JambocksPoster Por que não temos bons roteiristas de quadrinhos no Brasil 
O quadrinho brasileiro está repleto de ilustradores talentosos e é um deserto de roteiristas competentes. Nem falo de criadores de primeiro time. Faz muita falta gente com noção do arroz com feijão, do artesanato dos quadrinhos, da gramática que faz o leitor querer virar a página.

Não é exclusividade do quadrinho. O cinema brasileiro funciona igual.

Roteiro? Aqui é só um guia básico para as improvisações do diretor e do elenco, durante as filmagens. Alfred Hitchcock não filmava sem storyboard. Nossos diretores se julgam melhores que Hitch - com as exceções honrosas. Existem boas explicações.

Primeira: nos quadrinhos, o Brasil segue a tradição do cartum, com uma pessoa só assinando texto e arte. Temos uma renca de ótimos cartunistas, chargistas, ilustradores. Nunca tivemos uma verdadeira indústria de HQ brasileira, que exigisse a divisão de funções e o ritmo industrial de produção. Quando tivemos, criamos roteiristas eficientes - seja na Abril dos anos 70 e até 80, seja nos estúdios de Maurício de Souza.

Segunda boa explicação: publicamos poucos quadrinhos brasileiros. Os roteiristas têm poucas chances de exercer sua vocação, enquanto os ilustradores precisam continuar trabalhando sem parar, seja em ilustração comercial, editorial ou onde seja. É como no rock: se você toca pouco, não aprende a fazer show.

Terceira boa explicação: como publicamos poucos quadrinhos brasileiros, temos uma imprensa especializada condescendente. Qualquer trabalho assinado por um brasileiro merece aplausos, no mínimo por ter conseguido existir. Junte isso ao estilo natural do brasileiro, de evitar conflitos a qualquer custo, e estamos bem arrumados.

Finalmente, de uns anos para cá, a principal fonte de financiamento do quadrinho nacional tem sido o dinheiro público. Ou via editais e leis de incentivo, ou pela compra de quadrinhos educacionais / paradidáticos, quase sempre adaptações toscas da nossa história ou literatura.

Há lugar para o financiamento público da cultura - em outros formatos, mais justos e estimulantes. Não vou discutir isso agora. Não é o ponto aqui.

Toda esta volta é para contextualizar os textos sobre quadrinhos nacionais que serão publicados neste blog. Quem acompanha o mercado de quadrinhos, sabe o quanto escrevi sobre HQ, e sabe da minha história com a Conrad e a Pixel. Quem acompanha meu trabalho como jornalista, sabe que abomino a complacência (a não ser comigo mesmo, como todo mundo...).

Como sempre, só posso julgar pelo meu juízo, e sugiro que você julgue pelo seu.

Toda esta volta é para contextualizar o que tenho para dizer sobre Jambocks, álbum publicado pela Zarabatana Books. Quem não quer elogiar uma HQ sobre a participação da aviação brasileira na Segunda Guerra Mundial, com personagens calcados na realidade e coadjuvantes como Getúlio Vargas? Mas passe pelo tema, pela bonita apresentação gráfica, pela caprichada (embora loucamente irregular) arte pintada estilo “Marvels” de Felipe Massafera, e o que temos é uma trama que não agarra, estrelada por personagens de papel, os primos cariocas Max e Cláudio.

Jambocks: Prelúdio para a Guerra é o primeiro de planejados quatro volumes. O segundo lidará com o Treinamento. Quem aguenta tanto prólogo?

Como o projeto foi apoiado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo - ufa - provavelmente não precisa se pagar, o que é boa notícia para os autores e para a editora. Espero que os três volumes restantes tenham igualmente financiamento garantido. A premissa é boa. A realização, média. Médio é pouco para R$ 30,00 por 32 páginas.

A bibliografia citada pelo criador Celso Menezes inclui alguns indispensáveis gibis de guerra das últimas décadas: Ás Inimigo de George Pratt, o Sargento Rock de Joe Kubert, as Histórias de Guerra de Garth Ennis. Não é que Celso não saiba como se faz; ele não sabe fazer. Ainda.

Nos quadrinhos frequentemente as séries melhoram com o tempo. Compro tudo, leio tudo, torço pela evolução de Jambocks - sabendo que as chances estão sempre contra os roteiristas brasileiros de quadrinhos.

Quem sabe no futuro a cobra fume? 

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