A queda do avião que matou 89 integrantes da elite política, militar e cultural polonesa causou consternação global - e, vamos falar sério, inveja. Se livrar de quase 100 políticos e bacanas de uma vez só? Teve amigo meu zicando o AeroLula, outro pedindo terremoto chinês em Brasília etc.
Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Tancredo Neves podia ser o protótipo do político mineiro pão com molho, apaziguador, conservador - tudo que eu com 20 anos desprezava em política. Mas quando ele morreu e Sarney assumiu, percebi que sempre dá para piorar, e frequentemente piora.
Se cai um avião com o presidente do país (ou primeiro-ministro), principais ministros e deputados, presidente do Banco Central, quem assume o controle? O baixo clero, os caras que estavam fazendo tudo para chegar lá e não chegavam. Perigo. É a velha piada russa: por mais que ele seja intragável, reze pela saúde do czar, porque seu filho será pior. Podia ser pior: a democracia polonesa segue intocada, o que no contexto é lucro e dos bons. Realismo, bah, que chatice miserável amadurecer.
A ironia, se é que dá pra chamar assim, é que eles caíram em um avião russo, um Tupolev, símbolo do poder soviético; a caminho da homenagem aos 70 anos do pior massacre de poloneses por soviéticos, em Katyn.
Foram 22 mil poloneses executados. Requintes de perversidade do acaso. A foto de Putin na homenagem aos mortos falou muito.
O jornalista Adam Michnik - preso várias vezes durante o regime comunista na Polônia - colocou de maneira muito eloquente o que aprendeu em décadas enfrentando a opressão política, do totalitarismo stalinista à bandalheira democrática que tão bem conhecemos:
“Qualquer um que sofreu uma humilhação quer vingança. Conheço as mentiras. Vi gente sendo assassinada. Mas também sei que o revanchismo nunca acaba. Minha obsessão é que a Polônia deve ter uma revolução que não pareça com a Francesa ou a Russa, mas com a Americana. Uma revolução não contra algo, mas a favor de algo. Uma revolução por uma constituição, não por um paraíso. Uma revolução antiutópica. Porque utopias levam à guilhotina e ao gulag.”
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