu" está aqui.

A pesquisa citada na matéria não tem validade estatística. São números de uma enquete online. Que tipo de mulher para para responder uma enquete dessas? Não sei, mas os resultados dão que 83% das mulheres que responderam não gostam de ouvir cantadas, seja na rua ou em qualquer outro lugar, balada etc. E 84% disseram que a cantada mais comum é ser chamada de "linda", seguidos de "gostosa" e "delícia". Pensei que ser chamada de baranga ou mocréia era pior, mas que sei eu.

Ouvi outra ótima esses dias de uma amiga professora. Em certos círculos juvenis ultra-pseudos, não se escreve mais "os alunos" para se referir a alunos e alunas. Nem "os funcionários" para descrever todos que trabalham em uma empresa, homens e mulheres. Nem "os políticos", e por aí vai. Reformadoras da ortografia advogam o uso das palavras "alunxs", e "funcionarixs" e "politicx" e coisas parecidas, colocando o "x" no lugar do "o". Porque usar o "o" é machismo, entendeu? Entendi. É uma maneira de ser extremamente radical sem fazer coisa nenhuma.

Bem, quem quiser que lute pelo que quiser. Mesmo que seja pelo direito de soltar um pum no furacão, como nestes casos. O feminismo brasileiro se encontra mais ou menos onde estava o feminismo nos Estados Unidos nos anos 70. Era uma elitezinha acadêmica queimando sutiãs, enquanto as trabalhadoras brigavam por salários iguais aos dos homens, direito a creche, saúde, escola e aborto legalizado.

Mas não vou sugerir que as moças que gritam contra o fiu-fiu acampem na rampa do Planalto e gritem "Dilma, aborto legal para as brasileiras já!". Afinal sou homem, que direito tenho de dizer isso, né?

Todo. Como disse outra amiga esses dias, não sou feminista, sou humanista. E jornalista. E por isso, observador, e não consigo não ver que brasileiro em geral passa muita necessidade, mas a mulher apanha mais que o homem, em vários sentidos. A turma que protesta contra a linguagem já ganha razoavelmente, paga seguro saúde e escola particular, transa com quem quiser e aborta com segurança. A maioria das brasileiras não tem esses luxos.

E não terá tão cedo, por uma coleção de razões, que se cristalizam de maneira transparente na baixa representação das brasileiras no poder público. Uma pesquisa recente das Nações Unidas lista os países do mundo em ordem da participação das mulheres em cargos ministeriais, e em cargos legislativos federais. O Brasil é o 33º com mais mulheres em ministérios, e o 124º (!) com mais mulheres no Congresso.

Certo que o fato de ser mulher não é garantia de bom caráter ou cabeça aberta. É só lembrar Margareth Thatcher e outras crápulas da história recente. Mas trata-se simplesmente de buscar representação proporcional dos gêneros. E é inevitável que uma mãe tenha clareza maior das necessidades das mulheres e crianças (e aliás, does doentes e idosos, cujos cuidados sempre sobram mais para as mulheres que para os homens). Com as exceções que confirmam a regra, os países que têm mais mulheres em ministérios e no congresso têm mais direitos para as mulheres.

Veja o mapa aqui! 

Temos uma mulher na presidência, o que ainda é raro pelo mundo afora. Mas na prática o que Dilma fez ou faz diferente de um homem? Que grandes políticas para as mulheres ela deixa como marca de seu primeiro mandato? Ela não foi eleita por ser mulher. Foi eleita por ser a ungida de Lula. Foi e é vendida como gestora eficiente, enérgica, fazedora - uma executiva durona, mais que qualquer homem. E ponto. Se é ou não, não é o assunto aqui.

No último Dia Internacional da Mulher, Dilma discursou garantindo que "a mulher é a nova força que move o Brasil". Bem, então mova-se, minha amiga. Enquanto meia-dúzia discute o sexo dos anjos, a massa das brasileiras não conhece seus direitos, não se organiza, não se reconhece. As brasileiras nem mesmo votam em outras brasileiras para as representar. São "machistas": elegem machos. E isso, linda, é uma coisa que só você pode mudar.

 

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Publicado em 11/03/2014 às 19:44

O primeiro beijo de mentira ninguém esquece

57ffc046a86411e38c8c12afb5ad8ea8 7 O primeiro beijo de mentira ninguém esquece

Terça de manhã. Entre o café e o requeijão, as notícias fresquinhas do dia. Mas não é jornal. Passeio pelos sites de todo dia, brasileiros e gringos. Chego onde interessa, o Facebook e o Twitter. O dia começa romântico: um monte de gente compartilha o mesmo vídeo, "First Kiss, a Film by Tatia Pileva". Todos me recomendam ver esse filminho enternecedor, com ilustres desconhecidos se beijando pela primeira vez.

Gente real. Beijos reais.

Quem já conheceu alguém e foi beijando logo de cara? Felizmente, mais e mais pessoas. A meninada hoje vai direto ao ponto. Combina pelo celular, chega na mina, dá uma ficadinha, e vamos para o próximo. Pena que não era assim na minha época. Só no Carnaval e olhe lá. Poxa, pode ser um bom tema pro meu blog, que anda cheio de temas sérios... mas decido em um microssegundo que a foto do vídeo, essa cima, é meio genérica. Por isso não assisto, porque o assunto é meio palha, e não me ocorre nada pra dizer.

Até que agora achei o que dizer. Porque o vídeo que foi compartilhado por tanta gente, de coração aberto, era só um comercial de roupa. Teve mais de dez milhões de visualizações em um menos de 24 horas. Muito, para um comercial. E tocou as pessoas, santo graal de todo comercial.

Assistindo agora, a estética publicitária está na cara. As pessoas são jovens, enxutas e descoladinhas. Homem com homem, mulher com mulher, mas a maioria dos casais é de sexos opostos. A trilha sonora é de anúncio. O visual é preto e branco, de anúncio, aliás de anúncio antiguinho, anos 80, como aqueles do fotógrafo Bruce Weber.

Atores profissionais ou não, remunerados ou não, é tudo de encomenda.

Todos estão usando roupas da marca Wren, que produziu o filme. Essa informação está nos créditos do filme, mas ninguém parou para ler os créditos. Dá próxima vez presta atenção antes de sair compartilhando, minha amiga!

Eu não escrevi sobre o videozinho. Nem compartilhei. Que bom. Se tivesse feito isso, agora estaria me sentindo um boboca. Essa marca faz de otário justamente as pessoas que acharam o vídeo mais tocante, e por isso o compartilharam. Ou estou sendo boboca eu, antiquado, um dinossauro que não entende as maravilhas do branded content, do native advertising, e do social marketing?

Gente de mentira, beijos de mentira. "First Kiss" é um desses momentos muito esclarecedores sobre onde está, e para onde vai, a comunicação do século 21. Mas eu não recomendo que você veja. E por isso, claro, não vou compartilhar aqui...

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Publicado em 10/03/2014 às 12:42

12 Anos de Escravidão: um Oscar para o preconceito

john ridley lands pilot abc 618x400 12 Anos de Escravidão: um Oscar para o preconceito

John Ridley, roteirista de 12 Anos de Escravidão

Deixa eu te falar uma coisa sobre os crioulos, a minoria oprimida dentro de outra minoria. Estão sempre com problemas, sempre por baixo. Sempre reclamando que ninguém lhes dá uma chance. Notoriamente fracos quando têm que correr atrás de qualquer coisa. Sempre procurando um líder, mas incapazes de procurar uma solução que se baseie em trabalho duro, em depender de si mesmo. E apesar de passarem o tempo bebendo e fumando baseado e tendo um monte de filhos pra receber um auxílio do governo, os crioulos vão te dizer que o estado em que vivem não é culpa deles. Eles não são responsáveis por 5% dos negros estarem presos, nem pela taxa de desemprego de 9,2%. Nem são responsáveis por 11,8% largarem a escola no ensino médio, ou por serem 69,3% das mães solteiras.

O parágrafo acima te parece preconceituoso?

Não fui eu que escrevi. É uma tradução. O autor é John Ridley, escritor e roteirista. Ganhou o Oscar de roteiro adaptado, por 12 Anos de Escravidão. Em 2006, escreveu um ensaio para a revista Esquire, chamado "O Manifesto da Ascendência do Moderno Crioulo Americano ". O trecho acima faz parte. Fez algum barulho na época. Faz mais barulho agora. Traduzi um pedacinho, aliviando um pouco a grosseria - "crioulo" é uma versão bem aguada do original, "nigger". O original está na íntegra aqui.

O artigo de Ridley para a Esquire reforça preconceitos e escamoteia fatos. Atribui principalmente a fraquezas individuais o que tem raiz principal em deficiências institucionais. Elege como exemplos a serem seguidos pelos negros da América, dois negros arquiconservadores, servidores do governo Bush: o general Colin Powell e a ex-secretária de estado, Condoleeza Rice. Finge ignorar as maneiras várias como o poder econômico e político discrimina a população negra nos Estados Unidos (e, aliás a população mais pobre em geral, latinos e imigrantes em geral também; apesar das muitas oportunidades para fazer a América; a desigualdade nos EUA vem aumentando radicalmente).

Só agora me toquei quem é Ridley. Li o artigo da Esquire em 2006, porque foi muito criticado entre os fãs de quadrinhos. Ridley escreveu os roteiros de alguns gibis medíocres, anos antes. Seu próximo projeto é o roteiro e direção de uma biografia de Jimi Hendrix. O trailer foi lançado esses dias. Promete o pior.

No site Alternet.com, Kirsten West Savali estraçalha os argumentos do ensaio de Ridley. Sua retórica é crivada de clichês, mas bate direitinho onde dói. O título é "Porque não comemorar a vitória do roteirista John Ridley no Oscar." Diz que o texto é condescendente, arrogante, enganador. O trecho mais cruel é quando ela resume a intenção de Ridley com seu manifesto: "por favor, Mr. Homem Branco, me deixe definir o que é um crioulo; eu faço o trabalho para o senhor, se me deixar entrar no seu clubinho."

Kirsten, colaboradora do site Huffington Post, é o supra-sumo da correção política, sem humor nem ginga. E, veja só, detesta o filme 12 Anos de Escravidão. Defende que o roteiro de Ridley trai o espírito do livro que lhe serviu de base. Que Ridley faz de Solomon Northrup um negro bonzinho de classe média, do norte, educado, e portanto merecedor de tratamento acima dos outros escravos, analfabetos - como o próprio Ridley sugere em seu "Manifesto". Diz que o roteiro faz de Northrup, que após fugir se tornou um defensor dos direitos dos negros, um coadjuvante na sua própria libertação, protagonizada no filme por brancos.

Enfim: não vou traduzir o artigo todo. Está aqui, em inglês.

Antes do Oscar, escrevi aqui no blog minhas razões para não assistir 12 Anos de Escravidão. Tinha intenções semi-humorísticas, mas nem por isso menos sinceras. Era 100% honesto, e ao mesmo tempo um comentário sobre como decidimos ver um filme ou não (seja você jornalista ou não). Foi visto, espero que lido, por mais de 60 mil pessoas, Rendeu mais de mil comentários. Destes, a imensa maioria é de xingamentos.

Muitos me acusam de mau jornalismo, por escrever uma crítica sem ter visto um filme. É evidente que o texto não é uma crítica; é uma lista, que começa dizendo porque não verei o filme! Quem escreveu isso simplesmente não tem noção do que seja uma crítica. Outros foram direto na canela, me tachando de racista, fascista, e palavreado similar, daí pra baixo. Os mais bisonhos são os que me informam de devo ser gay, atraído por homens negros, sem assumir...

A parte que mais deu o que falar foi a razão número 16: "Não tenho culpa". Evidente que não tenho, não temos, a menor culpa pela escravidão nos EUA, e nem no Brasil. Também não somos culpados pelo massacre dos congoleses pelos belgas, dos judeus pela Inquisição e pelos nazistas, de milhões de chineses por Mao e outros milhões de russos por Stalin, pelas maldades do Império Britânico em suas colônias, dos americanos jogarem a bomba em Hiroshima etc. Isso tudo aconteceu há muito tempo.

O que podemos ter, e escrevi isso, é responsabilidade pelo presente. Hoje, mesmo, nesta linda segunda-feira ensolarada, estão sendo cometidas injustiças imperdoáveis. Podemos não ter culpa também por estas, mas podemos decidir assumir responsabilidade. Tem gente vivendo como escravo em 2014, aqui mesmo em São Paulo, uns cinco quilômetros aqui de casa. Tem governo bombardeando a própria população, enquanto lavamos as mãos - lembra da Síria? E no último sábado, no dia internacional da mulher, a polícia encontrou em Goiânia os corpos de quatro meninas adolescentes, de 16, 17, 18 e 19 anos, uma do lado da outra. Foram colocadas de joelhos e executadas com tiros na nuca. É a chacina nossa do dia a dia. Mal valeu uma notinha na imprensa. Por que? Porque eram pobres e, arrisco, não eram brancas, e portanto duplamente desimportantes no nosso país.

Os mortos que enterrem seus mortos. Nós, vivos, temos o desafio de enfrentar a injustiça de hoje. Entender o passado é importante. Peitar o presente é mais. Mas compreender vem antes de julgar e de agir. O brasileiro cada vez mais parece julgar sem nem tentar entender, e julgar de maneira grosseira e definitiva. Tá cheio de gente intransigente, seguindo padrõezinhos artificiais, pré-fabricados. E isso não vem só de moleques analfabetos, mas também de gente crescida, com diploma universitário. Importamos essa mentalidade bidimensional e bipolar dos Estados Unidos? Tanta coisa boa para chuparmos dos gringos, fomos copiar justamente isso.

Não se trata só dos zumbis politicamente corretos. O outro lado é talvez pior. É o conservadorismo chulo e chulé que se alimenta de nossos piores instintos tribais, fingindo defender o indivíduo, quando sua missão é isolá-lo, e enfraquecê-lo. Vira e mexe estes dois tipos de preconceito se misturam - sim, porque é disso que se trata, preconceito.

John Ridley combina o pior destas duas posições falsamente opostas, e iguais na ignorância. Ridley fatura firme com seu melodrama chororô. E dá outra na ferradura, militando por essa ideologia pseudo-empoderante, pseudo-libertária, que alimenta seu "Manifesto", e é o chaveco chave do grande Capital. Eu já tinha 16 razões para não ver 12 Anos de Escravidão. Agora tenho dezessete. Não vou dar dinheiro nem moral para esse babaca.

 

 

 

Publicado em 27/02/2014 às 10:42

16 razões para não assistir 12 Anos de Escravidão

12 anos 16 razões para não assistir 12 Anos de Escravidão

12 Anos de Escravidão é o mais forte concorrente ao Oscar. Concorre em nove categorias, incluindo todas as principais - melhor filme, ator, diretor. Já ganhou o prêmio de melhor filme da academia britânica e nos Golden Globes.

É a história de Solomon Northrup, um negro livre, que é capturado em 1841, levado para o Sul dos Estados Unidos, e escravizado. Passa 12 anos longe da família. Sofre o diabo até conseguir ser libertado. É baseado no livro de Northrup, lançado em 1853.

Não assistirei. Essas são as razões.

 

JÁ VI ESSE FILME

Eu era criança quando passou na TV a minissérie Raízes. O mundo parou para assistir a saga de Kunta Kinte, capturado na África, escravo nos EUA. Depois vi outros com tema similar, Amistad, Queimada etc., e chega. Eu abriria exceção para ver um filme inteligente sobre a escravidão no Brasil. Mas nunca fizemos e duvido que façamos.

 

É FILME DE JUDIAÇÃO

Parei de ver filme com tortura quando meu filho nasceu. Não suporto ver gente sendo espancada, maltratada, picada em pedacinhos. Não assisti nenhum desses Jogos Mortais, e fechei os olhos nas cenas mais horríveis de Django Livre. Virei um coroa banana. Li sobre as "cenas fortes" de 12 Anos de Escravidão, e não são para o meu estômago.

 

É FILME DE CHORADEIRA

Não vejo filmes lacrimosos, sejam com escravos ou não. A Cor Púrpura é o único filme de Steven Spielberg que nunca vi nem verei.

 

A FOTOGRAFIA É LINDA

Vi no trailer aquela luz dourada, aquele enquadramento épico. Não tem recurso cinematográfico mais repulsivo que fotografar lindamente o horrível.

 

O DIRETOR É PSEUDO

Steve McQueen é inglês, negro, mora em Amsterdam. É metido a artista, fotografa, faz esculturas, dirigiu filmes experimentais. Cita como grandes referências Andy Warhol e a Nouvelle Vague.  É casado com uma crítica de arte. Vi Shame, filme anterior dele, sobre um viciado em sexo. É lentíssimo, a maneira mais preguiçosa de denotar realismo. Fora que tem o nome errado. O Steve McQueen que eu cresci curtindo era americano, branco, tarado por carangas e casado com Ali McGraw.

 

É FILME PARA GANHAR OSCAR

Quem vota nos prêmios do Oscar? Já expliquei em detalhes uma vez, leia aqui. Mas o prêmio de melhor filme geralmente vai para histórias de superação, dramáticas, tocantes, e se tiver minorias envolvidas, as chances aumentam.

 

É FILME PRA GANHAR DINHEIRO

McQueen sempre fez filme pra ganhar prêmio, e ganhou muitos. Agora fez um pra ganhar prêmio e dinheiro. Brad Pitt é o produtor, e espertamente reservou um papel para si mesmo, para turbinar a possibilidade de faturamento. 12 Anos de Escravidão custou vinte milhões de dólares. A bilheteria já passa dos 130 milhões. Se levar uns Oscars, pode chegar a duzentos milhões.

 

É BASEADO EM UMA "HISTÓRIA REAL"

Proliferam filmes que se dizem baseados em histórias reais. É uma tática marketeira pra fazer o espectador se importar com o filme. Muitas vezes são só ligeiramente inspiradas na realidade.

É o caso? Não sabemos. Northrup não escreveu 12 Anos de Escravidão, ou pelo menos não escreveu sozinho. Aparentemente ele contou a história para David Wilson, escritor profissional, que era branco. Northrup foi fiel aos acontecimentos? Wilson foi fiel ao relato de Northrup? Jamais saberemos. O livro vendeu bastante quando lançado, mesma época do sucesso de outro livro sobre a crueldade da escravidão, "A Cabana do Pai Tomás".

 

OS SOFREDORES SÃO LINDÕES

Já viu filme em que as minorias perseguidas são corcundas, banguelas, desconjuntadas? Nem eu. E nem você verá em 12 Anos de Escravidão.

 

É FILME OBRIGATÓRIO

De vez em quando aparece um desses, que todo mundo tem que assistir, porque "importante", edificante, promove valores etc.

 

BRAD PITT

É ruim em filme de ação e pior que péssimo em drama. Também produziu este filme, o que talvez explique o visual estilo "Lendas da Paixão". Brad devia só fazer comédia, onde manda bem (vide Bastardos Inglórios e Queime Depois de Ler).

 

ELENCO DE GIBI

Michael Fassbender é Magneto. Benedict Cumberbatch é Sherlock Holmes. Eu veria um filme promovendo o encontro do mestre do magnetismo com o mestre dos detetives. Mas não este.

 

A CRÍTICA É UNÂNIME

E toda unanimidade é burra. De 250 críticos pesquisados pelo site Rotten Tomatoes, 96% deram notas 9 ou 10 para 12 Anos de Escravidão. Foi escolhido como melhor filme de 2013 por Peter Travers e Owen Gleiberman, respectivamente da Rolling Stone e Entertainment Weekly, que não entendem nada de coisa nenhuma.

 

E OS ESCRAVOS DE HOJE?

A escravidão continua, disfarçada ou semi. Muitos dos governos que restringem a liberdade de seus povos contaram e contam com o apoio financeiro e militar dos Estados Unidos. Para citar um óbvio, sobre o qual escrevi, está aí a Arábia Saudita. Hollywood é hipócrita: só aplaude filme-denúncia sobre o passado distante.

 

PARECE CHATO PRA DEDÉU

Assisto filmes desde 1970 e aprendi a confiar na minha intuição: se parece ruim, é ruim.  Também aprendi com Jorge Luiz Borges a relaxar sobre minhas supostas obrigações de ler ou assistir isso e aquilo. Ele ensinou: tudo se permite a um livro, menos que ele seja chato. Vale para cinema - em dobro.

 

NÃO TENHO CULPA

Todo império teve seus escravos, da Mesopotâmia à Inglaterra. Na América Latina, portugueses e espanhóis escravizaram os nativos. Todos nós temos antepassados escravos, servos, oprimidos. Os africanos foram trazidos à força para a América, crime imperdoável - mas um entre muitos, cometido há muito tempo.

Me incomodam bem mais os crimes cometidos hoje. Não tenho a menor culpa pelo sofrimento dos escravos brasileiros, que dirá dos escravos americanos do século 19. Assino embaixo da análise do escritor Orville Lloyd Douglas, canadense e negro: "não vou assistir. Esses filmes são criados para uma audiência branca e liberal, para fazer esse público se sentir culpado".

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Publicado em 26/02/2014 às 17:31

Dois braços decepados, dois crimes, muitos culpados

Manchete de ontem: mulher quebra o braço. Vai para hospital público. O braço gangrena - negligência. Ela morre. Manchete de hoje: mulher tem braço amputado. Foi empurrada da plataforma do metrô por um louco Sobreviveu, está na UTI. Nos dois casos parece crime. Nos dois casos a responsabilidade vai muito além.

Aldinez da Silva, 38, quebrou o braço caindo de moto, em Maceió. Em vez de cirurgia, teve o braço engessado, no Hospital Geral do Estado. O braço apodreceu. A dor era intensa. No hospital, só trocaram seu gesso.

Um médico se ofereceu para operar, mas só se lhe pagassem R$ 3 mil por fora. A família conseguiu arrecadar R$ 2 mil. Nada feito. A infecção tomou corpo de Aldinez. Essa foto registra como estava a mão dela. Como alguém pode ser negar a ajudar uma pessoa que está sofrendo tanto?

mao Dois braços decepados, dois crimes, muitos culpados

Maria da Conceição foi empurrada da plataforma. Por um louco, parece; cometeu o crime e saiu sorrindo. Do jeito que é o Metrô em São Paulo, o incrível é que não aconteça uma dessa a cada hora. Terça passada eu estava no metrô Barra Funda, cinco e meia da tarde. Plataforma lotada e lotando cada vez mais. Ninguém respeita a linha amarela de segurança.

Empurra empurra. Quase que cai nos trilhos um gordão espaçoso, que estava bem na pontinha. Todo dia é isso. Pela única foto disponível, Maria da Conceição é bem bonita. Completou 28 anos ontem. Trabalhava no dia que perdeu o braço. Que judiação.

Se tivesse seguro saúde, Aldinez estaria hoje em casa, curtindo os cinco filhos.

Se estivesse dirigindo, Maria da Conceição não teria perdido o braço, no dia que completou 28 anos.

É uma maneira de colocar as coisas. É a única maneira que o Brasil nos

oferece: correr atrás dinheiro, ao custo que seja, para tentar escapar da vala comum.

Há uma maneira melhor de viver. Começa reconhecendo que os dois casos têm os mesmos responsáveis: o poder público. O Brasil. No limite: nós.

Se o atendimento da saúde pública fosse digno, Aldinez estaria viva.

Se o transporte público fosse digno, Conceição estaria inteira.

Porque não é? Porque aceitamos que seja assim.

Criminosos e loucos e negligentes sempre existirão. Mas criamos um ambiente propício para a desgraça. Nenhuma surpresa que todo dia seja esse inferno.

Anos atrás, o senador Cristovam Buarque propôs que criássemos uma nova

lei: todo filho de político e funcionário público seria obrigado a estudar em escolas públicas.

É o único jeito de garantir que os poderosos vão destinar recursos para o ensino público, explicou. Claro que ele sabia que uma lei como essa jamais seria aprovada pelo próprio Congresso. Era marketing, provocação, ou os dois.

Pois é a única lei que precisa ser aprovada no Brasil. E não só pra educação. Para tudo. Só no dia que os gestores públicos tratarem seus acidentes no SUS, e forem para o trabalho de metrô e ônibus e trem, teremos o saúde e transporte que todos merecemos. Se é para ir para o pau nas praças, é uma causa bem melhor que tentar cancelar a Copa.

Enquanto não mudamos o Brasil, cabe assumirmos, a cada dia, a culpa por uma nova manchete, mais uma Aldinez, outra Conceição.

Pode ser crime do médico negligente, do louco que empurrou.

É responsabilidade de todos nós.

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Publicado em 25/02/2014 às 13:01

Assistindo o jornal da TV

forasta1 Assistindo o jornal da TV

Veja agora! Vejo. Afinal, nunca assisto jornal televisivo. É bom de vez em nunca. E de fato preciso de algo para escrever no dia seguinte. O que eu quero mesmo escrever daria muito trabalho e não vai dar tempo essa semana. Quem sabe aparece um ganchinho bom pro blog?

Vamos começar pela Venezuela. O que acontece ali todo mundo sabe. Só que todo mundo sabe duas coisas opostas. Uma parte de todo mundo sabe que aquilo é uma ditadura e uma bagunça. E a outra parte tem certeza que é intriga da oposição, que Chavez & Maduro são o único governo do país que fez alguma coisa pelos pobres. O que significa que na prática ninguém sabe nada.

Mas vamos para a Ucrânia então! A gente nem sabe onde é a Ucrânia, o que faz e pra que serve. Mas bacana, o povo na rua derruba a ditadura. Depois tem que por algo no lugar. Mas sempre é melhor arriscar acertar do que se conformar em errar. E sempre é melhor a cara do ditador em cartaz de procura-se do que discursando na TV. Mas vamos combinar que povo na rua quebrando tudo é bom em outros países. Aqui ordem e progresso, faz favor.

E agora o Roberto Carlos come bife por dinheiro. E a Fátima Bernardes elogia salsicha por dinheiro. Desconfio que nem o rei come picanha e nem a rainha dá nuggets pros trigêmeos. Mas contratar os famosos deve ajudar a vender, porque empresa não joga dinheiro fora. Se bem que essas empresas aí têm bastante dinheiro pra jogar fora - o nosso. Quando tem de dinheiro público investido e emprestado nesses gigantes do capitalismo nacional? Mas o intervalo comercial acabou e vamos mudar de assunto.

E falando em trabalho x capital o MST faz festa e passeata e quebra-quebra patrocinado pela Caixa e BNDES, R$ 550 mil. É um absurdo o PT patrocinar a anarquia! Mas ué, o governo também não dá dinheiros muito maiores que esse para o agronegócio, os ruralistas, as festas de peão? Sim! Dá até pra contratar o Roberto e a Fátima. Então tá tudo certo. Brasil: o país do capitalismo sem risco e dos revolucionários governistas.

E quanto crime. E que maravilha ver o Roberto Jefferson indo em cana. Dá uma sensação boa de que o Brasil caminha para frente. Aguardando ansioso a prisão de um tucano de alta plumagem! Mensalão mineiro, Alstom, Siemens, tem 500 milhões de razões para o PSDB entrar para o clube da cadeia.

Um passo pra frente, um para trás, três para os lados. A torcida organizada matou um torcedor do outro time. Vigésima milionésima vez. Não tem jeito, o homem é um macaco. Deixamos a floresta mas o instinto tribal não nos larga. O esporte, claro, apela aos nossos instintos mais primitivos - nada estranho o pau quebrar. Imagina na Copa! Vamos linchar os argentinos? Mas antes da Copa tem o Carnaval e depois tem a eleição. E agora é hora do intervalo com Marina Silva e passistas requebrando, sustentabilidade, squidum-lelê.

E fim e começa a novela e tiro os olhos da telinha e agradeço por ter a minha vida, e ver jornal da TV só por diversão.

 

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Publicado em 21/02/2014 às 10:12

O mundo será melhor quando as meninas brincarem de guerra

gun girls O mundo será melhor quando as meninas brincarem de guerra

Outro dia participei de um debate sobre direitos da criança e do adolescente que acabou chegando à questão dos brinquedos.

Sim, brinquedos. Estávamos em uma escola pública de uma cidade pequena. A criançada queria saber de onde vem a determinação de que meninas brincam de bonecas e meninos brincam de luta, de tiro, jogam videogames violentos.

De onde vem isso?

São as pessoas que determinam que meninas brincam de boneca e fogãozinho enquanto meninos brincam de guerra.

Tem de ser assim? Não. Eu, menino, brincava com armas e soldadinhos, e não sou nem um pouco violento. Nunca tive fogõezinhos. Mas adoro cozinhar.

O mesmo vale para as meninas.

Na discussão na escola, uma pessoa fez uma pergunta interessante:  qual é o problema de uma menina brincar com uma metralhadora? “O risco é que ele se tornará uma boa mãe?”

Pois é. De fato uma garota que participar de brincadeiras violentas saberá, quando for mãe, lidar com as brincadeiras violentas de seus filhos - sejam eles meninos ou meninas.

Meninos e meninas têm o direito de brincar, de escolher seus brinquedos e de decidir por quais áreas têm aptidão.

Quando a criança brinca, ela ativa o cérebro por meio da imaginação, da capacidade de concentração e da escolha de alternativas. Isso é super importante para o seu desenvolvimento. Isso inclui brincadeiras brutas, que geralmente consideramos mais típicas de meninos.

Então vamos deixar as crianças brincarem com liberdade. Se a menina quer jogar videogames violentos como GTA V e comemorar seu aniversário atirando nas amiguinhas em um paintball, ótimo.

O mundo será melhor quando os meninos e meninas não forem recriminados pela escolha dos seus brinquedos. Quando puderem desenvolver suas aptidões sem serem talhados por preconceitos.

E quando os meninos puderem brincar de boneca e as meninas puderem brincar de guerra.

(Concorda? Discorda? Antes de decidir, leia isto).

 

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Publicado em 20/02/2014 às 16:31

Os Guardiões da Galáxia e os guardiões de Bill Mantlo – nós

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A Marvel revelou ontem o primeiro trailer de Guardiões da Galáxia. É uma potencial nova franquia para a empresa. É uma equipe de heróis espaciais, um humano, vários aliens. São personagens obscuros. O filme será lançado em agosto. O diretor, James Gunn, provou que sabe fazer filmes divertidos uma década atrás, escrevendo os dois primeiros filmes para cinema de Scooby-Doo. Também fez filmes de terror. É um nerdaço. Bom sinal.

Guardiões da Galáxia - Trailer Completo (legendado) por koalaobeso no Videolog.tv.

 

Os Guardiões tiveram várias fases nos quadrinhos, nenhuma especialmente bem-sucedida. Da equipe criada em 1969 por Arnold Drake e Gene Colan, só sobrou o nome. Este filme é baseado em um time novo, criado em 2007 pela dupla Dan Abnett e Andy Lanning. Novo, mas reunindo personagens antigos.

Os Guardiões são formalmente liderados por um herói convencional, um cara forte e boa pinta, Peter Quill, o Starlord. Mas o personagem que rouba a cena nos gibis, e promete fazer igual no cinema, é Rocket Racoon. Parece um racoon, um guaxinim, esperto e rápido e briguento como um. Mas na verdade é um alienígena de maus bofes, capitão de espaçonave, bom de briga e de tiro. Foi batizado assim em homenagem a Rocky Racoon, a canção dos Beatles.

Rocket foi criado em 1976 pelo roteirista Bill Mantlo e o desenhista Keith Giffen. Bill era pau para toda obra na Marvel. Aprendeu com o Rei: moleque, era vizinho de Jack Kirby, e frequentava sua casa. Bill não se tornou uma lenda da HQ. Mas escreveu muitas histórias, quase todas para a Marvel, muitas com um traço de crítica social. Assinou uma sequência marcante de aventuras do Hulk. Fez de séries que em princípio seriam puros caça-níqueis, épicos que os fãs antigos não esquecem - ROM e Micronautas. Criou personagens marcantes, Manto e Adaga. Escreveu uma renca de histórias do Homem-Aranha. Era nome fácil nos créditos da Marvel nos anos 70.

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Em 1992, Bill estava meio aposentado dos quadrinhos. Casado, com dois filhos, tinha se formado advogado. Trabalhava muito e ganhava bem menos que na Marvel, labutando em uma ONG sem fins lucrativos, advogando para pessoas sem recursos.

Foi atropelado indo para o trabalho. Perdeu uma parte do cérebro, e da consciência. Desde então requer cuidados especiais 24 horas por dia. Está em um abrigo, no Queens, para idosos e pessoas que sofreram trauma cerebral. Seu quarto não tem TV, rádio, revistas, livros ou fotos nas paredes. Michael, seu irmão, assumiu a bucha, mas luta com dificuldade. Bill não tinha seguro de saúde.A história de como ele chegou a melhorar bastante com reabilitação, mas teve o financiamento para seu tratamento cancelado, é de cortar o coração. Prepare o coração antes de ler.

f Os Guardiões da Galáxia e os guardiões de Bill Mantlo   nós

Bill Mantlo com a cunhada, Liz

De vez em quando, alguém toma alguma iniciativa para captar recursos para Bill Mantlo. Já fizeram livros, mostras, sessões de autógrafos. Tudo ajuda, e nada é o suficiente. O dinheiro vai para comprar comida, roupas, remédios. O certo - moral, não legalmente - é que Bill recebesse um pedacinho da receita de suas criações. Não é questão de justiça, mas de Justiça. Mas empresas jamais fazem mais do que a lei as obriga.

 

Lembrei de Bill vendo o trailer de Guardiões da Galáxia. E de Dan Abnett e Andy Lanning. E de Jim Starlin, criador de outros dois integrantes da equipe, Gamora e Drax. E de Jack Kirby e Steve Ditko, e tantos outros criadores dos quadrinhos que merecem mais que uma lembrança. Merecem crédito e recompensa financeira. Escrevi um longo texto sobre o assunto, quando estreou Os Vingadores. De lá para cá, nada mudou. Nem mudará.

O roteirista Greg Pak, fã de Mantlo, publicou ontem um texto lembrando a situação de Bill, e nos chamado à responsabilidade. Se você viu o trailer, viu Rocket Racoon detonando, lembre que um homem criou esse personagem tão legal, e esse homem precisa de ajuda, da sua ajuda. Bill Mantlo tem um guardião, seu irmão Michael. Precisa de mais guardiões.

Nos cabe cobrar. Cobrar a Marvel e a Disney. Na ausência de responsabilidade corporativa, cobrar James Gunn, e o astro que fará a dublagem de Rocket Racoon, Bradley Cooper: hei, que tal doar um pedaço de seus polpudos cachês para Bill Mantlo ter roupa pra vestir e comida para comer?

E nos cabe ir além de cobrar os ricos e famosos. Meu amigo, minha leitora: se você planeja assistir Guardiões da Galáxia, tem obrigação moral de puxar o cartão de crédito e fazer neste exato momento uma doação para Bill Mantlo. Eu fiz minha doação ontem. Hoje recebi essa mensagem por e-mail:
On behalf of my brother, BILL MANTLO, I want to thank you for your donation to the Bill Mantlo Support Fund. It is donations like yours that enable Bill to have an improved quality of life, and hope for a happier & healthier future. Your support is greatly appreciated!

THANK YOU SO MUCH,

Michael Mantlo,

Guardian for

BILL MANTLO


Fazer o que é certo não é bonito só no gibi ou no cinema. É mais bonito ainda na vida real.

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