blog forasta Como contratar um jornalista, 1988

Conheço uma pá de estudantes e recém-formados em jornalismo. Tenho uma dó louca. Nossa profissão está acabando. Quer dizer, o tempo em que nossa profissão era fácil está acabando. Mais explicitamente: antes era mais fácil enrolar o leitor, o chefe, até os colegas.

Ouvir um disco / ler um livro / assistir a um jogo / e depois escrever o que achou disso, qualquer um faz e põe na net. Isso não vale mais nada.

Ter acesso a canais de informação diferentes: não vale mais nada. Todo mundo tem. O tempo em que crítico de música era um cara que trazia LPs de Londres na mala acabou.

Acesso direto a fontes: acabou. Agora é tudo intermediado / facilitado / pasteurizado pelas assessorias de imprensa.

Tem outro problema. É difícil a estudantada ter tempo e concentração para ler livrões. Querem trabalhar desde o primeiro ano de faculdade, querem ficar o dia inteiro no Facebook etc. E sem livrões não há formação cultural, não brigue comigo, não é minha culpa.

Cada vez mais, o que importa em jornalismo é, segundo meu ex-chefe Mario Cesar Carvalho, o furo. O que só você e ninguém mais tem. Ele é um repórter de primeira e sabe do que está falando.

Concordo e adiciono: às vezes o que só você e ninguém mais tem não é uma informação, mas um ponto de vista surpreendente, uma maneira de contar a história extraordinariamente sedutora ou uma argumentação arrasadora.

Nunca tenho nenhuma das três coisas. Mas nunca tenho e nunca tive medo de passar vergonha em público. Desde o primeiro dia. Desde antes do primeiro dia.

Seis de setembro de 1988: quando vi qual era o teste para entrar na Folha de S. Paulo, meu coração gelou.

Eu tinha acabado de passar por uma entrevista com não um, mas três profissionais do jornal: Carlos Eduardo Lins da Silva, Márion Strecker Gomes e Maurício Stycer. Secretário de redação, editora e editor-assistente da Ilustrada.

Eu vestia jaqueta de couro, botas e tinha o cabelo nos ombros. Mr. Rock'n'Roll, assustadaço, blefando como louco, tentando ser contratado para o emprego dos seus sonhos desde os catorze anos.

O teste era algo assim, parafraseio: “Escreva um texto de duas laudas sobre quais são os principais defeitos da Ilustrada e como o seu trabalho pode ajudar a melhorar o caderno.”

Para ser lido pela responsável pela Ilustrada! Pensei, tô frito. Mas sentei lá e batuquei as quarenta linhas, em máquina de escrever, shit, e tínhamos uma hora para completar a missão. A única lembrança é ter escrito as palavras “Acid House”.

Deve ter saído uma porcaria indizível, mas os outros devem ter feito porcarias piores, porque a Folha me deu a chance de cobrir férias. Comecei na profissão.

Nos últimos 22 anos trabalhei pouco em grandes redações e muito no mundo, hmm, independente. Tive vários espasmos empreendedores, fundei editoras, lancei revistas, livros, quadrinhos, sites etc.

Algo sobreviveu, a maioria não, e boa parte deixou boas lembranças. Pensei muitas vezes “o que teria acontecido se”, caminho certo para a loucura.

Com todos os acidentes de percurso previsíveis, e alguns não, nunca me arrependi de ter me transformado em jornalista - simplesmente porque não consigo me imaginar fazendo algo diferente.

E principalmente não me arrependo de ter criado essa profissão específica para minhas medidas - mistura de jornalista, editor, lançador, animador de torcida, marketeiro e sei lá mais quantas coisas ruins. Mistura que vive mudando, conforme mudam o mundo e eu.

Como todo mundo que brinca nas onze, sou de ruim a razoável em todas e bom mesmo em nenhuma. Nunca me levei a sério como jornalista. Primeiro porque nunca fui um bom repórter, e reportagem é o coração do negócio.

Segundo porque não tenho o capricho de ourives que um editor de primeira precisa ter. Se você não é bom repórter nem bom editor, é o quê?

Por isso fico um tanto encabulado de ensinar jornalistas iniciantes. Mas tenho janela, cabelos brancos e as cicatrizes impressionam. Agora, além de enrolar o leitor, também enrolo jovens colegas. Trabalho sujo, mas...

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