Quando eu trabalhava na Bizz, início dos anos 90, tínhamos muita liberdade. Mas não a liberdade de colocar um negro na capa. Tentávamos de vez em quando, mesmo assim.
Lembro de brigarmos por uma capa do Living Colour. Um dos chefes lá barrava: “negro em capa de revista não vende”.
Nunca saberei se Prince ou Jimi Hendrix venderiam muitos exemplares da Bizz, porque em todo o tempo que eu estive lá a capa só teve brancos e brancas.
Também não foi um grande problema, sério. Porque de fato rock é coisa de branco. Se você fizer uma lista com dez artistas de rock de primeiro time que são ou foram negros, te dou um doce.
Nem acho que era racismo do chefe ou da empresa. Era um fato da vida, um pressuposto comercial. Lembrei disso quando vi as duas revistas masculinas mais vendidas do Brasil, Playboy e VIP, com negras na capa.

Tá certo que nenhuma das duas é uma crioula retinta. São mulatas. Ildi Silva, da VIP, é o que os americanos chamam de “high yellow”, quase branca. Juliana Alves, na Playboy, já passaria na gringa como diva do hip-hop.
São, as duas, maravilhosas. Homem brasileiro tem cada um lá seus gostos, mas nunca vi um que não caia por uma mulata.
O pressuposto comercial é que elas vão vender bastante revista. A vida da maioria parda e preta da população pode continuar sendo bem difícil, mas o Brasil mudou.
Taís Araújo, sem mostrar as partes, também está na capa de todas as revistas. Porque é a primeira protagonista negra de uma novela das oito (das nove?). Vive uma modelo. Convence, de tão magra.
É um marco. Como o ano quando Denzel Washington e Halle Berry faturaram Oscars.

Para mim, que sou branco, nem tanto. Mas vá perguntar para uma adolescente negra se ela não está orgulhosa de ver tanta pele preta nas capas das revistas.
Agora: além de branco, sou chato, então queria ver Taís, ou Ildi, ou Juliana, ou qualquer jovem negra brasileira na televisão em uma posição de poder. Pode ser gostosa, não tem problema.
Digamos, como tenente de uma nave espacial no século 23. Muitos anos atrás, a comediante Whoopi Goldberg disse que devia sua carreira a uma única coisa. Ter visto na televisão uma jovem negra, bonita, inteligente e segura de si, tratando os brancos de igual para igual.

Era Nichelle Nichols, a Tenente Uhura de Jornada nas Estrelas. Quando viu Nichelle na TV, Whoopi, menina, saiu gritando pela casa, “Mãe! Mãe! Tem uma moça negra na televisão e ela não é empregada!”
Muitas outras garotas negras, nos Estados Unidos e pelo mundo afora, se inspiraram em Nichelle.
Uma outra famosa é a médica Mae Jemison, a primeira astronauta negra.
Mae foi recrutada por um programa do qual Nichelle fazia parte - não de televisão, mas da NASA - com o objetivo de atrair minorias (ou seja, não-homens-brancos) para serem astronautas.
Whoopi e Mae pagaram suas dívidas depois, atuando em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.
Nichelle cresceu de classe média, mas seu negócio era o mundo artístico. Cantava bem. Excursionou com as bandas de Duke Ellington e Lionel Hampton. Foi coelhinha da Playboy para pagar as contas. Fez teatro. Tinha trinta e tantos quando foi escalada para Jornada nas Estrelas.
Olha ela aqui e cantando!
Depois de um ano de série, Nichelle resolveu sair, porque o papel era muito pequeno. O líder pelo direito dos negros, Martin Luther King, a convenceu a ficar. Justamente porque era um símbolo positivo, um “role model”: a única negra em posição de respeito na TV.
Ficando, seria a primeira de muitas. “Depois dessa porta abrir, nunca mais se fechará”, disse King.
O engraçado é que Uhura também foi a primeira atriz negra que eu vi na televisão, fazendo papel que não era de empregada, nem escrava em novela de época.
No Brasil, nos anos 70. Nichelle fará 77 anos no próximo 28 de dezembro. Está uma velhinha esperta e, por que não, sexy.
Mas para mim ela terá para sempre uma tenente de comunicações de 35 anos, olhar sério, botas longas, um minivestido vermelho e um coque antigravitacional. Quem diz que moças negras não são capazes de inpirar garotinhos brancos?



