Uma das minhas primeiras memórias é de estar aninhado no colo da minha mãe, no sofá da sala da rua XV de Novembro. A cidade era Piracicaba, o televisor preto e branco, e o programa, A Família Trapo. Não estava sozinho. O país inteiro sintonizava no mesmo canal. Quando eu era criança, cultura pop no Brasil tinha nome e sobrenome: TV Record.

Foi nos anos 60 que os televisores finalmente se instalaram no centro das salas brasileiras. E nenhum canal era mais popular que a Record. Tinha a Famíia Trapo, o programa humorístico que todo mundo adorava. As piadas de Ronald Golias - Carlos Bronco Dinossauro! - rendiam pelo Brasil afora a semana toda.

Tinha o primeiro jornal televisivo que realmente impactava a opinião pública: Repórter Esso. Programas de auditório que arrasavam a concorrência: Esta Noite se Improvisa, Corte Rayol Show. Tinha transmissão de futebol e o primeiro Mesa Redonda, com Geraldo José. Novelas que davam assunto para nossas mães, como As Pupilas do Senhor Reitor.

A Record tinha Hebe Camargo, programa obrigatório do domingo à noite. Quem era alguém sentava no sofá da Hebe. Inclusive todos os artistas internacionais que visitavam o país. Todos os programas de música que importavam, que influenciavam os jovens, eram na Record. Jovem Guarda: Roberto, Erasmo e Wanderléa. O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues.

jpg ju Repensando a Rainha do Pop

Os grandes festivais que revelaram gente como Chico Buarque e a turma da tropicália. Tinha até seu próprio super-herói: o Capitão Sete. A Record, enfim, lançava as tendências, ditava as modas e dominava totalmente nosso imaginário. Era a rainha do pop.

Depois - bem, depois o mundo mudou. Quarenta anos depois, nenhum canal de televisão pode querer se arrogar a influência que a Record possuía na época. A razão principal é a internet. Que faz de cada um de nós produtor e consumidor de informação, entretenimento, questinamento - enfim, conteúdo.

A era da mídia de massa está morrendo a cada novo blog criado, a cada novo comentário postado, a cada visita ao Orkut, a cada busca. Isso é ótimo. O mundo que vai emergir desta transformação será radicalmente diferente do que o que vivemos. Porque sem mídia de massa, é impossível consumo de massa, economia de massa, política de massa. As consequências e as oportunidades são inimagináveis.

As grandes empresas de comunicação correm para demonstrar sua relevância no mundo novo. Quem não for importante na internet não sobreviverá. O projeto do R7 é muito interessante por várias razões. As duas que fazem mais diferença: um, o R7 entende que a internet - que não é e jamais será uma mídia de massa - pode e deve ser popular e atingir e atender a todos. Dois, o R7 pretende integrar organicamente o portal e os canais da Record.

Já critiquei muitas vezes o fato da internet brasileira ser habitualmente pensada como um veículo de mídia impressa, dirigida a Classe AB. Mas estão me dando a chance de ir além da crítica, então vou. Prefiro ser estilingue, mas depois de uma certa idade as vidraças ganham lá seu charme.

Por isso, quando fui convocado para trazer meu blog ao R7, ficou difícil dizer não. “Você vai ser o cara da cultura pop”, me disseram. Aceitei e avisei que minha definição de pop é bem ampla. Sou seguidor de Marcel Duchamp: cultura pop é tudo que eu chamar de cultura pop. Inclui tecnologia, política, mídia, economia, sustentabilidade. Inclui música, cinema, TV, livros e gibis. Inclui diversão fútil, crítica destrutiva e obsessões pessoais.

É preciso deixar claro que cultura pop é sempre a favor: refrão, sedução, esperteza e marketing. Seu lado b é a cultura rock, que é sempre do contra: rebeldia, perigo, coragem sem limites. Uma não vive sem a outra. Porque vivemos na tensão permanente entre pertencer e abandonar, entre aquietar e peitar, entre construir um ninho e incendiar todos os castelos.

Agora, a novidade: este blog vai avançar muito em pouco tempo. Porque passa a contar com o suporte de uma editora, Juliana Zorzato, e de um consultor, Marcelo Soares. Juliana vem de dois anos em uma revista de tecnologia. Marcelo é bamba da reportagem investigativa e interativa. Juntos, nós três pretendemos fazer - um, dois, três, respire fundo e mergulhe - jornalismo de internet. Interativo, colaborativo e experimental.

O que significa: colaboração, pensamento coletivo, gráficos, mapas, vídeo, planilhas e quantas ferramentas aparecerem que permitam a reinvenção do jornalismo.

Nosso papel é repensar como se faz jornalismo na internet. Com dados surpreendentes e opinião contra a corrente. Vamos falar muito sério sobre besteirinhas e da maneira mais leve possível sobre temas seríssimos. E estimular a participação de quem pode e quer participar.

Porque entendemos que um artigo publicado na internet só está “pronto” depois que foi postado, comentado, twittado, depois que repercutiu e gerou outras pautas, outras discussões. É um círculo que se completa. A Record foi fundamental para moldar minha compreensão do que é cultura pop, tantos anos atrás. Agora me oferece uma oportunidade única. De repensar o que é jornalismo, de repensar a cultura pop e de me repensar.

A missão inicial é te converter para à nova realidade sobre as grandes empresas de comunicação. Que é: nós ganhamos. Nós chegamos lá. Nós não podemos mais ser contra a mídia porque agora nós é que somos a mídia. Os loucos tomaram o asilo. Os anunciantes precisam de nós, as grandes corporações precisam de nós. Temos que lidar com isso. O que é bem mais fácil do que parece.

Os jornais e tevês e revistas e portais, tudo isso pode ser muito maior e melhor que é. A mídia de massa pode ser útil. É uma arma como qualquer outra. Tudo depende de para onde você a aponta. E quem puxa o gatilho. Agora somos nós.


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