Quando as luzes se apagaram, eu estava xingando a Dilma Rousseff, que durante cinco anos foi Ministra das Minas e Energia, hoje é da Casa Civil, mãe do PAC, quer ser presidente etc. e não consegue garantir que o Brasil, no século 21, mantenha as luzes acesas.
Depois eu imaginei que legal seria se no último minuto da final da Copa do Mundo entre Brasil e Argentina, 2014, zero a zero, apagasse a luz no Maracanã. Ha!
Quer dizer, isso foi tipo 15 segundos depois da luz apagar. Nos primeiros 14, e na meia hora seguinte, eu estava sossegando meu filho, que achou estranhíssimo a luz apagar no meio do Ben 10 Força Alienígena.
Expliquei para ele que quando papai era pequeno, era comum faltar luz de vez em quando. E que antigamente as pessoas ainda não tinham inventado a eletricidade, e todo mundo ia dormir assim que escurecia, ora vejam só!
Tomás não estava exatamente nervoso, mas meio apreensivo.
O que eu acho ótimo, porque me lembra aquele conto do Ray Bradbury do livro F de Foguete. O defunto sai da tumba, sai pela rua, encontra um monte de crianças brincando numa rua escura. Pergunta, vocês não têm medo?
Elas, do quê? E ele pergunta se eles nunca ouviram falar de monstros, e elas não.
E aí ele vai em uma biblioteca, e não há livros de Edgar Allan Poe, nem H.P. Lovecraft, nem nada de assustador. E ele pensa que porcaria de mundo do futuro era aquele em que o terror tinha sido banido e as crianças não tinham medo do escuro.
Porque não ter medo do escuro é falta de imaginação. O escuro é o pai das histórias.
Quando o sol se punha, os homens e mulheres se reuniam em volta das fogueiras. Para quê? Para contar histórias. E história boa sempre tem um medinho no meio.
Não que eu fosse entrar nesse papo com o meu filho, claro. Eu repetia o que sempre repito quando ele fala que tem medo do escuro. O que tem no escuro?
A mesma coisa que tem no claro, menos uma coisa: fótons. E estava nesse papinho que não convencia muito.
Ray quem? Bradbury, meu, lenda vida da ficção científica. Olha ele aqui dizendo que não acredita em colegial nem universidade e explicando como você faz para se educar:
Ray escreveu muitas histórias que se passam no escuro. Eu recomendo que você leia todas. O que aconteceu quando as luzes apagaram foram dois minimilagres.
O que você faz quando acaba a energia? Vai para a cozinha e acende todas as bocas do fogão. Só que meu fogão tem acendimento automático, portanto elétrico.
O milagrinho um foi que tinha uma caixa de fósforos dando sopa por perto do fogão.
O milagrinho dois é que tinha uma caixa de velas completinha no armarinho da cozinha, que eu nunca tinha visto antes.
Então Tomás e eu ficamos nos divertindo, acendendo velas e colocando em pratos e xícaras de café com leite.
E entre as velas e um abajurzinho à pilha que eu tenho do lado da cama, deu para ir agitando o jantar, esquentando um chile com carne, botando a salada com guacamole na mesa.
Fiz uma margarita para combinar e me instalei no sofá com Tomás, bebericando. E ele falou pai, me conta uma lenda?
E eu contei que na época dos gregos antigos, as pessoas acreditavam que um deus chamado Apollo trazia o sol todo dia de manhã em uma carruagem, tipo uma biga.
As pessoas não sabiam que o Sol era uma bola de fogo gigante no espaço. Que o Apollo é um dos meus deuses favoritos, que era o deus da música, da harmonia e da medicina.
E que os gregos também chamavam o Apollo de Helios, e por isso tem um gás que foi batizado de Hélio, que compõe mais ou menos um quarto do Sol, e por isso até hoje tem gente que chama Hélio.
Olha ele aqui, sendo visitado por minha deusa padroeira, Promethea:
E depois meu amor chegou, o moleque apagou no sofá e jantamos à luz de velas. Romântico!
E agora chega de papo, que Tomás está no meu colo, me catucando e pentelhando para jogar seu Sonic.
Deixo você com uma cançoneta para iluminar seu dia: Blackout, com meus favoritos Asian Kung Fu Generation:
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