Publicado em 08/01/2010 às 06:00

Um tributo ao verdadeiro rei do pop

Elvis Presley faria 75 anos hoje, se não tivesse morrido drogado, com glaucoma, artrite, fígado e instestino estourados aos 42 anos. Outra divindade roqueira, o igualmente imolado John Lennon, garantia que Elvis partira bem antes, aos 25 anos. O beatle era fã do rei.

Certa vez, Lennon disse: - Antes de Elvis, havia o nada. Também disse: - Elvis morreu no Exército.

O Elvis que interessava para um adolescente órfão e pobre de Liverpool morreu quando careteou. Quando vestiu o uniforme de milico e deixou raparem seu topete.

Importava para Lennon o Elvis roqueiro, horror dos conservadores, que apavorava em shows e liquidificava as tripas das menininhas com seu rebolado de preto safado.

Tudo bem que fosse tudo meio de mentirinha. Que Elvis fosse um caipira filhinho da mamãe, que chupava trejeitos de bad boy dos igualmente falsos bad boys que via no cinema - Marlon Brando, James Dean, Robert Mitchum.

Esse negócio de autenticidade é supervalorizado. Se você anda, voa e grasna como pato, é pato. E o impacto era realíssimo. Elvis era o rei do rock quando foi chamado para o serviço militar.

Voltou rei do pop, o original. Fazendo filmes caretas como GI Blues, coadjuvando no programa de TV de Frank Sinatra e gravando um álbum de hinos religiosos.

Seu primeiro hit depois do retorno foi It's Now or Never, uma versão cha-cha-cha de O Sole Mio. As cartas estavam na mesa. Foi basicamente isso que ele fez até morrer de vez, em 1977: filmes B, Vegas, carolice, pop caça-níquel.

Naturalmente, são alguns dos filmes B mais divertidos que você já viu; alguns dos shows mais eletrizantes que já animaram um cassino; alguns dos gospels mais emocionantes; algumas pérolas da canção popular que nunca serão superadas.

Mas Elvis não era mais inovador, do ponto de vista musical; nem tinha relevância cultural; e era romper barreiras na música e usar sua fama para mudar o mundo o que interessava para John Lennon.

É inacreditável pensar que Elvis tinha 33 anos no Verão do Amor, 68, e já estava completamente desconectado do que havia de mais quente na cultura jovem.

A explicação é que Elvis, como tantos músicos e talvez a maioria dos superstars, não pensava. Fazia o que mandavam. Não dirigia sua carreira e não escrevia suas músicas.

Cada decisão importante era tomada pelo seu empresário, o famigerado Coronel Tom Parker, que fazia tudo por dinheiro, inclusive perder oportunidades incríveis - e estava se lixando para projetos interessantes, parcerias promissoras, filmes com bons diretores, contratos com compositores de primeira.

Se só o Elvis roqueiro morreu no exército, foi lá que de fato ele colocou o primeiro pé na cova. Porque foi lá que começou a tomar anfetaminas. Gostou, todo mundo gosta. No final da vida era um junkie podre, tomador de tudo que era bola.

Foi ficando cada vez mais descolado do mundo real. Lia obsessivamente a bíblia, encanava que era um profeta, que Deus falava por sua voz, fazia seções mediúnicas, queria ser agente secreto do presidente Nixon, e por aí vai.

É maior hoje do que jamais foi em vida, ungido maior ícone da história da música popular.

A explicação é que o planeta inteiro reconhece a América em Elvis. Reconhece a energia crua, a confusão racial, o talento para o show business; a tensão entre o sex-appeal e o bom-mocismo; a fé em Deus e no próprio taco; a gana infinita por dinheiro, por mais, mais, mais de tudo; e finalmente, a ausência de uma justificativa para seguir em frente, perserverar, existir.

O século 20 foi o século americano. Elvis foi seu maior símbolo e messias: vendeu o american way of life melhor que ninguém.

Mas o século 21 cuida de enterrar o sonho americano a cada dia que passa. Elvis é tão velho e ultrapassado morto, quanto seria se tivesse sobrevivido.

Foi tarde? Foi na hora certa? Elvis viverá para sempre, para sempre oferecido em sacrifício, sempre jovem, sempre belo, solar.

Estava tão sozinho, que só restava morrer. Descanse em paz, rei.

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