Publicado em 14/01/2010 às 10:13

Rock In Rio: eu estava lá

rock in rio palco  Rock In Rio: eu estava lá

25 anos atrás eu estava sozinho no ônibus Copacabana-Cidade do Rock, com o coração na boca. Meu primeiro dia no Rio de Janeiro. Meu primeiro dia de Rock In Rio.

Eu já morava sozinho em São Paulo há dois anos, mas tive que pedir aprovação para os meus pais mesmo assim. Até porque não tinha grana para ir, só estudava. Não encrencaram, ajudaram. Descolaram até um lugar para eu ficar hospedado.

Moleza total: noite no barrão do festival, dia num mega-apê lotado de obras de arte e livros louquíssimos do Umberto, meu primo cardiologista society, marchand, descoladésimo, que mal vi enquanto estava lá.

Trabalhava e badalava como um louco, jantava fora todo dia. A geladeira dele só tinha guaraná e iogurte de morango. Vivi de sanduba na rua meus dias de Rock In Rio. E salada de frango do Bob's e Malt 90 de noite.

O engraçado é que eu não armei a viagem com ninguém, e tinha alguns conhecidos que eu sabia que iam. Não lembro por que foi assim.

Encontrei lá, que eu me lembre, dois colegas de colegial, Paulo Cabral - meu chapa, jornalista das antigas - e Viviane Zveiter, minha amiga de infância. Foi a última vez que vi Viviane - quer dizer, até 2008, aniversário de 25 anos de formatura do colegial. Ela estava igualzinha. Eu, 25 quilos mais pesado. Hope I die before I get old, indeed...

A ironia é que em 85 meu negócio era punk e new wave fazia séculos, e eu estava me sentindo um pouco traído com New Wave ter virado gel com glitter para cabelo. Que ondinha é essa de B-52's, Legal Tender? Eu era fã dos caras desde 1980!

Veja outras fotos aqui: Rock in Rio 25 anos

Fiquei mais chateado ainda porque os artistas que eu mais gostava, o próprio B-52's, Go-Go's, Nina Hagen e tal, fizeram umas porcarias de show. Os brasileirinhos, coitados, mal a gente escutava, Paralamas, Kid Abelha, Blitz. O Rock In Rio foi dos dinossauros: Queen, AC/DC, Whitesnake, Yes, Iron Maiden.

montagem Rock In Rio: eu estava lá

Eles é que sabiam tocar em descampados com uma acústica de pesadelo. Fui lá pra implicar com a velharada - não era e nunca fui metaleiro - mas tive que me render. E me converti ao AC/DC, que achava coisa pra jacu, lá mesmo.

O Rock In Rio, de uma maneira esquisita, foi o Woodstock do Brasil: rock, amor e lama, um divisor de águas geracional. Não tínhamos voto direto para presidente, mas pelo menos a gente estava livre dos generais. Chega de mau humor. Chega de tromba. Chega de patrulha ideológica. Chega de Fagner, Gonzaguinha, Simone, chororô. Let's rock!

Não arrumei uma namorada lá, mas tentei bastante. Me atolei no gramado e nos lagos de esgoto que se formavam nos banheiros. Meus tênis viraram blocos de barro. Voltei do Rio de havaianas (com meia!
estava frio!), cheguei uma da matina. Dormi na rodoviária de SP, para pegar o primeiro ônibus para Piracicaba sete da manhã. Eu era outro cara.

acdc Rock In Rio: eu estava lá

Foi bom, tudo foi lindo, foi uma aventura. Sem risco, mas para minha parca experiência da época, uma aventura mesmo assim. Perto das maluquices que conhecidos fizeram, tive um festival de playboy total.

Mr. Paulão, do Garagem, contava esses dias que fritou o braço com o óleo da batata frita e foi enfaixado ver o Ozzy!

O Rock In Rio teve consequências diretas na minha vida. Porque durante o festival, foi realizada uma pesquisa com o público sobre a viabilidade de uma revista sobre rock no Brasil - em termos de leitores, de anunciantes e tal.

Foi com base nesses resultados que ela foi lançada no Brasil alguns meses depois: Bizz. Ideia de executivos e jornalistas roqueiros, que xavecaram os chefões na Abril. Hei, Carlos Arruda, aquele abraço!

Seis anos depois, eu era editor da Bizz, cabeludo, e passei o Rock In Rio 2 inteiro instalado numa suíte do Copacabana Palace. Dormia de dia, dividia a piscina com o George Michael à tarde, enfiava o pé na jaca noite adentro, nos shows, nas salas Vip das gravadoras e num after que não acabava nunca. Meus dias de rockstar. Dava autógrafo na rua, juro.

Em 2001, voltei for fun, com grandes amigos, para um final de semana regado a REM e Guns N'Roses. Fiquei feliz de ter ido. E quer saber? Se tiver outro Rock In Rio, arrisca eu ir de novo. É tradição na minha vida. E falo sempre pra rapaziada mais nova, e com a boca cheia: hoje eu estou aqui, tiozinho, mas em 1985 eu estava lá.

Veja mais:

+ Conheça os registros oficiais do primeiro Rock In Rio

+ Há 25 anos, primeiro Rock In Rio colocava o Brasil na rota dos shows internacionais

+ Todos os blogueiros do R7

Ir para o Topo