Um amigo sempre dizia que quer muito ser corrupto, mas ninguém oferece nada para gente honesta. E começar por baixo, se vendendo por pouco, é muito desagradável e desanimador.
Se vender, no caso, não é só na linha grana na cueca, desses Arrudas e companhia. Existem muitas maneiras de você, hmm, digamos, “alargar seus horizontes” e afrouxar um tanto os princípios, quando o dinheiro é bom.
Cada um cai do bonde como quer, e cada um sabe até onde pode ir e continuar dormindo bem à noite. Não sou juiz. Mas sei reconhecer um cara de princípios quando encontro um.
Frank Gehry é um homem de princípios.
Ele é certamente o mais famoso arquiteto da nossa época. Tipo, ele aparece nos Simpsons e em campanhas da Apple, e ganhou um documentário dirigido pelo premiado Sidney Pollack, Sketches of Frank Gehry.

É responsável por prédios famosos como o Museu Guggeinheim em Bilbao e o Museu da Música de Seattle. Causa polêmica. Há quem diga que sempre constrói o mesmo prédio, que as obras são faraônicas, não levam em consideração necessidades humanas etc. Ninguém negará que é único.

Eu só entrei em um prédio projetado por Gehry, o Walt Disney Concert Hall, no centro de Los Angeles. Foi para um evento da produtora de games Square-Enix, em 2005. É como entrar em uma nave espacial.
Mas meu favorito é esse, em Praga, a “casa dançante”.

Gehry tem 80 anos. Está quase encerrando a carreira. Seu grande projeto nesta fase: ele foi escolhido para construir o Museu da Tolerância, em Jerusalém, Israel. Um megaprojeto de 250 milhões de dólares. Importante: o canadense Gehry nasceu Goldberg, judeu de origem polonesa, e mudou o nome depois de adulto.
Frank acaba de se retirar do projeto, após anos de trabalho. Não deu muita explicação, fora dizer que “é uma situação política sensível.” Eufemismo do ano.
O projeto vinha sendo bombardeado de todos os lados, inclusive por rabinos ortodoxos, políticos israelenses de esquerda e direita, arquitetos do mundo todo. Por que? Porque o lugar escolhido foi em um terreno que serve faz 800 anos como cemitério muçulmano.
Está além do desrespeito, claro. O projeto é do Simon Wiesenthal Center, batizado em homenagem ao célebre caçador de nazistas. O Museu da Tolerância de Israel seria o segundo - já existe um em Los Angeles. O plano para construção do Museu da Tolerância em Jerusalém data de 2004, e muita água correu desde então.
O projeto arquitetônico desenvolvido por Gehry e equipe está entre o sensacional e o sensacionalista, aço, pedra, vidro colorido para todo lado. Os responsáveis tocam o projeto sem Gehry e já informaram que vão selecionar outro arquiteto, e a polêmica continua. Leia aqui.
Gehry poderia ter coroado a carreira com talvez sua construção mais ambiciosa; embolsado uma tonelada de dinheiro; e ainda justificado, “se eu não construo, outro vai construir”.
Ele disse não ao Museu da Tolerância assim que a polêmica estourou? Não.
Foi empurrando um pouco com a barriga. É humano, como você e eu. Na hora H, tomou a decisão que sua consciência exigia. Foi honesto. Não é pouco.
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