Tem gente que fica furiosa de ver um cara gastando um dinheirão em um carro, um relógio, uma viagem, uma garrafa de vinho.
Eu não. O que é importante para um não é para outro.
Para uma pessoa louca por AC/DC, pagar R$ 300 para ver um show não é caro. Para quem acha a banda chata, é insano.
Não tenho preconceito contra nenhum tipo de gasto, também. Até porque o conceito de riqueza, assim como o de desperdício, é bem variável.
Quando eu tinha dezoito anos, não tinha dinheiro nem para tomar cerveja em padaria, mas arrumava uns cruzeiros para comprar gibi americano.
O que é luxo para um não é para outro.
Se você almoça fora todo dia, gasta dez, vinte, ou mais reais por dia. Dentro do padrão.
Se você leva todo dia sanduba de casa para almoçar, e um dia por mês sai para jantar e gasta trezentos reais, está fora do padrão.
Eu não gasto nada com roupa. Não tenho coragem de comprar um tênis importado. Uso relógio Swatch.
Em compensação, gasto muito com livro - um absurdo para 99% das pessoas.
Agora, mesmo um cara como eu às vezes não consegue não ter uns engulhos ao ver como se portam os ricos brasileiros.
A Veja lançou esses dias uma edição especial sobre São Paulo, intitulada “A Capital do Luxo”.
No que faz muito bem. Porque é bom negócio. Tem muito anunciante que quer falar com rico.
Tem muito rico no Brasil, 131 mil milionários, segundo a revista.
São pessoas que tem pelo menos um milhão de reais em aplicações financeiras, dinheiro livre, fora casa, carro, sítio, essas coisas.
E 56% do consumo da classe AAA no Brasil está em São Paulo - uns seis bilhões de reais.
Aliás, os números publicados são de cair o queixo. Alguns preços:
- R$ 15.760,00 pelo relógio Rolex mais vendido em São Paulo
- R$ 9.950,00 pelo relógio Cartier mais vendido aqui
- R$ 3.946,00 por uma jaqueta de couro Diesel
- R$ 500,00 por uma polo Giorgio Armani
- R$ 29.000 por uma bicicleta
- R$ 89.990,00 por um colar de diamantes na Vivara
- R$ 15.000 por uma caneta-tinteiro Faber Castell
- R$ 18.900,00 por um vinho do porto Quintal do Noval 1963
- R$ 2.960,00 por um sapato Salvatore Ferragamo
- R$ 73.500,00 por uma bolsa de crocodilo Louis Vuitton
E por aí vai.
De novo: não tenho preconceitos. E qualquer centavo ganho honestamente pode ser gasto como você melhor entender.
O que eu me pergunto é o seguinte: uma pessoa que gasta 73 mil reais em uma bolsa, deve ter, imagino, mais de uma.
Duas? Três? Cinco?
E pares de sapatos?
Tem umas entrevistadas na revista que afirmam ter dezenas de pares de sapatos.
Tem uma moça lá de 23 anos que diz ter mais de cem pares. Perguntada sobre seu livro de cabeceira, Heleninha Bordon respondeu: “gosto mais de revistas de moda.”
Não é a campeã. Lilly Sarti, também de 23 anos, tem “uns 180 pares. Compro quinze, vinte de uma vez só.”
Como você ganha dinheiro suficiente - aos 23 anos - para ser capaz de ter no armário milhões de reais em roupa?
E que tipo de gente tem orgulho de aparecer em revista contando vantagem sobre esse tipo de gasto?
Me deu vergonha.
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