Hoje é aniversário da Fundação da Petrobras (1953).

Lembrei desse texto que escrevi sobre a Apple e a pesquisa "A Empresa dos Sonhos dos Jovens", versão 2009.

Veja:

A Apple está queimada.

De uns três meses para cá, aparecem mais e mais denúncias de como operam os seus fornecedores na China. Condições de trabalho péssimas, salários ridículos etc.

Faltou alguém para contextualizar a coisa direito. Até Umair Haque, do blog Edge Economy, fazer a pergunta natural: quanto custaria para produzir um iPod em condições de trabalho decentes?

O “orçamento” que ele fez (assumidamente meio nas coxas) leva em conta as condições de produção de um iPod nos Estados Unidos. Que nem de longe tem o padrão trabalhista de, sei lá, a Suécia.

Pois um iPod Classic custaria 23% a mais para produzir nos EUA que na China. Exatamente U$ 58,00 a mais. Um iPod Classic “do mal” custa US 249. Um iPod “do bem”, US 307. O artigo e a planilha estão aqui

 

i pod classic O preço justo de um iPod e a empresa dos sonhos dos jovens

 Agora, o desafio de Haque.

A Apple é o que ele chama de “capitalista construtivo”. Afetou positivamente mercado após mercado, desde a criação do primeiro Mac. Mas só pelo lado da demanda.

Agora terá que dar o passo seguinte, que é ser construtiva em toda a cadeia. O que inclui se responsabilizar pelas condições de trabalho de seus fornecedores. E pelo impacto no meio ambiente. E pelo descarte dos produtos velhos. E por aí vai.

Isso tudo tem um custo. Que a Apple pode querer repassar integralmente ao consumidor. Se arrisca a perder mercado. Você topa pagar 23% a mais por um iPod, ou um MP3 Player genérico começa a parecer atraente?

Claro que a Apple pode muito bem dar uma banana para tudo isso. Mas aí corre outro risco sério. Porque um concorrente pode chegar com um MP3 Player estiloso e “do bem”. E causar um estrago espantoso e talvez irreversível.

Já aconteceu muitas vezes antes e acontece no nosso nariz, o tempo todo.

O ser humano normal quer fazer o que é certo, justo e benéfico para a humanidade e o meio ambiente - contanto que seja barato ou grátis, dê o mínimo de trabalho e de preferência ainda traga alguma vantagem.

Mas não basta “cada um fazer a sua parte”. Este discurso é uma maneira de governos e empresas se eximirem das suas responsabilidades.

Como também é desculpa furada das empresas que elas têm antes de mais nada responsabilidade com seus acionistas, que o próximo quarter é o que importa etc.

Sei, quanto mais lucro melhor, concordo totalmente e quero o meu.  Mas “faça a coisa certa ou muita gente vai saber que você está fazendo a coisa errada” é a nova lei e não tem volta.

Uma nova pesquisa ilumina a questão. Chama-se A Empresa dos Sonhos dos Jovens, versão 2009. Foi perguntado para 30 mil jovens brasileiros, universitários e recém-formados: qual a empresa dos seus sonhos?

Primeiríssimo, pelo quarto ano consecutivo, a Petrobras. Que é a empresa que mais joga CO2 no ar do Estado de São Paulo. Será que os entrevistados sabem disso e não estão nem aí, ou faltou alguém avisar?

Se eles sabem e mesmo assim acham a Petrobras o ó do borogodó, estão pouco se lixando para responsabilidade ambiental, social, essas coisas.

Os entrevistados querem é salário jóia e segurança no emprego e dane-se o resto. Eles são parte da elite brasileira do futuro muito próximo. Se são irresponsáveis neste nível, estamos bem ferrados.

Se os entrevistados não sabem do lado negro da Petrobras - e certamente o Sindicato dos Petroleiros teria mais algumas coisas a dizer sobre isso - é porque são mal-informados, o que também é má notícia.

Mas tem um grande lado de responsabilidade da imprensa, nosso.

Porque naturalmente a Petrobras só vai divulgar as muitas coisas boas que faz. E é ótimo que ela faça mesmo, apóie ONGs, sustente o projeto Tamar. Banque mil iniciativas culturais etc.

Mas a função primordial do jornalista é jogar luz justamente sobre as coisas que as grandes empresas, os governos, os poderosos querem esconder.

Jogar luz forte, holofote, laser. Para falar bem já tem a assessoria de imprensa, a agência de publicidade, e - infelizmente - uma pá de jornalistas que não sabe bem de que lado joga. Ou prefere não saber.

E a minha função, ou ambição, é fazer isso e mais: colocar em pauta as possibilidades que enxergo para, vão desculpar a inocência e megalomania, um mundo melhor. Por mais absurdas que pareçam em princípio.

Você teria orgulho ou vergonha de trabalhar numa empresa com o passivo ambiental da Petrobras?

E nas empresas que são as próximas na pesquisa, Google, Unilever, Vale, Nestlé, Natura, Itaú /Unibanco?

E na Apple?


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