
Lady Gaga foi o maior sucesso de 2009 e arrisca repetir o feito em 2010. Ninguém causou mais buchicho. Seus vídeos são vistos zilhões de vezes na internet. Ela vendeu 15,3 milhões de canções, versão digital. No MySpace, suas músicas foram repetidas mais de 321 milhões de vezes. Ela é elogiada por ser superfashion, superousada, superup-to-date com as mídias digitais e não sei mais o que tem.
Sem entrar no mérito da “qualidade musical” - o que isso tem a ver com pop? Nada - tem uma coisa muito errada na percepção geral sobre a moça. Ela não é produto do louco mundo digital, não é a primeira super megastar da nova era. Ela é um dos mais bem - acabados artefatos da velha indústria fonográfica - e uma chance para o futuro. Ela é a versão ocidental de um idoru - os megapopstars jovens japoneses, fabricados e superproduzidos, com sucesso que queima como Sol e despenca como estrela cadente.
Depois de alguns anos em que mandavam e desmandavam, os músicos voltaram a ser funcionários da gravadora, como nos idos tempos da Motown. Só que com megamarketing do século 21. Stefani Germanotta tem um contrato 360 graus com sua gravadora, a Interscope (via o selo Kon Live, de Akon). Isso significa que a gravadora recebe dinheiro em cada coisinha que ela faz, não só as canções.
A Interscope recebe uma parte da receita dos shows, dos patrocínios (da indústria de cosméticos e todos os outros patrocinadores da moça). Mais que isso: a Interscope vai atrás de desenvolver negócios para a marca “Lady Gaga”.
Com um contrato como esse na mão, naturalmente a gravadora vem investindo muito em Lady Gaga - verba de marketing mesmo, à moda antiga; grandes orçamentos para roupas, para shows rocambolescos, para videoclipes gongóricos.
Os investimentos começam na música, claro. Já os primeiros hits de Gaga, Just Dance e Poker Face, foram coescritos e coproduzidos pela cantora com o sueco-marroquino RedOne - é, mais um desses gênios escandinavos do pop pegajoso. RedOne, chapa de Stefani, tem um currículo cheio de sucessos.
Compôs o tema original da copa da Alemanha, Bamboo. Viu Shakira e Wyclef Jean cantando Hips Don't Lie no final da copa da Alemanha? Produção de RedOne. Entre produção e composição, RedOne trabalhou nos últimos anos com Robyn, Menudo, The Cheetah Girls, New Kids on the Block, Sean Kingston, Adam Lambert, Enrique Iglesias e (claro) Akon. Estava contratado para trabalhar com Michael Jackson.

E todas essas roupas muito loucas? E todo esse verniz artístico? Caia quem quiser. Stefani é uma italianinha moreninha bochechuda de New Jersey, estudante dedicada e bem caretinha. Aquela coisa loira esquálida sigue-sigue-sputnik é uma construção, claro. Mas é mais que isso. Assista aqui.
O ponto é que muita gente podia ser Lady Gaga. Stefani certamente tem suas qualidades. Mas com um contrato 360, um investimento deste tamanho e o novo rei do pop escrevendo e produzindo hits certos, qualquer moça com uma boa voz, um corpinho OK e cara de pau podia ser Lady Gaga.
Ela cita Rilke e Bowie? Dá boas entrevistas? Se refere a si mesma na terceira pessoa? Adula os gays? Anda com papas fashion? Arrota conexões underground? Quem viu a transformação de outra carcamaninha ambiciosa em superestrela, 25 anos atrás, pode prever cada passo de Gaga.
Que a ascenção de Lady Gaga tornaria Madonna instaneamente obsoleta era inevitável. Que Gaga seja neste momento - pelo menos em termos comerciais - a cantora mais popular do mundo, enquanto Stefani passaria completamente desapercebida em um ponto de ônibus da Avenida Paulista, explica muito bem 2010.
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