
Hipótese 1: você coloca seu carro à venda e no mesmo dia recebe uma proposta. Um cara quer comprar seu carro à vista e nem pediu desconto.
Beleza! Mas o nome te parece familiar. Você procura na internet e é um bandidão do Comando Vermelho, que escapou sabe-se lá como de ser punido.
Ele te liga dizendo que vai depositar o dinheiro na sua conta agora. Você:
a) deixa o cara fazer o depósito e vende o carro para ele;
b) diz que infelizmente já vendeu o carro para outro;
c) diz que não quer dinheiro sujo e manda o cara para os quintos dos infernos.
Hipótese 2: você é um arquiteto. É chamado para construir uma mansão. Chega lá, é a mansão nova do José Sarney. Você:
a) pega o trabalho;
b) diz que infelizmente não vai poder porque está muito ocupado;
c) diz que não quer dinheiro sujo e manda o cara para os quintos dos infernos.
Hipótese 3: você é o presidente da República. Sua missão é fazer a qualidade de vida do brasileiro melhorar, o que também significa arrumar mercados para nossas exportações.
O Irã que, produz petróleo pacas e mais quase nada, quer comprar um montão de coisas do Brasil. Você:
a) faz negócio com o Irã;
b) diz que não vai dar e para compensar tenta vender mais para lugares supercivilizados, tipo Suécia;
c) diz que não faz negócio com governos autoritários e manda o cara para os quintos dos infernos.
Governantes fazem o que é melhor para os seus interesses, em primeiro lugar. Teoricamente fazem em segundo lugar o que é melhor para os interesses do seu país.
Lula era líder sindical e negociava com os patrões, os inimigos, na teoria. Ele sabe que negócio se faz com quem pode, não com quem quer. É a regra do jogo, e quem não quer jogar levante da mesa.
É muito natural que o Brasil receba bem o presidente Ahmadinejad, do Irã. Afinal, queremos a grana dele. E se recebemos bem George W. Bush, se temos negócios com a China, com Hugo Chávez, com Israel, com a Rússia - ué, por que não?
Dito isso, ninguém se engane que nossos parceiros de negócios são bonzinhos ou estão do nosso lado. É relação comercial. O abraço apertado dos presidentes, tirando foto pra sair no jornal, é tão sincero quanto beijo de puta.
Claro que sempre tem o outro lado da questão. Que é: quanto está custando esse lucro que eu estou tendo? Quanto estou sacrificando os meus, nossos princípios?
Tudo é questão de contexto. No Brasil, é socialmente aceitável vender pinga e não é vender maconha. No mundo todo, se considera honrada uma empresa que vende armamentos.
Que talvez seja um dos únicos lugares onde eu não trabalharia. Eu entendo que cada um tem que escolher a linha entre o aceitável e o não aceitável.
Você não pode deixar essa decisão tão importante nas mãos do consenso cultural, do ambiente onde você mora, da lei. A decisão é sua.
A minha é: se eu fosse dono de restaurante, não ia me negar a servir uma pessoa que acho abominável - como, digamos, Fernando Collor.
Quer dizer, servia, mas talvez eu botasse um laxante moído no suflê do figura... Porque pragmatismo tem que ter limites.
E porque pragmatismo tem limite, lembro aqui de uma minoria oprimida pelo governo do Irã.
São os iranianos que seguem a religião Baha'i. Já ouviu falar? Tem uns seis milhões de seguidores no planeta. Estão no Brasil também, 65 mil pessoas.
A religião Baha'i nasceu exatamente no Irã, no século 19, quando o país ainda se chamava Pérsia. Mas os seguidores da religião Baha'i no Irã não têm direito a curso superior, a aposentadoria, nem podem ser funcionários públicos no Irã.
Lá, a identificação da religião em fichas estudantis ou empregatícias é obrigatória. Os baha´is não são reconhecidos como minoria religiosa. Não podem praticar sua fé. O mesmo não ocorre com o judaísmo, o cristianismo e o zoroastrismo, que têm os direitos garantidos pela Constituição.
Eu até posso ter fantasias com um mundo em que todas as religiões fossem proibidas... mas na prática, não dá para aceitar esta postura do governo iraniano.
Discriminação - de raça, de gênero, de religião - não dá pra engolir não.
Agora, se você for levar esta posição política até as últimas consequências, o Brasil não poderia, por exemplo, ter negócios com a Índia. Porque, afinal, o sistema de castas continua belo e formoso por lá.
E quem sabe a Índia não devesse ter negócios com o Brasil. Porque, como sabemos, somos o país número um no tipo de discriminação mais difícil de combater: a discriminação de classe, onde quem não tem dinheiro é cidadão de segunda categoria - seja da raça, gênero ou religião que for.
E aí? Que decides?
Ainda bem que não sou político e nem você. Aliás, falando em discriminação, os Baha'i também têm regras patetas, como toda religião. Tipo não pode transar antes do casamento, não pode ser gay, não pode beber etc.
Mas os Baha'i tem uma característica única. O fanatismo é proibido entre os Baha'i. Eu ouvi falar deles pela primeira vez faz uns dez anos. Segue abaixo o artigo que escrevi na época.
O mundo era mais simples para mim em 1999...
Uma estrela para lembrar
Breve será a presente ordem posta de lado e uma nova ordem se estenderá em seu lugar
Tem uma nova religião de que você nunca ouviu falar, nem eu, mas que já tem 5 milhões de fiéis. O bahaísmo nasceu no século 19, mas começou a crescer muito agora.
Gostei desde a primeira frase que li: “A brilhante faísca da verdade só é gerada pelo choque entre opiniões diferentes”, disse seu fundador, Bahá’u’lláh.

Não tem dogmas nem clero, mas traz doze ensinamentos sensacionais:
1. A Terra é una e a humanidade, seus cidadãos.
2. A religião é una. Todos os profetas comunicam a mesma mensagem, o mesmo segredo, mas de maneira apropriada para seu tempo e seu ambiente.
3. O homem tem o dever de investigar independentemente a verdade.
4. A religião deve ser uma fonte de unidade, harmonia e concórdia entre os homens.
5. A religião é um processo progressivo e evolucionário, que deve ser atualizado conforme a humanidade evolui mentalmente, socialmente e espiritualmente.
6. Deve haver harmonia entre fé e ciência – as duas asas com que voa a inteligência humana.
7. O diálogo pacífico é o melhor método para resolver diferenças. O indivíduo deve estar sempre aberto para a verdade, venha de onde e de quem vier.
8. Todo o mundo deve falar uma só linguagem. Só assim o mundo será um só país.
9. A educação deve ser universal.
10. Todo preconceito – religioso, racial, nacional, político – deve ser eliminado.
11. A igualdade de direitos e educação entre homem e mulher deve ser estabelecida.
12. A abolição dos extremos de pobreza e riqueza deve ser perseguida.
13. A paz universal deve ser estabelecida agora, em uma assembleia de todos os homens.
Parece a religião mais legal de que eu já ouvi falar. Incrivelmente aberta e futurista, religião Jornada nas Estrelas.
Deu vontade de comentar com amigos. Não ficou curioso? Não dá vontade de saber mais? E nasceu como um desdobramento dos xiitas, vê se pode.
Infelizmente, não acredito em Deus nem em religião. Mas acredito em Equilíbrio Pontuado – a teoria evolucionária que prega que a evolução das espécies ocorre em explosões isoladas que resultam no surgimento de novas espécies, entre longos períodos de estabilidade ou estase. E acredito (ou quero acreditar, o que é a mesma coisa) que isso está acontecendo com a espécie humana agora.
Stephen J. Gould e Niles Eldrige propuseram essa teoria em 1972, para horror dos defensores do gradualismo darwinista.
Pouco depois, Richard Hawkins apareceu com a teoria (bizarra) do gene egoísta – que a vida é basicamente suporte para genes que buscam se replicar.
E na mesma década maluca os Chaos Magicians ingleses popularizaram a criação de Sigilos, na organização secreta-militante Temple of The Psychic Youth.
O que são Sigilos? Ora, são muletas para mágicos – uma forma que contém magicamente um desejo muito grande de que determinadas coisas aconteçam.
Já vejo o amigo leitor vomitando: “Conversa de louco, cai na real, hippie nojento...”.
Peraí, meu chapa. Vivo no mundo realíssimo. Leio até livros de administração de empresa! Aliás, na lista dos best-sellers está o novo de Seth Godin (o mesmo autor de Marketing de Permissão) e sabe o que ele ensina?
A criar Sigilos. Pode também, como Hawkins, chamar de Memes. Godin chama de Ideavirus – “ideias que se movem e crescem e infectam sua audiência alvo” e que podem ser geradas, alimentadas, controladas e, claro, capitalizadas.
Diz que todo tipo de ideia, independentemente do formato (pode ser uma canção, uma imagem, um produto, um processo), é um manifesto.
E como se gera valor? Usando seu manifesto para mudar a maneira como as pessoas pensam, falam, agem. É isso que o livro, Unleashing the Ideavirus, ensina a fazer.
Seth é direto e marketeiro, o escritor de gibis Grant Morrison gongórico e alucinado.
Falam da mesma coisa, Grant com mais glamour: “São frankenconceitos memeticamente projetados, que depois de digeridos ficam livres para se replicar e dominar – sobrepujar a mídia de massa, infectá-la, tornar-se a mídia de massa.
Logos, marcas, símbolos são bombas-sigilo meméticas de reprodução rápida, projetadas para instantaneamente colonizar e paralisar espaços imaginários desprotegidos”.
Pois eu tenho uma ideia-vírus para inaugurar o milênio.
Já tinha faz tempo, mas Bahá’u’lláh disse antes e melhor: “O bem-estar da humanidade, sua paz e segurança são inatingíveis, a não ser que, primeiro, se estabeleça firmemente sua unidade”.
Dizem os baha'is hoje: “A questão espiritual fundamental que desafia todos os povos, de qualquer nação, religião ou origem étnica, é o estabelecimento dos alicerces de uma sociedade global que reflita a unidade da natureza humana.
A unificação dos habitantes da Terra não é nem uma remota visão utópica, nem uma questão de escolha.
Ela representa o próximo estágio inevitável no processo de evolução social, um estágio em direção ao qual todas as experiências do passado e do presente nos estão conduzindo.
A menos que essa questão seja reconhecida e tratada, nenhum dos males que afetam nosso planeta será solucionado, porque todos os desafios fundamentais da era na qual ingressamos são de natureza global e universal, e não particulares ou regionais”.
Por maior que seja o tumulto, o período no qual a humanidade está ingressando abrirá a cada indivíduo, cada instituição e cada comunidade da Terra oportunidades sem precedentes para participar na tarefa de escrever o futuro do planeta.
“Breve”, promete Bahá’u’lláh, “será a presente ordem posta de lado, e uma nova ordem se estenderá em seu lugar.”
Esta é a visão que faz os bahais chamarem o século 20 – com todas as suas barbaridades e desgraças – de “o século da luz”.
Porque, nos últimos cem anos, a humanidade caminhou mais em direção à unidade do que em toda a história anterior.
Fica de presente de ano novo você e os participantes do Fórum Social Mundial que se reúnem este mês em Porto Alegre.
E, para que ninguém esqueça, dou forma à minha ideia-manifesto. Tem uma nova estrela no firmamento – a estrela da manhã de um novo século, um novo milênio.
O nome dela é Liberdade e fomos nós que fizemos. Aliás, estamos fazendo. Fica pronta em 2006.
Já tem gente morando lá, dois russos e um americano. Depois vai mais gente. Sete moradores serão fixos. Tem um brasileiro se preparando para visitar. Dá pra ver a olho nu de qualquer ponto da Terra.
A Estação Espacial Internacional vai ser a luz mais forte no céu, depois do Sol e da Lua. Quando você vir a estação Liberdade, vai lembrar dos ensinamentos bahais. Do futuro. E de mim.
Vai saber que a Terra é una, e que “tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar a Terra inteira”.
Olho no céu.
Veja mais:
+ Visita de Ahmadinejad repercute na imprensa mundial
+ Jornal americano diz que Irã sufoca oposição no país
+ Todos os blogueiros do R7



