silvio berlusconi1 O sangue de Berlusconi e a racionalidade da maluquice

Benito Mussolini disse: “governar a Itália é fácil, mas inútil.” Silvio Berlusconi foi um passo adiante: governa seu país com facilidade, o que tem sido utilíssimo para ele mesmo.

A diferença entre o primeiro ministro italiano e um bandido comum é que ele nunca foi condenado pela justiça italiana. Tentativas não faltaram.

Ele respondeu a vinte processos ligados a falcatruas diversas, e dois ainda correm. Raramente foi inocentado. Quase sempre escapou via artifícios legais - principalmente conseguindo prolongar os processos até que eles caduquem.

Não é fácil pegar Berlusconi na Itália. Ele é dono do grupo financeiro Fininvest e do Milan. Mais importante, é dono de dois canais de TV abertos, uma pá de canais fechados, revistas diversas etc. Fora que é o homem mais rico do país.

Não é só no Brasil que rico não vai em cana. Em 2004, a organização Freedom House baixou a Itália no ranking de liberdade de imprensa para o mesmo nível da Turquia. São os dois países com a imprensa mais controlada pelo governo, em toda a União Europeia.

Mas Berlusconi já foi mais que julgado pela opinião pública internacional.

berlusconi1 O sangue de Berlusconi e a racionalidade da maluquice

O veredito foi dado em 2001 pela The Economist, a revista mais respeitada do mundo, a que ninguém acusará de esquerdista ou radical: uma manchete de capa explicando “Porque Silvio Berlusconi não deve governar a Itália”.

A revista listava e relacionava muitas acusações de corrupção, grampos ilegais e lavagem de dinheiro e afirmava que Berlusconi dominava direta ou indiretamente 90% da TV aberta na Itália.

Berlusconi chamou The Economist de Ecommunist, “O Ecomunista”, e acusou a reportagem de ser um monte de mentiras. The Economist desafiou: então nos processe e prove que são mentiras. Berlusconi processou.

Perdeu - o tribunal, em Milão, ainda determinou que Berlusconi pagasse todas as custas do processo. Para quem se interessar, David Lane, um dos principais nomes da The Economist, é autor do documento definitivo sobre as podreiras todas, Berlusconi's Shadow.

E continua lá seu Silvio, pimpão, putanheiro, soltando piadinhas de mau gosto e faturando alto.

Anteontem, Massimo Tartaglia, engenheiro, 42 anos, atirou uma réplica da catedral de milão na cara de Berlusconi. Quebrou o nariz e uns dentes do primeiro-ministro. Políticos italianos de todos os matizes condenaram o ato.

Violência, quando é do Estado contra o indivíduo, tudo bem. Na via contrária, nem pensar.

Targaglia tem histórico de problemas mentais - claro, só maluco para aprontar uma dessas, porque no máximo passa uma temporada no hospício, e não na cadeia. Explicou o ataque assim: “eu tenho aversão a Silvio Berlusconi”.

Uma semana antes do ataque, dezenas de milhares de italianos marcharam em Roma para protestar contra Berlusconi. Repercussão zero. Fazem anos que todos os italianos mais famosos do país e internacionalmente condenam Berlusconi. Para nada.

berlusconi2 O sangue de Berlusconi e a racionalidade da maluquice

Um zé maneba taca um negócio na cara do Berlusconi, corre sangue, e a imagem está em todas as tevês e sites e jornais e revistas do planeta. O que levanta de novo todas as questões sobre a personalidade e as práticas de Berlusconi.

A questão é a certeza absoluta da impunidade. Como no Brasil. Os italianos sabem que Berlusconi jamais pagará por seus pecados. Como nós sabemos que no Brasil só vai em cana peixe pequeno.

Fala a verdade: se uns doidos começassem a atirar objetos pontiagudos na cara desses políticos brazucas que enfiam dinheiro na cueca, você ia ficar triste ou ia comemorar?

Quando todas as outras possibilidades se esgotam, ser maluco é o único ato político racional. 

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