David Letterman é o Jô Soares do planeta, com uma equipe de roteiristas inigualável, mais verve e mais bile. Seu programa de entrevistas é baluarte da noite americana desde 1982.

O mundo assiste, porque as risadas são garantidas, as celebridades de primeira, as cutucadas são malvadas e as atrações musicais frequentemente surpreendem.

Ele é o melhor no que faz. E quando você assiste David Letterman se sente em Nova York. Dá pra sentir o sabor do sanduba de pastrami e do cheesecake.

Dave está com a mesma mulher desde 1986. Tem um filho com ela, Harry, nascido em 2003. Mas David tem tido casos com outras mulheres enquanto isso. Pior: funcionárias de sua empresa.

Foi ameaçado por um chantagista: me pague dois milhões de dólares ou eu revelo o caso. Nada feito. Letterman revelou a tentativa de achaque em seu programa do dia primeiro de outubro.

Contou que estava trabalhando junto com o Ministério Público de Nova York para enganar e, no fim, capturar o chantagista. Deu certo.

Detalhe saboroso: o criminoso é um jornalista com trinta anos de profissão, Joe Halderman. Parece que uma estagiária da CBS o trocou por Letterman.

A Stephanie! Estagiária e frequentemente assistente de palco, alguns anos atrás, quando eu mais assistia o programa. Aqui está ela, em uma coreografia de “Do Ya Think I'm Sexy?”

Foi dor de corno de Halderman ou simples oportunidade que bateu à porta? Saberemos, inevitavelmente.

Como todo jornalista, Joe ficava sabendo de muita coisa no dia a dia que jamais poderia publicar. Vai ver resolveu faturar quando a chance pintou e o sangue esquentou.

Letterman revelou o caso fazendo piada. Se explicou ao vivo sem se humilhar. Seu monólogo abrindo a história é histórico. Isso é que é elegância sob pressão:

Ganhou apoio geral e irrestrito da mídia e da opinião pública, com resmungos de um ou outro foco mais moralista (feministas etc.).

A bala passou raspando, porque ele já fez muita piada com as infidelidades alheias - Monica Lewinsky rendeu anos.

A razão é que Letterman sempre sacaneou com as corneadas das celebridades, mas nunca posou de dono da verdade e guardião da moral. Foi sempre sarro, piada, provocação.

Quando foi ele o pego com a boca na botija, deu de ombros e mandou: sim, errei, peço desculpas, não vou dar dinheiro para vagabundo e a vida continua.

É a coisa mais rotineira do mundo diretor de banco namorar sua executiva, diretor de redação namorar funcionária, gerente de posto namorar a caixa, professor namorar aluna, empresário namorar a cantora, editor namorar a repórter etc.

Acho que o cacique também se dava bem com a cunhãzinha antes dos portugueses pintarem por aqui.

Namorar, aqui, abarca o completo espectro das relações emocionais-sexuais, e vai da grande paixão até a trepadinha mais casual possível na festa de fim de ano. Vira e mexe um ou os dois são casados.

Não estou aqui fazendo a defesa da infidelidade nem da fidelidade. O ponto é que este tipo de relacionamento é business as usual, sempre houve, sempre haverá.

É “sexual harassment”? É abuso de poder? Muitas vezes sim, desconfio que a maioria das vezes, não.

Quando o cara é rico e famoso, é mais comum ainda. Parece que as moças são atraídas por homens poderosos e endinheirados, e estes são atraídos por gatas que os admiram e satisfazem - surpresa!

E, naturalmente, pessoas ocupadas acabam se relacionando com colegas de trabalho. Quantos casais (e casos) não começaram assim?

O pouco usual foi como Letterman lidou com a história, e como a opinião pública global lidou com Letterman.

Na interminável contenda da honestidade com a hipocrisia - tensão que está no coração da América - Dave se portou como um adulto e nos inspirou a segui-lo.

Por essa não esperava. Aprendi mais uma com Dave - ao vivo, de Nova York.


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