O Google digitalizou todas as edições da Spin, a segunda revista mais importante da minha vida. Ela apareceu e tornou a Rolling Stone obsoleta instantaneamente - era mais punk, mais black, mais moleca, menos baba-ovo dos dinossauros do rock. Uma herdeira digna da revista mais importante da minha vida, a Heavy Metal.
A Spin está lá digitalizada, do início - julho de 1985 a outubro de 2009. Acompanhei de perto vários anos. Hoje compro anualmente. Por acaso, comprei a mais recente, com Courtney Love na capa, e “onde estão eles” - não resisto a essas pautas.
A primeira que comprei foi a de maio de 1986, Charlie Sexton na capa, bonito para caramba. Essa aqui:

Você não pode ter noção do que era, com 20 anos de idade, pegar uma revista que tinha quadrinhos (Frank Miller), comediantes radicais (Sam Kinison), stand-ups politizados (Eric Bogosian), Glenn O'Brien explicando os Stones, uma folk singer surfista e lésbica (Phranc), as piores letras de canções punk de todos os tempos, o diretor Julian Temple falando de Absolute Beginners, Zarkons, Elvis Costello, Prince, Big Black, Diamanda Galas, uma baita reportagem sobre violência urbana... e uma entrevista com o Dr. Hunter S. Thompson.
Ler esta edição da Spin foi uma daquelas experiências que mudam a sua vida. Li muitas depois. Aprendi muito. Carreguei algo, muito da Spin para meus primeiros empregos - na Folha, na Bizz - e para a General, revista em que fui um dos fundadores e, vá lá, pivô inicial. Eu podia ficar escrevendo aqui um ano sobre a Spin e caras que descobri lá e caras que escreviam lá.
Ou sobre Bob Guccione Jr., fundador da Spin, filho do fundador da Penthouse. Brigavam como, hmm, pai e filho. Ele começou a revista com um empréstimo do pai, e perdia rios de dinheiro. Bob pai foi lá e fechou a revista. Bob filho arrumou uma grana e reabriu no mês seguinte. Bob era o cara, e a Spin teve sua cara - e suas idiossincrasias - até 1997, quando vendeu o título. Depois lançou a Gear, comprou a Discover, perdeu, e sei lá o que faz hoje.
Bob era um personagem - como Jann Wenner na Rolling Stone, Hugh Hefner na Playboy. Arrumava brigas a torto e a direito. Axl Rose o chamou para a briga em Get In The Ring. Tinha fama de gay e de pegar a mulherada. Duas namoradas famosas: a hiperdireitista Ann Coulter e Candace "Sex & The City" Bushnell, a Carrie original.
Tá velho, mas até que tá segurando. E continua bem acompanhado.

Nestes dias de internet - que são muito melhores que os daquela época, acredite - toda informação do mundo está ao nosso alcance. Um resultado: bombas mentais de efeito concentrado deram lugar a traques.
A audição repetida, valorizada, focada de um álbum que custou caro e que você levou meses para conseguir comprar, é uma experiência completamente diferente de ver um videozinho no YouTube ou baixar 1.000 canções em cinco minutos.
Vale para revistas. Ninguém no século 21 atribuirá a importância que a gente atribuía a uma mísera edição de uma revista, a um livro que você releu cinco vezes, a um gibi amarelado. Perdemos muito. Ganhamos mais. A vida é assim. Hunter naquela Spin: “a garotada olha para mim como se eu fosse de outro planeta.”
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