Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança.
É inacreditável que em 2009 eu precise repetir isso quinhentas vezes para ver se entra na cabeça desse povo burro.
Gibi é para todo mundo. Como qualquer livro. É uma forma de expressão. Uma arte, se você quiser.
Tem gente que nem chama de gibi ou de HQ, chama de “arte sequencial” ou “romance gráfico”, graphic novel. Pode ser tão sublime ou idiota como, digamos, um filme.
Pode ser pra nenê ou pra gente muito madura, como uma peça de teatro.
Antigamente, a maioria era apropriada para crianças pequenas. Hoje, a maioria não é.
Vai na banca conferir. Tem uns 200 títulos diferentes lá. Nem 20% disso apropriados para criança.
Como cinema. Ou literatura. Ou peças de teatro. Tá claro?
Agora, se você for nesse instante numa grande livraria brasileira, vai encontrar quadrinhos para criança e quadrinhos eróticos e quadrinhos políticos e quadrinhos de todo jeito, tema e formato todos juntos numa estante marcada “Quadrinhos.” Se marcar, vizinha da estante de “Infantis”.
Não tem nenhum sentido juntar Guido Crepax e Alan Moore e Allan Sieber e Osamu Tezuka e Flávio Colin e Wander Antunes e Hugo Pratt e Marcelo Gaú e Bryan Talbot e Takehiro Inoue na mesma estante.
Sei porque publiquei todos eles, na Conrad ou na Pixel.
Qualquer adulto pode e deve ler Dragon Ball ou Tio Patinhas. Como pode assistir Wall-E. O contrário não é verdadeiro.
Meu filho não pode assistir Apocalypse Now, que é um dos melhores filmes que eu já vi. Ele tem cinco anos. É muito pesado. Não é hora.
Também não pode assistir O Triunfo da Vontade, que não tem palavrão nem mulher pelada. Porque é propaganda nazista. Tomás não está pronto.
Um dia desses, uma mãe vai dar o Buda de Ozamu Tesuka - meu mangá predileto de todos os tempos, terno e inteligente - para seu filhinho de sete anos.
E quando ver que o gibi, além de uma mensagem inesquecível, tem moças com peito de fora, guerra e morte e sangue, vai processar a livraria, a editora, o autor etc.
E um bando de políticos demagogos vão pegar uma carona para posar de defensor da moral.
Aliás, liberdade de expressão é sempre a liberdade de expressarem o que eu não gosto, não suporto, não aturo, acho errado e de mau gosto.
Quem não entendeu isso não sabe o que é democracia. O que significa que 90% dos brasileiros não sabe o que é democracia. E esses caras têm filhos na escola, frequentam bancas e livrarias etc.
Eu preferia que eles fossem desintegrados por raios atômicos marcianos - seria um país mais agradável - mas não tenho esperança que isso vá acontecer tão cedo.
Às vezes eu acho que a indústria de HQ brasileira precisa de um sistema de classificação, como os games e os filmes. É triste, perigoso e um tanto emburrecedor, mas talvez seja o jeito.
Não na linha do Comics Code americano, tesconjuro; talvez dois ratings, sempre sugeridos pelo próprio editor. Para Todas as Idades, Sugerido para Maiores de 12 anos. E tá bom.
Acima de 13 qualquer um deveria estar livre para ler o que bem entender, de Sade a Shakespeare; e ver qualquer coisa, inclusive pornografia e terror hardcore; e de fato os teens já fazem isso, porque quem tem acesso à internet tem acesso a tudo.
E contra o avanço da tecnologia, leis obsoletas nada podem.



