Hoje todo mundo escreve, todo mundo fotografa, todo mundo faz vídeo. A tecnologia está aí para isso. Ótimo. Nem tão ótimo para quem vivia ou vive disso, como por exemplo, eu.
Mas uma coisa é produzir conteúdo. Outra é ser crítico. Aí já ouço o cara ali atrás: para que serve o crítico? É só um artista frustrado etc. etc.
A melhor resposta que eu leio em muito tempo é de ontem, do Inácio Araújo. Com quem muito aprendi, adolescente, lendo seus artigos sobre filmes, na Folha de S. Paulo.
E que tive o prazer de conhecer, anos depois, quando trabalhei por lá. Encontro raramente Inácio e é sempre um prazer. Acho que você vai gostar de ler este artigo dele também.
Crítico serve para isso.
Aproveitando o embalo e arrumando uma tretinha: teve em São Paulo uma coisa chamada Marcha Para Jesus, neste Dia de Finados.
Parece que juntou mais de um milhão de evangélicos. A imprensa caiu de pau.
Agora, esses dias aconteceu em Belém o Círio de Nazaré, a maior festa católica do Brasil. Tinha dois milhões de pessoas, disse a imprensa.
Todos os jornais, tevês, internet, todo mundo falando do “espetáculo da fé”, aquela emoção, aquela choradeira.
Eu estava em Belém. Eu vi o que é aquilo. É impressionante. É assustador. Quase morreram criancinhas esmagadas.
E uso político da religião, bem, Dilma Rousseff estava lá. Escuta aqui: eu sou a favor da liberdade.
E liberdade sempre é em primeiríssimo lugar a liberdade de quem discorda da gente.
Então sou a favor da liberdade de você ser religioso e marchar pela sua religião. Seja para Jesus, Virgem Maria, Alá, Exu ou Ganesh.
Por isso acho deselegante um veículo babar da maneira mais abjeta para festas católicas e pegar no pé dos crentes.
Dois pesos e duas medidas, não dá.
O principal argumento dos amigos jornalistas para detonar a tal Marcha para Jesus foi a presença do casal Hernandes, da Renascer, que foi condenado a pegar uma cana nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro.

Marcha para Jesus - SP
São criminosos? Pois que paguem. Longe de mim defender bandido, seja de que religião for.
Agora, você não vai encontrar maior coleção de crimes cometidos em nome de deus do que o currículo da Igreja Católica. Afinal, são 2009 anos de tradição.
E não estou falando da Idade Média não. Para ficar aqui na vizinhança, os ditadores mais sanguinários da América Latina sempre contaram com o apoio da Igreja (ainda que enfrentassem a oposição de muitos religiosos).
Augusto Pinochet comungava todo dia. Bandidagem por bandidagem, qualquer freirinha simpática trabalha para uma organização com muito mais sangue nas mãos do que você pode imaginar.
Por outro lado, e caramba, sempre tem outro lado, quem tem fé tem que aprender a respeitar quem não tem.
Liberdade é assim: tem que desagradar a gregos e troianos. E chover sobre justos e injustos.
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