Publicado em 26/02/2010 às 08:54

Meu herói

Muitas histórias de gângsteres - as melhores? - são histórias de imigrantes, seja de sicilianos em Nova York, cubanos em Miami ou nordestinos no Rio de Janeiro. Gangues formadas por estrangeiros são mais fortes do que bandos de bandidos.

A língua, o sangue, o clã falam alto. O surpreendente DVD Massacre no Bairro Chinês explora um novo tipo de gangue: a de imigrantes chineses em Tóquio.

jackie chan Meu herói

São camponeses que não se beneficiaram do milagre econômico e deixam a China buscando uma vida melhor no Japão.

Chegando lá, claro, só encontram oportunidade em subempregos, bicos e, inevitavelmente no crime. O que, também inevitavelmente, os coloca em rota de colisão com a máfia japonesa, a Yakuza.

Escrita e dirigida pelo premiado (e também ator) Tung-Shing “Derek” Yee, a saga atravessa anos. É centrada na figura simpática de Nick, que faz todo o possível para não ser bandido - até limpar esgoto - e termina líder de uma gangue.

Que o protagonista seja vivido pelo ícone Jackie Chan - em um raríssimo papel sem artes marciais, sem comédia e sem trejeitos de herói - só torna mais interessante este drama violento e fatalista.

Depois desse filme, perdoo tudo a Chan - até ele ser o sensei do novo Karate Kid.

Veja mais:

+ Notícias de cinema
+ The Spy Next Door
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 25/02/2010 às 10:09

Eu não voto (em 2010)

O texto abaixo foi publicado no dia 29 de setembro de 2008.

De lá para cá, fui obrigado a regularizar minha situação eleitoral, porque meu passaporte venceu. Demorou meia hora da minha vida ir ao Cartório Eleitoral de Pinheiros e acertar tudo.

Estava vazio. A moça era simpática. Paguei R$ 14,04 no Banco do Brasil ali ao lado, rapidinho.

Tenho portanto novo título, que não usarei em 2010.

Como é ano de eleição, boto de novo na roda minha posição sobre eleições. Que é basicamente: não concordo com as regras eleitorais. Portanto, não acredito que votando vou mudá-las. Sou contra a participação nas eleições.

Sou contra o voto nulo, porque é participar do jogo. É impossível o voto consciente, se você não tem consciência de como seu candidato financiou a campanha. Dito isso, as pessoas votam, e outras são eleitas.

E sinceramente às vezes coça minha mão para votar em alguém. Mas resisto.

E não, os políticos não são todos da mesma laia. É estúpida a campanha “não reeleja ninguém”. É estúpido colocar toda a culpa das desgraças do mundo nos políticos.

Eles são financiados por grandes empresas, apoiados por grandes veículos de comunicação e eleitos por você. Todos são responsáveis. Tem político ruim e pior. Escolha o seu, se quiser. Mas não me convide.

Eu não voto

Manhã de domingão de eleição na praia, ressaca do sábado, perfume de filtro solar, fila paralisada. Acabou o formulário para justificar o voto, foram buscar mais em São Sebastião. Quinze minutos, meia hora, quarenta... Quer saber? “Vambora”.

Foi assim que eu parei de votar. Depois dessa, vieram outras eleições. Nunca mais apareci. Não é que me incomodasse muito. Sempre votei relax. Ia a pé ou de metrô, chegava quatro e meia da tarde, tudo vazio, votava sossegado, comia um churro depois.nao voto ok Eu não voto (em 2010)

Mas também nunca mais tive uma boa razão para votar. Nunca mais apareceu uma campanha em que meu voto fizesse diferença, em que, entre os candidatos disponíveis, alguém realmente me convencesse. Picar cartão votando no “menos pior” dá preguiça e é eticamente duvidoso.

Não fui sempre assim, mas também nunca fui muito animado com o processo eleitoral. Nunca fui a um comício pelas Diretas — qualquer campanha que tem como hino Menestrel das Alagoas não pode contar comigo.

Naturalmente eu queria votar e queria ver os milicos de volta aos quartéis, mas estava na cara que as Diretas não iam passar e não passaram, o que nos levou a cinco anos de José Sarney presidente. E, quando finalmente tivemos eleições para presidente, Collor venceu — meio no golpe, mas levou. É de broxar qualquer um.

Fielmente, eu compareci para votar quatro vezes no Lula e petistas diversos. No Covas, uma vez que ele estava pau a pau com o Paulo Maluf. Sempre considerei meus votos como voto útil, porque do contra: sempre votei contra os caras que mais me irritavam, mesmo que eu tivesse discordâncias mil com meu candidato. E não vou negar: tinha minhas esperanças de que, quando o Brasil finalmente tivesse um presidente que não viesse da elite, o jogo finalmente mudaria.

Bem, não... O jogo é quase exatamente o mesmo. Os 5% de diferença fazem diferença e são suficientes para Lula manter a popularidade para mais cinco mandatos. É pouco para me tirar de casa. Então, eu não voto. Porque tenho coisa melhor para fazer no feriadão, porque todos os candidatos com chances de vitória são 95% iguais e porque o voto não é obrigatório. Você leu direito. O voto não é obrigatório.

Se você for pego dirigindo bêbado, perde a carta, talvez o carro, talvez muito mais. Se ficar sem votar, não acontece nada. Se você não votar nem pagar a multa, enfrenta as seguintes penalidades:

a) não pode se inscrever em serviço público;
b) não pode tirar passaporte nem carteira de identidade;
c) não pode renovar matrícula em escolas públicas;
d) não pode obter empréstimos em bancos públicos;
e) não pode participar de concorrência;
f) se o eleitor deixar de votar em três eleições consecutivas, seu título será cancelado.

Bem, estou velho para começar carreira de funcionário público ou finalmente terminar a faculdade de jornalismo, já tenho RG e passaporte. Portanto, as penalidades são quase zero.

E mais: não é um caminho sem volta. Porque se você precisar, digamos, renovar o passaporte, basta pagar a multa. A penalidade para o eleitor que não vota nem justifica é uma multa que varia entre R$ 1,06 e R$ 3,51.

Pode ser multiplicada até dez por um juiz eleitoral — desconfio que nunca aconteça, mas que seja. R$ 35,10 não é muito por um feriadão bem aproveitado. Cada eleição são dois turnos (em boa parte do país, sempre). Você renova o passaporte a cada cinco anos. Faça as contas. Compensa.

Mas na verdade o valor é muito maior do que esse. Porque sabendo de antemão que você não vai votar, você simplesmente se poupa de ler sobre as eleições, assistir aos programas que toquem neste assunto etc. Você se irrita muito menos com a mediocridade e cara de pau dos candidatos (e de seus marqueteiros).

São centenas de horas ganhas a cada ano de eleição que você pode usar de maneira muito mais útil — namorando, ganhando dinheiro, tomando uma com aquele velho amigo. São muitas e muitas horas de alegria nos anos seguintes, em que você não sente a menor necessidade de acompanhar as sem-vergonhices que o cara em quem você teria votado inevitavelmente cometerá.

Já fui contra o voto obrigatório. Não mais. Muito mais prazeroso desrespeitar a lei, sem nenhuma consequência. Igualzinho a um político. Isso é que é liberdade!

Veja mais:

+ Saiba o que pensam os presidenciáveis José Serra e Dilma Rousseff sobre temas nacionais
+ Candidatura de Marina Silva terá direção de Fernando Meirelles
+ Chávez diz que "o Brasil merece Dilma" presidente
+ Partidos se preparam para receber doações online
+ Partidos buscam artilharia para guerra na web em 2010
+ Veja as novas regras para campanha eleitoral na internet
+ Relatório aponta que um terço de dinheiro de campanha de Gilberto Kassab foi ilegal
+ Promotor eleitoral já sabia de cassação de Kassab
+ Ciro cogita aceitar "desafio" de disputar o governo de SP se candidatura presidencial prejudicar plano de Lula
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 24/02/2010 às 10:00

Julian Casablancas e a era da hora

O Strokes era uma bandinha calculada demais e não calculada o suficiente. Nada contra poseur, tudo contra pose mal feita.

Influência terrível também - gerou tontinhos de calça apertando o saco e cabelinho cuidadosamente desgrenhado no mundo inteiro. Infelizmente sem os trust funds dos Strokes, todos playboyzitos.

A birra com a banda, poderosa, se uniu à minha repulsa por Los Hermanos, com o resultado que nunca ouvi um segundo de Little Joy, que reúne integrantes das duas mais uma moça. Pior de dois mundos.

Julian casablancas Julian Casablancas e a era da hora

Particularmente intragável é o cantor dos Strokes, Julian Casablancas, que além de tudo cresceu em Nova York, filho do dono de uma agência de modelos. Vai nascer com o rabo virado na lua no, hm, Upper East Side.

Até quando colou nos meus queridos Pharrell Williams e Santigold, não colou. Também não atrapalhou muito. Foi nesse anúncio de tênis.

Então, upa, por que me rendo ao trabalho solo de Julian?

Primeiro, não sabia que era ele. Ouvi no rádio repetidamente por meses, Oi FM, e assobiei. Semana passada trombei com o clipe na VH1. Que chato ter que rever uma opinião.

Depois fui fuçar outras músicas de Julian Solo no YouTube. Aprovado.

Porque é revival dos anos 80, e não qualquer anos 80, mas a segunda metade dos anos 80, mais over, mais jacu, mas de mentira.

Na segunda metade dos 80, o metal era de mentira, o rap era de mentira, dance era de mentira, os ingleses ficaram todos de mentira. Era só  verniz, superprodução e marketing.

Esse vídeo de 11th Dimension é totalmente 1988: animação japs, efeitos em neon elétrico, diálogo mudo, futuro Mad Max, banda fake atrás.

Outros revisitaram o lado mais cafonete dos anos 80 e melhor, ou pelo menos tão bem quanto. Para citar um menos comum que adoro: Zoot Woman.

Recomendo Living in a Magazine, influente e pouco ouvido álbum de 2001 da banda do Stuart Price, do Les Rythmes Digitales.

Infelizmente ele ficou rico como diretor musical da Madonna e produtor de Killers, Seal e outros famosões, e largou o Zoot Woman.

Mas Julian, mesmo feinho, tem a pinta de rockstar que Price nunca teve. Cada década tem seu revival e tem seus astros vivendo de reviver/reciclar/reinventar o passado... e como ninguém são pode querer voltar já aos 90 - nem entramos no século 21 direito ainda! - a segunda metade dos 80 é a era da hora.

Julian, surpresa, completou 31 anos e está para ter o primeiro filho.

Nasceu, opa, anos 70. Era tween quando reinavam os Thompson Twins. Tem ligação emocional profunda com a segunda metade dos 80, muito mais do que com os ícones 60's & new wave em que se apóiam os Strokes.

Eu devia ter percebido antes que Last Nite é uma “homenagem” a  Don't Get Me Wrong, Pretenders, 1986...

Veja mais:

+ Vocalista dos Strokes revela repertório de disco solo
+ The Strokes podem voltar em 2010
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 23/02/2010 às 11:09

Como contratar um jornalista, 2010

Tenho 22 anos de profissão e 20 como editor. Neste tempo contratei muito jornalista. Geralmente neguinho na faculdade, recém-formado, por aí.

Acertei muitas vezes - tá cheio de gente boa no mercado que passou na minha mão, no bom sentido, no bom sentido. Errei também. Me levam no papo fácil, e não só meninas bonitas não.

Mas nunca dominei a arte da contratação. Devia ter seguido mais o exemplo da Folha, quando entrei lá. Agora, o amigo Marcelo Soares me mandou o texto abaixo. É um passo além.

É uma convocação para quem quiser se arriscar a ser estagiário na revista ianque American Prospect. Fantástica. Porque é direta e bem escrita. Porque espanta 90% dos caras que mandariam um CV - dá muito trabalho fazer tudo que a revista exige. E porque numa batida de olhos você vê se o candidato escreve bem ou não, articula os pensamentos ou não.

E, claro, inclui o desafio: agora critique o que nós fazemos, nosso blog.

Applicants are asked to submit the following:

A short critique of:

1) one of the following three pieces: “Don’t Blame the Billionaires,” by Dalton Conley; “Gentrification Hangover,” by Alyssa Katz; “The Ultimate Test Case,” by Tim Fernholz.

2) one additional Prospect piece of your choosing.

This portion of your critique should engage with the argument of the pieces. A short critique of our group blog TAPPED. This critique should address style, clarity, readability, voice/place in the political dialogue, as well as more substantive questions of content. What works? What doesn’t?

Two written recommendations.

Three to four writing samples. These can include newspaper and magazine clips, academic papers, blog posts, and unpublished pieces — anything that demonstrates exceptional writing and analytical ability.

Three story ideas for The American Prospect.

Your resume.

Your college and (if applicable) graduate school transcripts.

Tudo isso, veja, para um estágio.

Funciona para jornalismo, arrisca funcionar para qualquer vaga em qualquer profissão. Critique o que eu faço, sem dó e com propriedade. Aí eu vejo se te contrato.

No meu outro trabalho - você não achou que eu só fazia este blog, imagino - continuo tendo a obrigação de encontrar jovens jornalistas de futuro. Acho que vou começar a usar uma versão desse texto para selecionar profissionais para a Tambor.

Em inglês, claro - no future for non-english speaking professionals on the 21st century, sorry.

Felizmente, inglês é fácil. Em trinta anos, estagiário de jornalismo vai ter que falar mandarim. Aí eu quero ver...

Veja mais:

+ Câmara votará exigência de diploma para jornalistas
+ Particulares apostam em qualidade de ensino para garantir turmas de jornalismo
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 22/02/2010 às 10:37

Como contratar um jornalista, 1988

blog forasta Como contratar um jornalista, 1988

Conheço uma pá de estudantes e recém-formados em jornalismo. Tenho uma dó louca. Nossa profissão está acabando. Quer dizer, o tempo em que nossa profissão era fácil está acabando. Mais explicitamente: antes era mais fácil enrolar o leitor, o chefe, até os colegas.

Ouvir um disco / ler um livro / assistir a um jogo / e depois escrever o que achou disso, qualquer um faz e põe na net. Isso não vale mais nada.

Ter acesso a canais de informação diferentes: não vale mais nada. Todo mundo tem. O tempo em que crítico de música era um cara que trazia LPs de Londres na mala acabou.

Acesso direto a fontes: acabou. Agora é tudo intermediado / facilitado / pasteurizado pelas assessorias de imprensa.

Tem outro problema. É difícil a estudantada ter tempo e concentração para ler livrões. Querem trabalhar desde o primeiro ano de faculdade, querem ficar o dia inteiro no Facebook etc. E sem livrões não há formação cultural, não brigue comigo, não é minha culpa.

Cada vez mais, o que importa em jornalismo é, segundo meu ex-chefe Mario Cesar Carvalho, o furo. O que só você e ninguém mais tem. Ele é um repórter de primeira e sabe do que está falando.

Concordo e adiciono: às vezes o que só você e ninguém mais tem não é uma informação, mas um ponto de vista surpreendente, uma maneira de contar a história extraordinariamente sedutora ou uma argumentação arrasadora.

Nunca tenho nenhuma das três coisas. Mas nunca tenho e nunca tive medo de passar vergonha em público. Desde o primeiro dia. Desde antes do primeiro dia.

Seis de setembro de 1988: quando vi qual era o teste para entrar na Folha de S. Paulo, meu coração gelou.

Eu tinha acabado de passar por uma entrevista com não um, mas três profissionais do jornal: Carlos Eduardo Lins da Silva, Márion Strecker Gomes e Maurício Stycer. Secretário de redação, editora e editor-assistente da Ilustrada.

Eu vestia jaqueta de couro, botas e tinha o cabelo nos ombros. Mr. Rock'n'Roll, assustadaço, blefando como louco, tentando ser contratado para o emprego dos seus sonhos desde os catorze anos.

O teste era algo assim, parafraseio: “Escreva um texto de duas laudas sobre quais são os principais defeitos da Ilustrada e como o seu trabalho pode ajudar a melhorar o caderno.”

Para ser lido pela responsável pela Ilustrada! Pensei, tô frito. Mas sentei lá e batuquei as quarenta linhas, em máquina de escrever, shit, e tínhamos uma hora para completar a missão. A única lembrança é ter escrito as palavras “Acid House”.

Deve ter saído uma porcaria indizível, mas os outros devem ter feito porcarias piores, porque a Folha me deu a chance de cobrir férias. Comecei na profissão.

Nos últimos 22 anos trabalhei pouco em grandes redações e muito no mundo, hmm, independente. Tive vários espasmos empreendedores, fundei editoras, lancei revistas, livros, quadrinhos, sites etc.

Algo sobreviveu, a maioria não, e boa parte deixou boas lembranças. Pensei muitas vezes “o que teria acontecido se”, caminho certo para a loucura.

Com todos os acidentes de percurso previsíveis, e alguns não, nunca me arrependi de ter me transformado em jornalista - simplesmente porque não consigo me imaginar fazendo algo diferente.

E principalmente não me arrependo de ter criado essa profissão específica para minhas medidas - mistura de jornalista, editor, lançador, animador de torcida, marketeiro e sei lá mais quantas coisas ruins. Mistura que vive mudando, conforme mudam o mundo e eu.

Como todo mundo que brinca nas onze, sou de ruim a razoável em todas e bom mesmo em nenhuma. Nunca me levei a sério como jornalista. Primeiro porque nunca fui um bom repórter, e reportagem é o coração do negócio.

Segundo porque não tenho o capricho de ourives que um editor de primeira precisa ter. Se você não é bom repórter nem bom editor, é o quê?

Por isso fico um tanto encabulado de ensinar jornalistas iniciantes. Mas tenho janela, cabelos brancos e as cicatrizes impressionam. Agora, além de enrolar o leitor, também enrolo jovens colegas. Trabalho sujo, mas...

Veja mais:

+ Game simula jornalismo com pitadas de glamour
+ Ame o que você faz, trabalhe muito e respeite a inteligência do próximo
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 19/02/2010 às 08:41

Artistas unidos e rasgando dinheiro – por uma boa causa

Só hoje vi o videoclipe de Everybody Hurts, gravado por um elenco de estrelas para apoiar o Haiti.

Gente como Rod Stewart, Leona Lewis, James Blount, que aparecem em estúdio. São os caras mais chatos do pop. Gravando a música mais insuportável do REM.

É de doer. Padrão We Are The World. Não dá vontade nenhuma de assistir, comprar, colaborar. Aliás, dá vontade é de perguntar: ô seus astros bilionários, que tal mandar um checão em vez de atazanar nossos ouvidos?

Bob Geldof, que começou essa história toda com Do They Know It's Christmas em 1984, ficaria bravo comigo se lesse isso.

Perguntado sobre We Are The World, e como a música era uma porcaria lacrimosa, retrucou: “quem se importa? O que interessa é a grana.”

É. E abrir a mão da grana em defesa dos seus princípios. Como os artistas que cantaram, tantos anos atrás: não toco na África do Sul racista e não interessa quanto me paguem. Numa música ótima, para completar. Para quem não conhece: Artistas Unidos contra o Apartheid, Sun City.

Veja mais:

+ Veja mais cenas de We Are The World 25 For Haiti
+ A desgraça do Haiti foi planejada
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 18/02/2010 às 08:42

A desgraça do Haiti foi planejada

Tem um mês e pouco que o terremoto devastou o Haiti. Ninguém escreveu o evidente. Ou se escreveu, escondeu bem.

Veja as fotos aqui.

Que é: o Haiti é uma colônia dos Estados Unidos.

Desde 1915, quando os EUA mandaram tropas para ocupar o país pela primeira vez.

Depois disso, mais diretamente ou menos, os americanos sempre mandaram e desmandaram no Haiti.

Como de costume no século 20, os ianques impingiram ditadores sanguinários em nome do combate ao comunismo.

Os dois Duvalier, Papa e Baby Doc, fugiram da regra - para pior. Foram os dois maiores canalhas que você puder imaginar.

Governaram pelos americanos, apoiados pelos americanos. Papa Doc Duvalier fundou uma organização chamada Tonton Macoute, que levou o barbarismo contra os opositores da ditadura a requintes arrepiantes.

Faz 95 anos que qualquer mínima tentativa de implantar um governo que funcione no Haiti, com alguns direitos mínimos para a população, foi barrada a bala pelos EUA. Lá e em todo o mundo e, principalmente, no quintal dos americanos, a América Latina.

Haiti marco de 2009 A desgraça do Haiti foi planejada

Vista da cidade de Porto Príncipe. Foto tirada em março de 2009 - Ramon Espinosa/AP

No Brasil também, claro. Se hoje o Brasil tem tantos problemas, muito se deve ao golpe militar de 1964. Que teve o apoio dos EUA. Que treinaram os milicos que deram o golpe. Que ensinaram a gorilada a torturar guerrilheiros em todo o continente (e pelo mundo afora).

Hoje os EUA pegam mais leve. Não investem mais em ditadores babando sangue, nem em milicos ditando nossas vidas. Nem aqui nem no Haiti.

Mas quem manda lá hoje? O governo dos Estados Unidos é o maior financiador do Haiti. Entre 1990 e 2003, os EUA doaram US$ 1,5 bi (R$ 2,7 bi) em ajuda para o Haiti, de um total de US$ 4 bi (R$ 7,3 bi) recebido de governos estrangeiros.

Como essa ajuda estrangeira representa 35% do orçamento total do país, fica na cara: quem paga as contas, dá as cartas. E em setembro de 1994, no governo Clinton, os EUA prepararam uma invasão ao Haiti, para forçar a volta ao poder do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, assassino de massa, traficante e psicopata.

Saiba que o Haiti tem 40% de crianças que nunca foram vacinadas, 50% de analfabetos, metade dos óbitos em 2009 foram por HIV/Aids e 225 mil crianças trabalham como escravas, empregados domésticos sem pagamento, a troco de comida.

Nem preciso dizer que 1% da população possui mais que 50% da riqueza do país. Isso não é acidente de percurso. Não tem nada que ver com o haitiano ser preto, ou o país ter sido fundado por escravos, ou falar francês, ou preferir o vodu a religiões mais comportadinhas.

Um terremoto é acaso. O Haiti foi planejado.

Veja mais fotos aqui.

Veja mais:

+ Governo "bate cabeça" na captação de ajuda ao Haiti
+ Número de brasileiros mortos no Haiti aumenta para 20, diz ministério
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 17/02/2010 às 09:00

Megan Fox

Garota Infernal é sexy, engraçado, espertinho. É mais ou menos o antiCrepúsculo. Fracassou nas bilheterias. A culpa foi colocada em Megan Fox. Pegaram a menina pra bode expiatório. Não merece.

O marketing foi inteiramente baseado na garota. Ela é rejeitada pelo público feminino, porque é “predadora”. O filme afundou nos cinemas. Pena, porque é filme de menina. Menina esperta. E Megan na real nem é a protagonista - o personagem central é o de sua amiga nerdinha, vivida por Amanda Seyfried.

Opa, olha elas se beijando aqui.

As mulheres acusam Megan de clone piorado de Angelina Jolie. Dizem que, além de ser toda atirada, é burra. OK, ela não é assim um Einstein. Que atriz é? Jolie era dez, quinze anos atrás? Seu grande pecado é que ela finge menos que as outras. É tão burrinha como qualquer uma, e fez fama pelas coxas bronzeadas e olhar de vem-cá-meu-nego, como coadjuvante de robôs gigantes.

Amamos nossos astros imperfeitos. É claro que um bom agente e um cirurgião plástico continuam armas poderosas para nos enfeitiçar. Hoje temos como a maior estrela do planeta uma mulher, Angelina Jolie. Não é uma situação comum.

E não qualquer mulher. Uma mulher adulta, que nunca escondeu suas experimentações bissexuais, que usou drogas demais, que se cortava com navalhas, que não fala com o pai, que tem tatuagens em todo canto do corpo, que roubou o astro mais desejado do mundo da namoradinha da América. Que se transmutou em embaixadora que se mete em enrascadas políticas mundo afora como representante da ONU. Lá está ela esta semana confortando órfãos haitianos.

angel megan Megan Fox

Linda, sempre, mas cada vez menos gatinha. E pior que tudo isso, mãe de seis filhos - o que nenhuma mulher mundo afora consegue compreender, que dirá os homens. Esta é a superstar número um do planeta. E nos anos 90 era bem mais bad girl que Megan Fox.

Angelina é símbolo de sucesso e destaque permanente de revistas femininas. Megan é sua sucessora natural em gostosice - uma mulher que absolutamente não sai em nenhuma capa de revista feminina. Preferida dos homens - a Esquire, mais influente publicação masculina do mundo, coroou-a “a mulher mais quente do verão 2009” - Megan é falastrona e mais pra maluca que pra burra.

Diz coisas como “as pessoas nascem bissexuais. Tenho certeza que sou bissexual, mas não sou hipócrita. Eu nunca transaria com outra garota bissexual, porque homens são sujos e eu nunca dormiria com uma garota que transou com um homem.” Ou coisas como “jamais deixaria um filho meu assistir a um filme da Disney”.

Pô, seu primeiro filme como estrela, Garota Infernal, tem o título original tirado de uma faixa do Hole. Quer mais bad girl que isso?

Eu gostei muito do filme, também porque sacaneia essas bandinhas indie porcaria que fazem tanto sucesso hoje. Eu gosto é das bandinhas indie porcaria de vinte anos atrás. Como essa, que está na trilha de Garota Infernal. Tommy Tutone! Cantei junto quando assisti ao filme.

Toda época precisa de uma bad girl. Já foi Barbara Stanwyck ou Faye Dunaway ou Angelina Jolie. Hoje é Megan Fox. Decaímos? Preconceito.

O amigo jornalista que a entrevistou para a revista Movie garante que ao vivo não é tudo isso. Que me importa ao vivo? O que interessa é na telona do cinema, na telinha da minha casa, olhando direto pra mim.

A Megan Fox que me interessa é bocuda, briguenta, deslumbrante e ainda não amaciada pelos prazeres e afazeres do matrimônio multimilionário.

Tradicionalmente, na mitologia a mulher tem três papéis: a virgem, a puta, a mãe. Angelina escolheu seu papel angelical, Megan o dela, diabólico. Literalmente: seu próximo papel é como uma prostituta “de coração de ouro” em um faroeste, Jonah Hex, adaptação do meu querido gibi. Olha a roupinha dela como piranha do saloon. Filme do ano, cara.

Megan Fox Megan Fox

Seu futuro, prevejo, reserva uma “descoberta do verdadeiro amor”, seguida de uma iluminação repentina como embaixatriz do bem, dedicada a curar as dores do mundo. De Madalena para Maria. Felizmente, até lá, novas gatinhas provocantes aparecerão, para judiar do adolescente babão que espreita o coração de todo macho.

Veja mais:

+ O inferno é uma adolescente
+ A Vida é bela acordando ao lado de Megan Fox
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 15/02/2010 às 12:00

Dinheiro é o que não falta para o Brasil

Propaganda não falta sobre como o Brasil está crescendo, bombando e tal. Somos o B do Bric, somos o ó do borogodó, o país da Copa, das Olimpíadas e do samba no pé. Tudo beleza. Agora, aos números.

O governo do Brasil vai gastar esse ano algo por volta de R$ 170 bilhões em juros.  É 4,9% do PIB.

Vamos comparar com coisas práticas?

É cinco vezes mais do que tudo que o governo federal investiu em 2009. Tudo. É 13 vezes o valor total do Bolsa Família, R$ 13 bilhões previstos para este ano.

Talvez seja mais, chegue a R$ 190 bilhões. Veremos em um ano. Esses juros vão para quem? Para quem tem dinheiro para emprestar para o governo, ué.

Você tem dinheiro para emprestar para o governo? Imagine que você gastasse treze vezes mais em juros do que gasta para alimentar sua família. Ia repensar um monte de coisas, não? Esse nó financeiro é chave.

Se você não mexe nisso, fica dando voltas, tapando sol com a peneira, enxugando gelo. Outro dia uma política foi questionada sobre a sujeira da região que administra em São Paulo.

Ela se explicou, mas tenho só 11 garis para o bairro inteiro! É isso. Falta grana para tudo. Pra limpar bueiro, para fazer hospital, para comprar computador pra escola, pra financiar empreendedor, pra garantir educação decente, para equipar polícia, pra tudo que você imaginar (fora verba de marketing de governador, prefeito e presidente, claro).

Então nossos gestores vivem se explicando, não temos dinheiro, temos que fazer muito com pouco, o cobertor é menor que as pernas. Eu digo: mentira. Tem dinheiro suficiente para fazer tudo que o Brasil precisa.

Tem R$ 170 bilhões que estamos jogando fora. Política de alto nível é mexer em vespeiro. Enfiar as duas mãos lá, aguentar as picadas, trazer o mel. O resto é firula.

Veja os números aqui.

Veja mais:

+ O brasileiro é um povo com os pés no chão e as mãos também
+ O grande problema do Brasil é sua solução
+ Todos os blogueiros do R7

 

Publicado em 14/02/2010 às 08:00

Uma garota para o domingo de Carnaval

Minha estrela do rock favorita de todos os tempos. Todo mundo roubou dela. Madonna mais que qualquer outra. Mas ninguém chega perto.

Uma garota que peitava qualquer cara, nas ruas mais perigosas de uma Nova York que não existe mais. Quando os Ramones eram uns meninos, ela mandava no CBGB.

Sem macheza, com humor, chique e street. Se eu tivesse uma máquina do tempo, uns anos a menos e bem mais lábia do que tenho, queria voltar para 1979 e namorar Debbie Harry por um fim de semana.

Beber sangria no parque em um domingo perfeito. Sonhar é grátis.

Veja mais:

+ Notícias de música
+ Madonna chega ao Brasil para curtir o Carnaval e também pedir dinheiro para a sua fundação
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 13/02/2010 às 14:08

Um hino à bunda

Carnaval é bunda.

E bunda preta. E redonda. E vibrando. No resto do ano, o chique pode ser outras coisa. Quem se importa com chique é mulher. E gay.

Homens heterossexuais, sorry, querem saber de outra coisa. Eu conheço muitos. Não conheço um que se excite com o modelito top model.

E não conheço um que não cresça o olho para uma bela bunda. Bela assim, exuberante. Vai ver em outros lugares do mundo é diferente.

No Brasil é isso aí e não tem conversa. Cultura crioula, Gilberto Freire, sei lá.

Arroz e feijão cria belas bundas, explica Sir Mix-a-Lot. Ele fez o maior hino à bunda da história. Não é brasileiro, veja só. Mas, bem, é negão.

Quando se trata de bunda, nós machos somos todos brothers.

Veja mais:

+ Famosos no Carnaval
+ Carnaval 2010 no R7
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 12/02/2010 às 09:38

Carioca se acha

rio de janeiro Carioca se acha

Carnaval: todos os olhos se voltam para o Rio. Difícil não ficar com a vista ofuscada. O Rio é lindo demais, solar demais, brilhante demais.

Esse ano tem até comitiva de superstars gringas. Quando virem o shape das gatinhas na praia, as americanas vão querer se matar.

Tem Carnaval no Brasil inteiro, claro, e pega fogo em tudo que é canto.

Passei um na Bahia quando tinha dezenove anos, que só não se pulava entre sete e 11 da manhã. Foi o último Carnaval da minha vida, o último verão da adolescência. Cerveja e caldo de mocotó, pernilongo nos escurinhos. Que saudades.

Consciente de que vive na cidade mais maravilhosa do planeta - e não há bala perdida que mude isso - o carioca se acha. Qualquer carioca.

Carioca desdentado que quer te empurrar biscoito na rua se acha. Ainda mais pra cima de paulishta. Porque aí ainda rola uma dor de cotovelo também.

Carioca tem certeza que paulista é otário, mas sabe que se ganha mais dinheiro em SP que no Rio. Está certo nos dois casos.

Paulishta, aliás, é tão otário que permite que um rio de dinheiro gerado em SP continue indo para o resto do país - inclusive, claro, o Rio de Janeiro, sede de tudo que é estatal e paraestatal. É o imposto dos trouxas aqui que sustentam os eshpertos de lá.

Agora faço aquela defesa clássica: antes que me acusem de implicância com carioca, deixo claro que tenho alguns amigos cariocas - poucos, é verdade, e o melhor é paulistano por adoção.

Continua fanático pelo que chama de “Fluzão” e comprou um terreninho em Parati, que já é metade do caminho para uma volta ao Rio. Eles saem do Rio mas o Rio não sai deles.

Uma vez escrevi que não existia rock no Rio. Ou melhor, que não existia banda de rock que prestasse. Faz uns vinte anos. Prestei pouca atenção no rock carioca de lá para cá. Deve haver boas razões para isso.

Pelo menos uma eu sei: o rock não combina com o Rio. Rock é coisa de adolescente infeliz, raivoso, entediado; e a celebração da superação, ainda que por minutos, dos piores infernos da juventude.

Como disse Sammy Hagar: "Quando vi a maneira que as meninas gritavam para aqueles feiosos dos Beatles, decidi minha profissão".

É fácil demais ser feliz na cidade maravilhosa. É fácil demais se dar bem. É fácil demais transar. Tá o povo todo lindo, bronzeado e pelado, ou semi, o dia inteiro, na praia ou em qualquer lugar.

Por isso o Rio é o túmulo do rock (Opa! Essa vai pegar! Ninguém escreveu isso antes? Não creio!). Aliás nem show de banda estrangeira passa por lá. Não tem público que pague a conta (a não ser, claro, nestes eventos patrocinados por telefônicas e tal).

Agora, mesmo dando o devido desconto de que carioca pensa que é a azeitona da empada, eles sempre dão um jeito de passar dos limites. E os mais poderosos dão os piores exemplos.

Está aí o prefeito Eduardo Paes, que não me deixa mentir, em entrevista ao Valor Econômico: “O Rio é a principal concentração da indústria da cultura, do lazer, da criatividade, do entretenimento, da moda, do design...”

Eu tenho inveja dos cariocas, porque eles são mais relaxados, mais bonitos, mais seguros, mais felizes, e porque vivem na cidade mais sedutora do mundo. Mas não conseguiria morar lá. Porque, vou te contar, carioca se acha.

Veja mais:

+ Madonna chega ao Brasil para curtir o Carnaval e também pedir dinheiro para a sua fundação
+ Folia: Lindsay Lohan vai curtir o Carnaval carioca
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 11/02/2010 às 10:59

As vozes do blues caipira

penabrancaexavantinho 20100211 As vozes do blues caipira

Morreu Pena Branca, a alma caipira em forma preta. Xavantinho tinha ido faz dez anos. Ouvi muito, como Tonico e Tinoco, Milionário e José Rico e companhia. Inevitável, crescendo em Piracicaba. O som não era a minha.
Mas era meu.

A música caipira é o blues brasileiro, o lamento do camponês explorado.

Do branco imigrante, sim, mas muito mais do caboclo e do mulato do que pode parecer quando você vê as duplas sertanejas que fazem sucesso hoje.

Pena Branca e Xavantinho eram raridade: dupla caipira de pretos retintos, mineiros de Igarapava, paulistanos como todo mundo que veio fazer a vida aqui. As vozes eram de cortar o coração. Música caipira é melhor quando é triste pra danar.

A roça acabou. Hoje o sinhô não está mais apertando o palheiro no final do dia e vendo os colonos voltarem da colheita. O coroné virou sócio da Shell. A exploração continua forte, mas o caipira foi minguando, minguando. Não à toa, os sertanejos de hoje recusam o epíteto “caipira”.

O caminho foi de vô bronco do mato, filho metido a country e neto francamente urbanóide /cosmopolita - aí estão a Wanessa Camargo e a Sandy Leah.

O movimento passa pela alfabetização, pela descoberta de uns tantos direitos, por alguma entrada no mundo do consumo. Claro que os grotões brasileiros continuam repletos de jecas desdentados. Mas aqui em São Paulo, sobraram só os coroas.

Todo ano eu passo a festa junina em Piracicaba. Festa familiar de bairro rural, cada um leva seus salgados e docinhos. A sopa é capim canela, ardida. Pão de queijo assado na hora. Tem quadrilha, fogueira, rojão.

Toma-se muita cerveja e rola truco com roubalheira no final da noite. Tem sempre lá uma meninada que vive no campo, mas com a cabeça na cidade.

Uma turma bem esperta que não faria feio na Avenida Paulista e sabe de cor os hits de Victor & Leo, Fernando & Sorocaba, Edson & Hudson.

Pena Branca e Xavantinho não fazem nenhum sentido para essa rapaziada. Representam o exato oposto do que os meninos almejam, são o passado.

Normal. Os jovens americanos dos anos 1950 também não queriam saber do blues, do folk, do bluegrass, músicas de velho.

Foi preciso uns meninos do outro lado do oceano, na Inglaterra, para alguém valorizar Muddy Waters e tal.  Outra história sobre outra pátria.

Que também é minha. Eu sei mais de blues e rock e tudo que é cantado em inglês do que dos caipiras da minha terra. Mas que me dá uma pontada ouvir Pena Branca e Xavantinho, isso dá.

Veja mais:

+ Victor & Leo continuam a liderar parada brasileira
+ Sérgio Reis lamenta perda de Pena Branca
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 10/02/2010 às 09:28

O estranho mundo dos Jacks

“Jack” é o apelido que se dá na cadeia para estupradores.

Estou lendo um livro sobre as mulheres que se apaixonam por eles e por assassinos seriais. Se você não ficar curioso, desisto.

Faço propaganda do livro aqui e tenho três boas razões para isso.

Primeiro: me mandaram! Abri o envelope na minha mesa e lá estava! Como diz Woody Allen, showing up is 90% of success (90% do sucesso é dar as caras).

Segundo: é do Gilmar Rodrigues e o Fido Nesti! Meus colegas de revista General, 1994! Não bastasse isso, não vejo nenhum dos dois faz milênios.

O Gilmar fez uma das pautas mais lembradas da General, aquela em que ele visitava uma loja de moda para padre.

E experimentava uma batina fashion, claro. Isso anos antes do Marcelo Rossi e do Fábio de Melo.

Depois ele fez outras coisas que também merecem menção, tipo roteiro pra TV Globo, peça de teatro e coisas assim.

O Fido também é coisa fina. Tão fino que adaptou Os Lusíadas para os quadrinhos.

Você já viu ilustrações dele na Rolling Stone e Playboy. Irmão do Zed, que a gente chamava de Calvin.

Terceiro: é uma de reportagem com perfume de ficção, combinada com histórias em quadrinhos.

 Eu adoro as duas coisas e misturado, mais ainda.

Não é como o Crônicas Birmanesas do Guy de Lisle, ou o Palestina do Joe Sacco.Loucas de Amor blog O estranho mundo dos Jacks

É um monte de texto, aí uma HQ de algumas páginas, depois um monte de texto etc. E corre rápido, rápido.

Porque as histórias são muito boas.

Porque a pesquisa científica é bem feita.

Porque todo homem é encafifado com a pergunta que Freud fez e até hoje não respondemos. 

O que querem as mulheres?

Fora, claro, creme para celulite que funcione.

O livro é: Loucas de Amor: Mulheres que amam Serial Killers e Criminosos Sexuais.

E não tem em qualquer livraria. Mas você pode comprar já, aqui.

Veja mais:

+ Ame o que você faz, trabalhe muito e respeite a inteligência do próximo

+ A segunda morte de J.D. Salinger

+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 09/02/2010 às 16:57

O diabo ouve Hendrix

Uncut e Mojo são as duas melhores revistas de rock do mundo, custam uns R$18,00. Pague mais um pouquinho de frete, uns R$ 25 por mês, e você recebe uma baita aula de rock mais um CDzinho bacana, sempre coletâneas especialmente organizadas pelos editores, sempre com muito nome novo. E sempre ligado conceitualmente à matéria de capa.

Revista? Não tem tudo na net? Tem não. Não textos com essa paciência na apuração e esse capricho na edição. E, sim, certamente você encontraria todas as canções do CD na web e na faixa. Mas não seria tão educativo. Alguém com um cérebro organizou a revista, a reportagem de capa, e as faixas e sua ordem. Neste caso, sim, a ordem dos fatores altera o produto.

E se demora pra chegar da Inglaterra ao Brasil, não tem problema. Porque embora as duas revistas prestem alguma atenção nas novas bandas (de rock, folk e tal; Beyoncé e cia. não existem para essas revistas), o filé é mesmo a velharia. Que me importa se vai demorar dois meses para eu ler uma reportagem de vinte páginas sobre o Kraftwerk?

Caso: Uncut de fevereiro de 2010. A capa é sobre os últimos meses de Jimi Hendrix, morto 40 anos atrás. O CD é de bandas influenciadas por Hendrix: Black Keys, Radio Moscow, Nebula, Earthless. Finalmente ouvi as duas bandas filhotas do grupo de blues bérbere Tinariwen, Toulmast e Terakaft - agora vou fazer a rapa. E meu favorito do CD, o The Heads, tem uma faixa doidaça de 2000 (!?), Could Be, Doesn't Matter.

Você conhece os nomes acima? Agora conhece. Vá fazer seu trabalho de casa.

Ouvir estas faixas enquanto/durante/depois que você lê a reportagem de John Robinson sobre Jimi ampliou muito minha compreensão do maior guitarrista da história. Perceber que jovens tuaregues em 2010 assumem a influência de Hendrix idem.

jimiM O diabo ouve Hendrix

A microfonia explodindo do CD harmoniza com as fotos que nunca vi. Com os relatos dos últimos meses de Hendrix na sua comuna afro-riponga de Woodstock; os apertos que levava dos empresários brancos para manter o estilo e formato que fizeram seu sucesso; a preferência por músicos negros; sua crescente obsessão com a liberdade do jazz, e a frustração por não saber ler nem escrever música; os flertes com Miles Davis; a descambada para a escória da contracultura; a lambança com drogas.

Sempre pensei que era uma ótima coisa que Hendrix tenha morrido jovem, antes de queimar a fita com o jazz-rock ou o progressivo. Um dos dois destinos me parecia inevitável, assim como contrangedoras quedas posteriores para o rock de FM (vide os contemporâneos psicodélicos de sucesso, Jefferson Airplane/Starship, Grateful Dead, Cream).

Sempre pensei que o excesso de ácido tinha estragado Hendrix. Foi a "bichogrilice" e a trombada de drogas (heroína não faltava no dia a dia). Os R$ 20,00 investidos na edição me fizeram mudar de opinião. Hoje me pego curioso imaginando um Hendrix pós-setenta - qual o seu som? Quem estaria na sua banda? Com quem colaboraria? Jamais saberemos.

Ler a revista, ouvir o CD, me fez lembrar porque, quarenta anos depois, Hendrix é tão importante como sempre foi. Ouvir sua guitarra me dá vontade de fazer besteira, e besteiras que nunca fiz. Rock 'n roll é isso. O cara era endiabrado, era o filho do Vodu.

Se você gosta de rock, faça o serviço completo. Aproveita que você está na internet, saca o cartão de crédito e assina a Uncut e a Mojo, nos sites das próprias. Você vai me agradecer.

Veja mais:
+ 32 razões por que o Metallica é chato
+ Quanto mais negro melhor
+ Leia mais notícias de música no R7

Publicado em 04/02/2010 às 10:02

Quem tem medo de Tessália?

Impressionante a reação contra Tessália, a mocinha do Big Brother Brasil. Impressionante e repulsiva.

Escrotos de todos os calibres - de jornal popularesco a espertos da geração 2.0 - caíram de pau na moça, “vagabunda” etc.

Uma manchete resume bem o espírito.

tessalia meia hora3 Quem tem medo de Tessália?

Foto: Reprodução/Meia Hora

Pouco me importa o BBB. Não assisto e não recomendo. Leia aqui. Aliás, essa busca pela audiência e pela repercussão a qualquer preço me enche as pacovinas.

Mas não consigo, ninguém consegue escapar do impacto do BBB na cultura pop brazuca. Por isso, muito me importa o que essa reação à moçoila diz sobre o Brasil.

Tessália, como explicou bem o mestre Maurício Stycer, virou a Geni da internet. Todo mundo jogando bosta.

E muitos comparando com Geisy Arruda. Mas Geisy nunca teve o que dizer.

Tessália é a anti-Geisy. Geisy é uma Grazi pré-banho de loja e aula de etiqueta. Leia aqui.

montagem blog Quem tem medo de Tessália?

Tessália é dona do próprio nariz. Aliás, nariz sem cirurgia plástica, narigão com personalidade.

tessalia blog Quem tem medo de Tessália?

Não fingiu de burra.

Não gosta de apanhar, como a policial lá. Não parece estar em busca de um macho que a sustente.

Foi chegando, falando o que queria, namorando com o cara lá, sem culpa. Um pouco perigosa. Um pouco predadora. Um pouco direta demais. Atributos de homem.

É, portanto, inaceitável para o mulherio, justamente o tipo de mulher que mais causa ressentimentos na categoria.

Dor de cotovelo? Rancor? Medo de assustar os homens? Burrice? Sei lá. E, claro, realidade inaceitável para os machos, a não ser como objeto de fantasias de dominação sexual.

O homem ainda sonha com a mulher recatada da porta pra fora e vadia só pra ele. Como se fosse possível.

O macho brasileiro é muito inseguro. Tem medo de comparação.

A reação a esta menina indica que ainda, em 2010, estamos num Brasil em que a maioria dos homens têm medo das mulheres independentes - e a maioria esmagadora das mulheres, mais ainda.

A esta altura do campeonato, já devia estar claro que uma relação entre iguais é muito mais interessante.

A bunda - fetiche número um nas câmeras dos reality shows - é a preferência nacional porque é sinônimo de passividade e submissão ao sinhô.

Americano, que gosta de fartura, prefere um peitão. Na vida real, longe das câmeras, Tessália pode ser isso ou aquilo. No BBB, ela foi bem mais que um rabinho empinado.

Desconfio que a moça tem futuro.

E já que a supertrônica mulata biônica Beyoncé aterrissa no Brasil, dedico às mulheres independentes minha música favorita do Destiny's Child. Clique aqui.

Vocês podem não ser uns anjos, mas homem que é homem prefere panteras...

Veja mais:

+ Tessália foi eliminada porque o público médio é machista. E ainda acha que algumas coisas só podem ser feitas por homens

+ Tessália de volta ao Twitter?

+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 03/02/2010 às 13:50

Entorpecidos pelo luxo

Enfim uma explicação convincente de por que tem tanto rico safado.

Os pesquisadores Roy Y.J. Chua, da Harvard Business School, e Zi Zou, da London Business School, acabam de publicar um estudo sensacional.

Chama-se “The Devil Wears Prada: Effects of Exposure to Luxury Goods on Cognition and Decision Making.”

A conclusão, basicamente, é a seguinte: quem tem contato com artigos de luxo toma mais decisões em seu interesse próprio. O luxo não induz necessariamente a um comportamento maldoso com relação ao próximo - mas aumenta muito a indiferença com relação ao bem-estar de outras pessoas.

Atenção: a pesquisa indica que nem é necessário você possuir objetos de luxo (roupas caríssimas, carrões etc.). Basta VER fotos de artigos de luxo. Sério. A metodologia da pesquisa envolvia tanto contato com imagens de artigos de luxo, como associação de palavras. Sempre feita com estudantes.

Os estudantes que viam fotos de artigos de luxo mostraram uma probabilidade maior de tomar decisões egoístas - lançar um carro poluente, ou um software cheio de falhas - do que os estudantes que não viram.

Veja aqui os dados de uma pesquisa do Ibope sobre o perfil de consumo da elite brasileira.

Os pesquisadores chegam ao ponto de afirmar que, uma reunião de negócios realizada em uma sala modesta, em vez de em um escritório super chique, pode chegar a conclusões bem diferentes: “Trabalhar em um ambiente rodeado por dinheiro e luxo pode muito bem ter um efeito na cognição e na tomada de decisões.”

Parece uma conclusão meio moralista. Pode ser. Mas os pesquisadores são de duas escolas de negócios respeitadíssimas. Isso responde muito bem aquela velha questão: se o cara já está cheio da grana, por que continua roubando? Por que a empresa bilionária continua poluindo? Por que o governante usa de maneira tão nefasta os recursos públicos?

Justamente porque o figura está cheio da grana, vivendo no luxo. É um círculo vicioso, a cobra que come o próprio rabo...

Mais dados aqui.

Veja mais:

+ Quando o dinheiro dá vergonha

+ Marca brasileira lança versão de sapato de luxo francês

+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 02/02/2010 às 12:23

O custo do material e o custo espiritual

Meu amigo Henrique mudou para a Inglaterra alguns anos atrás. Na época, achei que estava louco: dois filhos no primário, uma bebezinha recém-nascida e vai se aventurar em Londres? Ele explicou: pois justamente.

Com nosso salário - ele é professor de inglês em cursinho e a mulher, de flamenco - como vamos sustentar essa molecada toda na escola, seguro saúde, dentista etc.? Em Londres, isso tudo é de graça e de qualidade. Foi e não voltou mais.

Eu não tinha filho então. Não fazia ideia de quanto custa. É uma grana preta.

O Brasil tem esse problema: tudo que é pepino é privatizado. Temos que pagar tudo e pagar o Estado também, claro. Então os vários governos enchem o cofre (e distribuem depois para os amigos, empresas gigantes etc.) e esvaziam nosso bolso.

Esta semana há que se decidir se Tomás vai fazer uns cursinhos paralelos na escola. Não basta a escola custar uma bala, tem o resto. Capoeira é bom manter.

Inglês, duas aulinhas por semana de iniciação, mais de mil reais no ano. Robótica parece sensacional... mais de mil reais no ano. E por aí vai.

Não é questão de não querer ou poder investir na educação do meu filho. O ponto é que o negócio todo é insano e ridículo. Como pode o primeiro ano primário custar a mesma coisa que uma faculdade?

E parece que não posso reclamar. A conta total de material do meu filho ficou menos de cem reais. A do melhor amigo do meu filho, que está mudando de escola, mais de oitocentos reais. Oitocentos!

Getty Images O custo do material e o custo espiritual

Uma escola que cobra esse tipo de grana de material está tão claramente batendo a carteira da família, que acho até perigoso deixar um filho estudando lá.

Pagar tão caro para seu filho estudar, quando em outros países as crianças estudam de graça e quando o Brasil tem dinheiro para garantir educação de qualidade para todos, tem um custo espiritual enorme. Dá desgosto e nojo.

Um tempo atrás, alguém propôs uma lei que achei brilhante: que todos os políticos eleitos, cargos de confiança e funcionários públicos fossem obrigados a colocar seus filhos estudando em escolas públicas. Seria a única maneira de fazer com que nossos governantes priorizassem a qualidade do ensino gratuito para todos. Sensacional!

Se nós temos bilhões para torrar em Copa do Mundo e Olimpíadas, e bilhões para emprestarmos (a fundo perdido ou a juros amigos) para grandes fazendeiros e grandes empresários,  temos dinheiro para investir em educação.

Esse é o assunto que interessa nas eleições deste ano. O resto é perfumaria.

Veja aqui os preços do material escolar em pesquisa realizada pelo Procon/SP.

Veja mais:

+ Diferença de preço do material escolar supera 200%
+ Lula pede redução de impostos sobre material escolar
+ Todos os blogueiros do R7

Publicado em 01/02/2010 às 11:53

Grammy 2010: cada ano tem sua canção

gaga elton blog Grammy 2010: cada ano tem sua canção

Dueto: Speechless e Your Song, com Elton John e Lady Gaga - Foto: AFP

Você sempre pode contar com essas entregas de prêmios para cravarem um, dois, com sorte três momentos inesquecíveis. O resto é uma chatice sem fim, claro.

Depois que inventaram YouTube e tal, não tem por que atravessar a tralha toda. A gente vai nos vídeos que todo mundo está comentando e pronto.

Mas não é igual. É como você comer uma lasanha deliciosa que você mesmo fez ou uma que você comprou congelada.

Uma coisa é ficar três horas labutando para curtir uns minutinhos. Outra é gratificação instantânea.

Dito isso, eu não vi um segundo do Grammy. Como não vejo mais Oscar. Eu via tudo que era entrega de prêmio até, sei lá, uns cinco anos atrás. Virei a chave e não vejo mais.

Veja fotos da premiação aqui.

O grande ponto nessas premiações é

a) não dar a mínima para quem ganha e

b) não dar a mínima para a breguice.

Porque o prêmio para o mais mala e o estilão Las Vegas é inevitável. Agora, tudo tem limite. Celine Dion homenageando o amor de Michael Jackson pela natureza está além da gastura. Tem que inventar uma palavra nova para isso.

Assista por sua conta e risco:

A grande vencedora foi Beyoncé. Sempre gostosa, uma big estrela, sempre melhor ao vivo. Nos clipes, por alguma razão, dança como uma epiléptica que enfiou o dedinho na tomada. Ganhou porque é linda e uma big estrela.

Veja a lista dos ganhadores dos últimos cinco anos aqui.

Halo, If I Were a Boy e a baladaria toda são terríveis. Seus segundinhos de cover de You Oughta Know sugerem que devia ir pro rock de vez, como sua grande referência, Tina Turner.

O resto, aquelas coisas, Taylor Swift, Green Day, Jay-Z, tudo previsível, um bocejão. Phoenix ganhou de rock alternativo - merece, vá lá; o que não merece continuar existindo é o segmento indie.

Mas os Black Eyed Peas ganharam e ganharam bonito. É o melhor artefato pop do novo século até agora. E este é o vídeo que é a cara de 2009. Sei porque é o favorito do meu filho, que é mais novo que o século 21.

Mas também é meu predileto e levou o Grammy do vídeo do ano.

Ah, e o momento inesquecível? Bem, cada ano tem sua trilha sonora, cada Grammy tem sua grande canção, e este ano foi... Your Song. Lady Gaga e Elton John, duas grandes damas do rock'n'roll, fizeram um dueto emocionante, engraçado, rascante.

Ninguém mais pode duvidar que Lady Gaga veio pra ficar. Estou cozinhando meus pensamentos sobre ela há meses. Depois deste dueto, vai demorar mais um tempo para concatenar minhas ideias. Estou, hmm speechless.

Veja mais:

+ Queen, Led Zeppelin e outros injustiçados do Grammy

+ Beyoncé fatura seis Grammy, mas Álbum do Ano é de Taylor Swift

+ Todos os blogueiros do R7

Ir para o Topo