Publicado em 15/01/2010 às 09:20

Aborto não é problema para padre

Li essa semana:

“Depois da reação da Igreja Católica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou rever o trecho pró-aborto no decreto do 3° Plano Nacional de Direitos Humanos, alegando que ele não traduz a posição do governo...

Pela nova redação, o texto deverá fazer uma defesa genérica do aborto, no contexto de saúde pública - para salvar a vida da mãe, por exemplo.

Na nova redação, será suprimida a parte que fala da autonomia, pois caracteriza apoio à decisão íntima de interromper a gestação, mas não é a posição do governo e de Lula.

Na última sexta-feira (8), d. José Simão, bispo de Assis (SP) e responsável pelo Comitê de Defesa da Vida do Regional Sul-1 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que congrega as dioceses do Estado de São Paulo, disse que a igreja vê as iniciativas do plano como uma "atitude arbitrária e antidemocrática do governo Lula".

Vamos mexer no vespeiro?

Ninguém pode achar aborto bonito. Tem uma coisinha lá crescendo desde o primeiro segundo. A dupla feliz, ofegando na cama, pensando em levantar para comer alguma coisa, e o famoso “milagre da vida” já dá seus primeiros passos. Depois de nove meses vira um nenezinho amassado, e mais uns seis meses mamando temos um bebê johnson bochechudo.

Mas as pessoas são descuidadas, e ignorantes, ou durangas, ou as três coisas simultaneamente - quer dizer, jovens. Então as moças vão engravidar em hora errada. Conheço vários casos de meninas inteligentes, estudantes de escolas ótimas, que engravidaram antes dos vinte anos. É a natureza. Jovens querem transar.

Nem todas sobrevivem. 25% de todas as mortes maternais, durante ou logo depois da gravidez, acontecem por causa de complicações com abortos malfeitos. Esse é o número para a América Latina. É de 13% no mundo, 1% nos países ricos.

A Organização Mundial da Saúde estima que dezenove milhões de abortos ilegais são feitos em todo o mundo anualmente, 48% do total, e que 68 mil mulheres morrem por causa deles. Muitas outras não morrem, mas ficam com problemas, sequelas etc.

O aborto é eticamente quase tão questionável quanto a pena de morte, e é uma barbaridade que em muitos países se autorize aborto até seis meses de gestação.

Mas sou 100% pela descriminalização do aborto e a favor de que hospitais públicos realizem os procedimentos, se a mãe desejar, mesmo menor de idade. Até, vá lá, umas 14 semanas de gravidez. É tempo razoável pra decidir.
Por duas razões.

Primeiro, porque sempre houve abortos. Sempre haverá. As pessoas vão fazer abortos de qualquer jeito, só que algumas, que têm dinheiro, vão fazer bem-feito; e quem não tem dinheiro vai fazer malfeito e se ferrar. Só a hipocrisia habitual brasileira é que justifica que o aborto ainda seja “ilegal” no Brasil.

Só a ignorância justifica que uma criança que não foi planejada, nem desejada, possa significar uma “benção”. Em 2007, 65% dos brasileiros pesquisados apoiaram que o aborto continuasse ilegal no nosso país. É mais ou menos o percentual de analfabetos totais ou funcionais do Brasil.

Segundo, porque acredito que as crianças precisam de amor, educação e oportunidades.

freakonomics blog Aborto não é problema para padre

No livro Freakonomics, o economista Steven D. Levitt apresenta provas contundentes de que a queda na criminalidade nos Estados Unidos nos anos 90 foi decorrência da descriminalização do aborto.

A partir dos anos 70, mulheres pobres tiveram acesso a aborto pago pelo Estado.

Em vez de terem filhos que não desejavam, nem tinham condições de criar, elas decidiram interromper a gestação.

Os meninos indesejados não nasceram, não cresceram sem condições, nem pai, nem amor. Menos moleques pobres na rua, menos criminosos.

É um pouco horrível essa ligação? É. Faz sentido? Faz.

Agora, o que absolutamente me tira do sério é a interferência de sapo de fora, ou seja, religiosos, nessas questões. Sai fora, meu. O Brasil é um estado laico. E vamos ter um pouquinho de espinha, caros governantes?

Não temos que ceder ao primeiro espirro dos padres e companhia, certo? Se o Dom José Simão não quer se reproduzir, o problema é dele. Se a mocinha grávida não quer se reproduzir, o problema é dela. Cada macaco no seu galho, please.

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