Eu nunca gostei de escola. Quer dizer, gostava dos amigos, de brincar, mas das aulas mesmo não. De nenhuma disciplina.
Mas minha birra com o sistema educional não é pessoal. É uma conclusão racional. Estudar não serve para nada.
Por duas razões. Primeiro, porque as escolas, em qualquer lugar do planeta, não ensinam muitas coisas importantes. O currículo brasileiro é especialmente deficiente.
Um amigo passou o ano de 1983 fazendo o segundo ano de high school no Canadá. Eles tinham aula de culinária, aprendiam a consertar motor do carro, encanamento.
Outro camarada, austríaco, aprendeu no colegial danças diversas - valsa, tango etc. Coisas práticas e úteis.
Uma boa escola deveria ensinar você a fazer molho de macarrão, planejamento financeiro e tudo sobre sexo. Você conhece alguma assim?
A segunda razão porque estudar não serve para nada é que as escolas brasileiras são uma porcaria, do maternal ao doutorado.
É o resultado de todas as pesquisas comparando escolas de diversos países.
E mais: é o resultado de todos os torneios mundiais, tipo “os mais inteligentes da França contra os dos EUA, Coréia, Brasil etc.”.
Não é só que a gente estuda pouco (seis anos é a média brasileira). É que mesmo o brasileiro privilegiado, quem estuda muitos anos em escolas muito boas, sabe muito menos que o equivalente de outros países.
Então, o brasileiro é burro. O que é um problema para o presente e mais ainda para o futuro.
Já escrevi sobre este assunto umas cem vezes. Um texto de anos atrás, para a revista Época, acabou até sendo tema de discussão em um teste do Enem - acho que os organizadores não perceberam a ironia da coisa.
Agora: de uns tempos para cá, esse assunto me perturba e me interessa cada vez mais. Porque eu tenho um filho.
Tomás vai fazer seis anos em dezembro e está na escolinha desde os seis meses. Então, eu tenho um interesse muito prático na educação brasileira. Não quero que meu filho cresça ignorante.
Ainda mais porque Tomás está em escola paga desde que nasceu. Burrice de graça já é problema, mas pagando?
A escola dele não está entre as mais caras de São Paulo, mas custa uma grana. Vale? Não tenho como comparar. Parece mais inteligente pagar do que arriscar com meu único filho.
Ele é um menino esperto e sabe de muitas coisas (olha o pai coruja). Mas não sabe ler, o que me dá nos nervos. Eu sabia na idade dele, porque minha mãe me ensinou.
Quando fiz sete anos ganhei a coleção do Monteiro Lobato, e já tinha traçado Caçadas de Pedrinho aos seis.
Em 2010 Tomás entra oficialmente no sistema educacional brasileiro, primeira série. Eu acharia muito bom que quando ele chegasse ao colegial e depois à faculdade, nosso país tivesse uma educação mais inteligente, mais justa e mais adequada ao século 21.
Adoraria acreditar que meu filho pode estudar no Brasil e ser educado decentemente. Tudo leva a crer que não, mas tirei este mês para fazer um esforço. Porque é outubro, que tem dia da criança e dia do professor.
Assim, este blog elegeu para as próximas semanas um tema, educação. Óbvio que vou tratar de outros assuntos.
Mas o tema educação virá à baila periodicamente. Juliana, Marcelo e eu estamos conversando sobre isso faz algum tempo. Nosso objetivo primordial aqui é:
a) descobrir o que está sendo feito de interessante e inovador na educação brasileira e gringa. O que é educação de ponta em 2010?
b) esculhambar cruelmente os aspectos mais absurdos da nossa educação.
Para isso, fomos levantando umas várias pautinhas e questões provocadoras.
Será que os brasileiros mais bem remunerados são os que mais estudaram?
Existe ligação entre escolaridade, cor da pele e renda?
Como é a educação dos deficientes? Funciona colocar uma criança cega ou com Síndrome de Down na mesma classe das outras?
Que faculdade está formando a elite que vai mandar no país em 2030?
E outros. Que aparecerão através da sua participação. Tem um tema que te interessa?
Tem alguém que você gostaria de ver entrevistado? Tem algo que te incomoda na sua escola? Manda que a gente corre atrás.
Vai ter temas sérios. E alguns nem tanto.
Por exemplo: um tempo atrás, a Xuxa deu piti porque criticaram o português de sua filha. Sasha escreveu “sena” quando queria escrever “cena”.
Xuxa explicou: “pra quem não sabe minha filha foi educada em inglês”.
Que que é esse negócio de ser educado em inglês? Você sabe?
Não é estudar inglês. É estudar o currículo todo - história, geografia, matemática etc. - em inglês. E em português também.
Algumas escolas, como o Pueri Domus, tem o currículo americano em um período e o brasileiro em outro. A molecada aprende quem foi o Tomas Jefferson, quais os afluentes do Mississipi etc.
Você acha esse sistema tão surreal quanto eu? Já odiava saber a história do Benjamin Constant e os afluentes do Rio São Francisco, imagina ter que decorar todo o currículo dos ianques.
E por que dos americanos e não dos ingleses?
Ou, já que é para atazanar a criançada, da China, que tem cinco mil anos de história e é o país do futuro?
Não sei se foi esse o esquema da Sasha e não é desculpa. Mas tenho certeza que Xuxa paga para a filha a melhor escola que seu muito dinheiro pode comprar. E a menina aos onze anos escreve “sena”.
Quer prova melhor que a educação nesse país é uma porcaria para os ricos também?



