O Faith No More vai tocar aqui no festival Maquinaria.
Eu não vou assistir. Porque é num sábado, é longe, num descampado, estou velho e tenho outras coisas pra fazer. Mas tenho vontade.
Porque embora seja evidentemente uma turnê caça-níqueis, não parece. Pelos vídeos que vi dos shows - o Lúcio Ribeiro no Popload recomenda vários legais - os caras estão com garra de moleque.
Não é um zumbi ressuscitado, está mais pra espírito reencarnado. E ninguém pode acusar Mike Patton e companhia de fazerem tudo pelo dinheiro.
Os caras implodiram a banda no seu auge e Patton passou a década e meia seguinte criando ruído instransponível no Mr. Bungle e no Fantomas.
Outra razão por que tenho vontade de ver o Faith No More: foi a primeira banda que eu vi nascer, explodir e morrer, mais ou menos de perto.
Tipo, eu fui um dos primeiros no Brasil a encher a bola do FNM. Eu estava no ônibus que levou a banda para a passagem de som no Olympia e quase foi depredado pelas fãs enlouquecidas do Mike Patton.
E dia seguinte eu estava no apartamento dos Cavalera, junto com Miranda, para registrar o encontro entre Max e Mike.
Alguém por aí sabe onde encontro este texto que fiz pra Bizz? Nunca mais li.
Deixo claro que não tenho nada contra faturar com o próprio passado. Principalmente se você evita soar como cover de si mesmo. Tanto que vou ressuscitar aqui uma resenha da minha pré-história.
É essa crítica que segue abaixo, sobre o suicídio da banda, o álbum Angel Dust. O amigo William gentilmente me enviou. Valeu, cara.
Na verdade eu nem gosto muito desse texto.
Mas alguém - quem foi? Perdi o nome, sorry, me ajuda aí - disse que quando tinha catorze anos, enquadrou a página em que saiu esse texto e colocou na parede.
E a Juliana gosta do Faith No More. Então, tínhamos que compartilhá-lo com vocês.
Because, you know, we care a lot.
Faith no More - Angel Dust (Slash/PolyGram)

A gravadora London disse que esse álbum é suicídio comercial para o Faith No More. E é mesmo. Não tem nada a ver com The Real Thing, Epic, Edge Of The World, todo mundo cantando junto e balançando as mãos e tascando sorvete na testa.
Não, isso é um esporro -purulento -paranóico-escroto- sanguinolento, cérebros explodindo multidirecionalmente, picas frustradas se ralando no cimento e sangrando em cima de crianças miseráveis morrendo de fome.
Demônios à solta. Adeus fãzinhas púberas, adeus MTV, adeus tudo. Não tem uma porra de um sucesso neste disco. O Faith No More foi longe demais.
Midlife Crisis, o primeiro single, dá uma pista do disco mas não entrega o jogo. O próximo (A Small Victory) é a coisa mais "fácil" de Angel Dust, mas suas possibilidades de sucesso foram abortadas com sete meses - os caras botaram um trecho completamente anticomercial e esquisito no meio.
Por que esse desejo de se matar? Não vem ao caso, mas é quase grande arte.
Angel Dust é Frankenstein: pedaços de gêneros estabelecidos que não estão mortos mas já fedem -metal, hip-hop, country, thrash - fundidos numa criatura única, simultaneamente podre e rebimbando de vitalidade.
O NME chamou de schizo.core, hardcore esquizofrênico. É um bom rótulo, mas não é suficiente.
Seguinte: não tem uma letra simples no álbum. Daria para dizer que são quase poemas se não fosse soar tão pretensioso, poemas no sentido William Burroughs da coisa.
Exemplo 1: "os balanços do parquinho não me acomodam mais/folclore: ninguém deveria acreditar que no próximo ano tem aula/escreva cem vezes"(em "Kindergarten").
Exemplo 2: "Chegou a hora de falar com meus filhos/vou dizer a eles exatamente o que meu pai me disse/ VOCÊ NUNCA VAI DAR EM NADA" (em "RV").
O detalhe é que não tem uma letra que dê para cantar junto. A estrutura das músicas não permite, e a voz de Mike Patton varia radicalmente e vai do velho falsete (pouco usado) a puro terror thrash a baladeiro canastrão.
É tão absurdo que no primeiro lado, logo depois de Midlife Crisis, tem uma música que parece Frank Zappa ("RV") seguida de um funk metal sujão (Everything´s Ruined) e de outra que lembra
Godflesh/Sepultura, distorção no talo e vocais monstro (Malpractice).
Minha favorita, Be Agressive, lembra um pouco We Care A Lot, sugere sadomasoquismo, começa com órgão de igreja, tem coro infantil no refrão e guitarra wah-wah.
Patton está furioso: "O que outro deixaria para trás, cuspiria fora, desperdiçaria eu assumo como meu". Mas as coisas vão mesmo para o inferno em Jizzlober. É grito choro dor primal, me arrancaram do útero, um pesadelo de distorção e desespero.
O que significa isso tudo?
Não sei e não me importo. Vou deixar para alguém mais esperto que eu o trampo de decodificar Angel Dust.
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