Uncut e Mojo são as duas melhores revistas de rock do mundo, custam uns R$18,00. Pague mais um pouquinho de frete, uns R$ 25 por mês, e você recebe uma baita aula de rock mais um CDzinho bacana, sempre coletâneas especialmente organizadas pelos editores, sempre com muito nome novo. E sempre ligado conceitualmente à matéria de capa.

Revista? Não tem tudo na net? Tem não. Não textos com essa paciência na apuração e esse capricho na edição. E, sim, certamente você encontraria todas as canções do CD na web e na faixa. Mas não seria tão educativo. Alguém com um cérebro organizou a revista, a reportagem de capa, e as faixas e sua ordem. Neste caso, sim, a ordem dos fatores altera o produto.

E se demora pra chegar da Inglaterra ao Brasil, não tem problema. Porque embora as duas revistas prestem alguma atenção nas novas bandas (de rock, folk e tal; Beyoncé e cia. não existem para essas revistas), o filé é mesmo a velharia. Que me importa se vai demorar dois meses para eu ler uma reportagem de vinte páginas sobre o Kraftwerk?

Caso: Uncut de fevereiro de 2010. A capa é sobre os últimos meses de Jimi Hendrix, morto 40 anos atrás. O CD é de bandas influenciadas por Hendrix: Black Keys, Radio Moscow, Nebula, Earthless. Finalmente ouvi as duas bandas filhotas do grupo de blues bérbere Tinariwen, Toulmast e Terakaft - agora vou fazer a rapa. E meu favorito do CD, o The Heads, tem uma faixa doidaça de 2000 (!?), Could Be, Doesn't Matter.

Você conhece os nomes acima? Agora conhece. Vá fazer seu trabalho de casa.

Ouvir estas faixas enquanto/durante/depois que você lê a reportagem de John Robinson sobre Jimi ampliou muito minha compreensão do maior guitarrista da história. Perceber que jovens tuaregues em 2010 assumem a influência de Hendrix idem.

jimiM O diabo ouve Hendrix

A microfonia explodindo do CD harmoniza com as fotos que nunca vi. Com os relatos dos últimos meses de Hendrix na sua comuna afro-riponga de Woodstock; os apertos que levava dos empresários brancos para manter o estilo e formato que fizeram seu sucesso; a preferência por músicos negros; sua crescente obsessão com a liberdade do jazz, e a frustração por não saber ler nem escrever música; os flertes com Miles Davis; a descambada para a escória da contracultura; a lambança com drogas.

Sempre pensei que era uma ótima coisa que Hendrix tenha morrido jovem, antes de queimar a fita com o jazz-rock ou o progressivo. Um dos dois destinos me parecia inevitável, assim como contrangedoras quedas posteriores para o rock de FM (vide os contemporâneos psicodélicos de sucesso, Jefferson Airplane/Starship, Grateful Dead, Cream).

Sempre pensei que o excesso de ácido tinha estragado Hendrix. Foi a "bichogrilice" e a trombada de drogas (heroína não faltava no dia a dia). Os R$ 20,00 investidos na edição me fizeram mudar de opinião. Hoje me pego curioso imaginando um Hendrix pós-setenta - qual o seu som? Quem estaria na sua banda? Com quem colaboraria? Jamais saberemos.

Ler a revista, ouvir o CD, me fez lembrar porque, quarenta anos depois, Hendrix é tão importante como sempre foi. Ouvir sua guitarra me dá vontade de fazer besteira, e besteiras que nunca fiz. Rock 'n roll é isso. O cara era endiabrado, era o filho do Vodu.

Se você gosta de rock, faça o serviço completo. Aproveita que você está na internet, saca o cartão de crédito e assina a Uncut e a Mojo, nos sites das próprias. Você vai me agradecer.

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