(Reciclo um texto de meses atrás, porque tem muito a ver com a Cúpula de Copenhague e o imbróglio meio ambiente/economia/política. Acho que vale a leitura, pelo menos por apresentar Umair Haque.
Se você achar algo interessante no artigo abaixo, me faça um favor: visite o blog dele).
Umair Haque estudou neurosciência. É diretor do Havas Media Lab, uma consultoria-boutique de inovação e gestão. Foi colaborador de Chris Anderson em A Cauda Longa. Tem um blog provocativo chamado Edge Economy, no site da Harvard Business Review.

Está lá, e na capa da versão impressa da revista, sua receitinha para o futuro da humanidade: “The Smart Growth Manifesto”. Como esperteza no Brasil cheira malandragem, rebatizo de Crescimento Inteligente.
Haque declara: a economia global foi para o saco, ninguém está sendo capaz de reativá-la, nem será, e nem devemos tentar. Queimar dinheiro no problema é "apagar incêndio com coquetel molotov".
Resta recriar o conceito de crescimento. Porque o crescimento do século 20 era burro, insustentável, frágil e falhou. Não tem planeta para sustentar seis bilhões de pessoas no padrão da classe média americana. É balela.
O Crescimento Inteligente não é propulsionado pela venda de produtos e serviços. Ele virá de uma globalização turbinada pelo empreendorismo, inovação radical e o que Hague chama de “venture economies”, economias empreendedoras. Que devem buscar resultados, não receita (“outcomes, not incomes“).
Haque defende “foco em mobilidade do trabalho, investimento no capital humano, padrões globais no mercado de trabalho, e eficiência do mercado de trabalho. O Crescimento Inteligente não será propulsionado pelo capital buscar o trabalhador de custo mais baixo - mas sim, dando ao trabalho o poder de procurar o capital com o qual poderá criar, inventar e inovar ao máximo”
E Haque conclui triunfante: “o Capitalismo 2.0 não pode ser propulsionado pelo crescimento 1.0. Por isso a corrida pelo Crescimento Inteligente é inevitável. A pressão para isso - o potencial para criação de valor, em um mundo que está sendo estraçalhado pela destruição de valor - é simplesmente forte demais.”
Manifesto não é lugar para minúcias. Faltou dizer que esse papo todo vai contra a lógica do dividendo trimestral. E que a economia do século 21 se dirige para lucros menores, mínimos, para as empresas. Ou talvez lucro nenhum.
O pioneiro da internet barata Tom Evslin, citado por Jeff Jarvis no livro What Would Google Do?, é outro bom professor.
Ensina que empresas que explodem como Skype, Amazon, YouTube, Twitter e Google não cobram tanto quanto o mercado suporta pagar.
Cobram o mínimo que dá: “a única saída é ter sua margem tão próxima do zero quanto possível. Assim, qualquer concorrente terá que aceitar prejuízo para brigar com você.”
Valia para web, agora vale para muitas outras coisas. Pós-crise, o cobertor é menor que o corpo.
Resta canalizar os recursos para onde eles terão mais resultado na vida das pessoas. E penalizar pessoas e empresas que são parte do problema.
Mas quem decide quem é quem? São decisões políticas, sempre, e quem apita mais chora menos. No nosso país, o grupo Votorantim acaba de descolar US$ 9,2 bilhões em dinheiro público.
Mas estão aí Citibank e GM derretendo. E a indústria alimentícia, notícia de hoje, vai pelo caminho do cigarro. Na França e em vários estados e cidades americanas, políticos já propõem “impostos contra a obesidade”.
Capitalismo 2.0 é pouco. Como todo mundo tem direito a um plano e eu também, digo: não dá pra ser capitalista e socialista ao mesmo tempo. E não compensa escolher um lado. É como escolher entre uma bicicleta e uma frigideira. Porque os dois sistemas servem para coisas diferentes.
Capitalismo é bom para gerar mil variedades de cabernet, picolé de cupuaçu, smartphone, jacuzzi, bandas de rock e inovação hardcore. As delícias da existência.
Socialismo, economia planejada, funciona para o básico da vida: água, luz, saúde, segurança, transporte, teto, três refeições por dia. Eu incluiria escola até o doutorado e tecnologia fundamental.
Muita gente boa inclui informação razoavelmente imparcial. O modelo clássico é a BBC. Outro: jornais publicados por fundações sem fins lucrativos, como acontece na Alemanha.
Pode ser a saída para gigantes da comunicação que não tem futuro “de mercado”. Como o New York Times, que alguns analistas já avaliam com valor próximo de zero.
O século 20 não acabou no 9/11; acabou no 9/14/2008, com a quebra da Merryl Lynch. Só entra no século 21 quem capitular ao futuro – que está enterrando o crédito barato, o hiperconsumo, o crescimento infinito, e o lucro gordo. Heresia? É, mais uma.
(Com agradecimentos a Amanda Zoe Morris, que me apresentou Haque. Thanks, pal…)
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