Meu amigo Henrique mudou para a Inglaterra alguns anos atrás. Na época, achei que estava louco: dois filhos no primário, uma bebezinha recém-nascida e vai se aventurar em Londres? Ele explicou: pois justamente.

Com nosso salário - ele é professor de inglês em cursinho e a mulher, de flamenco - como vamos sustentar essa molecada toda na escola, seguro saúde, dentista etc.? Em Londres, isso tudo é de graça e de qualidade. Foi e não voltou mais.

Eu não tinha filho então. Não fazia ideia de quanto custa. É uma grana preta.

O Brasil tem esse problema: tudo que é pepino é privatizado. Temos que pagar tudo e pagar o Estado também, claro. Então os vários governos enchem o cofre (e distribuem depois para os amigos, empresas gigantes etc.) e esvaziam nosso bolso.

Esta semana há que se decidir se Tomás vai fazer uns cursinhos paralelos na escola. Não basta a escola custar uma bala, tem o resto. Capoeira é bom manter.

Inglês, duas aulinhas por semana de iniciação, mais de mil reais no ano. Robótica parece sensacional... mais de mil reais no ano. E por aí vai.

Não é questão de não querer ou poder investir na educação do meu filho. O ponto é que o negócio todo é insano e ridículo. Como pode o primeiro ano primário custar a mesma coisa que uma faculdade?

E parece que não posso reclamar. A conta total de material do meu filho ficou menos de cem reais. A do melhor amigo do meu filho, que está mudando de escola, mais de oitocentos reais. Oitocentos!

Getty Images O custo do material e o custo espiritual

Uma escola que cobra esse tipo de grana de material está tão claramente batendo a carteira da família, que acho até perigoso deixar um filho estudando lá.

Pagar tão caro para seu filho estudar, quando em outros países as crianças estudam de graça e quando o Brasil tem dinheiro para garantir educação de qualidade para todos, tem um custo espiritual enorme. Dá desgosto e nojo.

Um tempo atrás, alguém propôs uma lei que achei brilhante: que todos os políticos eleitos, cargos de confiança e funcionários públicos fossem obrigados a colocar seus filhos estudando em escolas públicas. Seria a única maneira de fazer com que nossos governantes priorizassem a qualidade do ensino gratuito para todos. Sensacional!

Se nós temos bilhões para torrar em Copa do Mundo e Olimpíadas, e bilhões para emprestarmos (a fundo perdido ou a juros amigos) para grandes fazendeiros e grandes empresários,  temos dinheiro para investir em educação.

Esse é o assunto que interessa nas eleições deste ano. O resto é perfumaria.

Veja aqui os preços do material escolar em pesquisa realizada pelo Procon/SP.

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