Charles Lutwige Dodgson era o mais velho de onze irmãos. Criança, escrevia histórias fantásticas e montava peças com marionetes. Era alto, delgado e gago. Gostava de ler e detestava esportes. Se tornou órfão de mãe aos 19 anos. Tinha uma coleção extensa de literatura fantástica, incluindo as obras de Edgar Allan Poe e Frankenstein. Seus professores o elogiavam pela inteligência.
Aos 24 anos, passou a lecionar em Oxford. Escreveu 11 livros sobre matemática e lógica durante os muitos anos em que ensinou lá. Quando começou, seu chefe era Henry Liddell, pai de uma família grande e de três filhas na mesma faixa de idade, Lorina, Alice e Edith. A do meio, Alice, tinha quatro anos quando Dodgson a conheceu, no jardim da casa de seu pai.
Dogdson fotografou pintores como Dante Gabriel Rossetti e John Everett Millais, e também o poeta Alfred Tennyson, e o cientista Michael Faraday. É considerado um dos mais importantes retratistas da época vitoriana. Sabe-se que fez mais de 3.000 retratos em 24 anos, dos quais menos de mil chegaram a nossos dias. Fez fotos de muitas crianças, suas "little friends". Como Alice Liddell.
Dodgson era amigo de muitas crianças, e muitas fotografou, inclusive nuas. Não estava sozinho. Imagens de crianças vestidas e despidas eram parte da cultura popular corrente - eram consideradas símbolos máximos de inocência. Crianças nuas ilustravam cartões postais e pinturas para as salas das famílias. A rainha Victoria e o Príncipe Albert encomendaram muitos estudos fotográficos de crianças nuas. Dogdson manteve a amizade com muitas destas crianças depois que elas cresceram.

Alice Liddell, em fotografia de Charles Dogdson
Dodgson manteve diários por toda a sua vida. Dos 13 volumes, quatro e mais sete páginas desapareceram. Os quatro volumes cobrem de 1853 a 1863, entre os 22 e 32 anos de Dodgson. Em 4 de julho de 1862, reza a lenda que Dodgson e mais um amigo, Robinson Duckworth, levou as três irmãs Liddell para um passeio de barco pelo rio Isis, como é conhecido o Tâmisa, na região de Oxford. Durante o passeio, ele teria inventado aventuras fantásticas vividas por Alice Liddell, com as duas irmãs relegadas a papéis coadjuvantes. Alice teria pedido depois para que ele escrevesse e ilustrasse aquela aventura.
Em 1863, a senhora Liddell aparentemente proibiu Dodgson de se encontrar com as filhas. Fez Alice queimar todas as cartas que ele enviou. A página relativa a este assunto, no diário de Dogdson, desapareceu. Dogdson era pedófilo? Há relatos de que seus alunos caçoavam de seu jeito afeminado. Sabe-se que ele foi muito próximo de Ellen Terry, uma das principais atrizes do teatro inglês no período. Seus diários contam de encontros com o que ele chamava de "child-friends" - algumas com vinte anos ou mais.
Conjectura-se que tenha tido um caso com a mãe de Alice Liddell; ou com a governanta das meninas; ou que tenha pedido a mão de uma delas em casamento. Não era incomum na época para os homens vitorianos arranjarem casamentos com noivas bem mais jovens, que se consumavam após a maioridade. Existem muitas teorias sobre o que teria acontecido neste período. E nenhum fato.

Autumn Leaves, por Millais
Dodgson era próximo de Dante Gabriel Rossetti e John Everett Millais, integrantes da Irmandade Pré-Rafaelita, o grupo de artistas plásticos que venerava a naturalidade da pintura pré-renascentista, e extremamente influente na arte que veio logo a seguir - inclusive nas artes gráficas e decorativas e na Art Nouveau. Os Pré-Rafaelitas são o último movimento antes da arte moderna, ou o primeiro grupo de vanguarda - você escolhe.
São as irmãs Liddell? Não. Mas poderiam ser. A primeiríssima versão de Alice foi manuscrita e ilustrada em estilo Pré-Rafaelita por Dodgson - e enviada por correio para Alice. Ela recebeu o livro dias antes do Natal de 1864. Tinha dez anos. Ele continuaria enviando livros para Alice - Alice in Wonderland em 1865, depois Through the Looking Glass and What Alice Found There, em 1871.
John Tenniel levou dois anos para ilustrar o primeiro livro e três o segundo - depois deste, nunca mais ilustrou nenhum. Dodgson não descreve muito dos personagens. Nossa imagem deles vêm do trabalho de Tenniel. O Chapeleiro Louco, por exemplo, nunca foi descrito no livro. Quando o segundo livro foi lançado, Alice já tinha 20 anos e Dodgson 40. Os livros são assinados com um pseudônimo, baseado na latinização de seu nome. Lutwige vira Lucius e depois Lewis; Charles vira Carolus e depois, Carroll.
Pouco antes, em 1870, sete anos após os Liddell terem se afastado de Dodgson, a senhora Liddell apareceu na casa dele, com Alice e Lorina. Pediu que ele as fotografasse. É a última vez. Alice não parece feliz.

Alice
Em 1885, escreveu para Alice pedindo o manuscrito original emprestado, para que ele fizesse uma edição fac-símile. Os lucros iriam para hospitais infantis. Ela aceitou. Ele enviou para ela um exemplar encadernado em couro branco. Em 1891, Alice visitou Dodgson pela última vez em seu apartamento em Oxford. Não há registro do que foi conversado. As aventuras da Alice ficcional viverão para sempre - influenciando a literatura infantil e adulta, as obras dos surrealistas, os Beatles, e as superproduções 3D do século 21.
Dodgson morreu de pneumonia aos 65 anos. Alice, 46, mandou flores para o funeral. Os últimos versos do seu último poema publicado:
I'd give all the wealth that years have piled
The slow result of Life's decay
To be once more a little child
For one bright summer day.

Lewis Carroll
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