Publicado em 12/03/2010 às 11:24

Glauco

 

Glauco era uma coisa nas tiras, outra coisa fora delas. Era gentil, gentil.

Piracicaba, 1982: eu com dezesseis anos fui pedir um autógrafo para Glauco, não tão famoso ainda, que visitava meu colégio. Ele pegou a folha de papel e fez um desenho todo bacana, brincando com meu apelido.

Podia ter rabiscado seu nome. Se deu ao trabalho de fazer uma coisa que eu jamais teria coragem de jogar fora, perder, esquecer. Enquadrei. Estou olhando para o desenho nesse momento.

Trombei com Glauco na Folha depois, quando trabalhávamos os dois lá. Ele não lembrava de mim, claro. Eu lembrava muito dele.

Meus papos com ele - assim como com Angeli e Laerte - sempre foram curtos. Eles eram famosos e importantes - pelo menos pra mim - quando eu era um moleque começando a ler jornal, Folhetim, Pasquim.

Nunca consegui tratar nenhum dos três amigos como um cara qualquer.

Parei de ler jornal. Desconectei dos três. De Glauco, só soube anos atrás de sua ligação forte com a Igreja do Santo Daime, surpreendente pelo conteúdo esporrento e esparramado de suas tiras, nem tanto para quem o conheceu.

Glauco só quis fazer a gente rir. Não há vocação mais útil. Foi assassinado a troco de nada, dentro de casa, na frente de mulher e filhos - e seu filho Raoni, 25 anos, junto.

Me disseram que o Daime fez muito bem para ele. Espero que a religião seja um conforto para sua família, nestes dias. Diferente de mim, Glauco acreditava na vida após a morte.

Espero que ele estivesse certo e eu, errado.  Espero que Glauco e Raoni estejam bem em algum lugar, longe desta estupidez.

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