Publicado em 13/11/2009 às 13:25

Cachorro cozido é melhor que cachorro quente

Quando eu era criança, era bem chato para comer. Comia pouquíssimo e era cheio de frescura. Alface, só no cheese salada.

Minha mãe fazia força, mas como eu não comia quase nada, qualquer coisa que eu engolisse já era uma vitória.

Com quinze anos, eu tinha o tamanho de hoje - 1m84 - e trinta quilos a menos. Parecia aqueles alienígenas esguios e cabeçudos dos Contatos Imediatos do 3º Grau.

Contatos Imediatos Cachorro cozido é melhor que cachorro quente

Por isso tudo, é esquisitíssimo que hoje eu experimente basicamente qualquer coisa.

Tirando uma ou outra mania - queijos fedorentos, vade retro - um dos meus grandes prazeres é comer, e comer coisas diferentes.

Tenho uma abordagem que funciona muito bem em restaurante. Quase sempre peço o prato que não consigo imaginar que gosto tem. É muito divertido.

Em viagens, geralmente adoto a comida do local. Na Tailândia só comia comida tailandesa, mexicana no México, turca na Turquia ou paraense em Belém, para onde fui outro dia.

A comida paraense é divina. Experimentei tudo que me passou na frente. O Lá Em Casa, restaurante onde você pode provar uns vinte pratos paraenses diferentes, é uma perdição.

Esta semana mudou para São Paulo, para um evento no restaurante Porto Rubayat. Não deve ser baratinho, mas te garanto que vale cada centavo.

Experimento tudo? Não, claro; na Tailândia não tive coragem de provar os insetos fritos (aranhas, besouros etc.); no México, pulei a parte de engolir o verme do Mezcal.

insetos fritos Cachorro cozido é melhor que cachorro quente

Gosto de tudo? Não. Não me desceu a maniçoba, a feijoada paraense que substitui o feijão pela folha da mandioca brava.

Provei em restaurante e em casa de família. Não desce - a consistência da folha me lembra folha de uva macerada, pára na garganta.

manicoba grande Cachorro cozido é melhor que cachorro quente

Nos últimos anos, venho me dedicando a provar novamente coisas que eu já tinha decidido que não gostava. Só para ter certeza.

Rabada decidi que aprecio muito e comemos aqui em casa faz umas duas semanas, no molho ferrugem.

Bucho tentei faz uns dois anos e não tem jeito; o aroma me revira o estômago e a consistência borrachenta não ajuda a engolir.

Agora, praticamente não tenho mais preconceitos.

Me arrependo de não ter pelo menos experimentado os gafanhotos tostados de Bangcok, pra onde fui uns dez anos atrás. Se fosse hoje, provava.

O que me leva a ... cachorros.

cachorros 58921 Cachorro cozido é melhor que cachorro quente

Tá cheio de gente por aí louca por cachorro. Não tenho cachorro e nunca tive, não meu.

Nada contra. Os bichos podem ser simpáticos e sedutores. Tudo contra os donos que impõem seus cachorros ao resto da população, largam os bichos cagando pela rua, nos parquinhos infantis, na praia.

Cachorro na rua é na coleira e a responsabilidade pelo cocô é do dono.

Também não acho nada agradável ir na casa de alguém e ter que aguentar um cachorro soltando bafo na minha cara ou tendo relações sexuais com minha canela.

Ninguém tem obrigação de aguentar os animais domésticos dos outros. Eu já tive uma gatinha. Quando chegava gente de fora em casa, ela ia para o quintal.

Eu tenho por cachorro o mesmo amor que tenho por uma vaca, um coelho ou um leitãozinho. Pra mim é bicho. Se é bicho, dá pra comer.

Não tem no mundo cachorro mais fofo que um coelho. Pois eu já preparei vários à caçadora, com vinho tinto e azeitonas. Você já viu um coelho inteiro, despelado, sangrando?

Eu não mato os bichos nem limpo. Mas como.

Em 1997, na África do Sul, perguntei para o vigia do parque marinho St. Lucia's Reserve sobre um lagartão que a gente viu em cima de um tronco: dá pra comer?

O cara respondeu o óbvio: se é vivo, dá pra comer.

Já comi avestruz, canguru, gnu, iguana, paca, rã, jacaré, ostra, polvo, passarinho e impala. Fora, claro, boi, porco, carneiro, cabrito, peixes e aves variadas. Devo estar esquecendo algum bicho.

Eu comeria cachorro? Fácil. Nunca tive oportunidade, mas se pintar, não recuso.

E tem um mundo subterrâneo de comedores de cachorro em Brasil. Ontem, por exemplo, sessenta quilos de carne de cachorro foram apreendidas em Suzano, aqui na grande São Paulo.

[r7video http://videos.r7.com/em-suzano-casal-e-preso-em-flagrante-por-vender-cachorros-para-restaurantes/idmedia/f853c77853ef82e5843453e3e7799435-1.html]

Um casal pegava os bichos na rua, engordava, abatia e vendida para dois restaurantes aqui do Bom Retiro. O casal e quatro coreanos, responsáveis pelos restaurantes, foram presos.

Presos por quê? Qual a acusação? É ilegal comer cachorro no Brasil? Pô, aqui se come buchada de bode, cobra, tartaruga. Na França se come cavalo e escargot. Qual o problema?

Eu adoro comida coreana. Quando trabalhava no Cambuci mandava ver direto.

Esse esquema de pegar uns vira-latas na rua e engordar parece meio nojento, mas um cachorrinho criado para o abate eu traçava feliz.

Em São Paulo é difícil ocidental ter acesso. Em Seoul é comum. Chego lá.

A maioria dos coreanos jovens não come cachorro, como a maioria dos brasileiros jovens não come buchada. Mas se come cachorro na Coréia faz milhares de anos.

A raça de cachorro mais criada para virar comida é a Nureongi, diferente dos cachorros que os coreanos criam como animais domésticos.

A carne de cachorro geralmente é assada, vira sopa ou cozido.

A tradição é comer o Bosintang no verão. É um cozido em que vai carne de cachorro, chili, gengibre, alho, broto de bambu, cebolinha.

Há quem inclua vinho tinto, um bom Bordeaux. Parece que faz muito bem para a saúde.

Na Coréia se diz que equilibra o chi, a tal energia vital do seu corpo. Parece ótimo: Clique aqui: Korean Dog

Te garanto que um cachorro bem cozido é muito melhor pra saúde do que, digamos, um cachorro quente.

Eu não acredito em chi. Mas acredito que se a natureza quisesse que eu fosse vegetariano, não teria me dado dentes caninos.

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