Publicado em 06/10/2009 às 13:34

A ONU provou hoje que o brasileiro é burro. Mas quem lê este blog é inteligente

Eu disse que o brasileiro é burro. É uma média. Não quer dizer que todos os brasileiros são burros.

O povo que postou comentários no meu artigo, por exemplo, é bem inteligente. A maioria, claro. Sempre tem umas antas com argumentos tipo “burro é você, vai morar na gringa” etc.

Isso foi ontem.

Hoje foi divulgado que o Brasil ficou em 75º lugar, em um ranking global do IDH (índice de desenvolvimento humano).

Estamos quase na virada entre a primeira e a segunda metade dos 182 países avaliados pela ONU.

O coordenador do relatório desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Flávio Comim, explica como a décima maior economia do mundo está em 75º quando se trata da qualidade de vida de sua população.

Nossos principais problemas: saúde e educação. Que são interligados, claro. Temos uma altíssima taxa de mortalidade infantil.

Especialmente entre crianças filhas de mães sem nenhum acesso à educação - neste caso, as taxas de mortalidade infantil chegam a 119 por mil nascidos vivos.

“É um número maior do que os de muitos países africanos”, diz Flávio.

Filho de mulher burra morre mais - dava uma boa manchete do saudoso Notícias Populares.

Essa é uma das grandes explicações para morrermos tão cedo. A expectativa de vida é de 72 anos em média, dez anos menos que a japonesa.

E nossa educação? Somos o país 71 do ranking de 182. Está convencido de que somos burros?

Eu estou e não tenho problema nenhum de reconhecer minha burrice. O tamanho da minha ignorância só é sobrepujado pela minha preguiça de minimizá-la. Tenho lá meus espasmos autodidatas.

Mas na prática me eduquei sobre alguns temas - um pouco de história e geografia, um pouco de economia, um teco de culinária, o arroz com feijão de história da arte, o beabá da tecnologia.

E me escondi medrosamente de outros - ciência mesmo, física, química, biologia, botânica. Fiz como todo mundo, o que me foi mais fácil.

Por isso que um ano atrás, quando Tomás foi mudar de escola, decidi que a perfeita para ele seria uma que fosse muito boa de ciências e de esportes. Porque o resto eu estimulo ele a gostar... mas não achei a que eu queria.

Como você vê, além de burro, sou preguiçoso.

E a prova definitiva é que depois de um ano de pré-primário na Cigarrinha, sete anos na EEPG Barão do Rio Branco, mais quatro no Colégio Luiz de Queiroz (pago), sempre na gloriosa Piracicaba, e de conseguir entrar na USP duas vezes (jornalismo e história), sou o famoso “curso superior incompleto”.

Jornalismo, que fiz algum esforço para completar, abandonei porque era inútil e, principalmente, chato.

História fui um dia e nunca mais voltei. Devo ser um raro caso de duplo jubilamento na USP, mas nunca me mandaram nenhuma cartinha...

Dos 75 comentários até agora, alguns simplesmente concordam ou discordam do meu texto. Que é uma provocação assumida; por que tem gente que fica se abespinhando à toa?

Os comentários mais úteis para a nossa missão impossível - encontrar algo que preste na educação nacional - são os que vão além das palmas e das pedras.

Os que sugerem algum curso de ação ou dão um depoimento iluminador.

Como o Joaquim, professor de matemática que abandonou a profissão porque não quer ensinar para quem não quer aprender.

Ou o Miguel, que acerta um alvo importante ao criticar pais que querem fazer um filho "supervencedor”.

O pobre Washington, estudando 1ª Guerra Mundial no terceiro colegial.

O Mário Meletti, que lembrou uma ideia de lei genial do Cristovam Buarque, que obrigaria políticos a matricularem seus filhos em escolas públicas.

A professora Vera Menezes, tentando enfrentar a sedução que traquitanas tecnológicas exercem sobre a molecada.

Viviane sugere entrevistar o povo da UNE - sorry, querida, vou pular essa.

Ana Luisa mata a charada: as escolas brasileiras são chatas pra burro, e por isso são feitas pra burro.

Meu favorito, naturalmente, é o (a?) Luxorum, que me chama de “meu grisalho charmoso favorito”. Tobrigado!

Também tem o pedagogo Igor, dizendo que “burrice não existe”. Existe sim, Igor, porque sua afirmação para mim é incompreensível.

Tem o Diogo, que disse que sou idêntico ao Diogo Mainardi. Que isso, ele escreve muito melhor e eu sou bem mais velho (na verdade só pareço, o que é pior).

Mas qualquer fã de Ivan Lessa e Paulo Francis sai ganhando ponto comigo.

E tem um ou outro cobrando “então, qual é a sua proposta?”

Eu detesto quando me cobram proposta.

Não sou candidato a nada. Não tenho que ter proposta porcaria nenhuma. Jornalista a favor é assessor de imprensa.

Mas vá lá, esse é o mês de fazer uma força para acreditar que meu filho pode ter uma educação decente neste país.

Então, vou tentar ser positivo. Vamos atrás das sugestões e dicas.

Agradeço.

A gente podia entrevistar o Cristovam Buarque. Ideia excelente, será que ele topa falar comigo?

Ótima dica do Bruno Ribeiro, conversar com a diretora Ana Elisa Siqueira.

E o Anderson encomenda uma maneira de educar filho sem pagar escola. Boa pauta. Também, o cara sabe como eu penso, é meu leitor desde a Bizz - pô, essa relação já dura mais que muitos casamentos, heim?

E ótima dica é ler Neil Gaiman, que realmente é o autor da citação que Ramon observou:

neil gaiman A ONU provou hoje que o brasileiro é burro. Mas quem lê este blog é inteligente

“I’ve been making a list of the things they don’t teach you at school.

They don’t teach you how to love somebody.

They don’t teach you how to be famous.

They don’t teach you how to be rich or how to be poor.

They don’t teach you how to walk away from someone you don’t love any longer.

They don’t teach you how to know what’s going on in someone else’s mind.

They don’t teach you what to say to someone who’s dying.

They don’t teach you anything worth knowing.”

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