Se você tem alguma dúvida sobre o poder dos quadrinhos para adultos, leia Retalhos, de Craig Thompson (2009, Quadrinhos na Cia., média R$ 45,00). 
É um gibi de seiscentas páginas. Você não leu errado. Mas dá pra ler em uma tarde.
Deveria ser leitura obrigatória no ensino médio.
É uma história autobiográfica. A maior parte trata do primeiro namoro de Craig.
É um lindo romance adolescente.
Ele revisita sua infância e juventude em uma cidadezinha de merda, no interior do Wisconsin, um dos buracos mais atrasados dos EUA.
Craig e seu irmão Phil crescem em uma família fundamentalista, com um pai brutamontes e uma mãe ausente. Tudo é pecado e tudo é proibido.
Se na página 20 você não tiver vontade de queimar todas as bíblias do mundo, não tem coração.
Mesmo que na página 600 Craig tenha chegado a uma tênue trégua com sua infância. Porque Craig cresce como todos crescemos. Se adapta, como nos adaptamos. E perdoa, como perdoamos.
Retalhos foi escolhido o melhor álbum de quadrinhos de 2003 pela revista Time. Ganhou os principais prêmios de HQ do ano - Eisner, Harvey, Ignatz.
Mereceu, porque - diferente, por exemplo, do igualmente tocante, mas menos assustador Persépolis - ele se sustenta especificamente como história em quadrinhos.
Desenhos e palavras se combinam maravilhosamente, a serviço de uma visão individual, única.
Filmes, desenhos animados, novelas, peças de teatro - todas as maneiras de contar uma história com palavras e imagens exigem trabalho coletivo.
Só os quadrinhos permitem que uma única pessoa faça tudo. Não tem nada parecido.
O sucesso de Retalhos parece ter travado Thompson. Desde 2004 cozinha um novo álbum, com pequenos trabalhos aparecendo esporadicamente. Trata-se de Habibi, segundo ele influenciado pela mitologia e caligrafia islâmicas.
Espero de coração que Thompson acelere o passo. A vida vai passando; um novo trabalho a cada cinco anos é muito pouco.
Sei lá eu se algum dia ele fará novamente algo tão bom quanto Retalhos. Mas espero o tempo que for.
Um cara que escreve uma frase como “A dúvida me tranquiliza” merece todo o tempo do mundo.



