Sessenta anos atrás foi fundada a República Popular da China. Agora é hora da República Pop da China. Porque no país da revolução cultural, a cultura popular se transforma na mesma velocidade de todo o resto do país: além da barreira do som.
Um casal de amigos voltou recentemente de lá. Estavam encantados com a conservação dos monumentos, a comida deliciosa, a variedade de paisagens e atrações, e principalmente com a velocidade vertiginosa das mudanças na China.
Contradições pululam, claro. É um lugar onde convivem na mesma avenida uma loja Chanel e outra loja que vende cinco versões pirata da mesma bolsa Chanel, em cinco níveis diferentes de qualidade e preço.
É claro que esta exuberância toda não vai ficar contida para sempre. O cinema chinês, por exemplo, é de primeira faz pelo menos vinte anos.
Mas para a modernidade chinesa impactar culturalmente no mundo, falta o país que tanto exporta, começar a vender sua música. Para o mundo. Porque nada vende tanto o peixe de um país quanto seus popstars.
Um astro embala atitude, sex-appeal, estilo, imagem e conteúdo. É mídia e mensagem, produto e marketing ao mesmo tempo. Quer embaixatriz melhor da França que a primeira-dama Carla Bruni?
Infelizmente, o maior popstar da China está morto. É Leslie Cheung, cantor popularíssimo e compositor talentoso, astro de filmes chave do novo cinema chinês, como Alvo Duplo (de John Woo), A Chinese Ghost Story (Tsui Hark) e Adeus, Minha Concubina (Chen Kaige).
Cheung era bonito, elegante, idolatrado e bissexual assumido. Foi talvez a maior expressão do Cantopop, a música pop moderna de Hong Kong, que combina elementos tradicionais da música chinesa com o rock, o jazz e o pop internacional.
Deprimido crônico, em primeiro de abril de 2003 pulou do 24º andar do hotel Mandarim de Hong Kong. Seu bilhete de despedida deixava uma pergunta irrespondível: “na minha vida nunca fiz nada de mal. Por que as coisas têm que ser assim?”
Olha ele aqui cantando com outra superstar morta, Anita Mui, a Madonna da Ásia:
Cheung deixou a vida, entrou para a história e deixou herdeiros de montão. O C-Pop lembra o J-Pop: consome ídolos com voracidade.
E a música chinesa - dividida fundamentalmente entre Cantopop, cantada em cantonês, e Mandopop, em mandarim - é tão variada quanto a japonesa ou mais. Tem de tudo para todos os gostos: pop açucarado, hip hop, rock de todo tipo.
O melhor lugar para ouvir música chinesa é o portal Eolasia. O problema é saber quem é quem. Tente, clicando aqui.
Minha tendência favorita: grupos formados por irmãos. O mais famoso certamente é o Twins.
Charlene Choi Cheuk-Yin e Gillian Chung Yan-Tung eram superlindas e superpopulares. De 2001 a 2008, lotaram estádios, venderam milhões de discos e ajudaram a vender Coca-Cola, celulares Nokia, televisores LG.
A dupla acabou no maior escândalo do mundo pop chinês, quando fotos tiradas pelo cantor Edson Chen de suas relações sexuais com Gillian - e outras superstars como Bobo Chang e Cecilia Chung - caíram na internet.
Chen se desculpou, explicou que as fotos tinham sido roubadas dele, e desapareceu da vida pública. Gillian a seguiu. Fãs do Twins fazem campanha pela volta da dupla. Vai acontecer.
Uma dupla de irmãos além das classificações fáceis são os gêmeos Julio e Dino Acconci, da banda de rock Soler.
São filhos de pai italiano e mãe karen, uma etnia de Miyanmar. Criados em Macau, na China, cantam em sete línguas diferentes.
As irmãs Janice e Jill Vidal talvez sejam as mais interessantes da novíssima geração, porque muito diferentes uma da outra, e também cidadãs do mundo. São filhas de pai filipino e mãe coreana, nascidas em Hong Kong.
Janice é superpop, Jill lembra uma diva black americana. Janice é superfofa, Jill foi presa com drogas em Tóquio.
Talvez falte o povo cantar em inglês, a língua do mundo. Meu grupo chinês favorito é o Shanghai Restoration Project. Ouça e veja se dá pra resistir:
Miss Shanghai
Hoje, estes e muitos outros artistas já são muito populares nos países da Ásia - Tailândia, Malásia, Coréia. Começam a ser famosos no Japão. E, claro, são adorados entre as comunidades chinesas dispersas pelos quatro cantos do mundo.
Todos fazem turnês pelo Canadá, Estados Unidos, Austrália. Como tem cada vez mais chinês no planeta, eles estão cheios da grana e se espalhando pelos cinco continentes, a ascenção da cultura pop Made In China é inevitável.
Que venha o C-Pop - tudo no mundo já é fabricado na China, por que não a música também?


